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A fé vem pelo ouvir

TRAFICANTES EVANGÉLICOS

TRAFICANTES EVANGÉLICOS

TRAFICANTES EVANGÉLICOS

Rodrigo Bibo e André Reinke conversam com Viviane Costa sobre os novos bandidos de Deus. Traficantes evangélicos é resultado de uma pesquisa que investiga o fenômeno da associação entre traficantes de drogas e a fé evangélica nas comunidades do Rio de Janeiro. Esse fenômeno narcorreligioso carioca instiga perguntas provocantes, como: é possível ser traficante e evangélico? É possível dizer quem são os traficantes evangélicos? Existe um perfil evangélico comum entre os que se autodeclaram cristãos?

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Legendas automáticas:

E aí, aí, alô, alô, alô, alô, um, dois,
um, dois, vocês tão me ouvindo? E aí,
pessoal, sejam bem-vindos a mais uma
live aqui no canal do YouTube do Bibo
Talk. Tivemos uma live na segunda-feira,
onde eu não estava medicado.
Se você ver aquela live, você vai
perceber que eu estava muito fora do
tom, mas foi engraçado demais, né,
gente? Meu Deus, agora tô com o
remedinho tomado, na miligrama certa.
E tá tudo certo. Galera, sejam muito
bem-vindos a essa live. Já vai me
dizendo aí de que cidade você tá
falando, se meu áudio tá bom, se a minha
imagem tá boa, beleza? Uma live hoje com
um tema novo pra mim e, ó, eu tenho
perguntas também. Já quero dizer o
seguinte, vai assistindo a live aqui,
deixa um pouquinho os comentários de
lado, que senão vira um assunto paralelo
nos comentários.
Depois a gente vai abrir espaço para
perguntas, beleza? E a nossa convidada,
Viviane Costa, vai responder algumas
perguntas que vocês fizerem aí nos
comentários, mas deixa o papo rolar
primeiro, beleza? E temos André Raiker
aqui também, que vai nos ajudar.
Salvador presente, Rio de Janeiro
presente, Curitiba, áudio bom, obrigado.
Bruna, boa tarde, Bibo, sou de Itaguaí,
Rio de Janeiro. Muito legal, muito
obrigado. Vai dizendo aí, gente, vai
dando um like também aí, ó, 59 pessoas
assistindo, 69 agora.
Sai do chat aqui, dá um likezinho, pega
o RL, joga nas redes sociais, convida o
pessoal pra vir pra essa live aqui. A
live vai demorar aí aproximadamente 40
minutos, uma hora, um papo aqui pra
gente, um papo introdutório sobre esse
tema aí que é teológico, é
antropológico, é sociológico, religioso,
enfim, um tema bem interessante. Ô,
louco, Rio de Janeiro dominando aí,
Porto Velho, Viçosa, Minas Gerais.
Felipe, manda pra cá um doce de leite,
pelo amor de Deus. Ah,
de Douglas, a tua pergunta é boa, a
gente faz no final, mas eu não vou
lembrar. Gente, não é que assim, ó,
falando bem sério, na hora da pergunta,
se você quiser fazer um super chat, faz
porque daí a a pergunta se brilha aqui
pra mim, ela aparece, tá bom? Você pode
dar um real de super chat, mas isso
ajuda. Volta Redonda, ah, boa tarde, sou
de São Paulo. Você é muito top.
Obrigado, Carina, porque você não me
conhece. Quem me conhece não acha tão
top assim. Fortaleza, olha aí, Sara
Cavalcante, muito bem. Muito bem. São
Bento do Sul, caramba, Rodrigo, São
Bento do Sul aqui de Santa Catarina? Meu
Deus, que que é isso? Alguém de São
Bento do Sul, o que que é isso? Boston.
Ô, MA é Massachusetts? Ô, Massa, eu
queria morar em Massachusetts.
Eu não sei falar Connecticut, Connect,
Connect, Massachusetts eu até consigo,
agora Connecticut eu não consigo falar.
Muito bem, Vilma, Vilma Boston, muito
legal. Ah, é isso aí, gente. Muito
obrigado. Vai dizendo aí, Mossoró, Rio
Grande do Norte, São Paulo, São Paulo,
Uberlândia, Minas Gerais, a terra onde
não tem taxista. Vamos lá, Piritu,
Piratuba.
Americana, olha aí, muito bom. Vou
chamar aqui o André Reinke, ele tá
comigo nessa empreitada aqui. Seja
bem-vindo, André Reinke, aqui pra nossa
entrevista. E aí, tudo certo?
Prazer. Tudo bom?
É nós, tamo junto, misturado. Hoje, né,
inclusive essa live aqui foi uma das
propostas do André aqui. Ele leu o
livro, falou assim: "Mano, a gente
precisa falar sobre isso". Eu falei:
"Beleza, bora. Você tem contato com a
autora?" "Tenho". Então, simbora falar
sobre traficantes evangélicos. Quem são
e a quem servem os novos bandidos de
Deus. Olha aqui, ó.
Livro da Viviane Costa, tá? Uma parceria
da God Books com a Thomas Nelson Brasil.
Gostei muito dessa capa do Rafael Brum,
ele é um dos capistas oficiais da
Thomas. Eu acho que é dele, né? Rafael
Brum. Olha aí, ó.
Tá aí, gente. Eu tenho, eu tenho
autografado pela autora aqui, ó. Caraca,
mano, aí sim, hein? Aí no no no mercado,
no mercado paralelo vale mais. Ela foi
no meu lançamento lá no Rio de Janeiro,
do lançamento.
mano. Sinal que de ti ela gosta. Eu tive
no Rio, acho que ela não foi, pelo menos
eu não vi, né? Feio, vou perguntar pra
ela pessoalmente aí depois. Mas sem
gente, recebam com muitos likes. Ah, é,
e aí Bibo, do BTD de Floripa, vou estar,
dá aí um oi para você, beleza Gaba, é
nós no BTD. Gente, recebam com muitos
likes, curtidas e aplausos no chat.
Viviane Costa, seja bem-vinda, querida.
Olá, gente. Tô por aqui, eu não tive na
sexta-feira, mas eu assisti você
completamente descontrolado. Na
conversa, agitadíssimo mais do que o
normal.
Agitadíssimo.
Cara, eu, é assim, é que eu, eu, eu
passei, eu tava numa semana tão, tão
turbulenta, vindo de uma semana, que eu
acho que eu, eu, eu, eu extravasei. Eu,
eu, sei lá, acho que daí eu, eu
economizei na terapia, mas gente, eu não
tomei Red Bull, eu tomei um cafezinho
só, eu tava a base de água e bolo de
milho, acredita? Enfim, acho que eu não
te vi por isso, eu tava trabalhando,
tava atendendo no consultório.
Aliás, vou falar isso,
você é pastora, pesquisadora,
psicoterapeuta, meu Deus, é mãe? Eu ouvi
você falar minha filha trouxe aqui. Duas
filhas, uma de 18 e uma que faz 15
agora.
Caraca, uma começou muito cedo, outra
tem, outra tá na religião do Tom Cruise.
Eu tenho 40 anos.
Então. Eu tenho 40, olha a diferença,
caraca. Ela é da cientologia. É, tá na,
é da religião do Tom Cruise, cara, que
não pode, tá louco. Parabéns, Bibo,
legal. Então tem essas multitarefas aí.
Vivi, seja bem-vinda então aqui
ao nosso, ao nosso papo, obrigado por
ter aceito o convite. E gente, olha só,
é, é um tema bem difícil, eu tô até um
pouco nervoso, que eu não quero errar
nenhuma palavra, porque eu tenho medo,
né? Eu tava no Rio com medo, eu tava
brincando, gente, me leva logo para
Joinville, pelo amor de Deus.
Que eu ainda vou fazer uma live sobre
esse tema. Mas Vivi, vamos lá,
traficantes evangélicos.
Primeiro eu quero saber
por que essa pesquisa, por que, como é
que foi fazer essa pesquisa, por que
esse tema, tá? O que que te levou a
escrever, não sei se foi um trabalho
acadêmico seu e que daí virou o livro,
ou não, foi uma curiosidade que foi
ganhando corpo e você foi escrevendo?
Por que esse tema, né, sobre traficantes
evangélicos? Que coisa é essa?
Então, minha mãe me faz essa pergunta
toda semana, né? Minha filha, tanta
coisa.
é preocupada.
Tanta coisa para você fazer nessa vida,
né? A menina boa, inteligente, uma
mulher de Deus, vai escrever sobre esse
assunto, traficante evangélico,
assistindo as reportagens do Rio de
Janeiro.
Mas você sabe que eu não ia pesquisar
isso, assim, não tinha essa intenção.
Eu fiz faculdade de teologia na Facade,
na faculdade da Assembleia de Deus aqui
no Rio.
E quando eu terminei, eu estava num
processo de muitas mudanças na minha
vida pessoal.
E comecei a dar aula em algumas igrejas,
eu criei um instituto de teologia,
inclusive aqui, né, nessa conversa que a
gente tá conversando num num canal
absurdo de de formação teológica, de
pensamento teológico. Eu tava fazendo
isso em 2015, 2016, presencial nas
favelas do Rio de Janeiro. Então, no
Vidigal, no Rio das Pedras, é, na zona
norte do Rio, onde tem algumas favelas,
inclusive Parada de Lucas e Cidade Alta,
que são essas onde eu pesquiso agora.
Mas o meu meu objetivo ali era pensar
teologia de forma interdenominacional,
principalmente igrejas pentecostais ou
pentecostalizadas.
E aí, nessas entradas e saídas de
território, comecei a ver esse
território mudando. Então, eu pregava
nessas igrejas, dava aula, ainda ainda
dou aula, ainda prego, mas assim, nesse
período de forma muito mais frequente.
E aí eu comecei a ver o cenário dessas
favelas mudando muito rapidamente para
para quem tava vendo de fora, né, no
caso, que não tava muito acostumado
ainda, porque eu venho de Nova Iguaçu.
Nova Iguaçu, a gente tá muito acostumado
com dominação de milicianos. Então, é
primeiro com como grupo de extermínio,
depois como aqueles que vão tomando
conta do território com gato net, né,
que é uma internet paralela, o o o o gás
de botijão de gás, né, gás de cozinha,
é, segurança dos lugares, eles cobram
uma taxa de segurança do comércio local.
Então, isso daí para mim já estava muito
tranquilo. Mas essa dinâmica do tráfico
Tranquilo assim, é também é uma coisinha
é leve, é leve, coisinha.
Eu curtindo, eu curtindo.
Eu estava eu já estava muito acostumada
com isso, aquela coisa da minha mãe
dizer: "Olha, entra cedo em casa porque
estão dizendo que hoje aí vai cair um em
cinco". E aí a gente entrava cedo e e 10
horas da noite a gente ouvia barulho de
cavalo passando.
E aquelas cavalgadas assim, a gente
sabia que os milicianos estavam andando
na rua e realmente no dia seguinte tinha
quatro, cinco num valão e aí todo mundo
dizia: "Morreu porque fez besteira,
morreu porque estava fazendo coisa
errada".
Então, essa dinâmica da da milícia já eu
eu já estava acostumada de certa forma
desde 10, 12 anos de idade, mas quando
chego na favela e tenho esse contato com
com a dinâmica do tráfico de drogas que
até então era muito diferente, agora ela
começa a se misturar um pouco, mas até
então era muito diferente, eh aquelas
imagens todas de São Jorge, imagens de
Nossa Senhora, imagens eh eh de São
Jerônimo, Santa Anastácia, muitas
imagens na na na favela, elas começam a
ser substituídas. Em alguns lugares elas
já tinham sido cobertas, já tinham
outras imagens, eh e em outras eu fui
vendo elas sendo substituídas.
E nessa observação eu percebo que num
determinado momento eu vejo a frase
Jesus é o dono do lugar.
Eita!
Então assim, Jesus é o dono do lugar é o
título da dissertação, porque esse é o
livro que que que que vem desse
trabalho, né, como resultado desse
trabalho de de mestrado em Ciências da
Religião numa linha de pesquisa de
Linguagens da Religião na Universidade
Metodista de São Paulo. Mas o título da
da dissertação é esse, Jesus é o dono do
lugar, porque é a primeira frase que eu
vejo, que eu identifico como uma mudança
eh significativa e que tinha alguma
coisa para dizer, mas eu não sabia
exatamente o quê.
E aí com os meus alunos em sala de aula,
alunos ex-traficantes, alunos ainda eh
participando do movimento eh e outros
alunos que que estavam naquele trânsito,
né, de
na tentativa de uma conversão, mas
estudando Teologia, tentando aprender um
pouco mais sobre o Novo Testamento, que
é era a a a a disciplina que eu
trabalhava muito frequentemente. Então
assim, esse foi o contexto em que eu, eu
comecei a pensar em pesquisar esse
assunto. Quando eu vi Jesus o dono do
lugar eu falei: "Não dá para uma pastora
pentecostal estar dentro da favela e ver
Jesus sendo usado no contexto de
violência".
E aí eu vou levando, é, esse, esse
objeto para o mestrado pensando em
provar que o nome de Jesus não pode ser
usado em contexto de violência. Caraca.
Hum, nossa.
Não, isso, isso é uma observação
importante, né? O nome de Jesus sendo
usado em contexto de violência. Cara,
isso já
já comunica algo, né?
lugar, porque
quando a gente pensa nessa imagem de
Deus, é,
veterotestamentária, quando a gente
pensa nessa imagem de Deus no Antigo
Testamento, você até entende que talvez
tenha uma leitura atravessada e tal, mas
Jesus é o dono do lugar como assinatura
de conquista de território, e aí eu só
vou descobrir depois que esse Jesus é o
dono do lugar é uma assinatura de uma
conquista de território, é, por uma
facção que tem como, como líder um, um,
um jovem ordenado pastor numa igreja, é,
pentecostal de Duque de Caxias, na
Baixada Fluminense aqui no Rio.
Caraca.
Nossa, nossa, é.
Enfim, André, se você quer dar o,
alguma, a gente ia começar lá falando
sobre a religiosidade brasileira, né?
Mas eu já comecei a perguntar sobre o
que inspirou o livro, já entramos com
tudo subindo, passando a barricada e é
isso aí.
As primeiras coisas que me ocorreram
quando ela estava falando que Jesus é o
dono do lugar,
é, me ocorreram a ver de um fundo
teológico, não é? Que é uma teologia de
domínio.
Que frequenta
muitos púlpitos do meio evangélico, não
é? Então essa coisa, ah, Jesus é dono do
lugar, eu vi isso acontecer em Marcha
para Jesus, não
Você passar no meio dos lugares, nós
estamos tomando conta, dominando, mas é
curioso porque, que eu acho interessante
nesse processo todo de, que é que eu
gosto muito desse assunto, que é o uso
da metáfora, o uso do símbolo e tudo
mais.
Enquanto nós evangélicos normais, vamos
dizer assim, entre aspas, é, usamos
esses termos num sentido metafórico,
e usamos as expressões bíblicas do tipo
exército de Deus, a gente cantava, né,
somos exército de Deus e tal, a gente
usava isso tudo num sentido extremo, é,
metafórico, é, muito simbólico assim,
que trata mais a questão do símbolo
profundo,
esse pessoal me parece que tá usando
isso de uma maneira muito mais literal
do que nós jamais imaginamos usar.
Isso é, é, é uma coisa que me deixa
impressionado assim, né? Porque a gente
fala muito da literalidade bíblica.
Exato, exato. E de repente a gente se vê
que nós estamos usando, transformando
tudo em metáforas e tem um grupo que
está à margem daquilo que nós
entendemos, e eu insisto nisso, né,
do mundo ético e proposto pelo
evangelho,
mas eles estão usando essas coisas de
uma maneira literal diferente da nossa,
né? Entendi.
Agora vem cá, é, é,
fugindo um pouquinho, ah, não é fugir, a
gente vai fugir um pouquinho do tema
específico da live, mas tá casado, tá
dentro do, do, do guarda-chuva.
Mas, por exemplo, quem acompanha filme
já viu, por exemplo, né, a máfia
italiana e o catolicismo, né? Ah, na
série Sopranos, acho que eles também têm
uma religião, eu acho que são católicos
também, né, os Sopranos, ou são
protestantes, agora eu não lembro. Mas
enfim,
são católicos. É. É, máfia católica e
tal. Então parece que esse elemento
religioso mesclado
com,
com o crime,
ele não é uma novidade do Rio de
Janeiro.
Deixa eu
só completar a tua, tua pergunta, pra
responder depois, porque tem tudo a ver,
né? É, a gente costuma ver em seriados,
eu, por exemplo, sou fã de Sons of
Anarchy.
Tire as crianças da sala, proibido para
menores de 18 e tal, mas é um troço
fantástico, porque toda a questão
religiosa católica tá junto ali e você
tem inclusive os maias, que são os se
intitulam los assassinos de Dios, que
são católicos e extremamente violentos,
bem envolvidos com tráfico de armas e
tudo mais e a gente vê isso tudo com uma
naturalidade, por quê? Porque são
católicos.
Ou são do candomblé. Uhum. E de repente
você vê uma outra situação acontecendo
agora com aquilo que tá no nosso campo.
Então agora eu deixo a Viviane falar
sobre como ela viu isso acontecer no
Rio.
Eu acho que o que é importante a gente
pensar que um criminoso não precisa ser
um arreligioso.
Criminoso é uma pessoa.
É um sujeito, é um indivíduo.
Ok. Então essa pessoa, ela tem, é, ela
tá
inserida, mergulhada num caldo cultural.
Num caldo cultural que que é construído
não só com linguagem, é que o Budia vai
falar dessa de um sistema de linguagem
que que é um criador de mundo e também
de manutenção de poder e também de
sentido.
Mas ele é uma pessoa e aí se a gente for
pensar por exemplo como o Bibo falou que
a gente que tinha pensado em começar
essa coisa, né, da do contexto religioso
brasileiro, ele é um cidadão brasileiro.
Fruto de uma de uma cultura e que também
compõe essa cultura, também ajuda a
construir essa cultura.
Então eu acho que é importante a gente a
gente pensar que a religião é uma
categoria
de constituição existencial
e social.
Então não dá pra gente separar e pensar
que porque a pessoa é uma criminosa, ela
ela necessariamente não pode ter uma
religiosidade.
Outro ponto importante que o André
disse, é, enquanto era um traficante
católico que tava ali, né, com com
medalhão de São Jorge ou se for num
presídio, por exemplo, se for no sistema
carcerário, as tatuagens elas comunicam
muitas coisas no sistema carcerário.
Então se tem uma caveira, né, o tipo de
crime que a pessoa cometeu, se tem uma
determinada divindade é tatuada, quer
dizer que é de uma determinada facção,
se tem outra divindade de outra facção.
Então, tem muitas representações também
nesse sentido, mas quando quando a gente
olha para esse traficante que é
católico, OK, como se a teologia
católica
legitimasse esse movimento de um
traficante católico.
E não legitima. O que faz com que a
gente olhe e a gente aqui eu tô me
incluindo mesmo, porque até então não
era uma questão,
é, o que faz com que a gente olhe esse
traficante católico que tem uma
tatuagem, uma medalha ou um São Jorge na
entrada da favela é com mais
naturalidade? Provavelmente seja a
culturalização desse catolicismo ou
desses catolicismos.
E aí a gente vai ter o PR Sanches
falando de catolicismo cultural, de uma
catolicidade, de como que essa cultura
católica e como que o catolicismo ajuda
a construir essa cultura.
Essa naturalização vem dessa
culturalização.
E aí quando a gente chega e olha o
movimento evangélico e aí aí sim, Bibo,
tem muito a ver com esse com essa
mudança do campo religioso brasileiro,
com essas múltiplas religiosidades que
que que a gente conhece e a gente muitas
que a gente ainda não conhece, mas
muitas que a gente já consegue
identificar e mais ainda, com a mudança
do campo religioso brasileiro mais
católico e e nas últimas décadas muito
mais evangélico. Tá, ô Vivi, com isso tu
quer dizer, Vivi,
intimidade de dizer Vivi.
Vivi, isso quer dizer então que, por
exemplo, a sempre houve uma
religiosidade no morro.
Pode falar morro ou eu tô sendo Pode
falar morro. Eu não quero errar as
palavras aqui, tá?
Ô gente, pelo amor de Deus,
eu tô brincando, né? Então assim, então
sempre existiu uma religiosidade nas
comunidades.
Então, quer dizer, então, é, a gente já
teve então os traficantes é de religiões
de matriz africanas, passando pelo
catolicismo e agora tá se destacando
mais a questão evangélica, pelo menos é
é o que tu tem sentido na maior parte
das comunidades do Rio ou não? Ainda
Ou existe uma briga até não porque a
facção, facção, não sei se é o termo que
se usa facção, galerinha. Facção
evangélica, tem a facção católica, tem a
facção adventista, que daí não trabalha
na sexta depois das 6 horas. Como é que
rola uma parada também religiosa assim?
Tipo, não, tem a facção dos evangélicos
e tal, bandeira de Israel. Tem a facção
da Nossa Senhora, pá, só de mulheres
traficantes. Ou não? Eu tô, pô, daria
uma série isso aí daí de doido, mas
enfim.
Tu tá viajando muito Frank Miller, né?
Pois é, pô, facção de mulheres, mano,
sei lá, pô.
Você é muito criativo. É, as Beneditas
ou Magnificat, alguma coisa assim, sei
lá. As Filhas de Maria, pô, sensacional.
Oi, Amazon Prime, vamos fazer uma série.
Vários propósitos aqui já de título.
Mas eu não diria que que a gente tá
falando de maioria quando a gente fala
de traficantes evangélicos. E nem que a
gente tá falando de uma substituição.
Na verdade, a gente tá falando de um
fenômeno que começa a aparecer e não é
recente, a gente, né, eh, o livro fala
disso, eu costumo sempre falar sobre
isso. A Cristina já estava falando sobre
esse assunto, a Cristina Vital já falava
sobre esse assunto no início dos anos
2000. Ela publicou um livro com o título
Oração de Traficante, nesse livro ela
transcreve, esse é eh, isso daí é
traficantes evangélicos e aí tem Oração
de Traficante também da Cris. Eh, ele
coloca, ela coloca ali a oração que eles
faziam no radinho todo dia 5:30 da
manhã.
Essa oração ainda continua acontecendo
em outras favelas, ela ela tá em
pesquisa na minha Karina, mas ela
continua acontecendo em outras favelas,
não como uma uma reza, né, com
repetição, mas com um uma uma oração que
acontece todos os dias com com com
com alinhada assim com o propósito e com
a ética local.
Que é evitar confronto com a polícia,
evitar que tenha confronto com a facção
rival, se quiser conquistar um novo
território avisa antes da facção que tá
querendo conquistar esse novo território
para eles poderem liberar e não ter
troca de tiro. Claro que às vezes
acontece de ter troca de tiro, mas a
ética vai sendo apresentada também na na
oração, como a proibição do crack, como
a necessidade de orar, eh, de estar
sempre em contato com Deus, de pedir
proteção a Deus pra pra pra viver essa
essa essas experiências todas que são
ameaçadoras do crime no Rio. Então tudo
isso aparece na nessas orações, mas não
dá pra gente dizer que tem uma facção
que é católica, uma facção evangélica e
outra de mentira. O que dá pra gente
pensar
é que no caso do Terceiro Comando Puro,
que é essa facção que eu pesquiso, que
tem como líder o Álvaro Malaquias,
o Álvaro Malaquias é esse jovem, ó, deve
tem um pouco mais de 30 anos, que foi
ordenado pastor, eh, na numa igreja
pentecostal, não vou dizer o nome, numa
igreja pentecostal da Baixada Fluminense
no Rio. Hoje ele faz parte de uma outra
igreja que já é dentro da comunidade
Parada de Lucas, também pentecostal.
Como é que é o nome?
Parada de Lucas? Parada de Lucas é o
nome da favela que que é de localização
dele e Cidade Alta, que é uma favela,
eh, eh, próxima, eh, que tem que está
ali na fronteira, é onde tem a Estrela
de Davi que ele colocou na caixa d'água,
sinalizando ali a dominação da Mas aí eu
vou cortar que eu preciso terminar essa
daqui. E aí no caso do Peixão, a
religião tá muito na estrutura, na
ética, na estética, eh, no no no nas
normas locais, nas estratégias de
guerra, de quando ele vai avançar, de
quando ele não vai avançar. Então as
revelações e as estratégias de guerra
são são dadas em momentos de oração. Eh,
então tem tem uma uma
Josué lutar no morro. Olha aí. Então tem
uma coisa, eh, tem uma estrutura
teológica na narrativa e em outro em
outros em outros lugares, outros
elementos desse desse desse tráfico de
drogas, dessa dinâmica. Nas outras
favelas não. Nas outras favelas tem
traficante que é devoto de São Jorge,
tem traficante que é devoto de outras
religiões e tem traficantes também que
vão à igreja, que tem família
evangélica, que tem práticas
evangélicas. Então não necessariamente é
uma facção religiosa contra outra facção
religiosa. Ô, Vivi, eu vou entrar nessa
pergunta. Quer fazer alguma colocação,
André, ou eu posso fazer a pergunta aqui
que eu acho que tá que muita gente quer
fazer. E eu vou fazer a pergunta agora,
Vivi, porque eu acho que tu já deu uma
margem para eu perguntar isso.
Eh,
tu falava no começo ali da nossa
entrevista: "É, ele é um ser humano e
como ser humano tem as suas tendências
religiosas e tal".
Agora, assim, tem a questão da ética,
por exemplo, ah,
vamos pegar, vamos falar dos,
acho que evangélicos e católicos, né?
Como é que eles, sendo ah, traficantes,
ou eles até se denominam, né, bandidos
de Deus. É uma coisa é o André, né,
contrabandista de Deus que
contrabandeava Bíblia lá para a janela
10/40, acho que é isso, né? O irmão
André. Agora, essa galera não, eles são
traficantes mesmo, enfim, e né, os
bandidos de Deus.
Por exemplo, eu sou um cristão.
Quando eu faço uma coisa errada, tipo,
dá aquele peso, assim, tipo, errei,
vacilei, pô, Senhor, me perdoa e tal.
Eles têm essa consciência, tipo,
ou é meio que assim: "Cara, essa é minha
vida, eu nasci aqui, Senhor, abençoa o
rolê", tá ligado? Não sei se chegou a
ter uma conversa com algum deles, porque
tu foi lá, né, tu entrou, tu conversou
com a galera e tal, né?
E tipo assim, como é que é? Há uma
consciência,
tipo,
"Ah, o que a gente faz é errado, mas é o
que tem para hoje, então simbora em nome
do Pai, do Filho e do Espírito Santo,
pei". Como é que é assim?
Em nome de Jesus mesmo, no caso. Eh,
assim,
a gente, a gente precisa de novo olhar
para algo que, que o André costuma falar
sempre e no lançamento do livro dele
aqui no Rio, ele até falou sobre isso,
né? A leitura do Antigo Testamento tendo
Jesus como chave hermenêutica, chave
hermenêutica e tendo a leitura do Novo
Testamento tendo, ou a leitura de Jesus
tendo o Antigo Testamento como chave
hermenêutica.
Então, o que, o que se tem ali é uma
leitura do Antigo Testamento e uma
leitura de Jesus com a hermenêutica do,
do Antigo Testamento.
Porque aí Jesus é esse Senhor dos
Exércitos, Jesus é esse guerreiro que
naturalmente substitui esse essa esse
arquétipo de São Jorge, que é essa
divindade que está sendo substituída e
também Ogum, que é uma divindade que que
está sendo substituída nesse sincretismo
religioso brasileiro.
Então a coisa do fechamento do corpo, a
coisa né da da da das rezas e das
práticas que aparecem na literatura,
aparece na na no cinema, então a gente
tem muitas muitas muitos exemplos disso.
Então tem uma leitura de Jesus com essa
hermenêutica do do texto do Antigo
Testamento. Para além disso, acho
importante a gente dizer, para não
parecer que que isso está tão
desconectado da realidade realidade para
quem vive lá. É é necessário haver uma
relativização de muitas muitas questões
sociais. Uhum. Inclusive do que é
criminalizado ou não.
Eita.
Então no no discurso que se tem acesso
ali ou na construção desse mundo a
partir de uma linguagem, de uma
narrativa,
o criminoso é o Estado.
Uhum.
É isso que eu queria comentar. É
eu a questão que eu aí eu já jogo para
ti de volta em seguida, né?
É porque você estudou sociologia, eu não
estudei, mas essa questão de da ausência
do Estado e de repente dessa dessa
figura do traficante se ver como uma
autoridade legal local para instituir
uma ordem
relativiza muito noções éticas que são
comuns em outra situação, né?
Exatamente. Então assim, o Estado, quem
possibilita a chegada dos entorpecentes
nas favelas
é o Estado.
Não é esse Estado que a gente conhece e
e aparece na TV, mas o paraestado, o
Estado paralelo.
Então como que chega o armamento na
favela? Como que chega é o entorpecente
na favela? Tem uma uma estrutura
institucional que de certa forma permite
que isso tudo aconteça. E quando chega
na favela
essa narrativa é relativizada.
Então, por exemplo, nessas favelas não
pode se comercializar o crack.
O crack não é vendido.
O peixão, em referência a ao peixe
mesmo, né, o símbolo do do do
cristianismo primitivo, aqui o peixão
eh que é esse pastor ordenado, que é o
líder do desse segmento do Terceiro
Comando Puro, que domina o Complexo de
Israel e a Cidade Alta aqui no Rio de
Janeiro Complexo de Israel. Complexo de
Israel. Ele deixa claro que eh ele é o
rei da erva.
Então, ele trabalha com a erva, erva do
campo.
Então, tem algumas relativizações aqui,
é claro que eu não tô reforçando o
discurso e não tem a ver com isso, eu tô
relatando um fenômeno, né? Esse fenômeno
tem relativizações necessárias
para se se manter, para existir. E
outras coisas também, assim, é
importante que ele diz, por exemplo, na
tomada da Cidade Alta que Deus disse a
ele que queria livrar a Cidade Alta de
uma opressão da facção anterior.
Então, ele diz assim: "Deus me disse que
é para libertar a Cidade Alta do
comando".
Então, eu não sei se vocês vão tá aí,
vão trocar tiro comigo ou não. Eu eu
transcrevo essa essa esse áudio dele no
no livro e ele diz: "Eu eu não sei, mas
assim, Deus me prometeu a Cidade Alta,
isso não tem nada a ver com os meus
parceiros aqui, isso não tem nada a ver
com o movimento, isso não tem nada a ver
com ninguém, o negócio meu e de Deus.
Ele disse que vai me dar a Cidade Alta".
E ele tomou a Cidade Alta mesmo, eh em
2016 ele toma, conquista a Cidade Alta,
nesse momento as as estrelas de Davi vai
para cima da caixa d'água e aí ele
declara, num outro áudio, que também tá
transcrito no livro, que a Cidade Alta,
desde agora e para sempre, é do Deus
vivo lá de Israel.
Então, ele considera que essa tomada de
território, expansão do território, é na
verdade as bênçãos de Deus sobre a vida
dele, que tá dando uma revelação, um
direcionamento, ele vai lá, conquista e
agradece a Deus colocando um símbolo ali
de dominação, que é a estrela de Davi.
Cara, isso buga muito a minha cabeça
porque eu sou um religioso bem quadrado,
assim, né? Ainda que tem gente que acha
que eu sou liberal, eu sou bem
conservador em muita coisa.
Né? Esse é um dos fenômenos mais
fenomenais do Bibotalk é que todo mundo
é absolutamente conservador. Exato,
cara, exato.
né? A Viviane que costuma caminhar
bastante com o pessoal progressista, ela
sabe que a gente é conservador,
entendeu? É, eles nem gostam da gente,
cara. É, é. E eles são conservadores.
Pois é. Exato, é então, mas aí isso
assim, porque cara, e aí eu acho que
gente, tem uma fala da Viviane que eu
quero aqui fazer um um um reforçar.
Ninguém tá validando nada aqui, tá? Por
exemplo, eu já vi comentários assim,
acho que foi até em postagem da Viviane
ou alguém respondendo a nossa live.
Gente, traficante evangélico não existe.
Gente, existe?
Tá aí.
A gente só a gente tá observando um
fenômeno e se ele disse que ele, você
pode achar que ele não seja cristão, ó,
porque o que eles fazem tá errado
conforme a Bíblia, tá? Você tem o
direito de achar isso e tudo bem.
Tranquilo aqui, mas eles existem e eles
se entendem dessa maneira. E olha só,
com experiências
e porque a religiosidade humana, cara, é
uma parada
todo mundo lida com com o fenômeno da fé
a partir do seu contexto.
A doutrina ela é localizada. Por isso
que a doutrina ao longo dos séculos ela
vai ganhando alguns contornos, algumas
imutáveis, né? Elas sofrem pouquíssima
mutação ao longo aí dos milênios.
Que é a base da fé cristã, mas cara,
muitas outras coisas
existe uma
uma uma
sabe, uma uma uma fluência porque elas
são localizadas, são tempos históricos
distintos e tal e isso influencia nossa
forma de nos relacionarmos com a Bíblia.
Que é mais ou menos o que tu pesquisa no
no teu livro, né, André? Essa ideia de
como um único livro vai gerando povos
diferentes e compreensões diferentes,
né? A gente tem um fenômeno parecido
aqui para entender como pessoas que do
nosso ponto de vista, aqui, meu Deus,
traficante, aí, é, como é que eles podem
adorar Deus? Então.
aí é a questão da ressignificação da
narrativa, né? Olha aí. Eu vou, é, é, é,
eu, eu falo numa live outro dia, eu
disse qual que era,
com o,
acho que não sei se era contigo até,
mas, ah,
então, o que que eu tava falando ali?
Sobre a questão de como a narrativa do
êxodo foi ressignificada ao longo da
história, né? Então, ela é usada, por
exemplo, para, para contar a história de
Maomé. Ela é usada para contar, é,
depois a própria história do retorno
dos,
é, dos judeus para, é, é,
a terra prometida lá na ali ao século
19, século 20 e tal.
Só que também é usada, por exemplo, é,
pelos pais peregrinos, quando foram
para,
para, para, para América,
nas suas pregações, elas invocavam a
narrativa do êxodo, a narrativa de
Josué, da conquista da terra prometida e
tudo mais. E para eles é uma
ressignificação do êxodo e da conquista
da terra, a chegada na América. E alguém
comentou, e aí eu achei interessante,
alguém comentou que, ah, não, mas o
exemplo não é bom, por quê? Porque eles
exterminaram os índios lá.
E aí eu digo, cara, aí que eu me toquei,
as pessoas estão associando
ressignificação exclusivamente a coisas
boas e positivas.
E não é, a possibilidade de
ressignificação é para qualquer coisa na
situação de cada um.
O,
o pai peregrino, quando estava lá, os,
os, os,
os que, os norte-americanos que foram em
busca da conquista do oeste, na cabeça
deles, eles não estão fazendo uma coisa
perversa que é o extermínio do índio.
Eles estão agindo de acordo com a ética
deles, estão conquistando uma terra e
exterminando os cananeus, que estão
matando o seu povo, sei lá.
Então, hoje, olhando de uma maneira
distanciada, nós podemos, eh, dizer:
"Não, tá errado, tava errado, foi um
problema, foi um drama, etc.",
né?
E,
e ter essa posição confortável daqui.
E a mesma, eu, eu vejo uma situação
muito parecida com uma ressignificação
que acontece de narrativa para o
tráfico, dentro de uma situação da qual
também nós estamos numa posição
confortável distante, né? Agora,
de novo, sempre repetindo, né, Bibo? A
gente não tá assinando embaixo que tá
certo. Claro que não, claro que não. E e
é um fenômeno assim, gente, eh, é por
isso que eu digo que a religiosidade
humana,
é porque a gente não nasceu lá, né?
Porque assim, por isso que eles
ressignificam e fazem concessões, porque
é o mundo deles, né, cara?
É o mundo deles e eles querem e aí
tem essa questão, né, do, do, da fé
pentecostal. O pentecostalismo com a sua
penetração social incrível, né? O
pentecostalismo ele é incrível, porque
ele vai nas camadas ricas, ele vai e nas
mais pobres, né? Principalmente nas mais
pobres. É a, é, é a religião do pobre e
do negro no Brasil, né? É, cara, e é
justamente por isso, é o
pentecostalismo, porque foi ele que
chegou lá e penetrou e provocou a
mudança cultural, porque se tivesse
sido, sei lá, os reformados, talvez eu
tivesse falando de traficante reformado,
não sei. Os caras vão ficar bravos
comigo agora, mas, mas é a questão
cultural aqui, né?
E aí, Vivi? Ajuda a gente a entender
isso daí.
É isso, assim, eu tô ouvindo vocês
falando, né? Tô pensando,
eh, a gente tá falando de hermenêuticas,
a gente tá falando realmente de, de
leituras,
novas leituras, porque a teologia, ela é
viva, então as teologias que surgem das
novas leituras que acontecem todos os
dias,
eh, são teologias que constroem novos
deuses,
deuses esses que a gente reconhece ou
não reconhece. Então, eh, que Deus é
esse do traficante, né? Tem, tem, tem um
trecho no livro que eu falo isso, que
Deus é esse do traficante evangélico. É,
e que traficante é esse que pensa nesse
Deus? Então, Ruben Alves me me ajudou a
pensar antropologicamente
bastante sobre sobre essas leituras e
tem um texto dele que ele fala, por
exemplo, sobre a formação da teologia
ter a ver com um grande banquete em que
você se serve de acordo com aquilo que
faz sentido para você e que não faça mal
ao seu estômago.
E aí no no final disso, esse Deus que
não faz mal ao seu estômago e que atende
as suas necessidades e expectativas é o
seu Deus.
Então, pensar também aqui que religião e
religiosidade a gente fala de coisas
diferentes, então quando a gente tá
falando de religiosidades, a gente tá
falando de como a leitura que foi feita
a partir de uma cultura, de um tempo, de
um ethos, né, de um modo de viver de uma
determinada localidade faz sentido para
aquela pessoa e construída essa teologia
de uma maneira diferenciada, mas não
isolada, então tem elementos ali do
pentecostalismo, mas também tem
elementos do catolicismo, tem elementos
do candomblé, então a gente vai vendo
como que essas novas religiosidades são
atravessadas pela cultura e também
atravessam a cultura de volta.
Porque uma não segue sem tocar a outra.
Então elas estão se tocando e aí quando
a gente olha para a religiosidade
popular, não dá mais para a gente falar
de um pentecostalismo, de um
catolicismo, de um umbandismo, de um
candomblecismo, então a gente tá falando
de religiosidades que são vivas, que se
constroem, se modificam tanto no contato
com a cultura quanto tocando a cultura e
sendo modificada por ela. Eu acho que é
importante a gente pensar nisso.
É, pois é.
Aí como é que fica agora agora a gente
não combinou que perguntas eu não
poderia fazer, né? Aí se eu não puder
fazer, tu só vai tomar uma água, levanta
e vai tomar uma água, Vivi, se eu não
puder fazer. Tá, não combinamos, é, foi,
tá bem no flow. Pode tomar um café, eu
sei que eu te censurei aqui no no
privado, falei, pô, você tá tomando um
café na antes da lá agora aí, ó.
Mas ô Vivi, vamos lá, vamos pegar o
complexo de Israel, esse é o nome?
Complexo de Israel?
Complexo Então assim, nós temos um líder
é,
que é pastor, ordenado pastor por uma
comunidade evangélica, uma igreja
evangélica pentecostal.
E é um complexo de Israel. Como é que
fica aqui, existe uma tolerância
religiosa
ou dentro dessas favelas, dessas
comunidades, onde há uma predominância
evangélica, há um tipo também de
perseguição religiosa ou há uma, uma,
como é que é o nome? Uma, é uma
comunidade laica, por assim dizer, ou
não há uma perseguição, enfim, há uma
tolerância religiosa. Porque a gente às
vezes ouve falar que determinada, né,
que que algumas religiões de matriz, né,
de matrizes africanas sofrem determinado
ataque e às vezes a mídia diz que foi
pessoas se denominaram evangélicas e
tal. Como é que é esse, essa relação com
quem não quer essa fé de Israel, assim,
com quem não quer essa fé pentecostal?
Tem algum relato nesse sentido?
Sim, bastante. É bom a gente falar disso
para separar aqui duas questões. Quando
eu falo assim, os evangélicos estão
perseguindo, eh, as pessoas, os
moradores de religiosidade de matriz
africana nas favelas.
Os evangélicos
como, como grupo social, não.
O que a gente tá falando é que os
traficantes que se declaram evangélicos
estão proibindo a prática religiosa de
matriz africana nesses territórios.
Isso, de fato, acontece, assim, a gente
não vê mais as casas de Umbanda e
Candomblé ativas nesses territórios,
eles foram expulsos.
Muitos deles tiveram seus elementos
religiosos destruídos, queimados, outros
foram coagidos a eles mesmos destruírem
seus elementos religiosos, a sua casa
religiosa, tacaram fogo e aí na
assinatura do muro aparece Jesus o dono
do lugar. Então, eles destroem
eh, e depois eles se apropriam desse
território dizendo que agora esse
território é consagrado a Jesus. Tem
alguns vídeos
eh, no, no YouTube que as pessoas podem
procurar e vão acessar com muita
facilidade eh, que é, é realmente essa,
essa restrição. Não só a restrição e aí
mais recentemente a gente também teve
restrições de manifestações públicas de
religiosidade católica.
Então as procissões também foram
proibidas eh nesses territórios. Então
você não pode ter roupa de, de, de
santo, né, como é chamado no Candomblé e
na Umbanda no, no, no, no terreiro, eles
não podem andar com as suas guias, com
turbante. Então as, as expressões
religiosas, não só os cultos, mas as
expressões religiosas também foram
impedidas eh e sim, as pessoas sabem que
estão correndo risco de serem
violentadas, de terem a sua casa eh, eh
apedrejada, queimada. Então realmente
isso acontece, mas não pela mão do, dos
pastores locais ou dos evangélicos
locais, mas desses traficantes que
entendem que aquele lugar foi consagrado
ao Senhor dos Exércitos, é um complexo
de Israel porque é um complexo de
favelas que foi prometida pelo Deus de
Israel e por conta disso tem que ser eh,
eh e aí o, o André pode trazer isso, né,
os deuses antigos, as roupas antigas, as
práticas antigas precisam ser destruídas
e substituídas.
De novo, eu vou mencionar que eles
transformam em literal aquilo que a
gente deixa no campo metafórico, mas a
violência do nosso discurso se torna
violência concreta na mão
de quem tá lidando com isso lá, né?
Fivi,
oi, fala, Fivi. Muito rapidamente,
assim, o que o André falou agora me
lembrou por que que minha pesquisa
mudou. Eu disse que eu fui dizer, eu fui
tentar dizer que o nome de Jesus não
podia ser usado em contexto de
violência.
E aí quando eu vi que na verdade o que
eles diziam quando iam destruir um
terreiro, é uma casa de umbanda e
Candomblé, era aquilo que eu dizia
orando nos cultos de libertação,
eu entrei em choque, assim, porque eh
sempre dirigi culto de libertação na
igreja, sempre estive à frente de
campanha de, de cura e libertação na
Assembleiana desde, de, de, de de
então sempre naquela coisa de Deus
repreende, Deus leva para longe, eh é
repreende esses demônios, repreende e e
essas orações de pedir para Deus levar
para longe, de tirar daquela rua, de
tirar da porta da igreja, de levar, de
tirar do nosso bairro, de tirar da da do
nosso do nosso contexto, da nossa
convivência,
que é a coisa da da do simbólico da
narrativa, no caso deles eles vão lá e
tiram.
Eles vão lá e e colocam para fora do
bairro, eles vão vão lá e realmente
expulsam. E aí é aí eu entendi que era
possível que o nome de Jesus fosse usado
em contexto de violência, dependendo da
leitura que se faz do nome de Jesus, do
texto bíblico. E aí a gente volta para
questão da da hermenêutica e da leitura.
Agora vou fazer uma pergunta assim, meu,
ela pode ser uma viagem completa e a
gente começa a falar do Flamengo já com
o assunto aqui Rio de Janeiro.
Nenhuma associação com Flamengo e
traficante, gente, pelo amor de Deus,
isso é só mesmo porque o Flamengo
ele é vascaíno. O o Como é que é o nome
dele? O Peixão? O Peixão é vascaíno.
Tá, então ele tá aí. Só atualizando
aqui, isso é o que a gente tava falando.
É, eu tô até falando Foi lá, né, Vivi?
Antes da minha pergunta, eu tô até Tu
foi, tu subiu lá, tu conversou com essa
galera ou foi só pelo WhatsApp na
segurança do lugar?
já tá querendo fazer um BTD Israel aí.
BTD aí.
eu convidei o André e a esposa para para
irem lá com a gente. É, eu contei para o
André
não não quer botar os pés no Rio, cara.
Imagina tu ir
Não, mano, eu eu fui para o Rio
segunda-feira, Deus livre, com medo da
Eu nem sei para comer, não, vou comer no
hotel, como no hotel, como no hotel.
Gente, que isso? Não tem Copacabana aqui
para você ir?
Desculpa, a gente é do Sul, a gente é do
Sul, querida. A gente é do contexto
social Eu já fui ao Rio de Janeiro, já
fui é já fui várias vezes, o pessoal aí,
mas eu sempre tô caminhando com os
nativos, né? É, não, caminhando com
nativo e tu os Android, então tá tudo
bem, mas vai lá, continua, Vivi.
você não pode entrar na na nos desvios,
né? Você tem que pegar a pista
principal, é Dutra é Dutra, Avenida
Brasil é Avenida Brasil, linha vermelha,
você vai. Não entra, não desvia, porque
se você desviar você vai cair numa
favela. Dependendo da favela que você
cair, se você disser que você é crente,
você tá de boa, né? Você fala assim:
"Não, que isso? Paz do Senhor, sou
evangélico", tal. Mas depende de que
favela você vai cair. Aqui, eu fui lá
muitas vezes, não só como pesquisadora,
né? Porque
dando aula lá.
Tenho amigos lá, tenho alunos lá, tem
tem igrejas que eu entro para para
pregar. Mas assim, eu entro para pregar
no Vidigal, que é que é comandado por
outra facção. É no Rio das Pedras, que é
milícia. Então assim, eu tenho esse esse
esse contato. É isso é muito importante
também, viu, a gente falar, que muitas
pessoas querem associar os pastores
locais ao crime organizado.
E muitas pessoas querem é associar esses
pastores que estão ali na favela, que
estão ali na na nas comunidades, tendo
muito trabalho, dedicando a vida ao
ministério, dedicando uma vida à igreja
local, à comunidade local. E associar
esses pastores ao crime organizado, à
lavagem de dinheiro, na verdade não é
bem assim que as coisas acontecem, não.
Então assim, tem pequenas igrejas que
participam e que de alguma forma entram
nesse nesse transe, nessa dinâmica? Tem.
Essas igrejas, inclusive, ajudam a
organizar cultos em praça pública,
cultos que abrem baile funk, contratar
cantores evangélicos famosos para
fazerem esses cultos na favela. Então
realmente existe. Mas os pastores que a
Cristina chama de blindagem moral e a
gente chama só de gente que dá bom
testemunho, esses pastores, homens de
Deus, eles são respeitados na favela.
E são esses homens de Deus que esses
traficantes procuram quando querem uma
oração,
quando querem uma ajuda, quando estão
doentes, quando precisam de um
livramento de morte, pedem para levar o
pastor na casa deles para orar por eles.
Então tem ainda um respeito muito grande
a esses homens de Deus, pastores
evangélicos que estão nessas comunidades
dedicando a vida tanto é evangelizando
no sistema carcerário, é para além de de
de uma de uma presença, né, também de
dominação e de poder, mas que estão
evangelizando e de pastores que estão
fazendo isso na favela. Acho que é
importante a gente falar sobre isso para
não parecer que a gente está com um
monte de pastor na favela participando
do crime organizado. seja,
todo mundo participando do crime
organizado, sendo
Exatamente.
E não é assim
Ô Vivi, a pergunta que eu ia te fazer
que eu não sei se ela tem sentido e se
ela, né, por favor, né, se se eu não
fizer essa pergunta não fizer sentido,
você você você fala que não faz. Mas,
por exemplo, tem toda uma teologia, pelo
que a gente hermenêutica, né? Tem uma
forma de eles lerem o texto bíblico, de
eles fazerem a leitura, né, de eventos
do Antigo Testamento e como eles aplicam
isso na vida deles, coisa que vários
grupos sociais fazem, né? Todo o grupo
social se apropria do texto bíblico e o
ressignifica para sua realidade. Isso
todo mundo faz. Isso tem que ficar, se
você não entender isso, querido web
espectador, você vai realmente, como já
tem gente comentando aqui que não tá
entendendo nada do que a gente tá
falando, tá? Mas, nem vou dar bola pro
comentário dele ali.
Você tem que entender isso. Todos nós
ressignificamos
textos, né, e nos apropriamos deles de
alguma forma e procuramos, obviamente,
ver o contexto dele e tal, mas, enfim,
isso já é um segundo passo. No primeiro
passo é mas é
como esse texto chega até mim, como é
que ele fala, como Deus fala comigo a
partir desse texto.
Pensando, então, em hermenêuticas e
nessa apropriação do texto bíblico,
tem uma escatologia
desse pessoal, no sentido assim, é, o
que que eles querem? É, de vou vou
pensar no Peixão, né? Cara, esse Deus me
deu essa e essa comunidade. Bem, Deus tá
me falando que agora o próximo passo é a
Rocinha, sei lá, não sei se Rocinha é
favela, comunidade, enfim, ou o Eu só
ouço esse nome. É, próximo passo é é do
Alemão, não sei o quê, tipo, existe uma
escatologia desse pessoal ao ponto, não,
cara, vai ser isso aqui é vai ser do
Senhor Jesus tudo, onde eu botar a
planta dos meus pés, eu vou tomar posse
e tal. Existe uma escatologia, ou seja,
um, e aqui eu tô usando o termo
escatologia {barra} domínio, né?
Tipo.
Existe.
entender? Existe.
Tem. Existe. É, a ideia é levar o o
reino de Deus, mas não o reino de Deus
do do Novo Testamento.
Né? A gente tava falando aqui, a ideia é
levar um reino de Deus, desse Deus de
Israel, que é poderoso e que e que não
só santifica as pessoas, mas santifica o
lugar.
Eh, o próximo objetivo do Peixão,
segundo as redes sociais e também o que
se ouve no local, é o Complexo da Penha
para a dominação da Igreja da Penha.
Que é o principal símbolo religioso do
catolicismo no Rio de Janeiro. Caraca,
maluco. Então, a a o objetivo dele de
estratégia de guerra é a tomada da
Igreja da Penha no no Rio de Janeiro,
isso não é segredo, tá no Twitter, eles
têm Twitter oficial do Complexo de
Israel, eles têm Twitter de dos perfis
deles eh pessoais e assim, é claro que
precisa trocar senha, precisa trocar de
fake, trocar de conta, mas eles têm
contas na nas redes sociais,
principalmente no Twitter, apontando
para essas novas estratégias. Então,
como ele ele declarou que ia tomar a
Cidade de Alta
e tomou,
eh, agora esse próximo objetivo também
tá tá colocado. Mas assim, qual é
o objetivo dele em dominar esse
território? Segundo ele, é libertar de
uma facção que não respeita os
moradores, que não permite que entre o
saneamento básico. Então, a ideia é
realmente levar um conceito de nação, de
de nação divina, de de de Israel de um
Israel que é ali estabelecido a partir
dessa leitura e dessa promessa que Deus
fez a ele de que ele tomaria alguns
lugares do Rio de Janeiro e que ele
estabeleceria esse reino que tem esse
Deus de Israel, mas sempre com essa
assinatura de Jesus o dono do lugar, que
tem nesse Deus de Israel essa essa esse
Deus poderoso, mas também protetor. E
aí, quando ele toma esses lugares, ele
limpa a comunidade, ele pinta os muros,
ele ele reidentifica esse lugar como um
lugar agora tanto conquistado, quanto
administrado por eles, mas que pertence
aos moradores. Tanto que o slogan é, é a
favela do morador, nós só administramos.
Então, como esses grandes
administradores, assim, desse lugar.
Caraca!
Enfim, André, é contigo.
Faz sentido, André?
Faz muito sentido. É que, é que, quando
É quando eu eu me deparei com essas
questões hermenêuticas, é justamente na
pesquisa pro livro Nós, Nós e a Bíblia,
né? De como a gente vai ressignificando
as coisas e como isso depende
absolutamente do contexto.
E essa é uma situação limite, né?
Essa é uma, é uma situação limite que
você vê, puxa vida, isso chegou a sair
daquilo que nós consideramos eticamente
aceitável.
Mas é que ao longo da história do
cristianismo, o que é eticamente
aceitável foi sendo esticado, pra lá e
pra cá.
E isso não é uma novidade, né? Aí, como
historiador, você, a gente tem que botar
o dedo na ferida, né? Ao longo da
história se fez muitos extermínios de
gente,
em nome de Deus, em nome do Estado, né?
Então,
é, e ninguém nesse momento achou que
tava fazendo alguma coisa errada,
Então, a gente,
é, entra num campo assim, de discussão
ética,
que
transcende a,
transcende diretamente aquilo que nós
temos muito claro, né?
E pra mim é, pra mim é absolutamente
óbvio que um cara que se converteu, ele
não, ele tem que abandonar o tráfico,
abandonar isso tudo. Pra mim é
absolutamente claro. Exato. Mas eu tô
lidando com uma comunidade que não acha
isso tão claro assim.
É, é, tu começa a viver uma experiência
que tu comenta ali, que eu achei bem
interessante. E tinha dois traficantes
lá, um, aliás, dois rapazes, um
ex-traficante, que é o modelo
tradicional do pentecostalismo, quer
dizer, eu me converti, abandonei o
tráfico e estou na igreja. E do lado um
outro orando, diz, que não largou o
tráfico, continua lá dentro e se
converteu e está na igreja.
E aí, a gente tende a resolver tudo pelo
caminho do, ah, não foi uma conversão
verdadeira ou sei lá o quê, e é difícil
lidar com isso. Como é que eu vou dizer
que não tem,
né, que que o cara não crê de verdade.
Né?
É, de novo, sempre vai aquela coisa, é,
eu tô até gaguejando porque eu não sei
para onde isso.
É, da hora, né?
É muito complexo. Não é fácil eu dizer
assim: "Não, não, isso aí tudo não é
crente, acabou". Entendeu? Eu resolvo o
problema na minha cabeça,
mas eu eu não lido com o ser humano
concreto e real que tá na minha frente.
Exa, é, eu eu quero dizer assim, eu
posso achar que a pessoa, e e você tem
todo o direito de de achar que a pessoa,
ela não é crente segundo você entende as
escrituras. E como a gente disse aqui,
eu também acredito que
em termos das escrituras. Exato. Então,
eu acho também que quem se converte não
não combina assim crente e bandido de
Deus, entendeu? Não, é.
Cara, é que isso também é, isso dá para
abrir a discussão, né?
É porque eles declaradamente fazem uma
coisa que a nossa sociedade, né, seja
crente ou não, acha errado, né? O
tráfico, ele não é aprovado pela
sociedade, né? E tem leis contra isso.
Mas existem outros bandidos de Deus
também aceitos pela sociedade, mas isso
é um outro, é uma, é o, é o segundo
livro da, da Viviane.
Vai então, é.
seu próximo livro vai ser milicianos
evangélicos e
E eu acho que que a grande, e sim, né,
tem muitos milicianos evangélicos no Rio
de Janeiro, inclusive fazendo segurança
para grandes pastores do Rio de Janeiro.
E aí você entra num campo mais nebuloso
ainda, porque eles dizem: "Não, mas os
caras são da polícia, os caras estão na
legitimidade, não tão". E aí, como é que
funciona isso?
Entendi. Esses caras estão dominando o
território, cobrando por segurança
particular, representando um estado que
que exerce a justiça sem, sem, sem, sem
a lei.
Então, aqui no caso aqui seria vingança.
Então, assim, é, é um poder paralelo que
que é organizado, mas ele é organizado a
partir de um outro lugar, que não é da
periferia, que não é da favela, que não
é do preto,
que não é desse lugar de pobreza, é de
um outro lugar. Então, assim,
eu acho, Bibo, que que a gente precisa
entender que quanto mais, aí eu comecei
a falar isso lá falando do catolicismo,
por que que na na tradição cristã
católica, ser traficante é traficante
católico não estaria OK e agora
é naturalizado. É que para nós de
décadas o católico não é crente, aí tá
fácil, tá fácil de resolver, né? Porque
o catolicismo foi culturalizado. Claro.
O que acontece hoje com o movimento
evangélico no Brasil é que nós estamos
sendo culturalizados.
Cada vez mais pessoas assumem uma
identidade evangélica como elemento,
como categoria de identidade social.
Mas não necessariamente com rupturas que
eram comuns à prática de um cristão
convertido.
Então, ele faz rupturas, rupturas, por
exemplo, de trabalhar com determinadas
profissões, rupturas de ter algumas
práticas sociais, rupturas com vícios,
rupturas com, né, com a com a questão de
moral.
Só que hoje quando a gente olha para
essas múltiplas identidades evangélicas
que tem no Brasil, a gente percebe que
não dá mais para perceber um evangélico
com rupturas marcadas. Então, essas
fronteiras estão cada vez mais fluidas,
cada vez mais pulverizadas e a
identidade evangélica tá cada vez mais
mesclada com outras identidades. Então,
são identidades múltiplas com com
fronteiras enfraquecidas, fragilizadas
que permitem muitos elementos nessa
constituição de identidade que aí a
gente vai ver um evangélico
acompanhado, aqui a gente fala de
traficante evangélico, mas a gente
poderia chamar de um evangélico
traficante,
de um evangélico miliciano,
de um evangélico
que que tá fazendo a parte do do tráfico
de drogas, mas de forma mais
institucionalizada.
E aí, se a gente for olhar, a gente fala
assim: "Não, impossível, esse cara
também não é evangélico porque ele não é
um convertido, um cara que carrega
cocaína no helicóptero não é convertido,
um cara que". Então, a gente vai vendo
que tem outras identidades evangélicas
aparecendo
que provavelmente sejam por conta dessa
dessa culturalização
do que é ser evangélico no Brasil.
E aí cada vez mais essas questões serão
naturalizadas. É o risco que corre por a
gente querer ser uma religião em disputa
aqui com essa hegemonia.
Olha só.
Vamos abrir para umas perguntas aqui.
Gente, como eu falei, se você fizer via
super chat, ela se destaca aqui para
mim, aparece inclusive numa aba
separada, tá bom? Quem é capitalista é o
YouTube, não eu, beleza?
Mas vamos lá, o Kenani aqui, ó, e o
Kenani fez dois reais, gente. Desses
dois reais do Kenani vem 60 centavos
para mim. Vamos lá, o YouTube fica com
tudo, capitalista selvagem. Vamos lá, é,
traficantes aludem Constantino?
É, poder sobre tudo, alguma alusão ou
nem há esse conhecimento histórico e tal
de Constantino e de poder e tal?
Não.
É, eu lembro que quando a gente tava
discutindo muito sobre isso e para fazer
essa pesquisa eu conversei com os
teóricos e com com os moradores locais,
os teóricos sempre diziam assim, isso
não é a religiosidade dele, ele tá
usando do texto bíblico para para
imposição de poder,
mas não era o que eu via lá.
Não é o que eu vejo lá.
É realmente a a a essa construção de
narrativa e de estratégia e de dinâmicas
e de estética e de ética vem de uma
experiência religiosa, mas sem
conhecimento dessa dessa até dessa
figura de Constantino e do que do que
ele representa.
Legal. Teve um super chat aqui do Filipe
Santos que não fez pergunta.
Ah, gente, mais alguma pergunta? Vamos
lá. Filipe Santos, obrigado pela pelo
super chat.
Aproveitem, galera, não é sempre que
esse tema aparece. Tem gente aqui nos
comentários que eu acho que, enfim,
vamos lá. Bibo, tem que vir mais o Rio.
Tá, vou, pode deixar. Eu vou, pior que
eu acho que vou mais duas vezes ainda
nesse Rio. Vocês estão convidados para
virem no Complexo de Israel, Bibo e
André, quando vocês estiverem por aqui.
Eu vou, se eu contigo eu vou, tá? A
gente fala.
É.
Gente, alguém perguntou sobre o nome das
denominações. Isso a Vivi não fala, tá?
Ela já falou no começo da live. Quais
são os nomes das denominações das quais
É, são pentecostais e tal. Ela falou o
nome né do do líder lá do do complexo de
Israel e tal, que inclusive é pastor
numa denominação, mas isso é que ela tem
autorização também para falar. Mais
alguma pergunta André? Mais alguma
pergunta para a Vivi? Alguma coisa
assim?
Porque bem, já perguntamos escatologia
né? Para onde eles querem ir? Uma tomada
de poder, conquistar. No livro da Vivi
gente, a gente tá né? É aqui tem uma
pesquisa completa que a gente só
arranhou a superfície com essa live. No
livro da Vivi
inclusive eu botei link nessa live. Acho
que eu botei o link tá gente? Se eu não
botei o link aqui, você vê se eu botei o
link do livro da Vivi. Acho que botei
né? Capaz que eu ia dar essa mancada.
Boa boa, botei botei. O link o link do
livro tá aqui na live tá gente? Na
descrição da live você tem o link o
livro da Vivi
que eu acho que vai entrar, não sei
ainda, mas talvez vai entrar em promoção
também, mas já tá num preço bacana, mas
vem o Prime Day aí. Então se você ainda
não é Prime, torne-se Prime na Amazon
que vai ter mais desconto ainda, mas se
quiser já meio já adquiriu o preço
também tá bem bem bacaninha tá? Parceria
com a Agora de Books do meu amigo
Maurício Zágari e que trouxe essa obra
aqui para Thomas também poder levar
ainda mais longe. Vamos lá, teve pessoas
perguntando aqui
Vocês mencionaram que o pentecostalismo
levou a realidade para a situação que
está hoje.
Existe abertura para outras denominações
ou ensinos? Eventualmente necessidade de
missões?
Meio que respondemos essa né? Ou não?
Respondemos né? Que tem E aí? Entendeu
Vivi? Quer comentar alguma coisa? Dá
para ampliar alguma coisa?
parte aqui eu acho que eu entendi né?
Que ele fala sobre o pentecostalismo
levar a a realidade para a situação que
está hoje é o pentecostalismo participar
disso. É o André até falou né? Que se a
igreja reformada tivesse lá, talvez
fosse para ficar de reformado, não sei.
Mas mas a gente tem esse movimento
pentecostal crescendo nas periferias,
nas margens e aí é como o Bibo falou
também em outros lugares, na classe
média, classe média alta. Mas o
pentecostalismo sim, esteve ali e e
esses pentecostalismos né? Que vão se
afastando do pentecostalismo clássico,
eh, ou histórico, esses esses
pentecostalismos que vão surgindo, sim,
eh, fo- foram foram muito importantes
para o- ocupados, talvez, das coisas
chegarem onde estão hoje. Mas não só,
né, tem um ethos de violência, um ethos
de guerra. E para se dar conta dessa
violência que se vive na favela, uma
divindade é necessária. Essa divindade
já foi São Jorge, continua sendo em
alguns lugares, em muitos lugares, já
foi alguma e continua sendo em muitos
lugares, mas hoje também é
um Deus, uma divindade evangélica com
essa figura que leva o nome de Jesus,
mas com o arquétipo dessa divindade do
Antigo Testamento. Uhum.
O Luiz Renato pergunta, não sei se ela
falou no começo, como ela decidiu ver
isso pelo olhar sociológico e não
teológico e como ela vê a interface
entre as duas?
A pesquisa foi em Ciências da Religião,
na
na UEMSP, então, eu já estava me
afastando da teologia,
eh, porque inicialmente eu até queria
fazer uma defesa, mas depois eu entendi
que eu precisava entender o fenômeno.
Então, veio a necessidade de eu entender
o fenômeno mais do que tentar defender
essa imagem, eh, de um Deus evangélico
de acordo com o que a gente acredita
nesse cristianismo, né, eh, tradicional,
digamos assim. Mas eu eu percebi que eu
precisava ler o fenômeno. E para ler o
fenômeno de forma teológica, seria mais
uma defesa da fé, digamos assim, um uma
apologética do que uma leitura em si e
eu e eu contribuiria muito menos,
acredito, porque um traficante ou uma
sociedade entendendo o que eu tô dizendo
que um traficante evangélico não pode
ser evangélico, é como se eu tivesse
repetindo o óbvio,
né? E na verdade, o que eu gostaria
mesmo era era trazer essa discussão, de
olhar o que está acontecendo lá, olhar a
narrativa, olhar a linguagem, olhar
esses deuses que nascem dessas
religiosidades e apresentar essa para a
gente ter essas conversas. Legal. O que
você falou é bem importante, viu? Só
deixa eu fazer um comentário, né? É esse
exercício que nós estamos fazendo aqui,
as pessoas não entenderam ainda, não é
uma defesa, é um exercício de
compreensão.
É, a maioria entendeu, tá? Tem um ou
dois aí que tão perdidos nos
comentários. É um é um exercício de
compreensão. Uma vez eu eu dei lá em
Santa Maria, dei uma palestra lá na
época da reforma, estávamos 500 anos da
reforma. Então eu dei uma palestra sobre
a história da reforma e tal. No final um
rapaz veio conversar comigo e me
perguntou, ele era uma igreja batista,
eu sou batista, né? Ele me perguntou por
que que os presbiterianos batizavam
crianças.
Eu expliquei para ele a teologia
presbiteriana e calvinista para o
batismo infantil. Pelo batismo. E "Ah,
que legal, e tu batizou teus filhos?" Eu
"Não, né?"
Aí ele "Mas tu acabou de me explicar".
Eu digo "Cara, tu me pediu para
explicar, eu expliquei de acordo com a
ótica presbiteriana.
Eu sou batista". Aí ele "Então por que
que tu não batizou?" Aí eu expliquei a
doutrina batista. "Ah, tá, entendi".
Mas é que isso é um exercício
importante, a gente não faz porque a
gente parte direto para a apologia,
cara. Antes tu tem que entender o que
que tá se passando lá para não fazer um
julgamento equivocado, né? Exato. Fico
pensando às vezes esses pastores que são
homens de Deus que tão no meio disso,
quando chega lá a mãe do menino que tá
indo para um confronto de de de facções
pedindo para oração para Deus proteger
esse filho. Ele vai vai negar uma oração
dizendo "Não, ele tá indo para o crime,
vai ter que arcar com a consequência".
Sabe?
Então é é são situações que nós não
temos noção de de comunidade, sabe?
Muitas pessoas, André, estão na bíblia.
Tu não quer comprar briga com o o
vizinho do condomínio que é marrento. Tu
imagina você lidar com uma situação lá
dentro, sabe? Então a gente tem que ter
mais um olhar mais piedoso para essas
situações É, muito fácil falar, né? É do
teclado aqui, né? Porque é um absurdo,
eu negaria a oração. Ah, meu amigo, vai
trabalhar na comunidade. Eu conheço eu
conheci um pastor que trabalhou em
comunidade e mano, tendo que salvar a
vida de moça que tava se relacionando
com um cara da outra facção, aí o líder
da facção tem que é o líder da facção
queria matar a menina e o pastor
intervindo "Não, não vai, entendeu? Não,
não, é aí não, a menina tava transando
antes do casamento. É, tem que arcar com
as consequências. Gente, no chão de
fábrica tem hora que, né, não não
funciona algumas coisas. É muito comum
que as mães deles estejam nas igrejas,
as esposas, os filhos.
Então, aí a a o traficante tem família,
né? Tem mãe, tem tem filho, tem esposa.
Tem a fiel, que é a mulher que ele é
casado e as outras mulheres na na
comunidade. Então, assim, a gente
precisa olhar como como cristão e
entender que o reino de Deus veio para
ser manifestado, né? Não para ser
eh de alguma forma acusatório, como que
é a ideia que não, você não é traficante
evangélico, não vou orar por você. Ou
você não merece minha oração, vai lá e
morra, como o André falou. Não dá para
fazer isso. É.
A pergunta do Filipe é difícil de
responder, né? Como isso pode, não, como
isso está impactando, né? Não sei,
assim como, por exemplo, a mistura dos
evangélicos com a política teve impacto
na igreja de Cristo. Ao mesmo tempo,
a política, crente não se mete em
política, que isso não era coisa de
crente.
Cara, pouco tempo atrás, eu cresci em
igreja batista e a gente olhava com maus
olhos o irmão que vai ser candidato a
vereador. Não se mete nisso aí.
E andamos para outro caminho, né? Então,
claro, disso para o crime é um passo
absurdo, mas só para entender que a a
a os, né,
isso estica, isso vai mudando.
Uhum.
Exato. Então, o que o que é que tu
responderia, Vivi, nesse sentido? O que
é que tu acha que está tá impactando na
igreja de Cristo, assim? Eu sei que é
uma resposta longa, mas É, muito
complexo.
Já
já está impactando realmente, como você
falou, não vai impactar, né? A gente já
está impactado por isso. É, mas eu
entendo, Bibo, que quanto mais a gente
se seculariza,
mais a gente se deixa ser apropriado.
Então, a gente está se deixando
apropriar.
E quando você se deixa apropriar, você
se dilui.
Então, o movimento evangélico no Brasil
hoje está crescendo? Tá, mas a que
preço?
Deixa eu dar uma cutucada, Viviane.
Então, quer dizer que no momento em que
a a a religião, vamos falar assim, né?
Ela se
torna uma cultura,
ela representa a vitória da religião,
porque ela se tornou uma supremacia e ao
mesmo tempo a derrota, porque perde o
seu referencial. Exatamente. Ah, isso
tem laço histórico, né?
Isso tem laço histórico, né, gente? Isso
tem Isso tem laço histórico.
olhar para quem a gente invejou durante
tanto tempo, né?
Quem pegou, pegou.
Vamos lá, pergunta do Denilson. Fácil
também de responder, tranquila de
responder. Como reverter essa realidade?
Já vi traficante se fechar centro
espírita em nome de Jesus, botando o pai
de santo para correr e os crentes
comemorando. A gente respondeu mais
Gente, quem chegou na metade do papo,
sério, volte, porque tá muito bom,
beleza? Volte, vai ficar salva essa live
no canal aqui. Volte, que tá muito bom.
Mas aí,
é
Mas
é para reverter a realidade? Não sei se
dá para reverter reverter, Denilson.
Não sei De repente o que o Bibo e o
André De repente tem outra opinião, mas
eu não não sei se dá para reverter. Eu
acho que a gente construiu um caminho
até aqui de forma consciente. A gente só
não conseguiu eh prever os riscos.
Que que eu vou dizer do conforto da
minha da
no meu bairro de classe média em
Florianópolis, eu não sei
o que dizer.
É muito difícil, porque assim, é Eu
penso assim, vou dar uma resposta agora
assim, tipo, meu, no conforto do meu
escritório aqui em Joinville.
Cara, eu acho que não tem como reverter,
eu acho que é um bonde
que já foi, entendeu? Que tá passando já
e tá e tá se transformando, né? E outra,
a gente falou de escatologia de da
mentalidade de traficante, né?
Então, você tem uma uma uma teologia bem
veterotestamentária embasando essas
ações
e uma escatologia de domínio, de posse,
né? Vamos dominar. E o evangélico gosta
desse lance de domínio, né?
O evangélico, não é só o traficante não,
meus amigos, tá? Tem muita teologia aí,
enfim, de
é, de homem branco, é, que é de teologia
de domínio mesmo. Então, o evangélico
gosta da tomada de poder. Então, isso é
um caminho aí sem volta.
Tá? Isso tá acontecendo. Eu acho que a
gente não tem como reverter essa
realidade. Agora, a questão é:
o que a gente, como é que a gente lida
com ela, que é o que acho que a Viviane
tá propondo. É primeiro entender o
fenômeno.
A partir do entendimento do fenômeno,
OK, que, quais ações nós temos, né?
Cara, aí a gente vai cair no ministério
de misericórdia, né? Por exemplo, vários
amigos meus têm
igrejas a próximos a, a favelas, a
comunidades e tão lá servindo a
comunidade.
É, eu tive agora recentemente na igreja
do Kener, você pode conferir a live onde
eu tava, é, sem remédio, sem a dosagem
certa do remédio.
E a, e a comunidade do Kener tá lá
servindo a comunidade.
Entende? E não faz muitas perguntas. Tá
lá servindo o filho dos traficantes, é,
da mãe que vai pro baile e o filho fica
lá na, na, nas casas da comunidade.
Entende? Servindo, tá, tá, o ministério
de misericórdia, entende? E com várias
ações sociais, né? Você pega a igreja da
Ponte no Recife, tá lá servindo a
comunidade do Pilar, né? Um dos piores
IDHs lá da, do Brasil, enfim. Então,
assim, é isso. Acho que isso vai
despertar o ministério de misericórdia.
Porque se a gente ficar só com o
ministério apologético,
enfim, não vai pra lugar nenhum, né?
Porque no, no fundo, vai depender do
quê? Vai, vai
né? Com isso, então, assim, pra você que
é analfabeto funcional,
eu não estou dizendo: "Ah, tudo bem,
galera, continuem. Estamos aqui pra
abraçar vocês". Não é isso que eu tô
dizendo.
Pode parecer, mas não é isso.
Mas é que é uma, é um trem descarrilhado
que a gente não consegue mais botar no
trilho.
Entendeu?
Então, vamos, né? Vai cair um monte,
sempre cai pessoas pelo caminho, sempre
tem aí alguém a, a caído pelo chão. E aí
o Ministério da Misericórdia, conforme a
parábola do samaritano, é isso, cara,
vai ter alguém ali,
a gente não sabe o que que ele tá caído
no chão, mas ele tá caído no chão, né?
Então, Eu acho que tem duas coisas aqui,
 importante de dizer. Primeiro que
lá na, na, na pesquisa da Cristina, que
ela começa a publicar nos anos 2000,
ela diz que os evangélicos locais dessas
favelas dominadas por traficantes
evangélicos começavam a comemorar a
chegada desses traficantes evangélicos
porque eles expulsavam
os, os moradores de candomblé e umbanda
do local. Olha aí.
Então, ela fez uma etnografia, ela
entrevistou as pessoas e nessas
entrevistas
Mano, o que que é etnografia? Tu falou e
eu não sei o que que é. É etnografia?
é um, é um método de pesquisa das
ciências sociais, onde ela vai
reconhecer o campo, descrever o campo.
É, então ela vai dizendo ali, por
exemplo, quantas igrejas católicas tinha
no espaço, quantas igrejas evangélicas
tinham no espaço, quantos moradores
tinham no local, qual era o IDH. Então
ela vai ali apresentar, eh, esse, esse
espaço pra gente com dados e mapeando
mesmo esse, esse espaço. E nas
entrevistas muitos moradores evangélicos
diziam: "Ah, que bom, porque ficava uma
bateção de macumba aqui até de
madrugada, pelo menos eles acabaram com
isso. Ah, que bom, a gente, pelo menos a
gente saía ali, agora tinha um monte de,
de, de oferenda, de despacho, de macumba
na encruzilhada, agora não tem mais,
eles acabaram com isso". Então tinha uma
comemoração dos evangélicos agradecendo
que os traficantes estavam inibindo e
mandando o diabo embora.
Então, o quanto a gente também não
relativiza o que é importante pra gente,
independentemente da mão,
eh, eh, que, que esteja vindo essa
violência. Então assim, quando a
violência era sobre isso, tava ok.
Outro ponto importante é que a gente não
vê os evangélicos, e aqui eu tô falando
dos evangélicos lá nos anos 2000, no
texto da Cristina.
A gente não vê os evangélicos hoje
denunciando a destruição de, de
terreiros de umbanda e candomblé.
A gente não vê os evangélicos, eh, e
aqui eu tô falando de muitos
evangélicos,
dizendo assim: "Olha, tem pessoas usando
o nome de Deus para destruir casa de
umbanda e candomblé na nas favelas do
Rio de Janeiro. Deus não tem nada a ver
com isso". A gente não vê os evangélicos
que defendem a fé evangélica, que se
consideram evangélicos verdadeiros, é,
evangélicos convertidos, vindo a
público, se posicionando, condenando
que isso aconteça. Então,
o quanto a gente também não relativiza o
que é conveniente para para nossa
prática religiosa. As igrejas ganham
mais espaço, as igrejas ganham mais
poder, as igrejas ganham mais segurança
e esses essas casas de umbanda e
candomblé vão sendo destruídas até certo
ponto. É bom, segundo os relatos lá da
Cristina Vital, em outro momento pode
até não ser bom, mas também não é algo
que me incomoda a ponto de eu vir
denunciar e dizer: "Não é só o
traficante evangélico que não que não é
só o traficante que não pode ser
evangélico. O traficante também não pode
destruir um terreiro em nome de Deus".
Não em nome do nosso Deus.
Então, Pô, eu fiz um tweet em ouvir vi.
Eu fiz um tweet, galera, não é legal
ficar falando sobre isso. Poxa, não, eu
fiz na época, ó, não é legal ficar
destruindo as pessoas falando sobre
isso. Não, não muito, não, porque a
gente tá mais preocupado com a questão
sexual, né? A pauta evangélica mais
pública é o que as pessoas fazem com com
o que você fez, mas é isso, é muito
raro. É muito raro. Não é raro, não, é
pouco, mas assim, tem, mas é realmente
não é uma pauta, tipo, amplamente
discutida, isso eu concordo contigo,
isso eu concordo contigo. Gente, algumas
perguntas aqui, é, já foram respondidas
no início da live, tá? O Alexandre que
pergunta, ah, quando se deu essa ruptura
onde a fé evangélica pentecostal se
tornou justificativa para as práticas do
tráfico? Não é que se tornou, é é a fé
que entrou lá e foi
é ressignificada a partir da realidade
deles, né?
E gente, deixa eu deixa eu enfatizar
aqui, sério, é é é um é um é um livro
interessante, tá? É como análise de um
fenômeno que faz parte da nossa história
enquanto evangélicos no país, tá bom
gente? É a análise de um fenômeno que a
gente, é legal a gente conhecer e tá por
dentro e até a ideia dessa live é
fazer você é conhecer esse tema e tal e
saber que
a vida é é é mais complexa. É isso
gente, muito obrigado. Vivi, a sua
palavra final sobre isso, tá? Por
gentileza, sua palavra final e obrigado
por ter aceito o nosso convite, por
ficar essa uma hora com a gente aqui
conversando sobre esse tema tão
complexo.
É muito legal, muito legal. O link para
quem vai comprar tá aqui na descrição da
live, beleza? Fala aí Vivi.
Quero agradecer gente, minha primeira
vez aqui no Bibo, eu já tô falando
primeira vez, né? Óbvio. Ah, gostei,
gostei.
Minha primeira vez aqui, é também
conversando com com o André que que que
foi muito bom de estar tanto na na no
lançamento do livro dele aqui no Rio e
ouvir a fala deles e e essa chave da
leitura do Antigo Testamento para o Novo
e do Novo para o para o para o Antigo, é
é o que tem feito muito sentido nesses
novos pentecostalismos que tem surgido é
no Brasil e na América Latina.
Não dá para a gente olhar para esse
fenômeno como se ele fosse exclusivo
nosso, né? E também não só exclusivo do
do movimento evangélico, como já foi do
católico, como já foi da da da Umbanda e
do Candomblé, mas também não não só
exclusivo do Brasil, é também da América
Latina. Então assim, acho importante a
gente olhar para os riscos que a gente
assumiu no crescimento evangélico, a
gente tá aqui, a gente teve aqui
conversando sobre isso, mas eu queria
convidar quem ouviu é essa conversa,
quem ainda vai ouvir essa conversa, que
continue olhando para o movimento
evangélico e para essa mudança do campo
religioso brasileiro com um olhar atento
para o humano.
Para a pessoa.
Que deuses são esses, que religiosidades
são essas que tem surgido dessas
experiências e dessas leituras do texto
bíblico, dessas experiências religiosas,
é e aí sim a gente vai tá pronto para um
ministério parecido com o de Jesus, para
um ministério de manifestação do reino
de Deus, para dizer: "Venham", como o
Bíblia diz que o Kener tá fazendo aqui
no Rio, "Venham, sentem aqui, comam com
a gente". E na manifestação do reino de
Deus, na troca, no olho no olho, no
exemplo, na na na manifestação do corpo
de Cristo no nosso corpo, eu acredito
que a gente possa retomar, nem que seja
em igrejinhas, em pequenos corpos de
Cristos espalhados eh pelo país, eh a
manifestação e o propósito da igreja de
Deus aqui na Terra.
Muito obrigado, André, obrigado por ter
participado, por ter proposto esse tema,
cara, tamo junto.
Eu que agradeço, aí.
É nós. E ó, gente, eu e o André vamos
estar juntos, hein? Eu, olha, a gente
falou do Kener aqui, a gente falou do
André, a gente vai tá agora nesse sábado
em Florianópolis,
beleza? Ó, eu, Kener e André, Bíblia e
diálogo em tempo de trincheiras. Olha,
vai ser uma continuidade desse papo
aqui, tá? Então, vai ser muito legal,
vai ser lá na PIB de Floripa, mas ó, se
vocês puderem confirmar até sexta-feira,
a gente agradece, né, porque vai ter um
coffee break lá, então a galera tem que
se organizar também. Beleza? Ó, tá, o o
link tá lá na minha bio do Instagram.
Obrigado, Vivi, obrigado André, obrigado
às mais de 300 pessoas que passaram por
aqui na nossa live, ela vai ficar salva
por aqui, você pode assistir o começo e
mandar para quem para alguém que se
interessa pelo tema e o link para
adquirir o livro tá também na descrição
desta live. E se você ainda não é Amazon
Prime, torne-se Amazon Prime, beleza?
Tem desconto aí, 11 e 12 de julho vai
ter o Prime Day, que vai ter muita
oferta, 11 e 12 de julho, mas só para
quem é Prime. Se você ainda não é Prime,
o link tá aqui na descrição e é 14,90,
vale super a pena. Vamos ficando por
aqui, fiquem todos na paz do Senhor
Jesus e é nós.

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