Sermão: A Bíblia e Suas Traduções
18/09/2025
Sermão: A Bíblia e Suas Traduções
Quinto sermão da série "A Bíblia", feito pelo pastor Edson Nunes na igreja Um Lugar Comunidade.
Para ver o culto completo acesse / @umlugarcomunidade
Fonte: Edson Nunes
Legendas automáticas:
Eterno nosso pai e eterno nosso rei. Muito obrigado, Senhor, por Cristo Jesus, a palavra, o verbo que se fez carne. Muito obrigado, porque através dele todos nós temos vida e vida em abundância. Obrigado porque através dele todos nós somos chamados filhos e filhas e chamados paraa tua casa e paraa tua mesa, >> Senhor. Agora, mais uma vez que vamos estudar a tua palavra, a palavra escrita, a revelação escrita, que teu espírito possa atuar na nossa mente, o nosso coração. É o que nós te imploramos em nome dele, Jesus Cristo. Amém, Senhor. Amém. Olá, seja bem-vindo. Muito obrigado por estar aqui com a gente no Teatro All no Shopping Pat Genópolis e muito obrigado por estar com a gente aí na sua casa, no transporte público, no seu carro ou às vezes até no seu trabalho que não é muito aconselhável também, né? A gente tá numa série chamada Bíblia. é uma série eh difícil, porque a gente lida com temas e com coisas que a gente não tá acostumado a lidar e a ouvir e a estudar, mas é uma série extremamente importante pra gente entender o que é esse livro que a gente julga ser um livro sagrado pra nossa existência, pra nossa experiência, pra nossa espiritualidade. E se é esse livro sagrado, a gente precisa entender ele cada vez melhor para entender o que é justo esperar dele e o que aquilo que não é justo a gente esperar do texto bíblico. E a gente tem visto ao longo das últimas semanas questões importantes sobre esse texto, a complexidade desse texto, a complexidade da história desse texto, os manuscritos, né? A gente não tem acesso aos originais, mas às cópias. E hoje a gente vai trabalhar mais um tema espinhoso e complexo, que é o tema da tradução desse texto. Como vocês já viram, pastor Aqueldan falou, esse texto não foi escrito em português, né, nem inglês, nem italiano, esse texto, nem em espanhol. Esse texto foi escrito em hebraico, em aramaico, algumas partes, e em grego, novo testamento. E acho que a maior parte de nós não conhece essas línguas, né? Eh, não tem acesso a essas línguas. O ideal seria que todos nós soubéssemos, mas enfim, nem todos nós podemos estudar hebraico, grego e aramaico, mas seria muito bom se a gente pudesse, vocês iam se deliciar. Mas é um texto escrito em outra língua e a gente vai ler na língua que a gente conhece, na nossa língua materna ou nas línguas que a gente aprende, a gente vai ler essas traduções que foram feitas e a gente precisa entender esse processo eh de tradução. Então, a partir de uma de um resumo, vamos dizer assim, vamos entender essas traduções, a gente pode fazer um resumo, a grosso modo, que é o básico do básico do básico pra gente entender eh como é que funcionam as traduções que a gente tem acesso. Eu não vou fazer aqui nenhum histórico para vocês não ficarem cansados, mas a gente vai trabalhar alguns conceitos bem simples, bem simplórios e bem resumidos. Eh, existem basicamente três tipos de tradução do texto bíblico que vocês têm, que nós temos acesso. Um primeiro tipo que a gente chama de equivalência formal ou tradução literal, que é aquela tradução em que o tradutor ele tá preocupado em manter a forma e o estilo do texto de partida, tá? Do texto de origem. A gente não vai chamar de original para não confundir a cabeça de vocês, mas desse texto de partida da língua que é a língua estranha, que é a língua estrangeira. Também não vou usar a língua estranha que pode complicar a cabeça de alguns. Então essa língua estrangeira, tá? Que nós não temos conhecimento. Então o tradutor nessa equivalência formal, ele tá muito preocupado com essa forma, esse estilo do texto de partida. e ele vai tentar manter a todo custo esse estilo, essa forma na hora de traduzir para paraa língua eh de de destino, né, pro texto de destino. Então, essa tradução mais formal, essa equivalência formal ou tradução literal, um exemplo muito importante que a gente tem em português é Ameida revista e atualizada, tá? que é um texto muito comum, a maior parte de nós já leu esse texto em algum momento da vida e a maior parte dos versos que a gente sabe decora é dessa tradução, porque é a mais foi durante muito tempo a mais popular em língua portuguesa. Uma outra, um outro exemplo é a Almeida corrigida fiel, tá? São dois textos em que a intenção do tradutor é eh a preocupação, vamos dizer assim, do tradutor é mais com o texto de origem, tá? Com texto de saída, né? De partida lá, aquele texto da outra língua, da língua estrangeira. a gente tem o que a gente chama de equivalência, eh, equivalência dinâmica, tá? Ou tradução funcional. Essa equivalência dinâmica ou tradução funcional, ela vai tentar manter uma equivalência, né, entre os textos. Então, ela vai olhar pra forma, olhar pro conteúdo do texto de partida, do texto de origem, do texto da língua estrangeira. e ela vai tentar manter na língua de destino, na língua, né, que você vai ler no português, ela vai tentar manter essa equivalência da forma e do conteúdo, mas ela ao tentar manter o impacto que o texto tinha na língua eh de partida, ela vai talvez às vezes modificar ou mexer em alguma coisa na língua de chegada, tá? porque ela quer manter a a o impacto, ela quer manter a força do texto original. Então, ela vai tentar equivaler, ela vai tentar ser dinâmica, ela não vai manter a forma e o estilo se aquilo não tiver o mesmo impacto em na língua de destino, tá? Entenderam? Mais ou menos? Então, ela teu preocupada com as duas coisas, com a língua eh eh de saída e com a língua de chegada. Ela tá preocupada com as duas coisas. Ela tenta manter esse equilíbrio, né? essa equivalência. E você tem uma tradução que não é a melhor para estudos, mas é uma tradução que tem se popularizado, que é essa tradução parafraseada, né? Você pega o sentido do que foi escrito, o sentido do texto e aí você eh eh coloca na língua de chegada do jeito que vai ser melhor entendido. Isso tem se popularizado muito com diversos tipos de tradução e até de memes na internet, né? Então vocês já devem ter visto aquele videozinho curto, famoso, que é a tradução da da do da galera da, né, dos manos, né? Eh, então tem todo um, e aí o Senhor é meu pastor e tal e tem toda uma mudança lá para pra galera entender o que a Bíblia tá dizendo. Essa paráfrase não há uma preocupação tão grande com a forma e com o estilo. Na verdade, não há nenhuma preocupação, mas há preocupação sim com o entendimento, ou seja, o foco é o entendimento das pessoas, tá? Então, um exemplo de tradução eh formal, de equivalência formal é a ára, que eu já falei ao meio da revista atualizada. Um exemplo de tradução dinâmica, né, de equivalência dinâmica é a Nova Almeida atualizada, que é o texto inclusive que eu tô usando aqui. E um exemplo de uma Bíblia parafraseada, é uma Bíblia muito popular chamada A mensagem que o pastor Eudine Peterson traduziu. É uma Bíblia muito gostosa de ler, que ela é muito fluída, tá? Então são basicamente esses três modelos que a gente tem, a grosso modo. Só que a tradução de um texto é sempre um processo complicado, é sempre processo difícil, não é simples, ainda mais quando envolve um certo uma certa arte, né? Então eu lembro que o primeiro o primeiro curso de extensão que eu fiz assim em Bíblia foi na Universidade Hebraica de Jerusalém e foi sobre poesia bíblica e era uma sala com umas 10, 11 pessoas. Eh, e eu era o mais novo da sala, na época eu tinha 24 e era o mais novo da sala e todo mundo já tinha mestrado, doutorado e eu tava me graduando ainda, né, em teologia e em letras. E aí a galera da sala era todo mundo vinculado a alguma instituição de tradução ou a sociedade bíblica internacional ou algum outra igreja que tinha tradutores que estavam traduzindo a Bíblia para dialetos, dialetos africanos, dialetos asiáticos e assim por diante. Então, era uma um foi um laboratório para mim maravilhoso, porque eu era o mais novinho, eu ficava vendo as discussões sobre como traduzir os salmos, por exemplo, como é que você vai traduzir poesia. E geralmente a pros ela usa palavras que são mais comuns, que são mais normais na língua, mas a poesia não. A poesia vai usar a palavra mais rebuscada, vai usar construções sintáticas diferentes, vai usar uma forma eh mais complexa e tal. Então, traduzir poesia e manter a poesia como poesia é uma tarefa ercúlia, é muito complexa. E essa, aliás, por exemplo, é uma das grandes críticas que se fazem, que se faz a uma das traduções também muito populares, chama a Bíblia de Jerusalém, né, que é uma tradução católica, que na parte da poesia a galera ficou muito livre, foi traduzindo meio, né, eh, como a chave e tal. Então é muito complexo e além dessa complexidade de entender as palavras, de entender a sintaxe, a frase, a organização e tudo, você tem dificuldade de entender o estilo literário. Então o tradutor, ele tá sempre dependente, em primeiro lugar, de dicionários. Maior parte das vezes o tradutor, ele não é um etimólogo, ou seja, ele não estudou a origem das palavras, ele não é um filólogo, ele não sabe, ele não estudou as palavras em si, a formação das palavras, etc. Então ele vai precisar de dicionários, dicionários etimológicos. Da onde é que vê essa palavra, de que em que língua ela se originou? O que que ela queria dizer na língua de origem? Como é que ela era usada? Como é que ela tá sendo usada na Bíblia e assim por diante. Então ele vai depender de outros recursos. E esses recursos eles foram se desenvolvendo com tempo, eles não foram não apareceram do nada, né? Então, por exemplo, a primeira tradução ah do texto do hebraico para outra língua, o grego, a septoaginta, a famosa septoaginta, a gente, vocês falaram eh semana passada, pastor Marcelo falou um pouco, você tem são rabinos, são judeus que tm o conhecimento hebraico traduzindo pro grego, né? Então você vai ter ao longo da história processos de tradução que vão depender de uma pessoa, de duas pessoas que são as únicas naquele contexto que tinham o conhecimento da língua de dos manuscritos bíblicos. E elas vão depender de acessos a dicionários, a estudos etimológicos e tal. Mas além disso, tem a questão do estilo, do gênero literário, da da das construções literárias do texto bíblico, que é um conhecimento que aconteceu ou está acontecendo nos últimos 50, 60 anos. Então, a partir do final da década de 70, início da década de 80, que se começou a estudar de verdade, de fato, os estilos, eh, digamos, os gêneros literários do texto bíblico. Ou seja, a maior parte das nossas traduções antigas, elas não têm essa preocupação com o estilo literário, com o gênero. Hum. Como é que ele escreveu? Em que gênero literário ele escreveu? Vou dar um exemplo que é um um um exemplo controverso, já me rendeu problemas no passado, então não vai ser novidade para ninguém, mas vocês vão entender. O livro de Ester, então é um parênteses, tem três livros no Antigo Testamento que são discutidos pelos rabinos sobre a presença dele eh desses três livros no canon, que é o livro de Ester, uma questão da aparição de Deus ou não, dirigindo o processo. O livro de Cântico dos Cânticos, pela sexualidade, sensualidade envolvida no livro, e o livro de Eclesiastes, por ter um tom muito pessimista, tá? Eles vão discutir se esses livros deveriam estar no canon, ou seja, o canon já estava fechado. Vocês vão, a gente vai discutir isso semana que vem, no último episódio da série. O canon já tava fechado e eles ainda estavam discutindo se deveriam estar no canon ou não. Fecha parênteses. O livro de Sterro a gente descobriu mais recentemente que ele foi escrito em forma de comédia. Ele é um estilo de comédia. Só que quando a gente fala em comédia no Brasil, a gente vocês logo pensam em trapalhões, né? O Didi, o Dedé, o Mussum, Zacarias e tal, é torta na cara. Aí você pensa na flor do palhaço que sai água e tal. É esse estilo que a gente pensa. E obviamente comédia não é isso, vocês sabem disso. Isso daí é pastelão, né? Mas a comédia é aquele texto que é feito para as pessoas rirem, né? Pr as pessoas rirem. É um texto com caricaturas, né? Mas já viram a caricatura? Você, o que que você faz na caricatura? Você realça algum elemento da pessoa para causar risada. Então, no meu caso, a pessoa geralmente realça o meu nariz e a minha barriga, né? Então, numa caricatura fico com narigão e com barrigão, porque é para causar riso. Às vezes a gente não gosta, né? Ou vocês filmam de baixo para cima aqui, aí fica só minha barriga e posta o vídeo na internet, fica bom. Pois é, né? A vida, né, que eu vou fazer. Mas Estter tá escrito nessa forma de comédia pr as pessoas rirem. Tá? Então, por exemplo, Amã, que é o grande vilão do livro de Ester, Amã é um paspalhão. Ele é um vilão que ninguém tem medo, porque tudo que ele faz dá errado. Lembra disso? Ele quer ser exaltado pelo rei, o rei exalta Mardoqueu. Ele quer matar Mardoqueu, ele acaba morrendo no lugar que ele construiu para matar Mardoqueu, na foca. Vocês lembram das histórias? Então ele é o cara que ninguém tem medo porque tudo que ele faz dá errado. Então ele é um vilão para você rir dele. E aqui um outro parênteses, gente, quando a gente fala que é comédia, a gente não tá dizendo que a história é engraçada, é que a pessoa escolheu contar a história de uma maneira engraçada. Não quer também dizer que a história aconteceu ou não aconteceu. Não estamos discutindo a questão histórica. Pela fé a gente acredita que aconteceu. Tão entendendo? Então a questão é, o narrador escolheu contar essa história da maneira para você rir. Então a mã esse vilão paspalhão. Aí você tem uma parada engraçada que é uma crítica ao império medopersa, só que é uma crítica feita de um jeito engraçado. Os correios do império medopersa são a coisa mais impressionante da antistória antiga. Porque o rei dá assina o decreto no mesmo dia, todo mundo já sabe. A parada faz que nem internet. como se tivesse celular na época. A notícia já sai na hora. Então o narrador ele tá zombando do império medopés ao dizer que os correios eram a melhor coisa que acontecia lá. O rei não decide nada. O rei hora tá na mão de um, hora tá na mão de outro. Ele nunca é um cara que toma decisão por ele mesmo. Ele é sempre influenciado pelo outro. Por é um livro escrito para as pessoas rirem. E como toda boa comédia é um livro que tá zombando de quem tem o poder. A comédia é feita maiormente para zombar de quem tem o poder. Então esse livro é para zombar do império medopers e para mostrar o caráter resoluto e perseverante dos judeus. Isso é um estilo. Só que os nossos tradutores para todas as línguas, inclusive inglês, etc. portuguesa, eles não tinham esse conhecimento dessa sutileza eh da comédia, do gênero comédia no texto bíblico, do uso das metáforas, dos antropoformismos, que é essa maneira de colocar Deus com reações humanas, eles tinham dificuldade. Então eles vão ter dificuldade com várias coisinhas que vão acontecendo no texto bíblico. Por exemplo, o nome Elohim, substantivo Elohim é um substantivo plural. Ele tá no plural, a terminação dele é de plural. Então o singular seria eh eloá, el e tal. É o substantivo deus singular, mas ele aparece no no texto bíblico maiormente no plural, Elohim. Só que Elohim é um designativo de divindade. Então Baal é Elohim, Marduk é Elohim, os deuses são Elohim dos povos. E na Bíblia, Yahu é, Javé é Elohim. Então ele fala: "Eu sou o Senhor Yahweu é teu Elohim". Entenderam? Aí alguns descobrem: "Ah, Elohim tá no plural". Bom, o povo era politeísta porque Elohim é deuses no plural. Só que acontece um fenômeno na Bíblia que a maior parte das vezes, a esmagadora maioria das vezes em que a palavra Elohim aparece, o verbo está no singular, porque ele tá se referindo a um Deus. Isso, por exemplo, Gênesis capítulo 1, verso 1. No princípio criou Deus os céus e a terra. O nome aqui, o substantivo aqui é Elohim, mas o verbo bará está no singular, só que acontece um fenômeno. Então, vamos ler, por exemplo, Êxodo capítulo 32, na história do bezerro de ouro. A Arão convoca todo mundo para entregar joias e tal, não sei o que lá. Aí diz o texto, verso 4, Êxodo 32, verso 4. Este, recebendo-os das mãos deles, trabalhou o ouro com buuril e fez dele um bezerro de metal fundido. Então disseram: "São estes, ó Israel, os seus deuses que tiraram você da terra do Egito?" Aqui o tradutor mantém Elohim com verbo no plural para justamente passar a ideia de deuses. E o contexto aqui é de uma adoração pagã. Eles vão adorar uma imagem. Tão entendendo? Só que, por exemplo, quando você abre a sua Bíblia em Gênesis capítulo 20, você tem um fenômeno interessante. Aqui é a história de Abraão com Abimelec. Abraão meio que mente dizendo que Sara era irmã dele. Eu não vou nem entrar nessa discussão que eu acho que Abraão mente duas vezes, mas isso é uma outra discussão. Então aqui Abraão mentiu que Sara era irmã. Abimelec quer casar com Sara. Sara já tava esperando o filho da promessa. Deus aparece para Abimelec em sonho, que a primeira vez que Deus aparece em sonho para alguém é para um rei pagão. E Deus fala: "Olha, Sara, ô Abimelec, você não pode casar com Sara, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal". Aí Abimelec vai conversar com Abraão e fala: "Abraão, Abraão, que que que é isso que você fez, bicho?" Aí Abraão vai se explicar. Aí ele diz assim: "É que eu pensei, certamente, capítulo 20 verso 11, certamente não há temor de Deus nesse lugar e eles me matarão por causa da minha mulher. Por outro lado, ela é de fato minha irmã por parte de pai, mas não por parte de mãe e veio a ser minha mulher." Verso 13. Quando Deus me faz sair de casa, me fez sair de casa na casa do meu pai para andar errante por aí, eu disse a ela: "Olha, faça um favor para mim. Em todo lugar que nós formos, você dirá que eu sou o seu irmão." Só que aqui, quando ele fala, quando Deus me fez sair de casa, na verdade o texto tá com Elohim e o verbo no plural. Então, a tradução do texto deve assim: "Quando os deuses me fizeram sair de casa, eu falei com Sara: "Olha, diga para todo mundo que a gente é irmão". Então, em Êxodo 32, o tradutor traduziu Elohim no plural, porque o verbo estava no plural. Mas em Gênesis 20, o tradutor escolheu não traduzir Elohim no plural, mesmo com o verbo no plural. Por quê? Porque ele pensou assim: "Bom, Abraão aqui já tá adorando a Deus. O nome dele já foi mudado. Abraão não é mais politeísta como aqueles que estão em volta dele, mas ele é monoteísta. Então o manuscrito deve est errado, deve ter algum equívoco aqui. Eu vou corrigir esse equívoco para as pessoas entenderem que Abraão já é monoteísta. Então, o tradutor, ele toma uma decisão de traduzir de um jeito e é uma decisão que não é uma decisão textual, é uma decisão ideológica, filosófica, doutrinária, o que você quiser chamar. Tão entendendo? E aqui não significa pensar que Abraão é politeísta ou moniteísta. Talvez essa nem seja o problema. Talvez Abraão estivesse se comunicando com Abimelec da maneira que Abimelec entendesse. E Abimelec era politeísta. Então ele pode ter falado, ó, quando os deuses, em vez de falar quando deuses, ele foi quando os deuses me fizeram sair e tal. Mas você entende que é uma decisão do tradutor traduzir desse jeito? Vocês entendem, né? Outra decisão interessante em em Êxodo capítulo 31, se você quiser ir lá comigo, em Êxodo capítulo 31 tem um texto que fala do sábado, que é assim, ó, capítulo 31 verso 17. Quando Deus tá falando do sábado como o sinal da aliança e tal, ele diz assim, verso 17, entre mim os filhos de Israel é sinal para sempre, porque em seis dias o Senhor fez os céus e a terra e no sétimo dia descansou e tomou alento. Então aqui a gente vai ter na Nova Almeida atualizada a palavra alento. Aí eu notei aqui as outras traduções. Na NVI vai dizer que Deus descansou e não trabalhou. Naara vai dizer que Deus descansou e tomou alento, assim como naa. Só que no hebraico tá chavat vai na faixa. Chavat significa descansar, mas vai na faixa vindo o verbo na faixa que significa respirar, da onde inclusive vem o substantivo nefes, que é alma, respirar, é e enfim. Então aqui basicamente pelo modo verbal que tá na faixa, significa que Deus descansou e puxou ar. Sabe o gordinho quando sobe escada? Eu subo escada, chega no final da escada, como é que o gordinho tá? Ofegante. Aí você para no final da escada, bota a mão assim, vai. Você puxa o ar, não puxa o ar? Então, o texto tá dizendo basicamente isso. Deus, no final dos seis dias, no sétimo dia, ele descansou e puxou a, recuperou o fôlego como se Deus tivesse cansado de tudo que ele fez. Tão sacando? Só que o tradutor falou assim: "Mano, Deus respirar, Deus ter que, como um gordinho subir na escada, ter que puxar ar, isso é muito antropomórfico." Eu não vou traduzir assim. Vou dizer, ele tomou alento, ele deu uma descansadinha, deu uma deitadinha e tal, pá. Não vou traduzir Deus puxou ar. Então o tradutor fez uma escolha e ele vai fazer várias escolhas. As mais engraçadas para mim são as de Cântico dos Cânticos. Porque os caras quando foram traduzir, eles olharam, falaram assim: "Cara, não dá para traduzir como tá aqui, porque como é que a Bíblia vai ser tão sexual assim?" Então, tem alguns cânticos, no meio de cântico dos cânticos, tem algumas alguns poemas que são: "Ora a mulher descrevendo o homem e ora o homem descrevendo a mulher". E aí tem aquelas partes engraçadas, né? Tipo, seus olhos são de pombas, pô, olho de pomba, coisa estranha para caramba. Aí tem seus seios são como duas gazelas também. É um negócio estranhíssimo, gazela, né? Enfim, tem todo uma explicação, mas tem umas partes de da descrição que são engraçados, porque o tradutor falou assim: "Cara, eu não vou traduzir o que tá aqui, eu vou usar um outra parede." Falou assim: "A tua barriga é como uma plantação de trigo". Plantação de trigo? Que que ele quis dizer com isso? Tem furinho, balança para um lado e pro outro. Aí logo depois de falar de de barriga com trigo, fala do umbigo. Ter umbigo é uma taça, não sei o que lá. Só que o texto não tá falando da barriga, tá falando de uma região um pouquinho mais ao sul da barriga. E umbigo não é umbigo, é outra coisa que ela tá que ele tá, na verdade ela ele tá dizendo para ela que ele quer tomar aquela taça, entendeu? Então é um convite muito mais sexual, mas o tradutor olhou e falou assim: "Cara, eu não posso traduzir assim porque vai chocar, galera. Como é que a Bíblia tem um texto que o cara tá dizendo que quer, né, fazer um negócio com a mulher ali? Não dá. Então vamos trazer um eufemismo, dar uma limpada no exagero do texto bíblico. O tradutor tá pensando isso. Você tá entendendo o processo? São escolhas que o tradutor vai fazer. Talvez algumas escolhas sejam um pouquinho mais teológicas e passem imperceptíveis pra gente, como por exemplo, o famoso texto de Gênesis, capítulo 1, verso 1 e 2. No princípio, criou Deus os céus e a terra. A terra, porém, era sem forma e vazia, e havia trevas sobre a face do abismo, e o espírito de Deus pairava por sobre as águas. Aqui é uma discussão histórica. histórica que eu quero dizer de hoje 2200 e tantos anos. Como traduzir a expressão torro vavorro, que é um par de palavras torro vavor. Torro vavor aparecem juntas. Esse par de palavras aparece junto três vezes. Uma vez em Êxodo, uma vez em Gênesis, aqui capítulo 1, outra vez em Jeremias, capítulo 4, e outra vez em Isaías. Torro aparece sozinho na Bíblia 20 vezes. Algumas pouquíssimas vezes Torro aparece com sentido abstrato. E só no livro do profeta Isaías, a maior parte das vezes a ideia de torro e quando aparece torro vavor, quando aparece junto nessas três vezes em Jeremias, em Isaías, a gente consegue perceber isso, a ideia de que é um deserto sem vida. É um lugar que não tem nada, não tem animais, não tem pássaros, não tem mamíferos, não tem, não tem luz, tem nada. É um deserto sem nada, sem vida. Então, geralmente essa é a ideia do texto quando a gente analisa o hebraico. Só que aí quando foram traduzir, eu anotei porque grego não é muito minha área, quando eles foram traduzir para Septoaginta, influenciados por uma filosofia grega, pelo helenismo e tal, os tradutores traduziram torro vavo, a aoratus, acatasqueuastos. Esse acatasteuastos, que ostus é uma pax legómena, só aparece uma vez na Septoaginta, tá? E a ideia, basicamente dessas duas palavras é traduzir a seguinte impressão de que a Terra era invisível e não formada. invisível e não formada. E essa essa ideia dos tradutores a partir da influência da filosofia grega permaneceu ao longo do Novo Testamento. Tanto é que em Hebreus capítulo 11, quando a gente lê lá a fé, o filme fundamento das coisas que não se vem, pela fé, nós cremos que Deus fez o visível a partir do invisível. Então essa ideia é mantida. Mas já no segundo século depois de Cristo, há uma tentativa de combate ao gnosticismo. A ideia do demiúgo, de derivação, de que a a Deus, a matéria são derivados dessa divindade máxima, não sei o que lá e tal, tal, talá. Então, vai haver uma necessidade de comprovar uma ideia de que Deus criou a matéria, de que a matéria não é derivada de nada, de que a matéria, a materialidade das coisas, a matéria mesmo é feita por Deus. E aí para atender esse essa ideia, esse combate a uma filosofia para criar essa construção, começa a falar de criação exnihilo, ou seja, criação a partir do nada. Deus é o que antecede a matéria. Deus é o que antecede o tempo. Portanto, tudo que foi feito foi feito do nada. E aí eles vão dizer: "Bom, o verbo bará, que é o verbo criar, só aparece quando Deus é o sujeito. E se Deus é o único que bará, então ele criou a matéria e ele criou o tempo. E Deus está fora do tempo e Deus está fora da matéria. Mas esse não é um conceito bíblico, esse é um conceito filosófico para combater uma filosofia. E aí isso foi jogado no texto bíblico e a tradução melhor passou a ser a Terra era sem forma e vazia. Essa ideia de que não tem forma não tem matéria. E Deus cria a matéria. Então, e aí mais recentemente a discussão é o caos acuoso. Aí não é mais torro vavor, agora é terrom. Eles vão dizer que terrom, que é a palavra abismo, é uma divindade e que Gênesis 1 foi escrito para combater essa essa ideia dessa divindade e Terron aparece ali por causa disso. E aí então vocês já ouviram falar disso, alguns provavelmente de que Gênesis 1 está falando de um caos acuoso. É Deus lutando contra os monstros do mar, contra o terrom. E aí, Gênesis 2 é o caos terroso, porque a terra não tinha nada, não sei o que lá, tal, tal, tal. E Deus vence o caos, que também é uma ideia que não está no texto bíblico. Não há caos, não há luta. Aliás, quando a gente entende o estilo literário de Gênesis 1, a gente entende que Gênesis 1 é um relato. É basicamente um relatório, não é uma narrativa. Sabe por quê? Porque não tem embate, não tem enredo. É um relatório. Aconteceu isso, aconteceu aquilo, aconteceu aquilo, aconteceu aquilo, aconteceu aquilo. Ponto final. Então, Gênesis 1 é uma espécie de introdução sumária. No princípio criou Deus os céus e a terra. Pum. Gênesis 1 2 é uma descrição de cenário e Gênesis 13 em diante é um relatório do que aconteceu. E ele vai contar 10 coisas que aconteceram porque a expressão e disse Deus aparece 10 vezes, tá entendendo? Então não tem nem enredo, não tem como ter caos porque não tem enredo, não tem luta. Só que o tradutor vai tomar decisões baseado no quê? Na doutrina, na filosofia. E essas decisões vão afetar a maneira que a gente lê, porque a gente vai ficar refém desse tradutor. Por isso, pessoal, vamos estudar todo mundo hebraico, aramaico e grego. Mas falando sério, qual é a grande questão aqui? Isso é muito importante. É importante a gente entender que a tradução é também refém de pessoas. de circunstâncias, de doutrinas. Eu poderia citar inúmeros exemplos para vocês. Tem textos em que a palavra sacrifício aparece que a palavra sacrifício não tá lá. Aí a nossa reação é: "Nossa, então a gente tem que desconfiar do texto bíblico." Então não é isso que a gente tá fazendo aqui. Eu acho que talvez esse seja o problema, né? Algumas pessoas não entendem qual é o propósito. Qual é o propósito? é fazer a gente refletir sobre a complexidade do que é o texto bíblico. Quando a gente fala assim que usando, né, segundo Timóteo 3 verso 16 e 17, que foi o que a gente falou no primeiro sábado dessa série, no primeiro no primeiro episódio dessa série, a Bíblia é inspirada. O que que é essa inspiração? A gente conversou aqui. Essa inspiração é comunicação de vida. É Deus comunicando vida através da Bíblia. E como isso vai funcionar? Vai funcionar só com o autor lá que escreveu com Moisés, com Paulo. Só ele foi inspirado? Não, ele foi inspirado. Ele recebeu vida, o autor, Moisés, Paulo, todos os autores. Mas recebeu vida também aqueles que copiaram. Mas receberam vida também aqueles que traduziram. E recebemos vida nós que lemos, que estudamos. E como é que esse processo funciona? Justamente nessa tensão da gente entender o que a Bíblia é e o que a Bíblia não é. Da gente entender as complexidades e limitações da Bíblia e da gente entender aquilo que é transcendente nela também, que é essa ação divina através dela na nossa vida. Então, entender esse processo é essencial paraa nossa maturação na fé. A gente precisa sair de um lugar de infantilidade em relação à Bíblia, como se ela tivesse descido do céu, pronta, toda escrita e perfeita e entregue. Não é assim. São processos históricos, circunstanciais, complexos e difíceis. E quando a gente fala de tradução, o conceito melhor é o conceito de retas paralelas. Qual o conceito de retas paralelas? Não importa quão próximas as retas paralelas estejam, elas nunca se encontram. E a ideia de tradução é justamente isso. A tradução é uma aproximação do texto, não é uma justa posição, é uma aproximação. Então, todo tradutor tá buscando se aproximar ao máximo possível do texto, mas é impossível que essa aproximação seja plena e completa. Como é impossível que você hoje, mesmo sabendo hebraico, grego, aramaico, leia o texto bíblico e entenda exatamente o que tá escrito ali. Por quê? que há um distanciamento histórico, circunstancial e você vai conseguir estudar a circunstâncias e a histórias a partir da lente daqueles que estudaram por você, os etnólogos, os filólogos, os historiadores. Vocês entenderam? Então isso deve fazer a gente fazer, isso deve isso tudo deve levar a gente a duas coisas. E eu vou bater nessa tecla. Primeiro, estudar mais. mais e com profundidade sair dessa infantilização da nossa relação com a Bíblia, como se a Bíblia fosse um livro mágico que a gente deixasse aberto em casa e protegesse a casa toda. Como se a Bíblia fosse esse negócio fácil de Senhor, me mostra a tua resposta, pum, abre a Bíblia, tá lá a resposta. Não é isso. É um texto extremamente poderoso, mas ele é difícil, ele é complexo, ele tem camadas e camadas e camadas que precisam ser estudadas. E sabe quantas dessas a gente estuda? Nenhuma. Você não é só através de mim, de pastor, de líder. É você precisa estudar mais, precisa ler mais, precisa buscar mais. Esse é o primeiro ponto. E o segundo, para estudar a Bíblia você precisa orar. e precisa pedir a ação do Espírito Santo em você para que aquele estudo, aquela leitura comunique vida para você, comunique transformação. E é isso que falta pra gente. A gente quer água com açúcar, leitinho com Nescal. A gente não quer a parada difícil, suco de abacaxi e limão sem açúcar, tá ligado? Que é difícil de tomar. Mas já experimentaram tomar suco de limão sem açúcar antes de comer? Gordinho sabe das coisas. Escutem isso. Quando você toma suco de limão antes do almoço assim, sem açúcar, as suas papelas gustativas ficam realçadas e aí você vai sentir muito mais sabor da comida. Vai por mim. Fecha a parêntese. O estudo da Bíblia com o Espírito Santo, ele é isso. Ele é o suco de limão. Você vai se aprofundar, mas vai realçar o sabor das coisas. Resumidamente, uma imagem para ficar na sua cabeça. A tradução é um filme preto e branco. A tradução é um filme preto e branco. É ótimo. As nossas traduções são ótimas. Eu elenquei alguns problemas aqui, mas elas são ótimas, mas elas não são filme colorido. E para chegar nesse filme colorido, você precisa de muito estudo e de muita oração pedindo o Espírito Santo para atuar na sua vida. E essas tensões entre a grandeza e a limitação da Bíblia, entre as dificuldades da Bíblia e o poder que exala dela, porque ela apresenta para nós Jesus Cristo, que é a palavra encarnada. Essas tensões, elas vão fazer com que a gente cada vez mais se relacione com ela de uma maneira mais profunda, mais íntima e mais conectada com o Espírito Santo de Deus. Eterno nosso pai e nosso rei, muito obrigado pela tua palavra, o p minúsculo, pela tua bíblia. Muito obrigado, porque essa revelação ela não é fácil, ela não é simples, ela não veio pronta, ela exige de nós estudo, ela exige de nós compromisso, ela exige de nós profundidade. E por favor, Senhor, nos ajude a sairmos desse lugar de infantilidade na nossa relação com a Bíblia e buscarmos cada vez mais profundidade no nosso estudo dela. Ao mesmo tempo, Senhor, nos conceda o Espírito Santo para que ao estudarmos a Bíblia, ela continue conferindo, comunicando vida e vida em abundância. E que ela nos aponte, Senhor, paraa realidade plena da tua revelação, que é Cristo Jesus. Esse sim, a palavra com Púsculo, a palavra que se fez carne. É o que nós te imploramos em nome dele, Jesus. Amen.