Sermão: Entre a Lei e Os Profetas
25/09/2025
Sermão: Entre a Lei e Os Profetas
Sexto sermão da série "A Bíblia", feito pelo pastor Marcelo Rezende na igreja Um Lugar Comunidade.
Para ver o culto completo acesse / @umlugarcomunidade
Fonte: Edson Nunes
Legendas automáticas:
Nosso Deus, nós te louvamos pela tua graça, pela tua bondade. Estarmos juntos aqui é um presente dessa graça e dessa bondade. O acesso que nós temos à tua palavra, a consciência do evangelho em nós e teu espírito em nosso coração. É por isso que nós agradecemos a ti e nós pedimos que esse momento seja um momento de edificação, de crescimento, um momento de receber a tua mensagem pra nossa vida, pro nosso coração. Se derrame sobre todos nós aqui agora. É o que nós te pedimos em nome de Jesus. Amém. Amém. Amém. Meus queridos, bom dia, bom sábado para vocês que estão aqui no Shopping Pátio Higópolis, no Teatro Hall. Paz de Jesus no coração de todos nós. Para você também que tá acompanhando a gente em outro momento, em outro lugar. Paz de Cristo também para vocês. Nós estamos hoje finalizando a nossa série sobre a Bíblia e e eu gostei de usar esse negócio aqui, sabe? Então vou usar de novo aqui com vocês hoje, porque a gente vai fazer aqui uma viagem pela história e a gente vai conhecer aqui algumas figuras importantes que vão ajudar a gente a entender aqui o nosso tema. Nós falamos sobre a Bíblia, falamos sobre eh a forma como a Bíblia chegou até os nossos dias, sobre a qualidade da inspiração da Bíblia. Falamos sobre o contexto cultural dos autores da Bíblia. Nós falamos sobre a maneira como o texto foi transmitido e como ele chegou até os nossos dias. Nós falamos sobre as traduções da Bíblia e as dificuldades envolvendo as traduções da Bíblia e a forma como os tradutores também enxergam o texto e a maneira como eles vão verter esse texto nas línguas modernas para as quais eles traduzem. Nós olhamos a Bíblia de uma forma geral e uma frase que pode resumir tudo que a gente falou aqui sobre a Bíblia e ela já foi dita aqui outras vezes, eu vou repetir aqui para vocês, é a frase: "A Bíblia não caiu do céu." Vocês ouviram essa frase aqui sendo dita várias vezes, né? "Ela não caiu do céu, não foi um download divino, uma coisa que veio pronta. Ela é fruto de um processo, ela é fruto de uma interação entre eh o Espírito Santo, entre Deus e os homens. Por isso que a melhor analogia, para se entender a Bíblia é a analogia da encarnação. Como Cristo é Deus em carne humana, é Deus homem, a Bíblia é a mensagem de Deus dentro da limitação da cultura e da expressão humana. Então essa analogia da encarnação é a melhor forma pra gente poder entender a natureza da Bíblia. Falar sobre a Bíblia é importante, é necessário, mas é difícil, porque muitas vezes eh eh determinadas ideias da Bíblia elas vão se chocar com pressupostos que as pessoas têm a respeito da natureza do texto sagrado. Então, por exemplo, vocês já ouviram muita gente dizendo: "A Bíblia é inerrante, a Bíblia é infalível, a Bíblia é verbalmente inspirada". Já ouviram essas expressões, não é? E muitas pessoas usam essas expressões sem entender o que elas significam. O cara crê na Bíblia, entende a Bíblia como palavra de Deus autorizada. Então ela é inerrante. Ele não sabe o que significa inerrância do ponto de vista teológico. Não, ela ela é inerrante porque ela é infalível. Uma coisa não tem nada a ver com a outra, entende? Tá ligado? Mas não é assim. A a doutrina da inerrância, o dogma da inerrância, para vocês terem uma ideia, ele foi sistematizado mesmo no século XX. E a ideia de que a Bíblia não é apenas a regra de fé e de prática para as pessoas, mas ela também é autoridade. Ela é insenta de erros no que diz respeito à história e ciência. Então eu tenho que harmonizar a história e a ciência com a Bíblia, entendeu? Porque ela é autorizada do ponto de vista da história e da ciência. Isso é inerrância. Inspiração verbal já é uma outra coisa. É a ideia de que Deus inspirou não os autores para escrever, mas Deus inspirou as palavras que eles escolheram para escrever. Os caras foram uma espécie de caneta divina, entendeu? O cara vai escrever a Bíblia, Isaías ali, então o cara sabe aquela coisa, tá ali psicografa o texto praticamente, entende? É a ideia da inspiração verbal. E a gente viu aqui que se se a inspiração verbal apareceu lá nos textos originais, com o passar do tempo, foi meio sendo perdida, porque variantes entraram no texto. Nós vimos isso aqui quando a gente estudou a transmissão do texto, não é? Eh, infalibilidade é outra coisa. A Bíblia é infalível não que diz respeito à história e ciência, mas no que diz respeito à capacidade, o poder que ela tem de transmitir a mensagem de Deus e a mensagem de Cristo para todas as pessoas. No que diz respeito à a à salvação, no que diz respeito à espiritualidade, no que diz respeito à mensagem do evangelho, ela é infalível. Percebe como são conceitos diferentes e todo mundo coloca como se fosse uma coisa só, não é? Falar sobre a Bíblia é complicado. E hoje eu quero abordar aqui o último tema dessa série, que vai tratar de um outro assunto também complexo, que é a formação do canon da Bíblia. Palavra canon significa literalmente régua, de medir. Você mede alguma coisa. Então ela é a régua, né? O que é canônico é aquilo que é oficial, aquilo que é medido, aquilo que é o correto, entendeu? Aí vem a ideia canon, tá? A formação do canon da Bíblia. E para começar falar a respeito desse assunto com vocês, eu quero ler um texto do Evangelho, onde Jesus fala sobre a importância de se buscar a verdade e de se conhecer a verdade. E o texto que eu leio aqui diz o seguinte, presta atenção. Jesus diz: "Não cesse aquele que procura de procurar até que encontre. E quando encontrar, admirar-se há e admirado reinará. e tendo reinado, descansará de novo. Jesus diz: "Se os que nos arrastam vos disserem: Eis o reino no céu, as aves do céu passar-vos à frente". Se vos disserem que o reino está debaixo da terra, entrarão os peixes do mar à vossa frente. O reino de Deus está dentro de vós e fora. Quem se conhecer a si mesmo encontrará este reino, e quando vos conhecerdes, sabereis que vós sois filhos do Pai vivo. Se não vos conhecerdes a vós mesmos, estais na indigência e sois a indigência. Jesus diz: "Um homem velho de dias não hesitará em perguntar a um rapazinho de sete dias acerca do lugar da vida e viverá. Porque muitos primeiros serão últimos e os últimos primeiros e tornar-seão um. Jesus diz: "Conhece o que está sendo diante do teu semblante e o que está escondido de ti sertiá revelado pois não há coisa escondida que não se tornará visível, nem coisa sepultada que não será levantada". Você poderia dizer amém aqui para esse texto de Jesus? >> Amém. >> Amém. Vocês acabaram de dizer amém pro Evangelho apócrifo de Tomé. Pois é. Jesus não disse isso que eu falei aqui para vocês. Ou se disse, falou diferente. Sabe aquela coisa, fala, mas fala diferente, né? É. Pois é. Esse evangelho não é o evangelho canônico, é o evangelho apócrifo com umas notinhas assim místicas e gnósticas de Tomé. Parece até algumas frases de Jesus, né? Quando a gente lê assim algumas frases com as quais nós estamos familiarizados, mas ele carrega a ideia de que você conhece você mesmo, você conhece Deus e que o conhecimento de Deus é uma coisa misteriosa, restrita apenas a alguns poucos iniciados. Essa faz parte de uma teologia que foi se manifestar lá no segundo, no terceiro século da nossa era. E não foi o apóstolo Tomé que escreveu esse evangelho aqui. Uso o nome dele, mas não foi escrito por ele. É só para dar uma autoridade para que esse texto seja mais aceito pelas pessoas, né? Agora fica a pergunta: por que então alguns evangelhos foram tirados ou não entraram na lista do canon e alguns entraram? Quem escolheu os livros? Quando esses livros foram escolhidos? Quando que eles passaram a ser aceitos? Qual a intenção das pessoas que organizaram essa lista? Como que a gente pode conhecer essa história? Vocês já ouviram várias histórias a respeito disso? Várias lendas e teorias são apresentadas sobre a formação do canon da Bíblia. Eu quero fazer hoje com vocês aqui uma viagem na história para poder explicar um pouquinho a respeito disso, tá? Quando a gente abre uma edição comum da Bíblia, como essa que eu tenho aqui na minha mão, que eu uso aqui, a Nova Almeida atualizada, a gente vê as listas dos livros que fazem parte da Bíblia. São 39 do Antigo Testamento e 27 do Novo Testamento. Só que nem sempre foi assim. Para vocês terem uma ideia, várias denominações cristãs t canons diferentes. A a a igreja Etíope, ela tem um canon de mais de 80 livros. Aqui vocês estão vendo 66. A Igreja Cristã Etípe tem mais de 80. A Bíblia católica tem livros que não aparecem aqui. A organização da Bíblia hebraica é diferente dessa que vocês estão vendo aqui. Vocês terem uma ideia? Aqui eu tenho um exemplar do tanar. Que que é tan? Tanar é o que a gente chama de Antigo Testamento, tá? A Bíblia dos judeus. Então você tem três sessções, a Torá, os profetas e depois os escritos. Perceba que não existe Novo Testamento na Bíblia hebraica, tá? É só o que a gente chama de Antigo Testamento. Ele não termina em Malaquias. A Bíblia hebraica vai terminar, é que aqui cortou, né? Não dá para ver, mas a Bíblia hebraica vai terminar em segundo Crônicas. O Antigo Testamento cristão termina em Malaquias. falando do Elias que viria, olhando pra vinda do Messias. E o Evangelho de Mateus começa apresentando João Batista. Percebe o link que faz, né, a ideia da profecia do Antigo Testamento e o cumprimento em Jesus novo. O canon judaico termina em segundo crônicas uma ordem do rei Ciro para que o povo volte da Babilônia e reconstrua Jerusalém. Então, termina passando um uma visão geral da história de Israel, tendo no foco a terra prometida sendo devolvida para eles. Esse é a ideia teológica no final do cano da Bíblia hebraica, como a gente conhece, tá? Então, a ordem dos livros ela parece diferente. A septoaginta, que é a tradição, a tradução do hebraico pro grego, que foi feita no terceiro século antes de Cristo, ela traz também uma outra ordem de livros e livros a mais que a gente nem conhece. Aqui você começa a perceber, ó, começa aqui a lista, ó, Gênesis e vai, vai que olha quantos livros você encontra na Septoaginta. Então, além dos que a gente conhece, você vai achar sabedoria de Salomão, você vai achar os livros Tobias, Judite, Macabeus, primeiro Macabeus, segundo Macabeus, terceiro Macabeus, quarto Macabeus, odde de Salomão, vai encontrar acréscimos o livro de Ester, acréscimos no livro de Daniel, você vai encontrar vários outros textos que a gente não tem baru, né, que vão aparecer aqui. Alguns aparecem nas edições católicas da Bíblia, outros não. Então, é uma outra listagem, é uma outra organização que você encontra aqui na Bíblia Católica. Aqui é uma Bíblia de Jerusalém que eu coloquei para vocês verem. Vocês vão perceber que a divisão de três que você vê lá na Bíblia hebraica, não é? Torá, profetas e escritos. Torá, neviim e ketuvim. O acróstico fica tan por isso que é chamado de tanar, o Antigo Testamento, tá? Essa divisão ela não aparece nas bíblias católicas aqui. Então você tem o Pentateuco, os cinco livros de Moisés, livros históricos, você tem aqui livros poéticos e sapienciais que eles chamam, você tem livros proféticos e o Novo Testamento, como a gente conhece. E aqui você encontra sabedoria de Salomão, Eclesiástico, além do Eclesiastes, você encontra também eh os livros de Baru, você encontra Macabeus, primeiro Macabeus, segundo Macabeus, né? Então, alguns livros da Septoaginta eles aparecem aqui no canon da Bíblia Católica. Então, é difícil, é complicado falar sobre o canon da Bíblia, a história da Bíblia, porque até a maneira de você se referir à Bíblia é difícil. Se você fala assim, Antigo Testamento e Novo Testamento, você tá carregando teologicamente essa definição. Porque quando você fala antigo, dá ideia de ultrapassado, dá uma ideia de coisa que venceu, perdeu a validade. É o Antigo Testamento, o Novo, só que é importante, entende? Se você fala Bíblia hebraica para se referir ao Antigo Testamento, você também não tá sendo muito correto, porque a Bíblia não tá escrito toda em hebraico, tem textos em aramaico na no Antigo Testamento. Então, Bíblia hebraica também não faz ju. Se você chamar o Antigo Testamento, como alguns falam, né, de uma maneira mais politicamente correta, o primeiro testamento pro judeu não é primeiro testamento, porque o judeu não tem o novo, é um testamento só. E se você fala primeiro testamento, o novo vira o segundo. Se ele é segundo, ele perde a importância, entendeu? Tá em segunda categoria, segundo plano, entende? Você ofende alguns, percebe como é que é complicado falar, não é? Então é difícil até a a a forma como a gente se refere a esses textos. E como é que o canon foi sendo formado? O cano foi formado num processo de maneira muito lenta. Mais ou menos 400 anos antes de Cristo, a Torá, os livros de Moisés, Gênesis, Êxodo, Levítico, Número e Deuteronômio, eles já estavam bem firmados, bem reconhecidos e aceitos por todo mundo, pelo menos os judeus ali que liam a Bíblia, que liam a escritura. Então, você já tem a Torá já consolidada. A septoaginta, que é a tradução da Torá, ou melhor, a tradução do Antigo Testamento, ela começa através da Torá. Ela começou traduzindo a Torá e depois, lentamente ela foi traduzindo os outros textos hebraicos. Por volta do segundo século e já comecinho da era cristã, você já tem os profetas já assim mais consolidados, alguns ainda são discutidos, mas a terceira sessão chamada de escritos, ela tá aberta. Então, não tenho consenso sobre quais livros fazem parte dessa sessão. Isso na época de Jesus. E ainda um outro detalhe interessante, vários outros textos que são considerados apócrifos, eles eram considerados como escritura inspirada nesse período. Porque existe uma definição que eu queria colocar para vocês aqui, pra gente poder entender melhor. Eh, o conceito de escritura, ele é anterior ao conceito de canon. Escritura é todo texto que tem autoridade, texto autoritativo, texto inspirado, texto que eh tem o poder de ser referência de ensino. Isso é escritura. Então, seria uma espécie de canon um. Tá me referindo aqui para ficar mais fácil, mais técnico. Canon um é escritura. Canon do é a lista dos textos inspirados. Então, muitos textos canon um que eram reconhecidos na na no passado, não entraram no canon do. Quando você lê o Antigo Testamento, por exemplo, você vai perceber a menção de vários livros da Bíblia que a gente não tem, que se perderam. Livros das guerras do Senhor, visão do profeta Ido, visão do profeta Natã. Nunca li esse livro na vida, né? Mas eles são mencionados lá. São textos que eram considerados canon um. tiveram um período de autoridade, eles foram reconhecidos, mas eles eram limitados na sua influência e acabaram não entrando no canon dois na lista final, entende? Tem muito disso quando você começa a perceber a história como esse cano vai sendo formado. Então é importante a gente entender isso. E no primeiro século, na época ali de Jesus, o canon tava aberto. Quando você lê, por exemplo, os manuscritos do Mar Morto e você percebe toda aquela coleção que foi encontrada lá no deserto da Judeia, e eu falei disso para vocês aqui da vez que eu preguei sobre a história da transmissão do texto, a gente vê eh livros que não entraram na Bíblia, no Antigo Testamento, mas eram considerados escritura inspirada, como, por exemplo, primeiro livro de Enoque, livro do jubileu e rolo do templo. Eles liam esses textos como escritura inspirada. E para vocês terem uma ideia, o livro de Enoque, ele aparece no Novo Testamento, um livro que é um livro apócrifo, que não foi escrito por Enoque, entendeu? Ele aparece no Novo Testamento. Esse texto aqui, ó, é de Enoque. Diz assim: "Olhem que ele vem com uma multidão de seus santos para executar o julgamento sobre todos e aniquilará os ímpios e castigará toda a carne por todas as obras ímpias, as quais ele hão perversamente cometido, e de todas as palavras altivas e duras que os malvados pecadores falaram contra ele." E aí Judas, que escreve a carta de Judas, Judas, irmão de Jesus, irmão de Thago, não é? Não é o Judas Iscariotes, embora tenha o Evangelho de Judas Iscariotes, né? Eu eu eu tenho, eu já li várias vezes. É é uma viagem, é um é surreal, né? É interessante, né? Mas olha só, Judas, né? O irmão de Jesus, ele vai dizer o seguinte: "Foi a respeito deles que também profetizou Enoque, o sétimo depois de Adão, dizendo, ele atribui ao Enoque lá de Gênesis esse texto e não foi Enoque escreveu, percebe?" E ele diz isso. E ele fala assim: "Eis que o Senhor vem com milhares de seus santos para exercer juízo contra todos e para convencer todos os ímpios a respeito de todas as obras ímpias que praticaram e a respeito de todas as palavras insolentes que os ímpios pecadores proferiram contra ele." O mesmo texto que eu li para vocês, percebe? Enoque 1 verso 9, tá citado no Novo Testamento. E ele cita também um outro texto que se perdeu, que chama A assunção de Moisés. Quando ele fala de Miguel contendendo contra o diabo pelo corpo de Moisés, aquele é um texto apócrifo, entende? Para ele é escritura um, é um texto que tem autoridade, mas não entrou na Bíblia e não é reconhecida dessa forma. Entende como é que é coisa complexa? Então o canon tava aberto nessa época e muitas pessoas eh eh tinham acesso a outras tradições de texto. No finalzinho do primeiro século, a gente já começa a perceber o indício dessa divisão de lei, profetas e escritos. Flávio José, que é o historiador conhecido, ele faz menção a 22 livros da Bíblia hebraica e ele meio que estrutura entre lei, profetas e escritos dos antepassados. Ele vai falar assim. Então, a gente vê mais ou menos essa essa partição em três, né? O canon tripartite da Bíblia hebraica. Eh, a gente também vê uma ideia assim no Evangelho de Lucas, quando fala que Jesus falou tudo que a respeito dele constava na lei, nos profetas e nos Salmos. Diz assim: Salmos se referindo a essa sessão dos escritos. A gente não sabe se é porque era o primeiro livro que abria a sessão ou se porque era o livro mais importante, mas mostrando que havia ainda uma coisa nebulosa nessa parte dos escritos, eles estavam abertos, entendeu? Então a gente percebe isso, né? Existe uma história que eu não sei se alguém aqui já ouviu falar de um concílio que acontece no ano 90 da nossa era, o concílio eh de Jamena, o concílio de Avne, quando os rabinos judeus que sobreviveram à destruição de Jerusalém no ano 70, eles vão se reunir e vão fechar o canon da Bíblia hebraica, deixando de fora os livros chamados deuterocanônicos ou os apócrifos da Septoaginta, entende? Só que esse concílio não aconteceu dessa forma, tá? é mais uma além dessa história. Houve sim uma escola de tradição judaica em Avne, fundada por um rabino chamado Yohanan Benzakai. Mas ali a discussão deles era como manter a identidade judaica agora que eles não tinham mais o templo. E eles vão discutir sim sobre textos da Bíblia. Eles vão discutir a respeito da validade ou não de alguns textos. Por exemplo, Eclesiastes foi discutido, Cântico dos Cânticos, que é muito sensual, né? foi discutido também o livro de Ester, foi discutido para ver se ele era ou não era um livro inspirado ou não. Então, essas discussões sobre o cano, elas vão se arrastando até final do segundo século. Esse camarada aqui chamado Melito de Sardes era cristão, diz a história que ele viaja para Jerusalém por volta do ano 170 para querer descobrir qual era a ordem do canon que os judeus usavam do Antigo Testamento. E ele é um dos primeiros que vai se referir, um dos primeiros cristãos que vai dizer que eles tinham um Antigo Testamento. Ele vai dizer assim. E vai dizer também que esse Antigo Testamento era composto da lei e dos profetas. Então ele ele faz uma lista parecida com aquela que a gente conhece, mas ele deixa de fora o livro de Ester, mostrando que o livro de Ester também não era um livro muito bem aceito até final do segundo século, né? Então, as discussões vão acontecendo e quando a gente olha a Septoaginta, que é a tradução do hebraico pro grego, a coisa fica muito mais complicada ainda, porque como eu disse para vocês, ela vai sendo traduzida num processo lento, né? Vai começando lá no terceiro século e até no segundo século ela ainda não tava consolidada, a septoaginta. E é a Septoaginta, que é a tradução grega do Antigo Testamento que os cristãos vão usar. Paulo vai citar a maioria dos textos que Paulo cita. Todos são da Septoaginta. Ele faz algumas outras versões dele, ele tem algumas outras versões, mas a maioria é Septoaginta. Os cristãos vão estar usando a Septoaginta. E a Septoaginta, ela vai incluir não apenas livros considerados inspirados pelos judeus, mas ela é uma coleção de cultura judaica. Então ela vai trazer também escritos que foram produzidos e foram eh compilados tempos depois dos profetas. Então vai aparecer os Macabeus, vai aparecer Tobias, Judite, Baruque, tudo isso que eu mencionei para vocês aqui como coleção judaica. E essas coleções circulavam e os judeus que viviam fora da terra de Israel, eles usavam a Septoaginta e os cristãos também foram influenciados por ela. Então, que tipo de septoaginta os apóstolos conheceram, a gente não sabe, porque não havia um livro encadernado para se comprar na livraria, entendeu? Septoaginta não tinha isso. Uma coisa é fato, eles não citam esses livros aqui deocanônicos de maneira explícita no texto do Novo Testamento. Algumas alusões parecem que você encontra aqui e ali, mas eles não são citados assim. Se eles aceitavam ou não, a gente não sabe, mas o fato é que os cristãos depois dos apóstolos, eles usam a Septoaginta e e eles aceitam esses livros como parte do canon do Antigo Testamento. Então, a gente percebe isso. Agora, pra gente fechar aqui essa história do Antigo Testamento, que que a gente aprende disso aqui? O canon bíblico não existia como uma lista fixa nessa época, até final do segundo século, entende? Havia uma ampla variedade de textos autoritativos, incluindo a Torá, os profetas e outros escritos. O conceito de escritura era muito mais fluido, aberto à tradição oral e escrita e ainda possível de debate e passível de debate, porque eles vão discutindo isso com o passar dos séculos. A septuaginta servia como a Bíblia dos primeiros cristãos, trazendo inclusive os douterocanônicos que influenciaram fortemente a fé primitiva. Então é isso que a gente entende desse período da história. E para vocês terem uma ideia, esse aqui é o códice de Alepo que eu já mostrei para vocês já, né? O códice de Alepo aí famoso, né? O Códice de Alepo, que é do século X, ele não termina com o Segundo Crônicas, ele termina com Esdras. É o último livro, porque o finalzinho do livro de Esras, ele diz assim: "Lembra-te de mim, Deus, para o meu bem". A palavra Elohim e a palavra T. Bom, então Elohim e Tov é um eco a Gênesis 1. Viu Deus tudo aquilo que ele havia feito, Elohim e viu que era muito bom. Tov meod, muito bom, sabe? Então é uma forma de harmonizar o final com o começo, entende? Essa era a ideia de quem organizou o cano. Para vocês terem uma compreensão que até o século X as ordens ainda eram muito fluidas, percebe? Da Bíblia que a gente tem aqui. O Novo Testamento, então, é outra história, gera uma outra complexidade, tá? A gente eh tem assim no Novo Testamento grupos de textos que foram feitos num período muito curto, no primeiro século, diferente da Bíblia hebraica, que são séculos de escrita, de revelação. O Novo Testamento, ele é produzido num período muito curtinho. E quando a gente começa a estudar a história da circulação do texto, a gente começa a perceber que logo no início as cartas de Paulo começaram a circular como uma coleção e eles eram considerados escritura. autoritativa pelos cristãos. As cartas de Paulo. E é interessante que a forma como essa coleção é montada, ela vai seguindo uma estrutura, um padrão. Então, quando a gente percebe assim manuscritos eh das cartas de Paulo que sobreviveram até os nossos dias, manuscritos muito antigos, eles têm uma organização muito parecida. A coleção começa com Romanos, depois você tem Primeiro e Segundo Coríntios, aí você tem Gálatas. Algumas coleções vão colocar Hebreus como carta de Paulo, outros não. Hebreus é meio contestada, mas a gente vê também um padrão assim como se existisse um um arquétipo de autoridade, uma uma recensão que foi feita do texto lá no passado que serviu de modelo pros demais, entende? Você tem as cartas agrupadas assim, primeiro as cartas para as igrejas, depois as cartas pros indivíduos. E você tem assim as cartas sempre colocadas juntas, né? as as que são duplas colocadas juntas. Primeiro e segundo Coríntios, primeiro e segundo Tessalonicenses são colocadas juntas assim. Entende onde veio essa ordem? E outra coisa, quando as cartas foram escritas e enviadas, Paulo não colocou assim: "Carta de Paulo aos Romanos, título" e escreveu o texto. Ele não pôs título, não tinha título, entende? E como é que todo mundo sabia direitinho quem eram os destinatários dessas cartas? E nunca ninguém levantou dúvida a respeito disso, entende? Porque tudo leva a indicar que lá no princípio alguém ligado a Paulo, algum dos seus colaboradores ou até mesmo o próprio Paulo, começou a organizar essas cartas, esse canon, e por isso ele foi considerado autoritativo e modelo para todo mundo seguir depois. Mas a ordem das cartas, como a gente conhece, e a posição delas no Novo Testamento só vai aparecer como definitivo no século IX na tradição bizantina do texto grego, que é o que a gente tem hoje, tá? Até lá a coisa vai sendo bagunçada e tem carta que é aceita e tem carta que não é aceita, né? Os evangelhos eles vão sendo reconhecidos como autoritativo logo no começo. Mateus, Marcos, Lucas e João. E esse camarada aqui, Justino Mártir, ele lá no por no meado em meados do segundo século, ele vai dizer que os cristãos costumavam se reunir para ler a memória dos apóstolos, os evangelhos e os profetas. Então eles liam os evangelhos e os profetas. Isso já era costume. Porque ao contrário do que muita gente dizia no passado, a ideia de que os evangelhos foram escritos para comunidades isoladas, os cristãos não eram isolados. Havia uma internet gospel naquela época ali, entende? Havia uma rede assim, sabe? Uma rede social mesmo, assim. Eles utilizavam toda a estrutura do Império Romano para poder comunicar, mandar cartas e livros uns pros outros. Então eles tinham acesso aos escritos. E os evangelhos eles não são escritos para comunidades locais, eles foram planejados para serem lidos de maneira ampla para várias pessoas, entende? E eles começaram a circular com muita intensidade. Tanto que em meados do segundo século eles já eram lidos pelos cristãos os evangelhos, né? E principalmente os quatro que a gente conhece que são vistos como autoritativos, tá? Eh, só voltando aqui um pouquinho, essa sessão aqui da Bíblia é a que vai sendo mais discutida nesse período. Você tem aqui os evangelhos, as cartas de Paulo, e você tem as cartas chamadas de epístolas gerais ou cartas católicas. Católico aqui não no sentido da igreja católica, tá? Católico no sentido da palavra que significa universal. Cataicó em grego, universal, tá? Então, as epístolas gerais e elas são sete, Tiago, duas de Pedro, três de João e uma de Judas, o irmão de Jesus. E esse Tiago aqui é o irmão de Jesus, tá? Não é o apóstolo nenhum dos apóstolos, é o irmão de Jesus que se converteu depois e se tornou o líder da igreja de Jerusalém. Esse Thiago é irmão desse Judas aqui, entendeu? E por que Tiago, Pedro e João? Porque lá no texto do Novo Testamento, eles são reconhecidos como as colunas da igreja, Pedro, Tiago e João. E essa coleção forma sete cartas e sete também é um número simbólico. Então ela foi organizada propositalmente, pegando escritos desses desses dessas três figuras principais e Judas também para, ao que tudo indica, né, isso, as pesquisas modernas elas vão nessa direção para contrabalancear a teologia de Paulo, entende? para dar uma visão da liderança de Jerusalém ao evangelho que Paulo pregava. Lembra das disputas do concílio de Jerusalém, aquela questão de judeus, gentios, de lei, de obras, entende? Então, para dar uma balanceada a visão dos evangelhos segundo as colunas das igrejas da igreja de Jerusalém. Então, por isso você tem essa coleção aqui. Mas essa coleção, ela não foi aceita assim de maneira pronta. Origens que escreve no terceiro século da nossa era, ele não aceitava todos esses livros. Ele cita segunda Pedro, segundo a João, mas tem alguns que ele ainda tem reserva e ele não vê isso como uma coleção fechada. A gente só vai enxergar esses sete sendo mencionados por Eusébio de Cesareia, que vai escrever sobre eles no quarto século da nossa era. Eusébio de Cesareia apresenta as sete cartas, mas algumas ele considera falsas, ele não aceita todas elas. Então ele tem dúvida com algumas dessas cartas aqui. E isso no quarto século da nossa era. Vocês verem como que a coisa é lenta, entende? Como o período é lento. O primeiro canon cristão que a gente conhece foi organizado por esse camarada aí, ó, Marcião de Sinope, que não é nenhum brasileirinho do Mato Grosso, não, tá? Sinope aí é na Turquia, não é no Mato Grosso, né? O Marcião é considerado um herege, por quê? Porque Marcião, ele não aceitava o Antigo Testamento, nem o Deus do Antigo Testamento. Ele dizia que o Deus do Antigo Testamento era mau e o Deus do Novo Testamento é bonzinho. Então essa ideia de que o Deus do Antigo Testamento é uma coisa, do Novo é outra que a gente vê até hoje, né? É a ideia do Marcião. Então o que que Marcião faz? Ele vai editar um canon da Bíblia que vai tirar todo o Antigo Testamento. Ele rejeita três dos quatro evangelhos. Ele aceita só o de Lucas e ele edita ainda o Evangelho de Lucas e só algumas cartas de Paulo. Essa é é a Bíblia do Marcião. E aí quando Marcião começa, né, a desenvolver essas teorias, os cristãos vão começar a organizar listas para poder combater a heresia do Marcião para mostrar de fato quais eram as escrituras que representavam a identidade da ortodoxia cristã. Entende? É aí que começa a aparecer o canon. E você vê Irineu de Leão no final do segundo século ou Irineu de Leon, né, que vai organizar um canon falando dos quatro evangelhos contrariando Marcião e das cartas de Paulo, incluindo cartas que Marcião não aceitava, tá? Então isso no final do segundo século. E aí vem o tal do Concílio de Niceia. Vocês já ouviram essa história de que Constantino, que era o imperador romano, que havia se convertido ao cristianismo, Constantino no ano 325, no Concílio de Niceia, ele editou a Bíblia. Já ouviram essa história, né? Que ele que definiu os livros da Bíblia, ele tira aqueles que falavam de um Jesus diferente, né? E ele escolhe aqueles que defendiam o pensamento dele, a ortodoxia cristã. E isso é muito popular no Código da 20, né? No livro Código da 20, que muita gente leu aí. Só que isso é uma lenda, isso é uma história que não tem base nenhuma na realidade, entende? Porque no concílio de Niceia, o canon não foi discutido. A discussão do concílio de Niceia era a natureza de Jesus, divino, humano, se ele era gerado, criado. Essa é a discussão principal do concílio de Niceia. Constantino queria unificar a teologia cristã e ele vai discutir esses assuntos no concílio de Niceia. Mas ele deu um empurrão pra formação do canon, porque ele vai pedir pro Euseb de Cesareia produzir 50 cópias da Bíblia para ser usadas nas igrejas de Constantinopla. E o Eusébio lá que eu mencionei para vocês, ele vai montar um canon, uma lista. E nessa lista de Eusébio, ele vai dividir a lista em duas partes. Homologúmena, que são aqueles incontestáveis e aceitos, e antilegômena, tá? Aqueles que ele tinha dúvida. Então ele vai colocar aqui os quatro evangelhos, os Atos, as cartas de Paulo juntamente com Hebreus, primeira Pedro, primeira João e Apocalipse de João. Isso para ele é indiscutível. Só que ele tem dúvida sobre Tiago, Judas, segunda Pedro, segunda e terceiro a João. Ele não tem muita, bota muita fé nesses, não, entende? Mas essa é a lista que o Eusébio vai fazer, tá? E a gente tem um outro testemunho também do do canon do Novo Testamento, que é esse texto que vocês estão vendo aqui. Ele é chamado de fragmento muratoriano. Esse texto que vocês estão vendo foi descoberto no século XVI e ele é uma tradução, uma tradução do original que era grego pro latim. Alguns dizem que esse texto data do final do segundo século. Outros vão dizer que não, ele é do quto século da nossa era. Ele vai mostrar os livros do Novo Testamento como a gente conhece. Tá? Então, o canon muratoriano vai trazer Mateus, Marcos, Lucas, João, Atos, as cartas de Paulo, eh, Tiago, Primeira e Segunda, João, Judas, Apocalipse de João, mas também vai trazer o apocalipse de Pedro como parte do Novo Testamento, que é um livro considerado apócrifo, entende? Então, também é uma lista que não tá lá muito fechada, como a gente conhece. Esse aqui é um manuscrito que eu já mostrei para vocês. É o, opa, passei aqui. É o manuscrito do códice eh, do códice sinaítico. O códice sinaítico traz os 27 livros do Novo Testamento, os livros da Septoaginta, como aparece na Bíblia, nas Bíblias Católicas. Ele vai trazer toda essa coleção, só que ele vai trazer a epístola de Barnabé e o pastor de ermas como parte do Novo Testamento. E isso no quarto século da nossa era. Para vocês verem também que até aí o cano não tava fechado. A coisa só vai começar a ir para uma definição maior lá no finalzinho do quto século. Atanás de Alexandria, esse ilustre senhor que vocês estão vendo aqui, ele é o primeiro que faz a lista dos 27 livros do Novo Testamento, como a gente conhece, tá? E ele vai chamar de Antigo Testamento e Novo Testamento. Ele vai colocar o padrão que a gente conhece. E esse padrão ele é reafirmado e votado, reconhecido pela igreja no concílio de de Cartago que acontece em 419 da nossa era. O Concílio de Cartago vai fechar o Novo Testamento como a gente conhece e a Bíblia, o Antigo Testamento, conforme as Bíblias católicas que a gente tem também. é o que vai ser firmado lá no Concílio de Cartago. Mas ainda assim a discussão permanece, porque até hoje em vários grupos cristãos o Antigo Testamento não é consenso, não é a mesma coisa, não é igual, entende? Então existe discussão a respeito disso. Qual é o padrão para se escolher esses livros que fizeram parte do Novo Testamento? Aqui você tem o padrão que eles usaram. Primeiro, apostolicidade tem que tá ligado a um apóstolo ou alguém ligado diretamente a um apóstolo. Ortodoxia tem que ensinar a verdade sobre Jesus e Deus, conforme a gente conhece desde o princípio, tá? Antiguidade tem que ser lá do primeiro século, eles falam. Inspiração tem que ser inspirado. Só que nem todo livro inspirado entrou também, né? Tem o cano um que eu expliquei para vocês também tem isso e catolicidade, ou seja, a amplitude do uso. Catolicidade aqui é a amplitude, sendo usado pelo maior número possível de igrejas cristãs e reconhecido por elas. Então o canon, ele não foi votado, ele foi sendo reconhecido com o passar dos séculos, entende? e num trabalho muito lento, muito moroso. E aí a gente chega na parte final, que é na época da reforma protestante. Martim Lutero, ele vai traduzir a Bíblia do grego e do hebraico pro alemão, da época dele. E e ele, ao contrário do que muitos dizem, ele não tirou livros da Bíblia. Lutero dizia o seguinte, que a base de autoridade é só a escritura, não os concílios da igreja, a escritura e a autoridade. E fala assim: "Ah, ele dizia só a escritura, mas ele mesmo tirou os livros que ele não concordava". Não é bem isso que acontece. O que Lutero vai fazer é optar escolher pelo canon hebraico. Ele quer aquilo que na cabeça dele é o mais original. Então ele vai se limitar ao canon hebraico. E o canân hebraico não inclui os deuterocanônicos, que os protestantes vão chamar de apócrifos, entende? Esses livros da Bíblia Católica que eu mostrei para vocês, tá? Esses livros eles foram realmente votados e inseridos mesmo em 1546 no concílio de Trento, que é o concílio da contrarreforma para combater as ideias de Lutero. É ali no século X que eles vão ser firmados mesmo como partes da das Bíblias Católicas de maneira indiscutível. E depois no primeiro Concílio do Vaticano eles são mais uma vez reafirmados. Mas é só aí, entende? Só nesse momento aí. E aí você vê a Bíblia católica, ela é assim com os deuterocanônicos fazendo parte. Tobias, Judite, primeiro e segundo Macabeus, sabedoria, Eclesiástico, que não é o Eclesiastes, tá? Baru Estter com acréscimos, tem partes a mais, diferente do hebraico, e Daniel com acréscimos. História de Susana, Bel e o Dragão, aparece tudo aqui em Daniel, no livro das Bíblias católicas, tá? Então, é uma leitura interessante, faz parte. É legal ler esses livros aqui, mas há disputas entre grupos religiosos. O fato, meus queridos, é que esse negócio do canon é uma discussão que envolve muito autoridade. Quem comanda, quem define, quais grupos religiosos vão determinar o que é autoritativo, o que não é autoritativo. Então, há uma disputa de controle de autoridade para poder declarar o que é canônico e o que não é canônico. E aí a pergunta que fica pra gente é: qual é realmente a fonte de autoridade para você descobrir a verdade da escritura? Tá? Onde que eu posso realmente descobrir a verdade da palavra, da escritura de Deus para mim? Lutero, quando ele vai organizar a Bíblia dele, olha que coisa interessante, né? Essa é a Bíblia de Lutero. Ele vai formar o canon dele e ele tinha dúvida sobre Hebreus, sobre eh Tiago e sobre a carta de Judas. Então ele vai montar o canon dele do Novo Testamento, mas ele vai deixar no final, olha, depois de das três cartas de João, ele vai colocar Hebreus, vai colocar Tiago e vai colocar Judas. Então, as Bíblias luteranas têm uma ordem diferente dos livros do Novo Testamento, diferente dessas que vocês usam aqui, percebe? Por causa da do conceito de Lutero. Lutero não tira esses livros porque eles eram reconhecidos pela igreja. Ele tinha dúvidas sobre eles, mas ele inclui numa a parte na Bíblia dele. É o que ele faz. Eu quero ler para vocês, para falar da autoridade da palavra. O texto agora da Bíblia é canônica, tá? Não é apócrifo, não. Não é pegadinha, não. Tá bom? Mateus capítulo 17. Quero ler para vocês Mateus 17 do verso 1 ao verso 8, que diz assim: "Seis dias depois, Jesus tomou consigo Pedro e os irmãos Tiago e João, e os levou em particular a um alto monte. E Jesus foi transfigurado diante deles. O seu rosto resplandecia como o sol e as suas roupas se tornaram brancas como a luz. E eis que lhe apareceram Moisés e Elias falando com Jesus. Então Pedro, tomando a palavra, disse a Jesus: "Senhor, bom é estarmos aqui. Se o Senhor quiser, farei aqui três tendas, uma para o Senhor, outra para Moisés e outra para Elias." Falava ele ainda quando uma nuvem luminosa os envolveu. E eis vindo da nuvem uma voz que dizia: "Este é meu filho amado, em quem me agrado. Escutem o que ele disse." Ao ouvirem aquela voz, os discípulos caíram de bruços, tomados de grande medo. Jesus aproximou-se e tocou neles, dizendo: "Levantem-se e não tenham medo". Então eles, levantando os olhos, não viram mais ninguém, a não ser Jesus. Eh, o texto aqui do Evangelho diz que Jesus ele toma os seus discípulos e ele sai da região aqui da da Galileia, onde ele geralmente ficava, e ele vai mais ao norte de Israel, para esse lugar aqui, ó, Cesareia de Felipe. Ele vai para lá. E a região de Cesareia de Felipe, quando hoje você visita esse lugar, quando a gente vai para lá, vocês vem aqui, isso aqui não é nuvem, não, tá? Isso que vocês estão vendo aqui, ó, nessa no final da estrada é o monte Hermon. E esse pico nevado aqui do monte é o ponto mais alto da terra de Israel. Tá sempre nevado o monte Hermon. E ele vai para essa região, mais precisamente para esse local aqui que é a Cesareia de Felipe. Hoje é chamado de Bnias esse lugar. Bânias. Por quê? Porque aqui era a região mais pagã do território de Israel. Aqui nesse lugar, o deus Pan era adorado. E eles acreditavam que essa caverna que vocês estão vendo aqui era um portal pro mundo inferior dos espíritos. Então, vários rituais. Eu não tenho tempo para descrever o que acontecia aqui, mas era bizarro o que acontecia nesse lugar. E Jesus vai para aí, para esse lugar, né? Tem até um parêntese interessante aqui, não sei quantos assistem a série Chosen, mas num dos episódios da série Chosen, ele vai para aí, quando ele vai conversar com os discípulos a respeito do que eles achavam que ele era. Ah, Jeremias, João Batista, mas e vocês? Quem vocês acham que eu sou? Aí Pedro fala: "Tu és o Cristo, filho de Deus vivo". E ele diz: "É sobre essa pedra que eu edificarei a minha igreja". Lembra desse episódio, né? Acontece aí e lá na série Tos eles reconstrem esse lugar. E quando os discípulos chegam, eles não mostram na série, mas eles fazem assim, eles fazem umas caras assim de noja, ah, daquilo que eles estão vendo. Porque o que acontecia aí era bizarro e eu tenho censura para descrever o que acontece aí, entende? Não dá, é tarja preta mesmo que acontecer. E é paraí que Jesus vai. E nesse lugar, ainda hoje, quando a gente visita esse lugar, a gente vê nichos na parede onde os ídolos, os deuses ficavam. Vocês terem uma ideia de como era pagão mesmo esse lugar. E ele vai para aí. E é aí, aí você tá vendo uma reconstrução de como era esse lugar aqui, o templo principal que dava paraa caverna, que era acesso ao mundo dos espíritos. É aí que pela primeira vez ele fala de igreja. A primeira menção à igreja é nesse lugar. Ele não fala de igreja numa sinagoga, nem no templo de Jerusalém. Ele fala de igreja no lugar mais pagão de Israel, mostrando pra gente que igreja é igreja não nos espaços fechados, sagrados da religião, mas é olhando a vida como ela é na cara, enfrentando o mal, a realidade da vida e da sociedade. É ali que a igreja é igreja, entende? É aí que ele fala da igreja. E depois que ele fala isso, dessa conversa que ele tem, ele diz assim: "Alguns os que aqui estão presentes não passarão a morte antes que ve, não passarão pela morte antes que vejam o reino de Deus". E seis dias depois, diz a Bíblia que ele vai para um monte alto, provavelmente o monte Hermão, que é o monte que tá aí. Esse é o sopé do Monte Hermão, é o comecinho dele. Ele não sobe no pico do Hermão, é óbvio, um Hermão enorme, mas ele sobe num ponto do monte Hermão e lá acontece um fenômeno sobrenatural. Ele se transfigura, ele se resplandece, ele se torna um holofote. É um negócio magnífico. E só Pedro, Tiago e João vem isso. E aparecem dois personagens misteriosos do lado deles, de Jesus, Moisés e Elias. E aí quando Pedro olha, ele fala: "Senhor, vamos fazer três tendas, uma para Moisés, pro Senhor, para Elias". E quando ele tá falando essa besteira, né? que Pedro aí já queria virar o papa, já já queria fazer a igreja das três tendas, entendeu? Para chegar aqui é só por intermédio de nós, né? Quando ele fala isso, desce uma nuvem, Deus está na nuvem e uma voz calando Pedro diz assim: "Este é meu filho amado. Escutem o que ele disse." E quando essa voz se faz ouvir, eles caem de bruças com medo. E quando eles levantam os olhos, não tem mais ninguém. E diz o texto: "Eles viram só Jesus". E a pergunta que fica é, eu quero terminar com isso aqui, por que Moisés e Elias já pararam para pensar nisso? >> Muitas explicações a gente já ouviu sobre isso. Talvez a mais conhecida aqui entre vocês é aquela de que Moisés representa um grupo escatológico de salvos, né? os que ressuscitarão quando Jesus voltar, os que serão ressuscitados e Elias, aqueles que serão transladados sem passar pela morte, porque Elias foi levado pro céu sem morrer. Então, os que morreram ressuscitaram e os que foram levados pro céu sem morrer. Já ouviram essa explicação, não é? Mas a pergunta que fica é, não tô dizendo que ela tá errada, tá? Mas a pergunta que fica é também outra, quantas perguntas, né? O que eu quero deixar para vocês aqui como provocação, será que Pedro, Tiago e João pensaram isso quando viram Moisés e Elias lá? Isso é uma lição didática para eles. Que que eles pensaram? Que que eles entenderam quando viram esses dois aí do lado de Jesus? Aqui vocês estão vendo o canon da Bíblia. Moisés representa quem? A lei. E Elias representa quem? Os profetas. A lei e os profetas. Porque se é só alguém que foi pro céu sem passar pela morte, por que que o Enoque não tá aí? Por que que é o Elias? Entendeu? Elias é o profeta por excelência, entende? Então você tem a lei e os profetas. E quem é o centro da lei dos profetas? Quem é o glorificado do meio? Quem apenas é glorificado? Só tem um glorificado aqui. E diz o evangelho de Lucas que eles conversavam com Jesus a respeito da morte dele em Jerusalém para mostrar que o centro temático da Escritura é o sacrifício de Cristo. Esse é o reino de Deus. É aí que o reino é montado e baseado. Esse é o alicerce para compreensão da natureza do reino de Deus. E quando a voz diz: "Esse é meu filho. Escutem ele". O que o próprio Deus diz é que eu só entendo a lei e os profetas quando eu enxergo a lei e os profetas. pela lente de Jesus. Ele é a escritura. É por intermédio dele que eu entendo a palavra. Tudo aquilo que se coaduna e que reflete a natureza e o ensino de Jesus é palavra de Deus, é revelação de Deus para mim. Eu entendo Deus olhando para ele. Ele é Deus feito gente. Ele é a palavra que se tornou carne. Ele não é um tema da Bíblia. Ele é o clímax da Bíblia. Eu não posso ter uma leitura plana da Bíblia, olhando a Bíblia e entendendo tudo com o mesmo nível de autoridade. Essa leitura plana da Bíblia, ela é muito limitada. Ela vai tender ao literalismo e muitas vezes ela vai dar base ao fundamentalismo também. Essa leitura plana da Bíblia, a Bíblia é mais um relevo, entendeu? Você tem ali pontos altos e baixos e o cume maior, o ponto de onde você enxerga tudo é Cristo. É através dele que eu tenho que entender a palavra. Foi assim que ele ensinou os discípulos a ler quando diz a Bíblia que ele falou tudo que a respeito dele constava na lei, nos profetas e nos salmos. Eu não posso compreender a verdade divorciada dele. Eu tenho que ler a palavra pela lente daquilo que Jesus significa. Ele é a chave para eu interpretar o significado da escritura. Aí tem muita gente que vai falar assim, me ouvindo agora: "Ah, isso daí é perigoso, isso é muito subjetivo, isso relativiza a Bíblia". Entende? Como falaram a respeito do sermão que eu fiz aqui sobre a transmissão do texto, lembra? Chegaram a falar o seguinte, falaram para mim que eu queria fazer com que todos vocês desconfiassem da Bíblia, entendeu? Para que vocês não acreditassem na Bíblia e acreditassem em mim, ficassem aqui, ó, na minha mão, ó. Olha como eu sou perverso, como eu sou manipulador. Cuidado, hein? Eu estou aqui, ó, enfeitiçando vocês com palavras doces, aquilo que vocês querem ouvir, né? Os falsos profetas do fim dos tempos, entendeu? Só que muitos que dizem isso são os que vão defender a inerrância da Bíblia, mas vão apresentar outras chaves hermenêuticas de interpretação humana para entender a Bíblia. vão apresentar outras formas para se entender a Bíblia, outras fontes de autoridade que não vem da palavra. Eles vão tirar a centralidade de Cristo, a centralidade de Cristo e vão se colocar como os intérpretes da palavra para vocês, como aqueles que formam o corpo autorizado de interpretação, entende? E aí quando isso acontece, a ideia de que você pode ler a Bíblia por você mesmo e pode compreender pelo Espírito Santo o que o Evangelho ensina, quando você entender quem é Jesus e compreender a natureza de Deus revelada em Cristo. Essa ideia, quando ela é compreendida por cada um de nós, ela vai ela vai eh eh eh derrubar, ela vai minar todo esse poder de coersão, de controle, de domínio que o cristianismo tradicional engendra na mente da gente. Conhecer Cristo como a interpretação da palavra é libertação pra gente entender o que a palavra diz, o espírito verdadeiro do evangelho. Por isso, meus queridos, leiam a Bíblia toda, mas leiam a Bíblia pela lente de Cristo. Leia a história de Jesus, leia os evangelhos e veja ali Deus como homem vivendo a nossa vida. E aprenda com Jesus como Jesus lidou com a religião, como Jesus lidou com o dinheiro, como Jesus lidou com a política, como Jesus lidou com os marginalizados, como ele lidou com os excluídos, como ele tratou as mulheres, como ele lidou com a sociedade. Ali você aprende quem Deus é. E é por meio disso que você lê toda a palavra. Assim foi que os apóstolos ensinaram e aprenderam. O que eu tô falando aqui foi ensinado pelos apóstolos, pelo próprio Cristo. Essa é a forma de entender a palavra. Jesus é a palavra encarnada. E só para finalizar, porque o cronômetro até travou aqui agora, tá? Para fechar mesmo aqui, tá bom? No evangelho de João não aparece a transfiguração. E João foi um dos que estavam lá na transfiguração. Por que que ele não conta a transfiguração se foi, ele viu aquilo? No evangelho dele não aparece da transfiguração, mas a lição espiritual da transfiguração aparece no capítulo 5. No capítulo 5, Jesus tá discutindo com os líderes religiosos sobre a autoridade dele. E ele vai falar o seguinte: João Batista foi à luz e ele deu testemunho a respeito de mim. E João Batista, ele era o Elias, né, que haveria de vir. Ele é identificado por Jesus como o Elias dos tempos dele. Então você tem Elias ali, ele deu testemunho de mim. Aí depois ele fala assim: "Moisés escreveu a meu respeito. Se vocês crem em Moisés, vocês creriam creriam nas minhas palavras". Ele fala de Moisés, da lei. Então, os profetas e a lei. E ele vai dizer o seguinte: "O pai dá testemunho de mim". Ele fala em João capítulo 5. "Então você tem Elias, os profetas, a lei e o pai testificando de Jesus". E o o ensino principal dessa sessão aparece aqui no capítulo 5, num texto que vocês conhecem de cor. Capítulo 5, versículo 39, diz assim: "Vocês examinam as Escrituras porque julgam ter nelas eterna e são elas mesmas que testificam de mim. Contudo, vocês não querem vir a mim para terem vida". É o que ele fala. A palavra sem Jesus não traz vida. não traz vida. A palavra sem Jesus, ela é usada para manipulação, para alienação, para controle e, infelizmente, muitas vezes, para minar e para engendrar a intolerância entre nós. A palavra é Cristo. Cristo é a palavra de Deus e a Bíblia te leva até Jesus. Essa é a missão dela. Simples assim. Senhor Jesus, nós agradecemos pela revelação do teu caráter, do teu espírito nas escrituras e no Evangelho. Que essa consciência de quem é Deus esteja presente em nós e que na nossa vida, seguindo seus caminhos como discípulos teus, nós possamos reproduzir da mesma forma os seus valores no contato que temos com todos aqueles que estão à nossa volta. Que o Senhor nos ajude a ser assim. É o que nós pedimos em teu nome. Amém.