Sermão: O que é FUNDAMENTAL na Bíblia
02/10/2025
Sermão: O que é FUNDAMENTAL na Bíblia
Primeiro sermão da série "em nome do meu deus", feito pelo pastor Edson Nunes na igreja Um Lugar Comunidade.
Para ver o culto completo acesse / @umlugarcomunidade
Fonte: Edson Nunes
Legendas automáticas:
eterno, nosso pai e nosso rei. Muito obrigado porque Cristo Jesus é a palavra da vida, é o caminho, é a verdade. E muito obrigado porque através do teu espírito, ele pode encher o nosso coração, a nossa mente e guiar a nossa vida. Que mais uma vez o teu espírito se faça presente entre nós, nos enchendo de Cristo. É o que nós te imploramos em nome dele. Amém, Senhor. Amém. Bom dia ou boa tarde, boa noite para você que tá em casa ou no carro ou sei lá onde você tá ouvindo ou assistindo a gente da comunidade. A gente tá aqui ah no teatro Wall no Shopping Patópolis e hoje a gente começa uma nova série. O nome da série é Em nome do meu Deus, porque a ideia é justamente a gente confrontar essa ideia de que é o meu Deus, né? Que é o que eu penso, de que é o que eu acredito e não algo coletivo que pode ser construído, é o Deus de todos e assim por diante. Vocês vão entender ao longo da série o porquê desse título. E a gente terminou de estudar, fiz, foi uma série de seis episódios em que a gente falou bastante sobre a Bíblia. a gente trouxe um monte de conceitos importantes sobre a Bíblia. O que é a Bíblia com a ideia de inspiração, as traduções, o canon, os manuscritos, eh essa essa multiplicidade do que acontece dentro da Bíblia. E a gente estudou, e a gente estudou isso justamente porque nós somos apaixonados pelo texto bíblico, a gente é alucinado pelo texto bíblico. Ah, eu dediquei a minha vida toda, desde os 18, 19 anos, ao estudo da Bíblia. fui aprender hebraico, eh, grego, não aprendi tão bem, mas enfim. Eh, o estudar eh, acadêmico, é mestrado, é doutorado, é pós-doutorado, não sei o que lá. Porque eu sou apaixonado pelo texto bíblico. Nós, pastores da comunidade, as pessoas da comunidade somos apaixonados pelo pelo texto bíblico. E a gente ama a revelação de Deus. Só que a questão é que essa revelação de Deus, a Bíblia, ela é o início do processo da jornada. Ela não é o final e ela não deve ser também o meio. E a gente vai entender isso também ao longo dessa série. E essa série é uma série espinhosa, porque a gente vai falar de um tema que todos nós, de uma certa maneira, estamos presos nessa realidade. E há um tema espinhoso por causa disso, porque vai confrontar um monte de coisas que a gente cresceu acreditando, cresceu entendendo e que, infelizmente, a gente tá algemado a essas ideias e muitas vezes é difícil se libertar. E a gente vai começar falando justamente sobre a definição desse termo que aprisiona a maior parte de nós, que é o fundamentalismo. Que que é fundamentalismo? Como é que ele surgiu? O que que ele significa? Qual é a relação da gente? com esse termo, tá? E a palavra fundamentalismo, a ideia de de fundamentalismo, ela surge nos Estados Unidos, no meio cristão, tá? Isso é curioso. E ela surge a partir de uma série de livretinhos que foram lançados entre 1910 e 1915 nos Estados Unidos. Essa série de livretinhos se chamava The Fundamentals ou os Fundamentos. E nessa série de livretinhos, uma um colegiado de pessoas escreveram sobre as crenças fundamentais do cristianismo. Entre essas crenças está, por exemplo, o nascimento virginal e miraculoso de Cristo Jesus, a ressurreição de Cristo, uma série de outros temas, inclusive o tema da Bíblia, a Bíblia como palavra de Deus, a Bíblia como um texto inerrante e infalível. E é nessa, nesse livreto sobre a Bíblia que essas duas ideias de inerrância, de infalibilidade vão construir então a doutrina da autoridade da Bíblia. A Bíblia é autoridade porque ela é a palavra de Deus. Ela é inerrante, ela não contém nenhum tipo de erro, nenhum tipo de equívoco. Tudo que tá nela 100% verdade, porque Deus não mente e ela é infalível. E esses dois conceitos então surgem e acabam se transformando no pilar do que é o fundamentalismo. E curiosamente nessa série de livros, a doutrina dessa inerrância e dessa infalibilidade da Bíblia é colocada no mesmo nível da encarnação de Cristo, da ressurreição de Cristo e assim por diante. Então, para acreditar eh que Cristo é o filho de Deus, a palavra encarnada, é necessário acreditar que a Bíblia é inerrante. E todas essas coisas são igualadas nesses livretos chamados de fundamentals, os fundamentos. E daí surge o termo fundamentalismo. Só que entender a origem não é entender os porquês, né? o que levou a isso, que causou, da onde é que surgiu essa esse esses livretinhos, onde é que surgiram esses livretinhos, essa série? Por que que ela foi, por que que ela aconteceu? Então, é um movimento de reação, um movimento de reação, uma série de coisas que vinham acontecendo por séculos. E a gente pode começar eh essa série de coisas que vem acontecendo por séculos pensando no surgimento da imprensa e na reforma protestante. Com o surgimento da imprensa e com a reforma protestante, a ideia de que as pessoas precisavam estudar a Bíblia sozinhas, precisavam ter o livro em casa, ler o livro, estudar e não depender de um padre ou de um intérprete, se popularizou. as pessoas tinham o livro, elas começaram a ler e a reforma protestante trouxe também essa multiplicidade de interpretações e os ramos do cristianismo que até então eram confinados a Igreja Católica, ah, com a sua questão lá com a Igreja Ortodoxa Russa, a igreja ortodoxa também Síria e oriental e tudo, aquele racha que já tinha séculos antes. Então, essa essa eh vamos dizer assim, essa a Igreja Católica detinha a a a interpretação principal da Bíblia e você tinha pequenas eh dissências aqui e a colá, pequenas questionamentos aqui a colar e pequenas trocas aqui a colar. Tinha um monopólio. Essa era a palavra. Tinha um monopólio. E a partir da reforma protestante, esse monopólio é quebrado. E você tem uma série de de correntes cristãs que vão surgir, né? Teranismo, presbiterianismo, metodismo, etc. e tal, diferentes interpretações da Bíblia. Então, esse é um primeiro problema, né? A reforma protestante popularizou estudar Bíblia e com a popularização do estudo da Bíblia, você tem agora multiplicidade de interpretações. Qual é a certa? Qual é a correta? E aí você tem as brigas, né, várias brigas. E aí você tem um outro problema e esse talvez um problema mais sério que talvez tenha sido o stopim principal dessa reação que acabou se convencionando chamar de fundamentalismo, que é a ideia do Iluminismo, principalmente associada ao surgimento do método científico. Então, as universidades vão começar a brotar com o estudo das ciências, as ciências vão se estruturar, vai aparecer o método científico que vai ser aplicado a diversas ciências, então vão brotar professores e alunos, estudantes de história, de filologia, de arqueologia, eh de biologia, de química. e todo mundo vai estudar e vai ter um método científico, vai ter uma maneira de estudar a Bíblia, uma maneira que pode se reproduzir e assim por diante. Não vai depender mais de líderes religiosos para definirem como são as coisas. E aí esse método científico, essa maneira científica vai chegar na Bíblia. A Bíblia vai passar a ser estudada também de uma maneira científica, através da história, através da arqueologia, através da filologia, da literatura e assim por diante. E nesses processos, no processo, né, de estudar a Bíblia como um livro, de estudar a Bíblia com esse olhar científico, dúvidas e questionamentos vão surgir. Talvez o principal, né, ou pilar fundamental de crítica da Bíblia seja o que a gente chama de hipótese documentária ou teoria das fontes, que aí então o alemão, eh, Júlio Welhausen, se apropriando dos estudos de um outro alemão, graf, ele vai produzir esse esse conceito de que a Bíblia não é isso que a gente imagina que ela seja. Então, por exemplo, quando você vai ler Gênesis 1, Gênesis 1, o nome de Deus usado, é Elohim. Gênesis 2, o nome de Deus usado é Yahu, é o tetragrama sagrado. Então, são autores diferentes que escreveram em épocas diferentes e que alguém foi lá e juntou esse texto. Então, esse negócio que Moisés escreveu Pentateuco não existe. Por quê? Porque a gente não sabe nem se Moisés existiu. Não existe prova arqueológica, não existe prova documental de que esse cara que cresceu no Egito para ser o faraó e depois matou um egípcio e teve que fugir, que ele existiu. Não tem prova de que ele existiu, muito menos que ele escreveu o que a gente diz que ele escreveu. E aí, pela literatura comparada, eles vão dizer: "Não, esse texto aqui foi escrito no século VI, esse texto aqui no século VI, trazendo para muito mais perto da era comum ou da época que a gente chama de depois de Cristo, o texto bíblico. Então vai ter uma discussão sobre autoria. Então não é o autor que tá dizendo que que é o autor, não é ele que escreveu. A datação vai ser mudada também. Então, a Bíblia não foi escrito, como alguns acreditavam, 100, 1300 anes. Cristo começou a ser escrito, não foi escrito no século VI, no século VI. E algumas partes da Bíblia, como por exemplo, o livro de Daniel, foi escrito ali já no primeiro, segundo primeiro século antes de Cristo. Então, há um deslocamento de datação, há um questionamento total de autoria e há essa essa discussão sobre a historicidade das coisas. Por exemplo, ah, a Bíblia fala que o povo de Israel foi escravo no Egito e que em determinado momento eles saíram do Egito e fizeram uma migração e foram para Canaã. B, mas uma uma migração desse tamanho que a Bíblia diz que eram 600.000 homens, apenas homens, sem contar mulheres e crianças, isso deve ter algum uma prova histórica, um documento histórico arqueológico que prova isso? Não tem. Então, a, a Bíblia fala que, por exemplo, as muralhas de Jericó caíram e o povo destruiu a cidade. Não existe achado arqueológico de que as mulheres de as muralhas de Jericó tenham caído. Isso tudo eu tô falando da época, tá? Os achados arqueológicos da época. Mas existem cidades que pegaram fogo, porque um povo que vivia as margens da cidade chamada Piro, esses esse povo ele se revoltou contra os os donos das cidades e eles entraram nas cidades e queimaram tudo, destruíram tudo e eles tomaram tudo para eles. Ah, então não foram os hebreus que saíram do Egito. Esses apiro é que são os hebreus, mas eles não vieram de lugar nenhum. Eles já estavam em Cana, destruíram tudo e pegaram tudo para eles. Foi uma revolta popular contra os donos das cidades. E aí, obviamente, as pessoas piedosas, estudiosas da Bíblia, ao verem esses questionamentos, aos ver ao verem a a a Bíblia ser destruída, ser criticada, ser questionada, eles vão reagir e eles vão reagir fortemente à ciência, à universidade e aos questionamentos. Antes desses livretos de 1910 até 1915, já em 1890, a gente tem um primeiro relato de um professor universitário. Ele era um filólogo, era um estudioso, um reverendo Charles Bricks. E ele começou a trazer o método científico para ser ensinado na sala de aula. Ele começou a trazer métodos diferentes para ensinar na sala de aula. E ele foi acusado de heresia e foi sumariamente demitido do Union Theological Seminary por ser herege. E a heresia dele foi trazer os métodos científicos pro estudo da Bíblia. Então, o fundamentalismo, ele é um movimento que surge como reação, reação ao questionamento da Bíblia, reação à ciência, reação à universidade e tem como um pilar central a inerrância da Bíblia. A Bíblia não contém erros. A Bíblia explica tudo, a Bíblia é infalível para tudo e nós precisamos defender a Bíblia de todos os ataques que ela está sofrendo. Então ele é um movimento reativo. Reativo anticiência, antiuniversidade, antidúvida e que joga na Bíblia um conceito que não está na Bíblia, que é o conceito de inerrância de infalibilidade. Só que a gente estudou ao longo dessas últimas semanas e vocês ouviram que a Bíblia é um livro extremamente complexo e multifacetado. E entender a Bíblia exige o esforço de muita gente, principalmente hoje, tanto tempo distante de quando ela foi escrita. Então, para você entender diversas passagens, você precisa entender a cultura da época, ou seja, você precisa da história, você precisa da arqueologia, você precisa de literatura comparada. Para os textos chegarem até nós, nós precisamos dos manuscritos. Nós precisamos de uma série de pessoas que estudaram, que trabalharam, que copiaram, que traduziram, que estudaram pra gente conseguir compreender as coisas que estão escritas na Bíblia. E como a gente falou várias vezes durante a série, a Bíblia não é um livro que caiu do céu. E se fosse, seria muito mais fácil, que não teria nenhuma dessa discussão. Caiu do céu, pronto, foi Deus que deu, acabou. Mas a Bíblia é um livro tremendamente humano, produzido por humanos num contexto humano, circunstâncias humanas, cultura humana e assim por diante, de uma determinada época, de um determinado tempo e assim por diante. Então essa confecção da Bíblia e a a essa essa esse caminho que a Bíblia fez para chegar até hoje, essa jornada da Bíblia até hoje envolve uma série de pessoas, uma série de ciências. uma série de estudos para que a gente possa hoje ter a Bíblia em diversas versões, ler, discutir, debater e assim por diante. E esse é o grande equívoco do fundamentalismo. Ao reagir à ciência, ao reagir ao método, ao reagir às críticas e à dúvida, ela reage medo. O fundamentalismo reage por medo. Medo de que as doutrinas possam ser questionadas. medo de que as crenças possam ser colocadas em dúvida. E esse medo, ele gera especialmente um comportamento que é um comportamento de hostilidade. A hostilidade. Hostilidade é o quê? a ciência, a dúvida, a universidade, a todo e qualquer tipo de questionamento. Essa hostilidade, ela vai produzir, por exemplo, uma linguagem, uma linguagem de guerra, uma linguagem violenta de guerra. E vocês todos já ouviram que nós estamos numa guerra cultural. Nós estamos numa guerra cultural. Nós precisamos defender os valores da Bíblia. Essa hostilidade gera um comportamento, um comportamento de embate. E por isso que a apologética é tão importante no meio cristão hoje. Você precisa defender a verdade com unhas e dentes. Você precisa defender aquilo que você crê. Há um enfrentamento, gera também exclusão, porque a verdadeira interpretação da Bíblia, a verdadeira Bíblia, o verdadeiro estudo da Bíblia é aquilo que eu faço, que eu estudo, as conclusões que eu chego, as crenças que eu tenho, a fé que eu tenho. E aqueles que não pensam como eu ou não chegaram às mesmas conclusões que eu, esses não são verdadeiros cristãos ou não são verdadeiros intérpretes e assim por diante. O método que eu usei para chegar às conclusões que eu tenho, esse é o método verdadeiro de estudo da Bíblia. O método que outras pessoas usam não, porque não chegaram às mesmas conclusões que eu. Então, você demoniza métodos, você demoniza intérpretes e você cria um movimento de inclusão e desclusão a partir daqueles que chegam às conclusões que você tem ou que você não tem. Essa hostilidade causa uma divisão no estudo da Bíblia. E aí, a partir daí você tem a classificação de herege. Todo mundo que não concorda ou não pensa como eu ou tem questionamentos é herege. E aí tem as frases que vocês já ouviram aos borbotões por aí, né? Olha, tomem cuidado com as universidades. Ai, os nossos jovens. Precisamos proteger os nossos jovens dos professores universitários, porque quando eles vão paraa universidade, eles perdem a fé. Já ouviram isso, né? Os professores, a ciência. Aí vem aquelas frases, olha, toma cuidado com tal livro. Tal livro é perigoso. Aí tem uns livros perigosos que os cristãos não deveriam ler. Tomem cuidado com tal ideia. Olha, tal ideia é perigosa. Tem que tomar cuidado, ó. Toma cuidado com tal fulano, com tal ciclano, com tal pastor, etc. Por quê? Porque há um perigo que ronda iminentemente, constantemente as comunidades de fé. E esse perigo pode levar você a virar um herege. E essa heresia muitas vezes se resume a um questionamento de uma doutrina. Mas será que é assim? Essa hostilidade faz com que o comportamento seja eminentemente reativo e violento. E violento. E essa hostilidade produz a necessidade de você defender aquilo que você crê com unhas e dentes. E isso hoje a gente conhece esse fenômeno, todo mundo usa essa palavra hoje, que é a polarização. Você polariza a fé porque você precisa defender essa fé com unhas e dentes dos ataques do inimigo. E o inimigo ataca de todos os jeitos, até com música ao contrário. Não usa essa música porque esse disco virado ao contrário é é demoníaco e tal. Vocês já ouviram tudo isso daí? Essa reação por medo que gera essa hostilidade, ela transforma a Bíblia no que a Bíblia não é, no que a Bíblia nunca se propôs a ser ela mesma. E ela passa a usar a Bíblia não como início, mas como meio e como fim da jornada. É fim porque ela é inerrante, ela é infalível. Então, ela tá no mesmo nível, na mesma categoria que Cristo. E ela é meio porque ela passa a ser uma arma que eu vou usar para provar aquilo que eu creio. Só que nesse processo, ao jogar conceitos que são estranhos da própria Bíblia dentro da Bíblia, não é mais a Bíblia que guia a discussão, mas é a gente que guia a discussão que deve estar na Bíblia ou não. E aquilo que é importante na Bíblia deixa de ser importante. E aquilo que não é importante na Bíblia passa a ser tremendamente importante. E aí vem essa maleabilidade interpretativa, porque você vai usar qualquer método que você quiser para provar que a Bíblia diz aquilo que você quer que ela diga. Isso é tremendamente interessante. Eu escrevi um artigo com o meu amigo Peterson Brey, que é um teólogo também, doutor também, nesse livro Teologia do Domínio e Uso de Deus na política. E aí tem um artigo que a gente escreveu que é fundamentalismo, inerrância e poder, a base da hermenêutica da teologia do domínio. E aqui a gente trabalha vários exemplos de como a mentalidade fundamentalista, ela vai usar o método que ela tiver que usar para provar a doutrina que ela tiver que provar. Então vai ser um monstrengo. A maneira de estudar a Bíblia vai ser um monstrengo. Vai pegar um um método aqui, vai pegar um método ali, vai pegar um método a colar e vai juntar tudo. Por quê? Porque precisa provar sua doutrina. Então, por exemplo, se a minha doutrina diz que o sábado é o dia do Senhor, Gênesis 1 do verso 1 até Gênesis 2 do verso 3 é literal. E Gênesis 2 verso 4 que fala: "Essas são gerações" é dividido em duas partes. A primeira parte pertence ao primeiro relato porque fala: "Essas são gerações" e a palavra hebraica toledot gerações mostra que há uma historicidade do texto. Então essa parte do verso precisa estar no primeiro relato para provar que o sábado é histórico e é literal. Só que curiosamente quem divide o verso dois, quem divide o verso 4 do capítulo 2, são aqueles do método histórico crítico, ou seja, aquele da hipótese documentária que eu falei no início, que atacam a Bíblia. Só que aí eu uso os argumentos deles porque eu preciso provar que o sábado é literal. Agora, se eu guardo o domingo, porque Cristo ressuscitou no domingo, sei lá que é argumento, Gênesis 1 a 11 não precisa ser literal para mim, pode ser só poético, pode ser o mito, porque eu não tenho necessidade, eu não tenho apego à historicidade do texto bíblico, tá entendendo? Eu não necessário para mim, porque eu não preciso provar nada historicamente ali. Então eu vou ler Gênesis 1 a 11 como um texto poético, mitológico. A serpente, impossível que aquilo tenha sido literal. Então a serpente é um símbolo. Tão entendendo? O sábado é um símbolo. Tudo é um símbolo. É um poético. Ético. Eu preciso ler com ética. Por quê? Porque a minha teologia não necessita que Gênesis 1 a 11 seja literal. Então eu posso usar qualquer método para interpretar que não seja literal. Tão entendendo o processo? Eu vou fazer isso com tudo. Então o embate não se dá a partir da leitura do texto bíblico, mas a partir da minha doutrina para provar o texto bíblico. Se a minha doutrina exige que tal texto seja simbólico, ele vai ser simbólico. Se a minha doutrina exige que tal texto seja literal, ele vai ser literal. E a questão não é literalidade ou simbologia ou mito ou ética, qualquer coisa. A ideia é o quê? É provar minha doutrina. Por quê? Porque a Bíblia é inerrante. A minha doutrina tem que ser inerrante. E as tensões todas da Bíblia são ignoradas. E aí tem um detalhe, quer você leia Gênesis literalmente, quer você leia, por exemplo, mitologicamente ou poeticamente ouamente, todo mundo concorda que a sexualidade em Gênesis é mach fêmea e acabou e é isso e todo o resto é desvio, é pecado. Aí é curioso, você senta pro pessoal, não, Gênesis 1 a 11 é poético, é literal. Ah, então macho e fêmea lá em Gênesis. Não, não, não, não, não. Isso daí, isso daí é científico. Científico. Ué, mas a ciência vale agora. Ou seja, você use a c você usa a ciência quando você quer, você despreza a ciência quando você quer, você usa o método de simbologia, de metáfora quando você quer, você usa literalidade quando você quer. Por quê? Porque a questão não é o texto, a questão é a doutrina, a questão é a crença, é a fé onde meus pés estão firmados. Portanto, a Bíblia é um meio, um meio para provar a doutrina. E ela é um meio porque ela é um fim, porque ela é inerrante. Ela é a palavra de Deus que desceu do céu, pronta, literal e ponto final. Esse é o grande problema do fundamentalismo, porque não se trata da Bíblia e não se trata da revelação, mas se trata da teologia, da crença, da fé e da religião doutrinária. Portanto, surgimento do fundamentalismo não tem nada a ver com defesa da Bíblia, mas tem a ver com defesa do status qu da religião. Se eles começarem a criticar a Bíblia, se eles começarem a questionar a Bíblia, as pessoas não vão devolver o dízimo. as pessoas vão começar a duvidar disso, duvidar daquilo, vão duvidar inclusive do meu papel de liderança como pastor e como líder religioso. Se as pessoas começarem a estudar a Bíblia e descobrirem que o sacerdócio de Cristo eliminou o sacerdócio humano e que existe agora um novo conceito que é o sacerdócio de todos os santos, como fica o meu papel como sacerdote dentro da igreja? Tá entendendo onde isso vai chegar? Por isso, essa reação que surge do medo é hostil, porque ela precisa defender as suas verdades. Por isso que essa reação de medo é hostil à ciência, à dúvida e ao questionamento. E é por isso que quando a gente começou a comunidade, a primeira série que a gente fez depois que a gente começou a comunidade, no dia 17 de dezembro de 2022, foi o pecado da certeza. Porque nós somos aprisionados nesse sistema de que não pode haver dúvidas, de que não pode haver tensões, de que não pode haver questionamentos e que todas as coisas são claras e resolvidas e é tudo muito simples e não é. Qual é a solução para isso? A solução para isso é a gente entender o que a Bíblia fala dela mesma. Quais são os termos que a Bíblia coloca? e pararmos de buscar na Bíblia aquilo que a gente pensa. Por exemplo, hoje discussão sobre a Bíblia tem que incluir democracia. Que que a Bíblia fala de democracia, gente? Ah, a Bíblia é a favor do capitalismo. Que que a Bíblia fala de capitalismo, pô? Não, a Bíblia é mais comunista que capitalista. Que que a Bíblia fala de comunismo? Ah, mas tem um pavor do comunismo, né? O bicho do comunismo vai vir pegar todo mundo, tal. O homem do sacro era comunista. Vocês estão entendendo? A gente tá jogando só aborto. Pessoal, aborto, aborto, aborto, aborto. Você vai ler na Bíblia, qual a preocupação do autor bíblico com isso? Casamento afetivo. Qual a preocupação do autor bíblico com isso? Mas a gente tá lá discutindo ferreiamente como se a Bíblia tivesse preocupada com isso. E as verdadeiras preocupações da Bíblia a gente tá ignorando. E quando a gente fez aquela série de meditações ano passado sobre os Salmos, várias vezes eu falei e depois já comentei em outros momentos. Me impressionou a quantidade de vezes em que a ideia, o termo, o conceito de pobre, de cuidado com os pobres, aparece nos Salmos. E ali não é o pobre metafórico ou o pobre espiritualizado, é o pobre mesmo. É o destituído de de recurso. A gente pensa, não, o pobre é é a galera de esquerda, é a galera liberal, fala dos A Bíblia tá recheada de texto. É um dos assuntos mais comentados na Bíblia do início ao fim. O cuidado com as pessoas que não tá. Não tá só nos textos que falam sobre a terra, não tá só nos textos profetas. reclamando da opressão, tá também nos ensinos de Jesus e tá nos salmos o tempo todo. Mas a gente não discute isso porque isso é, isso é incômodo. A gente vem no shopping Genópolis, vai comer no restaurante aqui, vai passear no shopping, comprar um negocinho ali. É incômodo você falar de pobre. É incômodo você falar de cuidar dos pobres. É melhor falar de aborto. Mas aborto não tá na Bíblia, caramba. O pobre tá. E agora a gente jogou pra Bíblia coisa que não tá na Bíblia. A gente quer discutir o que não tá na Bíblia e resolver com a Bíblia o que não tá na Bíblia. Porque a gente transformou a Bíblia num livro que ela não é. Por isso ela virou um meio. Um meio para provar o que eu penso. Ela é uma arma. A solução é a gente voltar os olhos para o estudo profundo das escrituras de verdade, olhando as complexidades das tensões que a Bíblia apresenta, complexidades escatológicas, complexidades de de visão de Deus, que a gente já fez uma série sobre aqui, as visões diferentes de Deus, como cada profeta, cada autor vai ter uma visão diferente de Deus, do que ele é, do que ele faz e assim por diante. a gente tem que voltar a entender e estudar esses esses essas tensões. E ao invés de eliminar essas tensões, ao invés de eliminar essas tensões, mergulhar nelas, estudar mais profundamente, pedindo a orientação do Espírito Santo. Esse é um caminho de solução. Um outro caminho de solução muito mais importante do que esse primeiro é a gente olhar para textos que são extremamente claros e reveladores. Porque se a gente olha para Hebreus capítulo 1 verso 1, que né alguns acreditam que é Paulo que escreveu a maior parte, né, dos cristãos, Paulo começa dizendo: "Deus falou de muitas maneiras aos pais e aos profetas e nos últimos dias falou através do filho." E aí a gente vai para Lucas, capítulo 24, Cristo ressurreto andando com discípulos em caminho de Emaús. E quando ele tá andando com os discípulos no caminho de Emaú, vocês lembram que ele fala? Ele conversa com eles o quê? Ele fala com eles sobre o que as escrituras falavam dele. Cristo precisa ser o alvo. A Bíblia é o início. Cristo precisa ser o fim. Ele é o alvo do estudo da Bíblia. Não a própria Bíblia, não a doutrina, não a crença, mas Cristo. Por isso que ele é o filtro, por isso que ele é a chave para eu entender o Antigo e o Novo Testamento, entender tudo. Ele é o centro. Ele é o que reina no texto bíblico, na minha vida e assim por diante. A gente precisa estudar mais, mas a gente precisa lembrar que Cristo é o alvo. A revelação principal de Deus é através dele, é sobre ele. É tudo sobre ele, que é a nossa série de estudos bíblicos na comunidade. É tudo sobre ele. Enquanto Cristo não foi esse centro, não foi essa pedra fundamental, o resto vai ser construído estranhamente. E aí é por isso que a graça é tão complexa. Ah, mas tem a lei, não, mas tem isso, mas tem aquilo. É por isso que, ah, qual é a única doutrina? A única doutrina é Cristo. Sabe por quê? Porque ele é o centro de tudo. O resto deriva dele. É através dele. Ele é o filtro, ele é o centro, ele é o caminho. Ele é a verdade. Ele é a vida. para onde nós iremos sem as palavras dele, de Cristo. E todas as outras palavras precisam ser entendidas a partir das palavras dele. Tá entendendo? E por fim, a gente precisa entender de uma vez por todas, segundo Timóteo, capítulo 3:16, que é o texto usado para falar que a Bíblia é inerrante, o principal texto. Você toda a escritura é divinamente inspirada, é inspirada por Deus. Que toda escritura é essa? A gente já discutiu isso aqui na primeira, no primeiro episódio da série sobre a Bíblia. que escritura é essa? Porque diz o texto que ela é infalível. Infalível paraa salvação. Ela não é infalível para arquitetura, paraa biologia. Ela não é infalível paraa química, paraa física. Ela é infalível paraa sua salvação, paraa minha salvação. Agora, ela é divinamente inspirada. E o e a palavra inspirada é teupneustos. A gente já falou sobre ela aqui e aí eu fiz o sermão e falei que teu pneus tem essa ideia de de comunicar vida, de soprar vida. A escritura ela é é ela é inspirada por Deus porque ela sopra a vida. Isso que significa inspirada por Deus. Ela sopra a vida. É Deus que sopra a vida. E aí um querido amigo meu teólogo, Caio Perz, maravilhoso, me falou: "Ó, cara, isso daí que você falou tá num livro, John Poirier. E sabe como é que chama o livro? Maravilhoso. A invenção do texto sagrado é o nome do livro. Ele faz uma análise gigantesca sobre o uso da expressão teupneustos na cultura grega e na Bíblia, que só aparece nesse texto. E ele vai chegar à conclusão do quê? Teupneustos é comunicar vida, é soprar vida. Toda a palavra é um sopro de vida de Deus. É Deus comunicando vida. Portanto, a Bíblia precisa comunicar vida. A Bíblia é comunicação de vida. Ela comunicou vida a quem escreveu. Ela comunicou vida a quem copiou. Ela comunicou vida a quem traduziu. Ela comunicou vida a quem discutiu se dev o canon. Ela comunicou vida aos tradutores. Ela comunicou vida à gente que lê o texto. Ela comunica a vida pra gente o tempo todo. E o que ela fala? Qual é a mensagem dela principal? É justiça pros que não têm justiça. É amor pros que não têm amor. É não violência. É não promiscuidade. É entrega. Entrega de tudo que a gente tem, de tudo que a gente é. é principalmente Cristo Jesus como centro de todas as coisas. Essa a mensagem é isso que comunica a vida. É ele o comunicador de vida. E é por isso que um dos textos mais bonitos, talvez pra gente entender essa ideia do teu pneus da comunicação de vida, é o vale dos ossos secos em Ezequiel. É um monte de osso seco que recebe uma palavra, uma palavra do quê? de vida e voltam a viver. É isso. Teupneustos, inspiração, soprar é o sopro de vida. O fundamentalismo quer tirar a ideia de vida para defender doutrinas. Nós precisamos trazer de volta pra Bíblia a comunicação de vida e vida em abundância através de Cristo Jesus. A palavra encarnada de Deus. Ele é a palavra encarnada de Deus. Eterno nosso pai e nosso rei, na nossa leitura assim séria nessa da Bíblia, Senhor, vamos v vamos ter muitas dúvidas, vão ter muitas tensões, vão ter muitos questionamentos, muitas dúvidas. Por favor, Senhor, nos ajude a pararmos de demonizar as dúvidas, as incertezas, os questionamentos. nos ajude, Senhor, a nos entregarmos de corpo e alma a ti através do teu espírito, para que ele atue no nosso coração e na nossa mente, para que a gente busque na Bíblia não aquilo que a gente quer provar ou desprovar, que a gente busque na Bíblia a tua comunicação de vida, o teu sopro de vida paraa nossa vida. E a gente sabe, Senhor, que esse teu sopro de vida, ele é Jesus Cristo, a palavra encarnada. Senhor, que teu espírito sopre Cristo na nossa vida. Que teu espírito sopre vida através de Cristo na nossa vida. E que a gente entregue, Senhor, tudo aquilo que somos e que temos a Ele, Jesus Cristo, o verbo encarnado, a tua palavra, a tua revelação, o teu filho amado. Em nome dele que nós oramos. Amém. M.