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A fé vem pelo ouvir

Sermão: O que é FUNDAMENTAL na Bíblia

Sermão: O que é FUNDAMENTAL na Bíblia

Sermão: O que é FUNDAMENTAL na Bíblia

Primeiro sermão da série "em nome do meu deus", feito pelo pastor Edson Nunes na igreja Um Lugar Comunidade.

Para ver o culto completo acesse / @umlugarcomunidade

Legendas automáticas:

eterno, nosso pai e nosso rei.
Muito obrigado porque Cristo Jesus é a
palavra da vida, é o caminho, é a
verdade.
E muito obrigado porque através do teu
espírito, ele pode encher o nosso
coração, a nossa mente e guiar a nossa
vida.
Que mais uma vez o teu espírito se faça
presente entre nós, nos enchendo de
Cristo. É o que nós te imploramos em
nome dele. Amém, Senhor. Amém.
Bom dia
ou boa tarde, boa noite para você que tá
em casa ou no carro ou sei lá onde você
tá ouvindo ou assistindo a gente da
comunidade. A gente tá aqui ah no teatro
Wall no Shopping Patópolis e hoje a
gente começa uma nova série. O nome da
série é Em nome do meu Deus, porque a
ideia é justamente a gente confrontar
essa ideia de que é o meu Deus, né? Que
é o que eu penso, de que é o que eu
acredito e não algo coletivo que pode
ser construído, é o Deus de todos e
assim por diante. Vocês vão entender ao
longo da série o porquê desse título.
E a gente terminou de estudar, fiz, foi
uma série de seis episódios em que a
gente falou bastante sobre a Bíblia. a
gente trouxe um monte de conceitos
importantes sobre a Bíblia. O que é a
Bíblia com a ideia de inspiração, as
traduções, o canon, os manuscritos, eh
essa essa multiplicidade do que acontece
dentro da Bíblia. E a gente estudou, e a
gente estudou isso justamente porque nós
somos apaixonados pelo texto bíblico, a
gente é alucinado pelo texto bíblico.
Ah, eu dediquei a minha vida toda, desde
os 18, 19 anos, ao estudo da Bíblia. fui
aprender hebraico, eh, grego, não
aprendi tão bem, mas enfim. Eh, o
estudar eh, acadêmico, é mestrado, é
doutorado, é pós-doutorado, não sei o
que lá. Porque eu sou apaixonado pelo
texto bíblico. Nós, pastores da
comunidade, as pessoas da comunidade
somos apaixonados pelo pelo texto
bíblico. E a gente ama a revelação de
Deus. Só que a questão é que essa
revelação de Deus, a Bíblia, ela é o
início do processo da jornada. Ela não é
o final e ela não deve ser também o
meio. E a gente vai entender isso também
ao longo dessa série. E essa série é uma
série espinhosa, porque a gente vai
falar de um tema que todos nós, de uma
certa maneira, estamos presos
nessa realidade. E há um tema espinhoso
por causa disso, porque vai confrontar
um monte de coisas que a gente cresceu
acreditando, cresceu entendendo e que,
infelizmente, a gente tá algemado a
essas ideias e muitas vezes é difícil se
libertar. E a gente vai começar falando
justamente sobre a definição desse termo
que aprisiona a maior parte de nós, que
é o fundamentalismo.
Que que é fundamentalismo?
Como é que ele surgiu? O que que ele
significa? Qual é a relação da gente?
com esse termo, tá? E a palavra
fundamentalismo, a ideia de de
fundamentalismo, ela surge nos Estados
Unidos, no meio cristão, tá? Isso é
curioso. E ela surge a partir de uma
série de livretinhos que foram lançados
entre 1910 e 1915 nos Estados Unidos.
Essa série de livretinhos se chamava The
Fundamentals ou os Fundamentos. E nessa
série de livretinhos,
uma um colegiado de pessoas escreveram
sobre as crenças fundamentais do
cristianismo. Entre essas crenças está,
por exemplo, o nascimento virginal e
miraculoso de Cristo Jesus, a
ressurreição de Cristo, uma série de
outros temas,
inclusive o tema da Bíblia, a Bíblia
como palavra de Deus, a Bíblia como um
texto inerrante e infalível. E é nessa,
nesse livreto sobre a Bíblia que essas
duas ideias de inerrância, de
infalibilidade vão construir então a
doutrina da autoridade da Bíblia. A
Bíblia é autoridade porque ela é a
palavra de Deus. Ela é inerrante, ela
não contém nenhum tipo de erro, nenhum
tipo de equívoco. Tudo que tá nela 100%
verdade, porque Deus não mente e ela é
infalível. E esses dois conceitos então
surgem e acabam se transformando no
pilar do que é o fundamentalismo. E
curiosamente nessa série de livros, a
doutrina dessa inerrância e dessa
infalibilidade da Bíblia é colocada no
mesmo nível
da encarnação de Cristo, da ressurreição
de Cristo e assim por diante. Então,
para acreditar eh que Cristo é o filho
de Deus, a palavra encarnada, é
necessário acreditar que a Bíblia é
inerrante. E todas essas coisas são
igualadas nesses livretos chamados de
fundamentals, os fundamentos. E daí
surge o termo fundamentalismo.
Só que entender a origem não é entender
os porquês, né? o que levou a isso, que
causou, da onde é que surgiu essa esse
esses livretinhos, onde é que surgiram
esses livretinhos, essa série? Por que
que ela foi, por que que ela aconteceu?
Então, é um movimento de reação, um
movimento de reação, uma série de coisas
que vinham acontecendo por séculos. E a
gente pode começar eh essa série de
coisas que vem acontecendo por séculos
pensando no surgimento da imprensa e na
reforma protestante. Com o surgimento da
imprensa e com a reforma protestante, a
ideia de que as pessoas precisavam
estudar a Bíblia sozinhas, precisavam
ter o livro em casa, ler o livro,
estudar e não depender de um padre ou de
um intérprete, se popularizou. as
pessoas tinham o livro, elas começaram a
ler e a reforma protestante trouxe
também essa multiplicidade de
interpretações e os ramos do
cristianismo que até então eram
confinados a Igreja Católica, ah, com a
sua questão lá com a Igreja Ortodoxa
Russa, a igreja ortodoxa também Síria e
oriental e tudo, aquele racha que já
tinha séculos antes. Então, essa essa eh
vamos dizer assim, essa
a Igreja Católica detinha a a a
interpretação principal da Bíblia e você
tinha pequenas eh dissências aqui e a
colá, pequenas questionamentos aqui a
colar e pequenas trocas aqui a colar.
Tinha um monopólio. Essa era a palavra.
Tinha um monopólio. E a partir da
reforma protestante, esse monopólio é
quebrado. E você tem uma série de de
correntes cristãs que vão surgir, né?
Teranismo, presbiterianismo, metodismo,
etc. e tal, diferentes interpretações da
Bíblia. Então, esse é um primeiro
problema, né? A reforma protestante
popularizou estudar Bíblia e com a
popularização do estudo da Bíblia, você
tem agora multiplicidade de
interpretações. Qual é a certa? Qual é a
correta? E aí você tem as brigas, né,
várias brigas. E aí você tem um outro
problema e esse talvez um problema mais
sério que talvez tenha sido o stopim
principal dessa reação que acabou se
convencionando chamar de
fundamentalismo, que é a ideia do
Iluminismo, principalmente associada ao
surgimento do método científico. Então,
as universidades vão começar a brotar
com o estudo das ciências, as ciências
vão se estruturar, vai aparecer o método
científico que vai ser aplicado a
diversas ciências, então vão brotar
professores e alunos, estudantes de
história, de filologia, de arqueologia,
eh de biologia, de química. e todo mundo
vai estudar e vai ter um método
científico, vai ter uma maneira de
estudar a Bíblia, uma maneira que pode
se reproduzir e assim por diante. Não
vai depender mais de líderes religiosos
para definirem como são as coisas. E aí
esse método científico, essa maneira
científica vai chegar na Bíblia. A
Bíblia vai passar a ser estudada também
de uma maneira científica, através da
história, através da arqueologia,
através da filologia, da literatura e
assim por diante.
E nesses processos, no processo, né, de
estudar a Bíblia como um livro, de
estudar a Bíblia com esse olhar
científico, dúvidas e questionamentos
vão surgir. Talvez o principal, né, ou
pilar fundamental de crítica da Bíblia
seja o que a gente chama de hipótese
documentária ou teoria das fontes, que
aí então o alemão, eh, Júlio Welhausen,
se apropriando dos estudos de um outro
alemão, graf, ele vai produzir esse esse
conceito de que a Bíblia
não é
isso que a gente imagina que ela seja.
Então, por exemplo, quando você vai ler
Gênesis 1, Gênesis 1, o nome de Deus
usado, é Elohim. Gênesis 2, o nome de
Deus usado é Yahu, é o tetragrama
sagrado. Então, são autores diferentes
que escreveram em épocas diferentes e
que alguém foi lá e juntou esse texto.
Então, esse negócio que Moisés escreveu
Pentateuco não existe. Por quê? Porque a
gente não sabe nem se Moisés existiu.
Não existe prova arqueológica, não
existe prova documental de que esse cara
que cresceu no Egito para ser o faraó e
depois matou um egípcio e teve que
fugir, que ele existiu. Não tem prova de
que ele existiu, muito menos que ele
escreveu o que a gente diz que ele
escreveu.
E aí, pela literatura comparada, eles
vão dizer: "Não, esse texto aqui foi
escrito no século VI, esse texto aqui no
século VI, trazendo para muito mais
perto da era comum ou da época que a
gente chama de depois de Cristo, o texto
bíblico. Então vai ter uma discussão
sobre autoria. Então não é o autor que
tá dizendo que que é o autor, não é ele
que escreveu. A datação vai ser mudada
também. Então, a Bíblia não foi escrito,
como alguns acreditavam, 100, 1300 anes.
Cristo começou a ser escrito, não foi
escrito no século VI, no século VI. E
algumas partes da Bíblia, como por
exemplo, o livro de Daniel, foi escrito
ali já no primeiro, segundo primeiro
século antes de Cristo.
Então, há um deslocamento de datação, há
um questionamento total de autoria e há
essa essa discussão sobre a
historicidade das coisas. Por exemplo,
ah, a Bíblia fala que o povo de Israel
foi escravo no Egito e que em
determinado momento eles saíram do Egito
e fizeram uma migração e foram para
Canaã. B, mas uma uma migração desse
tamanho que a Bíblia diz que eram
600.000 homens, apenas homens, sem
contar mulheres e crianças, isso deve
ter algum uma prova histórica, um
documento histórico arqueológico que
prova isso? Não tem. Então, a, a Bíblia
fala que, por exemplo, as muralhas de
Jericó caíram e o povo destruiu a
cidade. Não existe
achado arqueológico de que as mulheres
de as muralhas de Jericó tenham caído.
Isso tudo eu tô falando da época, tá? Os
achados arqueológicos da época. Mas
existem cidades que pegaram fogo, porque
um povo que vivia as margens da cidade
chamada Piro, esses esse povo ele se
revoltou contra os os donos das cidades
e eles entraram nas cidades e queimaram
tudo, destruíram tudo e eles tomaram
tudo para eles.
Ah, então não foram os hebreus que
saíram do Egito. Esses apiro é que são
os hebreus, mas eles não vieram de lugar
nenhum. Eles já estavam em Cana,
destruíram tudo e pegaram tudo para
eles. Foi uma revolta popular contra os
donos das cidades.
E aí, obviamente, as pessoas piedosas,
estudiosas da Bíblia, ao verem esses
questionamentos, aos ver ao verem a a a
Bíblia ser destruída, ser criticada, ser
questionada, eles vão reagir
e eles vão reagir fortemente
à ciência, à universidade e aos
questionamentos.
Antes desses livretos de 1910 até 1915,
já em 1890, a gente tem um primeiro
relato de um professor universitário.
Ele era um filólogo, era um estudioso,
um reverendo Charles Bricks. E ele
começou a trazer o método científico
para ser ensinado na sala de aula. Ele
começou a trazer métodos diferentes para
ensinar na sala de aula.
E ele foi acusado de heresia e foi
sumariamente demitido do Union
Theological Seminary por ser herege. E a
heresia dele foi trazer os métodos
científicos pro estudo da Bíblia.
Então, o fundamentalismo, ele é um
movimento que surge como reação,
reação ao questionamento da Bíblia,
reação à ciência, reação à universidade
e tem como um pilar central
a inerrância da Bíblia.
A Bíblia não contém erros. A Bíblia
explica tudo, a Bíblia é infalível para
tudo e nós precisamos defender a Bíblia
de todos os ataques que ela está
sofrendo. Então ele é um movimento
reativo.
Reativo anticiência, antiuniversidade,
antidúvida
e que joga na Bíblia um conceito que não
está na Bíblia, que é o conceito de
inerrância de infalibilidade.
Só que a gente estudou ao longo dessas
últimas semanas e vocês ouviram que a
Bíblia é um livro extremamente complexo
e multifacetado.
E entender a Bíblia exige o esforço de
muita gente, principalmente hoje, tanto
tempo distante de quando ela foi
escrita. Então, para você entender
diversas passagens, você precisa
entender a cultura da época, ou seja,
você precisa da história, você precisa
da arqueologia, você precisa de
literatura comparada. Para os textos
chegarem até nós, nós precisamos dos
manuscritos.
Nós precisamos de uma série de pessoas
que estudaram, que trabalharam, que
copiaram, que traduziram, que estudaram
pra gente conseguir compreender as
coisas que estão escritas na Bíblia.
E como a gente falou várias vezes
durante a série, a Bíblia não é um livro
que caiu do céu. E se fosse, seria muito
mais fácil, que não teria nenhuma dessa
discussão. Caiu do céu, pronto, foi Deus
que deu, acabou. Mas a Bíblia é um livro
tremendamente humano, produzido por
humanos num contexto humano,
circunstâncias humanas, cultura humana e
assim por diante, de uma determinada
época, de um determinado tempo e assim
por diante.
Então essa confecção da Bíblia e a a
essa essa esse caminho que a Bíblia fez
para chegar até hoje, essa jornada da
Bíblia até hoje envolve uma série de
pessoas,
uma série de ciências.
uma série de estudos para que a gente
possa hoje ter a Bíblia em diversas
versões, ler, discutir, debater e assim
por diante.
E esse é o grande equívoco do
fundamentalismo.
Ao reagir à ciência, ao reagir ao
método, ao reagir às críticas e à
dúvida,
ela reage medo. O fundamentalismo reage
por medo. Medo de que as doutrinas
possam ser questionadas.
medo de que as crenças possam ser
colocadas em dúvida.
E esse medo, ele gera
especialmente
um comportamento que é um comportamento
de hostilidade.
A hostilidade. Hostilidade é o quê?
a ciência,
a dúvida,
a universidade,
a todo e qualquer tipo de
questionamento.
Essa hostilidade, ela vai produzir, por
exemplo, uma linguagem, uma linguagem de
guerra,
uma linguagem violenta de guerra.
E vocês todos já ouviram que nós estamos
numa guerra cultural.
Nós estamos numa guerra cultural. Nós
precisamos defender os valores da
Bíblia.
Essa hostilidade gera um comportamento,
um comportamento de embate.
E por isso que a apologética é tão
importante no meio cristão hoje.
Você precisa defender a verdade com
unhas e dentes. Você precisa defender
aquilo que você crê.
Há um enfrentamento,
gera também exclusão,
porque a verdadeira interpretação da
Bíblia, a verdadeira Bíblia, o
verdadeiro estudo da Bíblia é aquilo que
eu faço, que eu estudo, as conclusões
que eu chego, as crenças que eu tenho, a
fé que eu tenho.
E aqueles que não pensam como eu ou não
chegaram às mesmas conclusões que eu,
esses não são verdadeiros cristãos ou
não são verdadeiros intérpretes e assim
por diante. O método que eu usei para
chegar às conclusões que eu tenho, esse
é o método verdadeiro de estudo da
Bíblia. O método que outras pessoas usam
não, porque não chegaram às mesmas
conclusões que eu.
Então, você demoniza métodos, você
demoniza intérpretes e você cria um
movimento de inclusão e desclusão a
partir daqueles que chegam às conclusões
que você tem ou que você não tem.
Essa hostilidade causa uma divisão
no estudo da Bíblia.
E aí, a partir daí você tem a
classificação de herege. Todo mundo que
não concorda ou não pensa como eu ou tem
questionamentos é herege.
E aí tem as frases que vocês já ouviram
aos borbotões por aí, né? Olha, tomem
cuidado com as universidades.
Ai, os nossos jovens. Precisamos
proteger os nossos jovens dos
professores universitários, porque
quando eles vão paraa universidade,
eles perdem a fé.
Já ouviram isso, né?
Os professores,
a ciência. Aí vem aquelas frases, olha,
toma cuidado com tal livro.
Tal livro é perigoso.
Aí tem uns livros perigosos que os
cristãos não deveriam ler. Tomem cuidado
com tal ideia. Olha, tal ideia é
perigosa.
Tem que tomar cuidado, ó. Toma cuidado
com tal fulano, com tal ciclano, com tal
pastor, etc. Por quê? Porque há um
perigo que ronda iminentemente,
constantemente
as comunidades de fé. E esse perigo pode
levar você a virar um herege. E essa
heresia muitas vezes se resume a um
questionamento de uma doutrina. Mas será
que é assim?
Essa hostilidade faz com que o
comportamento seja eminentemente reativo
e violento.
E violento.
E essa hostilidade
produz a necessidade de você defender
aquilo que você crê com unhas e dentes.
E isso hoje a gente conhece esse
fenômeno, todo mundo usa essa palavra
hoje, que é a polarização. Você polariza
a fé
porque você precisa defender essa fé com
unhas e dentes dos ataques do inimigo.
E o inimigo ataca de todos os jeitos,
até com música ao contrário.
Não usa essa música porque esse disco
virado ao contrário é é demoníaco e tal.
Vocês já ouviram tudo isso daí?
Essa reação por medo que gera essa
hostilidade,
ela transforma a Bíblia no que a Bíblia
não é, no que a Bíblia nunca se propôs a
ser ela mesma.
E ela passa a usar a Bíblia não como
início, mas como meio e como fim da
jornada.
É fim porque ela é inerrante, ela é
infalível. Então, ela tá no mesmo nível,
na mesma categoria que Cristo.
E ela é meio porque ela passa a ser uma
arma que eu vou usar para provar aquilo
que eu creio.
Só que nesse processo, ao jogar
conceitos que são estranhos da própria
Bíblia dentro da Bíblia,
não é mais a Bíblia que guia a
discussão, mas é a gente que guia a
discussão que deve estar na Bíblia ou
não. E aquilo que é importante na Bíblia
deixa de ser importante. E aquilo que
não é importante na Bíblia passa a ser
tremendamente importante.
E aí vem essa maleabilidade
interpretativa, porque você vai usar
qualquer método que você quiser para
provar que a Bíblia diz aquilo que você
quer que ela diga.
Isso é tremendamente interessante. Eu
escrevi um artigo com o meu amigo
Peterson Brey, que é um teólogo também,
doutor também, nesse livro Teologia do
Domínio e Uso de Deus na política. E aí
tem um artigo que a gente escreveu que é
fundamentalismo, inerrância e poder, a
base da hermenêutica da teologia do
domínio. E aqui a gente trabalha vários
exemplos de como a mentalidade
fundamentalista,
ela vai usar o método que ela tiver que
usar para provar a doutrina que ela
tiver que provar.
Então vai ser um monstrengo. A maneira
de estudar a Bíblia vai ser um
monstrengo.
Vai pegar um um método aqui, vai pegar
um método ali, vai pegar um método a
colar e vai juntar tudo. Por quê? Porque
precisa provar sua doutrina.
Então, por exemplo, se a minha doutrina
diz que o sábado é o dia do Senhor,
Gênesis 1 do verso 1 até Gênesis 2 do
verso 3 é literal.
E Gênesis 2 verso 4 que fala: "Essas são
gerações" é dividido em duas partes. A
primeira parte pertence ao primeiro
relato porque fala: "Essas são gerações"
e a palavra hebraica toledot gerações
mostra que há uma historicidade do
texto. Então essa parte do verso precisa
estar no primeiro relato
para provar que o sábado é histórico e é
literal.
Só que curiosamente quem divide o verso
dois, quem divide o verso 4 do capítulo
2, são aqueles do método histórico
crítico, ou seja, aquele da hipótese
documentária que eu falei no início, que
atacam a Bíblia.
Só que aí eu uso os argumentos deles
porque eu preciso provar que o sábado é
literal. Agora, se eu guardo o domingo,
porque Cristo ressuscitou no domingo,
sei lá que é argumento,
Gênesis 1 a 11 não precisa ser literal
para mim, pode ser só poético, pode ser
o mito, porque eu não tenho necessidade,
eu não tenho apego à historicidade do
texto bíblico, tá entendendo? Eu não
necessário para mim, porque eu não
preciso provar nada historicamente ali.
Então eu vou ler Gênesis 1 a 11 como um
texto poético, mitológico.
A serpente,
impossível que aquilo tenha sido
literal. Então a serpente é um símbolo.
Tão entendendo? O sábado é um símbolo.
Tudo é um símbolo. É um poético. Ético.
Eu preciso ler com ética.
Por quê? Porque a minha teologia não
necessita que Gênesis 1 a 11 seja
literal. Então eu posso usar qualquer
método para interpretar que não seja
literal. Tão entendendo o processo? Eu
vou fazer isso com tudo. Então o embate
não se dá a partir da leitura do texto
bíblico, mas a partir da minha doutrina
para provar o texto bíblico. Se a minha
doutrina exige que tal texto seja
simbólico, ele vai ser simbólico. Se a
minha doutrina exige que tal texto seja
literal, ele vai ser literal.
E a questão não é literalidade ou
simbologia ou mito ou ética, qualquer
coisa. A ideia é o quê? É provar minha
doutrina.
Por quê? Porque a Bíblia é inerrante. A
minha doutrina tem que ser inerrante. E
as tensões todas da Bíblia são
ignoradas.
E aí tem um detalhe, quer você leia
Gênesis literalmente, quer você leia,
por exemplo, mitologicamente ou
poeticamente ouamente, todo mundo
concorda que a sexualidade em Gênesis é
mach fêmea e acabou e é isso e todo o
resto é desvio, é pecado.
Aí é curioso, você senta pro pessoal,
não, Gênesis 1 a 11 é poético, é
literal. Ah, então macho e fêmea lá em
Gênesis. Não, não, não, não, não. Isso
daí, isso daí é científico. Científico.
Ué, mas a ciência vale agora.
Ou seja, você use a c você usa a ciência
quando você quer, você despreza a
ciência quando você quer, você usa o
método de simbologia, de metáfora quando
você quer, você usa literalidade quando
você quer.
Por quê? Porque a questão não é o texto,
a questão é a doutrina,
a questão é a crença, é a fé onde meus
pés estão firmados. Portanto, a Bíblia é
um meio, um meio para provar a doutrina.
E ela é um meio porque ela é um fim,
porque ela é inerrante. Ela é a palavra
de Deus que desceu do céu, pronta,
literal e ponto final.
Esse é o grande problema do
fundamentalismo,
porque não se trata da Bíblia e não se
trata da revelação, mas se trata da
teologia, da crença, da fé e da religião
doutrinária.
Portanto, surgimento do fundamentalismo
não tem nada a ver com defesa da Bíblia,
mas tem a ver com defesa do status qu da
religião.
Se eles começarem a criticar a Bíblia,
se eles começarem a questionar a Bíblia,
as pessoas não vão devolver o dízimo.
as pessoas vão começar a duvidar disso,
duvidar daquilo, vão duvidar inclusive
do meu papel de liderança como pastor e
como líder religioso.
Se as pessoas começarem a estudar a
Bíblia e descobrirem
que o sacerdócio de Cristo
eliminou o sacerdócio humano e que
existe agora um novo conceito que é o
sacerdócio de todos os santos, como fica
o meu papel como sacerdote dentro da
igreja?
Tá entendendo onde isso vai chegar?
Por isso, essa reação
que surge do medo é hostil, porque ela
precisa defender as suas verdades. Por
isso que essa reação de medo é hostil à
ciência, à dúvida e ao questionamento.
E é por isso que quando a gente começou
a comunidade,
a primeira série que a gente fez depois
que a gente começou a comunidade, no dia
17 de dezembro de 2022, foi o pecado da
certeza.
Porque nós somos aprisionados nesse
sistema de que não pode haver dúvidas,
de que não pode haver tensões, de que
não pode haver questionamentos
e que todas as coisas são claras e
resolvidas e é tudo muito simples e não
é.
Qual é a solução para isso?
A solução para isso é a gente entender o
que a Bíblia fala dela mesma.
Quais são os termos que a Bíblia coloca?
e pararmos de buscar na Bíblia aquilo
que a gente pensa. Por exemplo, hoje
discussão sobre a Bíblia tem que incluir
democracia.
Que que a Bíblia fala de democracia,
gente?
Ah, a Bíblia é a favor do capitalismo.
Que que a Bíblia fala de capitalismo,
pô?
Não, a Bíblia é mais comunista que
capitalista. Que que a Bíblia fala de
comunismo? Ah, mas tem um pavor do
comunismo, né? O bicho do comunismo vai
vir pegar todo mundo, tal. O homem do
sacro era comunista.
Vocês estão entendendo? A gente tá
jogando só aborto. Pessoal, aborto,
aborto, aborto, aborto. Você vai ler na
Bíblia, qual a preocupação do autor
bíblico com isso? Casamento afetivo.
Qual a preocupação do autor bíblico com
isso? Mas a gente tá lá discutindo
ferreiamente como se a Bíblia tivesse
preocupada com isso. E as verdadeiras
preocupações da Bíblia a gente tá
ignorando.
E quando a gente fez aquela série de
meditações ano passado sobre os Salmos,
várias vezes eu falei
e depois já comentei em outros momentos.
Me impressionou a quantidade de vezes em
que a ideia, o termo, o conceito de
pobre, de cuidado com os pobres, aparece
nos Salmos.
E ali não é o pobre metafórico ou o
pobre espiritualizado, é o pobre mesmo.
É o destituído de de recurso.
A gente pensa, não, o pobre é
é a galera de esquerda, é a galera
liberal, fala dos A Bíblia tá recheada
de texto. É um dos assuntos mais
comentados na Bíblia do início ao fim. O
cuidado com as pessoas que não tá.
Não tá só nos textos que falam sobre a
terra, não tá só nos textos profetas.
reclamando da opressão, tá também nos
ensinos de Jesus e tá nos salmos
o tempo todo.
Mas a gente não discute isso porque isso
é, isso é incômodo. A gente vem no
shopping Genópolis,
vai comer no restaurante aqui, vai
passear no shopping, comprar um
negocinho ali. É incômodo você falar de
pobre.
É incômodo você falar de cuidar dos
pobres. É melhor falar de aborto. Mas
aborto não tá na Bíblia, caramba. O
pobre tá.
E agora
a gente jogou pra Bíblia coisa que não
tá na Bíblia. A gente quer discutir o
que não tá na Bíblia e resolver com a
Bíblia o que não tá na Bíblia. Porque a
gente transformou a Bíblia num livro que
ela não é.
Por isso ela virou um meio. Um meio para
provar o que eu penso.
Ela é uma arma.
A solução é a gente voltar os olhos para
o estudo profundo das escrituras de
verdade, olhando as complexidades das
tensões que a Bíblia apresenta,
complexidades escatológicas,
complexidades de de visão de Deus, que a
gente já fez uma série sobre aqui, as
visões diferentes de Deus, como cada
profeta, cada autor vai ter uma visão
diferente de Deus, do que ele é, do que
ele faz e assim por diante. a gente tem
que voltar a entender e estudar esses
esses essas tensões.
E ao invés de eliminar essas tensões, ao
invés de eliminar essas tensões,
mergulhar nelas, estudar mais
profundamente, pedindo a orientação do
Espírito Santo.
Esse é um caminho de solução.
Um outro caminho de solução muito mais
importante do que esse primeiro
é a gente olhar para textos que são
extremamente claros e reveladores.
Porque se a gente olha para Hebreus
capítulo 1 verso 1, que né alguns
acreditam que é Paulo que escreveu a
maior parte, né, dos cristãos, Paulo
começa dizendo: "Deus falou de muitas
maneiras aos pais e aos profetas e nos
últimos dias falou através do filho."
E aí a gente vai para Lucas, capítulo
24, Cristo ressurreto andando com
discípulos em caminho de Emaús. E quando
ele tá andando com os discípulos no
caminho de Emaú, vocês lembram que ele
fala? Ele conversa com eles o quê? Ele
fala com eles sobre o que as escrituras
falavam dele.
Cristo precisa ser o alvo. A Bíblia é o
início.
Cristo precisa ser o fim.
Ele é o alvo do estudo da Bíblia. Não a
própria Bíblia, não a doutrina, não a
crença, mas Cristo. Por isso que ele é o
filtro, por isso que ele é a chave para
eu entender o Antigo e o Novo
Testamento, entender tudo. Ele é o
centro.
Ele é o que reina no texto bíblico, na
minha vida e assim por diante.
A gente precisa estudar mais, mas a
gente precisa lembrar que Cristo é o
alvo. A revelação principal de Deus é
através dele, é sobre ele.
É tudo sobre ele, que é a nossa série de
estudos bíblicos na comunidade. É tudo
sobre ele.
Enquanto Cristo não foi esse centro, não
foi essa pedra fundamental, o resto vai
ser construído estranhamente.
E aí é por isso que a graça é tão
complexa.
Ah, mas tem a lei, não, mas tem isso,
mas tem aquilo.
É por isso que, ah, qual é a única
doutrina? A única doutrina é Cristo.
Sabe por quê? Porque ele é o centro de
tudo. O resto deriva dele. É através
dele. Ele é o filtro, ele é o centro,
ele é o caminho. Ele é a verdade. Ele é
a vida.
para onde nós iremos sem as palavras
dele, de Cristo. E todas as outras
palavras precisam ser entendidas a
partir das palavras dele.
Tá entendendo?
E por fim, a gente precisa entender de
uma vez por todas, segundo Timóteo,
capítulo 3:16, que é o texto usado para
falar que a Bíblia é inerrante, o
principal texto. Você toda a escritura é
divinamente inspirada, é inspirada por
Deus. Que toda escritura é essa? A gente
já discutiu isso aqui na primeira, no
primeiro episódio da série sobre a
Bíblia.
que escritura é essa?
Porque diz o texto que ela é infalível.
Infalível paraa salvação.
Ela não é infalível para arquitetura,
paraa biologia. Ela não é infalível
paraa química, paraa física. Ela é
infalível paraa sua salvação, paraa
minha salvação.
Agora, ela é divinamente inspirada. E o
e a palavra inspirada é teupneustos. A
gente já falou sobre ela aqui e aí eu
fiz o sermão e falei que teu pneus tem
essa ideia de de comunicar vida, de
soprar vida. A escritura ela é é ela é
inspirada por Deus porque ela sopra a
vida. Isso que significa inspirada por
Deus. Ela sopra a vida. É Deus que sopra
a vida. E aí um querido amigo meu
teólogo, Caio Perz, maravilhoso, me
falou: "Ó, cara, isso daí que você falou
tá num livro, John Poirier.
E sabe como é que chama o livro?
Maravilhoso.
A invenção do texto sagrado é o nome do
livro.
Ele faz uma análise gigantesca sobre o
uso da expressão teupneustos na cultura
grega e na Bíblia, que só aparece nesse
texto.
E ele vai chegar à conclusão do quê?
Teupneustos é comunicar vida, é soprar
vida. Toda a palavra é um sopro de vida
de Deus. É Deus comunicando vida.
Portanto, a Bíblia precisa comunicar
vida.
A Bíblia é comunicação de vida. Ela
comunicou vida a quem escreveu. Ela
comunicou vida a quem copiou. Ela
comunicou vida a quem traduziu. Ela
comunicou vida a quem discutiu se dev o
canon. Ela comunicou vida aos
tradutores. Ela comunicou vida à gente
que lê o texto. Ela comunica a vida pra
gente o tempo todo.
E o que ela fala? Qual é a mensagem dela
principal?
É justiça pros que não têm justiça.
É amor pros que não têm amor.
É não violência.
É não promiscuidade.
É entrega. Entrega de tudo que a gente
tem, de tudo que a gente é.
é principalmente Cristo Jesus
como centro de todas as coisas. Essa a
mensagem é isso que comunica a vida.
É ele o comunicador de vida.
E é por isso que um dos textos mais
bonitos, talvez pra gente entender essa
ideia do teu pneus da comunicação de
vida, é o vale dos ossos secos em
Ezequiel.
É um monte de osso seco que recebe uma
palavra, uma palavra do quê? de vida e
voltam a viver. É isso. Teupneustos,
inspiração, soprar é o sopro de vida.
O fundamentalismo quer tirar a ideia de
vida para defender doutrinas.
Nós precisamos trazer de volta pra
Bíblia a comunicação de vida e vida em
abundância através de Cristo Jesus. A
palavra
encarnada de Deus. Ele é a palavra
encarnada de Deus.
Eterno nosso pai e nosso rei,
na nossa leitura assim séria nessa da
Bíblia, Senhor, vamos v vamos ter muitas
dúvidas,
vão ter muitas tensões, vão ter muitos
questionamentos, muitas dúvidas. Por
favor, Senhor, nos ajude a pararmos de
demonizar as dúvidas, as incertezas, os
questionamentos.
nos ajude, Senhor, a nos entregarmos de
corpo e alma a ti através do teu
espírito, para que ele atue no nosso
coração e na nossa mente, para que a
gente busque na Bíblia não aquilo que a
gente quer provar ou desprovar,
que a gente busque na Bíblia a tua
comunicação de vida, o teu sopro de vida
paraa nossa vida.
E a gente sabe, Senhor, que esse teu
sopro de vida,
ele é Jesus Cristo, a palavra encarnada.
Senhor, que teu espírito sopre Cristo na
nossa vida. Que teu espírito sopre vida
através de Cristo na nossa vida.
E que a gente entregue, Senhor, tudo
aquilo que somos e que temos a Ele,
Jesus Cristo, o verbo encarnado, a tua
palavra, a tua revelação, o teu filho
amado. Em nome dele que nós oramos.
Amém. M.

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