COMO UNIR A TEOLOGIA COM A PSICOLOGIA A BÍBLIA? – HELDER CARDIN
04/03/2026
COMO UNIR A TEOLOGIA COM A PSICOLOGIA A BÍBLIA? – HELDER CARDIN
A tarefa de conciliar os mandamentos bíblicos com as afirmações da psicologia é uma tarefa árdua. Entretanto, como demonstra o teólogo Helder Cardin, nós precisamos diferenciar entre descrição e interpretação da realidade.
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Fonte: Edições Vida Nova
Legendas automáticas:
Agora, quando a gente fala dessa união dos dois, existe aquele debate entre, mas pera aí, a suficiência das escrituras? Como é que a suficiência das escrituras fica quando a gente tenta aproveitar algo da psicologia? Então, como essas duas coisas podem se mesclar, >> joia? Eh, o senhor, ótima, ótima pergunta. ela ela reflete um debate histórico muito grande. Eh, eu diria que não é só no aconselhamento, não, na própria teologia, por exemplo, como lidamos com o conceito de graça comum, >> né? Verdade. >> A questão ela acaba sendo mais pertinente ao aconselhamento bíblico, justamente porque eh eh das disciplinas teológicas, das disciplinas ministeriais, é a mais dedicada ao trato, ao cuidado do indivíduo, né, do ser humano. Eh, então eu quero dividir essa essa resposta, a minha resposta em dois em dois níveis. Primeiro deles, como os autores trabalham, tá? E o segundo, o que seria uma outra perspectiva não conflitante, nem complementar, um pouco distinta da deles, né? Primeiramente eles trabalham com o conceito de uma certa compatibilidade ou mútua cooperação entre Bíblia, eh, entre teologia e psicologia, psiquiatria, seja lá qual for a ciência eh de trato do ser humano, né? seja mental, psíquica, física, seja lá o que for, a partir do conceito de graça comum, que, aliás, é um conceito que todos nós cremos, especialmente no contexto da tradição reformada, né? O o o ser humano, ele foi feito à imagem semelhança de Deus, dotado de capacidade intelectual, né, cognitiva, afetiva, comportamental, eh, criativa, volitiva, né? Então, então assim, o o médico, independente de ser crente ou não, ele atua no mundo, né, domina o jardim de Deus no âmbito da medicina pelas capacidades que Deus lhe deu. A a habilidade criativa do ser humano não vem do diabo, vem de Deus. a capacidade de pesquisa, de entendimento, de reduzir a conceitos, de reduzir os elementos da natureza, a uma fórmula, né, seja da culinária ou da medicina, isso vem de Deus, né? Não podemos negar isso, a própria capacidade de estabelecermos processos educativos que lev em conta as características de cada faixa etária. Se em determinado momento unir o lúdico com o visual e o cognitivo, isso potencializa o conhecimento. Isso é graça de Deus. E e senor, independente de quem fale isso, enquanto expressando graça e verdade de Deus, aquilo é compatível com a revelação de Deus. >> Sim. Sim. Eu gosto muito daquela frase famosa, né? Toda verdade é verdade de Deus. >> Isso. Isso. Por quê? Porque se ela é verdade, epistemologicamente falando, ela encontra respaldo ou coerência com a verdade de Deus. Não existe uma fonte paralela a Deus e sua revelação de verdade. Não existe. Uhum. >> Né? Agora a gente tem que lembrar, já quase que indo para essa outra, a a segunda parte da resposta, nós temos que nos lembrar que a Bíblia ela não é um compêndio exaustivo de todas as realidades, todas as circunstâncias, da medicina à biologia, tá? Da botânica à engenharia, da matemática psicologia, seja lá o que for. Isso não é a Bíblia. Uma visão equivocada da Bíblia nos fará achar que ela é um manual inesgotável, quase que um dicionário, de verbetes infinitos, que trata de todas as questões, todas as realidades e circunstâncias humanas, da direção do meu carro à educação do meu filho, tá? >> Isso, isso não é a Bíblia, >> tá? Então, voltando pra questão dos autores, eles abordam, né? Eles propõe uma perspectiva mais integrativa entre aquilo que compete a teologia, aquilo que compete ao aconselhamento, aquilo que compete à Bíblia, um trato do indivíduo, da sua saúde, da sua sanidade, dos seus distúrbios, transtornos, seja lá o que for, nesse âmbito de competência. No entanto, nós precisamos nos lembrar que existe a medicina, existem medicamentos, existe essa descrição de comportamentos, esses padrões de atitudes ou circunstâncias que designam um eventual eh uma eventual doença eh orgânica ou mental de alguém. Nesse sentido, ô ô Saur, eles são muito equilibrados, viu? Muito muito equilibrados. Eles não colocam toda a ênfase ou toda todo o o resultado do trato de indivíduo na medicina, na psiquiatria. Eles são muito equilibrados. Isso é muito legal. Então, eh eh a gente tava até conversando em off aqui, né, eu e você, antes de de gravar, como eles são conciliadores no sentido positivo, >> né? Eles eles enfatizam a verdade bíblica. Sor, eles falam muito sobre a igreja, eles falam muito sobre a centralidade de Jesus. Eles falam muito sobre a palavra de Deus, o que é muito bom, mas eles não desconsideram a realidade da medicina, eventualmente da psicologia e e tantas outras ciências que podem cooperar nessa descrição do indivíduo. Uma coisa muito, muito legal e que eu concordo demais com eles, é quando eles dizem que a medicina, a psicologia são eventualmente capazes de descrever comportamentos, mas elas não são capazes de interpretar. as causas ou as razões desses comportamentos nos aspectos mais profundos do coração humano, na realidade mais profunda do indivíduo, na sua aceitação ou rebeldia para com Deus. Cara, isso é muito legal, isso é muito certo, né? Eles até falam, né, que precisamos cuidar eh não apenas com a afirmação de uma determinada logia, né, seja psicologia, pedagogia, sociologia, medicina, o que for, mas devemos também nos preocupar com a cosmovisão subjacente a essas perspectivas. E aí ele vai dizer: "A maior parte dessas ciências são antropocêntricas, elas são fora da revelação divina, portanto nunca terão uma perspectiva correta, definitiva, verdadeira sobre todas as coisas, embora possam ter relampejos da verdade." E é isso aí, né? Agora, eu não sei se eu necessariamente chamaria, né? com isso estamos integrando uma abordagem integracionista, não é uma abordagem que está disposta a ouvir, a considerar perspectivas descritivas da realidade humana. No entanto, em termos interpretativos, em termos eh tratativos desse indivíduo na sua realidade imaterial, espiritual, aí o aconselhamento pela palavra de Deus centrado em Jesus certamente é o mais adequado. A segunda parte da minha resposta, ela tenta lidar com o significado de suficiência das escrituras. Ao longo da história da teologia, três termos surgem. nós acabamos conhecendo apenas um deles, né? Sola escritura. Sola escritura significa o quê? Que apenas a escritura, e a gente teria que voltar paraa reforma protestante, não é nosso propósito, né? Somente a escritura é fonte autoritativa, inequívoca, revelada de Deus, tanto naquilo em que devemos crer, quanto em como devemos viver. Ela que pauta da nossa teologia ao nosso comportamento. Isso é só a escritura. O segundo elemento é o tota escritura. Tota escritura significa que toda a escritura é revelada, inspirada por Deus plenária e verbalmente. Ou seja, eh, de Gênesis a Apocalipse, o todo da revelação é verdade de Deus. Isso quer dizer, Saor, que aquilo que Deus fala sobre o ser humano em termos da sua criação, da sua composição em Gênesis, é verdade. Tanto quanto o retrato de personagens bíblicos em profunda angústia, como o livro dos Salmos. Aliás, uma coisa muito muito legal e que eu uso muito no aconselhamento, né? Eh, os autores falam determinado ponto como é importante ler Salmos com pessoas que lidam com crises eh mentais, né? como os salmos exprimes, angústias, dificuldades, percepções humanas da realidade. Então, Salmos tem muito a nos ensinar sobre isso. Isso é tota escritura. No entanto, mais especificamente na virada do século XIX para o século XX, com o surgimento do movimento fundamentalista, que é muito legal e bonito na sua origem para combater o liberalismo teológico, num segundo momento, ele se torna mais sectário, belicoso, divergente da seguinte forma: todo mundo que não pensa ipsis líteres em todas as cláusulas e artigos que como nós tá fora, é heregem. E um dos conceitos que se formula a partir disso é nuda escritura. Nuda escritura, nada além da escritura. Então vamos lá. Sola escritura, tota escritura e nuda escritura. Eh, numa perspectiva, eu diria, desbalanceada, nuda da escritura, significa o seguinte: não. Se não tá na Bíblia, não é de Deus. Então, nada além da escritura tem capacidade argumentativa, diagnóstica, interativa, propositiva, tratativa do ser humano. Tá? Mas isso não é a Bíblia. A Bíblia, então aí eu volto à questão da suficiência. A Bíblia é suficiente, autoritativa e verdadeira como revelação de Deus. Ela é inequívoca em absolutamente todos os elementos que ela trata como revelação de Deus. Mas ela não é um livro inesgotável. Tanto é que ela tem começo, meio e fim. >> Sim. Sim. >> A Bíblia ela não trata de absolutamente todas as circunstâncias minúcias de toda a experiência humana, de toda a história. Isso quer dizer que ela não é suficiente? Ela é suficiente, ela é autoritativa como fundamento do qual partimos para lidar com toda e qualquer circunstância ou realidade pelo qual o ser humano passe. Mas isso não quer dizer que ela descreva todas as circunstâncias >> ou que ela esteja preocupada ou intencionada em trazer para nós em minúcias detalhes exaustivos sobre os nossos sentimentos, nossas emoções, crises ou dificuldades. Eh, tô extrapolando até um pouquinho aqui, mas eu acho que é importante para responder essa pergunta, né? Deixa eu falar para você como é que eu trabalho essa questão da autoridade e suficiência das escrituras no aconselhamento. >> Sim. >> Eu trabalho com duas expressões a partir das escrituras e conforme as escrituras, em que elas são diferentes a partir das escrituras significa o quê? Existem verdades, relatos, registros, conteúdo revelado, registrado, escrito, do dos quais todos nós temos que partir. Só que ela não trata de absolutamente tudo, porque esse não é o propósito bíblico, >> tá bom? >> Aí entra o conforme, >> conforme o todo da escritura, conforme a sabedoria bíblica, né? Por exemplo, quantas experiências humanas nós temos que a Bíblia não prescreve por causa disso? tá liberado e eu faço o que eu quero. Não, porque existe uma sabedoria conforme a Bíblia. Existe uma verdade que eu desenvolvo a partir da Bíblia. Isso até o que alguns autores mais da teologia sistemática vão trabalhar a diferença entre Bíblia e doutrina. Bíblia é a verdade revelada. Doutrina é a formulação lógico-sistemática encadeada da verdade bíblica de uma forma compreensível e explicável da parte daqueles que entendem a verdade revelada. E eu diria para você que então sola, tot e nuda escritura ajudam a gente com cada uma das suas explicações, tanto a entender autoridade suficiência, quanto com o que a Bíblia não está lidando e que, portanto, não deveríamos atribuir a ela uma responsabilidade a um propósito que ela não tem, né? Então, a Bíblia é suficiente inequivocamente, tá bom? inegavelmente, ela trata de absolutamente tudo pelo que o ser humano passa. Não, isso não é o propósito dela. Vamos ser sinceros. Ela é história de Deus, não de ser humano. E quando a Bíblia fala do ser humano, fala em relação a Deus, não em relação a si mesmo. Então, isso quer dizer que ela tá mais preocupada em descortinar para nós o caráter, feitos e propósitos de Deus, do que simplesmente tratar em minúcias e detalhes exaustivos todas as experiências humanas. Então isso quer dizer que eventualmente pela graça e bondade de Deus outros ramos vão ter oportunidades de descreverem para nós padrões de comportamento. Aí eu vou dizer: "OK, legal, informação interessante, isso parece fazer sentido, verdadeiro. Agora, biblicamente, nós vamos ter que lidar dessa ou daquela forma. Então, o que eventualmente outros ramos podem descrever, sua Bíblia pode interpretar.