Mulheres no Cristianismo Antigo – BTCast 636
07/03/2026
Mulheres no Cristianismo Antigo – BTCast 636
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Muito bem, muito bem, muito bem! Está no ar mais um BTCast! Neste episódio Cynthia Muniz e Carina Prestes se reúnem para conversar sobre arqueologia e o que as evidências materiais revelam sobre as mulheres no início do cristianismo. A partir de inscrições, achados funerários, espaços de culto e outros vestígios arqueológicos, a conversa explora como a pesquisa histórica tem ampliado nossa compreensão sobre a presença e a atuação feminina nas primeiras comunidades cristãs. Ao longo do episódio, discutimos como a arqueologia ajuda a iluminar aspectos do cotidiano da igreja primitiva que muitas vezes passam despercebidos apenas na leitura dos textos. O que as inscrições antigas dizem sobre liderança e participação das mulheres? Como os contextos domésticos e comunitários ajudam a entender seu papel na expansão do cristianismo? E de que forma os achados arqueológicos dialogam — e às vezes tensionam — nossas leituras tradicionais da história da igreja? Essas e outras perguntas aparecem neste BTCast — em uma conversa que cruza história, arqueologia e teologia, mostrando como fragmentos do passado ainda têm muito a dizer sobre a formação das primeiras comunidades cristãs.
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Fonte: Bibotalk
Legendas automáticas:
Começa agora o BT. Teologia é nosso esporte. Muito bem, muito bem, muito bem. Está no ar mais um BTC, o de número 636. Eu sou a Cinttia Muniz. E será que realmente durante 2000 anos as mulheres não foram líderes na igreja? >> Olá, eu sou a Karina Perestes e eu pesquiso as mulheres nos registros arqueológicos dos primeiros séculos da era moderna. E é isso mesmo, gente. Você não está enganado. Nós estamos aqui no episódio especial do Dia das Mulheres deste ano. E por isso que o Bibo não tá aqui hoje. A sala é todinha das mulheres e a gente vai discutir aqui esse tema importantíssimo, super interessante. Fica aí porque você vai realmente gostar muito dessa conversa. Mas antes se liga aí nos recados paroquiais. >> E nos recados paroquiais dessa semana, galera, o ano já começou, metas foram estabelecidas, rotina, né? você tá aí, você já fez aquele planejamento, tem que tá começando a, né, rodar aí, né, porque já passou o carnaval. Eu sei que vai ter um monte de feriado esse ano, mas, galera, não dá pra gente ficar se apoiando em feriado e coisa, não. Já começou o ano, as metas, a rotina. E, gente, sem sombra de dúvida, quando você não precisa se preocupar com a sua roupa, tá? Você só se preocupa uma vez, que é agora. Nesse momento eu quero fazer que você pense no seu guarda-roupa e nas suas roupas. Por quê? Porque a Insider está na semana do consumidor, de 9 a 15 de março, os descontos podem chegar até 50%. Certo? Então é, agora é o momento de você pensar na sua roupa, no seu guarda-roupa, tá? Porque a Insider ela tem as roupas perfeitas para o seu dia a dia, para a sua rotina. Vou vou, deixa eu ver como é que eu tô na câmera aqui, ó. Eu tô com a minha clássica tech t-shirt, ainda que a que eu mais uso é ou a core ou a Henley. A minha camiseta preferida é a Henley. Cai bem, mano. Eu uso para pregar direto. Ela é bonitinha. três botões aqui, tá? E eu tô, mas eu tô com a clássica tech, ó, future form, tá? Ó, essa calça aqui, galera, é pau para toda obra. Eu saio, ó, eu tô bem arrumado. Vocês podem dar uma olhada aqui, ó. Olha aí. Aí, ó. Ah, deixa eu tirar a cadeira, né? Aqui, ó. Eu tô bem arrumado, bem apresentável para uma palestra, entendeu? Posso viajar de boa com essa roupa, posso já chegar do aeroporto e ir pra igreja palestrar. você que vai pro seu trabalho, reunião de escritório, que eu tô com a minha calça aqui da Insider, eu tô com a minha Tech T-shirt, tudo tecnologia, tá galera? Antiodor, bem, sabe, bem respirável o tecido. A essa calça mesmo aqui, mano, sujou, passa uma aguinha aqui, já tá limpo, repele, inclusive, sensacional, tá? Ou seja, eu posso ir pra academia com essa roupa se eu quiser, porque a Insider tem essa versatilidade que te ajuda na rotina. Então, você vai se preocupar com roupa só agora, depois você adquiriu as suas insides, as suas peças, tá? Você não precisa mais se preocupar por lavou, meu irmão, minha irmã, botou para secar, joga direto no guarda-roupa. 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Então, usa aqui o meu QR code ou link que está aqui na descrição deste podcast ou no primeiro comentário fixado e garanta já a sua Insider nessa semana do consumidor. >> E é isso, pessoal. Estamos aqui hoje uma teóloga e uma arqueóloga para falar sobre esse tema intrigante das mulheres nas origens do cristianismo. E assim, só alguns disclaimers pra gente começar essa nossa conversa. Eh, esse podcast, ele não é um podcast que fala sobre a ordenação feminina, se tá certo ordenar mulheres hoje ou não. Eh, mas é um tópico que passa por esse assunto no sentido de que a gente vai explorar as evidências de que mulheres já foram líderes na igreja, né? E isso por quê? Porque além daqueles textos de Paulo que todo mundo já conhece, daquelas discussões todas sobre se a mulher pode ou não pode eh liderar na igreja, nós temos também eh uma afirmação que foi até a minha entrada, né, que é muito comum, de que durante 2000 anos as mulheres nunca lideraram, né? Não não há qualquer registro de mulher que tenha liderado na igreja, né? exercido alguma função ordenada, algum cargo eclesiástico. Então, as pessoas costumam achar que esse tópico é um tópico do feminismo, é um tópico moderno, eh, a igreja sendo influenciada pela pós-modernidade, mas a gente justamente vai trazer uma visão diferente, baseada não agora nos textos bíblicos ou mesmo nos relatos dos pais da igreja, daqueles documentos, né, iniciais da história do cristianismo, mas a gente vai entender o que que a arqueologia pode contribuir para essa conversa. E eu estou aqui, né, com a Kina Karina Oliveira, doutora Karina Oliveira, que eu tive o prazer de conhecer no congresso da CBE em 2023, né? ela estava lá traduzindo, né, fazendo a tradução simultânea pra gente. E desde aquela época eu lembro que a gente já começou a trocar umas figurinhas e eu fiquei super interessada no trabalho dela e muito da nossa conversa aqui hoje justamente é pautada no livro dela e na tese dela de doutorado. Então, Karina, seja muito bem-vinda e eu vou pedir para você se apresentar e falar um pouquinho sobre o seu trabalho. Olá. Eh, eu sou a Kina Oliveira Prestes, então às vezes as pessoas vêm Kina Prestes, às vezes Karina Oliveira. Então são os dois nomes aí, não, não existe confusão, tem os dois sobrenomes. Ah, então, eh, eu fiz os meus estudos, né, de pós-graduação foram em arqueologia e eu tive uma grata surpresa que o sítio arqueológico que tava estudando, escavando, trabalhando nos nos estudos doutorais durante o meu PhD, a gente tava escavando uma basílica que a gente descobriu que tinha evidência de mulher e daí foi uma uma foi puxando a cordinha, puxando a cordinha e se tornou essa tese, né? E a gente, nós somos surpreendidos por isso, a por essa, esses achados. >> Ah, super legal. E você estudou nos Estados Unidos, certo? >> Isso é, então eu fiz o mestrado e doutorado na Andrew's University, que fica em Michigan, >> nos Estados Unidos. E daí a gente escavou um sítio arqueológico na Sicília, que é ali no sul da Itália, né? a ilha na ponta da bota do da do da Itália continente, né, que a Sicília é um país que tem uma tradição cristã muito antiga, né? Eh, o apóstolo Paulo na sua jornada para Roma, ele passa pela Sicília, né? Uhum. >> Não é não é necessariamente no sítio que a gente escavou, mas tem toda essa tradição muito antiga de cristianismo na Sicília. >> E todo o seu estudo, né, Kina, tu se transformou num livro que foi lançado no ano passado, né, >> que a gente tá torcendo para que seja publicado aqui no Brasil e depois no final do episódio a gente mostra aí a carinha do livro. Eh, eu tenho a alegria de ter um exemplar aqui comigo e estamos torcendo, né, Carina, para que seja traduzido logo aqui. Acho que a gente precisa desse livro. >> Estamos aí vendo, pensando, v, torcendo para que sa em breve da melhor forma possível, que atinja o maior número de pessoas possível. >> Uhum. E eu fiquei muito feliz de saber que você vai ser inclusive palestrante no congresso da CBE agora esse ano lá nos Estados Unidos, certo? Apresentando o trabalho do seu livro. Eh, e gente, eh, enche a gente de orgulho ter uma eh acadêmica brasileira representando a gente lá fora, né, com um tema tão importante e estudos assim que são bastante inovadores e que contribuem bastante, né, para para essa discussão toda que, como eu disse, né, ainda é muito acalorada e que ainda se prende muito a questão dos textos paulinos, eh a questão de alguns eh conceitos, né, sobre o contexto histórico e cultural, que às vezes vão se tornando meio que ultrapassados. E aí eu queria que você falasse um pouco sobre o papel da arqueologia nisso, porque eu sinto que quando a gente lê alguns materiais mais antigos, a gente tem alguns pressupostos do contexto histórico que já parecem assim meio datados em relação às novas descobertas arqueológicas. Então essa questão do contexto cultural meio que vai evoluindo conforme evolui a arqueologia. É isso mesmo, Carina. Isso eh é bem interessante que quando eu comecei a pesquisar, eu o sítio arqueológico que tava escavando era uma basílica que a datação dessa dessas evidências paraa mulher era do quto século. >> Mas eu falei assim, não, eu preciso ir para trás, né? Então eu comecei a ver alguns livros do Novo Testamento aqui que falavam sobre mulher e eu comecei a ver que eles repetiam um depois do outro mesmas coisas e para mim não fazia sentido dentro para fazer uma harmonia com o texto bíblico, com a com a teologia do Novo Testamento. Não fazia sentido. Não fazia sentido. E também já tinha pesquisado, já tinha estudado, né, a arqueologia do Novo Testamento, já tinha viajado um pouco pela Europa, eu falava: "Isso aqui não faz sentido". >> Uhum. >> Aí eu falei: "Não, eu não posso estudar esses livros que todos repetem". Ah, e o que me marcou bastante foi, por exemplo, eh, a entrada no Anchor Bible Dictionary, que é uma referência, né, sobre mulheres no Novo Testamento. >> Ali eu falei assim, isso aqui não tá. e todos repetiam essa mesma história. Então eu fui e falei assim: "Não, eu preciso ver o que a arqueologia fala sobre esse background, né, do mundo greco romano, eh, como que era o mundo sócio, político, religioso nesse período." Então eu comecei a ver o que que as pedras, inscrições, estátuas falavam sobre o papel da mulher na sociedade >> e também religioso em geral, >> porque o cristianismo não surgiu do vácuo, surgiu no contexto, né? Então eu estudei a o mundo greco romano e também um pouco do contexto judaico, eh, >> Uhum. dessa emergência, né, desse começo do cristianismo. E daí eu comecei, acabei parando em alguns livros de arqueologia totalmente secular, arqueologia romana, né, um livro fala sobre as mulheres eh de Roma. >> Uhum. >> Eh, nada conectado com o Novo Testamento. Aí aí abriu o mundo para mim. Eu falei: "Não, eu tô tô chegando alguma coisa nova, conectando esses dois mundos, né?" Então foi isso. Então esse background a ver o background do Novo Testamento não baseado nos escritos, porque a maior parte dos teólogos quando eles falam baseados no nos pais da igreja, nos escritos dos pais da igreja. >> Uhum. >> E daí eu falei: "Não, eu quero estudar o background não baseado nos pais da igreja e no que os outros livros falaram. Eu quero estudar o background baseado nas pedras, >> na na arqueologia. Então é daí que foi meu ponto de partida. >> Aham. E aí assim, você falando isso, eu me lembrei porque o Nid Gupta e no Chell Hair Story, que lançou mais ou menos na mesma época que que eu dei a palestra lá da CB e foi um livro que eu usei bastante de base na época, ele já traz um pouquinho dessas descobertas, né, eh, arqueológicas. A gente depois vai falar um pouquinho mais, né, sobre as mulheres sacerdotisas até mesmo dentro do judaísmo e tudo mais. E algo que a gente percebe quando a gente olha só para os escritos é que existe, eu costumo dizer pro pros meus alunos que tem uma diferença entre a expectativa e a realidade, porque eu acho que os os escritos eles representam muito mais as expectativas sociais daquela cultura sobre as mulheres do que a realidade que era muito mais complexa e diversa, dependendo de localidades, dependendo de condição socio econômica. Eh, e eu queria que você falasse um pouquinho mais sobre isso, né? Sobre o por a gente eh é importante a gente acrescentar uma outra fonte nessa conversa. >> Então, é, isso tem a ver com a metodologia, né? Porque algum algumas classes de evidências elas tendem a ter algumas eh alguns preconceitos, algumas ideias pré-concebidas, né? Eh, ali dentro delas, pertinentes a esse tipo de evidência. Mas agora quando você usa mais de um tipo de evidência, não só literária, mas é material também, que daí vem da arqueologia, uma acaba balanceando a outra. E um perfeito exemplo disso é de uma mulher chamada umia quadritila, tá certo? Um nome bem diferente, nome bem latino de do latim, né? >> A Roma. >> Ah, Plínio, ele fala sobre ela. Deixa só confirmar aqui, ó. o jovem fala sobre ela, >> só que ele só eh louva as qualidades dela como uma dona de casa. Então, quando você pega evidência literária, você acha que a mulher só fica dentro de casa, não tem agência nenhuma. Elas t aquela vidinha dentro de casa sendo dona de casa. >> Uhum. Só que por uma coincidência enorme, a arqueologia achou inscrições que mencionam ela. E agora a arqueologia pega e mostra que ela era uma dona de casa que tinha muita honra, né, que nesse contexto do Novo Testamento do Mundo, eh, do antigo Oriente próximo e da Europa também, esse contexto de honra e vergonha era muito importante. ela era uma mulher honrada, né? Só que ela também ela era uma patrona, tá certo? Uma benfeitora. Ela patrocinou com várias construções enormes na cidade, ou seja, ela tinha poder de administrar o seu próprio dinheiro >> e agora ela pegava e fazia todas essas benfeitorias pra cidade. >> E isso eh trazia para ela muita evidência, eh muita preminência na sociedade e também uma certa honra e com isso um pouco de poder também, né? Então agora a gente começa, tem uma outra perspectiva. Então evidência literária, uma mulher que só fica em casa. Agora a evidência arqueológica mostra não tanto, talvez ela era um pouco mais do que o Plío falava. >> Uhum. E quando a gente fala então nessa nessa questão do contexto, né, que eu falei das expectativas, a gente, né, precisa lembrar aqui, acho que a gente até já comentou isso em outros episódios do Betcast, que o mundo greco-romano, eh, ele tinha lá os seus ideais, né, muito eh, devedores à filosofia aristotélica, por exemplo, de uma inferioridade da mulher, de que a os atributos da mulher que eram valorizados era justamente a castidade. isso, né, significava que ela ficava um pouco mais reclusa no ambiente de casa, que isso traria honra, né, eh, para ela, para o marido dela, todas essas relações que a gente falou. Então, existe um ideal, mas, eh, também existe a questão do dinheiro e da condição socioeconômica, né? Então, os relatos já t mostrado pra gente mulheres que tinham proeminência na esfera pública, que era algo que era esperado principalmente dos homens, né, o falar publicamente, o se manifestar na esfera pública, eh, no contexto religioso e até mesmo, né, nessa questão do do patronato que é tão importante, porque ele aparece na Bíblia, né, Karina? Você pode citar alguns exemplos aí pra gente? É, o grande exemplo para nós é Romanos 16, que Feb, né, ela era uma patrona ali, eh, fala que ela ajudou a muitos, né, eh, a tradução tira um pouco do poder. Primeiro que ela era uma diácona, daí só que coloca que ela era uma serva. Só que quando você coloca ser é diferente. Só que para outras em outras ocasiões quando eles traduzem para homens colocam diácono. Agora para mulheres colocam serva, né? Essas traduções. Ah, que daí a gente vê essas esses preconceitos que são trazidos, >> são por trás da das traduções, né? Toda tradução tem um uma intenção, >> essa cosmovisão, né? essa que vem por trás, essa antropologia que determina, acaba determinando essas traduções. Ah, então, eh, uma delas é a FEB, né, que ela era patrona, mas se você for vertica também tem várias outras. Quando as mulheres elas abriam as casas para receber as comunidades cristãs nas casas delas, aí você consegue talvez encaixar essa dinâmica do patronato do primeiro século. Porque a a dinâmica do patronato, resumindo aqui brevemente, as pessoas elas eram amigas só quando elas eram do mesmo nível social. Elas podiam ser amigas, mas quando elas tinham níveis diferentes, um sempre era patrono e o outro era cliente, tá certo? Então agora quando as os cristãos normalmente eles iam se reunir na casa maior que abria as suas portas. Então o fato de eu abrir as portas da minha casa para receber essa comunidade cristã já faz de mim. Eu tô oferecendo um favor para essa pessoa que é a dinâmica do patronato e troca de honra, tá certo? >> Então isso já coloca eh a pessoa numa posição de liderança, né? se você liderança, porque a gente pensa, por exemplo, ah, estou abrindo a minha casa para receber as pessoas. Então, quando a gente pensa hoje no contexto evangelical brasileiro, ah, é uma célula, é um pequeno grupo, eu estou abrindo a minha casa para receber as pessoas, mas não necessariamente eu sou o líder daquele pequeno grupo, ou sou eu quem vou pregar, ou sou eu quem vou dirigir aquela reunião. Ah, no mundo antigo não era assim que funcionava, certo, Carina? >> Não era assim. A gente tem que agora entender que as igrejas, as primeiras, não, igreja é errado falar, as primeiras comunidades cristãs eram basicamente dentro de casas. Então, eh, isso tá na vida é bem claro isso. Todas as vezes que falar que foram pra casa de tal pessoa, foram paraa casa de tal pessoa e que abriu suas portas para receber, tem várias eh na Bíblia. Então, eh é assim. Então, as as comunidades cristãs, elas se reuniam primordialmente em casas, tá certo? Às vezes é numa sinagoga, às vezes num jardim, mas primordialmente em casas. >> Em casa. A, daí agora vem essa ideia do background, né, da da sociedade greco-romana. Tem algumas coisas que a gente chama de tradições profundas. Que que é isso? são coisas que não mudam na sociedade. São algumas dinâmicas ah sociológicas que não mudam de um lugar para outro e através dos séculos, tá certo? E uma delas que normalmente se repete em diversas sociedades através dos séculos é a administração da casa pela mulher. A mulher normalmente ela comanda a administração da casa. Agora você junta isso. Isso a gente também vê no registro arqueológico do período greco-romano do primeiro século. >> Período romano. Ah, no mundo greco-romano do primeiro século. Eh, a gente vê isso agora. Você junta isso com a o tipo de reuniões que eram feitas pros cristãos. Qual como que eram as reuniões? eram muito diferentes do que uma reunião de uma igreja hoje. Uma reunião de uma igreja hoje em diferentes dominações, a maior parte vai ser alguém dividindo a palavra, né? Dividindo a Bíblia, algum pensamento. Essa vai ser a parte principal. >> Só que pros cristãos do primeiro século, essa não era a parte principal. Parte principal era a refeição. >> Então agora daí coloca as mulheres ainda mais em evidência, porque normalmente é mulher que administra a casa. E só voltando os dois passos que você tinha mencionado, essa dinâmica do ideal e do real, né? >> Então juntando isso com a casa, o ideal eh o homem era realmente era a pessoa que dominava, que mandava o pater famílias, né? era a pessoa que dominava. Só que agora a gente tem que colocar isso no contexto do primeiro século do Império Romano. Qual que é o contexto do primeiro século do Império Romano? O primeiro século, o que que tava acontecendo com o Império Romano? Tava alargando suas fronteiras, ou seja, tava expandindo. E com essa expansão, o que que acontece? O que que acontece com os homens quando eles período de guerra? Os homens t que sair de casa, tá certo? Eles saem para primeiro treinar paraa batalha, saem pra batalha, muitos ficam machucados e muitos não voltam, tá certo? Então tem um grande problema aí que daí agora os homens estão fora de casa e as mulheres que ficam. Quando o homem tá fora de casa, quem que comanda é a mat família, >> é a mulher, entendeu? Então tem essa dinâmica também que daí no primeiro século a gente vê as mulheres tomando muito mais prominência na sociedade do que nos séculos anteriores, nos períodos anteriores. >> Uhum. E ainda nessa questão do contexto, né, você falou a respeito das casas e eu acho que é legal a gente reforçar que, por exemplo, as casas elas não eram como as nossas casas hoje, né? elas eram um misto de ambiente público e ambiente doméstico, né? >> Eh, essa divisão de público privado que a gente tem hoje, eh, é uma é uma coisa mais recente, né? >> A casa era bem misturada a isso, porque muitos negócios aconteciam dentro da casa. Então, é bem misturado, bem colocado, senti que era essa mistura do público e privado dentro da casa, não tinha essa grande mistura. Então, quando você coloca a mulher como a líder da casa, acaba sendo uma liderança pública privada, não é uma liderança pequena de uma dona de casa só que só fica em casa. >> É uma liderança que tem consequências para fora de casa pública, né? >> Ah, pensando aqui ainda no no contexto greco-romano, né? dentro desse contexto religioso, eh, se a gente, né, começa a ver as evidências, a gente percebe, por exemplo, que mulheres eram sacerdotisas, né, dentro do do culto, né, do dos deuses ali do do panteão greco-romano, você tinha mulheres atuando como sacerdotisas. E e tem um trabalho muito interessante que é da Bernadette Bruten, né, que ela fala sobre as mulheres, as evidências arqueológicas de mulheres como líderes de sinagoga. E é importante, acho que a gente pontuar, né, essa questão também, né, da da vastidão do império, porque haviam localidades que eram um pouco mais abertas, né, eh, vamos colocar aqui, entre aspas, né, mais eh progressistas com relação às mulheres e outras um pouco mais fechadas, né? Mas não por exemplo, evidências de mulheres que eram ali eh líderes de sinagogas, líderes eh eh sacerdotisas, né, de de cultos de deuses eh diversos ali. Ou seja, não seria estranho eh a mulher atuar também dentro do contexto religioso da igreja, certo? Isso. A, a gente tem que entender que a cultura grega, na verdade, ela permaneceu dominante. Mesmo quando o Império Romano se tornou império dominante, a cultura grega ela era muito forte, ela permaneceu. E algumas pessoas dizem que a cultura grega que rege a sociedade a ocidental até hoje, né? Então tem isso. Então a gente vê nos lugares que tem essa cultura grega mais forte, cultura helenística, né? Muito forte. a gente vê uma uma influência, uma participação mais forte das mulheres, de um modo geral, né, simplificado. Eh, a gente vê a participação mais forte das mulheres também nas comunidades judaicas do primeiro século. >> E tem arquinagogos, né, eh, que era a a líder da sinagoga. A gente tem isso, é Rufina, menciono >> a Rufina, ela era uma arquinago, só que quando colocam arquinagos para homem, é o líder da sinagoga, agora quando colocam paraa mulher ela é a esposa. Então eu acho que tem um problema aí, só que também existe agora um problema dessas eh ideias pré-concebidas impostas no texto bíblico. Então, eu li um livro, é a Women the Greco Roman World of Palestine. Ah, foi escrita por uma judia, uma mulher judia, que ela pesquisou as mulheres judias, como o que que as mulheres, qual que era o papel da das mulheres no mundo greco romano na Palestina desses primeiros séculos aí, no começo do judaísmo. E a assim, resumindo o grande livro dela numa frase aqui, a a ideia dela que normalmente as pessoas acham eh é comumente repetido que as mulheres elas eram muito oprimidas e tudo isso e que Jesus veio libertar as mulheres comum. Mas depois de ler esse livro e olhando os os relatos arqueológicos, eu não penso mais assim. Ah, eu creio que e o livro ele coloca que essa é uma ideia para tentar, como que eu falo isso de uma maneira? Uma é uma ideia que tenta diminuir os judeus, mas que não era necessariamente assim. as mulheres elas tinham um papel muito grande. E daí o livro da Bernadette Bruton nos mostra isso, né, nessas inscrições, as mulheres que elas eram líderes. E se você olhar eh o relato bíblico com bastante cuidado, você vai ver essa liderança lá. Às vezes a gente não vê porque as nossas ideias pré-concebidas não permitem que a gente veja. Mas eu lembro que você nessa conferência da CBI que a gente tava que tava traduzindo para você, você foi falou: "Eu convido vocês a pegarem um lápis vermelho de alguma outra cor e toda vez que aparecer uma mulher marcar isso e você vai se mulheres aparecem na Bíblia, né?" >> Então essa é uma ideia geral aí pra gente eh considerar, né? Nesse aspecto do judaísmo, né? >> Esse é um uma área que tem se despontado bastante na academia atualmente, né? na teologia, que são os estudos dentro do judaísmo, né? E de fato autoras, né, eh, autores que são judeus, né, que estudam esse contexto da Bíblia, como por exemplo, a Emid Levini, eh, Paula Fredriksen, todas elas defendem um um judaísmo um pouco mais generoso para as mulheres, né? E a imensa maioria dos livros que a gente lê ainda mostra esse mundo meio que opressor. E aí eu não sei se eu vou te colocar numa saia justa agora, porque eu particularmente falo que esse é um tema que ele é realmente difícil, porque você lê um livro e às vezes parece que são coisas contraditórias, mas a gente poderia mais ou menos traduzir da seguinte forma: a existiam mulheres que eram mais eh oprimidas, entre aspas, né, dentro dessa desse desse dessa expectativa cultural. Eh, mas isso não era o geral. Eh, isso poderia variar bastante conforme a situação, conforme a localidade, conforme a necessidade, conforme a questão social, bens que aquela pessoa tivesse. Mas também haviam algumas mulheres que estavam numa condição de vulnerabilidade e talvez de opressão maior. É isso mesmo. >> É isso mesmo. A gente não pode generalizar. O cristianismo se desenvolveu ao longo de muito uma área muito vasta geograficamente ao redor do Mediterrâneo, com a mistura de várias culturas diferentes. Você coloca cultura grega, cultura romana e local e dos judeus misturado, tudo isso. E cada lugar tem um peso diferente disso. Então tem uma variedade muito grande. Então a gente não pode pegar e colocar tudo dentro numa caixinha, né? Tem que tá aberto. >> Eu falo isso assim, justamente para não confundir a galera, porque eles vão pensar assim: "Ah, então agora essas duas estão dizendo que as mulheres não eram oprimidas e que o mundo era maravilhoso no império romano do primeiro século." Não. A questão é que haviam de fato essas expectativas. O homem era o pater famílias. eh ainda tinha uma questão eh, por exemplo, do infanticid, do aborto, da prostituição, questões que eram muito sérias e que inclusive foram pontos que atraíram as mulheres para o cristianismo, né, por ser justamente um ambiente com uma moral mais elevada que tornava um um se tornava um lugar mais seguro para essas mulheres. Mas existem muitas exceções, né? Então, a gente não pode nem achar que tudo era tão maravilhoso para todo mundo e também achar que nenhuma mulher tinha voz e que nenhuma mulher tinha agência, porque hoje as evidências mostram pra gente que existiam muitas exceções a essa regra, né, Karina? >> Sim, tem muitas exceções. E as mulheres elas eram elas eram oprimidas, tanto e você consegue ver isso no número de mulheres para número de homens >> na sociedade romana. Eh, Rodney Stark, eh, no livro dele, Rise of Christianity, >> ele pega e explora isso muito bem. >> E, a, na sociedade romana geral, não cristã, na sociedade romana fora cristã, eh, os homens eram 60% da da sociedade, mulheres 40%. Essa discrepância não é normal, né? Porque eles praticavam a exposição, que era o que eles chamavam, >> que quando cada família queria ter só uma filha, no máximo, uma filha mulher, >> se nascesse mais um bebê, mulher, daí eles colocavam pra exposição, ou seja, colocavam fora para pro bebê morrer, tá certo? Uhum. >> Então, realmente existia esse um pouco desse preconceito, um pouco dessa eh existia, existia isso, >> mas não era só isso. Tinha algumas mulheres >> e a algumas mulheres que não se enquadravam nisso, tinham >> mais agência. Bem, isso foi perfeito. >> E tinha toda essa complicação, né, de desse desse mundo, por exemplo, na questão da exposição, né, muitas dessas meninas, né, desses bebês, meninas que eram que eram descartados, né, pela pela sua família, né, eh, e tem até uma carta, agora, não vou lembrar de quem é, que fala, né, é uma evidência, né, é literária que fala, olha, uma carta que ele manda pra esposa, se for menino, você fica, se for mulher descarta, né? Então, quer dizer, é uma realidade cruel, mas é uma realidade. E muitas das crianças, das meninas que às vezes eh iam para esse destino, eram aquelas que se tornavam depois escravas, eh prostitutas muitas vezes. E lembrando que a escrava também não tinha eh poder sobre o próprio corpo, então muitas delas eram exploradas sexualmente também, né, pelos pelo partner família. Então assim, veja, gente, não é o mundo perfeito, tá? Mas daí aí que vem a que vem a beleza do cristianismo, que daí agora quando o cristianismo começa a crescer, o que acontece? Essas famílias cristãs, elas vem isso de forma diferente. Eles vem que eh as mulheres têm valor também. Então agora não só eles não matam os bebês meninas, como agora começam a adotar essas bebês famílias. Que tanto que daí agora as proporções de de homem para mulher no cristernismo inverte. >> Uhum. No mundo romano era 60% homem, 40% mulher. No mundo cristão é 60% mulher e 40% homem. Então existe uma inversão nisso a do mundo romano pro mundo cristão, justamente porque os cristãos valorizavam a mulher e tinham a conversão deles faziam eles terem uma perspectiva diferente da vida humana. Não é só da mulher, é da vida humana. >> Uhum. Uhum. Uhum. E é legal porque, por exemplo, muita gente acha, ai Paulo é machista, Paulo fala contra as mulheres. Na verdade, Paulo, eh, eu considero ele bastante contracultural quando ele justamente traz valores morais para dentro do casamento, né, para essa relação de valorização mútua em uma sociedade onde o homem poderia, por exemplo, cometer adultério sem problema algum, seria plenamente mulher, não, porque tinha aquela questão da castidade, né, da daquilo que se esperava da mulher, né? >> É, dos filhos, né? Os filhos têm que ser >> garantir a linhagem. Uhum. Não tinha teste de DNA, né, gente? É, >> é, >> era aquilo, pesava mais a mulher, né? né? >> É, então não, ah, depois desses estudos, a gente eh comecei a ler a o Novo Testamento de Novo, você vê que é bem diferente. E tem algumas coisas que aparentemente elas podem parecer um pouco machistas, vamos dizer assim, para por me faltar uma palavra melhor, mas parecem meio estranhas para as mulheres. Mas quando você olha o contexto daquela carta pra as comunidade pra qual Paulo tá falando, você consegue entender um pouco melhor. Na verdade não é assim. Você tem que entender geral o que que Paulo escreveu em todas as cartas, >> eh, e agora colocar elas no contexto para você conseguir entender melhor que eu não tenho a menor dúvida de que Pauloizava demais as mulheres, senão eu não teria escrevido escrito Romanos 16. >> Uhum. Uhum. Eu concordo. E assim, só pra gente voltar então paraa tua metodologia de trabalho. Então, a gente falou um pouquinho do contexto greco-romano, que eu acho que é importante as pessoas entenderem. É complicado mesmo, é um um mundo complexo e não dá pra gente simplesmente pegar os textos bíblicos ou a as cartas lá dos pais da igreja e ler isso de forma plana, sem entender esse contexto, porque a gente, querendo ou não, vai transportar a nossa visão e os nossos préconceitos para para essa leitura, que é o que muitas vezes acontece e é o que a gente vê na maior parte dos comentários bíblicos e de textos que são escritos sobre o tema, mas evidentemente, eh evidentemente não eh de de forma mais clara, Karina, o que achados arqueológicos eh são importantes para essa discussão? Quando a gente olha, por exemplo, para responder a seguinte pergunta: "A mulheres exerceram funções de liderança ou funções eclesiásticas eh nos primeiros séculos da igreja? Que artefatos, que tipo de provas arqueológicas eh respondem esse tipo de pergunta pra gente?" >> Eu vou contar uma pequena história. >> Uhum. na escavação dessa da da Sicília que eu participei, a gente tava escavando ao redor de uma basílica que já tinha sido escavado no século XIX, no final do século XIX, 1893. Então a gente estava tentando entender o contexto dessa basílica, dessa comunidade cristã. Ah, essa comunidade, o prédio foi feito na segunda metade do século 4, tá certo? Então, no começo do século 300, eh, 313, a Constantino, ele, eh, coloca, ele diz que o cristianismo é uma, pode ser uma religião oficial do do império, pode ser uma uma religião permitida, né? >> Foi dito de édito de Milão. >> Então, com isso agora as as comunidades podem começar a construir seus próprios prédios como igrejas, as basílicas, né? Então você coloca 313, foi isso. E agora na segunda metade do século 4 já tem um prédio nessa comunidade que a gente tá escavando. Ou seja, era uma comunidade que já existia antes para você já ter um prédio, porque é caro, tem que ter uma comunidade viva, forte para construir. Então já existia antes, é uma comunidade bem antiga. E ali foi achada uma mulher enterrada nessa basílica que tem eh três níveis de três níveis de ocupação. No nível intermediário, que é do Vinto século, foi achada uma mulher enterrada do lado do presbítero Dionisio, tá certo? Uhum. >> Só que nessa basílica tem vários sepultamentos ao redor da basílica, mas na nave da basica, furando esse mosaico tão lindo, mosaico muito bonito do Vto século, tinham dois sepultamentos só do do a presbítero Dionísio, que claramente era o líder, porque ele está enterrado no meio da igreja, na frente do altar e tá escrito no mosaico. Aí do lado não foi achado o mosaico. O mosaico não existe nenhum registro desse mosaico. Mas dentro foi. E normalmente quando você não acha o registro do mosaico, quando esse sepultamento está eh bagunçado, é porque as pessoas estão procurando por ouro, tá certo? Só que não é o caso, não foi o caso desse sepultamento, porque dentro desse sepultamento acharam a alçada dessa pessoa, dessa mulher e muito ouro. Tanto que ganhou os jornais da Itália na época, tá certo? E foi achada uma coroa de ouro, eh, pedaços, né, que formar formavam uma coroa. Eh, foram achado brincos, foram achado colar, um medalhão. Então, assim, não foi o caso de assalto, tá certo? Então isso começou a fazer várias trazer várias perguntas pra cabeça, >> a princípio do diretor da escavação, que é que se tornou meu orientador e daí ele pegou e me ajudou a ir nessa linha. Então a gente começou a pesquisar se tinha mais coisas eh que pudessem nos informar qual que era o papel dessa mulher. Então ela ela tá ela foi sepultada do lado do presbítero na frente do altar. Só os dois. Será que o papel dela era semelhante desse presbítero? Então daí a gente eh encontrou algumas inscrições que chamam o nome da mulher e fala que ela era presbítera, tá certo? Então para quem quiser, tem uns dois livros excelentes sobre isso. >> Uma da Ute Isen. Eu posso depois passar o nome direitinho do do livro >> para se quiser deixar depois pro pessoal ver. e um outro da >> da Carolnosek. >> Ah, os dois livros são excelentes e eles pegam e dão todos os uma lista de de inscrições que falam nisso. Então, pera aí. Agora a gente tá vendo a algumas inscrições estão chamando essas mulheres de presbíteras. >> Uhum. E junto com isso, ah, existe uma carta papal do Papa Gilásio I, ah, do final do quinto século, mesmo período das inscrições desse sítio arqueológico, dessa basílica na Sicília, dizendo, proibindo as mulheres de oficiar nos altares e fazer todas as coisas que só os homens podem fazer. Então agora devem essa metodologia diferente, né, que a gente usa a as fontes literárias junto com a arqueologia. Quando você cruza esses dois, forma um caso muito forte, porque você tem uma carta proibindo a prática que você tem a inscrição atestando dessa prática. Então você coloca, opa, >> elas é, provavelmente elas tinham algum papel de liderança nessas igrejas, mas assim, o que eu acho um dos mais espetaculares desse período é um fresco que tem numa catacomba de San Genaro e Nápoli, que é de tem dois frescos de Cula e Bitlia. Ah, você já conhecem em outros livros também. Uhum. >> O livro da Carteus também fala disso. Ah, tem outros livros que falam >> e que é muito legal, que são duas mulheres, eh, cada uma tem o seu próprio fresco. E isso aqui só >> só traduzina fresco pr pra galera que tá assente. A gente tá falando arqueologê. É, perdão, gente. Então, fresco é uma pintura que ela pintada em cima de uma massa que tá fresca ainda, por isso que é chamado de fresco. E daí os pigmentos eles penetram. E esses frescos foram feitos, são pinturas dentro de catacumbas. >> Só colocando em perspectiva, essas catacumbas, elas eram normalmente corredores subterrâneos, onde os muitos cristãos eles eram enterrados. E a maior parte desses eram cubículos pequenos. Pensa nesse quadrado que eu tenho aqui atrás de mim. Eu ali colocaria um corpo e só colocariam uma fechariam e colocaram colocariam uma pequena coisa para marcar de quem que era aquele sepultamento. >> Uhum. >> Agora em alguns lugares você tem umas pinturas enormes, grandes, que ocupam espaço, são caras para serem feitas, tá certo? Então, essas pessoas que recebem essas pinturas, esse tipo de seor eram pessoas que eram especiais para essas comunidades. Ah, então nessa catacoma de San Jenaro em Npoli, na Itália, tem essa mulher, principalmente a de Cula, que ela tá mais bem conservada, que ela tá com as mãos eh erguidas em posição de oração. E ela tem os livros eh dois livros do lado da cabeça. E dentro desses livros nos mostra que livros que são, porque tem os nomes dos quatro evangelistas, Mateus, Marcos, Lucas e João. Então, tá mostrando que ela é uma mulher devota, porque ela tá em posição de oração. Ela é uma mulher educada, ela consegue ler livros, ela estuda livros. E quais livros que são? São os livros dos Evangelhos, né? É a Bíblia. >> Uhum. E também agora adicionando isso, você pega e vê a Constituição Apostólica que nos fala como que os bispos eram ordenados naquela época. E falam que os bispos eles eram ordenados colocando os evangelhos sobre a cabeça do candidato à ordenação. Porque um sacerdote normal conseguia ser ordenado pelo por um bispo. Mas um bispo é um nível tão alto na hierarquia que só o Espírito Santo, só Deus pode ordenar aquela pessoa. E como que ela era ordenada? Eles colocavam os evangelhos pela cabeça da pessoa e o Espírito Santo viria, desceria através do evangelho e ordenaria essa pessoa. E daí o interessante dessa pintura é que tem como se fosse línguas de fogo saindo do evangelho, representando o Espírito Santo, que nem a gente tem em Atos que o Espírito Santo se manifestou com línguas de fogo. Aí tem o Espírito Santo se manifestando, ordenando essas mulheres ao ministério. >> Eu acho essa pintura maravilhosa. Fiz até um post uma vez sobre sobre a cérula, porque eu acho realmente incrível. Mas algo que você até já mencionou é que é engraçado porque assim, eh, quando a gente encontra, por exemplo, né, esses frescos, essa essas imagens, essas pinturas eh com as mãos de orante ou com esses símbolos ou com vestimentas que são ligadas ao contexto litúrgico ou mesmo eh símbolos como cálice, enfim, né, coisas desse tipo. Ah, normalmente quando é para mulheres eles tentam atenuar, né? Ah, não, eram apenas mulheres que eram benfeitoras ou mulheres de alta posição social e tal. Só que, gente, essas coisas meio que são se misturam, né, no contexto da igreja, como a gente falou, se misturam demais, né? >> É, foi só no quto século que a igreja se estruturou e teve essa hierarquização do sacerdócio. >> Uhum. Até então o sacerdócio era de todos os crentes. Também a gente tem que colocar isso em perspectiva. O sacerdócio até então era de todos os crentes. Quando a igreja agora ela se estrutura no Vinto século. Papa Gásio, esse que escreveu essa carta, foi um dos grandes teólogos que ajudou a estruturar a a igreja cristã, eh, que se transformou nessa nesse cristianismo medieval que a gente vê a partir do sexto século. >> Então, não era tão assim. tem que se misturavam muito a Cínto. Então, só para finalizar lá com a minha a minha escavação lá da Cecília, >> então eu vi eh esse essas pinturas nas catacombas, eu vi essas inscrições e daí eu voltei a para estudar a hierarquia dos espaços sagrados, que existe uma toda uma teoria dessa hierarquia dos espaços sagrados. E daí quando você estuda a hierarquia dos espaços sagrados e compara com outras igrejas que elas eram também usadas para com basílicas funerárias que as pessoas eram sepultadas ao redor, aí você forma um caso muito forte de que as mulheres, aquela mulher, ela era uma líder daquela comunidade. >> É muito interessante, né? E eu acho que outra coisa e que até você menciona no seu livro, né, que é essa questão do concílio depois, né, do quto século você tem a questão do Papa Gelázio, mas se a gente pegar até mesmo antes, né, eh, lá pro segundo século, você tem Tertuliano falando das mulheres que elas não podem batizar, que elas não podem fazer trabalho sacerdotal. E é interessante que a gente lê essa essas proibições, mas a gente não se atenta ao fato de que se tá sendo necessário que eles eh façam essa proibição, já é uma própria evidência de que as mulheres faziam essas coisas, certo? Perfeito. Temos no segundo século também uma carta pro imperador romano Trajano, eh, dizendo que tava tentando investigar um pouco melhor o que que era esse cristianismo e que daí ele pegou e torturou duas mulheres que se você for ver em latim fala que elas eram ministras, tá certo? Ele torturou elas tentando descobrir o que elas faziam. Então, agora no segundo século, nós já temos eh uma pessoa pagã eh questionando essas ministras cristãs. Então, são duas mulheres. >> Eu acho isso muito interessante. Eu acho que isso traz uma luz, né, para para essa discussão toda, né? Eh, e como você falou, né, eh, da impressão que, eh, com essa institucionalização pós Constantino, pós quarto e especialmente sexto século, aí de fato a o lugar das mulheres vai sendo diminuído, eh, com raríssimas exceções, né, eh, e as mulheres vão achando outras formas aí de se enquadrar, né, os monastérios, enfim, vai achando outras formas de de servir. Mas até o sexto século. Então a gente pode dizer que dentro da arqueologia nós temos evidências de mulheres, tanto diáconas como presbíteras e epíscopas ou bispas também. >> Sim, sim, nós temos. E assim, no meu livro eu falo um pouco mais da península da Itália, né, ali da Itália, porque a gente tem que delimitar. Mas esses livros da Eising, da Karin Oiac, elas mostram ao redor de todo o Mediterrâneo, a África, Israel, Ásia Menor, eh, tem em vários outros lugares. E eu até agora tô, né, tava preparando uma outra palestra que eu vou dar. Eh, se você esticar um pouquinho mais o período, você vê na Inglaterra, você vê em outros lugares, pro norte da Europa também, assim, sabe? Então, na Escócia, na Inglaterra, ali, na em toda a região celta, né? Você vê também. Então tinha tem mais para ser estudado. Eu tô começando a tentar expandir um pouco mais. É o próximo projeto de pesquisa. Aí, inclusive a Bet Alisson Bar novo livro dela, eh, ela fala dessas mulheres na lá na Itália, na Itália não, perdão, na Inglaterra. Eh, então é bem interessante a gente ler e perceber como que tá se desenvolvendo essa essa área, né, do dos estudos, esse olhar mais arqueológico, mais historiográfico, eh, que eu acho que ele complementa muito essa discussão, eh, para não ficar só no campo dos textos bíblicos e daqueles escritos, né, eh, da igreja, como a gente já mencionou. Claro que todas essas coisas têm o seu valor, mas as evidências materiais também são muito importantes, né, para paraa gente eh falar a respeito disso e trazer esses insightes. É, Karina, depois que você começou a estudar arqueologia, que você começou a ver essas evidências, ah, o que que mudou na tua forma de olhar, por exemplo, né, de forma bem prática, você já deu um spoiler de que isso mudou a tua forma de ler a Bíblia, mas especificamente quando a gente olha para Paulo dizendo para as mulheres ficarem em silêncio, os famosos textos lá de eh Primeira Coríntios, da primeira carta de Paulo a Timóteo, que são os mais usados nessa discussão, o o que que você pensa a respeito disso, né? Trazendo esse olhar realmente de arqueóloga, de alguém que trabalha com essa questão do contexto. No nos segundo capítulo do meu livro, analisando bastante essa esse contexto, né? A gente vê que nessas cidades que tinha a cultura grega muito forte, como Corinto, por exemplo, tinha a o templo para Afrodite, né, lá na Acrópolis, na Acro Corinto, que dominava a cidade, né? Então você tem que olhar nesse contexto. E o que eu eu falo bem brevemente numa nota de rodapé no livro, que qual que era o contexto? Os cultos de divindades masculinas, elas tinham os sacerdotes, homens, e os cultos de divindades femininas tinham sacerdotisá, tá certo? E os templos elas eram instituições não só religiosas, não tinha essa divisão eh cidade, a estado, igreja que a gente tem hoje, que isso é pós-reforma, eh, principalmente pós-reforma. Ah, não, não era assim, a, os tempos eles eram instituições religiosas, mas também eram instituições financeiras e tem tinha muito poder civil também. Então agora quando você vê a essa algumas dessas cidades, elas eram dominadas pelos templos. Então quem que dominava esse templo? Esse templos de mulheres eram liderados por sacerdotisas. Então agora provavelmente eram lideradas por mulheres. Então agora você tem mulheres dominando um templo que dominava a cidade. Então as mulheres elas eram muito poderosas. Só que agora essas mulheres elas começam a se converter pro cristianismo. Então você tem que olhar dessa perspectiva que Paulo tá falando. Nesse contexto dessa cidade, na cidade de Éfeso, temos problemas na carta de Timóteo, né, que Timóteo tá em Éfeso, Corinto. Então, é dessa perspectiva que a gente tem que olhar >> e é importante que tem surgido vários materiais nesse sentido, né, trazendo um pouco desse contexto eh da cidade de Éfeso, por exemplo, a questão da deusa Ártemes, que é importante pra gente entender a passagem ali, né, que ele fala das mulheres ficarem em silêncio e tal. Ah, então assim, até a questão de dar luz a filhos, né, que é um versículo, né, bastante confuso e tal. E a gente já falou disso em outros episódios do Betcast, quando a gente fala, por exemplo, eh, Paulo e as mulheres da da Cíntia Veste falou, o livro que foi recentemente também lançado aqui no Brasil, a gente comenta um pouco, lembrando que são textos muito disputados, há várias eh sugestões de como lidar com esse texto, formas de lidar com esse texto, até mesmo entre aqueles que têm uma visão mais igualitarista. A gente falou muito da CBE aqui, né? pela igualdade bíblica, né? Uma lá nos Estadosidos, mas que fez um congresso aqui no Brasil em 2023 e aonde a Karina vai poder palestrar esse ano sobre o livro dela. Karina, já entrando aqui pro final do episódio para depois a gente falar do teu livro, tem alguma coisa que você acha que faltou aqui nessa nossa conversa? alguma coisa importante pra gente pontuar, né, sobre essa questão eh de como a arqueologia agrega para essa discussão toda das mulheres. >> Olha, a Eu acho que o que a arqueologia, eu acho que a gente falou principalmente, mas é que a, só repetindo, que a arqueologia traz uma perspectiva diferente que não é normalmente citada nesses livros de teologia, nesses livros eh do background do Novo Testamento. Então, a gente tem que olhar com novos olhos e permitir enxergar algumas coisas. É, é basicamente isso. >> Então, eu fico muito feliz, né, com com o seu livro que é realmente muito bom, tá? Tô lendo ele, já tô lá na metade dele, ah, no meio das minhas outras leituras, mas eh não é porque você tá aqui, eu posso dizer que o livro realmente é muito bom, né? Eu fiquei muito feliz de ver o lançamento dele, de ver a repercussão que ele tá tendo lá fora. Eh, e é isso, gente. É um orgulho a gente ter uma mulher acadêmica eh trazendo contribuições tão importantes para essa discussão. Carina, você tá com o teu livro aí pra gente mostrar? >> Tô, tô mostrar aqui para vocês. >> Então, eh, fala um pouquinho dele, do título da editora. Então, o título dele é excavating women, The Archaology of Leaders in Early Christianity, que significa escavando mulheres, arqueologia de líderes no nas origens do cristianismo. Então, eu analiso os principalmente os primeiros seis séculos e eu acho que os dois capítulos que são bem que contribuíram bastante pra discussão é o capítulo do background, né, nesse pano de fundo no cristianismo que eu vou desenvolvendo a argumentação para daí quando a gente chega no quto século fica fácil de entender. Então, a esse capítulo é bem bacana, mas também tem um ótimo capítulo. Depois você me fala o que você achou que eu falo, analisos mosaicos, principalmente de Ravena, né, que é na época que foi capital do império romano, né, cap império do Oeste, né, que tava dividido já em oeste e leste. E eu tenho recebido bastante feedback dessa análise dos mosaicos, hã, porque eu tô olhando com um olhar totalmente diferente, porque agora eu trouxe toda essa, essa teoria da da hierarquia dos espaços sagrados da aplico no nos mosaicos com essa percepção. Eh, o pessoal tá gostando bastante. Então, depois a gente conversa sobre esses mosaicos numa quem sabe alguns posts aí do Instagram. >> Ah, legal. É isso, gente. Eh, esse é o nosso episódio especial do Dia das Mulheres e como sempre o BTC trazendo aí eh novidades, trazendo coisas que são realmente relevantes para essa discussão, né? Pra gente perceber que essa discussão é muito mais profunda do que normalmente tem sido levada nas igrejas. E essa questão, por exemplo, da arqueologia e das evidências de mulheres atuando, especialmente nos primeiros séculos da igreja, eu acho que contribui muito. A gente comentou aqui, né, do livro do Rodney Stark, que eu sempre falo desse livro, de que as mulheres elas eram a maioria na igreja, né, eh, da do no cristianismo, das suas origens ali. E até hoje o senso mostra pra gente que as mulheres ainda são maioria nas igrejas, né? Então, eu quero terminar esse episódio especial, agradecendo muito a participação da Kina, eh, pedido para vocês comentarem muito aqui, se vocês quiserem, eh, um outro episódio de repente pra gente se aprofundar em outros artefatos, em outros eh ramos aí da pesquisa dela que podem contribuir também para essa discussão. comenta, engaja e gente vamos pedir para que seja traduzido esse livro, porque ele vai ser muito importante, né, para trazer justamente eh subsídio para essa discussão de uma forma mais acadêmica, contribuindo com a teologia. Então, é importante que a teologia caminhe com essas outras ciências pra gente fazer de fato um trabalho bem feito de exegese, especialmente quando a gente pensa em algo que impacta a vida de tantas pessoas, né? a gente tá falando de mais da metade das mulheres da igreja e de pelo menos metade da população do mundo. Então é aquilo que eu sempre falo, a questão das mulheres na igreja tem que ser tratada com seriedade. E terminando aqui o episódio, eh quero desejar então a todas as mulheres um feliz dia das mulheres, né? Esse é o nosso mês, mas que não seja apenas um mês, mas que a mulher de fato seja valorizada sempre, especialmente nas igrejas onde eh, como a gente também comentou, foi justamente um lugar onde elas foram valorizadas, um lugar onde elas foram acolhidas, onde elas se sentiram seguras e puderam florescer com os seus dons, né, a despeito de toda a história depois e das proibições e tudo que a gente viu, né, como vai se desenvolvendo. Mas as mulheres sempre atuaram na igreja e mesmo com todas as restrições que foram impostas, elas sempre encontraram o seu espaço e elas ainda encontram seus espaços para atuar nas igrejas. Então, parabéns para nós mulheres que servimos nas nossas igrejas com nossos dons e talentos e que venham mais e mais livros, discussões e materiais para complementar essa discussão. Karina, muito obrigada pela sua participação mais uma vez. Meu prazer a participar com vocês e parabéns pelo trabalho que vocês fazem aí. >> E é isso, gente. Fica aí ligado. Até >> parabéns. Ai, dia das mulheres para as mulheres também, né? Parabéns para nós mulheres. >> Parabéns para nós mulheres. Então é isso, pessoal. A gente encerra mais um BTC. Fiquem ligados. Até a próxima. Ciao. Ciao.