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A fé vem pelo ouvir

Obra: O enfermeiro | Ler para Crer | Rina Furuta & Isabel Costa

Obra: O enfermeiro | Ler para Crer | Rina Furuta & Isabel Costa

Obra: O enfermeiro | Ler para Crer | Rina Furuta & Isabel Costa

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estamos aqui de novo, mais uma mês,
terminando o mês de abril e nós estamos
aqui para nossa ler, nosso ler para
crer.
Essa semana, esse final de mês é uma
história muito interessante, né? Sobre o
enfermeiro, muito boa, né? Rina
é lei Bell, dona Isabel, Maria Isabel da
IBNIL, boa, bom dia, boa tarde, boa
noite, né? Para você também que tá aí,
os nossos leitores nos acompanhando aqui
no Ler para Crer, que é o Clube do Livro
da IBNU. A gente tá aqui em mais uma
live, como a Bel disse, para falar hoje
sobre o conto O enfermeiro de Machado de
Assis, que tem várias publicações, tá?
Eu tô me orientando hoje pela publicação
da Itapuca, editora Itapuca, que é uma
editora sediada em Niterói,
como já tá em domínio público, né? Ele
foi publicado pela primeira vez em 1896.
Então você acha várias versões dele. É
um conto pequenininho que tem apenas
oito páginas, mas que trata de um tema
permanente, perene, que é a ambiguidade
do ser humano. a nossa ambivalência
enquanto uma temática que inclusive é
explorada em outras histórias que nós já
vimos aqui, como
crime castigo do Dostoyevsk, ah, médico
e monstro
também, né? Então, é, é um tema sempre
presente, que nunca sai
da pauta, porque inclusive tá na
escritura, né? O próprio Paulo, mesmo
depois de tantos anos de ministério, né?
Primeira vez que ele vem falar dessa
ambivalência humana, ele fala na carta
aos Gálatas, que foi escrito ali por
volta de 53, 55.
E aí quatro ou 2 anos depois, dependendo
da data três ou 55, né? Ali na carta aos
Romanos, que é publicado mais ou menos
em 57, ele vem retomar esse tema, né?
Então, miserável hom que sou. O bem que
eu quero eu não faço. O mal que eu não
quero eu faço. Por que que é importante
a gente considerar essa ambivalência,
né, esses dois valores que a gente tem
dentro da gente?
Porque senão a gente cai no engodo de
acreditar que a gente é só o que a gente
sabe, quando na verdade nós somos também
aquilo que nós ignoramos. Tanto quanto o
que sabemos,
somos o que ignoramos. Tanto quanto o
que consideramos, somos também o que
desprezamos. Então, é importante a gente
sempre recuperar essas duas pontas e
assim olhar para tudo que há no meio
delas, a fim de que a gente não encorra
aí ou encorra o mínimo possível, né, em
autoilusões, autoengano e e
consequentemente em decisões muito eh
insalubres a partir disso, né? Então, o
nosso conto, o enfermeiro, ele fala
sobre isso.
Ele diz o seguinte: é a história de
Procópio, que é o enfermeiro, que na
verdade gente é chamado de enfermeiro,
mas hoje ele se enquadraria como um
cuidador. Aquela época não se existia a
figura do cuidador, né, como nós a temos
hoje. Tanto que o farmacêutico também
era chamada de Boticário. Então, a gente
tá falando aí de mais de 100 anos, né?
de de bem mais de de interregno entre a
data do conto e a nossa. Eh, então o
machado chama de enfermeiro porque a
época era assim designado, mas na
verdade Procópio era um um cuidador.
Aliás, originalmente nem cuidador ele
era. Procópio era um copista teológico.
Ele copiava os textos teológicos
de um amigo dele que era padre, com que
ele havia estudado junto. E em troca do
trabalho dele de copista, Procópio
recebia ali é um o machado vai chamar de
cama, mesa e comida, né? Pera aí. Aqui,
ó. Casa, cama e mesa, né? Então, veja,
Procópio é um homem de 42 anos. né? Cujo
nome Procópio vem do grego
procópto de progredir, né? Porque eh
autores da envergadura de Machada não
escolhem os nomes a esmo, porque, né,
achou bonito. É curioso até porque
apesar de não ser assim um devoto da
escritura, aqui a cosmovisão dele se
alinha, a visão de mundo dele se alinha
muito com a escritura, né? O seu nome,
ele tem que ter um porquê. Então assim,
você vai ter um filho, ah, botou o nome
de,
sei lá,
Mariana, né? Por quê? É porque eu achei
bonita, achei sonoro. Tudo bem. Ou
Adriana, né? A procura o significado de
Adriana para você ver. Achei bonito,
achei sonoro. OK, mas qual o
significado, né, desse nome? Então o
machado ele escolhe o Procópio de
progredir para o enfermeiro. E o coronel
de quem esse enfermeiro vai cuidar, ele
chama de Felizberto, que vem do
germânico, minha gente, ver do germânico
que significa muito
ilustre, famoso, germânico filo
maisbert, que é brilhante ilustre, né?
Você tem um coronel que é ilustre ali
nas redondezas.
Ah, a gente tá falando de uma história
que acontece no interior do estado do
Rio de Janeiro. E você tem um Procópio,
que é um homem de 42 anos, que é o
contrário do que anunciou o seu nome,
não conseguiu progredir eh
financeiramente na sua vida de acordo
com a expectativa que ele tinha. Então
ele tá lá fazendo seu trabalho de
cupista em troca de
ã cama, casa, cama e mesa, né? Até que
um dia um vigário de uma vila lá do
interior onde o o o coronel morava eh
passa uma mensagem falando: "Olha,
porventura, se você conhecer alguém que
seja as características
eh
entendido, discreto e paciente,
entendido?" a gente pode considerar que
assim habilidoso, alguém que seja
habilidoso, discrepe a paciente e que
queira trabalhar como enfermeiro do
coronel Felisberto mediante um bom
ordenado, né? Então, Procópio,
ele não vai procurar alguém diante dessa
oportunidade. Ele mesmo ali prontamente
se candidata, ele fala que ele agarrou a
oportunidade com as duas mãos
e ele parte. Agora aqui é importante a
gente fazer uma pausa, né? Porque todo
mundo eh eh que precisa progredir
financeiramente,
né? Porque lhe faltam ali condições
básicas de se manter como a casa, a cama
e a mesa, né? Ele não tem uma casa para
morar, ele não tem uma cama para dormir
e ele não tem condição nem de sustentar
o seu próprio mercado. Então, todo mundo
que que tá nesse contexto que eu te
preocupo tem, tá ali aos 42, obviamente
ele vai procurar condições melhores e
vai se interessar por oportunidades como
essas que se colocam diante dele. A
questão é
o quanto que a minha necessidade
pode me cegar a respeito da minha real
possibilidade,
porque o requisito paraa vaga é alguém
que seja habilitado
no quê? No serviço de enfermeiro e que
seja discreto e paciente também, né?
Tocópio só considera que ela é discreta.
O paciente nunca havia trabalhado de
enfermeiro, mas queria mesmo era o
dinheiro. Bora, vamos lá. Foi lá pra
corte que nessa época a história se
passa em 1860, a capital ficava no Rio
de Janeiro,
né? Se despediu lá de um irmão que ele
tinha no Rio, foi pra vila. Quando chega
lá na vila, onde o coronel Felisberto
mora, ele recebe as piores recomendações
possíveis. é um homem intratável.
Ele eh mal maus amigos suportam, fazem
visitas de 5 minutos muito rapidamente,
sempre para aplaudir e concordar com
tudo que o coronel falava, né? Eu me
pergunto até se ele não fosse tão rico,
porque ele era um coronel muito rico,
aliás, não tem coronel pobre, né? eh
se ele teria
esses amigos, né, que fossem 5 minutos
para ele lá aplaudir os absurdos que ele
falava, né? E aí as pessoas quando chega
na vila e fala: "Olha, ele é tão tratado
que ele já eh quebrou a cara de dois
enfermeiros, ninguém para com ele." Aí
Procópio, muito seguro, né, da sua
mansidão
e desprezando completamente
a sua fragilidade. Lembra que a
escritura diz? Aquele que pensa que tá
de pé, toma cuidado para não cair, né? É
aquele que está de pé, aquele que acha
que tá de pé, aquele acha, aquele que
acha que é muito manso, aquele que acha
que é muito paciente, toma cuidado para
não cair. Procó, apesar de ter copiado
tanto texto teológico,
não introjetou,
né, a partes importantes do texto, do
texto. Aí ele chega lá,
vai conhecer esse coronel que tinha
quase 60 anos.
pros padrões de hoje, veja como é um
homem eh velho, né?
não tinha nem 60, não pode nem ser
considerado idoso pela pelo pelo padrão
contemporano, mas aquela época você eh
fazer 30 já era considerado aí velho.
Então, para os padrões da época era um
homem considerado já eh idoso. Só que
esse coronel que tinha ali quase 60,
Machado vai dizer que desde os cinco as
pessoas faziam tudo que ele queria. Todo
mundo lhe fazia as vontades, né? Então,
como que é uma pessoa que desde os 5
anos de idade não recebe uma negativa,
não ouve não, um aguarde,
um espere, um pegue a fila?
Que tipo de
besta vai se formando, né? Porque o ser
humano, ele passa por essa experiência
de ter os seus desejos frustrados. a a
boa formação de ser humano, né, de ter
os seus desejos frustrados, de saber
manejar a sua frustração.
Ah, inclusive a gente sabe, né, que a
raiva é uma emoção que desponta muito
diante da frustração
da de um desejo imediato. tem um desejo
imediato, alguma coisa que eu quero
fazer, alguém frustra esse meu desejo e
a minha é reação é de raiva, é de
irritação, né? Quantos exemplos a gente
tem disso? Você acabou de sentar no
sofá, aí o homem grita cadê cadê o pó de
café, né? Aí você que achou que ia ter
aqueles 5 minutos ali para descansar, ai
né? tem seu desejo frustrado, dependendo
da esposa que você é, você levanta, vai
lá e mostra ou você ao menos grita, olha
aí, então de qualquer maneira aquele seu
segundo de deleite, momento de deleite,
ele foi frustrado, né? Então, eh eh o
coronel Felisberto é um homem que
não foi lapidado
nesse contexto
e ele aprendeu a se divertir, inclusive
com o apavor causava nos nas pessoas,
nos empregados, para que elas
satisfizessem as suas as suas vontades,
seus desejos. ele foi desenvolvendo um
sadismo, né? De maneira que agora quase
aos 60 ele não era só um homem doente,
né? Ele tinha reumatismo, aneurismo e
mais outras quatro enfermidades que o o
autor não identifica, né? Mas era um
homem muito doente, considerado já
moribundo. Os médicos lhe davam ali
poucos dias de vida. Ele mesmo sabia que
tinha um pouco tempo de vida, mas ele
não era rabugento só em razão da doença.
Ele era sádico, né? Ele gostava, ele
tinha satisfação,
satisfação em humilhar as pessoas, em
apavorá-las para que elas corressem,
para continuar realizando tudo que ele
queria.
Era um homem que manejava muito mal o
poder, né?
E aí a verdade é que eh procam
durante a primeira semana ali, eh, tem
uma lua de mel, sabe? Porque quando o
Procópio se apresenta, o coronel de cara
já lhe solta o insulto, o Procópio
releva e o coronel vira e fala assim pro
médico que parecia que era um enfermeiro
mais simpático, né? Porque relegou.
Então, durante s dias a coisa corria
muito bem até que num oitavo dia, né?
A partir do oitavo dia, ele passa a
receber os insultos que o coronel
destinava com a mesma gravidade
e intensidade e constância a todos os
outros enfermeiros. Então o o Procó
disse que ele tinha uma vida de cão, ele
não dormia, ele não pensava mais nada, a
não ser recolher as injúrias e às vezes
eh rir delas num ar de resignação,
conformidade, porque ele foi entendendo
que às vezes quando ele ah sorria,
aceitava isso, cortava aquela injúria
que jorrava, nem que fosse por um
momento, né? E ele, Procampo, num
movimento talvez de racionalização,
né? Eh, ele acreditava
todos os excessos do coronel Felisberto
ao quê? As impertinências da moléstia e
ao temperamento, né? Então, ah, coitada,
não é porque ele tá doente. Ah, coitado,
não é porque ele tem um temperamento
difícil, né? Então, ele vai fazendo
concessões que não devem ser feitas, né?
E ele vai travestindo de virtude, que na
verdade é uma covardia.
Quantas vezes a gente não faz isso? Não,
deixa para lá, não, eu relevei. Não,
isso para mim nem liguei, né? Aí a
pessoa fala que nem ligou. Um ano depois
você tá tratando isso na terapia, né?
Como que não ligou?
O silêncio, que realmente é fruto de uma
habilidade emocional, né, que é um
silêncio voluntário
e não condicionado a uma inabilidade
emocional. Eu não soube o que dizer, eu
não soube como dizer, né? Esse silêncio
que é fruto de uma habilidade, não de
uma inabilidade, ele não volta.
Não volta. Agora, o silêncio, que é
fruto de inabilidade, ele sempre
retorna. O Procópio vai retornar também.
Então, embora aqui no início ele faça
ali as suas racionalizações, né? A
racionalização é uma distorção
cognitiva, onde eu vou dando explicações
muito lógicas pro que tá acontecendo, a
fim de me poupar do verdadeiro
enfrentamento que eu preciso fazer para
resolver aquela situação de abuso, de
maltrato, né? Aquela situação que me
incomoda. E aí é muito fácil você cair
em racionalização. Por quê? Porque a
racionalização é muito lógica, né? Ele
tinha um temperamento ruim. Sim, ele
tava doente. Sim, a racionalização ela
não lida com mentiras, ela lida com
verdade, com lógica. Por isso é muito
fácil a gente cair nela e travestir essa
fraqueza, essa covardia de fazer os
enfrentamentos necessários, né? Eh, em
virtude. Ah, então não é porque eu sou
covarde, é porque eu sou muito mansa,
sabe? relev generosa. Veja só como o
Procópio não consegue perceber a
ambiguidade que ele tinha dentro de si.
Quando dá ali três meses
com o coronel, ele decide que ele vai
embora. Ele fala: "Não aguento mais, né?
Eu vou embora." E o stopim dessa decisão
foi quando ele não atendeu o coronel ali
a contento, segundo o padrão do coronel.
E o coronel vem, ele dá ali duas, três
bengaladas nas costas, o Procópio sai na
mesma hora. Quer dizer, então, eh, a da
violência psicológica, o cronel vai se
clonar paraa violência física, porque e
esse é o trajeto da violência, né? Você
tem a a violência psicológica, a
violência física e você tem outros tipos
de violência, mas assim, você vai
escalonando até você culminar nessa
nessa violência física. Tudo é
violência, tudo deixa sua marca, tudo
machuca,
eh, e tudo é passível de punição, né? E
a violência física é como se ela fosse a
última o último portal
dessa desse comportamento violento. Aí
quando Procóped chega, ele vai arrumar a
mala dele no quarto,
coronel, né? Vê que ele que se cedeu.
Poxa vida, eu vou perder esse
enfermeiro. Os outros dois não ficaram.
Esse aqui aguentou muito, né? levou três
meses para me largar. Então ele vai lá e
fala assim: "Olha,
não liga não, né? Você vai perder esse
trabalho por causa de uma rabugice de
velho, né?" E aí o Procópio, ele pede,
ele insiste muito pro Procópio ficar e o
Procópio acaba reconsiderando. Eh, veja
como são os relacionamentos abusivos,
né? A dinâmica é sempre a mesma, né?
Isso, ah, isso não vai mais acontecer e
tal. foi porque eu não tava bem hoje,
né? E aí o Procópio,
considerando o seu ganho secundário, que
era o quê? Sua excelente remuneração,
porque toda pessoa que permanece num
relacionamento abusivo ou violento, ela
tem um ganho secundário. É difícil
tratar isso com as pessoas, né? Eh,
porque isso tem que ser levado a título
de esclarecimento e não a título de
acusação, de julgamento, mas sim, ah,
então a mulher que apanha,
ela fica por um ganho secundário. Sim,
muitas vezes porque ela acredita que
para ter, para o filho dela ter um pai,
ela precisa suportar essa violência, né?
Porque a gente não sabe qual a história
dessa mulher, porque ela considera que
esse filho, que é tão importante que
esse filho tenha um pai dentro de casa,
mesmo que seja um pai como esse, né? Eh,
qual o histórico paterno dela? Então,
assim, são tantas variáveis, gente, são
tantas questões que não dá pra gente ser
eh imprudente, né? E te falar apanha
porque gosta jamais. passa muito longe
disso. É que nós, na nossa incapacidade
de falar, cara, eu não sei, eu não
entendo como que alguém pode continuar
ali, mesmo sofrendo tanta violência ou
nós também não há fã de querer ajudar
essa pessoa quando nós a conhecemos, né?
E ali nos nos e a violência que ela
sofre dói na gente. Aí já não passa só
pelo não saber, mas também por querer
ajudar e não conseguir. A gente acaba
reduzindo tudo isso. Ah, porque gosta.
Não, não é. O ser humano é muito
complexo, né? Você veja o Procópio,
então assim, tem sempre um ganho
secundário. Qual é o ganho secundário de
Procópi? É o um o salário excelente que
ele tem. Ele acaba ficando nos meses que
se seguem.
Machado vai dizer que coibiu-se das
bengalas. O coronel Felisberto coibiu-se
das bengalas, já não batia, mas as
injúrias ficaram as mesmas, senão
piores, né? Porque ele vai fazer uma
compensação. Já que eu não posso
praticar a violência física, eu pratico
o quê? A violência psíquica, violência
verbal. Eu procó falando com o tempo, eu
fui celejando e não dava mais por nada.
Ele aceitava que ele era burro, camelo,
pedaço de asma,
idiota, moleirão, era tudo isso, né?
Procópio foi se acostumando a ser
maltratado,
se familiarizando com desrespeito e
humilhação.
Tem uma coisa que é muito importante,
eh, e que a gente, eh, desconsidera
assim, o nosso cérebro, ele sempre vai
procurar aquilo que lhe é familiar, tá?
Por quê? Porque isso demanda menos
energia. Processos familiares, dinâmicas
familiares, lugares familiares, pessoas
familiares, vão sempre estar ali, ó, no
radar do nosso cérebro. Para quê? Para
que ele economize energia. Porque quando
a gente tá diante de uma nova situação,
mentalmente falando, psiquicamente
falando, é muito eh eh o nosso cérebro é
muito exigido nisso. Então, o cérebro
ele tá sempre em busca de economizar
energia. Por quê? Porque ele tá
administrando todo o nosso corpo e ainda
tendo que lidar com imprevisto, sempre
preparado para imprevistos, né? Então,
Procópo foi se familiarizando com a com
essa humilhação. E aí você vai o quê?
vai, você vai se dessensibilizando,
você vai naturalizando tudo aquilo que
você é muito exposto, seja bom ou ruim,
você vai perdendo a sensibilidade aqui.
Por isso que as alternâncias da vida,
né, por isso que inverno, primavera,
verão, outono são tão importantes.
Então, é por isso que você comprou lá
aquele sofá maravilhoso, primeiro mês,
você tá super feliz. Depois você se vai,
vai se familiarizando de tal maneira que
você
já passa a querer inclusive algum outro
sofá, alguma outra coisa, né? Então as
relações nossas são assim, tudo que a
gente é exposto de maneira muito
continuada, eh, de maneira contínua, a
gente acaba se familiarizando demais e
se dessensibilizando.
Por isso que é importante você
resguardar muito o seu olhar, né? Se
você fica vendo filme de terror, filme
de terror, filme de terror,
ali vídeos violentos, vídeos violentos,
né? É, é lógico se você atua numa frente
com a gente tem lá na Ibnu Jorgelina que
atua na frente de combate ao tráfico de
de pessoas, de mulheres e crianças, né?
Então você tem que se terar disso. Isso
faz parte da sua vocação, do seu
chamado, do seu trabalho. Eh, caso
contrário, se você se expõe a isso só
para aquilo causar em você uma
desesperança ou por outro lado, uma
dessensibilização que você passa a achar
que é normal esse tipo de comportamento,
né? Ah, isso merece atenção. Procóp seja
chega nesse lugar,
né? E aí à medida que os insultos vão só
aumentando, aumentando, aumentando, por
mais que ele vai sealizando, vez outro
sempre passa na cabeça dele que ele quer
ir embora, né? Lembra que ele tem uma
pessoa lá na corte de quem ele foi se
despedir quando ele tava indo lá para
pra casa do coronel. Ele agora juntou um
bom dinheiro porque ele tem um bom
salário, não tem nenhum gasto, né? Ele
falou: "Ah, eu quero ir lá pra corte,
né, gastava o meu dinheiro". E ele
diversas vezes vai comunicar isso pro
Vigário, o Vigário que o indicou para o
trabalho de de enfermeiro.
E o Vigaro
acaba insistindo com ele para que ele eh
fique mais um pouco, aguante mais um
pouco. É, é curioso isso, né, gente?
>> [limpando a garganta]
>> Quantas vezes você quer
sair de um lugar,
de uma relação, né, de um trabalho,
de uma condição e as pessoas estão
sempre ali insistindo para que você faça
aquilo, aquilo que elas acham melhor.
Não é que a gente não devolve conselhos,
muito pelo contrário, isso é uma
recomendação da escritura, né, na
multidão de conselhos, a sabedoria que a
gente deve ouvir. Mas assim, a decisão
final é sempre nossa
e no fundo é só a gente que sabe onde é
que o nosso sapato aperta, né? Ninguém
calça o seu sapato, ninguém calça o meu.
Então ninguém sabe onde é que aperta
para mim e para você. O vigário vai
insistindo para procópio ficar. Por quê?
Porque é um problema menos para ele. Tem
meses que ele não precisa correr atrás
de um enfermeiro para para Felizberto,
porque até que um enfermeiro parou. né?
E agora que o vigar tá lá podendo se
dedicar a outras questões, vai ter
começar tudo de novo. Puxa vida. Ah, e
que é interessante falar, né, a
diferença de vigário, pároco, porque é
tudo padre, tá gente? O vigário é um
padre, o pároco é um padre. A diferença
é que o pároco é o administrador da
paróquia e o vigário é o assistente do
pároco, mas é tudo padre.
E aí o Vigara acaba insistindo para ele
ficar, ele vai ficando, ele vai ficando
até que um dia [limpando a garganta]
procóp chega e fala assim: "Olha, não dá
mais.
Eu quero ir pra corte, quero gastar meu
dinheiro, né? Quero reencontrolar com o
meu irmão que ele chama. A gente não
sabe se é um irmão sanguíneo ou se é um
irmão camarada, né? Um brother, como se
diz.
Mas eh
deve ser um irmão sanguíneo pelo pelo
contexto da época, na linguajar da
época, já que não poderia ser um irmão
de fé, porque o Procópio mesmo diz que
ele não era um homem de fé, né? Apesar
de ser um copista
eh teológico, de trabalhar com teólogo,
ele mesmo não era um homem de fé.
E aí o Vigar fala: "Tá bom, então eu vou
procurar um substituto para você". Aí,
gente, bem nessa retinha final,
a ponto de um vigário ali,
já tá procurando substituto, o que que
acontece? Um dia o coronel, ele tem um
acesso de raiva, né? E aí durante um dia
assim, quando o Procóp vai servir um
mingal para ele, ele fica insatisfeito
com a temperatura do mingal, porque ele
acha que tá frio, ele atira o prato no
procópio que consegue se desvencilhar, o
prato pega na parede e o coronel grita
que ele vai ter que pagar, que vai
descontar dele.
O xinga de ladrão porque fala que ele tá
aí, né, acabando com com com a com a com
a louça dele. E depois de passar um
tempão ainda resmungando, resmungando,
resmungando, murmurando, né? Ele vai
dormir. Quando ele tá dormindo, era mais
ou menos 23 horas, 11 horas da noite, o
procura para meia-noite precisava
ministrar um remédio. Então o que que
ele faz? Ele encosta lá numa poltrona
perto da cama, fala: "Ah, falta som uma
hora, eu vou sentar aqui ler um livre e
daqui a pouco eu dou remédio para ele."
Só que na segunda página do livro, antes
da segunda página, ele cai num sono
muito profundo. Você a exaustão, né? Que
ele se encontrava, gente. Eh, só diminui
o cuidado que que o trabalho que dá
cuidar de um de uma pessoa doente, neste
caso, né? doente ainda idose. Doente
idosa e rabugenta, né? Doente, idosa,
rabugenta e sádica, quem é que tá
fazendo aquilo? É realmente estenuante.
Por quê? Porque você deve ficar com a
sua sentinela ligada o tempo todo.
Pessoa levantou da cama, ela pode cair,
né? Pessoa tá comendo, pode engasgar.
Então você fica com a sua sentinela
ligada o tempo todo
e aí Procópio cai ali no sono. Daqui a
pouco ele acorda com o coronel aos
gritos, né, berrando. E aí o coronel que
tava do lado dele,
procé até dá um pulo assustado assim. O
coronel V continua xingando, pega a
moringa de água que tava do lado, ó,
cabeça do procóprio
dele,
rebenta uma moringa de água. E a gente
tá falando de uma moringa de vidro fino,
que são essas que a gente compra aí
nessas lojas de louça contemporâneo.
Essas lojas contemporâneas não. A gente
tá falando aquelas moringas de 1860, né?
provavelmente de barro, argila, coisa
pesada
ou de porcelana,
que ele era um homem rico. O fato é que
era um material muito robusto. Na hora
que pega ali na face do propório, ele
fica cego de ódio, né? A moringa
bateu-me na face esquerda e tal foi a
dor que eu não vi mais nada. Então
assim, ele já tinha muito ressentimento
acumulado
que ele vai relevando porque ele é
paciente, porque ele é caridoso, né? Ele
vai relevando. Só que por mais que você
queira se convencer disso no seu
autoengano,
né, ou na sua covardia, porque você não
quer fazer um tratamento necessário,
essas coisas vão ficando dentro de você
e aí num momento isso vai transbordar. É
claro que o simples fato de você já
receber uma moringada na cara seria o
suficiente para que você eh caísse sobre
a pessoa que lhe atirou a moringa. Sim,
dependendo do seu temperamento, sim, né?
Dependendo da sua condição do dia, sim.
Mas o caso de Procópio que não tinha
esse temperamento explosivo, né? Que era
um homem, porque assim, o problema,
gente, não é que ele não era paciente,
tá? O problema é que ele achava que
nunca poderia impacientar-se,
né? Eu sou paciente, mas tenho que ter a
consciência de que eu posso me
impacientar sim,
né? Eu sou generosa, mas tenho que ter a
consciência que, dependendo da
circunstância, eu posso
reagir com avareza, sim, né? Por quê?
Porque eu sou humana. E o ser humano é
passível de tudo. E quem pensa que tá de
pé tom cuidado para não cair. Então o
problema de Procópio é que ele só seria
paciente, nunca impaciente. Então ele
foi ali eh fugindo
do que realmente seria importante ali
tratar. E quando ele recebe essa
moringada na cara, todo esse essa
impaciência acumulada,
esses ressentimentos, essa raiva
acumulada explode. Ele faz o quê? Ele se
atira no coronel, ele esgana, esgana,
esgana assim o pescoço até que ele para
de respirar. Quando o coronel desfalece
pro copa, recua susto.
Vê que o homem apagou, volta lá,
chapalha, tenta acordá-lo, o coronel não
reage, ele tá morto e o Procópio se
apavora.
Você sabe o que fazer, ele vai pra sala,
fica lá por 2 horas atormentado,
atordoado, tem ouve os gritos, né? Tem
delírios. Tem alguém me chamando de
assassino. Assassino. Repassa tudo que
aconteceu, começa a falar eh eh foi um
acidente, né? Porque foi uma luta, foi
legítima defesa. Ele vai incorrer
novamente no quê? numa
defesa cognitiva que é muito típica, né,
do nosso protagonista, que é a
racionalização.
E aí depois de 2 horas lá racionalizando
e também delirando, porque ele vai
alternando, né, entre as duas coisas.
está completamente atordido,
atormentado, porque ódio acumulado
vai levar a completa e absoluta falta de
controle em determinado momento. A raiva
é uma emoção muito potente, muito
mobilizador inclusive. E a emoção por si
só não é um problema, tá gente? Problema
que a gente faz com ela.
Então, eh, tem gente que acha que é feio
sentir raiva, né? Não, sobretudo as
mulheres, né, na nossa futura, eles não
estão autorizadas a sentir raiva, né,
quando a escritura mesmo vai dizer que
olha, você vai se irar, então irai-vos e
não pequeis para que não deis lugar o
diabo, né? Mas a ira ela é do humano.
Problema não é a raiva, o problema que
você faz com ela. O problema é raiva por
causa de quê? É rá porque eu tive um
desejo frustrado ou é rável porque eu tô
vendo uma injustiça, tô presenciando uma
injustiça. Ora, diante do injusto, a
gente tem mesmo que se posicionar de
maneira eh eh raivosa mesmo, indignada,
não aceitar. A grande questão é que como
nós não somos seres oniscientes,
só Deus, que é o único que é onisciente
conhece todas as variáveis daquela
injustiça que tá sendo perpetrada.
Então, a gente tem que tomar cuidado,
inclusive com a raiva que a gente sente,
inclusive com o nosso senso de justiça,
de tão falível e miserável que é o ser
humano, né? E aí
depois ele alternar entre esses estados
túos, ele colocou a orelha ali na porta
e aquilo que até ontem ele não queria de
jeito nenhum. Ele estava irredutível, eu
não aceito mais ficar aqui, não quero
mais nenhum xingo, mais nenhuma ofensa,
né? Ele agora passa a implorar por isso.
Olha só que interessante, né? Às vezes
você acha que tá muito ruim a sua
situação.
Até que o dia mal, ó,
bate na porta e aí você se dá conta do
que é ruim de fato e você começa a
sentir
gratidão
por aquilo que antes acontecia, né?
Então ele vai falar assim: "Olha,
colabora ele à porta do quarto na
esperança de ouvir um gemido, uma
palavra, uma injúria qualquer coisa que
significasse vida e que me restituísse à
paz, a consciência, ele tá atormentado.
Eu estaria pronta até apanhar das mãos
do coronel, né? 10, 20, 100 vezes. Aqui
Machado tá usando a sua ironia. Ele é um
autor muito conhecido pela sua a sua
ironia, né? Eh, ironia é coisa de gente
inteligente,
porque a ironia é sempre algo muito
refinado, né? É o contrário do deboche.
As pessoas confundem ironia com deboche.
Não, deboche é uma raiva controlada, só
minimamente, inclusive controlada.
Ironia não, ela é uma articulação da
inteligência, né? Então, a ironia é um é
um é uma gastronomia, ela tem um
tempero,
são filigranas assim que vão separar uma
coisa de ser uma palavra irônica ou não.
A ironia tem bom humor, né? Mas enfim. E
aí ele vê que isso não acontece, ele
começa a fazer o quê? Aquilo que a gente
sempre faz quando a gente comete um
erro. A gente começa a terceirizar a
nossa culpa, né? Ai meu Deus, que ódio
que eu tô. maldita hora que eu aceitei
essa semelhante coisa, esse trabalho. E
aí ele passa a xingar o padre de Niterói
que o indicou, né, o vigário, o médico,
ã, as pessoas que arranjaram lugar para
ele ficar, quem pediu para ele ficar lá,
o outro vigário que pediu para ele ficar
mais tempo, né? Ele começa o quê? fazer
aquilo que Adão fez lá no Éden, que Eva
fez também, que é terceirizar a
responsabilidade e que a gente faz eh
automaticamente, né, quando a gente se
vê na mesma situação do que a procura.
Lógico que depois se você for um adulto
maduro, né, ou um cristão maduro, você
vai fazer como Davi qu dizer contra ti,
contra ti somente pequeu. Parar de
terceirizar, deegar, de botar a culpa em
A, B, C ou D e falar: "Não, Senhor,
perdoa-me porque porque contra ti,
contra ti somente pequei, né?"
E aí
ele fica lá se debatendo no restante da
madrugada, pensando como é que ele vai
fazer. Até que de manhã ele decide
simplesmente chamar um escravo lá do
coronel e dizer que ele havia morrido
durante a madrugada. Ninguém suspeita
que foi um assassinato,
né? Porque o coronel já estava muito
doente
durante todo o processo de sepultamento
do coronel. Cóo tá muito ansioso, muito
trêmulo, muito comovido.
E aquilo vai despertando nas pessoas uma
profunda admiração por ele, porque as
pessoas olham e dizem assim: "Nossa,
olha como ele, como ele é bom, né?
Porque ele tinha tanto carinho pelo
coronel. Quando ele vai tampar ali o o
caixão, ele treme as mãos. Aí a mulher,
olha como ele tá tremendo, como ele
tinha feição por coronel. Nossa, ele
deve ser uma pessoa muito boa, né?
Porque só quem é muito bom consegue se
afeiçoar a alguém que é tão ruim. Só
quem é muito bom consegue tratar com com
bondade uma pessoa que é tão perversa,
né? E aí vai se construindo o quê? Ele
vai obtendo o quê? Uma
eh simpatia, né? uma condolência
coletiva ali. Aí depois que sepultam e
que ele passa daquele pavor de ser
surpreendido na sua na sua falta, né?
Cap que ninguém desconfia, ele vai
embora, ele volta lá para Niterói,
cidade dele, depois que ele tá lá oito
dias, depois chega uma carta,
é uma carta do vigato lá na Bíblia do
coronel
dizendo que Procoba era o seu herdeiro
universal.
Coronel perverso, sádico,
deixado toda a sua fortuna para cupa.
Olha que curioso, gente, que que o
Machado vai vai trabalhar aqui.
Ninguém é só bom e ninguém é só ruim.
Nós vamos sempre eh
experimentar o conflito do que vai
predominar em nós a cada momento. Uma
palavra boa, uma palavra ruim, é uma
ação boa, uma ação ruim, é uma intenção
boa, uma intenção ruim.
Pode ser que, inclusive você
predominantemente
seja aí considerada uma pessoa boa.
Agora, segundo a régua de quem, né?
Porque, por exemplo, né, eu tenho um
gato, eu trato muito bem do meu gato.
Então, se você, se o meu parâmetro for
aquele
eh, psicólogo que matou e torturou tanto
os gatos, né, que inclusive barbaramente
tá solto,
eh, você pode me achar boa.
Agora, se você me comparar com uma
pessoa, e tem
dezenas delas por aí que se tornam
protetores voluntários, que dedicam seu
tempo, seus recursos a resgatar gatos,
animais que são eh vítimas de maus
tratos ser humano, porque o ser humano é
capaz de coisas inacreditáveis
contra quem não lhes oferece nenhum mal,
né? Então, se você tem esses protetores,
que são pessoas que eu acredito estão
muito reconciliadas
neste aspecto, né, com com a criação de
Deus, porque Cristo veio para para
restaurar toda a criação, não foi só o
ser humano, toda a criação, inclusive os
animais, né? É interessante que na vida
do Senhor Jesus os animais têm ocupado
espaços tão importantes, né? que a
escritura registra participação
interessante que ele use como figura,
como ah
para sua descrição a figura de um felino
inclusive, né? Leandro tributá, o
cordeiro também de Deus, ah,
o espírito de Deus que desce como uma
pomba. Então, assim, eh, tem tanta
alusão a isso, né? Mas retornando aqui,
se você me compara então com esses
protetores,
será que eu sou tão boa assim?
Ah, eu ajudei uma criança que eu vi na
rua, tava estado de necessidade, peguei
tudo na bolsa que tinha ideia para ela,
tal. As nossa, como você foi boa, né?
Você tinha o quê? R$ 1.000 você deu. Ah,
você pode me achar boa, né? Porque
afinal de contas os 10 que passaram à
frente de mim nem olharam
para aquilo que tava acontecendo. Mas se
você me comparar com materia de qual
ocultar,
será que eu sou tão boa? Então
[roncando] veja, até aquilo que a gente
considera já predominante em nós, né,
que apesar do conflito sempre presente,
eu tomo decisões, na maioria das vezes
pelo que é bom, né?
Também depende de que parâmetro eu estou
usando. E Madre Teresa,
será que se a gente comparar ela com
Cristo, será que ela é tão boa?
E os protetores de animais que dão
a a sua vida para resgatar os animais?
Maria Teresa dava a sua vida para cuidar
de crianças, né, e de pessoas enfermas,
né? Mas será que algum ser humano, por
melhor que seja, possa ser comparado
mesmo com Cristo? Porque pessoal fala:
"Ah, Cristo é meu herói". O herói morre
pelo bom. Cristo morreu pelo que é mal
também,
né? Para que o mal também tenha livre
acesso a ele, possa se arrepender da sua
maldade e refazer o seu caminho. Então,
depende [limpando a garganta] do
parâmetro que a gente tá adotando, né? O
fato é que quando eh
chega para Procópio essa notícia de que
ele se tornou
herdeiro, ele fica incrédulo com isso.
Porque aquele homem que era tão mal como
o coronel, tão sádico, perverso, tem um
gesto bom, porque ele poderia ser
deixado a fortuna para qualquer outra
pessoa,
inclusive para a paróquia,
inclusive para um trabalho social lá da
sua época, inclusive para de ter
distribuído entre todos os seus
empregados, né? Não, ele escolhe deixar
tudo para Procópia. Então é um gesto de
bondade. E por outro lado, que sempre
foi considerado um homem bom, teve um
rompante
e cego pelo seu ódio acumulado, comete
um assassinato. Só que, OK, né, entre
aspas, mas assim, que eu li foi um
impulso, não foi premeditado, não foi
calculado, foi fruto de uma negligência
emocional, né, mas não foi premeditada.
Só que
tendo a oportunidade agora então
de ser bom ou de decidir de boa maneira,
procópio, a gente vai perceber que
aquele que era bom faz coisas ruins e
aquele que era ruim faz coisas boas.
Então não adianta a gente nas nossas
relações
ficar demonizando o outro, né?
Desumanizando o outro. Primeira coisa
que a gente faz quando a gente tá eh
diante de alguém que pensa diferente da
gente, que tem preferências diferentes,
sejam culturais, políticas, religiosas,
a gente vai o quê? Desumanizar o outro,
né? Inclusive é tática, tá?
Quando quando você vai estudar aí a a
cartilha dos tiranos, isso é tático.
Primeira coisa é desumanizar o outro que
pensa diferente de você. Então, a gente
não pode desumanizar ninguém.
né? Isso não significa que a gente tem
que olhar com genuidade. A proposta não
é essa, certo? Aliás, a própria
escritura vai dizer: "E vocês, ingênuos,
até quando manterão a ingenuidade?"
Então, proposta não é ser ingênuo, mas a
proposta também não é desumanizar o
outro, porque neste outro, apesar dos
pesares, este outro, apesar dos pesares,
é feita em semelhança de Deus. Então,
Procópio entra ali no conflito. E agora
que que eu faço? Ah, eu vou declinar, eu
vou dizer que eu não vou aceitar. Ai,
mas esse dinheiro todo, se eu não
aceitar, ele vem paraa racionalização de
novo. É muito curioso, né? Quando você
lê assim o personagem, você vai
percebendo o funcionamento psíquico
dele, porque todos nós temos uma uma
defesa psíquica, eh, que a gente que é
estruturada na gente. A gente não elege,
mas é estruturada na gente como um
padrão. Existem diversas defesas, né, do
Procópio. Você vê aqui que ele vai
racionalizando as coisas. Ah, não, mas
olha só, né? Porque quem faz a
racionalização, quem tem racionalização
como defesa coger ele se sente muito
seguro no campo das ideias. Então ele
evita contato com as emoções, né? Porque
a emoção é uma coisa que o
desestabiliza, o desestrutura. Ele gosta
de ter o controle sobretudo. Fica mais
confortável as ideias. Então funciona
até a página 10, né? A gente vê que uma
hora isso vai emergir, vai subir com
toda a força, vai trazer muito problema.
Aqui já mais tranquilo. O Procópio,
eh, percebe o seguinte, fala assim: "Ah,
não, mas se eu declinar dessa fortuna,
eles vão achar que el vou levantar
suspeitas. Zor, como você vai levantar
suspeita se você tá abrindo mão do
dinheiro, né? Ah, porque vão achar que
eu tô fazendo por culpa." Então ele fala
assim: "É muito mais fácil você levantar
suspeita, pelo contrário, né? Quando
você vai brigar pelo dinheiro,
ele fala: "Ah, não, então já sei, eu vou
eh dar metade para caridade, a outra eu
vou dar tudo paraa caridade." Metade
não, vou dar tudo para caridade. Vou
fazer isso, eu vou aceitar. E aí ele
fala o seguinte: "Olha que, [risadas]
[tosse]
desculpa,
que interessante.
[limpando a garganta]
Eu estava atordoado, né? Toda a gente me
elogiava dedicação e a paciência, as
primeiras necessidades do inventário, me
detiveram algum tempo na fila, construir
advogado, as coisas correram
plcidamente, né? E ele vai considerando
o seguinte, que eh eu vou aplacar, eu
vou compensar essa esse ato ruim com o
quê? Com esse ato bom. Então tá bom, eu
matei o coronel, mas eu não vou usufruir
da fortuna dele. Vou pegar essa fortuna
e doa toda pr caridade,
como se fosse possível fazer essa
restituição,
essa recuperação. O sistema de
restituição, que inclusive é é é todo o
o sistema eh judaico cristão, né? A
escritura aponta para isso o tempo todo.
Você precisa restituir aquilo que você
tira. Eh, só que às vezes que você tira
não é passivo de restituição.
A vida, por exemplo, não adianta ele
doar a fortuna toda. Esse gesto não vai
restituir a vida do coronel. Então,
quando ele fala lá que assim ele vai
poder fazer uma compensação, isso não é
uma compensação,
né? Isso não é uma compensação porque
nada pode trazer o coronel de voto. Mas
os meses vão passando, o inventário vai
lá se trans vai vai acontecendo até o
momento em que ele se finaliza. E o
Procópio, a princípio, né, e ele vai
ouvindo ali cheio de curiosidade que as
pessoas vão dizendo, porque enquanto o
inventário vai sendo desenrolado lá, os
bens vão sendo inventariados e tal, é
muita coisa, né, que era o homem rico,
as pessoas vão se aproximando do
Procópio fazer relatos do coronel e
todos os relatos são terríveis, são
horríveis. Ele procura contemporanizar
aqui ali porque ele ainda sente a
consciência muito culpada, né?
Mas ele eh
eh as pessoas sempre o revidam, sempre
refutam. Tô me estendendo muito, mas a
gente eu já vou encerrar, tá b?
Vai mais alguns minutos, mas vou vou
acelerar aqui. As pessoas sempre
refutam, né? E aí sabe o que acontece?
de tanto procópio e ouvindo, ouvindo,
ouvindo como ele era ruim, como ele era
perverso, não adianta você querer
defender. E as pessoas iam contando, é o
Machado vai dizer que todo mundo da
cidade,
o o Boticário, que o farmacêutico da
época, o seu João da Padaria, o outro do
mercado, todo mundo tinha uma história
muito ruim para falar do do coronel, né?
Aí, isso vai gerando procópio, quase um
um convencimento saber, nossa,
melhorando muito ruim, né? Será que uma
pessoa velha, doente,
muito rica e que não usufrui mais esse
dinheiro que tem, será que não é
razoável que ela tenha sido retirada do
mundo eh por razões diferentes, mas é o
mesmo dilema que Rasconic vai enfrentar
em crime castigo, né, de Dostoyevski,
por razões diferentes porque raciocínio
de Rasconic não tá ligado. recebimento
de nenhuma herança. A velha inclusive
não era rica, era uma velha usurária,
né? Mas ele tá ali fazendo eh um um
confrontamento eh moral. Ele tem uma ele
tem uma doutrina moral, né? Ele tem uma
cosmovisão, uma doutrina ele tem uma
cosmovisão.
Ele tá ali marcado por princípios
racionalistas, iluministas. Ele quer
testar esses princípios, é outra coisa.
Mas as personagens e ambas as histórias
se vê diante disso. Será que essa pessoa
faz falta mesmo no mundo? Era o momento
dela ser retirada da que hora? Quem tem
que decidir isso não é você, não sou eu.
Não foi a gente que deu a vida, não é a
gente tem que decidir se vai retirar ou
não. Eu posso ter a minha opinião
formada e achar que fulano tá fazendo
orestra na terra, mas isso não me dá o
direito de lá retirar essa vida.
né? Fa que procopa de tanto ouvir coisas
ruins, ele vai meio que se acostumando.
E veja só, gente, no final das contas,
toda a sociedade, porque ele ele recebe
herança, ele faz mesmo uma boa obra
aquilo ali, aí ele manda rezar uma missa
lá pro pro vigário, pro coronel, né?
Antes disso até onde ele vai passa a
missa inteira de joelhos consumido pela
culpa. Mas aquele dilema moral que eu
atormentava no início, imagina que o
tempo vai passando, que vai recebendo
dinheiro e que junto com a fortuna ele
vai herdando também um prestígio social,
porque recebe a fortuna, faz uma uma boa
ação. Aquele as pessoas, nossa, como ele
é bom, nossa, que homem generoso, gente.
Esse homem santo. Olha, tratou o coronel
a vida deu pro coronel um fim tão eh
bondoso, tão compassivo, tão
misericordioso, né? E agora herdou essa
herança e continua. Então assim, ai
[suspirando] ele vai se ele vai gostando
desse prestígio social. Todo mundo quer
ser bem visto. Isso não é o problema. O
problema é quando a gente ah tá sendo
bem visto por uma coisa que a gente não
é, né? Você vai exigindo de nós uma
performance permanente que é
extremamente desgastante,
porque a verdade, a verdade de quem
somos, ela é o que é, né? Como Cristo
diz, eu sou o que sou. Paulo também, né?
Eu sou o que sou. Só a graça, a graça de
Deus para comigo não foi eh em vão.
Então assim, mas quando você precisa
performar algo que você não é, alguém
que você não é, vai a uma energia
psíquica,
vai a uma energia corpórea,
vai uma energia financeira, vai muita
coisa, né? E aí você fica com déficit de
energia, de disposição para tratar
aquilo que realmente importa. Vai
adoecer,
vai adoecer, né?
>> [roncando]
>> Engraçado, por isso que a escritura diz
que o conhecimento liberta, a verdade,
verdade liberta.
Eu sei que já assim muito familiarizado
com esse prestígio social e com as novas
condições financeiras das quais
desfruta, Procópio, enfim, ver crescer
em si aquilo que ele chama de uma tênia
moral.
Eh, deixa eu ler para vocês esse último
parágrafo.
Os anos foram andando. Memória do que
ele tinha feito tornou-se cinzenta e
desmaiada. Penso às vezes no coronel,
mas sem os terrores dos primeiros dias,
sem culpa, mas o pelo menos o tormento
da culpa, porque se ele pensa, alguma
coisa tá voltando. Todos os médicos a
quem contei as histórias dele foram
acordes em que a morte era certa, ele ia
morrer e só se admiravam de ter
resistido tanto tempo até o último
instante, isso aqui é o penúltimo
parágrafo. O cara ainda tá
racionalizando. pode ser que eu
involuntariamente
exagerasse a descrição que então lhes
fiz, né, para os médicos. Mas a verdade
é que sim, coronel devia morrer, ainda
que não fosse naquela fatalidade,
né? Adeus, meu caro senhor. Aqui ele tá
falando paraa pessoa com quem ele tá,
para quem ele tá contando essa história.
Ele tá contando essa história para um
alguém que a gente não sabe porque
Machado não identifica se é um
jornalista ou se é um editor e que vai
escrever um livro, mas a gente não sabe
se é sobre o coronel ou sobre o
Procópio, né? Mas ele ele diz o seguinte
para para essa pessoa quando ele vai
narrando essa história, eu vou te falar
a verdade, você quer uma história
humana, eu vou te dar uma história
humana, mas tem uma condição, ela só vai
ser publicada
quando eu morrer, porque até o último
segundo, né, ele não quer abrir mão do
seu prestígio social, porque punido pelo
crime já não daria mais tempo, né? ele
tinha ali oito dias de vida, como ele
fala, tá, no início do livro, mas ele
não queria eh
ser confrontado pelos olhares sociais
que lhe eram tão favoráveis e sobre os
quais ele foi estruturando a sua
personalidade,
ainda que falsa personalidade,
[roncando] né? Um homem muito feliz.
Adeus, meu caro senhor. Se achar que
esses apontamentos valem alguma coisa,
pague-me também com um túmulo de
mármore, né? Ao qual dará por epitáfio
esta emenda que faço aqui ao divino
sermão da montanha. Bem-aventurados
os que possuem, porque eles serão
consolados. está fazendo uma referência
a Mateus 5:4, que na verdade não é
bem-aventurados os que possuem,
mas é os bem bem-aventurados os pentel,
que pent é
é um é um verbo lamentar, só que no
grego você tem pelo menos nove verbos
ali para descrever o lamento. E o pentel
é o verbo que descreve o lamento mais
profundo, que inclusive na escritura é
usado para casos de luto. Então, por
isso que o Frederico Lourenço, na
tradução que ele faz
dos Evangelhos, ele vai falar: "Bema os
que estão em luto, porque eles serão
consolados". Todas as outras traduções
se colocam bem-aventurados os que choram
porque eles serão consolados, né? Mas um
choro de luto é diferente de qualquer
outro choro, porque
eh os outros choros podem se dar por
1000 razões, mas o choro do luto, ele se
dá por uma afinitude que é irrecuperável
deste lado da vida, né? Só na eternidade
que isso vai se resolver. Então, eh, e
quando ele faz essa
essa adaptação, entre aspas, assim, bem
aventurados os que possuem, porque eles
serão consolados, é muito curioso como
machado encerra, porque não há um
resgate, não há uma redenção, não há uma
restauração de Procópio. Procópio não se
arrepende
genuinamente, sinceramente, ele não se
refaz, ele não destina a fortuna para as
obras sociais, como ele havia prometido
que fal integralmente. Pelo contrário,
ele passa fluir da fortuna e do
prestígio social que a fortuna
a trouxe para ele também, não só a
fortuna, mas a maneira ali como tudo
aconteceu, né? E aí ele vai falar:
"Bemaventurados que possuem possuem o
quê? Dinheiro, porque eles serão
consolados". Então, de alguma maneira,
ele encontrou
consolo
nas postes que ele recebeu. Eu não
entendo, gente, que isso seja um
consolo. Machado que tá sendo muito
irônico também, né? Porque a gente lê
esperando ali uma catarse
eh e uma evolução da do protagonista não
acontece.
Isso é vida real, não acontece também
com muita gente.
Muitos de nós eh eh eh vão se perder,
né? Eh, no final dos tempos o amor de
muitos esfriará. Versículo já não tá
acontecendo.
Eu, foi o primeiro versículo que eu
memorizei quando eu me converti, porque
eu tenho pavor de ser contado entre
estes, cujo amor se esfriará. Toda vez
que tô esfriando ali nas minhas práticas
espirituais, na minha devoção a Deus,
falo: "Rina, calma." E você corre pro
Espírito de Deus e pede para ele injetar
em você novamente o primeiro amor. Você
vai realhar suas práticas espirituais, a
sua devoção, né?
Ã, mas o caso aqui, gente, isso não
acontece. Então, eu não acho que o
dinheiro, que a fortuna, ela possa
trazer para você o verdadeiro consolo,
que é algo que só uma consciência. limpa
diante de Deus,
né? Eh, pode nos proporcionar. E ela é
limpa, não porque ela não fez, ela é
limpa porque ela reconhece que fez, pede
perdão. Ela é limpa, como o Salmo 51 de
Davi, salmo que ele escreve depois que
ele eh faz tudo que fez, né, com com
Urias.
Então, a consciência limpa é aquela
consciência que pode ser a que não fez,
ok, mas pode ser a que fez e se
arrependeu genuinamente, aquele
arrependimento profundo que desce, que
gera inclusive mudança de comportamento.
Então assim, a gente pode falar que a
posse, o dinheiro, ele pode te
anestesiar,
ele pode te alienar,
mas consolo acho difícil,
né? Porque senão rico não se matava,
porque senão rico não adoecia,
mentalmente falando, né? Sobretudo não
tirava a própria vida. Então, Procópio
recebeu deste lado da vida
algum alívio em razão do dinheiro que
herdou e da máscara social que usava.
Ele foi se alienou da sua dor, foi
anestesiado dela, mas eternamente ele
vai ter que responder por isso. E aí,
será que ele poderá ser chamado de
bem-aventurado?
Acho difícil, né? Enfim, gente, esse
conto ele vem nos alertar para a nossa
ambivalência, para nossa ambiguidade.
Lei lá depois Gálatas 5, Romanos 7, né?
Se procure naqueles versículos, se
coloque diante de Deus.
Peço ao Senhor para sondar a sua alma e
para te trazer clareza a respeito das
suas ambivalências,
para que você possa se refazer, tomar as
suas decisões da maneira mais lúcida
possível, a fim de que elas resultem a
você em saúde, né, e não em adoecimento.
Ã, Bel, e aí, o que que você achou desse
conto?
Oi, Rina. Eu achei muito interessante e
assim é um conto que, como você disse lá
no começo, foi escrito a mais de 100
anos, né? Mas ele é ele é muito atual,
porque a como as pessoas têm essa
facilidade, né, de
distorcer a moral, né, distorcer a sua
mente para
justificar a culpa, né, para ah não no
eh como é se diz, ou sei lá, para
transferir a culpa, né, para passar para
outra pessoa, né? Então isso é atual,
isso é atual demais, né? A gente vê isso
todos os dias, né? como a como e a e é
tanto isso que é incrível quando ele ele
se ele ele. Claro que se tivesse
acontecido hoje o o o
senhor lá iria pro
para o fazer biópsia e tudo e descobria
que ele tinha sido assassinado, né? Mas
naquela época, mesmo assim, ele teve
cuidado, né, de fechar a camisa e todas
as coisas. Mas e quando depois ele vem a
história da herança, né, que ele recebe
lá, ele ele carregava com essa culpa,
mesmo tentando se justificar, né, que é
o que acontece, eu creio que com muita
gente que até eu sei, eu sei histórias
de gente que se mata, né, com a culpa,
né, com de de todas essas coisas.
E quando ele recebe a herança, ele é o
que você comentou, né? Ele queria se
justificar de alguma forma para doando
para todo mundo. Vou, o que que eu vou
fazer? Você e eh até pros nossos
leitores tem um um filmezinho, né, que é
muito engraçado porque e no final, no
filme ele parece o coronel,
sabe, né? Então é é muito é muito
engraçado tudo isso. Eu acho que no
fundo ele gostava do coronel, sabe? Ele
era uma relação meio que paternal e eu
acho que sim, porque até ele deixou toda
herança pro enfermeiro que mais demorou,
né, ficar com ele ali e tudo e acabou
ele acabou acontecendo isso. Mas eu
achei um conto muito interessante que
faz nos faz pensar muito, especialmente
nessa coisa de você transferir a culpa,
né, de você tentar jogar pro outro ou
tem o que eu fiz de errado. Ah, mas foi
só um errinho aqui, né? Só foi só um só
um errinho ali, né? Et e tal, né? Mas
você trabalhar sua mente, né, para para
se sair da culpa de um erro grave,
eh, ele ele vai se tornando a pessoa que
ele tanto eh reprovava, né? Porque ao
final das contas ele se torna o novo
coronel da vila.
Sim, exatamente.
>> Ele pode não ter a mesma postura sádica
com os funcionários,
mas ele se torna um hipócrita, porque
ele ele vive eh as custas de uma de uma
reputação social que ele não tinha, ele
não era piedoso como as pessoas
pensavam. E ele aceitava que elas
pensassem assim, ele não desfazia isso,
né?
>> Uhum.
>> Então é isso é muito perigoso, né?
Porque as pessoas nos idealizam muito.
Inclusive a gente quando tá trabalhando,
servindo numa comunidade da fé,
>> as pessoas projetam em nós as suas
necessidades, as suas carências e nos
idealizam, né? Tentam nos colocarem
nas suas caixinhas morais, né? Eh, eu eu
não fico nesse lugar em que tento me
colocar muitas vezes. Eu sempre faço
questão de descer dali e de sinalizar
pra pessoa falar: "Olha, você tá me
idalizando, né? provavelmente sou muito
pior do que você, provavelmente sou
mesmo, né? Então, e falo isso sem
nenhuma pseudo, eh, porque só a gente
sabe, né, o mal que há em nós. Aliás, a
gente nem sabe totalmente, a gente sabe
parcialmente, mas a gente também tem os
nossos autoenganos. O fato é que eh é
muito fácil você se tornar refém desse
bemquerer, desse bom olhar do outro. A
gente tem que se colocar diante de Deus
sempre, porque é ali que nós
reconhecemos a nossa verdadeira estatura
e somos lembrados que nós realmente
somos. E você poder admitir isso também,
sabe? As suas falhas, as suas misérias,
isso é tão libertador, porque aí você
pode ser quem você é de verdade, né?
Você performar uma virtude que você não
tem é acachapante, é massacrante, né?
Custa a vida da gente.
Eu acho que a Rina travou.
Rena, você tá aí?
Então o E por isso que a Bíblia diz pra
gente olhar para Cristo, né? Não, não
coloca sua confiança em homens, né?
coloca sua confiança em Cristo, porque o
homem é falho. Tem tanta gente
decepcionada com com a igreja, né, com a
fé, com mono de coisa. Por isso, porque
coloca a sua fé em homens. Homens
falham, homens erram, homens pisam na
bola. E o alvo é Cristo, né? Cristo não
falha, Cristo não erra. Então, por isso
que você tem que colocar sua confiança
realmente no Senhor, né?
>> Sem sombra de dúvida, Bel. A gente sabe
que existem muitos líderes religiosos
que são realmente ovelhas, né, no meio
são lobos no meio de ovelhas, mas fora
estes existem muitos outros que são
sinceramente dedicados a Deus e ao
pastoreio. Só que na sua humanidade em
algum momento, eles vão nos frustrar,
porque são seres humanos, também acordam
com coruna doendo, também estão cansados
de ouvir a gente reclamando sempre da
mesma coisa, também tem as suas dores,
as suas limitações, né? E aí a pessoa
ficou ofendidinha porque ela entrou na
igreja e ninguém foi cumprimentar no
banco. É uma igreja, um clube, né?
>> Então assim, a igreja é esse lugar onde
a gente entra para servir.
>> Uhum. e não para ser servido, né? Então
a gente, o ser humano é muito complexo.
Esse texto do Machado é interessante
porque ele vem ressaltar a nossa
complexidade,
nos lembrar das nossas ambivalências,
nossa ambiguidade e nos colocar de novo
diante de de Gálatas 5 e de Romanos 7,
né? Paulo, apóstolo Paulo, enfrentou
isso tantas vezes anos depois. Ele tá em
outra carta falando da mesma coisa, né?
Então, se ele que era quem era enfrentou
isso até os seus últimos dias, com a
gente não vai ser diferente, né? Que
Deus tenha misericórdia de nós
e nos ajude a caminhar nessa lucidez,
né? a não desprezar as nossas sombras,
as nossas ambivalências, as nossas
duplicidades.
Que nós possamos pegar tudo isso,
colocar diante de Deus com honestidade
de coração. Sonda-me, Senhor, vê se há
vê se em minha conduta algo que te
ofende. Salmo 139. Guia-me pelo caminho
eterno, né? A gente pode pegar tudo
isso, colocar diante do Senhor para que
ele continue nos eh ensinando e nos
iluminando pra gente andar com segurança
em direção ao caminho, a vida eterna,
né? Porque a vida eterna não é para quem
é perfeito, porque perfeito só tem um. A
vida eterna é pra gente mesmo, que é
ambivalente, que é duplo, que é falho,
mas que não desiste de colocar isso
diante do Senhor e pedir a ele a sua
misericórdia. Até porque em Romanos 7,
muito interessante, né?
Quando Paulo vai falar, mas era bem que
quero, eu faço e agora, né? Como é que
eu vou fazer? E aí ele termina no último
versículo falando, olha, mas em Cristo
é possível você viver com isso e se
aperfeiçoando, né? E tudo está em
Cristo. Em Cristo essa essa ambiguidade
que é muito difícil, parece que é
impossível a gente vencer a esse
comportamento. Eu já orei tantas vezes,
de novo caí de novo, fiz isso, né? Em
Cristo,
você obtém o poder divino para lidar com
isso, com mais saúde. Não é mágica, né?
é um processo de autoanálise, de análise
diante do Senhor, de confissão, de
arrependimento. Mas assim, uma coisa é
certa, ele não despreza um coração
contrito. Todo aquele que bate, que ele
bate a porta e se a gente abrir a porta,
ele entra e faz morada e ser com a
gente. Então assim, eh, uma coisa que é
importante a gente ficar é assim, nós
temos a quem recorrer. Por pior que seja
a nossa situação, por mais densa que
seja a nossa sombra, por mais profunda
que seja a nossa dificuldade, por mais
escamoteada que seja a nossa
duplicidade, nós temos a quem recorrer
para nos ajudar a lidar com tudo isso. E
de glória em glória a gente sendo
transformado um pouquinho mais, cada vez
mais conforme o Cristo Jesus. Então você
que tá nos ouvindo, que Deus te abençoe
aí no seu processo, Bel. Que Deus te
abençoe no seu processo, que tenha
misericórdia de todos nós. Amém.
>> E continue nos ajudando a crescer,
evoluir e a ser cada vez mais conforme
Jesus Cristo de Nazaré. Muito obrigada,
viu, Bel? Obrigada, querido leitor.
>> Obrigada, Rina. Foi um prazer sempre
fazer parte. Final de mês estaremos aqui
de novo. Aguardem que a gente divulga
logo aí nossa nossa próxima atração. E
sejam todos fiquem com Deus todos e até
a próxima. Um beijo, Rina.
>> Até. Beijo. Obrigada. Ciao. Ciao.

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