Soberania e Onisciência-debate
08/05/2026
Soberania e Onisciência-debate
Diálogo teológico filosófico
Fonte: Missão na Íntegra
Legendas automáticas:
Quer dizer que o seu Deus sabe o futuro porque determinou tudo? >> Exato. Porque não teria outra forma de o saber se não o determinasse. >> Então o seu Deus é soberano, mas não é onisciente. >> Para nós, soberania e onisciência são a mesma coisa, >> mas não são. Porque onisciência é o atributo divino que lhe permite saber tudo sobre todos e sobretudo em todo e qualquer tempo, sem precisar determinar nada. Bem, o nosso Deus sabe tudo por ter tudo determinado. >> Então, soberania para vocês não é a capacidade divina de intervir quando quiser, como quiser e em que história quiser para o cumprimento do seu propósito. >> Não. Para nós, soberania é a capacidade divina de determinar tudo o que quiser, como o quiser. Quem tudo determina não precisa intervir em nada, nem por nada. O seu Deus é o único protagonista no universo? >> Sim, tudo acontece porque como ele quer que aconteça. O seu Deus, portanto, ou determina tudo ou não sabe nada. >> Não é exatamente não sabe nada, é que não haveria o que saber. >> Eternidade deixa de ser ausência de tempo para ser um tempo sem fim. Portanto, apenas mais uma medida de tempo, também sob determinação. >> Dito dessa forma, uma certeza a tudo será conforme determinado. >> Compreendo, mas isso reduz a eternidade à imortalidade. >> Mas é isso que define a eternidade. >> Veja bem, se a eternidade é um tempo que não tem fim, então o seu Deus teve um começo. Porque tempo pode até não ter fim, mas tem de ter começo. >> Nunca. Nosso Deus sempre existiu. Nosso Deus criou tempo. >> Se o seu Deus criou o tempo, ele também se tornou prisioneiro do tempo, porque nunca sairá dele, ainda que seja quem ao tempo determine. >> Não é assim? As criaturas é que nunca sairão do tempo. >> O seu Deus consequentemente não vai julgar nada, nem ninguém. Claro que vai. Julgará os vivos e os mortos e todos os que tiverem responsabilidade moral. >> Estranho. O seu Deus é o único protagonista. Determina tudo, mas julga a todos. Como ele lhes imputará culpa ou inocência? >> Embora tudo seja determinado, não há na divindade nenhuma culpa. Toda culpa está na criatura. >> Por que o seu Deus determinou dessa maneira? Isto é, dando lugar à maldade. >> Imagine que foi porque ele quis ou porque não havia outro jeito. >> Bem, você tem de decidir isso. Por que se ele fez assim porque quis, ou ele é mau, ou para ele não há diferença entre bem e o mal, o que, se me permite dizer, é muito mal. Não sai. Isso é o mistério. >> Tem outra situação. Se ele fez dessa maneira porque não tinha outro jeito, então, além de mal, ele também não é todopoderoso. >> Como assim? >> Perceba. Se ele fez assim, determinando tudo desse jeito, por que não havia outra possibilidade? Então ele o fez sob algum constrangimento, logo tem alguém ou algo acima dele que o constrangiu. >> Não acredito que tenha sido assim. A divindade faz por vontade. >> Pense, se o seu Deus está sob algum tipo de constrangimento, ele está em certa medida com isenção moral, mas você precisa saber quem está sobre ele, quem fez dele um Deus codjuvante. >> Não há nada, nem ninguém acima dele. >> Vejamos, seu Deus, embora soberano, não é onisciente, pois só sabe o que determina. E isso, por definição, não é saber. Uma vez que não há outro protagonista, ou não é onipotente ou é mau, por determinou que tudo passaria pela maldade, deflagrou o tempo, mas se tornou prisioneiro, porque precisa do tempo para fazer e para manter o que fez. E sua eternidade é mera mortalidade. O seu Deus é um ídolo. >> Isso é blasfêmia. >> Pois é, isso é exatamente o que eu penso. Isso é blasfêmia. M.