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Soberania e Onisciência-debate

Soberania e Onisciência-debate

Soberania e Onisciência-debate

Diálogo teológico filosófico

Legendas automáticas:

Quer dizer que o seu Deus sabe o futuro
porque determinou tudo?
>> Exato. Porque não teria outra forma de o
saber se não o determinasse.
>> Então o seu Deus é soberano, mas não é
onisciente.
>> Para nós, soberania e onisciência são a
mesma coisa,
>> mas não são. Porque onisciência é o
atributo divino que lhe permite saber
tudo sobre todos e sobretudo em todo e
qualquer tempo, sem precisar determinar
nada.
Bem, o nosso Deus sabe tudo por ter tudo
determinado.
>> Então, soberania para vocês não é a
capacidade divina de intervir quando
quiser, como quiser e em que história
quiser para o cumprimento do seu
propósito.
>> Não. Para nós, soberania é a capacidade
divina de determinar tudo o que quiser,
como o quiser. Quem tudo determina não
precisa intervir em nada, nem por nada.
O seu Deus é o único protagonista no
universo?
>> Sim, tudo acontece porque como ele quer
que aconteça.
O seu Deus, portanto, ou determina tudo
ou não sabe nada.
>> Não é exatamente não sabe nada, é que
não haveria o que saber.
>> Eternidade deixa de ser ausência de
tempo para ser um tempo sem fim.
Portanto, apenas mais uma medida de
tempo, também sob determinação.
>> Dito dessa forma, uma certeza a tudo
será conforme determinado.
>> Compreendo, mas isso reduz a eternidade
à imortalidade.
>> Mas é isso que define a eternidade.
>> Veja bem, se a eternidade é um tempo que
não tem fim, então o seu Deus teve um
começo. Porque tempo pode até não ter
fim, mas tem de ter começo.
>> Nunca. Nosso Deus sempre existiu. Nosso
Deus criou tempo.
>> Se o seu Deus criou o tempo, ele também
se tornou prisioneiro do tempo, porque
nunca sairá dele, ainda que seja quem ao
tempo determine.
>> Não é assim? As criaturas é que nunca
sairão do tempo.
>> O seu Deus consequentemente não vai
julgar nada, nem ninguém.
Claro que vai. Julgará os vivos e os
mortos e todos os que tiverem
responsabilidade moral.
>> Estranho. O seu Deus é o único
protagonista. Determina tudo, mas julga
a todos. Como ele lhes imputará culpa ou
inocência?
>> Embora tudo seja determinado, não há na
divindade nenhuma culpa. Toda culpa está
na criatura.
>> Por que o seu Deus determinou dessa
maneira? Isto é, dando lugar à maldade.
>> Imagine que foi porque ele quis ou
porque não havia outro jeito.
>> Bem, você tem de decidir isso. Por que
se ele fez assim porque quis, ou ele é
mau, ou para ele não há diferença entre
bem e o mal, o que, se me permite dizer,
é muito mal.
Não sai. Isso é o mistério.
>> Tem outra situação. Se ele fez dessa
maneira porque não tinha outro jeito,
então, além de mal, ele também não é
todopoderoso.
>> Como assim?
>> Perceba. Se ele fez assim, determinando
tudo desse jeito, por que não havia
outra possibilidade? Então ele o fez sob
algum constrangimento, logo tem alguém
ou algo acima dele que o constrangiu.
>> Não acredito que tenha sido assim. A
divindade faz por vontade.
>> Pense, se o seu Deus está sob algum tipo
de constrangimento, ele está em certa
medida com isenção moral, mas você
precisa saber quem está sobre ele, quem
fez dele um Deus codjuvante.
>> Não há nada, nem ninguém acima dele.
>> Vejamos, seu Deus, embora soberano, não
é onisciente, pois só sabe o que
determina. E isso, por definição, não é
saber. Uma vez que não há outro
protagonista, ou não é onipotente ou é
mau, por determinou que tudo passaria
pela maldade, deflagrou o tempo, mas se
tornou prisioneiro, porque precisa do
tempo para fazer e para manter o que
fez. E sua eternidade é mera
mortalidade. O seu Deus é um ídolo.
>> Isso é blasfêmia.
>> Pois é, isso é exatamente o que eu
penso. Isso é blasfêmia. M.

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