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A fé vem pelo ouvir

Todas as Cores de Cristo – Davi Cantou, Cristo Cumpriu: O Zelo pela Glória de Deus | Josemar Bessa

Todas as Cores de Cristo – Davi Cantou, Cristo Cumpriu: O Zelo pela Glória de Deus | Josemar Bessa

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Legendas automáticas:

Há homens que conhecem Deus como ideia.
Há outros que o conhecem como refúgio.
Davi pertence a essa segunda ordem. Não
porque sua vida tenha sido simples, não
porque sua alma tenha caminhado sem
sombras, não porque sua história esteja
livre de quedas, lágrimas, culpas,
perseguições, guerras, esperas e noites.
Davi não é belo porque foi intacto. É
belo porque, mesmo sendo homem de pó,
havia nele uma fome santa, uma sede
profunda, uma espécie de dor luminosa
por Deus. Ele não queria apenas
livramentos, cria o Senhor. Não queria
apenas vitórias, cria a face. Não queria
apenas um reino protegido, queria
contemplar a beleza de Deus.
Há uma devoção em Davi que não pode ser
reduzida à religiosidade de rei. Não é
ornamento litúrgico, não é etiqueta
espiritual, não é linguagem de ocasião,
é desejo.
Sua alma sabe o que é fugir, sabe o que
é esconder-se em cavernas, sabe o que é
ser caçado, sabe o que é esperar por uma
promessa que parece demorar.
Sabe o que é carregar arpa numa mão e
espada em outra. Sabe o que é governar?
Sabe o que é pecar gravemente. Sabe o
que é ser quebrado por culpa. Sabe o que
é chorar sobre filhos, inimigos,
traições e consequências amargas.
Mas por baixo de tudo isso há uma linha
que atravessa a sua vida. Deus é seu
tesouro.
Isso não significa que Davi nunca tenha
amado outros tesouros de modo
desordenado. Amou e caiu. Não significa
que seu coração tenha sido sempre
indiviso. Não foi. Não significa que sua
devoção tenha permanecido sem manchas.
Não permaneceu. Mas significa
que a graça havia plantado nele uma
atração real pela glória divina. Davi
sabia que a vida sem Deus é menor
que a morte. Sabia que um trono sem Deus
é vazio. Sabia que vitória sem Deus é
pobre. Sabia que segurança sem Deus é
apenas uma jaula confortável.
sabia que o culto não era acessório do
reino, mas seu centro verdadeiro. Por
isso, sua alma canta.
Canta no campo, canta na fuga, canta no
palácio, canta no arrependimento,
canta na gratidão, canta na angústia,
canta quando Deus parece perto, canta
quando Deus parece escondido.
Os salmos de Davi não são poemas de uma
alma superficial.
São respirações de um homem diante de
Deus. Ali a adoração, a confissão, a
medo, a desejo, a perplexidade, a
justiça, a culpa,
a esperança, a sede, a deleite,
a guerra interior, a descanso.
Davi leva tudo para Deus. Essa é uma das
marcas de sua
devoção.
Ele não entrega a Deus apenas a parte
organizada da alma. Ele entrega também a
parte ferida, a parte confusa, a parte
culpada, a parte ameaçada, a parte que
espera, a parte que geme. Sua devoção
não é plástica, não é polida demais para
ser verdadeira, não é formal demais
para sangrar, é viva. E por ser viva, às
vezes treme, às vezes pergunta, às vezes
se derrama, às vezes se arrepende, às
vezes se agarra a Deus. com as unhas da
fé.
Por que você está assim tão triste, ó
minha alma? Davi fala consigo diante de
Deus, chama a alma de volta, prega ao
próprio coração. Não deixa a tristeza
ser a única voz no tempo interior. Isso
é devoção. Não apenas sentir Deus quando
a alma está aquecida, mas buscar Deus
quando a alma precisa ser acordada. Davi
conhecia a beleza do Senhor, não como
quem conhece uma definição, mas como
quem foi atraído. A beleza de Deus não
era para ele decoração da doutrina, era
alimento, era luz, era lá.
Ele desejava habitar na casa do Senhor,
desejava contemplar, desejava inquirir,
desejava permanecer.
Há nessa devoção uma concentração santa.
Muitas coisas cercavam Davi, o reino, os
inimigos, as responsabilidades, as
guerras, as alianças, as estratégias, os
perigos, a família, a corte, a própria
memória
de seus pecados. Mas quando sua alma é
reduzida ao desejo mais profundo, ela
aponta para um centro, Deus. Não apenas
as coisas de Deus, Deus. Não apenas o
serviço a Deus, Deus. Não apenas a
proteção de Deus, Deus. Essa é a
diferença entre usar Deus e amar Deus.
O coração religioso pode buscar Deus
como meio. Meio para paz, meio para o
sucesso, meio para sentido, meio para
estabilidade, meio para identidade, meio
para provação. Davi, em seus melhores
momentos, cria o próprio Deus, cria sua
presença, sua beleza, sua face, sua
casa, sua palavra, sua misericórdia.
E é por isso que sua devoção
nos expõe, porque tantas vezes queremos
apenas o Deus que dá. Queremos alívio,
mas não santidade. Queremos resposta,
mas não comunhão. Queremos livramento,
mas não transformação. Queremos consolo,
mas não rendição. Queremos Deus que que
Deus proteja nossa vida, mas não que se
tornei
nos fere
sede. Ele pergunta sem perguntar. O que
você realmente quer quando busca Deus?
Quer apenas que ele resolva? Quer apenas
que ele cure? Quer apenas que ele abra
portas? Quer apenas que ele restaure
perdas? Quer apenas que ele o livre do
medo? Eu quer vê-lo, quer conhecê-lo,
quer amá-lo, quer habitar diante dele,
quer que a beleza dele se torne mais
preciosa que todas as suas
circunstâncias.
Essa
pergunta é necessária, porque a devoção
verdadeira não é medida apenas pelo que
fazemos para Deus, mas pelo lugar que
Deus ocupa em nosso desejo.
Davi também amou a casa do Senhor. Isso
não era apego sentimental a um espaço
religioso, era fome pela presença
pactual de Deus no meio do seu povo. A
casa do Senhor representava encontro,
culto, sacrifício, louvor. perdão,
palavra, glória habitando entre homens.
Davi entendia que a vida do povo não
poderia ser organizada apenas em torno
de política, exército, economia e
fronteiras.
Israel existia para Deus. O centro não
era o palácio, era o culto. O trono do
rei terreno só tinha sentido debaixo do
trono do rei eterno. Por isso Davi se
alegrava com a arca. desejava preparar
lugar, queria que a adoração ocupasse o
coração da nação. Não suportava a ideia
de viver confortavelmente em casa de
cedro, enquanto a arca de Deus estava em
tenda.
Havia zelo nisso. Zelo pela honra
divina, zelo pela presença de Deus, zelo
para que o Senhor não fosse tratado como
acessório enquanto o homem construía
para si grandeza.
Esse zelo também nos examina, porque é
possível
amar a própria casa e negligenciar a
casa de Deus. Amar nossos projetos e
tratar o reino como resto. Investir
paixão no que nos exalta e oferecer a
Deus sobras de atenção. Cuidar da
própria imagem com zelo e tratar a
glória do Senhor com distração.
Davi era rei, mas sabia que não era o
centro. E quando esqueceu isso, caiu.
Sua queda foi terrível. Não deve ser
suavizada, não deve ser transformada em
detalhe. A escritura não esconde seu
pecado para preservar sua reputação.
Davi cobiçou, tomou, mentiu, manipulou,
derramou o sangue inocente. O homem que
cantava a beleza de Deus também conheceu
a feiura profunda do próprio coração.
Isso nos impede de romantizar Davi. Sua
devoção era real, mas não era pura em si
mesma. Seu amor por Deus era verdadeiro,
mas ainda habitava num homem que
precisava de perdão. Sua alma desejava a
casa do Senhor, mas seu coração podia
ser arrastado por desejos perversos.
Seus lábios cantavam salmos, mas esses
mesmos lábios precisaram confessar
culpa.
Davi era homem segundo o coração de
Deus, mas não era o filho sem pecado.
Era rei, mas rei quebrado. Era adorador,
mas adorador que precisou de
misericórdia. era poeta da graça, mas
também necessitado dela. E talvez sua
devoção se torne ainda mais preciosa
quando vemos isso, porque ele não é a
devoção de um inocente absoluto, é a
devoção eh de um homem alcançado,
perdoado,
quebrantado, restaurado, conduzido
novamente ao Deus cuja misericórdia é
maior que sua miséria. Quando Davi clama
por um coração puro, não fala como
teórico da santidade, fala como homem
que viu a sujeira de dentro. Quando pede
que o espírito não seja retirado, não
brinca com palavras, sente o pavor de
perder a alegria da presença de Deus.
Quando fala de ossos esmagados, sabe que
o pecado não é prazer pequeno,
é destruição.
Quando pede restauração de alegria da
salvação, revela que nenhuma coroa
compensa a perda da comunhão. Aqui
também há devoção.
Não a devoção intacta do homem que nunca
caiu, mas a devoção arrependida do homem
que descobriu que depois de pecar, seu
maior horror, não era apenas perder
reputação, paz ou estabilidade, era
perder Deus.
Isso é belo, mas ainda é reflexo. Davi
aponta para outro, porque tudo que nele
vemos de sede, amor, zelo, cântico,
arrependimento e desejo pela casa de
Deus precisa encontrar sua plenitude em
Cristo. Cristo é o verdadeiro rei
devoto, não apenas descendente de Davi,
não apenas herdeiro do seu trono, não
apenas cumprimento de promessas régias,
ele é o rei cuja alma amou perfeitamente
a glória do Pai. Em Davi, a devoção é
real, mas misturada. Em Cristo é pura.
Em Davi, o desejo por Deus é profundo,
mas pode ser interrompido por pecado. Em
Cristo, o amor pelo Pai nunca é
interrompido.
Em Davi há salmos de adoração e salmos
de arrependimento. Em Cristo há adoração
sem necessidade de arrependimento.
Ainda havia azelo pela casa de Deus e
também momentos de desordem interior. Em
Cristo, o zelo pela casa do Pai o
consome sem uma gota de vaidade,
interesse próprio ou impureza.
Que beleza é essa? Cristo viveu cada
respiração diante do Pai. Não houve nele
segundo plano oculto. Não houve disputa
interior entre a glória de Deus e a
glória própria. Não houve uso da
religião como máscara. Não houve culto
externo sem coração. Não houve cântico
separado de obediência. Não houve oração
vazia. Não houve devoção de ocasião. Sua
vida inteira foi adoração. Quando se
retirava para orar, adorava. Quando
curava enfermos, adorava. Quando
ensinava, adorava. Quando recebia
pecadores, adorava. Quando confrontava
hipócritas, adorava. Quando chorava,
adorava. Quando caminhava para
Jerusalém, adorava. Quando se entregava
adorava. Porque adoração não é apenas
música, é a vida inteira entregue ao
valor supremo de Deus.
Ninguém adorou como Cristo. Ele amou o
Pai com todo coração e toda alma, todo
entendimento e toda força, não como
mandamento a ser buscado entre quedas,
mas como realidade perfeita, contínua,
inviolada. Nele, o primeiro mandamento
finalmente encontrou humanidade sem
fissura. Nós nunca amamos Deus assim.
Mesmo quando amamos, amamos com mistura.
Amamos e esquecemos. Amamos e buscamos
nossos ídolos. Amamos e negociamos.
Amamos e nos distraímos. Amamos e
queremos aplauso por amar Cristo. Não. O
amor do Filho pelo Pai é límpido. Ele
não ama o Pai como quem precisa ser
convencido de que Deus é digno. Ele
conhece a dignidade do Pai desde toda a
eternidade. Ele não serve ao Pai por
medo de perder lugar. serve como filho
amado. Ele não obedece para comprar a
aceitação, obedece a partir da comunhão
perfeita.
Ele não glorifica o Pai de modo formal,
glorifica com prazer santo, com
submissão inteira, com vida entregue.
Davi desejava contemplar a beleza do
Senhor. Cristo contemplava o Pai com
conhecimento perfeito e encarnado viveu
para revelar essa beleza aos homens.
Davi queria habitar na casa do Senhor.
Cristo é o filho que pertence à casa e
mais é o próprio lugar de encontro entre
Deus e o homem.
Davi amava o culto. Cristo é o
verdadeiro templo, o verdadeiro
sacerdote, o verdadeiro sacrifício, o
verdadeiro adorador.
Davi preparou cânticos. Cristo tornou
possível que pecadores cantassem sem
serem consumidos.
Davi cantou sobre a misericórdia. Cristo
comprou a misericórdia com sangue. Davi
falou de um cálice transbordante. Cristo
bebeu o cálice da ira para que o nosso
transbordasse de graça. Os salmos de
Davi encontram sua voz mais profunda no
filho. Isso não significa que Davi
desapareça, significa que Davi é
cumprido.
Quando os salmos falam de confiança,
Cristo é a confiança perfeita. Quando
falam de sofrimento justo, Cristo é o
justo sofredor. Quando falam de
inimigos, Cristo é o rei perseguido.
Quando falam de zelo, Cristo é o filho
consumido pela glória do pai. Quando
falam de abandono, o Cristo entra na
profundidade que Davi só antecipa.
Quando falam de ressurreição e reino,
Cristo se levanta como Senhor vivo.
Quando falam de adoração entre as
nações, Cristo é aquele que reúne povos
para o louvor de Deus.
Há salmos que parecem grandes demais
para Davi e são porque a voz de Davi,
inspirada pelo espírito, muitas vezes
carrega ecos de uma voz maior. O rei
menor canta, mas o rei maior está vindo.
O ungido ferido ora, mas o ungido final
sofrerá.
O adorador deseja, mas o filho perfeito
cumprirá.
O salmista geme, mas o Cristo entrará no
gemido redentor.
O rei confia, mas o filho confiará até a
morte. Por isso, quando ouvimos Davi,
devemos aprender a ouvir Cristo. Não de
modo superficial, artificial,
não forçando cada frase, mas
reconhecendo que a esperança davídica, o
reino davídico, a a devoção davídica e o
sofrimento davídico correm para o
Messias.
Cristo é o filho de Davi, mas também é
senhor de Davi. Ele recebe
a promessa e excede a promessa. Assume o
trono e redefine o trono. Vem como rei e
vence como cordeiro. Entre em Jerusalém
humilde, não com a eh vaidade dos reis
humanos, mas com a serenidade de quem
caminha para dar a vida. O amor de
Cristo, pela glória do Pai aparece de
modo especial em seu zelo. Quando ele
entra no templo e vê a casa do seu pai
transformada em mercado. Não reage como
alguém defendendo preferência estética.
Não está irritado por gosto pessoal. Não
está apenas corrigindo desordem externa.
Ele vê a glória do Pai sendo tratada
como meio de lucro. Vê o lugar de oração
sendo consumido por comércio religioso.
Vê a santidade reduzida à conveniência.
Vê homens usando o sagrado para
alimentar interesses terrenos e o zelo o
consome. Esse zelo é santo. Não é
explosão carnal, não é falta de domínio
próprio, não é irritação do ego, não é
temperamento
impaciente, não é dureza religiosa, é
amor ardente pela honra do Pai. Cristo
não suporta ver o nome do pai
banalizado, não suporta ver a casa do
pai profanada. Não suporta ver a
religião transformada em comércio de
almas.
Não suporta ver o culto usado como
cobertura para ganância. Seu zelo é
chama limpa em nós. O zelo quase sempre
precisa ser purificado. Podemos zelar
pela verdade e amar a sensação de estar
certas. Podemosar pelo culto e desprezar
pessoas. Podemos elar pela doutrina e
alimentar o orgulho. Podemosar pela
santidade e esquecer a misericórdia.
Podemosar contra abusos, alheios
enquanto ignoramos desordens internas.
Mas em Cristo não há zelo misturado. Ele
ama o Pai perfeitamente e por isso odeia
perfeitamente tudo que deshonra o Pai.
Seu zelo não torna menos terno. Sua
ternura não o torna menos zeloso.
Ele purifica o tempo e recebe crianças.
Denuncia hipócritas. e restaura
pecadores quebrados. Confronta a
profanação e oferece descanso aos
cansados. Fala com autoridade e chora
sobre Jerusalém. Essa harmonia só existe
nele em plenitude.
Davi teve zelo pela casa de Deus, mas
Cristo é consumido por esse zelo até a
morte. Porque o templo que ele purifica
aponta para algo maior. Ele mesmo é o
verdadeiro templo. Destruam esse
santuário e ele o levantará. Os homens
pensavam em pedras. Ele falava do corpo.
A casa de Deus encontraria a sua
realidade final nele. Não mais um lugar
como centro último, mas uma pessoa. Não
mais sacrifícios repetidos, mas um
sacrifício perfeito. Não mais acesso
mediado por sombras, mas comunhão
aberta. pelo corpo rasgado do filho.
Cristo ama a glória do pai de tal modo
que oferece o próprio corpo para lugar
de encontro entre Deus e pecadores.
Aqui sua devoção ultrapassa todo
cântico. Davi cantou, Cristo sangrou.
Davi desejou a casa, Cristo tornou-se o
caminho para casa. Davi amou a presença.
Cristo perdeu na cruz o consolo da
presença para que fôssemos recebidos
nela.
Davi quis contemplar a beleza. Cristo
foi desfigurado para nos dar visão
eterna dessa beleza. O amor do filho
pela glória do pai não é apenas música
celeste, obediência encarnada. Essa é
uma das maiores diferenças entre nossa
devoção e a dele. Nós muitas vezes
cantamos mais do que obedecemos.
Desejamos mais em palavras do que em
renúncia. Falamos de paixão por Deus
enquanto preservamos áreas onde Deus não
governa.
Adoramos em público e negociamos em
secreto. Choramos em cânticos e
resistimos em mandamentos. Cristo não.
Nele o cântico e obediência são uma só
oferta. Seu amor pelo Pai se manifesta
quando ele se submete, quando espera,
quando não busca glória própria, quando
fala apenas o que recebeu, quando faz a
vontade daquele que o enviou, quando se
alimenta dessa vontade, quando caminha
para a cruz, eu te glorifiquei na terra
completando a obra que me deste para
fazer. Que frase! A glória do Pai foi o
alvo de sua missão. Cristo não veio
primeiro para afirmar a importância
humana, veio para glorificar o Pai
salvando pecadores. Veio para mostrar a
justiça, a misericórdia, a sabedoria, a
santidade, a fidelidade, o amor e a
graça de Deus. Veio para que Deus fosse
conhecido como Deus.
Nossa salvação é indescritivelmente
preciosa, mas não é o centro último
separado da glória divina. Somos salvos
para louvor da glória da graça. Cristo
nos regata de modo que o Pai seja
glorificado, nos perdoa de modo que a
justiça seja honrada, nos adota de modo
que a graça seja exaltada, nos santifica
de modo que a beleza de Deus seja
refletida,
nos ressuscitará
de modo que a vitória divina seja
celebrada para sempre. O amor de Cristo
por nós nunca competiu com seu amor pelo
Pai.
Essa é uma verdade profunda. Ele nos ama
no Pai, ama-nos para o Pai, ama-nos por
causa do propósito do Pai. Ama-nos de
modo que sejamos levados a participar da
alegria dele na glória do Pai. Cristo
não é um salvador que nos coloca no
centro.
Ele nos salva do nosso centro falso para
nos introduzir no centro verdadeiro.
Deus.
Isso é redenção. E aqui Davi nos ajuda,
porque em Davi vemos a alma que
descobriu que Deus é mais desejável que
tudo.
Mas em Cristo vemos o filho que sempre
soube, sempre amou, sempre viveu e
sempre morreu para que a glória do Pai
fosse manifestada.
Davi dizia: "O Senhor é meu pastor.
Cristo é o bom pastor que dá vida pelas
ovelhas".
Davi dizia: "O Senhor é minha luz e
minha salvação Cristo é a luz do mundo e
a salvação encarnada". Davi perguntava:
"Quem habitaria no monte santo?" Cristo
é o único plenamente digno e por sua
obra leva indignos para habitar com
Deus. Davi lamentava o abandono. Cristo
entrou no abandono judicial e clamou nas
trevas. Davi confiava que Deus não
abandonaria seu santo a sepultura.
Cristo ressuscitou vencendo a corrupção
e garantindo a esperança de todos os
seus.
Davi cantava como rei ferido e pecador
perdoado. Cristo canta no meio da
congregação como rei ressuscitado e
salvador perfeito.
Os salmos chegam a Cristo porque Cristo
é sua verdade, mas funda. Isso
transforma a nossa leitura. Não lemos
Davi apenas para encontrar linguagem
para nossas emoções, embora encontremos.
Não lemos Davi apenas para aprender a
orar, embora aprendamos.
Não lemos Davi apenas para admirar uma
alma devota, embora devamos admirar.
Demos Davi para sermos conduzidos ao
filho de Davi,
aquele em quem toda oração humana santa
encontra purificação.
Aquele em quem todo cântico recebe
fundamento,
aquele em quem todo lamento é ouvido.
Aquele em quem toda culpa confessada
encontra perdão. Aquele em quem toda
sede por Deus encontra água viva.
Davi desejava Deus. Cristo nos dá Deus.
Essa é a diferença.
Davi buscava a face. Cristo removeu o
véu. Davi amava a casa. Cristo abre o
caminho para o Santo dos Santos.
Davi cantava a misericórdia. Cristo é a
misericórdia em carne e sangue.
Davi sabia que a alegria verdadeira
estava em Deus. Cristo compra essa
alegria com sua própria tristeza mortal.
E que tristeza foi essa? Não tristeza de
frustração egoísta. Não tristeza de
vaidade ferida, não tristeza de quem
perdeu o controle, tristeza santa. No
Getsemman, o filho devoto se entristece
até a morte. Aquele que amou
perfeitamente o Pai vê diante de si o
cálice. Aquele que viveu em comunhão
perfeita caminha para o abandono
judicial.
Aquele que glorificou o Pai em cada
respiração será feito pecado por nós.
Aquele que é a alegria do céu entra na
angústia da cruz.
e ainda assim obedece.
Essa é a devoção suprema. Não apenas
louvar quando o coração está cheio, mas
obedecer quando a obediência custa
sangue. Não apenas desejar a casa do
Pai, mas entregar-se para que inimigos
sejam trazidos à casa do Pai. Não apenas
cantar a glória, mas morrer para
manifestá-la.
Cristo amou a glória do Pai mais do que
a própria preservação.
Ele não se agarrou a conforto, não
buscou escapar do caminho determinado,
não aceitou glória sem cruz, não
negociou a missão para evitar vergonha,
não escolheu ser admirado pelos homens
em vez de obedecer o pai.
Foi até o fim, até o suor, até a prisão,
até o julgamento, até os açoites, até os
cravos, até as trevas, até o clamor, até
o está consumado.
O amor do filho, pela glória do pai tem
marcas nas mãos. Não é sentimento
abstrato, é sangue. É por isso que a
devoção de Cristo salva. Se ele apenas
tivesse amado o pai como exemplo, nós
estaríamos condenados por comparação,
porque nenhum de nós ama Senhor. Mas ele
amou o Pai por nós também. Sua
obediência perfeita é nossa justiça. Sua
devoção sem mistura cobre nossa frieza.
Seu zelo santo cobre nosso culto
manchado.
Sua oração perfeita cobre nossas orações
distraídas. Seu amor indiviso cobre
nossos amores divididos.
Isso nos torna eh isso não torna nossa
devoção dispensável, ao contrário, torna
possível.
Porque agora não nos aproximamos de Deus
trazendo a pureza de nossa paixão como
moeda.
Aproximamos-nos em Cristo. Nossas
orações passam pelo filho. Nossos
cânticos são aceitos no amado. Nosso
culto imperfeito é recebido por causa do
mediador perfeito. Nossa sede fraca é
sustentada pela plenitude dele. Nosso
amor pequeno é inflamado pelo amor dele.
Cristo não apenas nos perdoa por não
amar a Deus como deveríamos,
ele começa a nos ensinar a amar pelo
espírito. Ele forma em nós uma nova
sede, um novo gosto, uma nova percepção
da beleza divina. A alma que antes
buscava Deus apenas por utilidade,
começa a desejá-lo por quem ele é.
Começa a sentir que pecado não é apenas
infração, mas perda de comunhão. Começa
a perceber que culto não é tarefa, mas
privilégio. Começa a entender que a casa
de Deus não é peso, mas família reunida
diante do Pai. Começa a cantar não
apenas para preencher silêncio, mas
porque a glória precisa de resposta.
Ainda somos fracos.
Nossa devoção oscila. Nosso coração se
distrai. Nossa paixão esfria. Nossa boca
canta. Enquanto a mente vagueia, nosso
serviço busca reconhecimento. Nossa
oração se cansa. Nosso amor pelo mundo
disputa espaço com o nosso amor por
Deus. Mas Cristo não nos abandona. O rei
devota, governa nossos afetos. O filho
que amou perfeitamente o pai intercede
por filhos que amam imperfeitamente.
O pastor, segundo o coração de Deus,
conduz ovelhas de coração lento. O
verdadeiro Davi canta
sobre nós, ora por nós, reina sobre nós
e nos leva ao culto eterno. A devoção
cristã, então, não nasce de tentar
imitar Davi por força própria, nasce de
contemplar Cristo. Quanto mais vemos o
filho amando o pai, mais nossa
indiferença se torna insuportável.
Quanto mais vemos seu zelo, mais nosso
culto casual nos entristece. Quanto mais
vemos sua obediência, mais nossa
religiosidade sem entrega perde encanto.
Quanto mais vemos sua cruz, mais
percebemos que Deus não pode ser tratado
como acessório.
A cruz é a grande acusação contra a
devoção superficial. Ali vemos o valor
de Deus. Se a glória do Pai exigiu
fidelidade até o sangue do filho, como
podemos oferecer a Deus sobras
sonolentas de atenção?
Se Cristo entregou tudo para nos levar
ao Pai, como podemos buscar o Pai apenas
quando precisamos de algo?
Se o filho perdeu o consolo da face para
abrir caminho da presença, como podemos
tratar a presença de Deus com tédio?
Se a casa do Pai custou o corpo rasgado
do Filho, como podemos amar mais nossas
pequenas casas de vaidade?
A cruz também é o grande remédio, porque
ali vemos o amor que
reaccende amor.
Não somos constrangidos apenas por
culpa. Somos atraídos por beleza. O
filho amou o pai, o filho nos amou, o
filho nos levou ao pai. E agora o
espírito derrama esse amor em nosso
coração para que comecemos a dizer ainda
imperfeitamente, mas verdadeiramente,
uma coisa peço ao Senhor e a buscarei.
Não como Davi apenas, mas em Cristo.
Queremos habitar diante de Deus porque
Cristo nos abriu a casa. Queremos
contemplar a beleza porque Cristo nos
mostrou a face. Queremos cantar porque
Cristo nos deu motivo. Queremos obedecer
porque Cristo nos amou primeiro.
Queremos santidade porque Cristo é belo.
Queremos a glória do Pai porque o Filho
nos ensinou que não há alegria maior.
Davi era homem de desejo. Cristo é o
desejado. Davi era cantor. Cristo é o
cântico. Davi era rei. Cristo é o rei
dos reis. Davi amava a casa. Cristo é a
casa, a porta e o caminho. Davi pecou e
precisou de misericórdia. Cristo não
pecou e se tornou misericórdia para
pecadores.
Davi queria contemplar. Cristo nos dá
olhos para ver. Davi apontava, Cristo
cumpre. E quando chegamos a essa
contemplação, a devoção deixa de ser
apenas disciplina,
torna-se resposta.
Sim, há disciplina, a busca, a oração
quando não há vontade, há culto quando a
alma está fria, a leitura quando a mente
está cansada, a obediência quando o
coração hesita. Mas tudo isso precisa
ser alimentado por algo maior que
deverno precisa ser alimentado pela
visão de Cristo. Porque dever sem beleza
endurece, beleza sem dever
evapora. Em Cristo, dever e beleza se
unem. Ele é digno de ser obedecido e é
desejável. Digno de ser servido e é
doce. Digno de ser temido e é amado,
digno de receber tudo e é ele mesmo
nossa herança. Por isso, o caminho de
Davi deve terminar em adoração ao filho
de Davi. Não em eh nostalgia por uma
alma poética, não em admiração pelo rei
músico, não em simples amor pelos salmos
como literatura sagrada, mas em Cristo.
O Cristo que cantou a verdade com a
vida. O Cristo cujo zelo queimou até a
cruz. O Cristo que amou o Pai sem falha.
O Cristo que nos comprou para o louvor.
O Cristo que transforma pecadores
dispersos em adoradores. O Cristo que um
dia estará no centro do cântico eterno.
No céu a devoção não será fraca. Não
haverá distração, não haverá frieza, não
haverá culto dividido. Não haverá
cânticos mecânicos, não haverá lábios
sem coração. Não haverá coração dividido
entre Deus e ídolos. Não haverá desejo
competindo com a glória. Veremos e vendo
amaremos. Amaremos sem mancha.
Cantaremos sem cansaço. Adoraremos sem
mistura. Serviremos sem vaidade,
descansaremos sem perder o zelo, teremos
alegria sem ameaça. Davi desejou isso de
longe. Cristo comprou isso de perto, com
sangue. Então, enquanto ainda
caminhamos, aprendemos com Davi a
desejar, mas aprendemos com Cristo o que
é desejar perfeitamente. Aprendemos com
Davi a cantar, mas aprendemos com Cristo
que o cântico verdadeiro se torna
obediência.
Aprendemos com Davi a amar a casa, mas
aprendemos com Cristo que a casa foi
aberta por corpo rasgado. Aprendemos com
Davi a confessar culpa, mas aprendemos
com Cristo que a culpa foi carregada
pelo cordeiro. Aprendemos com Davi a
buscar a face, mas aprendemos com Cristo
que a face do pai agora brilha sobre nós
no Filho. A devoção de Davi é bela, mas
o amor de Cristo pela glória do Pai é
infinitamente mais.
Davi teve sede. Cristo é a fonte. Davi
tocou harpa, Cristo entregou mãos
perfuradas. Davi preparou louvor, Cristo
preparou adoradores.
Davi reinou em Sião, Cristo reina à
direita do Pai. Davi quis habitar na
casa do Senhor. Cristo nos levará para a
casa do Pai. E ali, finalmente,
todos os salmos encontrarão o seu
repouso. A fé cantará sem medo. O
arrependimento dará lugar à pureza
consumada. O lamento será vencido pela
visão. A esperança se tornará posse. O
desejo se tornará deleite pleno. E no
centro não estará Davi, estará o filho
de Davi, o rei devoto, o cordeiro
glorioso, o amado pai, o salvador dos
adoradores,
aquele cujo zelo nos comprou, aquele
cujo sangue nos purificou, aquele cuja
beleza será a música eterna da igreja.
Então cantaremos. Não porque aprendemos
apenas a linguagem de Davi, mas porque
fomos unidos ao Cristo para quem Davi
cantava.
E toda devoção verdadeira, enfim,
purificada, será devolvida ao seu
destino. A glória do Pai, no Filho, pelo
Espírito Santo para sempre.
Amém.
Santo Deus, [canto] eu me aproximo sem
defesa, sem razão.
Tu me vês nos detalhes, [canto]
no segredo do coração,
[música] nos pequenos pensamentos,
[canto]
nas palavras que eu soltei.
Teu espírito [canto] me chama, [música]
confessa.
E eu confessei,
não escondo minha [música][canto] culpa,
não maquio minha dor.
Contra [música][canto] ti eu pequei
contra o teu santo amor.
Mas que [canto] atos minha raiz,
[música] um querer desalinhado.
Eu preciso de limpeza. [canto]
Eu preciso ser
lavado.
[música] Cordeiro, minha justiça,
[canto]
fim do meu tribunal.
Eu largo a autojustiça, [canto][música]
me rendo ao teu final.
[canto]
Jesus,
tem misericórdia.
[música]
Jesus,
vem me purificar.
[canto]
Teu sangue fala mais alto que o meu
pecado a gritar.
[grito]
Minha única defesa
é a cruz, [música] é o teu favor. Eu
adoro a tua graça.
[canto]
Eu descanso no teu amor.
>> Tua misericórdia [música]
[canto] é melhor.
Tua [música] misericórdia [canto]
é meu lar.
>> Rei dos reis, eu me prostro. [música]
Tu és [canto] luz e eu sou pó.
Quando eu [música] tento ser meu dono,
[canto] eu no terco em mim só.
Autonomia é mentira, [música][canto]
autossuficiência
também.
Tu [música] és fonte, tu és vida.
Sem ti nada me sustém.
Eu
não venho com currículo, [música][canto]
venho com mãos sem ter. Não confio no
meu choro, nem o meu [canto]
vou vencer. [música]
Eu confio na firmeza do teu pacto, ó
Senhor.
Tua [canto] aliança é selada no [música]
cordeiro
redentor.
Restaura [música] minha alegria,
tua salvação em [música] mim.
Sustenta-me com [canto] espírito
pronto até o fim. [música]
Jesus
tem misericórdia. [música][canto]
Jesus
vem me purificar. [música]
Teu sangue fula mais alto que o meu
pecado a gritar.
A minha única defesa [música]
é a cruz é o teu favor. Eu adoro
[música] a tua graça.
Eu [música] descanso no teu amor.

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