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POR QUE OS CRISTÃOS ERAM TÃO CATIVANTES? I Cynthia Muniz I Palestra Café Teológico 2026

POR QUE OS CRISTÃOS ERAM TÃO CATIVANTES? I Cynthia Muniz I Palestra Café Teológico 2026

POR QUE OS CRISTÃOS ERAM TÃO CATIVANTES? I Cynthia Muniz I Palestra Café Teológico 2026

Palestra de Cynthia Muniz em Joinville/SC sobre os primeiros cristãos no Café Teológico na MEUC Joinville.

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Legendas automáticas:

[música]
Estou muito feliz de estar aqui com
vocês para falar de um tema que eu gosto
bastante. Eh, feliz também, né, por ter
algumas pessoas conhecidas aqui. E vou
continuar então a partir da onde o Bibo
falou. E eu quero falar um pouquinho
sobre o que tornavam então os cristãos
cativantes.
Estranhos eles eram e até considerados
subversivos e perigosos.
Mas por que que tantas pessoas então
eram atraídas ao cristianismo?
E eu quero trazer um pouco desde quando
eu comecei a estudar um pouco mais sobre
a igreja. Eh, isso tem muito a ver com o
meu processo de de conversão, vamos
dizer assim. Eu queria entender o que
significava ser cristão. E eu não sei se
você já parou para pensar o que
significa ser cristão, né? como a gente
descreve o que o cristianismo hoje
dentro da sociedade?
A gente viu que, por exemplo, no império
romano, ser cristão era algo muito
estranho. Hoje nós já estamos num mundo
bastante cristianizado, que ainda que as
pessoas não se declarem cristãs, é
impossível negar a influência que os
cristãos tiveram na história até hoje.
Então, eu sempre me perguntei, né, o o
qual era a motivação do por alguém se
tornava cristão. E aí eu comecei a
estudar um pouco mais sobre esses
primeiros cristãos, sobre esse período,
né, esses primeiros séculos da igreja
que nós chamamos de igreja primitiva,
não com esse olhar assim meio
saudosista, meio meio inocente de ah,
eles eram perfeitos, né? Porque às vezes
a gente olha lá os resumos da igreja no
livro de Atos e a gente fala: "Meu Deus,
nossa, eles são incríveis. Eh, nunca a
gente vai conseguir ser assim". as
próprias cartas do Novo Testamento são
um exemplo de que eles tinham problemas
também para resolver. E parte desses
problemas fazia parte justamente desse
encontro de culturas. Você tem pessoas
que eh tem toda uma história, né, da
salvação a partir do Deus de Israel, que
tem uma ética também pautada nessa
história, nessa Bíblia, né, o Antigo
Testamento. E de repente você tem
pessoas que fazem parte desse mundo de
muitos deuses, eh, com hábitos e uma
forma de enxergar o mundo bastante
diferente, que são os gentius. E agora
tá todo mundo junto dentro da igreja.
Então, como que a gente vai lidar com
essas coisas? Boa parte dos problemas
que nós vemos nas cartas vem justamente
disso.
E, portanto, eu quero falar um
pouquinho, né, a respeito disso, eh,
justamente pra gente pensar, eh, em nós
hoje como igreja, ah, porque a palavra
cristão pode significar muita coisa hoje
também. E eu acho que o grande foco de
nós olharmos pro passado é a gente poder
repensar o nosso presente, aquilo que
nós estamos fazendo. Então, na palestra
anterior, a gente viu como os cristãos
eram estranhos, até mesmo perigosos por
perturbarem essa paz,
eh, pela sua fé, pela sua forma de se
relacionar com Deus, pela sua forma de
viver que parecia incompatível com os
valores do mundo greco-romano.
E aí eu quero responder essa pergunta de
por então as pessoas continuaram se
tornando cristãs se não parecia algo
vantajoso,
não parecia algo que te traria status ou
honra, né? Como nós vimos ali aquela
pichação ali de Jesus, então não tava te
trazendo status nenhum. E era uma
sociedade totalmente pautada eh em
status, em honra, em ter glória. Então,
as pessoas se preocupavam com isso,
porque alguém se tornaria cristão. E aí
eu quero responder isso com algumas
outras vozes além do Nidia Gupta. Então,
a minha fala vai tá muito pautada em
observações eh de outros teólogos
também, ah, como Larry Hurtado, que é um
estudioso da igreja primitiva, como
também do historiador de historiadores
cristãos e de sociólogos cristãos. Então
eu quero entender um pouquinho desse
mundo e a gente poder pensar nisso. E aí
um desses autores, ele diz o seguinte:
"Ninguém era obrigado a se tornar
cristão.
Não havia poder político, não havia
exército, não havia privilégio social,
não havia benefício econômico.
Pelo contrário, você estava sujeito a
preconceito, perseguição. muitas vezes
você se tornaria separado ali da tua
família, inclusive do teu círculo
comercial, uma vez que, como nós vimos,
não havia essa distinção da religião
para a vida comum. Então, por exemplo,
uma associação comercial era ali parte
de de da do funcionamento dela você ter
jantares aonde eh havia também adoração
aos deuses. Então, tava tudo muito
conectado.
De repente você não pode mais participar
de nenhuma dessas coisas. Logo, havia
custos reais para você ser um cristão e
mesmo assim a igreja cresceu. E o que
que havia então de tão atraente? nessas
comunidades.
E aí o sociólogo Rogne Stark, ele
observou que existem alguns distintivos
de movimentos religiosos que são
duradouros.
Eles precisam manter continuidade
suficiente com a cultura para serem
compreendidos.
Então são duas coisas: manter
continuidade suficiente com a cultura
para serem compreendidos. Ou seja, é
estranho, mas também não tanto.
E também manter uma tensão suficiente
com essa cultura a ponto de serem
percebidos como diferentes, ou seja,
também não são iguais. Então, tem que
ter ali um equilíbrio.
E aí, eh, ou seja, a gente pode resumir
essa ideia da seguinte forma: haver uma
diferença clara entre pertencer ao
grupo, entre ser cristão e estar fora
dele. E os cristãos conseguiram
exatamente isso. Eles conseguiram deixar
essa distinção bem clara. Eles falavam a
mesma língua dos seus vizinhos. Eles
viviam nas mesmas cidades, trabalhavam,
casavam, criavam seus filhos, seguiam as
mesmas leis, mas também eram claramente
diferentes. E essas diferenças é o que
os tornava então atraentes, é o que
fazia com que as pessoas se tornassem
cristãs. E ao ler então o texto do NJ,
né, o livro que o Bibo falou e outros
materiais, eu quero focar em quatro
aspectos e a gente vai recorrer a alguns
textos da igreja antiga também.
Esse esses quatro aspectos são uma nova
identidade, uma nova família, uma nova
forma de viver e uma nova esperança.
Então, quando nós falamos de uma nova
identidade, uma das coisas mais
importantes, né, do cristianismo é
justamente essa compreensão a partir de
Deus e essa identidade que o cristão tem
pautada a partir de Deus. Por exemplo, a
nossa identidade está muito relacionada
com o nosso evento do batismo. Paulo,
ele vai trabalhar muito a questão do
batismo em Gálatas, Romanos e outras
cartas. E ele vai dizer: "Já não sou eh
eh
fomos crucificados com Cristo, né? e
também renascemos com Cristo. Então, em
Cristo está a nossa identidade. A partir
do momento que somos batizados, nós
temos essa nova identidade.
E aí no mundo greco-romano, como nós
vimos, as pessoas acreditavam em muitos
deuses, não havia essa relação pessoal.
Ninguém achava que o Zeus ou qualquer
outro deus do Olimpo estava ali
realmente preocupado com a vida deles. E
principalmente
os deuses apresentavam, não sei quantos
de vocês já leram Mitologia grega ou
assistiram filmes ou desenhos ou coisas
que falam sobre mitologia grega. Ah, são
deuses bem humanos, vamos assim dizer.
Eles mentem, eles são falhos, eles
traem, eles se iram, eles tramam uns
contra os outros, são invejosos, são
maliciosos.
E o nosso Deus, obviamente é muito
diferente de tudo isso. Então, o
cristianismo, ele anunciava algo
profundamente radical nesse sentido. Um
Deus que ama as pessoas, um Deus que
conhece as pessoas e de fato se importa
com elas.
E um Deus que não somente tá lá de longe
observando lá no Olimpo, no céu, na
morada dos deuses, seja lá onde for, mas
ele entra na nossa história, ele assume
a humanidade a partir de Jesus. Então,
de repente você tem Deus se tornando
homem e vivendo uma vida comum de um ser
humano, passando por todas as nossas
dificuldades, experimentando as nossas
dores, vivendo como nós vivemos e
entendendo de fato a nossa jornada.
Então, tudo isso já é muito diferente e,
portanto, a identidade das pessoas que
no império romano era determinado
principalmente por posição social,
eh, por família, por etnia, por
cidadania tal da cidadania romana, né,
que era tão importante que Paulo tinha a
cidadania romana, eh, e que te tornava
muito melhor, por exemplo, do que um
escravo naquela época numa sociedade que
tinha uma uma que era na verdade movida,
a economia era movida a escravidão, né?
Então você tinha uma quantidade enorme
de escravos ali. Então todas essas
coisas pautam a identidade. Mas para o
cristão, a identidade deles era
simplesmente estar em Cristo. E aí eu
quero colocar um texto para vocês e eu
vou colocar alguns trechos de textos
ã dos do cristianismo dos três primeiros
séculos. que é o primeiro slide que eu
pedi pro Bibar aí.
Isso, a carta deo.
Esse documento é uma carta de um cristão
a um tal de Diognetto, fazendo uma
defesa do cristianismo, falando sobre o
o diferencial dos cristãos.
E ele vai dizer o seguinte, o documento
do segundo século: "Os cristãos vivem na
sua pátria, mas como se fossem
forasteiros.
participam de tudo como cristãos e
suportam tudo como estrangeiros. Toda
pátria estrangeira é sua pátria e cada
pátria é para eles estrangeira. Casam-se
como todos e geram filhos, mas não
abandonam os recém-nascidos.
Compartilham a mesa, mas não o leito.
Vivem na carne, mas não vivem segundo a
carne. Moram na terra, mas tem sua
cidadania no céu. Obedecem as leis
estabelecidas, mas com sua vida superam
todas as leis, amam a todos e são
perseguidos por todos.
Isso aí já dá uma dica pra gente de como
esses primeiros cristãos viviam e de
como eles eram diferentes. E existem
algumas críticas aqui também ao modo de
vida romano. E aqui vale a pena a gente
fazer um disclaimer, tá? Não é que o
império romano parecia o inferno na
terra.
Provavelmente, se nós fôssemos cidadãos
romanos, nós acharíamos muito normal
viver naquele lugar, assim como hoje a
gente acha muito normal viver no nosso
tempo, na nossa cultura, com os nossos
valores, ainda que a gente saiba que
existem coisas boas e coisas muito ruins
também na nossa sociedade. Era a mesma
coisa no Império Romano, não era assim,
o inferno na terra, nem todo mundo era
horrível. As pessoas mais comuns, vamos
dizer o povo mesmo, eram pessoas
simplesmente tentando sobreviver e criar
sua família, mas havia ali uma elite,
existiam alguns valores que eram um
pouco estranhos.
E aí a gente tem uma descrição aqui de
alguns detalhes. O Bibo falou, por
exemplo, de igualdade, né? Igualdade,
por exemplo, entre homens e mulheres,
entre livres escravos. Esse texto já dá
alguma ideia pra gente de algumas dessas
coisas que aconteciam
quando ele diz, por exemplo, casam-se
como todos e geram filhos, mas não
abandonam os recém-nascidos.
Aqui ele está se referindo a uma prática
eh muito comum naquela época que era o
abandono de crianças.
Então, quando nascia o bebê, o pá ter
família, que era o chefe da casa, ele
poderia escolher
acolher aquele bebê como filho ou não.
Se não fosse acolhido, ele era
descartado em algum ponto da cidade, uma
espécie de lixão.
E isso a acabava levando essa criança
para, se ela fosse encontrada, se ela
não morresse, alguém a adotaria, mas
principalmente para se tornar escrava
ou até mesmo exploração sexual.
E essa realidade, ela pesava ainda mais
em cima das mulheres.
Então tem até uma carta muito conhecida
do mundo antigo que tem um um marido
viajando, um soldado, e ele manda a
carta pra esposa dele que está grávida.
Ele diz: "Quando nascer, se for menino,
você mantém, se for menina, você
descarta."
E o historiador Rodne Stark, ele vai
dizer que justamente isso era um
diferencial também do cristianismo que
inclusive atraía mulheres.
Hoje a gente sabe, por exemplo, pelo
senso que as mulheres são a maioria na
igreja.
Isso sempre foi assim, inclusive no
Império Romano, mesmo com uma população
masculina maior, por conta justamente eh
de mortalidade materna durante o parto,
que era um momento extremamente delicado
na vida da mulher, ah, sem os recursos
que a gente tem hoje, por conta também
dessa questão do abandono dos bebês,
mas havia algo ali que atraía as
mulheres pra religião cristã.
Um outro ponto interessante, né?
Compartilham a mesa, mas não o leito,
porque existiam algumas práticas que
eram socialmente aceitas e que não são
assim muito ortodoxas para nós hoje. Mas
havia essa diferenciação. Então, por
exemplo, mulheres, o que era exigido de
uma mulher, uma esposa? castidade ao
marido, uma vez que era dela que vinha a
próle, não existia teste de DNA. Então,
quanto mais casta a mulher, né, quanto
mais fiel ela fosse, mais dentro de
casa, mais correta, mais reservada, ela
estaria preservando, né, a honra do
marido. Já para o marido não tinha
restrição, não. Ele poderia
dormir com outras mulheres, prostitutas,
por exemplo, ou até mesmo suas escravas,
o que era uma prática comum.
E aí a gente percebe o quão Paulo está
sendo contracultural quando ele vai
colocar a a relação de mutualidade entre
marido e mulher. Porque a mulher ser
fiel ao marido, isso já era esperado.
Mas o homem ser fiel à esposa
torna-se novo aí nesse ambiente. Então
aqui a gente já começa a perceber
algumas diferenças eh entre os cristãos.
E eu gosto muito dessa carta a Diogneta,
eu acho uma inscrição extraordinária
de pessoas que vivem no mundo, que não
se comportam como alienígenas, não são
um bando de esquisitos. E muitas vezes
os cristãos, né, os crentes, como nós
gostamos de chamar, às vezes a gente
precisa admitir, e aqui eu tô falando de
uma forma geral, obviamente, que às
vezes a gente é esquisito.
E aqui não é ser esquisito,
é ser diferente. Ser diferente num bom
sentido, ser contracultural dentro
daquilo que é uma ética cristã. E nisso
eles tinham, eles viviam no mundo, mas
eles tinham consciência de que eram
cidadãos
do reino. A cidadania deles estava em
outro lugar. Eles participavam da
sociedade, mas eles não eram definidos
pelas regras da sociedade. E, portanto,
essa, portanto, essa nova identidade
trazia para eles liberdade, propósito e
esperança.
Mas há um ponto aqui que o Bibo comentou
também, que é uma nova família, que é um
dos temas centrais que o Nid trabalha no
livro dele. E talvez uma das coisas mais
estranhas para os de fora é justamente o
fato dos cristãos se chamarem de irmãos.
E eu sei que isso é meio que jargão hoje
em dia para nós. Oi irmão, tudo bem? Paz
do Senhor, irmão. A gente fala isso com
muita naturalidade.
Mas para aqueles cristãos
era algo forte, tinha um peso social
realmente nessas palavras. dizer que o
outro, né, que o meu colega aqui do lado
era o meu irmão, não era simplesmente
uma convenção social. De fato, as
pessoas entendiam uns aos outros como
irmãos. Todos parte da grande família de
Deus, cuja entrada se dá por meio de
Cristo. E Deus, então, esse grande páter
famílias, né, que cuida de todos, onde
todos são iguais. uma família com um só
pai, muitos filhos que são irmãos e
irmãs, a casa de Deus. E isso, como eu
disse, não era apenas linguagem
religiosa, para eles era uma realidade
social. E quando a gente observa, por
exemplo, o livro de Atos, a gente vai
ver eh as pessoas de fato vivendo essa
irmandade. E também veremos nas cartas
as dificuldades que as pessoas tinham
para viver essa irmandade também,
especialmente quando esbarrava naquelas
hierarquias,
né? A igualdade, como o Bibo falou, era
perigosa.
Existia uma hierarquia, uma ordem de
funcionamento do mundo que vinha lá dos
deuses, passava pelo César, chegava no
Páter Famílias, que era o líder da casa,
e se aplicava a todo mundo que estava
ali abaixo dele. E mexer com essa
estrutura era perigoso.
E esses conflitos começam a acontecer
dentro da igreja. Quando, por exemplo,
você vê Paulo eh falando sobre a ceia lá
em primeiro aos Coríntios, você tá vendo
ali rico que tá tendo problema de comer
junto com os mais pobres,
porque não acontecia isso na sociedade
deles. Isso era estratificado.
E de repente agora a gente é uma mesma
família e essas diferenças vão ter que
ser superadas. E Paulo está lidando com
várias dessas diferenças entre judeus e
gentius, homens e mulheres, escravos e
livres. ricos e pobres. Agora, de
repente, a gente tem um mesmo povo, todo
mundo reunido ao redor de uma mesma
mesa,
num mundo que era profundamente
hierarquizado.
Isso é totalmente revolucionário.
Então, não pense que isso era pouca
coisa.
Esse amor cristão não era só um
sentimento,
aquele famoso, né, jargão de de culto,
né, que o pastor olha, olha pro teu
irmão do lado, diz que você ama ele.
Esse amor era demonstrado na prática.
Cuidado, hospitalidade,
solidariedade,
né? O cristianismo ele fortalecia essa
ideia de uma nova família.
Mas também havia algo que atraía as
pessoas, que era essa nova forma de
viver.
Porque os cristãos não ofereciam apenas
crenças diferentes num mercado repleto
de deuses, de religiões e de crenças.
Eles realmente ofereciam fé que
transformava a vida cotidiana
e transformava a maneira como, por
exemplo, os cristãos lidavam com
dinheiro, com sexualidade,
poder,
relacionamentos nas mais diversas
esferas com os vulneráveis.
E aí eu quero ler um segundo texto com
vocês que é a deaque que tá ali do
segundo slide que é um documento da
igreja, um documento catequético do
primeiro século.
Isso. E diz assim, e essa instrução pra
igreja do primeiro século: "Não mate,
não cometa adultério, não corrompa o
jovens, não fornique, não roube, não
pratique magia, nem feitiçaria, não mate
a criança no seio de sua mãe, nem depois
que ela tenha nascido. Não cobice os
bens alheios. Não cometa falso
juramento, nem preste falso testemunho.
Não seja maldoso, nem vingativo. Não
tenha duplo pensamento ou linguajar.
Pois o duplo sentido é a armadilha
fatal. A sua palavra não deve ser em
vão, mas comprovada na prática. Não seja
avarento, nem ladrão, nem fingido, nem
malicioso, nem soberbo. Não planeja o
mal contra o seu próximo. Não odeia
ninguém, mas corrija alguns. Reze por
outros e ame ainda os outros até mais do
que a si mesmo. Então, a gente tem um
padrão muito elevado. E aqui eu quero
chamar uma atenção para algo muito
interessante. Os primeiros cristãos, os
primeiros três séculos da igreja, eles
escreviam basicamente sobre três coisas:
defesa da fé,
como viver do mundo como cristão, ou
seja, uma ética cristã, uma
espiritualidade e também uma defesa do
cristianismo, uma apologia ao
cristianismo. Então, a gente percebe que
é a a o foco, né, e também uma eh ordens
de culto, né, como se comportar no
culto. Então, basicamente são os três
temas. E aí, no caso, a gente vê um
claro eh eh uma orientação clara sobre a
forma de viver. E aí eu quero chamar a
atenção para alguns temas que também são
sensíveis,
mas que eram normais naquela sociedade.
Então, por exemplo, quando diz: "Dão
mate a criança no seio de sua mãe" e nem
depois que ela tenha nascido, a gente tá
falando de aborto e depois a gente tá
falando do infanticídio, que é a
exposição da criança que eu falei, que é
abandonar o bebê, abandonar o
recém-nascido. Então, os cristãos são os
primeiros a lidarem com isso e,
inclusive, muitos cristãos passam a
adotar aqueles bebezinhos que eram
abandonados.
Os cristãos, eles passam a agir de forma
distinta.
E há outra coisa ainda mais sensível
aqui, especialmente na nossa sociedade,
mas que precisa ser dito. Temas difíceis
também precisam ser falados. Ah, e hoje
a gente tem enfrentado uma grande crise
na área, por exemplo, de abuso de
crianças,
na sociedades como um todo,
infelizmente, até dentro da igreja.
E a gente tem que ser realista quanto a
isso. Ali no segundo, a primeira linha,
quando ele diz: "Não corrompa aos
jovens", a tradução tá bem amenizada,
mas em algumas traduções vai estar como
perversão ou pederastia.
Existia uma prática entre os romanos que
não era
restringida, que não era questionada,
que era de homens mais velhos se
relacionar com jovenzinhos, crianças e
adolescentes.
E os cristãos também são os primeiros a
se posicionar contra isso. Então, quando
a gente tá falando aí dos cristãos, a
gente tá falando de um grupo de pessoas
que, de fato, mesmo que não tenham
levado placas paraa rua, não tenham
feito protestos, não tenham feito, eh,
talvez a gente pense: "poxa, eles
poderiam ter feito mais sobre
escravidão, sobre mulheres, sobre os
marginalizados, mas eles estavam
construindo uma ética a partir de
dentro. O que eles estavam fazendo de
fato era viver de uma forma muito
revolucionária numa sociedade onde
determinadas coisas que nós consideramos
como injustas eram normalizadas.
Portanto, a Didaque nos mostra um
caminho de vida e um caminho de morte e
nos fala que ser cristão não é
simplesmente acreditar em novas ideias,
não é só um conjunto de crenças. E eu
sei que quando a gente fala em fé ou
acreditar em Jesus, a gente pensa muito
mais na ideia de realmente algo
intelectual, né? Ah, eu acredito. Mas
existe uma questão de compromisso, de
imitação,
de discipulado,
de uma ética que nos transforma. E,
portanto, ser cristão significava
aprender uma nova forma de viver na
sociedade.
Os cristãos protegiam as crianças.
valorizavam as mulheres, eram fiéis no
casamento, cultivavam uma uma cultura de
honestidade e amavam o próximo. E isso
era algo muito diferente e as pessoas
percebiam, as pessoas notavam. E aí eu
quero ir para o meu terceiro texto,
porque o grande a grande curiosidade
desse texto, terceiro slide, por favor,
é que ele não é um texto escrito eh pode
ir pro quarto, perdão, tá fora de Isso.
Perfeito, depois eu volto. É que esse
texto ele não é de um cristão,
mas ele é de um não cristão falando
sobre os cristãos. Esse é um trecho da
carta de Plínio ao imperador Trajano. E
olha o que ele diz sobre os cristãos,
né? Sobre ele estava ali investigando os
cristãos, tentando entender qual que era
desse grupo estranho aí. E aí ele vai
dizer o seguinte, que eles se reuniam
regularmente antes do amanhecer e um dia
fixo para cantar versos alternadamente
entre si em honra de Cristo, como se
fosse um Deus. e também para se
comprometerem por juramento para não
para qualquer propósito criminoso, mas
para se abster de furto, roubo,
adultério, para não cometer quebra de
confiança e não negar um depósito quando
convocado a restituí-lo.
Então, havia esse diferencial nos
cristãos, né, dessa ética que eles
buscavam viver e até mesmo os não
cristãos conseguem atestar isso pra
gente, né? Isso é um observador externo
falando sobre eles, né? aquilo que ele
descobriu sobre os cristãos e aquilo que
era para ser um uma investigação para
achar defeito neles acaba trazendo para
nós um testemunho de integridade daquela
primeira comunidade.
Portanto, esses ideais que nós vemos nos
textos, como naqu, por exemplo, a gente
sabe que alguns dos nossos irmãos
estavam conseguindo viver isso na
prática.
E por fim, eu quero falar sobre uma nova
esperança.
Algo que os cristãos consideravam
absurdo era a ideia de uma ressurreição.
Ninguém estava muito preocupado com a
vida após a morte.
E basicamente os cultos aos deuses
também não estavam preocupados em
fornecer respostas para isso. Uma ideia
de ressurreição, por exemplo, não era
algo com que alguém se preocupava,
mas isso se torna o cerne do
cristianismo.
Se existe algo que marca os cristãos, é
a crença em que Jesus ressuscitou e de
que com ele e nele nós também vamos
ressuscitar. E isso cria para nós uma
nova forma de encarar a morte, mas
também de encarar a própria vida.
Isso gera em nós uma esperança, uma
forma diferente de lidar com sofrimento,
perseguições, perdas, porque a fé cristã
não era baseado nas circunstâncias, no
status, mas estava baseada em Cristo.
E um desses historiadores que eu citei,
o Alan Crader, ele tem um livro todo
falando sobre uma característica, uma
virtude que os primeiros cristãos
possuíam e que vários dos pais da igreja
escreviam sobre isso, que é a paciência,
a capacidade que os cristãos tinham de
viver nesse ambiente, onde muitas vezes
eram hostilizados,
onde muitas vezes eram perseguidos e de
permanecer firmes.
e muitas vezes até mesmo orando por
aqueles que os perseguiam. Então a
paciência, ele vai dizer, era o grande
fermento que fazia a igreja crescer
também. E aí eu vou pedir para você
voltar o último slide, que na verdade é
o terceiro. Cipriano de Cartago, século
II.
>> [suspirando]
>> Quando a gente fala de uma religião que
exige uma ética, que exige uma forma de
vida, isso no mundo romano se parecia
muito mais com a filosofia, uma vez que
os deuses não estavam preocupados com
isso. Quem discutia sobre virtude, sobre
forma de viver, moralidade, eram os
filósofos. E aí dentro desse pensamento,
Cipriano de Cártogo, ele diz: "Somos
filósofos, não em palavras, mas em
ações.
Demonstramos nossa sabedoria não por
nossas vestes, mas pela verdade.
Conhecemos as virtudes pela sua prática
e não por nos vangloriarmos dela.
Não falamos grandes coisas, nós as
vivemos."
E eu acho essa frase muito marcante,
essa fala do Cipriano de Cartago, porque
de fato, né, o amor, a paciência, essa
resiliência dos cristãos em meio a toda
dificuldade, não respondendo com
violência, não respondendo com
desespero, mas mantendo uma postura de
esperança, era o que mantinha o
cristianismo em meio ao Império Romano,
era o que os tornava mais fortes.
Ainda que fossem enxergados como fracos,
como aqueles que não têm nada para
oferecer.
E como diz o NJ, os primeiros cristãos
procuravam reunir uma comunidade
virtuosa e amorosa de mutualidade,
honra e bondade. Sabemos que eles não
eram perfeitos, mas em seus melhores
momentos o que nós vemos é uma bela
família de fé.
Concluindo, então, o que tornava esse
cristianismo atraente.
Para alguns era uma questão de doutrina,
de organização, para alguns
historiadores, né? Ah, paraa ideia de
uma vida eterna, de monoteísmo. Talvez
isso tenha atraído as pessoas, mas é
claro que tudo isso tem sua importância,
mas não acho que o cerne disso seja seja
exatamente isso o cerne, né? Tudo isso
seja exatamente a resposta.
A grande questão é que no primeiro
século as pessoas não encontravam Jesus
por meio de um livro, por meio de
sermões ou por meio de uma instituição,
mas elas encontravam Jesus
no meio de uma comunidade.
Essa comunidade era cativante.
Essas pessoas estranhamente normais, que
não tinham nada para oferecer, segundo
aos olhos dos romanos, eram cativantes.
E talvez esse seja o grande segredo do
crescimento do cristianismo. Uma nova
identidade, uma nova família, uma nova
forma de viver, uma nova esperança.
Tudo isso visível por meio de um o
evangelho encarnado na comunidade. Como
disse Cipriano, não falamos grandes
coisas, nós as vivemos. [roncando]
Eu acho que isso fica como uma boa
reflexão pra gente pensar na igreja
hoje. Obrigado, irmãos.
Ah.

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