POR QUE OS CRISTÃOS ERAM TÃO CATIVANTES? I Cynthia Muniz I Palestra Café Teológico 2026
09/07/2026
POR QUE OS CRISTÃOS ERAM TÃO CATIVANTES? I Cynthia Muniz I Palestra Café Teológico 2026
Palestra de Cynthia Muniz em Joinville/SC sobre os primeiros cristãos no Café Teológico na MEUC Joinville.
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Fonte: Bibotalk
Legendas automáticas:
[música] Estou muito feliz de estar aqui com vocês para falar de um tema que eu gosto bastante. Eh, feliz também, né, por ter algumas pessoas conhecidas aqui. E vou continuar então a partir da onde o Bibo falou. E eu quero falar um pouquinho sobre o que tornavam então os cristãos cativantes. Estranhos eles eram e até considerados subversivos e perigosos. Mas por que que tantas pessoas então eram atraídas ao cristianismo? E eu quero trazer um pouco desde quando eu comecei a estudar um pouco mais sobre a igreja. Eh, isso tem muito a ver com o meu processo de de conversão, vamos dizer assim. Eu queria entender o que significava ser cristão. E eu não sei se você já parou para pensar o que significa ser cristão, né? como a gente descreve o que o cristianismo hoje dentro da sociedade? A gente viu que, por exemplo, no império romano, ser cristão era algo muito estranho. Hoje nós já estamos num mundo bastante cristianizado, que ainda que as pessoas não se declarem cristãs, é impossível negar a influência que os cristãos tiveram na história até hoje. Então, eu sempre me perguntei, né, o o qual era a motivação do por alguém se tornava cristão. E aí eu comecei a estudar um pouco mais sobre esses primeiros cristãos, sobre esse período, né, esses primeiros séculos da igreja que nós chamamos de igreja primitiva, não com esse olhar assim meio saudosista, meio meio inocente de ah, eles eram perfeitos, né? Porque às vezes a gente olha lá os resumos da igreja no livro de Atos e a gente fala: "Meu Deus, nossa, eles são incríveis. Eh, nunca a gente vai conseguir ser assim". as próprias cartas do Novo Testamento são um exemplo de que eles tinham problemas também para resolver. E parte desses problemas fazia parte justamente desse encontro de culturas. Você tem pessoas que eh tem toda uma história, né, da salvação a partir do Deus de Israel, que tem uma ética também pautada nessa história, nessa Bíblia, né, o Antigo Testamento. E de repente você tem pessoas que fazem parte desse mundo de muitos deuses, eh, com hábitos e uma forma de enxergar o mundo bastante diferente, que são os gentius. E agora tá todo mundo junto dentro da igreja. Então, como que a gente vai lidar com essas coisas? Boa parte dos problemas que nós vemos nas cartas vem justamente disso. E, portanto, eu quero falar um pouquinho, né, a respeito disso, eh, justamente pra gente pensar, eh, em nós hoje como igreja, ah, porque a palavra cristão pode significar muita coisa hoje também. E eu acho que o grande foco de nós olharmos pro passado é a gente poder repensar o nosso presente, aquilo que nós estamos fazendo. Então, na palestra anterior, a gente viu como os cristãos eram estranhos, até mesmo perigosos por perturbarem essa paz, eh, pela sua fé, pela sua forma de se relacionar com Deus, pela sua forma de viver que parecia incompatível com os valores do mundo greco-romano. E aí eu quero responder essa pergunta de por então as pessoas continuaram se tornando cristãs se não parecia algo vantajoso, não parecia algo que te traria status ou honra, né? Como nós vimos ali aquela pichação ali de Jesus, então não tava te trazendo status nenhum. E era uma sociedade totalmente pautada eh em status, em honra, em ter glória. Então, as pessoas se preocupavam com isso, porque alguém se tornaria cristão. E aí eu quero responder isso com algumas outras vozes além do Nidia Gupta. Então, a minha fala vai tá muito pautada em observações eh de outros teólogos também, ah, como Larry Hurtado, que é um estudioso da igreja primitiva, como também do historiador de historiadores cristãos e de sociólogos cristãos. Então eu quero entender um pouquinho desse mundo e a gente poder pensar nisso. E aí um desses autores, ele diz o seguinte: "Ninguém era obrigado a se tornar cristão. Não havia poder político, não havia exército, não havia privilégio social, não havia benefício econômico. Pelo contrário, você estava sujeito a preconceito, perseguição. muitas vezes você se tornaria separado ali da tua família, inclusive do teu círculo comercial, uma vez que, como nós vimos, não havia essa distinção da religião para a vida comum. Então, por exemplo, uma associação comercial era ali parte de de da do funcionamento dela você ter jantares aonde eh havia também adoração aos deuses. Então, tava tudo muito conectado. De repente você não pode mais participar de nenhuma dessas coisas. Logo, havia custos reais para você ser um cristão e mesmo assim a igreja cresceu. E o que que havia então de tão atraente? nessas comunidades. E aí o sociólogo Rogne Stark, ele observou que existem alguns distintivos de movimentos religiosos que são duradouros. Eles precisam manter continuidade suficiente com a cultura para serem compreendidos. Então são duas coisas: manter continuidade suficiente com a cultura para serem compreendidos. Ou seja, é estranho, mas também não tanto. E também manter uma tensão suficiente com essa cultura a ponto de serem percebidos como diferentes, ou seja, também não são iguais. Então, tem que ter ali um equilíbrio. E aí, eh, ou seja, a gente pode resumir essa ideia da seguinte forma: haver uma diferença clara entre pertencer ao grupo, entre ser cristão e estar fora dele. E os cristãos conseguiram exatamente isso. Eles conseguiram deixar essa distinção bem clara. Eles falavam a mesma língua dos seus vizinhos. Eles viviam nas mesmas cidades, trabalhavam, casavam, criavam seus filhos, seguiam as mesmas leis, mas também eram claramente diferentes. E essas diferenças é o que os tornava então atraentes, é o que fazia com que as pessoas se tornassem cristãs. E ao ler então o texto do NJ, né, o livro que o Bibo falou e outros materiais, eu quero focar em quatro aspectos e a gente vai recorrer a alguns textos da igreja antiga também. Esse esses quatro aspectos são uma nova identidade, uma nova família, uma nova forma de viver e uma nova esperança. Então, quando nós falamos de uma nova identidade, uma das coisas mais importantes, né, do cristianismo é justamente essa compreensão a partir de Deus e essa identidade que o cristão tem pautada a partir de Deus. Por exemplo, a nossa identidade está muito relacionada com o nosso evento do batismo. Paulo, ele vai trabalhar muito a questão do batismo em Gálatas, Romanos e outras cartas. E ele vai dizer: "Já não sou eh eh fomos crucificados com Cristo, né? e também renascemos com Cristo. Então, em Cristo está a nossa identidade. A partir do momento que somos batizados, nós temos essa nova identidade. E aí no mundo greco-romano, como nós vimos, as pessoas acreditavam em muitos deuses, não havia essa relação pessoal. Ninguém achava que o Zeus ou qualquer outro deus do Olimpo estava ali realmente preocupado com a vida deles. E principalmente os deuses apresentavam, não sei quantos de vocês já leram Mitologia grega ou assistiram filmes ou desenhos ou coisas que falam sobre mitologia grega. Ah, são deuses bem humanos, vamos assim dizer. Eles mentem, eles são falhos, eles traem, eles se iram, eles tramam uns contra os outros, são invejosos, são maliciosos. E o nosso Deus, obviamente é muito diferente de tudo isso. Então, o cristianismo, ele anunciava algo profundamente radical nesse sentido. Um Deus que ama as pessoas, um Deus que conhece as pessoas e de fato se importa com elas. E um Deus que não somente tá lá de longe observando lá no Olimpo, no céu, na morada dos deuses, seja lá onde for, mas ele entra na nossa história, ele assume a humanidade a partir de Jesus. Então, de repente você tem Deus se tornando homem e vivendo uma vida comum de um ser humano, passando por todas as nossas dificuldades, experimentando as nossas dores, vivendo como nós vivemos e entendendo de fato a nossa jornada. Então, tudo isso já é muito diferente e, portanto, a identidade das pessoas que no império romano era determinado principalmente por posição social, eh, por família, por etnia, por cidadania tal da cidadania romana, né, que era tão importante que Paulo tinha a cidadania romana, eh, e que te tornava muito melhor, por exemplo, do que um escravo naquela época numa sociedade que tinha uma uma que era na verdade movida, a economia era movida a escravidão, né? Então você tinha uma quantidade enorme de escravos ali. Então todas essas coisas pautam a identidade. Mas para o cristão, a identidade deles era simplesmente estar em Cristo. E aí eu quero colocar um texto para vocês e eu vou colocar alguns trechos de textos ã dos do cristianismo dos três primeiros séculos. que é o primeiro slide que eu pedi pro Bibar aí. Isso, a carta deo. Esse documento é uma carta de um cristão a um tal de Diognetto, fazendo uma defesa do cristianismo, falando sobre o o diferencial dos cristãos. E ele vai dizer o seguinte, o documento do segundo século: "Os cristãos vivem na sua pátria, mas como se fossem forasteiros. participam de tudo como cristãos e suportam tudo como estrangeiros. Toda pátria estrangeira é sua pátria e cada pátria é para eles estrangeira. Casam-se como todos e geram filhos, mas não abandonam os recém-nascidos. Compartilham a mesa, mas não o leito. Vivem na carne, mas não vivem segundo a carne. Moram na terra, mas tem sua cidadania no céu. Obedecem as leis estabelecidas, mas com sua vida superam todas as leis, amam a todos e são perseguidos por todos. Isso aí já dá uma dica pra gente de como esses primeiros cristãos viviam e de como eles eram diferentes. E existem algumas críticas aqui também ao modo de vida romano. E aqui vale a pena a gente fazer um disclaimer, tá? Não é que o império romano parecia o inferno na terra. Provavelmente, se nós fôssemos cidadãos romanos, nós acharíamos muito normal viver naquele lugar, assim como hoje a gente acha muito normal viver no nosso tempo, na nossa cultura, com os nossos valores, ainda que a gente saiba que existem coisas boas e coisas muito ruins também na nossa sociedade. Era a mesma coisa no Império Romano, não era assim, o inferno na terra, nem todo mundo era horrível. As pessoas mais comuns, vamos dizer o povo mesmo, eram pessoas simplesmente tentando sobreviver e criar sua família, mas havia ali uma elite, existiam alguns valores que eram um pouco estranhos. E aí a gente tem uma descrição aqui de alguns detalhes. O Bibo falou, por exemplo, de igualdade, né? Igualdade, por exemplo, entre homens e mulheres, entre livres escravos. Esse texto já dá alguma ideia pra gente de algumas dessas coisas que aconteciam quando ele diz, por exemplo, casam-se como todos e geram filhos, mas não abandonam os recém-nascidos. Aqui ele está se referindo a uma prática eh muito comum naquela época que era o abandono de crianças. Então, quando nascia o bebê, o pá ter família, que era o chefe da casa, ele poderia escolher acolher aquele bebê como filho ou não. Se não fosse acolhido, ele era descartado em algum ponto da cidade, uma espécie de lixão. E isso a acabava levando essa criança para, se ela fosse encontrada, se ela não morresse, alguém a adotaria, mas principalmente para se tornar escrava ou até mesmo exploração sexual. E essa realidade, ela pesava ainda mais em cima das mulheres. Então tem até uma carta muito conhecida do mundo antigo que tem um um marido viajando, um soldado, e ele manda a carta pra esposa dele que está grávida. Ele diz: "Quando nascer, se for menino, você mantém, se for menina, você descarta." E o historiador Rodne Stark, ele vai dizer que justamente isso era um diferencial também do cristianismo que inclusive atraía mulheres. Hoje a gente sabe, por exemplo, pelo senso que as mulheres são a maioria na igreja. Isso sempre foi assim, inclusive no Império Romano, mesmo com uma população masculina maior, por conta justamente eh de mortalidade materna durante o parto, que era um momento extremamente delicado na vida da mulher, ah, sem os recursos que a gente tem hoje, por conta também dessa questão do abandono dos bebês, mas havia algo ali que atraía as mulheres pra religião cristã. Um outro ponto interessante, né? Compartilham a mesa, mas não o leito, porque existiam algumas práticas que eram socialmente aceitas e que não são assim muito ortodoxas para nós hoje. Mas havia essa diferenciação. Então, por exemplo, mulheres, o que era exigido de uma mulher, uma esposa? castidade ao marido, uma vez que era dela que vinha a próle, não existia teste de DNA. Então, quanto mais casta a mulher, né, quanto mais fiel ela fosse, mais dentro de casa, mais correta, mais reservada, ela estaria preservando, né, a honra do marido. Já para o marido não tinha restrição, não. Ele poderia dormir com outras mulheres, prostitutas, por exemplo, ou até mesmo suas escravas, o que era uma prática comum. E aí a gente percebe o quão Paulo está sendo contracultural quando ele vai colocar a a relação de mutualidade entre marido e mulher. Porque a mulher ser fiel ao marido, isso já era esperado. Mas o homem ser fiel à esposa torna-se novo aí nesse ambiente. Então aqui a gente já começa a perceber algumas diferenças eh entre os cristãos. E eu gosto muito dessa carta a Diogneta, eu acho uma inscrição extraordinária de pessoas que vivem no mundo, que não se comportam como alienígenas, não são um bando de esquisitos. E muitas vezes os cristãos, né, os crentes, como nós gostamos de chamar, às vezes a gente precisa admitir, e aqui eu tô falando de uma forma geral, obviamente, que às vezes a gente é esquisito. E aqui não é ser esquisito, é ser diferente. Ser diferente num bom sentido, ser contracultural dentro daquilo que é uma ética cristã. E nisso eles tinham, eles viviam no mundo, mas eles tinham consciência de que eram cidadãos do reino. A cidadania deles estava em outro lugar. Eles participavam da sociedade, mas eles não eram definidos pelas regras da sociedade. E, portanto, essa, portanto, essa nova identidade trazia para eles liberdade, propósito e esperança. Mas há um ponto aqui que o Bibo comentou também, que é uma nova família, que é um dos temas centrais que o Nid trabalha no livro dele. E talvez uma das coisas mais estranhas para os de fora é justamente o fato dos cristãos se chamarem de irmãos. E eu sei que isso é meio que jargão hoje em dia para nós. Oi irmão, tudo bem? Paz do Senhor, irmão. A gente fala isso com muita naturalidade. Mas para aqueles cristãos era algo forte, tinha um peso social realmente nessas palavras. dizer que o outro, né, que o meu colega aqui do lado era o meu irmão, não era simplesmente uma convenção social. De fato, as pessoas entendiam uns aos outros como irmãos. Todos parte da grande família de Deus, cuja entrada se dá por meio de Cristo. E Deus, então, esse grande páter famílias, né, que cuida de todos, onde todos são iguais. uma família com um só pai, muitos filhos que são irmãos e irmãs, a casa de Deus. E isso, como eu disse, não era apenas linguagem religiosa, para eles era uma realidade social. E quando a gente observa, por exemplo, o livro de Atos, a gente vai ver eh as pessoas de fato vivendo essa irmandade. E também veremos nas cartas as dificuldades que as pessoas tinham para viver essa irmandade também, especialmente quando esbarrava naquelas hierarquias, né? A igualdade, como o Bibo falou, era perigosa. Existia uma hierarquia, uma ordem de funcionamento do mundo que vinha lá dos deuses, passava pelo César, chegava no Páter Famílias, que era o líder da casa, e se aplicava a todo mundo que estava ali abaixo dele. E mexer com essa estrutura era perigoso. E esses conflitos começam a acontecer dentro da igreja. Quando, por exemplo, você vê Paulo eh falando sobre a ceia lá em primeiro aos Coríntios, você tá vendo ali rico que tá tendo problema de comer junto com os mais pobres, porque não acontecia isso na sociedade deles. Isso era estratificado. E de repente agora a gente é uma mesma família e essas diferenças vão ter que ser superadas. E Paulo está lidando com várias dessas diferenças entre judeus e gentius, homens e mulheres, escravos e livres. ricos e pobres. Agora, de repente, a gente tem um mesmo povo, todo mundo reunido ao redor de uma mesma mesa, num mundo que era profundamente hierarquizado. Isso é totalmente revolucionário. Então, não pense que isso era pouca coisa. Esse amor cristão não era só um sentimento, aquele famoso, né, jargão de de culto, né, que o pastor olha, olha pro teu irmão do lado, diz que você ama ele. Esse amor era demonstrado na prática. Cuidado, hospitalidade, solidariedade, né? O cristianismo ele fortalecia essa ideia de uma nova família. Mas também havia algo que atraía as pessoas, que era essa nova forma de viver. Porque os cristãos não ofereciam apenas crenças diferentes num mercado repleto de deuses, de religiões e de crenças. Eles realmente ofereciam fé que transformava a vida cotidiana e transformava a maneira como, por exemplo, os cristãos lidavam com dinheiro, com sexualidade, poder, relacionamentos nas mais diversas esferas com os vulneráveis. E aí eu quero ler um segundo texto com vocês que é a deaque que tá ali do segundo slide que é um documento da igreja, um documento catequético do primeiro século. Isso. E diz assim, e essa instrução pra igreja do primeiro século: "Não mate, não cometa adultério, não corrompa o jovens, não fornique, não roube, não pratique magia, nem feitiçaria, não mate a criança no seio de sua mãe, nem depois que ela tenha nascido. Não cobice os bens alheios. Não cometa falso juramento, nem preste falso testemunho. Não seja maldoso, nem vingativo. Não tenha duplo pensamento ou linguajar. Pois o duplo sentido é a armadilha fatal. A sua palavra não deve ser em vão, mas comprovada na prática. Não seja avarento, nem ladrão, nem fingido, nem malicioso, nem soberbo. Não planeja o mal contra o seu próximo. Não odeia ninguém, mas corrija alguns. Reze por outros e ame ainda os outros até mais do que a si mesmo. Então, a gente tem um padrão muito elevado. E aqui eu quero chamar uma atenção para algo muito interessante. Os primeiros cristãos, os primeiros três séculos da igreja, eles escreviam basicamente sobre três coisas: defesa da fé, como viver do mundo como cristão, ou seja, uma ética cristã, uma espiritualidade e também uma defesa do cristianismo, uma apologia ao cristianismo. Então, a gente percebe que é a a o foco, né, e também uma eh ordens de culto, né, como se comportar no culto. Então, basicamente são os três temas. E aí, no caso, a gente vê um claro eh eh uma orientação clara sobre a forma de viver. E aí eu quero chamar a atenção para alguns temas que também são sensíveis, mas que eram normais naquela sociedade. Então, por exemplo, quando diz: "Dão mate a criança no seio de sua mãe" e nem depois que ela tenha nascido, a gente tá falando de aborto e depois a gente tá falando do infanticídio, que é a exposição da criança que eu falei, que é abandonar o bebê, abandonar o recém-nascido. Então, os cristãos são os primeiros a lidarem com isso e, inclusive, muitos cristãos passam a adotar aqueles bebezinhos que eram abandonados. Os cristãos, eles passam a agir de forma distinta. E há outra coisa ainda mais sensível aqui, especialmente na nossa sociedade, mas que precisa ser dito. Temas difíceis também precisam ser falados. Ah, e hoje a gente tem enfrentado uma grande crise na área, por exemplo, de abuso de crianças, na sociedades como um todo, infelizmente, até dentro da igreja. E a gente tem que ser realista quanto a isso. Ali no segundo, a primeira linha, quando ele diz: "Não corrompa aos jovens", a tradução tá bem amenizada, mas em algumas traduções vai estar como perversão ou pederastia. Existia uma prática entre os romanos que não era restringida, que não era questionada, que era de homens mais velhos se relacionar com jovenzinhos, crianças e adolescentes. E os cristãos também são os primeiros a se posicionar contra isso. Então, quando a gente tá falando aí dos cristãos, a gente tá falando de um grupo de pessoas que, de fato, mesmo que não tenham levado placas paraa rua, não tenham feito protestos, não tenham feito, eh, talvez a gente pense: "poxa, eles poderiam ter feito mais sobre escravidão, sobre mulheres, sobre os marginalizados, mas eles estavam construindo uma ética a partir de dentro. O que eles estavam fazendo de fato era viver de uma forma muito revolucionária numa sociedade onde determinadas coisas que nós consideramos como injustas eram normalizadas. Portanto, a Didaque nos mostra um caminho de vida e um caminho de morte e nos fala que ser cristão não é simplesmente acreditar em novas ideias, não é só um conjunto de crenças. E eu sei que quando a gente fala em fé ou acreditar em Jesus, a gente pensa muito mais na ideia de realmente algo intelectual, né? Ah, eu acredito. Mas existe uma questão de compromisso, de imitação, de discipulado, de uma ética que nos transforma. E, portanto, ser cristão significava aprender uma nova forma de viver na sociedade. Os cristãos protegiam as crianças. valorizavam as mulheres, eram fiéis no casamento, cultivavam uma uma cultura de honestidade e amavam o próximo. E isso era algo muito diferente e as pessoas percebiam, as pessoas notavam. E aí eu quero ir para o meu terceiro texto, porque o grande a grande curiosidade desse texto, terceiro slide, por favor, é que ele não é um texto escrito eh pode ir pro quarto, perdão, tá fora de Isso. Perfeito, depois eu volto. É que esse texto ele não é de um cristão, mas ele é de um não cristão falando sobre os cristãos. Esse é um trecho da carta de Plínio ao imperador Trajano. E olha o que ele diz sobre os cristãos, né? Sobre ele estava ali investigando os cristãos, tentando entender qual que era desse grupo estranho aí. E aí ele vai dizer o seguinte, que eles se reuniam regularmente antes do amanhecer e um dia fixo para cantar versos alternadamente entre si em honra de Cristo, como se fosse um Deus. e também para se comprometerem por juramento para não para qualquer propósito criminoso, mas para se abster de furto, roubo, adultério, para não cometer quebra de confiança e não negar um depósito quando convocado a restituí-lo. Então, havia esse diferencial nos cristãos, né, dessa ética que eles buscavam viver e até mesmo os não cristãos conseguem atestar isso pra gente, né? Isso é um observador externo falando sobre eles, né? aquilo que ele descobriu sobre os cristãos e aquilo que era para ser um uma investigação para achar defeito neles acaba trazendo para nós um testemunho de integridade daquela primeira comunidade. Portanto, esses ideais que nós vemos nos textos, como naqu, por exemplo, a gente sabe que alguns dos nossos irmãos estavam conseguindo viver isso na prática. E por fim, eu quero falar sobre uma nova esperança. Algo que os cristãos consideravam absurdo era a ideia de uma ressurreição. Ninguém estava muito preocupado com a vida após a morte. E basicamente os cultos aos deuses também não estavam preocupados em fornecer respostas para isso. Uma ideia de ressurreição, por exemplo, não era algo com que alguém se preocupava, mas isso se torna o cerne do cristianismo. Se existe algo que marca os cristãos, é a crença em que Jesus ressuscitou e de que com ele e nele nós também vamos ressuscitar. E isso cria para nós uma nova forma de encarar a morte, mas também de encarar a própria vida. Isso gera em nós uma esperança, uma forma diferente de lidar com sofrimento, perseguições, perdas, porque a fé cristã não era baseado nas circunstâncias, no status, mas estava baseada em Cristo. E um desses historiadores que eu citei, o Alan Crader, ele tem um livro todo falando sobre uma característica, uma virtude que os primeiros cristãos possuíam e que vários dos pais da igreja escreviam sobre isso, que é a paciência, a capacidade que os cristãos tinham de viver nesse ambiente, onde muitas vezes eram hostilizados, onde muitas vezes eram perseguidos e de permanecer firmes. e muitas vezes até mesmo orando por aqueles que os perseguiam. Então a paciência, ele vai dizer, era o grande fermento que fazia a igreja crescer também. E aí eu vou pedir para você voltar o último slide, que na verdade é o terceiro. Cipriano de Cartago, século II. >> [suspirando] >> Quando a gente fala de uma religião que exige uma ética, que exige uma forma de vida, isso no mundo romano se parecia muito mais com a filosofia, uma vez que os deuses não estavam preocupados com isso. Quem discutia sobre virtude, sobre forma de viver, moralidade, eram os filósofos. E aí dentro desse pensamento, Cipriano de Cártogo, ele diz: "Somos filósofos, não em palavras, mas em ações. Demonstramos nossa sabedoria não por nossas vestes, mas pela verdade. Conhecemos as virtudes pela sua prática e não por nos vangloriarmos dela. Não falamos grandes coisas, nós as vivemos." E eu acho essa frase muito marcante, essa fala do Cipriano de Cartago, porque de fato, né, o amor, a paciência, essa resiliência dos cristãos em meio a toda dificuldade, não respondendo com violência, não respondendo com desespero, mas mantendo uma postura de esperança, era o que mantinha o cristianismo em meio ao Império Romano, era o que os tornava mais fortes. Ainda que fossem enxergados como fracos, como aqueles que não têm nada para oferecer. E como diz o NJ, os primeiros cristãos procuravam reunir uma comunidade virtuosa e amorosa de mutualidade, honra e bondade. Sabemos que eles não eram perfeitos, mas em seus melhores momentos o que nós vemos é uma bela família de fé. Concluindo, então, o que tornava esse cristianismo atraente. Para alguns era uma questão de doutrina, de organização, para alguns historiadores, né? Ah, paraa ideia de uma vida eterna, de monoteísmo. Talvez isso tenha atraído as pessoas, mas é claro que tudo isso tem sua importância, mas não acho que o cerne disso seja seja exatamente isso o cerne, né? Tudo isso seja exatamente a resposta. A grande questão é que no primeiro século as pessoas não encontravam Jesus por meio de um livro, por meio de sermões ou por meio de uma instituição, mas elas encontravam Jesus no meio de uma comunidade. Essa comunidade era cativante. Essas pessoas estranhamente normais, que não tinham nada para oferecer, segundo aos olhos dos romanos, eram cativantes. E talvez esse seja o grande segredo do crescimento do cristianismo. Uma nova identidade, uma nova família, uma nova forma de viver, uma nova esperança. Tudo isso visível por meio de um o evangelho encarnado na comunidade. Como disse Cipriano, não falamos grandes coisas, nós as vivemos. [roncando] Eu acho que isso fica como uma boa reflexão pra gente pensar na igreja hoje. Obrigado, irmãos. Ah.