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A fé vem pelo ouvir

UM VÍDEO GIGANTE PARA COMPENSAR AS FÉRIAS DO TULLER

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Legendas automáticas:

Eu [música]
[música]
já publiquei muitas coisas na área de
não ficção. A maioria dos meus livros é
sobre teologia. Para mim é uma é uma é
um momento novo assim poder ao invés de
construir um argumento, uma um fluxo de
ideias para te convencer de alguma
coisa, poder apresentar uma pessoa, né?
poder apresentar alguém e uma história,
montar uma personalidade. Por muitos
anos, nos últimos 10 anos, eu tenho
construído argumentos, não é, nas minhas
obras, poder construir cenários,
personalidades, relações entre
indivíduos e tentar projetar algo do
imaginário de alguém e tentar ensinar
alguma coisa sobre Deus com isso. Uma
coisa muito nova e eu tenho sentido
coisas muito novas que eu não sinto há
muito tempo com esse livrinho, que é o o
gostinho de fazer uma coisa nova assim,
de ficar inseguro com o livro, de ficar
preocupado com a opinião dos outros.
Sabe? Fazia tempo que eu não sentia
isso. [música]
[música]
Eu acredito muito naquilo que o Token
fala sobre qual [roncando] é a função
dos contos de fada. Ele vai dizer que os
contos de fada existem para nos fazer
enxergar melhor a realidade. Ele diz que
quando eu leio sobre dragões, eu não
passo a acreditar que dragões existem.
Eu passo a acreditar que eles podem ser
vencidos. E quando a gente lê uma obra
ficcional, ainda mais uma obra
ficcional, que se propõe trazer uma
mensagem cristã, a gente não sai
convencido de alguma coisa fantástica,
né? A gente sai convencido da das
aplicações disso pra nossa própria
existência. Eu acho que era CS LS que
dizia que quando ele lia sobre dragões,
ele aprendia sobre cavalos, né? Quando
ele lia sobre as coisas que aconteciam
nesse reinos fantásticos, você aprendia
alguma coisa pra sua própria vida
pessoal, seu próprio relacionamento com
Deus. Mas eu sempre fui encantado por
narrativa, né? Eu comecei a ler, não
teologia, comecei a ler como qualquer
jovem livro de histórias, né? Quando eu
li A Droga da Obediência, quem leu Droga
da Obediência? Os caras. Eu morro de
vontade de ler de novo, mas tenho medo
de ler de novo, né? Tem uma ótima
memória que eu tenho da minha infância.
Eu acho que se eu voltar eu posso achar
o livro meio ruim, sei lá. Mas eu lembro
que era um filme, é, para mim é
magnífico o filme, o livro, né? Mas um
dia eu quis assistir de novo um desenho
da minha infância e e na minha cabeça
era incrível. Eu fui ver de novo, era
uma porcaria, era Transformers, era os
Transformers da versão antiga do
Transformers. Nossa, era os autobotes
lá, era muito mal feito o negócio. Não
volte para assistir, não faça isso,
deixe na sua memória. E aí eu tenho medo
de ler de novo. Mas eu sempre gostei de
ler histórias, li muita ficção cristã e
o mundo teológico, né, o processo de
escrita teológica acabou roubando de mim
muito do tempo que eu tinha para ler
literatura, para ler por prazer. Ler
para mim é trabalho. Hoje eu leio
profissionalmente, né? Trabalho, tanto
porque tenho participo de processo
editorial, então reviso livros, edito
livros, como escrevo e publico livros
também. Então, lê para mim vir para
outro trabalho. E acabei virando um
grande Silvio Santos, né? Fr dizia que
não assistia televisão, porque assistir
TV para ele era como trabalhar. Eu pego
lava um livro na mão e pegar um livro.
Aí olha o trabalho editorial, a revisão
e o copdk. Hum, acho que eu teria feito
um cop diferente. Você acaba não
participando mais da vida de leitura do
mesmo jeito quando você se torna
profissional daquilo, né? Trabalhe com o
que você ama e você nunca mais amará
nada. É isso que dizem, né? Ah, você eu
comecei a trabalhar com o que eu amo e
eu comecei a tratar o processo literário
de forma muito muito fria, né? É um
processo de de escrita. A gente ficou
seis meses nos Estados Unidos no Ming.
Eu fui convidado como pesquisador,
fiquei um tempo lá para fazer alguns
trabalhos de pesquisa e eu vou dizer, eu
tinha pouco trabalho no Estados Unidos.
Era a gente acostumado com a rotina de
cuidado pastoral, de igreja, vida de
pastor é cor de maluco. Ame muito seus
pastores, olhe pelos seus pastores. Tô
orado muito pelo pastor Valbert, que tá
como titular no meu lugar. vida pastoral
é cor de doido. E aí eu fiquei seis
meses sem pastorear, apesar de eu estar
ah trabalhando lá de alguma forma nos
Estados Unidos, eu me sentia um pouco
entediado, assim, eu passava tempo com a
minha família, tive mais tempo com minha
esposa, mais tempo com os meus filhos,
sou muito bom, mas eu tinha tempos de
escritório que eram um pouco perdidos
assim. E eu disse: "Rapaz, eu acho que
eu finalmente posso me dar o luxo de
fazer umas coisas que eu queria fazer
por prazer, não por trabalho, não por
obrigação." Mas eu voltei a ler ficção.
Eu voltei a pegar obras que eu sempre
quis ler e e lê-las de novo e poder
reler algumas obras, poder ah conhecer
obras literárias novas e pensei: "Puxa,
eu tenho 1 milhão de ideias e esboços e
e argumentos de obras literárias que eu
queria escrever que eu nunca tive tempo
de pra frente." E eu tinha um projeto
engavetado que eu tinha esboçado 10
histórias, uma para cada um dos 10
mandamentos. E a ideia era escrever
ficções sobre cada um dos 10 mandamentos
para ilustrar, aplicar, a desenvolver de
alguma forma a ideia de cada mandamento.
E eu disse: "Rapaz, será que eu consigo
tirar alguma dessas coisas aqui do papel
enquanto eu tô aqui?" E eu tinha um
projeto, vou dar o título original do
projeto, tá? Era muito ruim. Os meus
livros sempre títulos horríveis até sair
com um título meio esquisito. Tinha um
projeto chamado 10 pesadelos, era o nome
do do projeto, em que eu queria escrever
10 obras meio mágicas assim, meio
fantásticas sobre cada um dos 10
mandamentos. A ideia era essa assim.
Cada um dos 10 mandamentos fazer uma
ficção para ilustrar, aplicar de alguma
forma cada um dec e decálogo. E aí eu
escrevi a primeira história, o título
ainda não tenho. Eu chamei de O mistério
do Monte San Michel. É sobre tirar o dia
de sábado para santificar. E a história
de um cara que era tão, tava tão
obsecado pelo descanso que ele, que ele
não descansava, digamos assim. Eu não
vou dar spoiler não, porque um dia, um
dia vai sair, se Deus quiser. Eu escrevi
essa história, eu achei legal. Rapaz,
legal, ó. Achei legal escrever. Foi até
uma historinha bacaninha, assim, acho
que mostrar pra Isa depois, acho que ela
vai achar legal. É aqui. É isso. Uma
historinha foi. E aí escrevi uma segunda
história que seria a segunda ficção, se
chama Tudo está cheio de Deuses. Acho
que o título é esse mesmo, né? Tudo está
cheio de Deus. Que é bom, não posso
contar nada, que é que é sobre o não
fará as imagens de escultura. Eu já
mandei pro editor inclusive da mundo
cristão, certo? Tá lá com ele já e uma
hora, uma hora vai disseram que v
publicar. O Daniel não tô contrato nada
ainda não, mas ele falou que acha que
vai dar certo. Depende de vocês. Se esse
livro vender direitinho aí acho que eles
publicam o segundo, né? O que é uma
desgraça, né? Eu tenho que vender bem
nove livros pelo menos para poder
publicar os 10, né? E eu escrevi, gostei
muito, achei a história muito legal.
Poxa, que legal. Essa história ficou
muito boa. Aí eu vou escrever mais uma.
Aí eu escrevi pro terceiro mandamento,
não dizer o nome do senhor em vão, né?
Nós falamos do seu em vão. E aí eu
escrevi o título é a alma das palavras.
Esse já tá escrito também, mais ou menos
escrito. Que é uma história mais aí é
mais bruxaria, tem coisa de é meio Harry
Potter assim, sabe? É a melhor forma que
eu tenho para explicar. É meio Harry
Potter. Eu escrevi essa historinha, não
terminei, mas rapaz acho tá tá legal. Tá
indo para um rumo divertido aqui. Tô
gostando de escrever ficção. E aí fui
escrever a quarta história sobre o
primeiro mandamento. Eu fui da do
quarto, né? Fui voltando, né? que é é
meio estuos. Aí escrevi aí eu escrevi
sobre o primeiro grande mandamento. Se
você abrir o livro, a epígrafe do livro,
eu tenho a dedicatória para Catarina,
pro Bernardo, meus filhos, vou explicar
porque que dediquei para eles. E é de
dedicatória Êxodo 23. Ah, não tem outros
deuses além de mim, né? E eu acho que os
livros, cada dedicatória será realmente
o texto do mandamento, né? Cada
epígrafa. E eu escrevi a história, o
menino que queria ser Deus. E quando eu
escrevi, eu sei que vai soar muita egola
esse tipo de coisa, né? E Burdier já
dizia que os circuitos de consagração
social são menos eficazes quão mais
próximos estão do objeto consagrado. Não
é que a ideia de que se você se elogia
não serve de nada. Mas eu eu escrevi, eu
disse: "Puxa, eu isso aqui ficou muito
melhor do que as outras histórias." Daí
eu escrevi as quatro e essa quarta tá
muito superior às outras. Tá muito
melhor, tá? Tá. Sabe, tinha tinha alguma
coisa aqui que me parece interessante.
Minha ideia era escrever um único livro
com 10 contos. Ia ser essas 10
histórias. E aí eu disse: "Cara, isso
aqui, isso aqui podia virar uma coisa
sozinha, né?" Não sei. A história falava
mais sobre mim, digamos assim, sobre as
minhas próprias crises com Deus, as
minhas próprias batalhas de fé no meu
coração, minhas próprias atitudes ah
espirituais que eu queria poder resolver
diante do Senhor. E comecei a colocar um
pouco, escrevendo a história desse desse
menino, o Dandan, que é o personagem
principal da história, comecei a colocar
um pouco das experiências da minha
própria vida, de colegas, de pessoas que
falavam coisas que eram importantes para
mim. Ah, todos os personagens do livro
meio que são alguém da minha vida assim
em um momento ou em outro. E o Dandã ele
é muito baseado nas conversas que eu
tinha com a Catarina, a a minha filha. A
Catarina sempre foi uma criança que
fazia perguntas difíceis demais pra
idade dela, perguntas que ela era
inteligente demais para formular, mas
ainda não é o bastante para entender,
né, as as respostas, que é mais fácil
fazer perguntas difíceis do que entender
as respostas difíceis. E aí eu lembro, a
gente estava nos Estados Unidos, que eu
acho que foi parte do fator motivador da
escrita desse livro, a gente estava no
carro. E aí aí a Catarina perguntou:
"Papai, por que que Deus fez isso?"
Porque isso o que, mane? Isso isso qua
perguntou: "Papai, por que é que nesse
mundo aqui era os Estados Unidos, né?
Nesse mundo era outro planeta para ela,
né? Nesse mundo aqui, Deus colocou um
monte de parquinho. Deus colocou um
monte de pessoa boa. Não tem nenhuma
parede riscada, que é as pistação, né?
No muro, não tem nenhuma parede riscada,
não tem ladrão e você deixa o carrinho
de bebê na porta da padaria para entrar,
a gente volta at lá. E lá no nosso mundo
tem ladrão, tem parede riscada, não tem
parquinho, os parquinho é tudo quebrado,
um monte de coisa feia. Que é que Deus
fez isso, papai? Catarina, 4 anos, como
é que eu explico o problema do mal para
uma criança de 4 anos, né? Como é que eu
explico sobre desigualdade social, sobre
a formação dos países, sobre, sabe,
questões culturais complexas para uma
criança de 4 anos? E em parte o livro, o
Dandã é um personagem que encarna parte
disso, né? Ele é uma criança, ele tem 6
anos e faz perguntas difíceis demais
paraa idade dele, tentando entender um
pouco de Deus. Mas a o Dandã é um pouco
de todos nós, não é? Todos nós quando
crescemos a gente consegue responder
muito bem as perguntas de ontem, mas
agora a gente tem perguntas de hoje que
a gente não responde hoje, não vai
conseguir responder amanhã, mas amanhã a
gente tem as perguntas de amanhã. E à
medida que a gente vai crescendo em
Deus, a gente responde as perguntas de
ontem, mas a gente tem respostas que a
gente precisa em algum momento encontrar
a fé para entender que a gente só vai
entender depois. Vai chegar o momento
que a gente só vai entender quando
encontrar de fato o nosso Senhor, o
nosso Deus. Agora minha primeira minha
primeira ficção, né, assim, eu eu mandei
para alguns colegas da Mundo Cristo,
mandei para alguns amigos para lerem e
tal, darem a opinião. E o Daniel Faria
da Mundo Cristão, o meu editor, ele lê o
livro e ele disse uma coisa que foi o
elogio mais xingamento que eu já recebi,
sabe? S quando o Elogio te xinga ele
falou: "Iago, eu acho que foi a melhor
coisa que você já escreveu na sua vida".
[risadas]
O que o que é maravilhoso assim, poxa,
escrevi uma coisa incrível, mas eu já
escrevi 24 livros, entendeu? [risadas]
Eu escrevi 24 obras de rasgar.
>> Não entendi isso. Taca fogo no resto
assim, entendeu?
>> Eu escrevi 24 livros de teologia para
finalmente, né? [risadas] Aí eu escrevi
e ele e ele falou uma coisa assim, Iago,
por incrível que pareça, eu achei um
xingamento também, por mais
contrainttuitivo que seja acerca de
você, é um livro sensível, né? E eu, OK,
obrigado. Obrigado, Daniel Paul,
>> fica o registro aqui na internet, tá,
viu? Sobre o meu editor.
>> Obrigado.
>> Obrigado, né? Não sei se digo obrigado,
só digo impropério, né? Sei lá.
>> Mas eu eu e claro que a gente trabalhou
mais o livro, trabalhou de muitas formas
o material, tanto no texto, não é?
Quanto no trabalho gráfico, né? O livro
é ilustrado pelo Rogério Coelho, que é
um gênio extremamente premiado no Brasil
e fora do Brasil. Fiquei um tanto
chocado quando a Mundo Cristão escolheu
o Daniel, o o o Rogério Coelho, porque
eu nunca imaginei na minha vida que um
cara do naipe do Rogério ah poderia est
ilustrando um livro meu. Se você não
sabe, foi ele que fez aquela edição do
Louco da Turma da Mônica, daquela
daquelas obras que ah autores davam sua
própria personalidade. É um trabalho
maravilhoso, assim, incrível. E aí o
livro ele ele nasceu e eu mandei blári,
acho que foi foi o meu livro mais lido
antes de ser publicado assim, mandei
para todos os meus amigos porque isso
sendo parte da experiência legal assim
de publicar esse livro, sabe? Eu sou não
sou um cara velho assim, eu tenho 34
anos, sou um jovem teólogo, digamos
assim, publiquei muitas coisas porque eu
sou um escritor compulsivo,
provavelmente eu ten alguma
neurodivergência, não fique meio me
diagnosticando aí não, mas alguma coisa
não é muito normal. Escrevi três livros
por ano nos últimos 10 anos
praticamente. Então eu gosto de
escrever, eu só sei pensar escrevendo.
Faz parte do meu jeito de viver. Eu
preciso colocar as ideias no papel. Ah,
e gasto muito tempo com isso. E para mim
assim, publicar uma obra de teologia não
tem mais aquele aquele charme, sabe?
Aquele negócio de, ó, um livro, mais um,
já foram 24, né? Chegou mais um, né? Já
já é os terceiros desse ano, né? Já teve
ano que eu publiquei, já teve ano que eu
publiquei quatro livros e eu tô
publicando minha primeira ficção e eu tô
sentindo aquela insegurança de novo,
sabe? Aquele negócio de poxa, eu tô
louco para saber a opinião dos outros
sobre o que eu escrevi, que é uma coisa
que já assim faz muito tempo que não me
importa muito assim, cara, isso aqui é o
certo, é a verdade deles e tal, mas
publicar um um livro de de ficção para
mim tá sendo essa reaprender assim,
sabe? Eu tô trabalhando no segundo livro
e é aquele sentimento de, meu irmão,
será que tá legal isso aqui? Será que
será que eu sei fazer isso? Sabe? E tá
sendo muito legal essa essa insegurança
do de est começando uma coisa nova, de
est publicando. E um cara comentou num
num vídeo meu do YouTube quando eu
divulguei o livro dizendo, daí me deu
uma elogiada lá, né, em algumas coisas,
né? O Iago faz isso, faz aquilo, tal,
tal. É impossível que ele também seja um
autor de ficção, não é? E eu gostei do
desafio. É,
>> será que é possível que eu seja um autor
de ficção? Eu não sei, não acho que esse
livro é e sei lá, vai entrar pra
história da literatura mundial, nada
parecido. Eu acho que é um livro muito
singelo, muito simples, até por assim
dizer, não é? Você que é editora, não
vai querer que eu use esse tipo, que eu
fale essas coisas. Quero que eu di o
melhor livro do mundo, comprem que vai
mudar a sua vida, né? É uma obra muito
sincera, digamos assim, obra que eu fiz.
Eu não só queria ensinar uma coisa,
porque eu já tenho ensinado coisas com a
minha vida de pregador, mas eu queria
ilustrar uma coisa, não é? ao invés de
construir um argumento, eu queria
construir um cenário. Eu queria, ao
invés de estabelecer uma uma lógica
formal acerca, né, de um de uma razoada,
eu queria muito poder montar uma
personalidade e e essa personalidade e e
a relação entre os indivíduos e o
cenário estabelecido e o fluxo dos
acontecimentos, dizer aquilo que eu
queria dizer sem eu explicar, não é
parte da dificuldade para mim como um
pregador, né? Eu sou um grande
explicador, né? Eu ganho a vida
explicando coisas, né? é não explicar
esse livro. Eu não quero explicá-lo, né?
Posso narrá-lo, posso contar algumas
coisas, falar de influências, mas eu
gastei muito tempo tentando colocar
muito subtexto e muita camada e muita
profundidade nesse texto para sendo uma
leitura singela e simples, que tem uma
pegada infanto juvenil, assim, se você
olha, o personagem principal é uma
criança dandã que na história tem 6
anos, é um livro que eu fiz para que os
adultos sentissem alguma coisa diferente
na no contato, sabe? A frase de trás é
da minha esposa, que a frase aqui de
cima foi a ideia da minha esposa. Ela
ela leu o livro e ela diz: "Tiago, isso
não é um livro infantil. Minha esposa
disse: "Não, não tem como assim se você
vender como livro infantil, os pais vão
ficar chateados com você". Diz que é uma
história infantil para as crianças que
já cresceram, né? Então o pessoal me
perguntou na FFI hoje: "Ah, é um livro
pra criança?" Eu disse: "É pra criança
que está dentro de todos nós". Entendeu?
Ele é meio que uma autobiografia em
certo sentido, porque eu acho que ele é
uma biografia de todos nós de alguma
forma tem muita intertextualidade com
textos bíblicos. Então, se você for nerd
de teologia ou então tiver menos, pelo
menos contato com a sua Bíblia, você vai
identificar muitas coisas da escritura
aqui como parte do subtexto da história.
Ah, você vai encontrar algo da história
de Adão e Eva, vai encontrar algo da
história de Jacó, você vai encontrar
algo, que eu não posso falar muito,
senão trago o final, mas [risadas]
tem outras referências literárias aqui
dentro também de algo de Adélia Prado,
algo de de outros autores, não é? tem um
uma intertextualidade polêmica e
complicada com parte do hip hop
brasileiro, mas eu não posso explicar
mais do que isso. Mas se você já ouviu
facção central
ou Jonga, você tem que se converter para
começar, certo? Porque ninguém escuta
isso crente, não. Mas tem algo
interessante na no hip hop brasileiro
que o esforço para você ser alguém na
vida é muitas vezes descrito como
esforço de se tornar Deus. Então o
facção central tem uma música chamada O
menino do Morro. E quando o menino do
morro vira o grande traficante, né, e
consegue virar alguma coisa, eles
cantam. A música se chama menino do
morro. Diz que o menino do morro virou
Deus, o poderoso chefão, a majestade,
subiu uma estrada de sangue para a
primeira classe, né? Que ele, essa
estrada de sangue foi a estrada da da do
assassinato e da violência e tudo mais,
né? Anos depois, um outro rapper
brasileiro chamado Jonga escreveu um
álbum chamado O Menino que queria ser
Deus. E esse álbum tem uma música
chamado, ah, acho que é 24 de janeiro, é
junho de 93, uma data, eu não lembro
mais o nome da música, que ele canta no
refrão. A música é sobre a história
dele, a carreira dele, né? e fala sobre
o crescimento dele, parece uma resposta
direta ao facção central, não é? Ele tá
falando da carreira dele, do crescimento
dele, não por meio da violência, mas por
meio do do da arte do hip hop e tudo
mais. E no refrão ele canta é porque o
menino queria ser Deus, né? Porque o
menino queria ser Deus várias vezes de
alguma forma. E aí eu lembro do do
Micida, que é outro hip hop, outro
rapper brasileiro, que em uma música que
ele participa, ele faz uma pergunta que
eu acho que é muito muito direta à
própria cultura do rap brasileiro em que
ele pergunta: "E se na sua vez de ser
deu, todo mundo fori atu?" E eu acho que
bom, eu acho que o livro ele responde um
pouco esse esse esforço humano de
divinização que é comum a todos nós. A
promessa da serpente no Éden não foi só
a promessa de conhecer o bem e o mal, de
sabermos o que é o bem e o mal, não é? A
promessa da serpente é que nós seríamos
iguais a Deus. E sendo iguais a Deus,
nós poderíamos arbitrar o bem e o mal,
né? A ideia de conhecer o bem e o mal é
essa arbitração do bem e do mal para si.
Então, todos nós nascemos com essa
vontade de divinização, essa vontade de
ser Deus dentro de nós. O menino que
queria ser Deus é uma forma de tentar
ilustrar justamente essa essa vontade
humana de divinização. Então, o livro
discute egolatria, discute discute a
idolatria interior de todos nós, discute
o problema do mal, talvez seja o
[música] primeiro tema que vai chamar a
atenção do leitor. A primeira superfície
do livro é uma teodiceia infantil.
Então, é uma forma de ensinar sobre o
mal para crianças de alguma forma, né?
Porque é uma criança questionando sobre
o mal e sobre a perda, conversando com
alguns adultos e com outras crianças
sobre isso em al em algum nível. Mas
essa é uma camada superficial do livro,
né? Em outras camadas do livro, eu
tentei trazer alguns discursos sobre
sobre luto, algum discurso sobre perda,
talvez algum discurso já se você pensar
um pouco no que tá escrito sobre
depressão, sobre suicídio, sobre morte,
sobre céu. E eu acho que já tô
explicando demais. [música] Eu sou a
Débora, sou empresária, nós temos uma
uma loja e achei muito positivo,
[música] achei muito bacana a explicação
do Iago, né? Realmente é uma uma
pergunta que surge tanto nas crianças
quanto em nós, [música] realmente, né?
minha filha tá aqui, eu trouxe ela para
para ver e é uma pergunta que já
ocorreu, ela já me fez essa pergunta,
né, sobre porquê de algumas coisas
acontecerem. E nós mesmos, quando
queremos tomar o comando de algumas
situações, questionamos, né, o rumo de
algumas de algumas coisas na nossa vida,
nós [música] querendo ou não, estamos
querendo tomar o controle das coisas,
né, que pertencem a Deus. Então, achei
muito legal, muito bacana. [música]
Estou ansiosa para ler lá em casa com a
minha família.
Achei o livro muito interessante, muito
[música] importante para, pelo menos
para mim, quando o Iago leu, a gente
estava na sala da casa dele, ele leu o
livro e o livro, incrivelmente ele traz
um sentimento que todos nós façamos do
porqu da dor. [música] E naquele dia eu
tava na sala e eu tava conversando, a
gente estava numa conversa lá eh de
amigos, né? E eu tava contando algumas
situações, ele do nada, deixa eu ler a
obra que eu fiz de uma história de
fricção e eu lei, né? A gente l tava e
naquele dia falou muito ao meu coração a
história porque eu tava me sentindo
dandão. Eu tinha feito várias perguntas,
eu descobri uma doença que causa muitas
dores e eu por que por que isso, né? por
tanta dor e aquilo fechou muito com
outros questionamentos que eu tinha a
respeito de decisões que que eu tomei
paraa minha vida. Mas o Senhor ele
trouxe outros caminhos, outros percursos
e a história ela trouxe muito
significado e respostas para mim naquele
dia. E no dia que ele leu, realmente eu
chorei muito com a história, porque eu
senti Deus falando comigo através das
respostas que que vieram para o Dandã
depois. [música] E eu senti muito que
aquilo falou muito comigo naquele dia,
por isso que eu chorei muito. E eu disse
que eu não vou chorar hoje, né? Naquele
dia eu tava bem bem sentido que Deus
estava respondendo as minhas perguntas.
E para mim aquilo foi muito importante
porque veio de uma resposta amorosa, de
um Deus amoroso e de um amigo amoroso,
né? O o Iaga é um amigo muito muito
carinhoso, amoroso com esses que que
estou ali com ele. E aquilo para mim
[música] foi um
>> foi um gesto de carinho, de amor, de
atenção de Deus para comigo através do
livro. Então essa obra é tanto quando
ele disse: "Olha, vou lançar o livro".
Eu fiquei muito feliz e eu disse: "Olha,
esse livro vai ser vai falar. Espero
quem fala é o coração de muita gente,
como falou a meu naquele dia, né? que
foi uma coisa bem,
eu não consigo descrever porque a única
coisa que eu consigo dizer foi cuidado
de Deus para mim, para o meu coração
naquele dia, cuidado de um amigo e e
para mim foi importante por causa disso,
né? Importante por causa disso. E para
mim é uma mesa estar aqui hoje no dia do
lançamento. Coincidiu [música] com as
nossas férias, né? a gente tá de férias
aqui, coincidiu da gente poder ter eh
esse momento aqui.
Para mim é muito bom estar aqui, né,
nessa no lançamento do livro. Foi para
mim é muito importante [música] estar
aqui também. Foi muito bom ter esse
tempo aqui.
>> Eu tô aqui no lançamento do menino que
queria ser Deus. Eu peguei um pouquinho
da leitura do livro. Eu tô muito
empolgada para ler pelo que eu peguei da
leitura e também pelo que eu consegui
ler no segundo livro que vai ser lançado
na próxima ficção, que também tá
incrível. Eu tive a oportunidade de ler
e e além de ter sido uma experiência
muito legal de ler e conseguir comentar,
o livro promete porque é um livro muito
denso e ainda assim é um livro muito
envolvente. Então, por causa desse
segundo, eu também tô com muita
expectativa para ler esse primeiro e eu
tô muito feliz.
[música]
>> [música]
>> Tivemos uma grande crise cultural que
vem levando a gente para um caminho que
temos menos referências cristões
cristãos, né, no mainstream, talvez
porque aidade também sempre foi assim.
nós termos de fato na na literatura, na
nos grandes filmes, um caminho onde você
já não vê mais essas referências e uma
parte do discurso que demoniza o
evangelho em si, né, que aí já é mais
direto. O seu livro você vê como uma
chamada para nós a assumir esses
lugares, entrar nesses lugares para
pregar o evangelho ou você acha que
também tentar entrar nesses lugares pode
ser uma forma de corrupção? E talvez nós
deviamos estar no nosso meio cristão
mesmo.
>> Não, pelo contrário, eu eu creio
plenamente que parte da nossa missão no
mundo é tá imiscuído com a cultura sem
corrompermos nossos valores. Então essa
ideia de um cristianismo de guerrilha,
né, que é a realidade muitas vezes da
igreja do calabolço, da igreja que tá
escondida, da igreja que o culto é nas
nasmorras, não é? Essa é uma realidade
muito comum da igreja. foi aí o que a
igreja era no sentido primitivo. Quando
isso mudou, deu pra gente a
possibilidade de pregar o evangelho mais
publicamente, mais intimamente, entrar
na cultura e gerou, obviamente, algumas
corrupções. A gente precisa encontrar um
caminho de participar da cultura, de
fazer parte do das demandas culturais,
de alguma forma, fazer uma teologia que
seja pública, que responda a aos ditames
da sociedade, sem corrompermos os nossos
valores, nossa ética e quem nós somos.
Então quando pessoal, se a gente não
está lá, alguém estará, alguém estará
construindo ficção, alguém estará
construindo histórias, alguém vai fazer
filmes, alguém vai estabelecer algum
valor que vai fazer parte da vida comum.
Se nós estamos, nós temos o privilégio
imenso de viver em um país em que a
gente não tem perseguição nas vias de
fato como algo institucionalizado, a
gente tem, obviamente, o cristianismo é
antagico a muitas coisas da cultura.
Obviamente a gente não é bem quisto pela
sociedade secular. Ah, e existem
ambientes sociais em que a gente é muito
mais maltratado do que outros. Mas a
gente vive num num determinada paz
social. Se a gente pode publicar livros
cristãos, se você entra numa livraria e
tem uma sessão de livro evangélico, vê
só, isso não existe em muitos países.
Isso não existe em vários países da
América Latina. Não tem sessão de livro
evangélico. Eu fui com minha esposa no
Chile, eu só achei bíblia para vender na
parte na sessão de artes de uma livraria
em cima de uns livros lá de moda. Aí
tinha uma Bíblia, tem uma uma unidade de
livraria evangélica em Santiago, no
Chile. Eu entro na livraria Martins
Fontes. Infelizmente não é minha, não é?
e tem uma sessão de livros evangélicos.
O livro mais vendido do Brasil é um
livro evangélico hoje, sabe? A gente tem
uma possibilidade muito grande de poder
entrar na cultura. Então, se a gente
pode, e a gente tem essa efervescência
hoje da ficção cristã, como algo tá
atraindo muitos jovens autores, muitas
pessoas novas nessa seara, é uma
oportunidade muito grande que a gente
tem de entrar no cenário cultural. Um
dos livros da nossa da nossa casa
editorial, Mundo Cristão, Os Círculos
não são Infinitos, a Vitória Souza, vai
ser adaptado como filme pela Globo,
entendeu? É uma ficção cristã. Por quê?
que a Globo é muito é crente. A Globo é
crente, a Globo quer louvar Jesus. É, é
o interesse da do dos marinhos é louvar
Jesus. Não, é um público muito grande
que já existe. Houve, claro que no
último BGE a gente viu que o crescimento
evangélico deu uma diminuída,
continuamos crescendo mais menos, mas
ainda somos uma parte muito relevante da
sociedade. Já estamos quase 1/3 da
população do do Brasil, somos os
evangélicos. Então, nós somos uma fatia
grande de mercado, nós somos um público
consumidor, até uma uma empresa como a
Globo que por muito tempo retratava os
evangélicos da forma mais estacanha
possível, já vê um filão de mercado, a
gente tem que agradar esse público
também, porque no fim das contas é só
isso, é mercado, ninguém não existe lá
gente no no forão da Globo fazendo um
pentagrama com, sabe, sacrificando bod.
É dinheiro, é mercado. Deus, o Deus da,
das grandes das empresas é o dinheiro,
não é Satanás, é o dinheiro. E já é um
falso deus todo jeito. Mas se nós somos
parte desse mercado, a gente consegue
ser alcançado até por esse por esse tipo
de coisa, né? Então você pode ter uma
adaptação de CS Ls, adaptação de token,
adaptação de outras obras que tem
valores que a gente aprova. a gente
entrar na sociedade, na construção
artística, com os nossos valores, com um
livro como o Menino Criça Deus, que tem
uma mensagem cristã clara por trás e
outras obras que existem por aí, a gente
pode estar ajudando a construir cultura
e vai que nascem outros Clius, né? Vai
que nascem outros outros grandes autores
que podem ajudar a formar parte do
imaginário social de um ambiente a
partir da sua obra literária. Isso é
muito legal. É muito legal. A minha
dúvida era com relação ao processo de
criação, porque quando a gente percebe a
história do livro, a gente vê que o tema
não é tão simples, é um tema um pouco
complexo. E como é que foi o processo de
criação para transformar em algo
simplificado, entre aspas, né? Como se
fosse um livro infantil, sendo que não é
infantil. E aí eu queria saber como foi
esse processo de criação da história e
tudo mais.
>> Legal. O menino que cria ser Deus é uma,
eu descrevo como até odisseia infantil,
né? A ideia é explicar o problema do mal
em uma linguagem fácil, né? Eu queria
que fosse um livro que pais se sentissem
tranquilos para ler pros seus filhos
adolescentes ou algo assim. Ah, que
houvesse um debate bem simplificado
sobre o problema do mal, mas que
fornecesse respostas que são coerentes a
uma idade menor, mas também são
respostas que, pela sua simplicidade
também falam ao nosso coração como
adultos. Eu tentei fazer um livro que
pudesse ter algumas camadas e isso é
muito difícil. Não sei se fui
bem-sucedido, os leitores vão ter que
dizer, mas eu lembro de uma aula de
seminário em que um professor falou que
os pregadores geniais são os pregadores
que com o mesmo sermão conseguem ser
simples pros profundos. Então a mesma
frase é uma frase que você consegue
perceber uma verdade na sua superfície e
uma profundidade quando você pensa mais
sobre ela. E claro, fazer isso é coisa
das pessoas geniais, não é de em
sermões, não é? E eu acho que as
melhores obras literárias que nós temos
são assim, são obras que você tem uma
mensagem primeira mais superficial que
se justifica, mas é uma história que a
medida que você pensa nela, você percebe
outras camadas escritas ali. Então o
menino que queria ser Deus tem uma
primeira mensagem que é a mais fácil, a
mais simples, é sobre o mal. Porque é
que Deus faz coisas ruins com a gente? É
a pergunta do Dandã. É a pergunta que eu
acho que todos nós já fizemos em algum
momento da vida, né? Por que que tem
coisa ruim no mundo? Por que que o mal
acontece? O Dandão é o menino que tá
enfrentando algumas perdas e nessas
perdas ele não sabe porque é que Deus
faz isso com ele. Ele chegou ao ponto de
acreditar que Deus que ele poderia
assumir o lugar de Deus e fazer o mundo
melhor. E quem de nós nunca pensou que
se, sabe, se fosse do meu jeito, eu acho
que era melhor, né? Por que que Deus fez
isso? Acho que eu podia fazer de outro
jeito, na minha cabeça funcionava
melhor, né? Então eu tentei deixar isso
de uma forma que fosse a voz de uma
criança. Parte do motivo é porque eu
queria eu queria falar sobre esse
aspecto de criança que nós ainda
assumimos. Jesus vai dizer que só quem
se faz como criança encontra o reino dos
céus. E parte do processo de se fazer
como criança é aceitar que a gente não
consegue entender tudo, né? De que a
gente tem perguntas difíceis e a gente
tem que confiar no nosso pai. Às vezes a
gente não consegue entender e às vezes o
pai vai dizer: "Meu filha, é porque sim,
né?" Aí o nosso castelo Ratibum dizia
que porque sim não é resposta, né? Mas
às vezes é o por sim é porque, meu
irmão, o motivo é mais difícil do que
tua cabeça aguenta agora, né? Então
tenha fé, confia em mim, né? Confia em
mim. Às vezes eu tenho que meter o
porquê assim nos meus filhos assim, eu
tento explicar muito, né, por causa
disso e tal, tal, mas às vezes eu
explico duas, três vezes, a criança não
pega, é porque confia no pai, né? Confia
no pai que o pai sabe o que tá fazendo,
entendeu? E às vezes a gente precisa
muito disso, é confiar no pai, né?
Confiar no pai que a gente tem no céu.
Parte da história é entender isso, que
existe uma criança, existe um dandã
dentro da gente ainda. Tanto que essa
frase atrás do livro é da minha esposa,
frase da Isa, que escreveu essa frase
aqui, que é uma história infantil para
crianças que já cresceram, né? Então, a
ideia é falar um pouco pra criança que
tá dentro da gente, né? E o processo foi
meio esse. Como é que eu consigo
discutir um tema tão difícil em uma
linguagem que seja compreensivo, que não
fique bobo, que não fique meioxe, que
não fique meio bobinho, mas que ainda
fale tentei fazer. Se conseguir, vocês
vão dizer depois, né? Espero ter, espero
que tenha conseguido. Eu eu conheci o
rosto do meu personagem por meio de
outra pessoa. Então, quando eu escrevi,
eu tinha uma ideia de dando na cabeça,
escrevi imaginando alguns cenários.
Então, assim, eu montei toda a narrativa
que eu visualizando a escola da
Catarina, por exemplo, lá no Brasil.
Então, a escola onde ela estudava antes,
eu eu visualizava a escola dela quando
eu montava tudo. E aí outra pessoa que
leu e montou esse cenário de outra
forma, né? Deu outros rostos, deu outras
expressões. Eu conheci o Dandan, né? Eu
pude conhecer o Danda e vê-lo por meio
da ilustração do Rogério Coelho. Então,
pelo fato de ter esses elementos a mais,
essa ilustração linda de capa, que é uma
coisa que eu fico olhando assim de muito
bem feita, o traço aqui, é o livro que
eu tô apaixonado hoje, assim, vai, eu
vou de novo, vai ser uma egolatria
terrível que eu vou dizer agora. Mas
quando o livro chegou lá em casa,
anteontem, o dia antes de eu chegar
aqui, tava com os familiares em casa,
tava tendo uma criança de férias, então
tava loucura na minha casa, cheio de
primo e tal do da minha da minha da
minha filha. E aí o livro chegou, aí eu
me me retirei ali um pouquinho pro lado,
tava tomando café, aí li meu livro
sentado e fui lendo o livro, né? E aí
tava com olho cheio d'água lendo a minha
própria história, que que coisa é
gólatra, né? Né? Ler o próprio livro e
ficar com olho ficar emocionado. Mas o
essa história hoje me emociona assim,
porque tem uma pregação por trás assim,
sabe? Tem um subtexto daquilo que eu
preciso no meu próprio coração. Eu não,
eu sempre digo que tudo que eu escrevo é
de alguma forma autobiografia. Todos os
meus sermões são autobiografia, porque
eu não consigo falar sem colocar algo da
minha personalidade, do que eu vivo, do
que eu sinto, do que eu do que eu
preciso. Isso tá dos meus sermões de
alguma forma e isso tá nesse livro, né?
Eu fico brincando, né? Eu escrevi uma
autobiografia com o menino que ser Deus,
mas não é porque é a história do Iago, é
porque é a história de todos nós em
algum sentido, né? Eu quero muito que
vocês se identifiquem com o Dandã de
alguma forma nos próprios dilemas, nas
próprias dores e encontrem na história
do Dandã própria história. Um autor
dizia antes que quanto mais regional é
uma é um texto, mais universal ele é de
que quem quer escrever literatura
universal geralmente escreve um texto
sem profundidade. Agora, quando você
escreve um texto sobre uma coisa muito
característica específica, você alcança
algo do núcleo do ser humano. Eu espero
ter conseguido fazer isso com Dandã. Não
sei se consegui. Espero que espero ter
conseguido.
>> Eu estive na sua última, no seu último
sermão na igreja e eu confesso que
quando eu vi, eu, eu meio que esperava
assim ver um pouco da sua fonte que eu
lembro que você falou, citou John John
Milton falou a do inferno de Dante,
falou muita coisa bacana sobre o homem
querer ser Deus, né, e alguns aspectos
do homem querer ser Deus. E eu esperava
ver um pouco disso nesse livro, só que
lendo assim, eu me surpreendo porque foi
algo diferente. Você já naquela pregação
eh tinha talvez pegue umas ideias esse
livro ou queria tá trazer um comparativo
que eu realmente tô impressionado assim
com essa do assim essa essa essa esses
dois pensamentos estão incríveis assim
da sobre o o menino que querer ser Deus
e aquela pregação de falar do homem
querer ser ser igual a Deus, né?
>> Legal. Eu sou um grande explicador, né?
Eu ganho a vida explicando coisas, sou
um pregador, sou um professor, não é? E
aí a minha minha grande minha grande
luta nesse momento é não explicar muito
meu livro, porque eu queria explicar ele
inteiro. Eu queria entrar nessa nessa
ego trip de ficar fazendo uma um ensaio
sobre minha própria obra, né? O que é
ridículo. Quando eu assisto um filme e o
diretor começa a me explicar o próprio
filme, eu fico com raiva dele. É, cala a
boca, mano. Cala a boca. Quem tem que
quem tem que interpretar sou eu, mas é
tu, né? e perde a graça, porque ele
transforma uma obra de de ficção, que é
o tipo de coisa que deveria a chegar
como uma história para que eu
interprete, entenda, como se fosse um
uma epístola. Ora, se eu tô lendo uma
carta, eu quero saber a intenção do
autor. É uma carta. Se eu tô lendo o
manual de instrução, eu quero a intenção
do autor. Uma bula de remédio, a
intenção do autor. Uma obra ficcional, o
autor tem uma intenção. Mas se ele não
colocou a intenção lá, problema dele. O
que importa é o texto, é o que tá dado.
E o que tá dado, eu não interpreto dos
anéis como eu interpreto as cartas de
Paulo, né? Quando eu através classo,
quero entender o que Paulo quis dizer, o
que é que Deus quis dizer com isso, é a
intenção do autor. Com Senhor dos Anéis,
eu não gosto de ver entrevista do token
explicando sobre o que é Senhor dos
Anéis, entendeu? Eu quero ler Senhor dos
Anéis e pegar o que é que tá dado lá.
Então, parte da do que é legal descrever
uma ficção é perceber como as pessoas
entendem aquilo que eu quis transmitir.
Ah, já recebi alguns feedbacks já de
pessoas entendendo e de como as pessoas
conseguem entender mais do que eu quis
transmitir. Não porque eba, acharam uma
coisa aqui que eu nem imaginei, mas é
que algumas coisas que você coloca ali
meio de passagem ressoam em algo da sua
vida particular e aí ganha uma camada
nova de interpretação. Eu acho isso
muito legal. Quando então eu escrever
esse livro, e aí eu vou trair tudo que
eu acabei de dizer e começar a explicar
um pouco, mas quando eu escrever esse
livro eu queria usar obviamente algum
dos dos recursos teológicos que são tão
comuns pra gente. Quando a serpente fala
no Éden, é um animal falando em uma
árvore, a gente tem a serpente
convidando Adão e Eva não só a
conhecerem o bem e o mal, é a serpente
que convida Adão e Eva a se tornarem
iguais a Deus e então arbitrarem o bem e
o mal. Então, o pecado primordial, né? O
primeiro pecado, a queda do homem. Esse
é um livro que fala sobre queda. A queda
do homem. Vocês vocês viram ler eu
lendo, né? Então, o medo é que o livro
fale sobre queda, né? É o medo que você
tem, mas em certo sentido fala sobre
queda. Não vou dar resposta. O, é um
livro que fala sobre essa vontade
primordial de ser Deus. A queda. O homem
caiu porque quis ser Deus. A vontade de
se levantar sobre Deus fez a gente, na
verdade, tropeçar e ficar quebrado para
sempre. Então, em parte, o livro ilustra
essa essa narrativa bíblica com relação
à queda.
>> Minha pergunta é: Quais são as
expectativas, se a expectativas de fato
do impacto da leitura do livro por
pessoas que não são no meio cristão?
>> Ah, que legal.
>> Eu faço essa pergunta porque quando você
bate o olho no título, quando você olha
a capa, ele é um livro que ele não é
aquela, ele não faz aquele aquela roupa
teológica, tudo, etc. que às vezes vai
arrastar o não cristão, mas ele é um
livro que eu consegui imaginar
perfeitamente presenteando alguém que
não é cristão. Fala, é um livro super
legal na história, né? E aí eu penso se
teve alguma expectativa, se tem algo por
trás do trabalho nesse sentido para
poder também trazer um que evangelista.
>> Sim, eu quero muito que esse livro, ele
é um livro de novo, ele é uma teodiceia
infantil, né? Então ele tem uma pegada
apologética, digamos assim, ele tenta
explicar o mal de alguma forma, né?
Explica, claro, não é um tratado
teológico, não pode ser. Queria que
fosse, mas não posso, né? Ah, o pessoal
que lê o meu livro diabo tá explicando
demais. Tem que mostrar, você não pode
contar. É show do tel, né? Então mostra,
constrói a narrativa para mostrar. Você
não pode ficar contando as coisas. E eu
sou um grande explicador, sou um grande
contador das coisas. Então de ficar
segurando esse impulso para poder
mostrar. Então como o livro ele mostra
coisas, ele mostra uma história que
tenta explicar o mal de alguma forma,
mas é um livro explicamente cristão, tá?
O cara que é ateu vai ler e talvez diga:
"Ah, isso aqui nada a ver, né?" Mas é um
livro que ele quer de alguma forma ter
uma pegada evangelística e apologética
também. Eu acho que é um bom livro para
dar para descrentes, até porque como é
uma teodiceia infantil, ele pode ser um
primeiro momento de reflexão sobre os
planos de Deus no meio das situações
difíceis, tá?
>> É, boa noite, me chamo Davi, sou aqui de
Fortaleza também. Algumas vezes você
falou sobre outras grandes ficções, como
seus Anéis, crônica de Nárnia e eu
lembro que uma vez você até falou em um
vídeo: "Cara, eu queria muito escrever
ficção, mas eu nunca gosto, nunca
consigo escrever". E eu queria saber uma
curiosidade, que é que mudou essa chave,
né? Você tá falando aqui não só desse
livro, mas de outros. O que é que mudou?
Acha tipo assim, cara, gostei disso
aqui, acho muito legal, acho que vou
publicar. Então, o que é que mudou isso
para você?
>> Eu não sei, eu acho que foi um processo
pessoal de maturação. Mesmo assim, eu
sei, eu conto, eu conto essa história,
né? Eu escrevi meu primeiro livro com 9
anos de idade, né? Em folhas de papel ao
maço da base aérea, se eu me lembro bem,
é da base aérea, que ela folha de papel
massa era, tinha um símbolo da base
aérea, eu acho. Era, não era? Veio
amarelada que meu pai tinha. Era uma
dramatização do jogo de Super Nintendo
Prince of Persia. Quem jogou, quem
finalizou era o irmão, viu? Esse era
difícil aquele jogo. E eu escrevi a mão
junto com o meu primo Alisson lá no
quintal de casa. Ele vi um monte de
páginas, não sei quantas foram.
>> E e obviamente se perdeu, obviamente.
Graças a Deus devia ser um lixo.
Obviamente as crias de mim 9 anos
porcaria. Mas eu eu me vê, eu escrevo
coisas desde lá, entendeu? Que eu penso
em histórias e quero escrever, faço
conto, faço poesia. Normalmente eu não
gosto muito das minhas ficções, nunca
gostei muito. Eu eu tava recém casado,
lembro disso, recém casado, morando ali
no primeiro ano do casamento. E eu
comecei, cara, vou escrever agora uma
ficção a sério. Agora vai, agora vem. Eu
lembro que escrevi seis capítulos de uma
obra ficcional, era um sci-fi super
legal. E aí eu escrevi, disse: "Não,
agora vou deixar maturar aqui, que é pr
poder daqui a uns meses eu ler e ver que
o projeto tem na história, deixei lá uns
três, qu meses, aí eu vou olhar aquela
ficção de novo." Aí fui, li inteiro e aí
eu li o arquivo, li inteiro, pensei
nele, fechei ali o meu meu Word, aí eu
cliquei shift delete, que é para não ter
perigo de eu morrer e alguém publicar
aquilo ali, achando que era uma obra
posta, mas é uma desgraça. Um lixo, um
lixo, uma porcaria intragável, não tinha
como salvar. E de lá para cá eu
continuei escrevendo coisas assim, uns
contos. Sempre que eu cheguei de
escrever contas, essas coisas. E eu acho
que não sei, eu demorei, se eu se eu
colocar dos 9 anos para cá, né? Eu
demorei aí uns 32, 33 anos. Ah, não, 28,
[música] eu não sei. Minha matemática
foi embora, perdi matemática. Se eu
colocar lá, quando eu comecei a escrever
a sério, que foi uns 12 anos atrás para
cá, demorou uns 12 anos de eu tentando
escrever ficção até eu começar a
escrever e achar: "Rapaz, esses contos
aqui estão legais, essas histórias estão
legais". Eu não acho que eu tenho, por
exemplo, capacidade para escrever uma
grande obra de 300 páginas. Eu não me
sinto confiante para isso hoje, mas eu
me sinto mais confiante hoje já para
produzir esses [música] esses livros
menores, assim. Eu acho que um fator
muito relevante foi eu ter primeiro
gostado do que eu escrevi. Eu acho que
claro que elogio em boca própria é uma
porcaria, né? Mas é muito importante
você gostar do que você escreveu. Então
você escrever achar ruim é muito ruim,
né? Se nem tu que era aquele que quem
tinha que gostar mais do negócio, não tá
gostando, né? Avalia os outros. Aí eu
mandei pr alguns colegas que publicam
[música] ficção, que são autores de
ficção, leram e gostaram também. Aí eu
mandei para meu editor da Mundo Cristão.
Eu não tava muito confiante, eu queria
publicar um livro só com as 10, mas o
menino queria ser Deus tava, tinha um
negócio ali que me pegou. É uma de todo
mundo cristão, né? Eu tá, ele tava
publicando muita, muita ficção. Eu
disse: "Daniel, lê aqui, me diz se
presta, se tem futuro. Se se pode, pode,
se acha que tiver uma porcaria, pode
dizer: "Me ofende não, eu sou teólogo,
não sou autor de ficção. Eu posso ser
ruim nisso aqui. Não, não, não ofende o
meu ego não, porque tem coisa que a
gente aceita ser ruim, né? Eu eu posso
ser um mau atleta, sei lá, eu posso
correr mal, entendeu? Tudo bem, minha
vida não é isso. Se tu disser tá errada,
aí eu vou ficar triste. Aí sermão foi
ruim, aí eu vou chorar explodindo no
banho, entendeu? Mas se minha ficção
tiver ruim, tá tudo bem. Eu escrevi a
segunda ficção, mandei hoje pro editor e
pedi o seguinte: agora tu que vai dizer
se foi uma cartada de sorte ou se talvez
algum talento aí, né? Que se o segundo
tiver bom também. Tentei fazer algo bem
diferente desse livro aqui para poder
não ter comparações também. Mas o
processo foi esse. Obrigado pela
pergunta.
>> É a o livro falando da questão de sérias
é a resposta do mal. Eh, como que o
senhor respondeu essa questão do mal
dentro do pensamento calvinista e como
explicar dentro da doutrina calvinista
essa questão do mal para uma criança?
>> Legal. A gente lida justamente com a
ideia da soberania de Deus, de um Deus
que sabe todas as coisas, que projeta
todas as coisas. A gente lida com a
ideia de um Deus que que planeja o bem
pra gente, né? Deus planeja o bem. Deus
faz coisas misteriosas que a gente não
entende. Esse é um dos pontos que eu
trato no livro, que é a ideia de que nós
não sabemos todas as coisas, nós não
entendemos porque é que Deus faz as. E
existem muitas ah muitos frutos
positivos de coisas que a gente não
entende, que muitas vezes parecem ruins,
mas fazem faz parte do plano de Deus,
né? Uma uma das coisas boas de se
lembrar é que é muito mais consolador
ter um Deus que é soberano sobre as
coisas ruins que acontecem do que ter um
Deus que as coisas ruins acontecem a
revelia da vontade dele. Eu prefiro
saber que ele tá cuidando de mim mesmo
quando as coisas são difíceis do que as
coisas difíceis serem fruto de um Deus
que não conseguiu evitar que esse mal me
alcançasse ou o diabo deu um um bipés no
Senhor e e me pegou alguma coisa assim.
que a minha vontade é soberana ou
bastante para ir contra o plano cósmico
de Deus sobre o mundo. Então eu acho
difícil explicar o mal da perspectiva,
não calvinista. [risadas]
Como é que eu explico o mal da
perspectiva de liberdade libertária do
ser humano? É triste, é para mim é
doloroso. Eu sou calvinista, então para
mim é muito mais difícil entender a como
eu encontro paz em um mundo com tanto
mal o mal acontece a revelida da vontade
de Deus, do que encontrar paz em um Deus
que, por mais que eu não entenda,
planejou um mundo bom e planejou um céu
de glória de uma forma que inclui algum
sofrimento e alguma dor nessa vida.
>> Me chamo é
a professora aqui de educação infantil
está com a curiosidade.
>> Ah, que legal.
>> Porque as ilustrações preto e branco
teve algum significado, algum objetivo?
Claro. Preto e branco. É porque colorido
é muito caro.
E foi só isso mesmo, entendeu?
Literalmente só isso.
>> É claro que a listação de petreco também
é também é um recurso, né? A a limitação
é a mãe da criatividade, né? Então o
livro ele tem esse aspecto de desenhado
da lápis assim, né? Como ele é uma
criança numa escola, não é? Tem esse
aspecto de ser uma um desenho a lápis
feito, talvez num caderno, uma coisa
assim. Então, ter esse aspecto que eu
acho muito bonito, é porque, mas é isso,
é colorido, é muito caro. Eu conversei,
mandei uma mensagem essa semana pro meu
editor, eu falei, Daniel, quanto tem que
vender pra gente fazer uma edição
limitada especial de luxo, colorida
assim e tal, né? Ele ele ele não me
respondeu, acho que ele não levou a
sério, ele respondeu outra coisa assim,
>> ele falou: "Rapaz, tem que tem que orçar
aqui, tem que fazer um orçamento, sei se
vai não, mas eu gostaria se pudesse, mas
que é absurdo. O livro preto e branco já
custa R$ 69. Se eu colocasse colorido,
né, aí ia me tá sempre lucado, porque
depois da pandemia o preço da matéria
prima para livro nunca ficou, nunca
voltou normal. Tá caríssimo tudo mesmo.
Eu queria ter uma resposta mais elegante
para lhe dar, mas é só uma questão
orçamentária mesmo. Mas aí o o de novo a
limitação é a mãe da criatividade. Eu
acho ficou um aspecto muito legal essa
pintura parece lápis e tal.
>> Confila partir de qualidade.
>> Esta é a maior polêmica da história
desse livro. A mundo cristão colocou
como oito, eu acho. A partir de oito. Eu
vou dar um ilust, vou dar, vou usar um
exemplo meio bossal, né? Mas assim, você
lêu o Pequeno Príncipe, Pequeno Príncipe
é um livro que é infantil, mas que você
só entende direito quando é adulto.
Então o o a melhor ilustração que eu
posso dar com relação ao livro é meio
essa, assim. E eu acho que o livro ele
tem essa pegada meio infanto juvenil,
assim, o personagem principal é uma
criança, há uma discussão muito
infantil. Eu, como eu uso o ponto de
vista da criança ao longo do livro,
existe uma narrativa muito simplificada
de algumas coisas que eu acho que pra
leitura da de algumas crianças vai fazer
sentido para ele. Eu acho que eles só
vão pegar tudo com o tempo, ser mais
velhos e tal. Eu acho que o livro ele
pode ensejar boas conversas entre pais e
filhos. E aí eu acho que é uma vantagem
muito grande. Eu não escrevi o livro
pensando em crianças quando eu escrevi.
Quando eu mandei pra editora, eles
julgaram que o livro ele tinha um
aspecto de fonte juvenil muito legal que
dava para vender como livro de fonte
juvenil de oito pra frente, algo assim.
A minha esposa acredita que não é um
livro pra criança e que os pais vão
ficar com raiva de mim. Ela acha que eu
acha que o livro é muito pesado pra
criança. Eu não acho que é pesado. É
pesado. Não é pesado, mas minha esposa
acha que é muito a complexidade do do
aspecto narrativo lá é meio pesado para
criança. Eu não acho que é pesado. Eu a
Natália a Natália da Mundo Cristão,
quando eu mandei o livro para ela, ela
achou que era um livro pra criança, né?
Lá vamos fazer uma leitura pra criança,
não sei o que e tal. Eu dis: "Natália,
você lê o livro?" Ela falou: "Ainda não.
Você pegamos agora aqui, estão montando
aqui o projeto. Lê e depois me diz". Aí
deu, tipo assim, uns 30 minutos, ela
Iago, pelo amor de Deus, eu estou
traumatizada.
Isso não é um livro infantil.
Aí a piada agora que eu faço com meus
amigos é isso aí, vamos traumatizar as
crianças, né? Ah, eu não acho que vá
traumatizar ninguém cá entre nós,
>> mas a sua esposa acha.
>> Minha esposa acha que vai traumatizar.
Eu não acho que vai, certo? Minha esposa
acha. E aí essa virou uma grande
polêmica e uma grande brincadeira assim.
É um livro infante juvenil mesmo, é um
livro infantil, é um livro para adulto.
Eu acho que é um livro para todas as
idades, assim, é um livro tranquilo para
todas as idades. Tem uns uns momentos de
tensão complicados, talvez. Aí eu eu quo
pros pais, eu digo assim: "Lê, lê
primeiro, entendeu?" Eu não acho que é
um livro ruim pra criança. Acho que
talvez a criança talvez não pegue
algumas coisas, você ler pro seu filho
vai ser uma coisa muito boa, vai ter
ótimas conversas que vão surgir daí. A
criança pode não entender o livro
inteiro, pode não pegar profundidade de
algumas partes, mas existem momentos
muito tranquilos para falar sobre a vida
infantil, sobre questões que surgem na
cabeça da criança, que aí você consegue
explicar em cima do livro, vira um
momento devocional entre a família. Mas
é o que eu digo para pros pais
geralmente é lê lê primeiro, você
decide, você vai ler pro seu filho. Eu
acho que é um livro muito bom pra
criança assim, eu acho que vai pegar. Eu
ainda não li pra Catarina porque eu
queria ler mostrando os desenhos, né? E
aí eu esperei o livro chegar para eu
poder ler para ela, só que chegou antes
de eu viajar. Aí não deu para ler. Aí eu
perguntei: "Você quer que a mamãe lia
para você ou você prefere que o papai
lêia?" Que a Isa já lia, né? Aí não, vou
esperar o papai voltar para para ler. Aí
eu vou ler pra Catarina domingo ou
segunda-feira. Vai ser o meu momento de
ler pra minha filha. Eu li para vários
amigos esse livro. É engraçado. E amigos
lá em casa e gente escrevi uma ficção e
tal e eu lia o livro para meus amigos
adultos assim. Então eu projetava o
celular na TV e ia lendo assim o as
páginas de Word lá com eles [música]
lendo. E assim é eu tinha amigo adulto
chorando assim, chorando na sala de
casa. adulto, né? Então assim, eu eu
acho que vai ser um livro legal para
pros pais. Os pais vão gostar muito. Eu
acho, eu acho que vocês vão querer muito
que os filhos de vocês cresçam com essa
história. É a resposta mais evasiva do
mundo, né? Mas é muito sincera. É muito
sincera.
>> Qual é a importância que a literatura?
>> É o resgate do imaginário, né? É o
resgate da possibilidade de de pensar,
de perceber o mundo na sua na sua
grandeza, na sua mágica. Um termo que é
muito usado na na sociologia é um termo
técnico, né? de eles falam de
secularização e a secularização é
definido como a perda do mundo mágico,
ou seja, não existe mais sobrenatural,
agora tudo é descrito naturalmente. E eu
acho que a gente precisa de de um, o
termo que o que o token vai usar é
recuperação. A gente precisa da
recuperação. Então ele diz que quando eu
leio sobre dragões, eu vejo melhor os
cavalos. Então quando a gente começa a
se entreter, porque é uma peça de
entretenimento em certo sentido, né? um
filme, uma música, uma peça artística,
com e a gente se entretém com coisas que
possuem profundidade para nos fazer
enxergar o mundo diferente, né? A gente
recupera algo que a gente perdeu. O CS L
dizia que enxergar o mundo por dois
olhos é muito pouco. Só tenho dois e só
posso chegar o mundo por esse lugar.
Quando eu vou pra literatura, eu tô
encontrando outros pares de olhos para
enxergar o mesmo mundo. E quanto mais eu
leio, mais olhos eu tenho para enxergar
a realidade, melhor eu vejo o mundo,
porque eu vejo pelos olhos de outras
pessoas. Então o que eu tento com esse
livro é tentar fornecer mais um par de
olhos para vocês. É tentar enxergar a
dor, o sofrimento, a história de vida, a
perda, o luto, a depressão, a o senso de
abandono, por mais um par de olhos e
esse par de olhos poder contribuir com o
processo de enxergar o mundo melhor.
Então eu acho que a gente precisa voltar
a isso. A gente não pode escrever só
pensando no que é mainstream, no que vão
querer mais, no que vai ser, não era
sete passos para entender o sofrimento.
Era isso, né? Mas quando a gente monta
uma história, a gente quer poder dar um
pouco mais disso. O bom de ensinar sobre
sofrimento através de uma obra ficcional
é que eu não tô só dando proposições
técnicas, eu tô tentando ajudar a montar
um imaginário que corresponde à
compreensão do que Deus tá fazendo. Eu
acho que isso são coisas que a gente
perde muito quando a gente perde a
fantasia. E é e esse é meu pequeno
esforço para tentar resgatar isso, mais
uma pedrinha nessa grande parede, né?
tentar resgatar um forte imaginário
cristão acerca da vida e do sofrimento.
>> O menino, ele realmente queria ser Deus
ou são apenas indagações pessoais dele
sobre o dilema humano?
>> A ideia é justamente que dentro do
dilema humano, né, o problema da dor,
faz com que na mente infantil dele, ele
ele encarne de forma muito literal
aquilo que nós, como indivíduos,
[música] geralmente vivemos de forma
mais espiritual e metafórica. Se eu
perguntar para qualquer um aqui, você
quer ser Deus? Deus me livre. Que é
isso? Não, papai do céu, né? Ele lá em
cima. Mas a partir do momento que a
gente tenta viver a nossa vida pelos
nossos próprios meios, a partir do
momento que a gente tenta arbitrar para
nós mesmos o bem e o mal, né? A partir
do momento que a gente tenta fugir
daquilo que Deus planejou para nós como
humanidade, para fazer as coisas do
nosso próprio jeito, a partir do momento
que a gente não confia no plano dele pra
nossa vida e a gente acha que poderia
fazer escolhas melhores do que as dele
pra gente, a gente tá tentando ser Deus
de alguma forma. O que Dandã faz, que é
uma coisa que crianças fazem, é deixar
muito [música] explícito e muito claro
aquilo que a gente sabe disfarçar
melhor. Então, a gente não quer ser
Deus. Eu só acho que que isso aqui podia
ser diferente, né? Eu não quero ser
Deus, não. Deus me livre, mas se eu
tivesse no lugar de Deus, eu teria feito
algumas coisas diferentes de conforto,
teria me colocado em outra família,
teria me colocado em outro país, teria
me colocado, né, com herança muito gorda
aí, às vezes com outra cor de pele, com
outra outro formato de corpo, não é? com
outra capacidade cognitiva, sei lá,
[música] teria me colocado em outro
casamento, teria me dado outros filhos
ou outros pais. A gente, em certo
sentido, é um grande dandã, né? Nós
temos um dandã dentro da gente que se a
gente fosse Deus, nenhum joelho tinha
arranhão. Se a gente fosse Deus, a gente
só caía em pé, né? Mas a gente continua
sentindo que o nosso quebra-cabeça só
tem buraco, né? E aí Dandã ele deixa
isso muito bem verbalizado pra gente que
eu tentei fazer. É porque assim, é a
experiência que eu tenho com crianças,
com os meus próprios filhos, né? Eles
verbalizam as coisas de forma muito
clara, muito direta e muito ah eles não
têm muita papa da língua, né? Eles não
disfarçam as coisas, eles dizem as
coisas com muita clareza. E aí eu acho
que eu tentei colocar na boca do Dandã
aquilo que a gente geralmente não tem
coragem de colocar na nossa própria
boca, mas [música] que Deus sabe que tá
no nosso coração. Gente, muito obrigado,
vocês são demais. Obrigado por estarem
aqui na sexta noite, lotando aqui o
espaço, lotando ali fora também.
Pessoal, vocês que já estão aí fora, me
perdoem por isso. Queria que vocês
estivessem sentado no aqui dentro, sei
lá. Ah, mas eu sou muito grato mesmo
pela pelo pela presença de vocês. Eu não
acho, nunca imaginei na minha vida que
haveria gente interessada em ouvir o que
estão para dizer, entendeu? De verdade,
nunca imaginei. Eu ainda me espanto, sin
ser sinceramente, eu me espanto muito.
Ainda que a gente consiga falar com
tanta gente, tanta gente seja abençoada,
não porque, ó, meu Deus, Iago, ó, é
porque assim, me sinto muito igual a
todos vocês. Vocês me darem essa
alegria, essa honra de poder falar e ser
ouvido, ah, é uma coisa que eu valorizo
muito, respeito muito, sou muito
[música] grato. Sei que é um é uma é um
presente vocês me dão, vocês me
emprestam os ouvidos, vocês me trazem
para dentro da casa de vocês no almoço e
nas famílias e e crianças nascem
[música] reconhecendo a minha voz e
tanto que as grávidas ouviram os vídeos,
né, nesse tipo de coisa. As criancinhas
no puerpério lá no no cercadinho ouvindo
na sala e sendo entretidas, né, da
galinha pintadinha tá no teólogo do
Twitter, né, desde cedo. Ah, gente, eu
me s e eu sei que isso está muito além
dos meus méritos. Eu sei que isso é é
fruto de um quase que de um
relacionamento assim que se constrói há
há muito tempo. Como eu falei no começo,
acho que antes da gente começar, por
mais que eu não possa receber daí para
cá no sentido de conhecê-los, né, vocês
me colocam na casa de vocês. Eu acho que
isso é é uma coisa que eu tenho que
respeitar muito e honrar muito. Tento
honrar com o conteúdo que eu produzo,
fazendo sempre o melhor que eu posso.
Isso se reflete também nas obras
literárias, sempre tentar entregar algo
que seja realmente edificante. Você
gastou um dinheiro suado do seu trabalho
para comprar um livro meu, você vai
gastar o seu tempo de vida para colocar
essas palavras à frente do seu rosto. Eu
espero poder recompensá-los com uma
história que seja intrigante, com um
livro que seja educativo, com um vídeo
que seja instrutivo. Aqui no M você
passa raiva junto comigo e e se
entretenha. Ah, eu espero que esse livro
possa abençoar [música] a vida de vocês,
certo? Nem que seja um pouquinho, tá
bom? Obrigado.
[música]
A chuva tamborilava no telhado de zinco
da creche escola. Uma melodia irregular
que se misturava aos risos e coxichos
[música] das crianças. A sala de aula
exalava o cheiro familiar de gigera e
tinta guache. Dona Maria, com seus
cabelos grisalhos e óculos de aro fino,
sorria com paciência enquanto tentava
manter a ordem em meio à tempestade que
rugia lá fora. Dandã, de 6 anos, estava
sentado na primeira fileira, os olhos
fixos nas gotas que escorriam pela
janela. A chuva parecia conversar com
ele, cada gota ciente de seus
pensamentos mais ocultos. Por um
instante, o riso dos colegas tornou um
ruído distante, abafado pelas lembranças
que insistiu em voltar. Ele sentia falta
de muitas coisas, do cachorro salsicha,
das noites de filme em família, de
correr pelo jardim da avó até cansar e
depois relaxar ouvindo as histórias que
ele contava, que ela contava com a voz
rouca, mas calorosa. "E você, Dandã, é a
sua vez? O que você quer sair quando
crescer?",
perguntou dona Maria com um sorriso
encorajador. Dandã olhou em volta.
perdido, como que retirado de um trans?
Sua resposta, porém, deixava claro que
ele não tinha nenhuma dúvida. O tipo de
convicção que só se encontra quando já
pensou repetidas vezes no assunto: "Eu
quero ser [música] Deus".
A sala ficou em silêncio. Então
começaram os coxichos. Alguns alunos
olharam para Dandã com estranheza, mas
ele manteve o olhar fixo na professora,
como se tivesse dito a coisa mais
natural do mundo. Dona Maria ajeitou os
óculos. O silêncio da sala permitiu que
se ouvisse o som forte da chuva batendo
nas janelas [música] da escola. E se
alguém prestasse atenção, perceberia
alguns gritos abafados ao longe, vindo
de quem se incomodava em se molhar
desavisadamente. "Não é um bom dia para
chover", pensou a professora.
Funcionários da escola faziam manutenção
na caixa d'água que ficava no espaço
externo, na laje do segundo andar. Ou é
isso é, ou isso é água vazando. Dona
Maria se distraiu por alguns segundos,
mas então olhou de volta para as outras
crianças, percebendo que teria o desafio
de transformar aquela conversa maluca
[música] em algo produtivo. Você acha
que pode ser Deus, Dandã? Ela inclinou a
cabeça com leveza. E por que você quer
isso? Dandã respirou fundo antes de
responder, mas falou como se já tivesse
a resposta na ponta da língua, os olhos
piscando depressa. Ele me daria poderes?
As outras crianças riram em tom de
troça. Isaías, o mais velho e mais alto
da sala, zombou. Se você for Deus, já
vai ter poderes, bobão. Larinha gritou
ao fundo. Isso é coisa de desenho,
Dandã. Deus é para rezar. Não dá para
rezar e virar Deus. O rosto do menino
corou. E quando novas risadas começaram
a diminuir de volume, ele olhou pr pra
professora Cisudo. Mas eu não posso ser
o que eu quiser. Eles todos querem ser
alguma coisa sem graça, médico,
cozinheira, astronauta. Eu queria ser
Deus. Aí não, né, Dandã? A professora
disse, tentando aliviar a atenção com um
sorriso. Isso é um pouco ambicioso, não
acha? Dandã não sorriu de volta. Ele
cruzou os braços, pronto para defender o
seu ponto de vista até o fim. [música]
Ser deus deve ser muito legal. A
professora piscou rapidamente algumas
vezes, como se tentasse evitar uma mosca
perto dos olhos, ainda sem [música]
saber ao certo como continuar a
conversa. Em geral, os alunos falavam
algumas profissões ou sonhos mais
tangíveis, mas Deus, isso era inusitado.
Essas crianças de hoje em dia, não é
mesmo? Bem, você pode soar alta, sonhar
alto, é claro, mas ser Deus, ele fez uma
pausa buscando, ela fez uma pausa
buscando as palavras certas. Porque
exatamente você quer ser Deus, Anda. Ele
franziu a testa. A resposta lhe era
óbvia. Deus pode fazer tudo. Ele criou o
mundo. Ele fez todo o universo, mas tem
muita coisa que não está certa. Eu
poderia ser um Deus muito mais legal. A
professora sentiu um arrepio correr a
sua espinha. Ela se curvou um pouco e
falou devagar, expressando [música] cada
palavra com a voz adocicada. Olha, ser
Deus também significa ter muita
responsabilidade. Olhou em volta como
que procurando o melhor caminho para
argumentar. É cuidar de todo o universo,
ouvir as preces de milhões, ou melhor,
bilhões de pessoas e bem fazer escolhas
complicadas. Você acha que isso seria
fácil? Dandan suspirou. Ela não tava
entendendo. Não é difícil, tia. Eu sei
que se eu fosse Deus, eu conseguiria
resolver as coisas. Dona Maria não sabia
como seguir com a conversa, então
decidiu continuar perguntando aos outros
alunos da creche escola o que é que eles
queriam ser quando crescessem. Nadã
ficou emburrado, teve a impressão de que
sua resposta não havia sido levada a
sério. Ficou assim até o fim da aula da
manhã e acabou não querendo aproveitar o
tempo de parquinho antes do almoço.
Sozinho ao pé do escorregador, via os
colegas se divertindo pela grama
molhada. A chuva havia arrefecido,
embora as nuvens continuassem escuras.
Os outros alunos perceberam que Dandã
não estava brincando e vieram chamá-lo.
Ele tinha achado que Isaías, que sempre
gostava de tirar sarro dos outros, ia
continuar zombando dele. Mas a turma se
aproximou com sorriso, como se ninguém
ligasse pro fato de ele querer ser maior
do que todos eles. Só a Clarinha lá
pelas tantas tocou no assunto. Quando
você for Deus, qual poder você quer ter?
Dandã olhou pra Clarinha, um pouco
surpreso pela pergunta sincera. [música]
Seus olhos, antes turvos e perdidos em
pensamentos, agora ganharam um brilho.
Ele desenhou um círculo no chão com a
ponta do tênis enquanto pensava na
resposta. "Eu acho que eu queria o poder
de fazer ninguém chorar nunca mais",
disse com a voz um pouco mais baixa,
mais firme. "Mas também queria acabar
com as coisas ruins, como quando quando
alguma coisa ruim acontece e ninguém
pode fazer nada". Clar franziu o senho e
deu um pequeno passo à frente. Mas
Dandã, Deus não deixa as coisas ruins
acontecerem só porque gosta. Minha mãe
diz que às vezes ele deixa a gente
aprender com que é difícil, tipo quando
a gente cai e aprende a olhar onde anda.
Dandã bufou. Aquela explicação não lhe
parecia suficiente. Mas isso é injusto,
Clarinha. Se eu fosse Deus, não deixaria
ninguém cair, não deixaria ninguém ficar
triste. Deus podia ter feito um mundo
onde todos fossem felizes o tempo todo e
sempre caíssem em pé. Se eu fosse Deus,
nenhum joelho teria arranhão.
Clarin olhou para ele com uma mistura de
tristeza e paciência, tentando juntar as
palavras espalhadas em sua mente. Dandã,
se a gente nunca ficasse triste, como ia
saber quando tá feliz? Minha avó fala
que o arco-íris só aparece depois da
chuva. Se não tivesse chuva, nunca
teríamos o arco-íris. Ele é tão bonito.
Os olhos de Dandã imediatamente se
encheram e transbordaram, acompanhando a
chuva que voltar a cair. Clarinha se
assustou. Ela achou que Dadã ia ser
grosseiro, mas ele falou entre soluços e
pequenos gemidos de choro. Mas e se a
chuva nunca fosse Mas e se a chuva fosse
sempre bem fraquinha? Nunca forte
demais. Por que tem por tem que ter
tanta dor? Porque tem que ter maldade.
Se eu fosse Deus, não teria dor de jeito
nenhum. De jeito nenhum. Sua voz foi
minguando. Não precisava ser assim.
Clarinha olhou pro céu nublado,
procurando respostas entre as nuvens.
Ela nunca tinha visto ninguém chorar
assim, sem ter ficado de castigo ou
apanhado dos pais. Talvez, Dadã, Deus
veja coisas que a gente não consegue.
Minha mãe diz que ele tem um plano
grande e que às vezes a gente só enxerga
uma parte bem pequenininha, como quando
a gente tá montando um quebra-cabeça e
ele ainda não está pronto. A gente quer
muito ver o desenho, às vezes acha que
alguma peça está faltando, [música] mas
no fim das contas a gente monta tudo.
Meu pai sempre faz um quadro e coloca na
parede quando a gente termina de montar.
Dandã respirou fundo e secou os olhos.
Eu sei, Clarinha, mas e se o
quebra-cabeça nunca ficasse completo, ia
ser legal para você? Claro que não,
Dandã. Ele teve um rompante de ira e
falou quase que em um grito. Pois o meu
está todo faltando, só tem buraco. Dandã
saiu batendo os pés em direção ao outro
lado do parquinho. Clarito o que tinha
acontecido e ficou com medo de tentar
explicar que mesmo se o quebra-cabeça
tivesse buraco, ainda seria legal a
noite de jogos com seu papai.
Simplesmente porque era bom brincar com
ele. Gotas começaram a cair suavemente
do céu. O tempo de parquinho teria de
acabar. Antes da chuva engrossar de vez,
suou o alarme que marcava o fim do
intervalo e as crianças correram
animadas para formar uma fila na área
coberta. Ao chegarem à cantina, Dandã
mal tocou o seu arroz com feijão preto.
Sobraram vários pequenos cubos de carne
e os pedaços de maçã pareciam farientos
na boca. Isabel, auxiliar que cuidava
das crianças na cantina, insistiu para
que Dandã comesse mais.
porém só conseguiu que ele desse umas
duas espetadas no garfinho de carne,
[música] na carne, e uma mastigada sem
vontade. Ao perceber a falta de apetite
e os olhos avermelhados do menino, tia
Isabel se assentou ao lado dele,
preocupada. Oi, meu amor, você não quer
comer hoje? Ninguém quis te empurrar no
balanço mais uma vez, tia? A voz de
Dandã estava mais tímida que o normal.
Por que Deus tira da gente o que a gente
gosta? Isabel respirou fundo. Ser pega
de surpresa por perguntas difíceis de
criança já era rotina, mas aquela era
uma pergunta difícil até para adultos.
Essa é uma pergunta que muitas pessoas
fazem, sabia? Começou ela com um sorriso
compreensivo. Deus é todo poderoso e é
bom. Sim, mas ele também deu liberdade
às pessoas para fazerem escolhas. Às
vezes essas escolhas machucam os outros
e até a nós mesmos. Isso não significa
que ele cria as coisas ruins, mas sim
que permite que o mundo siga com essa
liberdade para que a gente possa
aprender, para que a gente possa
aprender a amar e a fazer o bem de fato.
Dandan franziu a testa e balançou a
cabeça, não satisfeito. Mas tia Isa, tem
coisas ruins que acontecem que não tem
nada a ver com escolha, tipo quando
alguém fica doente ou quando quando uma
coisa triste acontece de repente. Se
Deus pode fazer tudo, por que ele não
para isso? Ele não gosta da gente de
verdade?
Tia Isabel se inclinou um pouco mais
para perto dele. Dandã, eu sei que é
difícil entender. Deus gosta da gente,
sim, mais do que conseguimos imaginar,
mas o mundo em que vivemos tem coisas
que são resultados de muitas outras
escolhas e situações que começaram há
muito tempo. As dores e as coisas ruins
existem, mas Deus não fica feliz com
isso. Na verdade, ele prometeu que um
dia tudo será restaurado e que não
haverá mais dor. Dandã apertou os lábios
desviando o olhar. Mas isso ainda não
faz sentido. Por que não consertar tudo
agora? Ele não pode tudo. Se eu fosse
Deus, não deixaria ninguém sofrer.
Isabel suspirou tocando de leve no braço
de Dandã. Às vezes nós pensamos que se
as coisas ruins fossem tiradas do mundo,
a vida seria perfeita. Mas as lições que
aprendemos com [música] os desafios e as
amizades que surgem quando ajudamos uns
aos outros momentos difíceis. Deus vê um
quadro maior dandã, um que a gente só
entende por partes agora. E mesmo sem
tirar toda a dor, ele está sempre com a
gente para nos dar forças quando mais
precisamos.
Dandã voltou o rosto para ela, brilhando
com a sombra de lágrimas que ele tentava
segurar. Então fechou os olhos com força
e perguntou sem olhar para ela, como se
pensasse alto: "Se Deus é bom, não
deveria ter nada ruim. Ele não é
poderoso. Se é poderoso e tem coisa
ruim, então ele faz as coisas ruins com
a gente.
Ô Dandã, você já é inteligente o
bastante para fazer essas perguntas
difíceis. Um dia você vai ser
inteligente bastante para achar as
respostas. Hoje você é uma criança.
Criança sabe perguntar bem, mas criança
ainda não sabe ainda entender direito as
respostas. Você precisa ter paciência e
saber que se continuar sendo esperto
assim, perguntando coisas difíceis, um
dia você vai crescer e saber responder
tudo isso bem direitinho. Mais uma vez
tocou o alarme da escola. Depois do
almoço vinha a hora da soneca. "Vamos
lá, Dandão. Vamos lá, Dandã," disse
Isabel. "Vem comigo na frente da fila.
Dormir vai te fazer se sentir melhor.
Era hora de vestir os pijamas, lavar as
mãos e a boca e descansar até mais um
tempo de parquinho, caso a chuva
passasse. Ao chegar ao dormitório, todos
se deitaram em seus colxõezinhos,
inquietos, ainda brincalhões. As
monitoras precisavam acalmar as
crianças, que, como geralmente acontecia
com Dandã, já não sentiam tanto sono
depois do almoço. Naquele dia, porém,
logo um sono pesado caiu sobre ele.
Quando dormiu, Dandã sonhou.
O sonho começou no jardim da sua avó,
onde ele passava a maior parte das
tardes. A avó sempre dizia que as flores
cresciam mais bonitas quando alguém
conversava com elas. Na frente da avó,
Dandã ria daquilo, mas falava escondido
com as plantas. Ele passava dias no
jardim conversando com ela, tentando
fazer as flores responderem. fechava os
olhos com força e desejava que as
borboletas se movessem ao seu comando,
que o vento ouvisse suas palavras e que
a terra se curvasse ao seu toque. Dessa
vez, porém, ele estava no jardim de sua
avó com uma motivação diferente. Se ele
pudesse controlar tudo isso, então
talvez seria Deus. Enquanto tentava
enquanto tentava falar com a natureza,
uma voz sussurrou ao seu ouvido. Você
quer ser Deus? Dandã, assustado, olhou
em volta. Não havia ninguém, apenas uma
borboleta pousada numa flor amarela. Ele
assentiu, sentindo seu coração bater
acelerado. A borboleta parecia imóvel,
com suas asas vibrando suavemente ao
vento e encarando ele com olhos
invisíveis. Ele assentiu outra vez, com
o coração ainda acelerado. Então,
siga-me. A borboleta bateu suas asas
devagar e voou. Dandã, sem hesitar, a
seguiu pelo jardim, atravessando as
cercas de flores, até chegar ao velho
coqueiro, que sua avó sempre dizia ser
mágico. A árvore parecia mais viva
naquele momento, suas folhas brilhando
como se absorvessem a luz do sol de uma
forma diferente. "Suba", ordenou a
borboleta.
Sem questionar, ele começou a escalar a
árvore. Seus pequenos pés encontravam
apoio nos galhos que pareciam se ajustar
ao seu peso. Quando chegou ao topo, a
borboleta pousou em seu ombro. Agora
feche os olhos", disse ela. Ele fechou.
De repente, Dandã sentiu uma leveza em
seu corpo. Parecia estar flutuando e
desprendendo-se da matéria. Ao abrir os
olhos, estava suspenso no céu. Abaixo
dele, o mundo parecia pequeno e
insignificante. Ele podia ver tudo de um
jeito novo. As pessoas caminhando nas
ruas, o vento soprando nas folhas, os
pássaros traçando linhas invisíveis no
ar. Eu sou Deus", pensou ele, sentindo a
onda de poder atravessar o seu corpo.
Dandã olhou paraas suas mãos à espera de
que raios de luz saíssem de seus dedos,
mas não saiu nada. Em vez disso, a
borboleta pousou em sua palma aberta.
"Agora você pode criar o que quiser",
disse a ela. Disse ela suavemente.
Dandã fechou os olhos e imaginou o mundo
perfeito. O mundo onde as flores sempre
desabrochavam. O sol nunca deixava de
brilhar e as pessoas viviam em paz.
Quando abriu os olhos, o mundo estava
exatamente como ele imaginara. Tudo era
belo e harmonioso. Ele havia feito isso.
Ele era Deus. Dandã acordou sem fazer
barulho. Ele se levantou [música]
convencido do que deveria fazer.
A porta nunca ficava trancada, porque a
professora vinha vez por outra conferir
[música]
se estavam todos dormindo, acalentar
crianças chorosas ou ajudá-las a ir ao
banheiro. Quando o Dan saiu de fininho
do dormitório, correu direto pra porta
do fim do corredor. Ao chegar de volta à
sala, Isabel deu de cara com
colchãozinho vazio. O susto foi
imediato. "Dona Maria!", gritou a
assistente desesperada. "Está faltando
uma criança. Corre aqui, pelo amor de
Deus". Dona Maria correu esbaforida. Ela
não tinha visto ainda, mas sabia
exatamente quem não estava lá. Ela só
precisava confirmar e confirmou.
[música]
Começou então o ensaio de busca por
Dandã na sala e nos corredores próximos,
mas um instalo na mente lhe forneceu a
convicção de que aquilo seria muito pior
do que parecia. Ao fundo, pelo canto dos
olhos, ela percebeu a porta que dava pro
telhado aberto, por onde os funcionários
costumavam subir para a manutenção da
caixa d'água. Seu corpo gelou por
inteiro. Ela sentiu uma pequena tontura,
mas a adrenalina lhe lhe recobrou as
forças. Correu como se fosse jovem de
novo. Dona Maria subiu às escadas com
coração acelerado, a mente inundada por
pensamentos e preocupações. O vento
soprava mais forte lá em cima, trazendo
consigo o cheiro de chuva e o som
distante do trânsito. Quando ela abriu a
porta que dava pro telhado, viu o dandã
em pé perto da beirada, olhando pro céu
como se tivesse esperando alguma
resposta. Dandã!" Chamou ela com a voz
trêmula. O menino não se virou de
imediato, continua olhando para as
nuvens que se moviam devagar cima dele,
alheio ao mundo ao seu redor. Depois de
alguns segundos, ele enfimou, os olhos
grandes e tristes, refletindo algo que
dona Maria não conseguia decifrar. "Por
que você está aqui, meu querido?",
perguntou ela, dando um passo cuidadoso
em sua direção. "Eu estava tentando ser
Deus, professora", respondeu ele. A voz
carregada de uma sinceridade que fez o
coração dela se apertar. Mas eu não
consigo. Eu não sei se ele deixa. Se eu
puder voar, eu vou poder ser Deus.
[música]

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