Sermões Online

A fé vem pelo ouvir

A Oração que Transforma as Orações | Josemar Bessa

A Oração que Transforma as Orações |  Josemar Bessa

A Oração que Transforma as Orações | Josemar Bessa

QUERO SER MANTENEDOR DESTE MINISTÉRIO:

Pix 21 999811424
Pix josemarbessa@gmail.com
Pix 011.737.737.62

PayPal – math_510@hotmail.com

Caixa Econômica Federal
Agência 4087
Operação 013
Conta 51850-3

Banco Inter ( Beleto bancário )
Agência 0001
C/ C 60240490
CPF 011.737.737.62
Claudia Vidal Bessa

Banco do Brasil
Agência 4315-x
Conta poupança 14957-8
Operação 051
Claudia Vidal Bessa

REDES SOCIAIS:

💻 Site: http://www.josemarbessa.com/
🐦 Twitter: https://twitter.com/JosemarBessa
📷 Instagram: http://www.instagram.com/josemarbessa
💎 Facebook: https://www.facebook.com/josemarbessa
💎 Facebook Page: https://www.facebook.com/pastorjosemarbessa
💌 Email: josemarbessa@gmail.com
🎬 Youtube – Josemar Bessa – https://www.youtube.com/user/JosemarBessa
🎬 Youtube – ReformedSound – https://www.youtube.com/user/reformedSound
🎬 Youtube – SpurgeonTv – https://www.youtube.com/user/spurgeontv

#JesusCristo #Evangelho #TeologiaReformada #Justificação #Graça

Legendas automáticas:

Deus diz eh em Gênesis e 18 a partir do
verso 16: "Não esconderei de Abraão o
que vou fazer". Agora, como nós
respondemos a algo assim? Há pessoas que
dizem que oram nessa cultura secular que
nós vivemos, muitas, talvez mais do que
eh admitiriam que creem. Oram, às vezes
oram em crises, oram quando a noite
aperta, quando eh a notícia inesperada
chega, oram quando o corpo falha, oram
quando o futuro fica escuro, oram quando
já não conseguem sustentar sozinhas o
peso da própria mente, dos medos e
ansiedades. E, no entanto, quando falam
sobre isso, quase sempre fazem uma
pequena distinção. dizem: "Sou
espiritual, mas não religioso. Gosto de
me conectar com alguma coisa maior, com
algo maior. Creio num poder, creio numa
força, creio numa consciência mais
ampla, creio no mistério, creio em algo
acima, mas não em religião formal,
frequentar um lugar, não em doutrina,
não em palavra, não em um Deus que fale
com precisão,
não é um Deus que tenha vontade,
não é um Deus que possa contradizer a
minha vontade. Esse tipo de
espiritualidade agrada muito ao homem
moderno, porque preserva a sensação e do
transcendente sem exigir submissão ao
Deus vivo. Manter um consolo do sagrado
sem o escândalo da autoridade divina.
permite certa linguagem de
interioridade, de profundidade, de
reverência vaga, sem nos forçar a lidar
com um Senhor real, com uma palavra
concreta, com um Deus que não pode ser
reduzido à projeção dos nossos afetos,
desejos e preferências.
Mas a Bíblia não nos deixa ficar aí,
nunca deixa. A Bíblia não conhece
espiritualidade como mera tentativa
humana de alcançar uma presença
superior, indefinida e vaga.
Não conhece oração como simples
exercício de sinceridade voltado para
cima. Não conhece o sagrado como
atmosfera. Na escritura, a verdadeira
espiritualidade começa do lado de Deus.
Começa quando Deus vem, quando Deus
fala, quando Deus se aproxima, quando
Deus se dá a conhecer, quando Deus rompe
o silêncio, não para confirmar nossa
imaginação, mas para nos chamar à
realidade.
Isso muda tudo, porque nesse caso,
oração já não é o homem procurando um
Deus como gostaria que ele fosse. É o
homem respondendo ao Deus que de fato é.
Isso é muito mais sério, muito mais
vivo, muito mais perigoso, muito mais
transformador. Porque um Deus imaginado
sempre nos acolherá nos termos do nosso
próprio coração,
das nossas próprias preferências, da
nossa própria
mente. Mas o Deus vivo entra para
refazer o coração. É isso que vemos
aqui. Abraão não está
tatiando no escuro, não está lançando
palavras ao vazio, não está dizendo:
"Haverá alguém aí em cima?" Não está
apenas tentando manter vivo uma sensação
espiritual, religiosa, elevada. O texto
começa de modo totalmente diferente. O
Senhor fala, o Senhor decide revelar, o
Senhor se aproxima, o Senhor abre seu
conselho. Ocultarei eu a Abraão, o que
estou para fazer?
Que frase extraordinária,
que começo para a oração. Esse é o
começo da verdadeira oração. Não começa
com a iniciativa do homem, começa com a
condescendência de Deus.
Não começa com Abraão subindo, começa
com Deus descendo. Não começa com o
desejo humano de tocar o céu.
[limpando a garganta] Começa com o Deus
do céu dignando-se falar a um homem que
é pó e cinza. Isso é tudo ou quase tudo,
porque
se esse ponto for perdido, a oração
inteira já foi perdida antes de começar.
Então, a oração verdadeira nasce da
revelação.
Não há oração verdadeira que nasça da
nossa própria iniciativa, ideia a
respeito de Deus.
Então, a oração verdadeira não nasce
primeiro do sentimento, nem da
necessidade, nem da crise, nem da
criatividade
religiosa. Ela nasce do Deus que se dá a
conhecer. Sem isso, o homem pode até
falar muito, pode até se emocionar, pode
até ter experiências interiores
intensas, místicas, mas continuará, no
fundo, orbitando a si mesmo.
Porque o Deus, ao qual ele fala, será
apenas a ampliação refinada de suas
próprias preferências. É por isso que
tanta espiritualidade moderna é tão
cálida e tão estéril ao mesmo tempo, tão
confortadora e tão incapaz de produzir
grandeza, transformação,
lidar com medos, ansiedades, tão
acolhedora e tão impotente para
remodelar a alma, porque no fim ela não
passa de uma conversa com um Deus feito
à imagem do coração humano. E um Deus
assim nunca nos levará além de nós
mesmos, porque
é apenas nós mesmos. Nunca nos
confrontará de verdade, nunca nos levará
a adorar tremendo, nunca nos obrigará a
crescer para dentro da santidade. Nunca
nos chamará uma vida que a carne
rejeita, que nossa mente naturalmente
não planejaria.
Porque esse Deus, no fundo,
é apenas o eu projetado sobre o céu.
Abraão não tem esse problema aqui. Ele
ora de verdade, porque ele não está
diante de um Deus que ele escolheu, está
diante do Deus que o escolheu. Não está
diante de um Deus que ele definiu com
sua mente. diante do Deus que o chama, o
corrige, o visita, o prova, o sustenta e
agora resolve compartilhar com ele um
aspecto do seu próprio julgamento, do
seu próprio juízo sobre Sodoma. Por isso
a oração de Abraão é tão viva, porque
não é exercício religioso genérico, é
resposta.
resposta a uma fala de Deus, resposta a
uma iniciativa divina, resposta ao
Senhor que se revelou.
E já aqui algo profundo eh aparece. Deus
fala com Abraão não apenas porque quer
informá-lo, mas porque o escolheu para
um propósito. Eu escolhi para que ordene
a seus filhos e a sua casa depois dele,
a fim de que guardem o caminho do
Senhor, praticando a justiça e o juízo.
Essa frase é central, central, porque
mostra que a intimidade de Abraão com
Deus não é um capricho místico, não é
privilégio vazio, não é uma experiência
privada. sem direção. Deus se aproxima
dele em aliança, em propósito, em
história, em vocação. Deus o chama para
uma vida que carregará o caminho do
Senhor para dentro da casa. Não um
Senhor inventado pela mente, mas levar o
caminho do Senhor para dentro da casa,
para dentro do futuro, para dentro da
história da promessa.
Isso significa que a oração desde o
início, está ligada não à mera
autoexpressão, mas a participação
naquilo que Deus está fazendo mundo.
Essa é uma diferença
imensa. O homem moderno costuma tratar
oração como uma ferramenta de bem-estar
interior.
Algo para centrar-se, algo para esvaziar
a mente quando está cheia, perturbada,
estressada, algo para lidar com
ansiedade, algo para manter alguma
sensação de conexão
com algo mais elevado. Mas aqui a oração
nasce no contexto da aliança, da
justiça, da promessa, da história
redentiva, do chamado de Deus para um
homem que não viverá para si mesmo.
Abraão é chamado para conhecer o coração
de Deus, a fim de andar nos caminhos de
Deus. E é exatamente isso que faz da sua
oração algo tão diferente de nossas
formas usuais de espiritualidade frouxa
da nossa cultura e, infelizmente, da
igreja dos nossos dias.
Então, como Abraão ora? Essa é a
primeira grande pergunta do texto. E a
resposta é surpreendente,
porque ele ora de um modo que rompe
quase todas as caricaturas que
costumamos ter sobre oração. Ele ora
responsivamente,
ele ora de forma extrema
e ele ora missionalmente.
Então,
comecemos pelo primeiro ponto, né? Ele
ora responsivamente. Isso quer dizer que
eh sua oração não é o início da
conversa, é a continuação. Deus falou,
Abraão responde.
Deus abriu o assunto, Abraão entra nele.
Deus revelou o que faria. Abraão se
levanta sobre essa revelação para falar
de volta. Esse é o padrão bíblico.
Sempre.
A verdadeira oração nasce da palavra,
nasce da revelação, nasce de Deus vindo
primeiro. É por isso que na escritura
oração e palavra nunca podem ser
separadas sem uma deformação
espiritual.
Sem a palavra, a oração tende a virar
uma projeção do nosso ego com suas
necessidades.
E sem a oração, a palavra tende a virar
uma formalidade seca. Mas quando Deus
fala e a alma responde, então nasce
vida, então nasce encontro, então nasce
uma espiritualidade real, não imaginada.
Essa percepção sozinha já corrigiria
muita coisa na vida dos cristãos dos
nossos dias. corrigiria a ideia de que
oração é apenas despejar sentimentos
diante do céu. Corrigiria a ideia de que
o importante é ser sincero, mesmo que o
Deus a quem se fala seja meio definido,
não tão conhecido
na sua palavra.
corrigiria a ideia de que qualquer
interioridade quente já é comunhão com
Deus, o que na verdade é apenas
misticismo.
Então, eh, corrigiria essa ideia tão
comum que qualquer interioridade
quente já é comunhão com Deus, não é?
Oração verdadeira é resposta ao Deus que
realmente falou, ao Deus que se deu a
conhecer, ao Deus que em sua palavra
mostra seu caráter, a sua vontade, seu
juízo, sua misericórdia,
sua santidade, sua aliança, seu caminho.
Se eu oro a um Deus como eu prefiro
imaginá-lo, estarei sempre seguro
demais, sempre confortável demais,
sempre reafirmado demais, porque jamais
sairei do círculo do meu próprio eu, das
minhas próprias ideias nas quais eu
criei um Deus que se encaixa.
Mas se ora ao Deus da Escritura, então
serei frequentemente atravessado,
frequentemente contradito,
frequentemente levado a regiões em que
minha intuição natural já não pode ser o
juiz final. E isso é bom, necessário,
vital, porque só um Deus que me
contraria pode me santificar.
Só um Deus que me excede me ampliar. Só
um Deus que eu não inventei pode me
conduzir a uma vida que eu jamais
produziria por mim mesmo. É por isso que
quando alguém lê a escritura e encontra
nela algo que o ofende, talvez devesse
tremer de gratidão, porque agora sabe
que não está apenas diante do eco do seu
próprio coração, está diante de Deus,
diante de uma alteridade santa, diante
de um Senhor que não é produto da
própria psicologia, diante de um Deus
crocante, por assim dizer, um Deus que
oferece resistência, um Deus que empurra
de volta, um Deus que não se dissolve
nos contornos de nossa da nossa
subjetividade.
Abraão está diante desse Deus, o Deus
verdadeiro. E por isso sua oração é
verdadeira. É por isso que a sua oração
é real.
Mas o segundo traço é ainda mais
impressionante. Sua oração é extrema.
extrema em duas direções ao mesmo tempo.
E é isso que a torna tão viva.
Ela é extremamente familiar e
extremamente reverente, extremamente
ousada e extremamente humilde,
quase escandalosamente
próxima demais e ao mesmo tempo quase
aterradoramente consciente da distância
entre criatura e criador.
Veja, Abraão fala com Deus de modo quase
desconcertante.
Ele insiste, ele volta,
[limpando a garganta]
ele empurra o argumento adiante. Ele não
aceita o primeiro sim como ponto final.
Ele pede mais, volta a falar,
aproxima-se outra vez, insiste outra
vez, desce de 50 para 45, de 45 para 40,
de 40 para 30, de 30 para 20, de 20 para
10. é quase uma negociação,
nãego
oriental que é tão eh eh é tão típica,
né? Quase uma ousadia que aos olhos de
muitos religiosos pareceria excessiva.
Onde está a distância protocolar? Onde
está a formalidade cerimonial? Onde
estão os filtros? Onde está a linguagem
intocável? Mas ao mesmo tempo, em nenhum
momento, Abraão é irreverente.
Em nenhum momento ele é leve diante da
majestade divina. Em nenhum momento ele
trata Deus como igual. Pelo contrário,
ele diz: "Eu sou pó e cinza". Ele pede:
"Não se ire o Senhor". Ele sabe que está
pisando em terreno santo, sabe que está
lidando com o juiz de toda a terra, sabe
que está falando não com um companheiro
cósmico, mas com o Deus santo. Isso é
extraordinário, porque normalmente
separamos essas coisas. Ou temos uma
religião muito reverente e pouco íntima,
muito formal e pouco viva, muito correta
e pouco pulsante, ou temos uma
espiritualidade muito íntima e pouco
reverente, muito emocional e pouco
santa, muito acessível e pouco tremenda.
Abraão junta
as duas coisas e essa união é uma das
marcas da verdadeira oração bíblica.
Quanto mais
ele sabe quem Deus é, mais ousado se
torna. E quanto mais ousado se torna,
mais humilde também. Porque a ousadia
não nasce da banalização de Deus, nasce
precisamente do conhecimento correto de
Deus.
Ele sabe que Deus é infinitamente santo,
por isso treme. Ele sabe que Deus é
infinitamente gracioso, por isso se
aproxima. Ele sabe que Deus é juiz, por
isso fala com temor. Ele sabe que Deus é
misericordioso, por isso pede mais. Esse
equilíbrio
é raríssimo e é exatamente o contrário,
tanto da religiosidade morta quanto da
espiritualidade sentimental,
sentimentalista.
A religiosidade morta costuma preservar
a majestade e perder a vida.
A espiritualidade sentimental costuma
preservar o afeto e perder a majestade.
Abraão tem ambos: tremor e confiança, pó
e cinza e ainda assim ousadia,
consciência da distância e ainda assim
aproximação.
Esse é o milagre de uma alma que conhece
o Deus vivo. Porque ninguém inventaria
um Deus assim. Nós deixados a nós
mesmos, sempre faremos de Deus ou um
soberano remoto e quase inalcançável,
ou um grande princípio afetivo, dócil e
aconchegante.
Mas o Deus da Escritura é, ao mesmo
tempo, mais alto do que tememos e mais
bondoso do que os homos esperar,
mais santo do que nossas liturgias
conseguem conter
e mais gracioso do que a nossa
imaginação religiosa conseguiria
fabricar.
É isso que torna a oração viva, não
morna, não vaga, não mecânica, mas viva,
perigosa,
íntima, aventureira, real. E então vem o
terceiro traço, talvez o mais
desconcertante de todos. Abraão ora
missionalmente, ou se quisermos dizer
com mais crueza, ele usa a sua
intimidade com Deus em favor de outros.
E não apenas de outras ou outros
agradáveis,
não apenas de gente justa, não apenas de
de pessoas da sua preferência. Ele ora
por uma cidade perversa, que ele acha
horrível, por uma cidade cheia de
violência, para uma cidade cuja culpa
subiu diante do céu,
por um lugar cujo pecado é grave. Isso é
espantoso porque nós quando pensamos em
oração, pensamos muito de pressa em
fortalecimento pessoal, em necessidades
próprias, em consolo, em direção, em
ajuda para o dia a dia. E claro, há
lugar para tudo isso. Mas Abraão está
fazendo outra coisa. Ele está levando eh
eh seu acesso a Deus
e tentando transformá-lo em instrumento
de misericórdia para outros.
outros que ele não admira, que ele nem
suporta.
Ele não aparece aqui com lista de
pequenos confortos, não aparece com uma
agenda estreita
focada nele. Não aparece apenas buscando
preservação privada. Ele se coloca entre
Deus e uma cidade que não é nada em nada
agradável a ele. E ele intercede, ele
suplica, ele argumenta, ele implora para
que o mal não receba imediatamente tudo
que o mal merece. Isso é assombroso.
Especialmente porque seria muito mais
fácil fazer outra oração. Seria fácil
dizer: "Senhor, tens razão, a cidade é
mar, julga.
Só tiro meu sobrinho de lá antes, não é?
Meu meu parente. Isso seria mais
simples, mais curto, mais compreensível,
mais aceitável. Mas não é o que ele faz.
Ele quer poupar a cidade, poupar,
perdoar,
sustar o juízo. Isso revela um coração
impressionante. Porque significa que
Abraão não está apenas interessado na
própria casa, na própria família, no
próprio sobrinho. Seu coração já foi
alargado pela comunhão com Deus a ponto
de se importar com uma coletividade
ímpia e má.
Ele não relativiza o mal de Sodoma, não,
mas também não desfruta a ideia de
juízo, porque ele sabe que ele mesmo
depende da misericórdia.
Ele não se deleita com a queda dos
perversos,
não usa a maldade deles como
oportunidade para autopromoção moral.
Ah, eu sou o melhor. Ele intercede.
Esse é um dos sinais mais profundos de
verdadeira oração. Quando a comunhão com
Deus nos torna menos centrados em nós
mesmos e mais carregados do fardo do
mundo. Quando começamos a orar, não
apenas a partir da nossa fome, mas a
partir da miséria ao redor. Quando a
nossa intimidade com Deus deixa de ser
instrumento de autoabsorção
espiritual e se torna lugar de mediação,
de súplica, de serviço sacerdotal. Isso
é raro. É precisamente por isso que o
texto nos atinge tão fortemente, porque
mostra,
mostra um homem que está diante de Deus
não apenas para obter coisas para si,
mas para interceder.
Não apenas para ser consolado, mas para
pleitear misericórdia para outros que
ele não conhece e que ele não admira.
Isso é oração madura, isso é
espiritualidade real. Isso é vida com
Deus que não terminou em sentimentalismo
privado, mas floresceu em compaixão
robusta e teologicamente informada. Isso
nos expõe porque a pergunta inevitável
é: é assim que oramos?
É assim que oramos pelo Rio de Janeiro,
por exemplo, que é a cidade que eu vivo?
Se é a cidade que você vive? É assim que
oramos pelo Brasil. Nossa oração é
resposta à palavra. Nossa oração tem
essa combinação de tremor e ousadia.
É assim que oramos pela igreja em todo
lugar, pela igreja local. Nossa oração
carrega a cidade, carrega os perdidos,
carrega os que nos incomodam, os que são
desagradáveis para nós, carrega até os
que merecem juízo, não é? Ou nossa
espiritualidade é quase toda uma
extensão do nosso próprio projeto de
sobrevivência.
Até aqui
isso já nos mostra muita coisa.
Mostra que a oração verdadeira começa
quando Deus fala.
Mostra que a oração viva junta humildade
extrema e ousadia extrema e mostra que a
oração madura não fica fechada na esfera
privada, mas se derrama em intercessão.
Mas ainda não fomos ao centro que ainda
não vimos por Abraão consegue orar
assim. De onde vem essa ousadia? De onde
vem essa liberdade?
De onde vem essa combinação tão rara de
tremor e intimidade?
De onde vem essa capacidade de pleitear
misericórdia sem perder a consciência da
santidade de Deus e de que todos merecem
juízo?
É isso que precisaremos abrir, não é?
Que a resposta não está em temperamento,
nem em técnica, nem em personalidade
e religiosa acima da média. está em
teologia.
Essa é uma visão de Deus.
Está no fato de eh Abraão aprendeu a
pensar diante de Deus e como Deus. E é
isso que torna a sua oração tão
poderosa.
Então, por que Abraão consegue
orar assim? Essa é a pergunta central,
porque se não a fizermos, a cena
permanecerá apenas impressionante,
bonita.
elevada, quase inspiradora, mas
distante.
E
a palavra não quer isso. Não quer apenas
que admiremos Abraão. Quer que
entendamos o que está acontecendo em sua
alma diante de Deus.
Quer que vejamos a estrutura dessa
oração, quer que percebamos que ela não
nasce de temperamento naturalmente
ousado, nem de mera sensibilidade
religiosa, nem de alguma inclinação
mística especial. Abraão não ora assim
porque é por natureza um homem
extraordinariamente sofisticado nas
emoções. Ora assim porque pensa
teologicamente diante de Deus.
E aqui está um ponto que muitos eh
perderam. A oração mais viva não é a
menos teológica, é a mais teológica.
A oração mais quente não é a menos
doutrinária, é a mais saturada de
verdade sobre Deus. A oração mais
intensa não é a que esqueceu quem Deus
é, é a que se apoiou mais profundamente
nisso. Muita gente imagina que doutrina
e oração competem entre si, que teologia
esfria, que pensar demais matervor, que
precisão sobre Deus atrapalha a
espontaneidade.
Mas a palavra de Deus mostra exatamente
o contrário. Abraão ora com vigor,
intimidade, humildade e ousadia, porque
sabe com quem está falando. Sabe não de
modo abstrato, apenas, não como quem
decorou proposições,
mas como quem conhece, ainda que em
forma inicial e peregrina, o caráter
daquele diante de quem ele está.
Ele tem pés, pés teológicos. Ele está de
pé sobre verdades a respeito de Deus. E
é justamente isso que lhe dá a coragem
de ir adiante.
Há, por assim dizer, dois grandes
pilares sobre os quais ele pisa enquanto
fala: justiça e graça. Esses dois. Se um
faltar, a oração morre. Se a justiça
faltar, tudo vira sentimentalismo
frouxo.
Não é apenas ao amor. Se a graça faltar,
tudo vira terror mudo. Mas Abraão
conhece ambos. E conhecendo ambos, pode
fazer algo extraordinário.
Argumentar com Deus a partir do próprio
caráter de Deus, da própria revelação
que Deus fez de si mesmo. Isso é oração
madura, isso é vida espiritual profunda.
Não apenas pedir, mas raciocinar diante
de Deus com base em quem Deus é, como
ele se revelou.
Não apenas despejar nossas emoções, mas
transformar a visão de Deus em
combustível de intercessão.
Primeiro, Deus é justo. Abraão sabe
disso, sabe profundamente, sabe de forma
não negociável.
E isso aparece na frase decisiva. Não
fará justiça o juiz de toda a terra?
Essa pergunta é retórica. Não está
realmente pedindo informação. Está
afirmando. Está dizendo: "Tu és o juiz
de toda a terra".
Tu farás justiça. Tu não podes agir
injustamente.
Tu não te negarás. Tu não tratarás o
justo como ímpio de um modo moralmente
confuso. Tu não te tornarás menos do que
és. Isso é impressionante, porque Abraão
não começa a sua intercessão pedindo que
Deus deixe sua justiça de lado, abaixe o
padrão, seja meramente sentimental.
Ele não começa dizendo: "Senhor,
desta vez esquece a tua santidade,
esquece teu juízo, passa por cima da
verdade moral do universo,
relaxe um pouco os teus padrões." Não,
ele não faria isso porque sabe que se
Deus deixasse sua justiça de lado, o
próprio mundo perderia sua esperança.
Esse ponto é essencial.
No mundo que ama
opor amor e justiça, graça e juízo,
compaixão e santidade, nós precisamos
ouvir isso devagar. Sem justiça não há
esperança nenhuma. Porque olha o mundo,
olha a violência, olha o abuso, olha a
exploração, olha a arrogância dos
poderosos e a arrogância de todos os
homens. Olhe a facilidade com que o
fraco é esmagado.
Olhe como o ser humano age em qualquer
classe quando ele se sente mais forte
que o outro. Olha a mentira
institucionalizada.
Olha a corrupção. Olha o derramamento de
sangue, olha as pequenas e grandes
formas de perversão humana. Se não
existe um Deus que julga retamente,
então o mundo está solto num absurdo.
Se não existe um juiz de toda a terra,
então o grito das vítimas sobe e não
encontra a resposta final. Se não existe
justiça divina, então o mal tem a última
palavra sobre multidões que jamais verão
reparação plena nesta vida. Portanto,
quando Abraão afirma que Deus é o juiz
de toda a terra, ele não está criando um
obstáculo para misericórdia. está
reconhecendo o fundamento da esperança
moral do universo. Deus é justo
e precisa sê-lo e continuará sendo.
Abraão não quer um Deus justo, não quer
um Deus sentimentalmente frouxo, não
quero um Deus que possa ser convencido a
ser moralmente menor do que é para se
tornar
um sentimentalista que rebaixa o seu
caráter.
Isso seria desespero, não esperança.
Isso seria perdição, não salvação. Se
Deus abrisse, irmãos da sua justiça, o
problema do homem não estaria resolvido.
O próprio Deus seria parte do problema.
Mas Deus não pode negar a si mesmo. Ele
é o juiz de toda a terra que fará o que
é reto. Mas segundo, Deus é cheio de
graça.
A Bíblia diz, João diz, né? O verbo
virou gente habitou entre nós e vimos
sua glória cheia de graça e verdade. Vê,
a Bíblia nunca separa essas coisas.
Então, Deus é gracioso. Aqui está o
outro pé, o outro pilar, a outra metade
da ousadia de Abraão. Se ele soubesse
apenas que Deus é justo, jamais poderia
falar como fala, apenas tremeria,
apenas calaria, apenas reconheceria o
juízo que todos merecem e nada mais.
Mas ele conhece algo mais. Conhece o
Deus que escolhe, o Deus que promete, o
Deus que vem a Abraão. Não porque Abraão
fosse em si mesmo impressionante, mas
porque o Senhor decidiu amá-lo na
eternidade e usar sua vida para abençoar
as nações.
Eu o escolhi. Isso importa muito, porque
significa que Abraão já sabe a essa
altura que sua relação com Deus não foi
construída por mérito. Ele não estava lá
na cidade dele buscando Deus. Ele já
tinha 75 anos e adorava a lua e todos os
deuses pagãos. Ele não estava buscando
nada que não fosse tudo aquilo que sua
cultura
pregava, adorava. Ele era um pagão,
adorador da lua. E Deus foi lá e o
chamou.
Ele não buscou Deus, ele foi buscado.
Ele não escolheu Deus, ele foi
escolhido. Então, Abraão já sabe a essa
altura que sua relação com Deus não foi
construída por mérito.
No começo, talvez tenha suposto coisas
sobre si, talvez tenha imaginado que
Deus o separara porque havia nele algo
naturalmente mais adequado.
Mas a caminhada o curou dessa fantasia.
Abraão já falhou muito, já mentiu, já
temeu, já tentou realizar promessas
divinas pela carne, já gerou confusão,
já mostrou fragilidade e mesmo assim
aqui está Deus ainda vindo, aqui está
Deus ainda falando, a que está Deus
ainda
comendo em sua tenda, ou seja, tendo
comunhão com ele. Aqui está Deus ainda
tratando em aliança, na aliança. O que
isso ensina? que Deus é gracioso, que
Deus é um Deus que se inclina, que Deus
é um Deus que não lida com seu povo
apenas segundo a estrita medida do que
ele merece em si mesmo, porque senão ele
merece exatamente o que todo mundo no
mundo merece e todo mundo que já está no
inferno merece também.
Então ele sabe que Deus escolhe,
sustenta, visita, perdoa, continua.
Abraão sabe disso, não apenas
teoricamente,
mas experiencialmente. Ele sabe que está
vivo diante de Deus por pura graça,
graça soberana. Sabe que a promessa
continua por graça, sabe que o próprio
fato de ainda estar em comunhão com Deus
já é prova de que Deus é um Deus que
poupa, suporta, perdoa, continua, ama.
Então agora temos os dois pilares:
justiça, graça, santidade, misericórdia,
juízo e paciência. O Deus que não pode
negar a retidão e o Deus que quer
mostrar a glória da sua graça. O Deus
que não relativiza o mal e o Deus que
não se deleita em destruir. O Deus que é
juiz e o Deus que chamou Abraão para ser
canal de bênção às nações.
É nesse ponto que a oração de Abraão se
torna, eu diria, genial,
porque ele não tenta eliminar nenhuma eh
nenhum desses lados.
Na igreja hoje você vê o tempo todo as
pessoas querem eliminar um lado. Então
ele não pede menos justiça,
mas não pede menos graça. Ele quer ambos
e mais do que isso. Ele quer que ambos
se encontrem
mesmo sendo algo que parece meio
impossível. E é aí que a intercessão
dele ganha a profundidade teológica
impressionante.
Abraão começa a explorar teologicamente
o caráter de Deus. Isso é maravilhoso de
ver, porque ele não ora de modo
superficial, ele pensa, ele raciocina,
ele argumenta, parte de premissas
verdadeiras sobre Deus. E a partir delas
ele avança.
Ele diz em essência: "Se tu amas a
justiça e és o juiz de toda a terra, não
poderias agir de modo que honre a
justiça e ainda assim poupe a cidade?
Se a justiça dos justos te é
preciosa, se a justiça em si te é tão
preciosa, não poderia ela de algum modo
ter efeito para além
dos próprios justos, deles mesmos? Se há
justos, não poderias, por amor à
justiça, poupar os injustos por causa
deles?
Veja a beleza disso. Abraão não pede um
perdão arbitrário, não pede um
cancelamento moral do juízo, não pede
que Deus fingja que o pecado não
importa.
Ele pede um tipo de de poupança que
honre a própria justiça de Deus. Ele
está, por assim dizer, procurando uma
forma pela qual a retidão de alguns
possa contar em favor de muitos.
Isso é espantoso e profundamente
importante, porque mostra que a grande
oração não é mera insistência emocional,
é discernimento
sobre Deus.
Eh,
é perceber o que Deus ama e a partir
disso pleitear.
É conhecer sua vontade e a partir disso
pleitear. vai conhecer sua palavra e a
partir disso pleitear. Abraão percebe
que Deus ama a justiça muito.
Ama tanto que talvez justamente por amor
à justiça pudesse poupar muitos por
causa de alguns justos.
Essa é a linha do argumento dele.
E ele vai pressionando isso, vai
descendo 50, 45, 40, 30, 20, 10. Cada
passo é uma exploração mais ousada do
caráter de Deus. Cada redução do número
é uma espécie
de novo teste da mesma pergunta. Com
longe vai tua misericórdia sem que tua
justiça seja abandonada?
Quão grande é o alcance da tua
misericórdia?
Quanto pode a retidão de poucos contar
em favor de muitos?
é quase de tirar o fôlego, porque Abraão
está se movendo na fronteira
entre o juízo e a graça. Está tentando
enxergar
no próprio caráter de Deus, na própria
natureza de Deus, uma possibilidade de
salvação que não destrua a justiça.
E Deus vai dizendo: "Sim, sim, sim,
sim."
É como se a cada resposta o coração de
Abraão fosse empurrado mais adiante para
dentro de um território teológico
surpreendente.
O território onde a pergunta começa a
emergir. Será possível que a justiça de
poucos conte para o perdão de muitos?
Será possível que a retidão de algum
modo cubra a culpa alheia?
Será possível que a bondade de um número
reduzido tem um efeito poupador sobre
uma totalidade indigna?
Essas perguntas começam a surgir aqui,
não plenamente respondidas, mas abertas,
insinuadas, plantadas. E isso já é
extraordinário.
Mas há um silêncio
em ensurdecedor também. Porque se Deus
foi dizendo sim para 50, 40,
40, 30, 20, 10,
se houver
10 justos, eu pouppo a cidade inteira.
Então uma pergunta começa a pulsar
enquanto olhamos. Uma pergunta
inevitável, uma pergunta que paira como
um trovão contido. E se fosse um? E se
houvesse um? E se existisse um justo,
verdadeiramente justo? E se a retidão de
um só pudesse contar em favor de uma
multidão de culpados?
E se o amor de Deus pela justiça fosse
tão grande que por causa de um justo
poupasse uma multidão?
É para aí que tudo parece caminhar.
É para aí que o texto parece nos
empurrar. E no entanto, Abraão para, ele
volta para casa, ele não faz a pergunta
final, ele não a formula, ele não diz:
"Senhor, e se houver um agora?" Por quê?
Por que ele não foi até o um? Porque ele
sabe que não há. Não ali, não em Sodoma,
não entre aqueles homens e mais.
Mas profundamente ele sabe também que
nem ele mesmo poderia ocupar esse lugar.
Então, Abraão encontrou a trilha
da salvação,
mas ele não tem o homem.
Ele viu a possibilidade,
ele é o primeiro que viu isso
claramente,
mas não possui a pessoa. Ele percebeu a
lógica que muitos hoje na igreja não
percebem,
mas não, ele não tem o justo.
E isso é de uma beleza dolorosa, porque
mostra que o próprio coração de Abraão
já está tatiando em direção a algo maior
do que ele consegue. Naquele momento,
ele não consegue ver plenamente, mas
está tatiando em direção a um mediador,
a um justo, a um representante, alguém
cuja justiça pudesse realmente contar
para outros.
está tatiando na direção do evangelho,
ainda em sombra, ainda em promessa,
ainda em forma inicial, mas tatiando. É
por isso que esse texto é tão vasto,
porque não é apenas uma aula sobre
intercessão, é uma janela para o próprio
coração da redenção,
uma janela ainda semiaberta naquele
momento, mas aberta o suficiente para
que nós vejamos a direção. Abraão está
tentando entender como um Deus
infinitamente santo e justo,
infinitamente gracioso, pode salvar
culpados sem deixar de ser justo e
santo. Essa é a questão, essa é a grande
questão de toda,
de toda palavra e de toda
espiritualidade séria, verdadeira.
Essa é a grande questão de toda a
consciência desperta. Como pode Deus ser
reto?
santo e justo e ainda assim não me
destruir.
Todo coração realmente regenerado chega
aí. Como pode Deus fazer justiça sem que
eu seja consumido por essa justiça?
Como pode o juiz de toda a terra
continuar sendo o juiz de toda a terra e
ainda assim poupar homens como nós?
Abraão sente essa tensão, não a resolve
totalmente, mas consegue levá-la e a põe
na mesa. E é exatamente isso que torna
sua oração tão viva. Ela é viva porque é
teologicamente honesta, não simplifica
Deus, não separa artificialmente seus
atributos. Deus e amor, ele vai dar um
jeito, ele dá um jeito. Não, não. Ele
sabe que eh não pode separar
artificialmente seus atributos.
E ele não sentimentaliza a santidade
como se fosse apenas um capricho que
Deus pode de vez em quando abrir mão.
Mas ele também não endurece a graça. Ele
leva tudo a sério, que Deus é totalmente
santo e que ele é cheio de graça.
Ele leva Deus a sério, leva o mal a
sério, leva a justiça a sério, leva a
misericórdia soberana a sério e por isso
consegue falar com essa ousadia
tremenda.
Essa é a razão da intensidade da sua
oração. Não é mero estilo pessoal, é
profundidade de visão.
Quem vê pouco de Deus ora pouco ou
ora uma oração não verdadeira. Quem vê
Deus de modo sentimentalizado, ora sem
tremor, ora de maneira sentimentalizada.
Quem vê Deus só como remoto ora sem
ousadia. Quem vê Deus de maneira rasa,
de forma rasa, ora de forma rasa. Mas
quem conhece algo da santa gravidade de
Deus e algo da sua espantosa bondade,
esse não consegue mais orar de forma
morna, porque sabe demais, sabe que está
diante do juiz de toda a terra e sabe
que esse juiz o escolheu, o sustenta, o
visita e o ouve. sabe que há fogo e sabe
que há aliança, sabe que há justiça e
sabe que há misericórdia,
sabe que é majestade e sabe que a
aproximação. Isso produz extrema
reverência e extrema ousadia.
Isso produz exatamente a temperatura da
oração de Abraão. Isso nos ensina algo
muito importante. A oração mais forte
nasce não de menos teologia, mas de
mais.
Não de menos visão de Deus, mas de mais.
Não de uma redução da santidade divina,
mas do encontro entre essa santidade e a
graça.
Ainda não chegamos ao fim, porque agora
precisamos ver que toda essa exploração
teológica de Abraão estava, na verdade
preparando o coração da história para
alguém maior do que Abraão. Alguém que
não apenas perguntaria sobre a justiça
de um em favor de muitos.
Alguém que seria esse alguém que não
apenas intercederia, mas ofereceria sua
própria justiça como base da poupança
dos culpados,
dos eleitos, não é?
Da cidade dos homens, da grande Sodoma
que é o mundo.
É aí que tudo isso vai dar. E é por isso
que se quisermos ter o que Abraão tinha
e mais, precisamos olhar além de Abraão.
Precisamos olhar para Cristo.
Mas isso ainda vem até aqui. A grande
lição é essa. Abraão ora sim porque
conhece
o Deus da justiça e o Deus da graça. E
conhecendo, pode argumentar não contra
Deus, mas a partir de Deus.
pode pleitear, não apesar do caráter
divino, mas justamente por causa dele,
do caráter divino. Isso é oração viva,
isso é oração real, isso é oração
formada pela revelação.
Há momentos
na escritura em que a verdade parece eh
eh parar um passo antes da explosão
final, como se a mão de Deus abrisse uma
porta, mas não totalmente. como se a luz
entrasse, mas ainda apenas um feixe
estreito, como se o coração fosse levado
até a borda de um abismo glorioso, mas
ainda sem ver tudo o que há lá embaixo.
Esse é um desses momentos. Porque depois
de toda a ousadia de Abraão, depois de
toda a descida dos números, depois de
toda a argumentação apoiada na justiça e
na graça de Deus,
o texto deixa no ar uma pergunta que
quase grita, uma pergunta que uma vez
percebida já não sai mais da mente. E se
houver não 50, não 45, não 40, não 30,
não 20,
não 10, um, um só, se houvesse um justo
verdadeiro, um justo de fato, um justo
sem mistura, um justo cuja retidão fosse
plena,
um justo cuja vida estivesse inteira
debaixo do agrado de Deus, poderia a
justiça dele contar em favor de muitos
culpados?
Poderia o amor de Deus, pela justiça,
levá-lo a poupar os indignos por causa
desse um?
Essa é a pergunta. Ela está ali, não
escrita diretamente pelos lábios de
Abraão, mas colocada pelo próprio
movimento da narrativa e da sua oração.
O texto a produz, o texto a empurra, o
texto quase a exige. E, no entanto,
Abraão não a formula, ele para, volta,
retorna para casa, a conversa termina
antes de esse ponto ser explicitamente
verbalizado.
Mas esse silêncio não é vazio. Ele é um
silêncio carregado, carregado de
antecipação, carregado de teologia,
carregado de uma direção que a Bíblia
inteira vai desenvolver depois. Porque
na verdade o que Abraão está procurando
aqui é uma forma de mediação,
uma forma pela qual a retidão não
desapareça e ainda assim a culpa não
tenha a última palavra. Uma forma pela
qual Deus permaneça reto ao poupar.
uma forma pela qual o justo possa ter um
efeito redentor para além de si mesmo.
Outras palavras,
Abraão está tatiando em direção ao
coração do evangelho,
ainda sem o nome completo, ainda sem a
cruz claramente diante dos olhos, ainda
sem o filho encarnado e crucificado, mas
já tatiando, já sentindo,
já argumentando na direção certa.
Já numa argumentação evangélica,
a pergunta sobre o um é inevitável.
Isso precisa ser sentido em toda a sua
força, porque o texto não nos deixa
confortáveis com a resposta parcial. Ao
contrário, quanto mais Deus responde sim
aos números menores, mais o leitor que
sente a tensão crescer. Se por 50, sim.
Se por 40,5, sim. Se por 40, apenas,
sim. Se por 30, sim. Se por 20, sim. Se
por 10, sim. Então, o princípio está
aberto, está estabelecido. O princípio
foi admitido. A justiça de alguns pode
de algum modo operar em favor de muitos.
A retidão de uma minoria pode ter efeito
poupador sobre uma coletividade indigna.
Então, por que não um? Por que não um
justo verdadeiro? Porque não um único
homem reto diante de Deus, cuja
obediência pudesse contar em favor
dos desobedientes?
Essa não é uma pergunta artificial
colocada de fora para dentro. é a
própria lógica do texto empurrando a
alma nessa direção. E é por isso que
esse episódio tem tanta densidade
redentiva, porque ele não é apenas sobre
Abraão aprendendo a interceder, é sobre
Deus ensinando já ali as categorias
pelas quais um dia o povo de Deus
entenderia a obra de Cristo. justos,
justo e injustos, juiz e misericórdia,
poupança e culpa, retidão
representativa,
intercessão, mediação. Tudo isso já está
aqui em semente. E quando a semente é
vista, já não se consegue ler Gênesis 18
como mera cena antiga de hospitalidade
seguida de oração ousada. Não. Estamos
diante de uma antecipação do problema
central da redenção. Como pode o juiz de
toda a terra salvar os culpados?
Salvar culpados sem deixar de fazer
justiça?
Essa é a grande pergunta. Essa é a
pergunta de toda a consciência acordada.
Essa é a pergunta de
de quem realmente foi despertado
pela luz, pelo espírito.
Essa é a pergunta que nenhuma
espiritualidade vaga consegue responder,
porque ela é concreta demais, moral
demais, santa demais. Não se resolve com
energia superior, não se resolve com
mistério, não se resolve com consciência
cósmica, não se resolve com um Deus
sentimental. Eu vou fingir que o pecado
é menor do que é. Não se resolve com
autoaceitação,
não se resolve com esforço moral,
não se resolve com vagidão espiritual.
Ela exige um Deus real, um pecado real,
uma justiça real, uma misericórdia real
e uma mediação real.
É isso que Abraão, ainda que em forma
inicial começou a enxergar.
Abraão, ele agiu como um sacerdote. Isso
também é crucial. Ele não está apenas
conversando, não está apenas
filosofando,
não está apenas debatendo um problema
moral abstrato, porque ele é curioso.
Ele está se colocando entre o juízo e a
cidade. Ele está intercedendo,
está, por assim dizer, ocupando o lugar
sacerdotal. Ele vai diante de Deus em
favor de outros.
Vai não por si, vai pela cidade, vai por
gente perversa. Vai por gente que não
merece sua simpatia,
vai por gente cuja maldade ele conhece e
despreza.
Vai por gente cuja culpa não está em
dúvida. Ele não vai usar um humanismo
secular para tentar diminuir a culpa.
Não, não vai por gente cuja culpa não
está em dúvida. Isso é sacerdotal, isso
é intercessão, isso é mediação em
miniatura. Isso é um homem tentando
colocar sua própria relação com Deus a
serviço
de poupar
outros.
Isso é belíssimo, mas também
completamente insuficiente.
Muito insuficiente. Porque Abraão pode
argumentar, pode pedir, pode suplicar,
pode ousar, mas não pode resolver o
problema.
Ele é um sacerdote imperfeito,
intercessor real, mas parcial,
mediador em sombra, mas não em
plenitude. Por quê? Porque ele mesmo
precisa de misericórdia.
Ele mesmo não é justo.
Ele mesmo não é o homem cuja retidão
poderia servir de base final para a
salvação dos culpados.
Ele mesmo é pó e cinza. Ele mesmo vive
da graça que está tentando compreender
melhor.
Ele mesmo é misturado. Ele mesmo falhou
várias vezes. Ele mesmo mente, teme,
tropeça. Ele mesmo precisa de alguém
maior. É por isso que a oração dele,
embora magnífica, não pode ir até o fim
sozinha. Pode descobrir a trilha, o
caminho. E descobriu maravilhosamente.
Mas não pode abrir a estrada inteira.
Pode sentir a lógica.
redentiva, mas não possui a pessoa. Pode
levantar a questão, mas não pode
encarná-la.
Isso é profundamente como vente, porque
mostra a beleza e o limite
da velha aliança em sua forma
antecipatória, a luz, mas ainda não
pleno meio-dia. A verdade, mas ainda em
promessa, a mediação, mas ainda em
figura. a sacerdote, mas ainda não o
sumo sacerdote final. Abraão consegue ir
longe, muito longe, mais longe do que a
maior parte de nós iria ou que muitos
foram agora, mesmo estando na igreja,
mas não até o fim. Não porque lhe falte
fervor, mas porque lhe falta ser o
justo.
E essa falta é exatamente a falta que o
Novo Testamento vem preencher.
O que Abraão não pôde ser, Cristo é. Aí
tudo se ilumina. Porque a pergunta
silenciosa do texto é: "E se houver um?"
encontra sua resposta não em Sodoma, não
em Abraão, não em qualquer homem da
história adâmica comum, mas em Jesus
Cristo há um, houve um, existe um, um
justo verdadeiro, um homem totalmente
reto, um homem plenamente obediente, um
homem sem mistura, um homem sem pecado,
um homem cuja a vida inteira é agradável
ao Pai, um homem cuja justiça não é
parcial, não é relativa, não é manchada,
não é interromp
não é oscilante, não é comprometida por
nenhuma culpa própria.
Há um. E é exatamente por isso que o
evangelho não é uma ideia religiosa,
entre outras. É a resposta histórica,
concreta, pactual, moral e redentiva. A
pergunta que Gênesis 18 deixou pulsando
no ar. Sim. Deus salvará muitos por
causa de um. Sim, ele não deve ser
ninguém.
Mas ele também não salvará
eh não sendo justo, ele mostrará
misericórdia soberana. Então, sim, Deus
salvará muitos por causa de um. Sim, a
justiça de um contará em favor de
muitos. Sim, o juiz de toda a terra fará
o que é reto,
será totalmente justo e ainda assim
poupará culpados
que ele desejar. Ele será justo, nunca
injusto.
Ele usará da sua justiça
e ela irá até o fim,
na cruz ou no inferno. Mas isso só será
possível porque o um justo não será
apenas intercessor verbal com Abraão,
será também substituto. Não apenas
pedirá, pagará. Não apenas argumentará.
oferia-se a para ser o sacrifício, não
apenas se colocará diante do juízo, vai
entrar nele.
E aqui começamos a ver a enorme
diferença entre Abraão e Cristo. Abraão
intercede por gente que talvez um dia o
prejudicasse, pessoas que ele não
admirava.
Cristo intercede por gente que o está
matando.
Abraão ousa se aproximar de Deus em
favor da cidade. Cristo desce ao mundo
para carregar em si o juízo devido à
cidade dos homens.
Abraão argumenta sem ser consumido.
Cristo é consumido sob a ira justa de
Deus em favor dos seus.
Abraão pede que o lugar seja poupado por
causa dos justos. Cristo se torna a base
objetiva pela qual os injustos podem ser
poupados.
Isso é infinitamente maior,
infinitamente mais profundo,
infinitamente mais custoso. Abraão é uma
sombra bela. Cristo é a substância.
Abraão é o dedo apontando. Cristo é o
cordeiro e o sacerdote.
Abraão é o prenúncio. Cristo é o
cumprimento.
Então aquela pergunta muda de forma. Já
não perguntamos apenas e se houver um?
Agora sabemos que houve. Então a
pergunta passa a ser: se houve um, o que
isso significa para nós? Significa tudo.
Significa que a justiça de Deus não
precisa ser atenuada para que eu seja
salvo.
Sigia que a graça de Deus não precisa
ser sentimentalizada
para que eu seja recebido.
Não precisa ser Deus de amor passando
por cima da injustiça, do pecado, sendo
menos santo. Se vê que Deus não salva
pecadores por relaxar sua santidade e
nem porque alguém entre eles era melhor.
Salva-os em plena santidade, em plena
justiça, em plena verdade moral.
salva-os, porque o um justo ofereceu a
si mesmo por eles.
Em João 17, ele ora dizendo: "Eh, não
rogo pelo mundo, rogo por aqueles que me
deste."
Isso muda a qualidade da oração cristã.
muda radicalmente, porque agora já não
nos aproximamos de Deus apenas com a
intuição de que deve haver um caminho,
já conhecemos o caminho. Já não nos
aproximamos apenas com a esperança de
que justiça e misericórdia possam se
encontrar de algum modo. Sabemos onde se
encontraram na cruz.
Já não vemos a Deus apenas com uma
espécie de ousadia exploratória,
perguntando até onde sua misericórdia
pode ir sem negar sua justiça. Sabemos
até onde ela foi. Foi até o filho, até o
não poupado, até o santo carregando os
culpados, até o justo pelos injustos.
Isso significa que toda oração cristã
verdadeira está no fundo atravessada por
uma certeza que Abraão ainda não podia
possuir
com a mesma nitidez
ao mediador, há um intercessor perfeito,
há um justo representativo,
há um advogado que não apenas pede, mas
cuja própria obra já constitui um
argumento irrespondível diante do trono.
Isso é glorioso demais.
E ainda não terminamos porque agora
tendo visto a direção do texto, a sua
resposta em Cristo
juntamente com isso, agora precisamos
ainda perguntar o que isso nos dá, como
isso nos faz orar, como isso nos dá não
apenas o que Abraão tinha, mas mais.
E é isso que falta abrir, porque ver
Cristo aqui não é apenas satisfazer a
curiosidade exegética, é receber acesso,
é receber ousadia, é receber uma base
completamente nova para a oração. É
descobrir porque alguém como nós pode
chegar com tanta liberdade diante do
juiz de toda a terra.
E é isso que vem para nós, né?
Agora
chegamos ao ponto em que tudo se fecha,
ou melhor, ao ponto em que tudo se abre
de verdade. Porque uma vez que vimos
Abraão intercedendo, uma vez que
sentimos o peso da pergunta não
formulada, e se houver um? E uma vez que
reconhecemos em Cristo a resposta final,
já não podemos voltar a pensar oração do
mesmo jeito.
Já não podemos tratá-la como técnica
espiritual.
Já não podemos reduzi-la a exercício de
sinceridade. Já não podemos vê-la como
tentativa vaga de conexão com algo
maior. Já não podemos lê-la como mero
alívio devocional.
Não. A oração cristã entra em outra
ordem. Ela entra na ordem da mediação
consumada.
Ela entra na ordem da justiça
satisfeita. Ela entra na ordem de um
acesso comprado. Ela entra na ordem de
um tribunal em que já existe um advogado
perfeito, um sacerdote perfeito, um
justo perfeito. Isso muda tudo. Tudo.
Porque agora podemos entender com muito
mais clareza o que Abraão tinha e
sobretudo o que ele ainda não tinha
plenamente.
Abraão tinha intimidade real com Deus,
tinha aliança, tinha palavra, tinha
experiência viva da graça divina.
tinha consciência da justiça de Deus e
da sua graça,
da sua misericórdia.
tinha uma ousadia santa que poucos
homens já conheceram, mas ainda falava
de antes da cruz, ainda falava da região
da promessa, ainda falava de um lugar em
que a lógica da mediação já estava
aberta, mas a sua base histórica ainda
não havia sido derramada em sangue. Nós
estamos do outro lado, do lado do
cordeiro já oferecido, do lado do filho
já não poupado,
do lado da justiça satisfeita, do lado
da sentença já absorvida,
do lado da mediação já entronizada. Isso
significa que se Abraão orou com aquela
ousadia, nós temos razão ainda maior
para orar com humildade extrema e
ousadia extrema ao mesmo tempo, mais do
que ele, não menos, mais, porque Cristo
é o verdadeiro advogado diante do
tribunal divino. Essa linguagem é forte,
mas é correta. Abraão se aproxima como
alguém que leva um caso ao juiz.
Ele faz exatamente isso. Ele argumenta,
ele pleiteia, ele apela ao caráter de
Deus, ele vai, por assim dizer, ao
banco. E isso já é maravilhoso.
Mas Cristo faz mais, muito mais. Ele não
apenas comparece diante do juiz com uma
súplica, comparece com uma obra
consumada. Não apenas diz poupa-os diz,
por assim dizer, a justiça em relação a
eles, aos que tu me deste, foi tratada
em mim.
Não apenas intercede no vazio, intercede
sobre a base do próprio sangue. Não
apenas pede misericórdia genérica,
pleiteia misericórdia juridicamente
santa. Isso é misericórdia que não
contradiz a justiça e a santidade, mas
flui através dela. Esse ponto é glorioso
demais para ser dito de pressa,
porque significa que o cristão não chega
diante de Deus tentando persuadi-lo a
ser menos justo nunca.
O cristão chega diante de Deus por causa
de uma justiça já cumprida em outro.
chegarão dizendo: "Ignora meu pecado,
ignore meu pecado, mas meu pecado foi
lavado, foi levado.
Não dizendo: "Deixa a tua santidade de
lado, mas tua santidade foi honrada na
cruz do teu filho." Chega não dizendo:
"Recebe-me apesar do teu juízo, mas
recebe-me porque o juízo devido a mim
foi assumido pelo justo."
Esta é a diferença total entre a oração
cristã e toda espiritualidade vaga. Toda
espiritualidade vaga no fundo quer
proximidade sem resolução moral real ou
achando que tem algum mérito diante de
Deus. Quer consolo sem expiação, quer a
presença sem tribunal e juiz, quer a
transcendência sem santidade, quer paz
sem sangue. Mas a Bíblia não nos permite
isso. Ela nos leva ao tribunal. Ela nos
leva ao juiz de toda a terra. Ela nos
leva à culpa real que está sobre nós.
Ela não usa nenhum uma linguagem do
humanismo secular para renomear pecados.
Então nos mostra o advogado, o mediador,
o sacerdote, o cordeiro, aquele cuja
intercessão não é apenas comovente, mas
é infalível.
Porque ele não pede com base na mera
intensidade do seu amor. Ele pede com
base numa justiça já satisfeita.
É por isso que Hebreus pode falar como
fala. É por isso que Romanos pode falar
como fala. É por isso que Primeira João
pode falar como fala. Porque Jesus
Cristo, o justo, é nosso advogado junto
ao Pai. o justo, não apenas o amoroso, o
justo. Porque precisamente isso a
justiça é o fundamento da nossa
segurança.
Isso dá oração cristã uma base que
Abraão apenas começou a entrever.
E essa base produz duas coisas ao mesmo
tempo. Humildade radical e ousadia
radical.
De novo, os extremos. Sempre os
extremos. O evangelho sempre nos leva
aos extremos corretos, porque de um lado
nada nos humilha mais do que a cruz. Lá
está o que somos, o que merecemos,
o que é justo para o que nós chamamos de
nossa maldade e o que chamamos de nossa
bondade,
o que nós chamamos de mérito lá.
Então,
por um lado, nos humilha, não é?
Nada faz isso mais profundamente do que
a cruz. Se o filho de Deus teve de
morrer por nós e beber aquele cálice até
o fim e aquilo são os meus afetos,
minhas ideias,
meus desejos,
minha fala, minha vida, meu coração, se
meu coração, se todas essas coisas
minhas é aquele cálice
de ira infinita, não é?
Então, nosso caso era de fato
desesperador em nós mesmos.
Não há quem faça o bem. Não havia
recurso em nós. Não havia justiça em
nós. Não havia força em nós. Não havia
desejo por Deus. Havia inimizade. Nossa
mente era inimizade contra Deus. Não
havia dignidade alto salvador em nós.
Não havia mérito final em nós. Nada.
Se ele teve de morrer, então somos mais
pecadores, mais perdidos, mais falidos
moralmente do que nossa religiosidade
gostaria de admitir. Isso nos humilha
profundamente, arranca pretensão,
arranca a superioridade, arranca o
moralismo
com que tantas vezes tentamos nos
sustentar, com que oramos achando que
aquilo é oração, achando que obedecemos
isso, fizemos aquilo e merecemos que
Deus faça algo. Arranca a ilusão de que
estamos diante de Deus por desempenho
próprio. Diante da cruz, toda soberba se
torna grotesca,
toda vanglória se torna ridícula, toda
comparação orgulhosa com outros para
pensarmos ser melhores.
Sabe, a toda comparação orgulhosa com
outros pecadores se torna tolic extrema.
A cruz nos põe no chão.
Isso é bom, necessário, santo. Mas ao
mesmo tempo, nada nos dá mais ousadia do
que a mesma cruz. Porque se ele fez isso
por nós, então somos mais amados do que
ousávamos sonhar,
tão somente porque ele quis amar, não é?
Mas desejados em misericórdia do que
jamais imaginaríamos.
mais recebidos do que a nossa
consciência naturalmente permitiria
pensar, não é?
Ele faz isso simplesmente pelo seu
próprio amor. Terei misericórdia de quem
eu tiver misericórdia.
Me compadecerei
de quem eu me compadecer, porque não
depende de quem quer, nem de quem corre,
mas de Deus que usa da sua misericórdia.
Se ele morreu por nós, então Deus não
está apenas tolerando nossa aproximação,
está convidando-a.
Não está apenas permitindo que falemos
de longe, está abrindo o acesso
completo. Não está apenas suspendendo
momentaneamente seu juízo.
Está reconciliando. Não está apenas
dizendo talvez, está dizendo
aproximemo-nos. Percebe? A mesma cruz
que nos diz: "Você é infinitamente pior
do que imagina". Também nos diz: "Você é
mais amado do que jamais ousou esperar".
Isso cria exatamente a temperatura que
vimos em Abraão. É isso que mata toda
oração fria, só que em um grau ainda
mais pleno. Pó e cinza, sim, mas também
filhos. Pequenos, sim, mas recebidos.
Indignos, totalmente, mas justificados.
Tremendo, sim, mas chegando. Com
reverência
toda, mas com confiança. Essa é a glória
da oração cristã.
Isso muda também nossa relação com o
mundo. Porque quando entendemos o
evangelho, passamos a ver a cidade de
outra forma, ver a grande Sodoma de
outra forma, né? Não como relativistas
que já não conseguem chamar mal de mal,
nem como moralistas que se colocam fora
do mal e passam a olhar a cidade de cima
para baixo. Eu não sou como Sodoma, mas
como pecadores justificados que sabem
definir o mal sem se colocar como
inocentes autossuficientes diante dele.
Isso é extremamente importante, porque
só o evangelho consegue manter juntas.
Duas coisas que o coração humano insiste
em separar, a seriedade moral e a
humildade pessoal. Sem o evangelho,
geralmente caímos num desses dois
extremos. Ou relativizamos o mal
porque não queremos parecer duros e
também porque queremos relativizar o mal
em nós. Não queremos parecer duros, nem
exclusivos, nem moralistas. ou nos
tornamos moralistas porque amamos demais
a sensação de estar do lado certo contra
os errados.
O evangelho destrói ambos, destrói o
relativismo, porque nos mostra um Deus
de justiça que sempre julga o mal, um
tribunal real, um pecado real, uma cruz
necessária, um Deus que julga o mal,
mesmo quando ele é posto sobre o seu
filho amado, e destrói o moralismo,
porque nos mostra que nós mesmos
só estamos de pé misericórdia.
Não podemos olhar para Sodoma, que é o
mundo, e dizer que nós somos diferentes
e por isso
eh fomos tirados,
que não somos eh eh ou que dizer que
somos a parte boa da humanidade contra a
parte má, a parte que merece o juízo.
Somos pecadores salvos pela graça.
Portanto, agora podemos amar a cidade
sem idolatrá-la. Podemos ver a escuridão
do mundo, a maldade,
não é? E ainda assim podemos
interceder, orar, amar
sem hidrolatá-la, sem deixar que o
humanismo secular dirija a nossa mente,
nosso coração, nossas afeições. E
podemos confrontar o mal
sem nos ensoberbecer
por fazer isso, achando que somos
superiores. Podemos orar pelos perversos
sem negar a perversidade deles. E
podemos interceder por lugares violentos
sem romantizar sua culpa,
sem querer usar o humanismo para dizer
que o homem é só uma vítima. Podemos
querer o bem de gente
difícil sem deixar de chamar o mal pelo
seu nome. Isso é raro, mas é
precisamente o que vemos em Abraão e
muito mais em Cristo. E é o que o
evangelho produz em quem o recebe de
verdade.
Então, como conseguimos o que Abraão
tinha e mais ainda? Primeiro, levando o
evangelho para a escritura. Isso é
decisivo. Sem o Evangelho, a Bíblia pode
parecer uma sucessão de histórias
estranhas, mandamentos difíceis, cenas
distantes. Sem o Evangelho, essa cena de
Abraão orando por Sodoma seria uma cena
distante, sombras e formas antigas. Mas
quando o evangelho ilumina a escritura,
tudo muda. Cada promessa ganha
profundidade, cada sacrifício ganha
direção. Cada sacerdote ganha função
tipológica. Cada história começa a
pulsar com a lógica da redenção. Cada
texto se torna um lugar em que Deus fala
conosco de modo vivo, santo, pessoal,
real.
Então, a oração nasce porque a oração é
a resposta a isso. Porque Deus falou e
agora a sua palavra não é letra opaca, é
voz. Voz que confronta, voz que consola,
voz que corrige, voz que convida, voz
que mostra. Cristo. E a resposta do
coração a essa voz é oração. Não v, não
genérica, mas oração real, resposta
real, adoração real, intercessão real.
Esse é o primeiro passo para ter uma
vida de oração como a de Abraão e ainda
mais profunda. Ler a escritura através
da obra consumada de Cristo, até que o
Deus vivo fale nela, de tal modo que já
não seja possível permanecer apenas como
um espectador.
Segundo, levando o evangelho paraa
consciência. Se você realmente entende o
evangelho, será profundamente humilde e
profundamente ousado.
Nunca apenas um dos dois. Nunca. Se é
apenas humilde, mas sem ousadia, ainda
não viu o amor. Se é apenas ousado, mas
sem humildade, ainda não viu a
santidade,
nem a cruz,
nem o tamanho da depravação do coração
humano. Mas se viu ambos, então começará
a falar com Deus daquele modo
extraordinário, com reverência e
intimidade, com temor e liberdade,
como pó e cinza e ainda assim competição
contínua.
Esse é o espírito da oração cristã
madura.
Terceiro, levando o evangelho paraa
cidade. Não. Ah, tomara que Deus.
Quantas vezes você vê os cristãos
falando isso, né? Para que Deus jogue
logo esse mundo como se ele, se Deus só
usasse de juízo, também não seria
condenado.
Então, terceiro, levando o evangelho
para a cidade, para o próximo, para
Sodoma. Não há lugar melhor do que a
Sodoma no nosso mundo. Para os perdidos,
para os difíceis, para os distantes,
para os culpados, para os lugares que
talvez nos pareçam merecedores apenas de
juízo.
Porque o evangelho faz de nós
intercessores, não mediadores no sentido
único em que Cristo é, mas participante
da sua mediação em forma de súplica,
amor e pregação da verdade. Começamos
então a usar nosso acesso a Deus, não
apenas para sobreviver melhor, resolver
nossos problemas,
mas para clamar pelo bem dos outros,
pelo perdão dos outros, pela visitação
de Deus sobre os outros, pelo
florescimento da cidade, pela contenção
do mal, pela salvação dos perdidos, pela
conversão daqueles que hoje nos
escandalizam.
enojam em suas escolhas.
Essa é uma grande evidência de
veracidade
e maturidade espiritual, quando a oração
deixa de ser quase totalmente curvada
sobre nossa própria estabilidade e mundo
e problemas e começa a se abrir em
intercessão robusta pelo mundo que Deus
amou e que espalhou os seus eleitos
nele.
Quarto, pedindo coisas grandes, muito
grandes. Aqui também precisamos ser
corrigidos, porque a maioria de nós ora
pequeno, ora tímido, ora quase pedindo
desculpas por pedir, ora como se Deus
tivesse amor escasso ou poder curto.
Ora como se precisasse proteger Deus das
nossas petições maiores. Mas Abraão não
faz isso. que vai, pede, insiste, volta,
aperta o argumento, vai descendo os
números, ele pede muito porque sabe
diante de quem ele está. E nós mais
ainda deveremos pedir muito, muito, não
porque somos presunçosos, mas porque
conhecemos a cruz, conhecemos o filho,
conhecemos o mediador. Sabemos que o
trono ao qual nos aproximamos é para nós
trono de graça. Sabemos que aquele a
quem pedimos não é mesquinho. Sabemos
que seu poder não se esgota. Sabemos que
sua misericórdia não é pequena. Sabemos
que o seu coração é mais largo do que
nossas orações costumam supor. Então,
peçamos, peçamos grande, peçamos pela
cidade, peçamos pela igreja, peçamos por
por um avivamento, peçamos por
conversões improváveis,
peçamos por santidade profunda em nós e
nos outros. Peçamos por justiça, peçamos
por misericórdia sobre lugares difíceis,
peçamos pela cura de corações duros.
Peçamos pela destruição de ídolos.
Peçamos por mais de Deus. Peçamos como
quem sabe que está vindo a um rei. Não
como mendigos inseguros diante de uma
divindade incerta, mas como filhos
chegando por meio do filho ao pai.
Talvez a tragédia de muita oração seja
essa. Conhecemos pouco o evangelho e por
isso pedimos pouco, amamos pouco,
intercedemos pouco e ousamos pouco. Não
porque Deus seja pequeno, mas porque
nossa visão dele ainda é pequena. Não
porque Cristo tenha mediado pouco, mas
porque ainda vivemos como se o acesso
fosse estreito demais.
Não, porque eh
porque achamos que nós nos aproximamos
por alguma coisa em nós que nos difere
de outros.
Se nós tivermos uma visão mais clara de
que nós somos o principal dos pecadores,
então vamos pedir grande por todas as
pessoas.
Então, não porque falte base paraa nossa
confiança, mas porque a cruz ainda não
invadiu a consciência como deveria.
Se ela invadir, algo muda muito. Você
não se tornará irreverente jamais. Ao
contrário, ficará mais reverente, mas
também mais vivo, mais insistente, mais
ousado,
mais missionário na oração, mais
inclinado a carregar o peso de outras
vidas diante de Deus.
peso de irmãos, peso de gente
não redimida, mas disposto a pedir
grandes coisas, mas pronto para dizer:
"Senhor, não porque mereço, não porque
sou forte, não porque tenho méritos, não
porque sou melhor, mas porque o justo já
falou por mim, porque o cordeiro já foi
morto por mim, porque o filho já abriu o
caminho, porque o mediador vive e
intercede por mim, porque tua justiça
Não é mais ameaça condenatória para mim
que estou em Cristo, mas fundamento da
aceitação em Cristo. É por isso que eu
venho, é por isso que eu peço, é por
isso que eu insisto.
Então, o chamado final é muito simples e
muito alto nesse texto para nós. Não se
contente com uma espiritualidade vaga.
Não se contente com uma oração
sentimental indefinida. Não se contente
com um Deus moldado a sua psicologia.
Não se contente com pedidos pequenos
nascidos de uma visão pequena de Deus.
Vá à escritura, ouça Deus falar, veja a
sua justiça, veja a sua graça. Veja
Abraão tatiando em direção ao justo que
viria. Veja Cristo, o justo, vindo de
fato. Veja-o diante do Pai por você.
Vejam não apenas como exemplo, mas como
o mediador. Vejam não apenas inspirando
oração, mas garantindo o acesso. Então,
ore. Ore vivo, ore humilde, ore ousado.
Ore com a cidade no coração. Ore com a
cruz como fundamento.
Ore como quem chega o juiz de toda a
terra por meio daquele que é para sempre
o justo em favor dos injustos.
Ore assim: "Senhor, ensina-me a orar de
verdade, não apenas a falar palavras
religiosas, não apenas a buscar consolo
vago,
não apenas a repetir fórmulas ou a
lançar sentimentos ao céu. Faz-me
responder a tua voz. Faz-me ouvir tua
palavra como voz viva. Faz-me conhecer
tua justiça sem reduzir tua graça.
Faz-me conhecer tua graça sem
sentimentalizar tua santidade e amor.
Dá-me o tremor de Abraão e dá-me mais do
que Abraão teve, porque agora conheço o
teu filho. Leva-me a Cristo, leva-me ao
mediador, leva-me ao justo, leva-me ao
sumo sacerdote que vive para interceder,
humilha-me pela cruz e me faça ousado
pela cruz.
Me faça pequeno diante de ti e ao mesmo
tempo confiante em ti. Tire
da minha oração a vaidade e tire da
minha oração o egoísmo estreito.
Tira da minha oração a pequenez.
Ensina-me a carregar a cidade,
a grande Sodoma. Ensina-me a interceder
pelos perdidos. Ensina-me a amar os
difíceis. Ensina-me a pedir grandes
coisas, porque venho ao grande rei. E
faz-me lembrar sempre, eu não estou
chegando sozinho. Estou chegando pelo
filho, pelo justo, pelo não poupado,
pelo que bebeu o cálice até o fim, pelo
cordeiro, pelo mediador. Por isso eu
venho, por isso eu peço, por isso eu
espero.
Amém. Quando o dia asende em mim, antes
[canto] mesmo de existir palavra, que
[música] o teu sopro me aline,
que tua luz me refaça,
que eu não viva [música][canto] por
reflexo,
nem me perca em quem não sou.
Se minha voz quiser o palco, que o teu
silêncio [música]
[canto] seja maior.
E se o orgulho [música] me chamar
pelo [canto] nome que eu criei,
que eu me [música] esqueça no teu olhar
e lembre quem eu me tornei. Desfaz em
mim o [música] que não vem de ti.
Crave de novo. O meu existir
habita em mim,
em cada [música] espaço escondido.
Respira em [canto] mim, mesmo onde eu
tenho ferido.
Faz de mim mais [música] perto do teu
coração.
Que tudo em mim se curve à tua direção.
E se algo em mim quiser [canto][música]
permanecer,
que não seja [música][canto] eu, mas o
teu viver.
Se [música] meus passos vacilarem
[canto]
na sombra do que passou,
que tua graça me encontre
[música][canto] antes mesmo de onde eu
vou.
E se eu tentar me construir
com pedaços do que sobrou,
que tua mão me desconstrua
[canto][música]
para formar teu filho em mim.
>> [música]
>> Apaga em mim o que não [canto] leva a
cruz
e acende o que [música] reflete [canto]
a tua luz.
habita em mim
em cada [música]
gesto calado.
Respira em mim no íntimo mais fechado.
[música]
Faz de mim [canto] um eco da tua voz
que ao me ver [música] encontrem [canto]
mais de ti, nada de mim.
>> [canto]
>> Se algo em [música] mim quiser
permanecer,
que seja o amor que vem [grito]
de ti, [canto] eu me rendo [música] o
teu refazer,
mesmo quando [canto] dói ceder
cada parte que eu quis guardar, hoje eu
te [canto] deixo [música]
levar.
Não sou mais [música] meu.
>> [canto]

Tags: