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A fé vem pelo ouvir

Nosso Nome é Caim | Josemar Bessa

Nosso Nome é Caim  | Josemar Bessa

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#JesusCristo #Evangelho #TeologiaReformada #Justificação #Graça

Legendas automáticas:

Hebreus 11 1 a 4 diz: "Pela fé, Abel
ofereceu a Deus um sacrifício superior
ao de Caim. Pela fé, ele foi reconhecido
como justo quando Deus aprovou as suas
ofertas.
Você está no banco dos réus. Não é uma
metáfora
confortável,
é uma sala silenciosa,
processo aberto, acusação sobre a mesa.
O outro lado, outro lado fala com
segurança. Há documentos, a memórias, a
fatos que você gostaria de apagar e
fatos que gostaria de reinterpretar.
Você tenta montar sua defesa, uma
justificativa aqui, uma explicação ali,
uma obra boa colocada sobre a mesa, uma
comparação conveniente com alguém pior
que você, uma lembrança seletiva de tudo
aquilo que você fez certo. É assim que o
coração trabalha quando precisa provar
que merece permanecer de pé.
Então a porta se abre, entra uma
testemunha, não uma testemunha qualquer,
não
alguém com opinião, não alguém
impressionável, não alguém que conhece
apenas uma parte da história. Entra
aquele cuja palavra encerra o processo.
Ele viu, ele sabe, ele conhece os fatos
que ninguém conhece. Ele não pode ser
enganado por aparência, currículo,
reputação ou performance religiosa ou
linguagem terapêutica do humanismo
secular. E ele fala. É isso que Hebreus
11 coloca diante de nós quando diz que
os antigos foram aprovados ou
reconhecidos ou recomendados.
A palavra é mais pesada do que um
elogio. Tem cheiro de tribunal.
Deus dá testemunho, Deus declara, Deus
torna público o seu veredito. E de
repente entendemos porque homens e
mulheres de Hebreus 11 conseguiam
enfrentar o mundo inteiro. Não porque
eram feitos de material psicológico
superior, não porque descobriram um
método para acreditar mais em si mesmos.
Não porque aprenderam a controlar as
circunstâncias.
Eles podiam ir contra o mundo todo
porque já tinham ouvido o veredito, que
tornava a todos os outros vereditos
menores, insignificantes.
Deus havia falado. A questão, então, não
é apenas como ter coragem, é muito mais
funda, muito mais profunda. Como um
pecador pode ouvir do Deus santo uma
palavra de aceitação? Como alguém cuja
vida contém culpa pode receber o
testemunho de que é justo? Como alguém
que se esconde pode ser visto por olhos
que atravessam todas as falhas,
todas as folhas de figueira e ainda
assim não ser destruído? Hebreus
responde contando uma história antiga.
Dois irmãos, dois altares, duas ofertas,
um Deus. Um é recebido e o outro não. E
antes que alguém imagine que se trata
apenas de um episódio distante, a Bíblia
aproxima a cena até que ela toque o
nosso rosto. Porque Caim e Abel ainda
estão diante do altar e nós também. A
pergunta, a pergunta nunca foi se você
traz uma oferta, você traz. A pergunta é
outra. O que você está apontando para
Deus quando pede que ele aceite
você? Essa eh a questão, o veredito que
queremos.
Há uma fome escondida em toda a vida
humana. A fome de ouvir aprovado,
aceito, desejado. Você pode chamá-la de
reconhecimento, pode chamá-la de
pertencimento, pode chamar de reputação,
respeito, segurança ou sucesso.
Pode sofisticar a linguagem, pode vestir
a necessidade com ternos eh eh de gala,
né, com termos modernos.
A fome continua ali. Queremos uma
testemunha que diga: "Eu vi você". Eu
conheço você e mesmo assim o meu
veredito é favorável.
É por isso que uma palavra de amor pode
alterar o chão sobre os pés de alguém. É
por isso que uma rejeição pode
atravessar anos. É por isso que certos
olhares nos fortalecem e outros nos
desmontam.
No filme The Fisher King,
essa fome aparece numa pequena cena de
amor e espanto. Uma mulher desajeitada,
insegura e acostumada à rejeição, tenta
afastar um homem que se apaixonou
por ela e se aproximou dela. Ela presume
que se ele a conhecer de verdade,
acabará fazendo o que outros fizeram.
Ele irá embora.
Mas ele a detém nos degraus
e não lhe oferece um elogio vazio. Ele
diz assim, eh, em essência: "Eu tenho
observado você. Sei que você não possui
muitos amigos. Sei que se considera
desajeitada.
Sei como você se enxerga. Não estou
apaixonado por uma versão imaginária de
você. Eu vi você e ainda assim eu não
vou embora.
A mulher o encara como alguém que ouviu
uma sentença impossível. Você está
falando sério? Essa pergunta
é a força eh da cena. Existe uma
diferença enorme entre alguém dizer:
"Você deveria gostar mais de si mesma e
alguém que conhece o caso dizer vi, eu
sei e o meu veredito permanece". É isso
que torna um testemunho poderoso. Não é
apenas uma opinião favorável. É uma
palavra de alguém que conhece os fatos.
Mas Hebreus 11 vai muito além de uma
cena romântica de um filme famoso. A
testemunha não é um admirador, é Deus.
Aquele que conhece o coração sem
maquiagem. Aquele diante de quem nenhuma
intenção fica opaca. Aquele que não
confunde reputação com caráter. aquele
que sabe o que fizemos, por fizemos, o
que pensamos enquanto fazíamos e o que
teríamos feito se tivéssemos
oportunidade.
Ser aprovado por ele é outra coisa. Se
os olhos que realmente importam
declaram: "Você aceita o mundo" perde
parte do seu poder de chantagem. Na
verdade, perde o seu poder de chantagem.
Se o juiz do universo já falou, a
plateia deixa de ser tribunal. Você pode
perder aplauso, pode perder lugar, pode
perder prestígio, pode perder a cadeira
no círculo certo, pode perder o nome,
pode deixar de ser convidado para a sala
onde gostaria de entrar. Pode perder a
aprovação das pessoas cuja opinião
parecia hum indispensável. pode até ser
chamado de tolo pelo mundo inteiro, mas
há uma liberdade estranha em saber que o
caso decisivo já foi julgado. Hebreus 11
chama isso de vida de fé. A fé não é um
salto no escuro, é viver à luz de uma
palavra que o mundo não pode revogar.
Por isso, Noé, cercado por uma geração
que não acreditava no juízo anunciado
por Deus, continua construindo a arca,
enquanto sua obediência aparece
completamente absurda aos olhos de
outros. Por isso, Abraão deixa sua terra
quando Deus o chama, mesmo se receber
antecipadamente o mapa completo da
estrada.
É por isso que Moisés, criado dentro dos
privilégios da casa de faraó, escolhe se
identificar com o povo de Deus, em vez
de tratar os tesouros do Egito como sua
segurança final.
Em cada caso, a fé muda o peso das
vozes. A multidão fala: "O custo ainda
existe, a perda ainda dói, mas a palavra
de Deus se torna mais pesada do que o
veredito do mundo inteiro." Eles não
eram indiferentes à realidade. Eles
tinham sido capturados por uma realidade
maior. E Abel aparece no começo da
galeria como a primeira demonstração
dessa força.
Ele traz uma oferta. Deus testemunha a
seu respeito. Depois ele morre. Mas
Hebreus diz que morto ele ainda fala: "O
homem foi silenciado. O veredito de Deus
não."
E é aí que a história começa a se tornar
perigosa. Porque Abel tinha um irmão,
não é? Então são dois irmãos no mesmo
altar. A Bíblia gosta de colocar pessoas
lado a lado.
Não porque
adore simetria literária,
mas porque quer arrancar nossas
desculpas.
Isaque e Ismael, dois filhos ligados à
casa de Abraão, mas não ligados da mesma
maneira à promessa. Jacó e Esaú, gêmeos,
que compartilharam o mesmo ventre e
seguiram caminhos espiritualmente
opostos.
As virgens prudentes e as insensatas na
parábola de Jesus, todas esperam o
noivo, todas parecem pertencer a mesma
celebração, mas a chegada revela uma
diferença que a aparência escondia.
Dois homens entram no templo para orar.
Um fariseu apresenta a sua disciplina
espiritual diante de Deus. Um cobrador
de impostos permanece longe. Mal
consegue levantar os olhos e pede
misericórdia apenas.
Dois criminosos são crucificados ao lado
de Cristo. Ambos vem o mesmo Salvador
sofrer. Um continua zombando, o outro
pede para ser lembrado. E agora, Caim e
Abel. A proximidade é parte do choque.
Mesma família, mesmos pais, mesma
história de queda contada dentro de
casa, mesma memória do Édenem perdido,
mesmo conhecimento de que Deus existe.
Ambos trabalham, ambos produzem, ambos
se aproximam de Deus, ambos levam uma
oferta.
O ponto de separação não passa entre o
religioso e o irreligioso, passa pelo
meio do culto. Essa é uma das verdades
mais desconcertantes da Bíblia, da
Escritura. A linha que divide a
humanidade não respeita sobrenomes,
classes, povos, famílias ou bancos de
igreja. Ela pode atravessar uma casa,
pode atravessar irmãos, pode atravessar
uma congregação inteira.
Duas pessoas podem cantar a mesma
música, o mesmo hino, dizer o mesmo
amém, ouvir o mesmo sermão, dar a mesma
contribuição, usar a mesma linguagem e
estar diante de Deus de maneiras
radicalmente diferentes.
Caim não é ateu. Caim cultua. Caim
oferece. Caim se aproxima. Caim espera
resposta de Deus. E é justamente por
isso que sua história assusta tanto.
Ser religioso não responde a pergunta
decisiva. A pergunta é: com base em que
você se aproxima? Os dois irmãos também
revelam algo ainda mais universal. Ambos
sabem que não podem simplesmente entrar
como se nada tivesse acontecido
baseado só neles mesmos. A distância, a
culpa, há um problema entre o criador e
a criatura. Então eles chegam com algo
nas mãos. Essa é a história humana.
Depois de Gênesis 3, nós também chegamos
com coisas nas mãos. Talvez não sejam
cordeiros nem frutos do campo. Nós
trazemos currículo, disciplina,
religião, generosidade,
boa reputação, família organizada,
conhecimento bíblico,
serviço na igreja, moralidade sexual,
carreira, capacidade de suportar
sofrimento. Até a nossa humildade pode
ser colocada sobre o altar como prova de
que somos melhores do que os orgulhosos.
O coração aprende cedo a transformar
qualquer coisa em argumento. Olhe para
isso. Considere aquilo. Veja como tenho
tentado. Veja como não sou como os
outros. Veja o que eu construí. Veja o
que eu sacrifiquei.
Toda oferta apresentada como mérito
contém uma frase
invisível. Aceite-me por causa disso.
Caem Abel estão muito distantes no
tempo, mas seus altares estão em toda
parte.
Então é fácil olhar para um altar antigo
e pensar que a linguagem da oferta
pertence a povos
ah primitivos.
Não pertence. A forma mudou, o mecanismo
continua o mesmo. Uma campanha eleitoral
é uma liturgia de apresentação, como
estamos vivendo agora no Brasil, né?
O candidato raramente aparece dizendo:
"Aqui está tudo que sou, sem edição, sem
seleção, sem um ângulo escolhido. Ele
apresenta uma versão, um histórico, uma
narrativa, uma imagem de força e esconde
aquilo que prejudicaria o veredito,
prejudicaria sua imagem para receber o
veredito." Então ele diz: "Olhe para a
minha experiência. Olhe para o meu
plano, olhe para os meus resultados. Com
base nisso, dê-me seu voto. É uma
oferta.
Mas seria confortável demais deixar o
fenômeno na política, né? A gente pode
dizer: "Ah, nós não somos políticos".
Nós fazemos a mesma coisa. Ao entrar num
círculo social, calibramos a fala. Ao
iniciar um relacionamento, selecionamos
o que mostrar primeiro. Ao preparar uma
entrevista, organizamos nossa história
de modo que pareça inevitável que nos
escolham. Sabe quando a gente vai numa
entrevista de emprego, qualquer
entrevista. Ao publicar uma fotografia,
raramente escolhemos ao acaso. Queremos
ver que ficou melhor, que tem o melhor
ângulo. Ao falar de nossas falhas,
muitas vezes escolhemos falhas que ainda
preservam uma imagem admirável de nós
mesmos. Ah, o meu modo defeito é que eu
sou muito pontual,
sou muito perfeccionista.
A gente tá tentando se elogiar. Até a
confissão pode ser editada para obter um
veredito favorável. Durante muitos anos
havia um restaurante em em Nova York
chamado Helenes, que se tornou conhecido
por receber escritores, atores e outras
figuras famosas.
Dentro dele havia uma mesa especial
cobiçada. Era a mesa quatro. Não era
apenas um lugar onde alguém se sentava
para jantar. era um pequeno símbolo de
pertencimento. Só as pessoas mais
importantes e interessantes eram
convidadas pela dona do restaurante para
sentar na mesa 4, então estar ali
significava ter sido admitido no círculo
das pessoas reconhecidas pela
proprietária e pelos frequentadores
importantes.
Então, um ator de televisão contou que
quando ele foi convidado pela primeira
vez para sentar-se na mesa 4ro, né, ele
não ficou simplesmente feliz, ele disse
que ficou apavorado. Seu medo era quase
é infantil.
Ele disse: "E se eu não disser nada
inteligente, o bastante esta noite para
merecer estar aqui".
Agora a mesa quatro deixa de ser apenas
um móvel, um restaurante. Você vê, ela
se torna um tribunal em miniatura. O
homem não estava apenas jantando, estava
tentando justificar ter sido convidado
para a mesa quatro.
Preciso oferecer alguma coisa para
continuar na mesa nas próximas vezes.
Inteligência, charme, eh relevância, uma
história boa. Não posso simplesmente
sentar lá e ficar lá com a cara de quem
não tem o que dizer. Preciso justificar
minha presença.
É por isso que certas roupas se tornam
tão importantes. Não porque tecido seja
pecado, mas porque eh em segundos o
coração consegue transformar tecido em
defesa. O espelho pergunta: "O que eles
verão?" A ansiedade responde: "Controle,
esconda, realce isso, disfarce aquilo,
mostre força, oculte fraqueza". A oferta
sempre tenta fazer duas coisas ao mesmo
tempo. Construir uma imagem e cobrir uma
vergonha. É exatamente o que acontece
depois da queda. Antes do pecado, o
homem e a mulher estavam nuis e não
sentiam vergonha. Depois do pecado,
folhas aparecem. Depois do pecado,
arbustos se tornam um esconderijo.
Depois do pecado, o olhar do outro pesa.
Depois do pecado, a presença de Deus
aterrorizava.
aterroriza.
O primeiro casal não inventou apenas uma
roupa, levantou uma estratégia, se
cobrir. E desde então aperfeiçoamos essa
técnica,
mudamos o material. A teologia da Folha
de Figueira continua exatamente eh a
mesma. O filósofo
eh Jul Sartre, no livro O ser e o Nada,
dedicou uma reflexão ao que chamou de o
olhar. Ele estava tentando descrever uma
experiência humana comum, o desconforto
de perceber que outra pessoa está nos
vendo e formando um juízo sobre nós, sem
que possamos controlar inteiramente o
que ela vê, o que ela percebe.
A ideia é simples e desconfortável.
Existe algo ameaçador em ser visto por
alguém cujo olhar você não controla.
Enquanto você controla o que as pessoas
podem ver, enquanto você controla a
informação, controla a parte do
julgamento das pessoas. Você escolhe o
ângulo, escolhe a frase, escolhe o
momento, escolhe o que entra no quadro e
o que fica de fora. Mas se alguém vê o
que você não autorizou,
se conhece o que você pretendia
esconder, se a pessoa acessa uma parte
da história que não passou pela sua
edição, a sensação muda. O olhar deixa
de ser observação e se torna tribunal.
Sartre consegue descrever a sensação,
mas a escritura vai à raiz. Ela não
apenas diz que o olhar de outro pode nos
perturbar. Ela revela que existe um
olhar do qual nenhum ser humano jamais
conseguiu escapar e que esse olhar
pertence ao Deus santo diante de quem
nossa vida realmente será julgada.
A Bíblia diz: "Não há criatura alguma
escondida diante de Deus. Tudo está
descoberto e exposto aos olhos daquele a
quem havemos de prestar contas. Hebreus
4 não deixa uma fresta. Tudo descoberto,
exposto diante dos olhos. Nós podemos
administrar a impressão de quase todos,
não dele. Podemos esconder do cônjuge,
do pastor, dos filhos, dos pais, do
chefe, da igreja, dos seguidores, talvez
até de nós mesmos através de décadas de
racionalização,
mas não dele. É por isso que a doutrina
da unisciência de Deus não é uma
curiosidade abstrata. Ela coloca fogo em
todas as folhas de figueira. Deus não
precisa de investigação, não precisa de
testemunhas secundárias, não precisa
juntar provas. Deus não descobre, Deus
sabe. O problema fica ainda mais grave.
Ele não é apenas o observador absoluto,
é o juiz santo.
Se aquele que conhece tudo fosse
moralmente indiferente, talvez
pudéssemos suportar seu olhar, sua
visão. Mas aquele que vê tudo ama a
justiça com uma pureza absoluta. Então,
fazemos o que Adão fez. Corremos para os
arbustos.
Só que nossos arbustos têm outros nomes:
trabalho, humor, competência, cinismo,
ativismo,
cristianismo nominal, perfeccionismo,
indiferença ensaiada. Alguns se escondem
aparecendo demais, alguns se escondem
desaparecendo, alguns se tornam
indispensáveis para que ninguém pergunte
quem são sem utilidade.
Outros mantêm todos longe para que
ninguém chegue perto o suficiente.
Métodos opostos, mesma nudez, mesmo
medo, mesmo tribunal. É por isso que o
humanismo secular com fazendo tudo ser
terapêutico, não é? e nos exentando é
tão popular na cultura e na igreja. E a
pergunta permanece: se Deus vê tudo, o
que pode nos
cobrir?
Meu café já ficou um pouco frio.
Por que algumas pessoas trabalham até o
limite? Nem sempre é o amor ao trabalho,
quase nunca é, né? Às vezes é oferta.
Veja como produzo, veja quanto entrego,
veja como sou necessário, veja como sou
indispensável. Não olhe para o resto.
Porque outras pessoas não conseguem
dizer não.
Toda necessidade aleia vira convocação.
Toda desaprovação parece catástrofe.
Todo pedido recusado soa como risco de
expulsão. Pode ser oferta. Se eu for
útil o suficiente, talvez me aceitem. Se
eu nunca decepcionar, talvez não me
abandonem, porque outros fazem o
contrário. Não confiam, não se
comprometem, não deixam ninguém chegar
perto, transformam distância em
armadura. Se ninguém me conhecer,
ninguém poderá rejeitar o que realmente
sou.
Porque um número na balança pode dominar
uma manhã inteira, pode estragar o dia.
Ó lá o número do peso. Porque a ausência
de um convite pode parecer um julgamento
sobre toda a nossa vida. Por que não fui
convidado?
Porque uma crítica pequena pode produzir
uma defesa desproporcional?
Porque uma promoção perdida pode soar
como sentença de
inexistência?
Porque coisas boas se tornam facilmente
vestes de justiça.
Elas deixam de ser dons e tornam-se
coberturas. Deixam de ser partes da
vida, tornam-se argumentos para
justificar a vida. Não é o trabalho que
pesa tanto, é o que o trabalho foi
contratado para provar. Não é aparência
sozinha, é o veredito que esperamos
extrair da nossa aparência.
Não é a aprovação humana isoladamente, é
a tarefa impossível que
demos a ó, absolver nossa consciência.
Então, o coração repete o gesto de
Gênesis 3. Costura, aperta, arruma,
esconde e depois espera que a cobertura
aguente o olhar de Deus.
Não aguenta. A folha sempre
sabe que é folha. O currículo sabe que
tem lacunas, a moralidade sabe onde
falhou. A generosidade sabe quantas
vezes foi misturada com vaidade. O
serviço cristão sabe quantas vezes
desejou ser visto. A ortodoxia sabe
quantas vezes se tornou um instrumento
de superioridade e orgulho. A disciplina
sabe quantas vezes foi alimentada pelo
medo. É por isso que a oferta do mérito
nunca produz descanso verdadeiro.
Você sabe que ela não é perfeita e se a
sua aceitação depende dela, qualquer
falha ameaça o fundamento inteiro.
Caim traz uma oferta, mas Caim ainda
precisa que a oferta funcione. E quando
ela não funciona, seu rosto cai, seu
semblante cai.
Antes do assassinato, há um semblante
abatido. Antes do sangue de Abel no
chão, há um homem cuja justiça própria
foi contrariada.
O altar não criou a ira de Caim. O altar
revelou aquilo em que Caim estava
confiando. E quando Deus não aprovou seu
argumento, a religião dele começou a
mostrar os dentes.
Gênesis 3. Gênesis 3 contém uma das
imagens masternas e terríveis de toda a
escritura. O homem pecou, a mulher
pecou, eles se esconderam, costuraram
folhas e Deus veio.
Ele não veio enganado pela roupa, não
veio procurando informação, não
perguntou porque ignorava, veio como o
Deus contra quem haviam se rebelado. A
culpa era real, a vergonha tinha causa,
a morte havia entrado. Então acontece
algo surpreendente. Deus não aperfeiçoa
as folhas, não dá como, não ensina como
fazer folhas e roupas que tapem melhor,
ele as substitui. O texto diz que o
Senhor Deus fez roupas de pele e vestiu
o homem e sua mulher. O pecador tenta se
cobrir, Deus cobre. Há uma distância
infinita entre essas duas ações.
Toda a religião de Caim nasce da
primeira. Eu cubro a mim mesmo.
Eu apresento. Eu compenso. Eu construo.
Eu produzo. Eu entrego. Eu justifico. Eu
faço algo que obrigará Deus a olhar para
mim favoravelmente.
Se eu serei salvo, eu farei algo que me
diferenciou dos outros. Mas a graça
começa com outra gramática. Deus veste,
Deus promete, Deus providencia,
Deus salva. Séculos depois, o profeta
Isaías retomaria exatamente essa
linguagem de roupa e cobertura para
celebrar a salvação de Deus. Ele
descreve a alegria do povo redimido como
a alegria de alguém que foi vestido por
outro. Ele me vestiu com as vestes da
salvação e sobre mim pôs o manto da
justiça. A imagem não é de um pecador
finalmente aprendendo a costurar uma
folha melhor. É um pecador recebendo uma
roupa que não produziu. A diferença
entre Cainha e Abel começa aqui não
temperamento, não em problemas
psicológicos, não bioquímica do cérebro,
não no nível de esforço, não na
profissão, não estética da oferta.
Hebreus 11 fornece a chave pela fé Abel
ofereceu. Fé responde à palavra de Deus.
Fé recebe o que Deus revela. A própria
fé é um dom de Deus. Fé abandona a
pretensão de inventar o próprio caminho
de volta.
Caim se aproxima como quem apresenta o
produto de suas mãos. Você pode dizer
que há uma espécie de fé, já que ele foi
até Deus e trouxe uma oferta, mas
certamente não era a fé verdadeira, não
é? Ela tinha elementos
da mentira, do orgulho, da justiça
própria. Abel se aproxima como quem
ouviu que a cobertura precisava vir de
Deus.
Ele colocou a fé sobre que só Deus salva
e que o homem não pode fazer nada a
respeito. Mas ainda falta uma pergunta.
Como Deus pode cobrir o culpado sem
fingir que a culpa não existe? ou eh
fazendo como as pessoas fazem hoje,
colocando nomes terapêuticos,
não é? Simplesmente eh sendo vítima de
situações
da vida, da química, do cérebro. É assim
que a gente se cobre.
Como
Deus pode vestir o injusto com justiça
sem se tornar injusto?
Como pode dar um veredito favorável a
alguém cujo registro é desfavorável?
Gênesis não deixa a pergunta sem
direção. Antes de vestir Adão e Eva,
Deus havia feito uma promessa.
Viria um descendente da mulher, ele
pisaria a cabeça da serpente e seria
ferido.
A cobertura apontava para uma promessa.
A promessa apontava para uma ferida. E a
ferida apontava para um sacrifício que
ainda não havia aparecido
na história.
Então imagine Caim aproximando. Ele tem
algo nas mãos para mostrar. Fruto da
terra, resultado, produção,
trabalho humano convertido em oferta. O
problema não é que frutos sejam impuros.
Mais tarde, a própria lei de Deus
incluiria ofertas do fruto da terra. O
problema de Gênesis 4 não pode ser
reduzido a uma rivalidade entre
agricultura e pecuária.
Hebreus impede essa leitura superficial.
A diferença é fé. Abel pela fé. Abel
ofereceu pela fé. Caim, não. Uma oferta
pode ser externa e ainda carregar uma
teologia inteira. Ela pode dizer:
"Recebo de ti a salvação que não posso
fabricar". Ou pode dizer: "Olha o que eu
trouxe agora. responde como eu mereço.
A segunda frase é a língua materna do
coração caído. Caim não chega vazio,
chega com uma causa, chega com um
argumento,
chega com aquilo que ele fez. E quando
Deus não aceita o argumento, Caim, não
cai de joelhos.
Seu rosto cai, seu semblante cai,
depois sua ira sobe. Isso é justiça
própria sob pressão.
Enquanto tudo vai bem, ela pode parecer
disciplina. A justiça própria pode
parecer seriedade, pode parecer
espiritualidade, pode parecer zelo, mas
negue-lhe o veredito que exige e observe
o que acontece. Não é justo. Depois de
tudo o que fiz, depois de tudo o que
entreguei, depois de toda a minha
fidelidade, esses anos todos de
compromisso, como Deus permite isso
comigo? A linguagem da barganha aparece
porque havia uma barganha escondida
desde o início. Eu faço, Deus me deve.
Eu obedeço, Deus protege. Eu sirvo, Deus
recompensa. Nos termos que estabeleci,
eu trago, Deus aceita. Quando a vida não
respeita o contrato que nunca foi
assinado por Deus, o coração de Caim se
sente roubado, injustiçado.
É possível passar anos dentro da igreja
alimentando essa lógica.
Orar como investimento, servir como
capital moral, dar como seguro, obedecer
como alavanca, estudar teologia como
superioridade, defender a verdade como
credencial. Então, chega uma perda. Uma
oração não recebe a resposta esperada.
Outro é honrado, outro prospera, outro
ocupa o lugar que eu desejei e o rosto
cai. A frustração revela o verdadeiro
altar. O coração não estava apenas
obedecendo, estava apresentando uma
fatura. Cai trás as mãos cheias, mas
justamente por isso não consegue receber
graça. Graça é ofensiva para quem ainda
quer negociar e acha que merece alguma
coisa. Porque a graça não melhora o
contrato de Caim.
A graça rasga o contrato. Ela diz que
Deus não é devedor de nossas obras, que
Deus não deve nada a nós. Diz que o
melhor que apresentamos não transforma o
santo em credor do pecador. diz que a
salvação não é uma troca entre partes,
que dirá partes equivalentes, mas
misericórdia soberana concedida a quem
não possui argumento suficiente,
argumento algum, para que toda a boca
esteja calada e todo mundo seja culpado
diante de Deus, diz Paulo. É por isso
que a reação de Caim é tão reveladora.
Ele não pergunta primeiro o que há de
errado em mim.
Ele não faz como Davi. Som de meu
coração e veja se é um caminho mau. Ele
age como quem foi tratado injustamente.
A justiça própria sempre faz isso. Ela
transforma a graça em ofensa porque no
fundo acredita que já tinha direito ao
prêmio.
Abel também traz uma oferta, mas Hebreus
diz que sua oferta é melhor. Não porque
Abel seja melhor do que Caim. Não porque
Abel seja moralmente uma espécie
diferente. Ele era um pecador. Não
porque e e nunca peque. A oferta dele é
melhor. Não porque tenha descoberto uma
técnica espiritual superior. Ele vem
pela fé. E fé na escritura não é
confiança vaga de que tudo derá certo ou
de que Deus existe. É dependência
daquilo que Deus falou.
Abel vive do lado de fora do Éden. A
espada ainda aguarda o caminho para a
árvore da vida. A morte já entrou no
mundo. A terra já está sob maldição.
Seus pais sabem o que significa se
esconder de Deus. Mas a mesma história
que fala de expulsão fala de promessa. A
serpente não terá última palavra. Viria
um descendente.
Ela venceria, né? Ele venceria sendo
ferido. E a nudez do casal não foi
coberta por folhas melhoradas, mas por
uma provisão de Deus. Quando Abel leva
dos primogênitos do seu rebanho, o altar
recebe sangue. Ele não está dizendo:
"Olha como sou impressionante, sua
oferta aponta para outra direção. Minha
esperança não está no que produzir.
Minha esperança está no que tu
prometeste.
Eu não sei ainda como a ferida vencerá a
serpente. Não vejo ainda o descendente,
mas creio na tua palavra." É exatamente
o movimento de Hebreus 11.
Certeza do que se espera, convicção
do que não se vê. Abel ainda não vê o
Calvário, mas o sangue sobre o seu altar
já fala uma língua que o cordeiro
completará.
Ele não traz um sacrifício como
pagamento capaz de comprar Deus. Ele
traz o sacrifício como confissão da
incapacidade,
como confissão de dependência total
daquilo que Deus haverá de providenciar.
Por isso o contraste é tão profundo.
Caim diz: "Veja minha obra". Abel diz:
"Veja a oferta."
ou olhe o cordeiro. Caim apresenta o
produto de suas mãos como um fundamento
de aceitação. Abel abandona todo
fundamento em si mesmo e faz aquilo pela
fé, ou seja, pelo que Deus tinha
prometido. Caim quer um Deus que
reconheça mérito.
Abel precisa de um Deus que mostre
misericórdia soberana. Caim entra como
credor, fez algo e merece algo. Abel
entra como um pecador sem direitos.
Séculos depois, Jesus contaria uma
parábola com a mesma divisão. Dois
homens sobem ao templo para orar. O
primeiro é fariseu. Na sociedade
religiosa do seu tempo, isso significava
alguém identificado com disciplina,
rigor e observância. Ele começa a
oração, mas logo sua oração se
transforma em um currículo. Agradece por
não ser como os outros, como os demais
homens. Menciona seu jejum, menciona seu
dízimo, olha para o homem ao lado e o
usa como uma régua para aumentar a
própria altura.
Ele trouxe sua oferta. O segundo homem é
um cobrador de impostos, uma profissão
associada à colaboração com Roma e
frequentemente a corrupção.
Ele nem sequer se aproxima com
confiança, fica a distância, não ergue
os olhos ao céu, bate no peito. Ele não
apresenta um currículo, não apresenta
uma comparação com outra pessoa, não
apresenta a promessa de melhorar para
depois ser recebido. apenas diz: "Deus,
tem misericórdia de mim, o pecador".
Então, Jesus entrega o veredito que
transforma a cena inteira. Foi este
homem e não o outro que voltou para casa
justificado.
Um entrou falando do da sua obra, do seu
caráter,
da sua obediência,
da sua oração. Outro entrou pedindo
misericórdia. Caem Abel ainda estão no
templo.
Caem e Abel estão em todos os lugares.
Estão na igreja, no mundo. A Bíblia não
apresenta a salvação como um plano
improvisado depois que a história deu
errado. A promessa aparece no próprio
cenário da queda. Na verdade, Jesus é o
cordeiro morto antes da fundação do
mundo.
A serpente celebra cedo demais. O homem
caiu, a mulher caiu, a comunhão foi
quebrada, a vergonha apareceu, a morte
começou a lançar sua sombra. Então Deus
fala de um descendente. Ele virá da
mulher, entrará em combate, será ferido
e vencerá. A salvação é anunciada como
vitória através da ferida de outro, da
luta de outro e da vitória de outro.
Isso muda a leitura de toda a história.
O sangue não aparece como detalhe
mórbido, aparece porque o pecado produz
culpa real. Você não vai tapar nenhuma
culpa com argumentos, hum, do humanismo
secular,
colocando as teses de Freud e de tantos
outros, não é?
Então
aparece porque o pecado produz culpa
real diante de um Deus santo e porque
reconciliação não será construída pela
negação da justiça. Deus não salva
fingindo que o mal é pequeno ou que o
mal é um uma doença.
Ele salva satisfazendo sua própria
justiça. A linha passa por altares. A
promessa vai ganhando forma ao longo de
toda a escritura.
Na noite da Páscoa, quando os o juízo
passa pelo Egito, famílias israelitas
recebem a ordem de matar um cordeiro e
marcar as portas com sangue.
A casa não é poupada porque seus
moradores são moralmente superiores aos
egípcios.
Cada judeu que não tivesse o sangue
morreria igual os egípcios, independente
de que a vida dele era muito mais moral
e não pagã como a dos egípcios.
O sangue marca a provisão de Deus.
Depois vem os sacrifícios de Israel.
Animais morrem, sangue é derramado. No
dia da expiação, o pecado do povo é
tratado diante de Deus por meio de um
sacerdote e de vítimas que apontam para
uma purificação que ainda precisava ser
completada.
Isaías fala de um servo que seria ferido
pelas transgressões de outros. E séculos
depois, quando João Batista vê Jesus se
aproximando, aponta para ele e diz: "Eis
o cordeiro de Deus!" Ali inteira começa
a convergir
e termina numa colina fora de Jerusalém.
Ali a promessa deixa de ser sombra. Ali
o descendente chega. Ali a ferida recebe
nome Jesus Cristo. A fé de Abel não
possuía a clareza histórica que a igreja
recebe depois da cruz e da ressurreição,
mas sua direção era exatamente a mesma
direção de toda a fé salvadora para fora
de si, em direção à provisão soberana de
Deus.
É por isso que Hebreus pode dizer que
ele foi reconhecido como justo. Não
porque o sangue de um animal tivesse
poder moral para pagar os pecados de
Abel. Não porque Abel houvesse
conquistado justiça pela sua obediência
ou por algo que ele tenha feito, mas
porque sua fé descansava na promessa do
que Deus faria sozinho, soberanamente,
cuja realidade final é Cristo. O altar
de Abel era uma seta, o Calvário é o
destino.
E agora a pergunta do tribunal pode
finalmente ser respondida. Como Deus
pode olhar para um pecador e declarar
justo, não diminuindo a lei, não
esquecendo a culpa, não tornando o
problema do homem terapêutico, não sendo
sentimental, não transformando santidade
em tolerância, mas colocando diante do
pecador uma oferta perfeita. Não uma
oferta produzida pelo pecador, uma
oferta dada por ele e que ele não deve a
ninguém.
O descendente ferido não vem apenas
trazer uma mensagem, ele vem para ser a
oferta.
Então, volte ao tribunal. Mas agora o
réu que está diante dos homens não é
culpado. Jesus é preso e levado a
julgamento. Diante das autoridades
religiosas, testemunhas são chamadas,
acusações se acumulam e depoimentos
entram em conflito. Depois ele é levado
ao governador romano, porque seus
acusadores querem uma sentença que vai
além da disciplina religiosa que os
judeus podiam dar. Querem a morte.
Pilatos percebe a pressão,
tenta administrar a crise e então coloca
diante da multidão dois homens. De um
lado Jesus, do outro Barrabis, um
prisioneiro envolvido em rebelião e
violência.
O inocente e o culpado são colocados
lado a lado, e a multidão pede que
Barrabai seja solto. Jesus é entregue
para morrer. E o único homem na história
que poderia sustentar-se diante de Deus
com base em sua própria justiça é
tratado como condenado. Aqui está a
inversão do evangelho.
Nós passamos a vida inteira tentando
parecer inocentes. O inocente aceita o
lugar do culpado. Nós costuramos
coberturas, ele é despido. Nós buscamos
aprovação, ele ouve zombaria. Nós
tentamos controlar a narrativa
sobre ele. Escrevem uma acusação e o
colocam a colocam acima de sua cabeça.
Nós fugimos da sentença. Ele caminha em
direção a ela. A cruz é o fim de toda
religião que reduz Jesus a exemplo de
comportamento.
Um exemplo pode inspirar, não pode
substituir. Um mestre pode instruir, não
pode carregar culpa. Um profeta pode
anunciar justiça, não pode imputar sua
justiça a pecadores se não for também o
Salvador prometido. Cristo vai ao
tribunal porque nós temos um tribunal.
Cristo recebe condenação porque nós
somos condenados.
Cristo é rejeitado porque nós precisamos
de aceitação. Cristo é exposto porque
nós estamos tentando nos esconder e nos
tapar. O apóstolo Paulo
descreve essa troca em segunda Coríntios
5:21. Aquele que não conheceu o pecado
foi feito pecado por nós para que nele
nos tornássemos justiça de Deus. É uma
sentença curta para uma substituição
imensa. Não há evangelho sem
substituição.
Na cruz o pecado não é ignorado, é
julgado. A ira não desaparece no ar. Ela
é suportada até o fim. Um inferno sem
fim de ira infinita. A dívida não é
reclassificada como irrelevante, ela é
paga totalmente.
A lei não é silenciada, é cumprida. E o
pecador não recebe apenas uma segunda
chance de fabricar uma oferta melhor.
Agora recebe Cristo. Isso é muito mais
do que perdão entendido como retorno ao
zero. O evangelho não apenas cancela a
condenação, ele veste. A justiça
perfeita do filho se torna o fundamento
do veredito favorável sobre aquele que
crê.
A testemunha entra na sala, mas dessa
vez ela não diz que você é maravilhoso
porque examinou sua vida e descobriu
méritos escondidos, que lá no fundo você
era bom. Ela diz algo infinitamente
melhor. Você está em Cristo e o caso
muda inteiramente.
Adão veste folhas. Deus veste Adão. Isaí
celebra vestes de salvação. Cristo chega
ao Calvário e é despido. A Bíblia não
desperdiça imagens.
Aquele que possui glória eterna entra em
nossa vergonha. Soldados tiram suas
roupas. Homens olham, homens zombam. O
filho é exposto publicamente nu. O
pecado havia nos eh eh eh havia nos
ensinado a esconder a nudez. A cruz
mostra o Salvador assumindo a vergonha
do pecador sem se esconder.
Ele não tem pecado próprio a encobrir,
mas recebe a vergonha que pertence aos
seus, aqueles que o pai deu a ele. Nós
queremos cobrir culpa com desempenho,
com racionalização,
com humanismo secular. Ele cobre
culpados com justiça.
Essa é a beleza violenta do evangelho.
Deus não elogia as folhas. Deus não diz:
"Sua cobertura ficou quase boa.
Eu vou completar o que falta." Ele
fornece outra veste
e a veste custa sangue. A religião de
Caim sempre tenta diminuir essa
necessidade. Ela prefere um Deus que
avalia esforço,
que faz a parte dele, mas contou com a
minha parte. Um Deus que faça média, um
Deus que compare um ser humano com o
outro e disse: "Tá vendo? Aquele ali é
melhor que você, então você aceitar ele.
Um Deus que diga: "Ninguém é perfeito,
mas você tentou bastante, você foi eh
honesto. Ninguém é perfeito, mas você
foi sincero.
Esse Deus seria conveniente porque
manteria o pecador no centro do sistema
e rebaixaria o que o pecado é. Seu
esforço ainda seria a moeda, sua obra
ainda seria o fundamento. Seu desempenho
ainda explicaria o veredito,
pelo menos em parte. Mas o Deus da
Escritura salva de modo que ninguém se
glorie. A justiça vem de outro, a
obediência vem de outro, o sacrifício
vem de outro, a ressurreição vem de
outro. A mão vazia da fé apenas recebe,
porque recebeu a fé como um dom e o
arrependimento. Isso humilha o orgulho e
consola a consciência ao mesmo tempo.
Humilha porque você não contribui com
mérito algum. Consola, porque se você
não contribui com mérito, a sua
instabilidade não é o fundamento da
aceitação. Seu registro está,
seu registro essa semana não foi
perfeito.
Sua oração não foi perfeita, seu amor
não foi perfeito. Seu arrependimento,
sabe o amor que você cobra dos outros?
Então, o seu não foi perfeito. Seu
arrependimento não foi perfeito. Sua fé
não foi perfeita em intensidade e
pureza. Mas o Cristo em quem a fé
descansa é perfeito. A oferta é
perfeita, o sacerdote é perfeito, a
justiça é perfeita, a obra está
consumada.
É por isso que o crente pode confessar
pecado sem tentar controlar o que Deus
verá. Ele pode realmente confessar isso
aqui foi inveja. Ele pode falar como
afna. Eu tive inveja dos ímpios na
prosperidade deles
ou como Davi, contra ti pequei e fiz o
que era mal aos teus olhos.
Sem desculpas.
Deus já viu tudo. E em Cristo forneceu a
cobertura que o pecador jamais poderia
costurar. Essa é a diferença entre se
esconder e ser vestido. Quem se esconde
continua vivendo com medo de ser
descoberto. Quem é vestido por Deus já
não precisa construir uma versão editada
de si mesmo diante de Deus. Pode
confessar porque a justificação não
depende da habilidade de parecer
inocente
ou pelo menos melhor ou pelo menos mais
sincero que os outros. pode trazer a
culpa, a luz, porque a justiça que a
cobre, que o cobre não nasceu de sua
própria performance. O evangelho não
ensina o pecador a fabricar folhas mais
resistentes.
Ensina ele a abandonar todas as folhas e
a receber a veste da mão do Deus
soberano.
Caim nunca pode descansar completamente.
Sua aceitação depende da oferta que ele
produz. precisa verificar a oferta o
tempo todo. Será que é suficiente?
Será que é boa? Foi boa o suficiente?
Foi pura o suficiente? Foi grande o
suficiente? Foi sincero o suficiente?
Foi melhor do que a do outro? Foi melhor
do que a do Abel, do irmão?
Minha oração foi melhor que a dele. A
justiça própria é uma esteira que nunca
para. Você corre para manter o veredito
e fica tentando manter o veredito até o
último instante. Quem sabe no último
instante nada vai ser suficiente. E como
nunca alcança a perfeição, precisa
se basear em comparação com outros.
Talvez eu não seja perfeito, mas sou
melhor do que ele, do que ele, do que
aquele. Tenho mais amor do que aquele
lá, do que aquele irmão lá, do que
aquele
cara da igreja. Talvez eu tenha falhado,
mas pelo menos não falhei daquele bondo.
Talvez eu seja um pouco orgulhoso, mas
sou ortodoxo.
Talvez eu seja frio, mas sou
disciplinado. Talvez eu seja cruel, mas
estou certo. A comparação
é o respirador artificial da justiça
própria. O evangelho desliga a máquina.
Abel não recebe testemunho favorável
porque sua vida semanal foi impecável.
Ele recebe porque se aproximou pela fé.
E a fé verdadeira aprende a dizer: "Não
tenho mérito que possa apagar a ira
infinita de Deus. Minha esperança está
na justiça de outro totalmente. Minha
oferta não sou eu, nem o que eu faço.
Minha oferta é Cristo. Isso produz uma
segurança que não é presunção.
Porque a presunção diz: "Deus deve me
aceitar porque sou bom ou pelo menos sou
melhor do que os outros". Eles não
exerceram sua liberdade. Eu exerci a
minha. A fé diz: "Deus me aceita porque
Cristo é suficiente".
A presunção olha para dentro e infla o
que encontra lá dentro. A fé olha para
dentro, reconhece que não há nada lá
dentro. Na verdade, a fé olha para
dentro, reconhece a ruína e depois olha
para fora para o cordeiro, para o
fiador, para o sacerdote, para o rei
crucificado e ressuscitado. É assim que
a consciência recebe estabilidade. Não
por negar o pecado, não por
racionalizar, não por pedir Freud que eu
ajude a dizer que aquilo são síndromes,
por localizar a justiça no lugar certo.
Quando Satanás acusa, a resposta não é
um inventário
apressado de virtudes, de desculpas,
dos meus problemas, dos meus traumas.
Quando a consciência recorda falhas
reais, a resposta não é fabricar
amnésia. Quando a vida desmorona, a
resposta não é dizer que nada importa. A
resposta é Cristo. Seu sangue, sua
obediência, sua intercessão, sua justiça
imputada, sua vida indestrutível.
O crente ainda se arrepende, ainda
mortifica pecado, ainda luta, ainda
chora, ainda cai e se levanta, mas não
faz dessas coisas uma nova oferta para
comprar aceitação. A santificação não
substitui a justificação, ela nasce
dela. O filho obedece porque foi
recebido, não para comprar a adoção. A
oferta já foi apresentada e ela não
falha. É aqui que nasce a coragem de
Hebreus 11. O coração deixa de enfrentar
cada manhã como se precisasse reabrir o
processo e conquistar novamente o
direito de pertencer a Deus.
A obediência continua séria, o pecado
continua odioso, a santificação continua
necessária, mas nenhuma dessas coisas
ocupa o lugar do fundamento. O
fundamento não é o quanto você conseguiu
melhorar desde ontem. O fundamento é
Cristo ontem, hoje e para sempre.
A fé pode tremer. A mão que recebe pode
ser fraca, mas aquilo que ela recebe não
é fraco, é Cristo.
Aqui
a lâmina entra mais fundo, não é? Caim
admite que existe Deus. Caim cultua.
Caim traz oferta. Caim sabe que existe
pecado. Nada disso torna Abel. Qual é a
diferença decisiva? Abel abandona sua
justiça como fundamento. Caim não é
possível se arrepender de pecados e
continuar agarrado a própria justiça,
achando que sua obediência realmente
pode comprar algo de Deus. É possível
sentir remorço por mentir e ainda
confiar no fato de que você não
adultera. É possível lamentar um acesso
de ira e ainda descansar na própria
doutrina correta. É possível confessar
orgulho e transformar a própria
confissão em um sinal de superioridade
espiritual. Pelo menos eu confesso, o
coração é capaz de usar até o
arrependimento como uma oferta. Por
isso, o evangelho exige algo mais
devastador do que a religião natural
imagina. Não apenas se arrepender
daquilo que é mal, mas também se
arrepender da esperança de haver algo
bom em nós que pode ser aceito, porque
você é bom.
se arrependa de seus pecados. Mas a
Bíblia diz, o evangelho se arrependa da
sua justiça,
se arrependa do adultério,
mas se arrepende da Se arrependa também
da castidade que é usada como um trono
para achar que isso te tornou aceitável.
Se arrependa da mentira, mas também se
arrependa da honestidade que é usada
como moeda de troca, de superioridade
diante de Deus, dizendo que você não é
como os outros. Se arrependa da avareza,
do amor ao dinheiro, mas também se
arrependa da generosidade que você
transforma em um recibo contra Deus.
Se arrependa da ignorância bíblica, mas
também se arrependa do conhecimento
bíblico convertido em escada para olhar
os outros de cima, como se fosse
superior.
Se arrependa de fugir de Deus, mas
também se arrependa de tentar se
aproximar dele como Caim, com o seu
currículo na mão.
Isso é intolerável para o orgulho,
porque retira a última
área em que ele pretendia sobreviver.
Ele reconhece que há pecados nele,
coisas ruins, mas acha que há muitas
coisas boas. O pecador prefere ouvir que
precisa melhorar. Melhorar preserva o
controle. Melhorar permite negociar.
Melhorar deixa a oferta em nossas mãos.
O evangelho diz que o problema é mais
grave. Você não precisa apenas de ajuda,
precisa de substituição.
Não precisa apenas de instrução, precisa
de justiça. Não precisa apenas ser
aperfeiçoado, precisa ser unido a
Cristo.
As mãos precisam abrir, a oferta precisa
cair, o argumento precisa morrer. Só
então a graça deixa de ser insulto e se
torna música.
Caim diz: "Veja o que eu fiz". Abel diz:
"Veja o que prometeste ao pecador Caim
olha para as mãos, Abel olha para o
sangue. Caim quer salário, mas o salário
do pecado é a morte, mas o dom gratuito
de Deus,
o evangelho é um dom gratuito
em Cristo. Abel recebe misericórdia que
nenhum homem merece, porque é
contraditório dizer merecer
misericórdia.
Merecer é justiça e você não pode ficar
para sempre entre os dois altares.
Talvez esta seja a parte mais difícil de
ouvir para uma pessoa religiosa, cristã,
que está na igreja. É mais fácil
confessar um vício visível do que
admitir que todos os anos de disciplina,
serviço e respeitabilidade foram
secretamente usados como uma tentativa
de controlar o veredito de Deus.
O evangelho não chama essas obras de
inúteis em si mesmas. Ele apenas as
expulsa do tribunal.
Boas obras pertencem à vida de um filho
de Deus. não pertencem à cadeira do
advogado, não entram como pagamento, não
entram como negociação,
não entram como suborno, não entram como
fundamento.
Quando chegam ao lugar errado, até
coisas
que externamente seriam santas se tornam
ídolos. Por isso, a fé abre as mãos, não
para viver sem obediência, mas para
finalmente obedecer sem transformar
obediência em moeda.
Contudo,
sou o que sou pela graça de Deus. Como
diz Paulo, Deus operou em mim o querer e
o efetuar. Gênesis registra um detalhe
corporal. Caim ficou irado e seu rosto
caiu. Nós sabemos como um rosto pode
mostrar contrariedade,
ira, decepção.
Antes que sua mão se levante contra Bel,
seu semblante já havia denunciado o que
aconteceu no seu coração. Ele esperava
uma resposta de Deus, não recebeu e a
frustração se tornou ira.
Isso revela uma das marcas mais claras
da justiça própria. Ela se sente lesada
pela graça soberana, pela graça livre.
Se você pensa que Deus lhe deve alguma
coisa, a vida inteira será lida como uma
sequência de pagamentos corretos ou
atrasados. Quando vem bênção, você
pensa: "Naturalmente
eu fiz isso, fiz aquilo, tô vivendo
assim". Quando vem perda, você pensa,
por que isso está acontecendo comigo?
Quando o outro é honrado, você pergunta:
"Por que ele?" Quando sua obra não
recebe reconhecimento, o teu rosto cai.
Quando sua fidelidade não produz o
resultado que você esperava, o coração
acusa Deus de administrar mal o
universo.
O cristianismo, né? A religião de Caim
não mata a rebelião.
Ela dá a rebelião linguagem espiritual.
Por isso Caim odeia Abel. A segurança de
Abel parece arrogância aos olhos de quem
tenta construir segurança pelo seu
desempenho. Como ele pode ter tanta
certeza? Ele acha que é perfeito? Não é
exatamente o contrário. Abel pode ter
certeza porque deixou de apontar para
sua perfeição.
Ele não está dizendo sou suficiente ou
pelo menos sou sincero. Ele está dizendo
minha oferta é suficiente porque Deus é
que providenciou ela. A graça cria uma
estranha humildade confiante. Humildade
porque elimina a superioridade.
Não é o homem que recebeu misericórdia
não se sente superior a ninguém.
confiança porque elimina incerteza sobre
o fundamento. Caim precisa ser melhor do
que alguém.
Abel não. Caim precisa vencer na
comparação.
Abel pode abandonar a régua e a
comparação. Caim não tolera bem quem
discorda, porque sua identidade está
presa à necessidade de estar certo como
condição de seu valor. Abel pode
defender a verdade sem fazer da vitória
sobre o outro sua justificação.
Ele sabe que não entrou no reino porque
era mais inteligente. Não entrou porque
enxergou sozinho o que o outro não
enxergou. Não entrou porque nasceu com
um coração melhor, superior, mas
humilde.
Entrou pela graça. Logo, o homem diante
dele não é uma espécie inferior. É
alguém que precisa da mesma misericórdia
livre que o salvou. Isso não enfraquece
convicções,
purifica o motivo. O crente pode dizer:
"Você está errado". sem precisar dizer e
por isso eu sou justo ou se sentir
melhor. Pode confrontar sem transformar
o outro em degrau para subir. Pode
sofrer oposição sem fazer da vingança a
sua identidade.
Abel é morto, mas ele Abel não precisa
matar para existir.
Há momentos em que Deus permite que uma
coisa seja retirada e no mesmo instante
descobrimos que ela havia se tornado
muito mais do que uma coisa apenas, uma
posição, um relacionamento,
uma reputação, um corpo, um projeto, uma
oportunidade, um ministério, uma renda,
uma função. Enquanto permanece conosco,
dizemos: "É apenas parte da vida".
Quando a ameaça partir, descobrimos que
aquilo era a nossa cobertura. Sem isso,
como vou olhar para mim? Sem isso, quem
serei? Sem isso, o que os outros
pensarão de mim? Sem isso, como provarei
que minha vida deu certo? É aí que
Hebreus 11 deixa de ser galeria de
heróis e se torna exame do coração. Fé
não significa que nada será perdido.
Abel perdeu a própria vida. Fé significa
que existe algo que não pode ser perdido
porque está guardado em Deus. O cristão
pode olhar para aquilo que ameaça
desaparecer
e dizer: "Isso não é minha oferta. Isso
não é minha justiça. [roncando] Isso não
é meu esconderijo. Minha vida está
escondida com Cristo em Deus. Meu nome
não depende disso. Meu veredito não
depende disso. Minha aceitação diante de
Deus não sobe e desce com isso. Cristo é
minha oferta.
Essa frase não torna a perda indolor,
torna a perda incapaz de ocupar o trono.
Você pode chorar, mas não será
destruído. Pode lamentar sem precisar
reconstruir uma identidade às pressas
sobre outra coisa. pode sofrer sem
concluir que o juiz
mudou de veredito. Pode ser criticado
sem transformar cada crítica num
apocalipse.
Pode ser esquecido sem desaparecer. Pode
ser ultrapassado sem deixar de ser
filho. Pode envelhecer e o seu corpo
decair sem perder sua justiça.
Pode morrer sem perder a vida. Essa é a
força de Hebreus 11. Os antigos
enfrentam o mundo porque o mundo não
possui a palavra final sobre eles. Nem
aplauso, nem rejeição, nem ameaça, nem
morte. Deus falou. E se Deus falou em
Cristo, o coração pode parar de correr
de tribunal em tribunal, pedindo
absolvição a juízes, que também são
réuss.
É isso que muda a relação com a perda.
Antes perder a cadeira podia significar
perder a identidade, perder eu saber
quem eu sou. Agora é apenas perder uma
cadeira.
Perder um cargo continua doloroso, mas
já não significa perder a justiça.
Perder admiração continua ferindo, mas
não significa perder adoção. O mundo
pode retirar títulos que ele mesmo
concedeu. Não pode retirar o nome que
Deus dá aos que estão em Cristo.
Filhos justos nele, recebidos no amado.
A perda ainda pode atravessar o coração.
Só não pode mais escrever nenhum
veredito sobre nós. Abel morre, seu
sangue cai sobre a terra.
Gênesis diz que o sangue clama. Clama
pelo quê? Clama por justiça. Clama
porque o mal não é invisível para Deus.
Todo pecado clama por justiça. Não o
pecado dos outros, da sociedade, o meu
pecado e o seu. Clama porque a violência
exige resposta. Mas Hebreus não termina
com Abel.
Mais adiante, em Hebreus 12, a mesma
carta conduz o leitor novamente até
Abel. Só que agora não estamos diante do
primeiro altar de Gênesis, estamos
diante de Jesus, chamado de mediador da
nova aliança e de seu sangue que fala
melhor do que o sangue de Abel.
Para entender a força da frase, é
preciso lembrar o que aconteceu depois
do culto. Caim matou o irmão. Deus então
disse que o sangue de Abel clamava da
terra. O sangue da vítima
pedia justiça contra o assassino.
Hebreus pega essa imagem e a leva a ao
Calvário.
Melhor. Essa palavra fecha o círculo,
fala melhor. Abel ofereceu um sacrifício
melhor do que Caim. Mas Cristo traz um
sangue que fala melhor do que o sangue
de Abel. O sangue de Abel clama desde o
chão por justiça contra o assassino.
O sangue de Cristo satisfaz a justiça e
anuncia perdão para assassinos
espirituais, rebeldes, culpados,
inimigos reconciliados pela graça
soberana.
Isso não torna a justiça menor, torna a
cruz maior. O sangue de Jesus não pede
que Deus ignore a culpa, que por amor
ele fingja que não viu ou que a ira dele
pode ser esquecida.
É o sangue pelo qual a culpa foi
espiada. Espiação é um sacrifício que
propicia, né?
Foi propiciada. Propiciação
é o sacrifício que eh propicia a ira de
Deus. Já a expiação afasta de nós o
pecado, não é? Como oriente está longe
do ocidente. Então você vê o sangue
dele, fala melhor, não pede que Deus
fingja que a lei nunca foi quebrada.
Não diz que a ira de Deus infinita
contra o pecado é exagerada. É o sangue
daquele que cumpriu a lei e suportou sua
maldição em favor do seu povo eleito.
Não pede tolerância.
não pede tolerância abstrata, ele compra
redenção. Por isso, o testemunho de Deus
pode ser firme. Por isso, a justificação
pode ser definitiva. Por isso, o crente
não recebe um veredito provisório para
dia a dia ver se ele vai continuar ou
não. Ele não recebe um veredito
provisório sujeito à revisão toda vez
que ele tropeça. A base não é seu
desempenho presente. A base é uma obra
que foi concluída fora dele. Cristo
morreu, Cristo ressuscitou, Cristo
intercede, Cristo reina. A oferta
permanece diante do Pai em toda a
perfeição do seu valor infinito.
Então Abel ainda fala: "Mas seu
testemunho aponta para outro. Ele diz:
"Não traga sua justiça, não costure sua
folha, não transforme sua obediência em
moeda não ache que seu arrependimento é
uma moeda. Não ache que sua oração é uma
moeda. Não peça que Deus aceite uma
oferta que você mesmo sabe que é
imperfeita. Olhe para o cordeiro.
O sangue que fala melhor já foi
derramado.
E ele fala uma palavra que Abel jamais
poderia falar por si mesmo. Abel podia
apontar para a necessidade de uma
oferta. Sua morte podia clamar por
justiça. Mas somente Cristo pode unir as
duas coisas sem destruir o pecador.
Justiça satisfeita e misericórdia
concedida. Na cruz, Deus não escolhe
entre ser justo e justificar o ímpio.
Ele permanece justo enquanto justifica
aquele que tem fé em Jesus.
Por isso o sangue fala melhor.
Não porque
fale contra a justiça, contra a ira,
contra a santidade de Deus, porque a
justiça já foi cumprida nele. O tribunal
não desapareceu, o juiz não mudou, a
santidade não diminuiu. O que mudou foi
a oferta colocada diante do tribunal. E
essa oferta
é perfeita.
A sala, voltando aquele início, né,
continua silenciosa. O processo continua
sério. Deus continua santo. Você
continua sem poder controlar o olhar
dele. Nada está escondido. Nenhuma folha
resiste.
Não importa, não é? Ah, o humanismo
secular está produzindo folhas sem fim.
Nenhuma folha resiste, nenhuma edição de
imagem, nenhum currículo, nenhuma
reputação, nenhum ministério, nenhuma
disciplina, nenhuma coleção de boas
obras e obediências,
nenhuma tentativa sincera, nenhum
argumento fabricado pela carne. Se a
história terminasse aí, Caim seria a
única religião possível.
Trabalhe, traga, mostre, compare,
defenda, espere, irrite-se quando o
veredicto não vier como você espera. Mas
a história não termina aí. Antes de Caim
houve uma promessa. Antes do altar de
Abel houve um Deus que vestiu pecadores.
Antes da lei houve graça prometida.
Antes do Calvário houve sombras. antes
do eh eh e de todas essas coisas, havia
um cordeiro morto antes da fundação do
mundo. Então o filho veio, o verdadeiro
descendente da mulher, o verdadeiro
cordeiro, o verdadeiro sacerdote, o
verdadeiro justo. Ele entrou no
tribunal, foi condenado pelos homens,
carregou a condenação de seu povo, foi
despido, foi ferido, derramou o sangue,
morreu,
ressuscitou. Agora, a pergunta não é se
você conseguiu fabricar uma oferta
impressionante ou pelo menos
impressionantemente sincera. A pergunta
é se você ainda está segurando a sua. Se
há qualquer oferta na sua mão,
então você deve saber que Caim segura a
oferta dele, Abel solta. Caim aponta
para as mãos, Abel aponta paraa promessa
de Deus. Caim diz: "Aceita-me porque
fiz". Abel disse: "Aceita-me por causa
daquele que virá, por causa da tua
promessa, por causa da tua salvação". E
o cristão, olhando para trás pode dizer
com a clareza que Abel ainda não
possuía. Me aceite por causa de Cristo.
Não há mérito meu que eu possa
apagar
tua justiça contra o meu pecado.
Não há obra minha que possa vestir minha
nudez.
As minhas melhores obras, a minha melhor
obediência, a minha melhor oração ainda
contém pecado. Não há disciplina minha
que possa reescrever meu registro. Não
há sofrimento meu que possa comprar
minha absolvção. Não há oferta em minhas
mãos a Cristo, meu fiador, meu
substituto, minha justiça, meu cordeiro,
meu sacerdote, meu rei.
E quando esse evangelho desce da boca
para o coração, algo começa a morrer. A
necessidade de vencer todos os
tribunais. na vida. A necessidade de
controlar todos os olhares, a
necessidade de parecer vulnerável,
a necessidade de provar que você merece
a mesa, a mesa quatro lá no restaurante,
a necessidade de transformar cada bênção
num certificado de valor. Tá vendo? Eu
fiz, eu vivi de uma maneira que merecia
essa bênção. Você não merece. a
necessidade de transformar cada perda
numa sentença de condenação. O mundo
ainda olha, as pessoas ainda aprovam e
rejeitam, o espelho ainda devolve
imagens,
a carreira ainda oscila. O corpo ainda
envelhece, a reputação ainda pode ser
ferida, a morte vai chegar, a morte
ainda chega, mas nenhuma dessas coisas
ocupa o banco do juiz mais. Deus falou
em seu filho. E o pecador unido a Cristo
recebe o veredito que o mundo não pode
revogar, justo, aceito, filho. Não
porque a oferta dele ficou boa o
suficiente, porque a oferta de Cristo é
perfeita. Então, as mãos podem abrir, a
folha pode cair, o rosto pode se
levantar e o coração finalmente pode
parar de dizer olha para mim, porque
aprendeu a dizer olha para Cristo aí
começa a fé que enfrenta o mundo. Aí
termina a religião de Caim, o
cristianismo de Caim.
E ali diante do altar vazio das nossas
obras, permanece a única justiça capaz
de sobreviver ao olhar de Deus.
O Senhor será a minha justiça.
>> Tu conheces o que eu [canto][música] nem
no meio, o orgulho vestido de razão e a
fumaça dos [música] altares falsos que
levantei [canto]
em minha devoção.
Meu pecado é mais que meus [música]
tropeços. [canto]
É raiz doente a florescer.
É a alma desejando [música][canto]
independência.
peito querendo se reger.
Quantas vezes troquei [música][canto]
tua beleza por um reino feito por mim?
Mas o [música][canto] homem longe da tua
face sempre volta ao pó do [música]
próprio fim.
Mas tua luz não vem para [canto] ferir,
nem tua voz me chama para expor.
[música]
Tu descobres [canto] a ferida escondida
porque queres restaurar com teu amor.
Tem [canto] piedade de mim, Jesus.
Não me deixes nas mãos do meu querer.
[canto]
Se eu [música] desabo ser a minha rocha,
se eu me perco,
vem me recolher.
>> [canto]
>> Tua cruz desfaz meu falso
abrigo.
Teu perdão [canto] me ensina a respirar.
[canto]
E o sangue
que [música] verteu do teu [canto] lado
é o que pode um pecador lavar.
>> [música]
>> Já tentei [canto] juntar meus próprios
cacos com promessas feitas na aflição.
Já tentei [canto]
comprar de volta [música] paz com
tristeza, esforço e devoção. [canto]
Mas a culpa [música] não recua ao
pranto, nem se curva o peso da minha
voz. Ela cai [música] somente diante
[canto]
do cordeiro que morreu e ressuscitou por
nós. Tu és santo, eterno, incontornável.
Eu sou o pó tentando [canto] me exaltar.
Sou um ramo seco sem a videira. Sou um
barco cego em alto mar. Toda estrada sem
o teu governo tem aparência, [canto]
mas não tem saída. [música]
É deserto se chamando liberdade, [canto]
é ruína se vestindo [música]
de vida. Inclina, pois meu coração,
Senhor, quebra em mim o encanto
[música][canto] pelo mal. Põe temor onde
cresceu soberba, põe doçura onde eu
ergui. Tribunal. [canto]
Tem piedade de mim, Jesus.
>> [canto]
>> Não me deixes nas mãos do meu querer.
Se eu desabo [canto]
ser a [música] minha rocha, se eu me
perco,
vem me recolher.
Tua cruz desfaz
meu falso
abrigo.
Teu perdão me ensina a respirar.
[canto][música]
E o sangue
que verteu do [canto] teu lado
é o que pode um pecador lavar.
Se me deres [canto] alegria, seja santa,
nascida da certeza do perdão. Se me
deres [canto] obediência,
seja mansa, fruto [música]
vivo da tua habitação.
Não me dê [canto] bravura, sem presença,
[música]
nem descanso, longe de teu [canto] ser.
Dá-me um coração quebrado e firme,
pronto em tudo
para te obedecer.
Quando eu cair,
tua graça me alcança.
Quando eu [canto] temer,
tua paz me atrairá.
Quando eu lembrar [canto]
quem sou sem tua vida,
mais preciosa tua misericórdia [canto]
[música] será. Tu não és auxílio [canto]
para emergências.
Tu és tudo que me faz viver.
E [música] no fim de toda [canto] a
autoconfiança,
só tua cruz vai permanecer.

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