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A fé vem pelo ouvir

O CATÓLICO QUE TODO PROTESTANTE DEVERIA AGRADECER (Erasmo de Roterdã)

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Legendas automáticas:

Um católico foi extremamente importante
para a reforma protestante. Tão
importante que mesmo tendo morrido
católico, foi enterrado em uma igreja
protestante, tendo o seu ofício fúnebre
celebrado por um pastor reformado. Eu
estou falando de Erasmo de Rotterdam.
Sim, aquele que brigou arduamente com
Lutero, mas que foi muito mais influente
sobre ele do que Lutero estaria disposto
a reconhecer. E por mais que ele seja
conhecido pelo seu humanismo, alguns
princípios protestantes vem diretamente
de Erasmo. Eu estou aqui nos fundos da
casa onde Erasmo morreu e viveu os seus
últimos dias. Eu queria mostrar a frente
da casa, mas está tendo uma obra. Erasmo
de Rotterdam morreu naquela casa ali, ó,
ali na frente. Mas aí, como é que eu
chego lá? Está tudo assim. Eita, rapaz.
Estou na Suíça, na cidade de Basileia.
Eu quero te convidar para esse Teologia
na Estrada sobre Erasmo de Rotterdam,
sobre O Elogio [música] da Loucura e
sobre como um católico que se recusou a
virar protestante, que brigou com
Martinho Lutero, [música] influenciou
também os ideais da reforma.
>> [música]
[música]
>> A catedral da Basileia era originalmente
uma catedral episcopal católica. Um
edifício que tem raízes medievais muito
antigas. Então, a igreja católica foi
consagrada aqui em 1019,
na presença do imperador Henrique II. E
depois do terremoto de 1356,
parte dela teve que ser reconstruída,
resultando nessa combinação, né,
românica e gótica que você encontra
aqui. Até que em 1529,
houve uma onda violentíssima
de iconoclastia, de ódio às imagens, a
qualquer uma que seja, então, e foi
muito violento aqui, tá? Altares e
imagens foram retirados daqui, foram
queimados em praça pública, o bispo e
boa parte do clero católico então
deixaram a cidade e a partir daí, a
catedral virou igreja protestante.
Erasmo não aderiu à reforma protestante.
Ele queria uma reforma da igreja,
criticava os abusos da igreja, defendia
retorno a fontes bíblicas e patrísticas,
mas ele permaneceu totalmente ligado à
antiga igreja católica. Quando Basileia
se tornou oficialmente reformada em
1529, o Erasmo de Rotterdam teve que
sair da cidade, foi foi viver em
Freiburg, que continuava católica. Só
voltou para Basileia em 1535,
principalmente para poder continuar
acompanhando o a impressão dos seus
trabalhos que estava acontecendo aqui,
sendo aqui um dos grandes polos, né, de
impressão lá, pelo Froben. Inclusive,
aqui perto, a gente pode [música] ir lá
para conferir o local onde era impressa
o material de Erasmo de Rotterdam.
>> [música]
[música]
>> E rapaz, uns quadros. Nossa, bonito,
hein? Quanto será que é
um quadro desses? Só não bota os os
preço, é? É osso. Eu não quero ter que
entrar para perguntar quanto é. 300 300
vezes sete,
um milhão de reais. É, não é hoje que eu
vou ter um quadro
da da Suíça [música] lá em casa, não.
Olha as velhinha da Suíça. Bonitas elas,
hein? Adoro comprar enfeitizinho para
casa quando eu viajo, mas
tem que caber no bolso [música] também,
porque senão nego
nego aponta. Essa ruzinha aqui parece
completamente irrelevante, assim. Você
tem parte
do Museu da Farmácia. Está rolando obra
aqui, tem maquita, tem tudo. Sempre tem
uma maquita.
Eu vou subir aqui, mesmo no meio, mesmo
no barulho.
Sempre, é a regra de ouro do cinema.
Sempre tem uma maquita. Eu estou agora
no Haus zum Sessel, não sei se é assim
que se pronuncia, onde funcionou hoje o
Museu da Farmácia da Universidade de
Basileia, mas que no começo do século
XVI foi talvez um dos centros editoriais
mais importantes da Europa, o principal
centro editorial, certamente, do
humanismo europeu, que ficava a gráfica
que imprimia as obras de Erasmo de
Roterdã. Foi na gráfica que ficava aqui,
nessas casas aqui, que Johannes Froben,
em 1516,
imprimiu a a versão greco-latina que foi
tão importante para a Reforma
Protestante, tá? Será que pode entrar
aqui? Isso é o quê?
Vou entrando.
Eu entrei, ninguém me ninguém me parou.
Morro de medo de ficar no lugar errado
no meio dos outros. Olha que lugar
bonito, olha que lugarzinho bonito,
Gabriel.
Eita, rapaz.
Olha aí, pessoal.
>> [música]
>> Coisa linda, hein? Olha.
>> [música]
>> Foi por aqui que Johannes Froben, em
1517,
imprimiu a versão greco-latina do Novo
Testamento que foi preparada pelo
Erasmo, que foi extremamente importante
para a Reforma Protestante. Viago, mas
ele era católico, era um padre católico.
Era católico, mas foi a tradução dele,
né, baseada nos valores do humanismo, do
Renascimento, de retorno às fontes, que
fez com que a Igreja Protestante tivesse
acesso a uma versão a grega, não é, do
Novo Testamento, muito mais próxima
daquilo que eram os originais do que uma
versão meramente latina. Erasmo foi,
ainda como um católico, como um
proto-reformista, digamos assim, que
nunca largou o catolicismo, ah, que era
crítico da Reforma Protestante,
inclusive, foi a tradução dele, o
interesse dele de retorno às fontes
originais que influenciou profundamente
a reforma protestante. Voltar às fontes,
né, o ad fontes, famoso retorno, né, às
origens, que cresceu com o humanismo
cristão, que cresceu com o renascimento,
foi algo que influenciou profundamente
os ideais reformados de retorno às
fontes originais do Novo Testamento,
retorno às línguas originais da
escritura e o retorno ao pensamento
patrístico, porque isso não é coisa de
católico, não, tá? O retorno ao
pensamento patrístico foi um esforço
protestante, que o grande argumento é
que a igreja católica havia abandonado a
fé do início do cristianismo. Para mim é
sempre emocionante, né? Eu sempre acho
essas coisas muito emocionantes. Isso
aqui foi onde a gente teve a primeira
edição impressa do Novo Testamento grego
publicada para o grande público, digamos
assim. Claro que havia outras edições,
né? Tem a famosa Poliglota Complutense,
que já havia sido impressa antes, mas
sua publicação e sua circulação
ocorreram muito posteriormente, né? E aí
já já agradeceram
>> [risadas]
>> ao Erasmo hoje. Obrigado, Erasmo. Deus
abençoe aí. Fechou a escadinha. Ixi, vai
ser o último a descer essa escada. Essa
rosinha, viu? Olha, essa cidade,
Basileia, olha só a escada. Escada
do começo ao fim.
>> [música]
[música]
>> O trator que tava aqui saiu e eu
consegui vir aqui na
casa onde Erasmus viveu
os últimos dias de sua vida. Ele morreu
aqui, na casa que tá atrás de mim. O
quarto dele era aqui em cima,
mas aqui embaixo ficava também uma área
de impressão de livros e aqui tem um
antiquário, é um bookshop, é uma loja de
venda de livros. Não tem livros do
Erasmus, obviamente, perderam
os livros pessoais dele, mas pode
comprar livros raros, que vende vários
livros raros aleatórios. Foi aqui que
Erasmus passou os últimos dias de sua
vida.
>> Susto da peste, meu irmão.
>> [risadas]
>> Ai, meu susto no espelho.
Ai, meu Deus, tá em vídeo aí que eu tô
lendo. Visual.
Sustaraço.
Eu queria muito encontrar uma cópia para
vender ali do Elogio da Loucura,
originalmente, mas infelizmente não
tinha.
E aí, né, como não tinha, eu vou ficar
na vontade. Elogio da Loucura talvez
seja o livro mais famoso de Erasmo de
Rotterdam, que ele escreveu
em uma semana, eu acho, como exercício
de diversão, ele disse que foi um
exercício de estilo literário, que ele
escreveu não para ganhar dinheiro, nada
parecido com isso, nada parecido com
isso, né, ele diz isso, que o livro
ficou bom porque eu não escrevi para
ganhar dinheiro. O livro ficou bom
porque eu escrevi só para me divertir,
né, sem nenhuma obrigação nem nada. Eu
acho muito legal porque o ele escreveu
para o amigo Thomas Morus dele, né,
Thomas More, que é o autor de Utopia,
que inclusive foi perseguido e morto,
né, o Thomas More, mas o título do livro
em grego, não é, faz referência ao nome
do More, né, porque loucura em grego é
moros, se eu não me engano, e o Thomas
Morus, né, Thomas More, tinha um nome
muito parecido. Você precisa ler o
Elogio da Loucura. É um livro que
consta lá nesse livro muitas críticas à
Igreja Católica. Sabe aquela frase
famosa de que se se juntar todas as as
peças da cruz de Cristo que a Igreja
Católica vende, dá para reconstruir a
Arca de Noé? O pessoal atribui ao
Lutero. Essa frase na verdade é de
Erasmo de Rotterdam.
Mas é uma quebradeira aqui, viu? Olha,
cidade tá em reforma aqui, daí o negócio
é marreta, é britadeira.
É osso.
Passa pouco carro aqui também. Tem tem o
europeu não gosta de dirigir não.
Olha aí.
Olha as roupinha,
bonito, quanto é que custa?
Pode ter 459 vezes sete, 459 vezes,
rapaz.
Bonito, bonito.
Elegante, mas é caro, ué, doido.
Ouvi em Fortaleza o cara dizendo: "Ai,
ai, ai, esta cidade é um canteiro de
obras".
Meu Deus, não dá pra fazer nada, todo
lugar que você vai é um canteiro de
obras, meu Deus do céu. Mas como é que é
na Suíça? Como é que é na Suíça a gente
diz? Olha aí como eles cuidam da cidade,
ó, renovando tudo, preocupado com o
bem-estar do cidadão. Aí tudo é, depende
do olho de quem vê, né? Depende do olho
de quem vê, você acha bonito, acha ruim.
Aqui na Suíça não vai reclamar de nada,
na Suíça eu vou achar bom. Quando é que
eu vou voltar na Suíça de novo, meu Deus
do céu? Só quem sabe é Deus. Me perdi
já. Cadê?
Pra cá.
Opa, motinho.
Rapaz, o cearense já, ó, passando
correndo na rua.
>> [música]
>> Ó o ferinha de rua. Tentar passar o
motinho de novo, passar na frente dele.
Motinho. O cara acha que eu sou doido,
estou correndo atrás dele. Olha aí.
Ferinha de rua, só aí comendo, a
solzinha, olha aí que bonitinho. Olha os
pães. Será que esse prédio é fácil? Nem
ideia do que seja esse prédio aqui.
Eu vou só entrar.
Que o segredo é esse, né? É só você
chegar e chegar entrando, sem saber o
que é que você tá fazendo. Será isso
aqui?
>> [música]
>> Olha só.
Oh!
Achei um amigo, do nada.
>> [música]
>> Então, estamos no parlamento da cidade
aqui, ó.
Ali, olha, olha que bonito, tudo bonito
ali em cima.
>> [música]
>> É, longinho, não tem muito o que
>> [música]
>> que mostrar não, mas é bonitinho.
Livraria cheia, olha que coisa linda.
Tem uma frase aí
do Tolkien, que é uma profecia, que diz
que nem todos os que estão vagando estão
perdidos. Nem todos os que vagam estão
perdidos, mas eu definitivamente estou
perdido enquanto vago.
>> [música]
[música]
>> São lojas que quando eu viajo com a
minha esposa a gente sempre entra. Ela
entra nas [música] áreas das lojas para
procurar uma coisa barata.
Ó os iPhones. É isso aí, vem você isso
para o mesmo que você
de loja que você tem na na nas suas
áreas. [música] Será que é barato iPhone
na Suíça?
Ó Rolex. Será que é barato Rolex na
Suíça?
>> [música]
>> A relação entre humanismo e reforma no
século XVI é bem mais complicada do que
simplesmente dividir pessoas entre
católicos e protestantes.
Erasmo influenciou profundamente os
reformadores, mesmo sendo um católico,
especialmente pelo trabalho dele com o
Novo Testamento grego. Erasmo se recusou
a uma ruptura, entrou em controvérsia
com Martinho Lutero sobre o livre
arbítrio, é um dos debates mais famosos
da história da igreja. Lutero escreveu o
do servo arbítrio para refutar o livre
arbítrio de Erasmo de Rotterdam e por
mais que eles fossem críticos muito
feroses um do outro, ainda assim eram
certos eram eram eram nêmesis no melhor
uso do termo. A influência de Erasmo
sobre a reforma foi sobretudo
intelectual, bíblica e moral. [música]
Ele ajudou a preparar o terreno para os
reformadores, embora nunca tenha se
tornado protestante, como eu já disse.
Erasmo defendia o princípio humanista do
ad fontes, de voltar aos textos
originais. Sua edição do Novo Testamento
grego, publicada em 1516, permitiu
comparar o original bíblico com a
Vulgata latina e perceber traduções
imprecisas. Lutero utilizou o trabalho
de Erasmo na sua tradução alemã do Novo
Testamento e outros reformadores, como
Tyndale e Zwingli, também foram
influenciados por ele. Em obras como
Elogio da Loucura e Colóquios, Erasmo de
Rotterdam também denunciou a corrupção
do clero, a venda de benefícios, a
superstição, o luxo dos papas e o
formalismo religioso, o que ajudou a
tornar plausível a ideia de que a igreja
precisava de uma reforma profunda.
Erasmo defendia a filosofia Christi, um
cristianismo mais simples, centrado nos
ensinamentos e no exemplo moral de
Cristo. Com isso, ele valorizava a
consciência, a caridade e a
transformação interior acima das
cerimônias, acima das relíquias e acima
das discussões teológicas excessivamente
abstratas. Ele defendia acesso às
escrituras. Ele acreditava que leigos,
mulheres e crianças deveriam receber a
educação cristã e ter maior contato com
a Bíblia. Uma valorização da leitura
bíblica que se tornou fundamental para a
argumentação protestante. Ele também era
defensor do método crítico. O seu
conhecimento de grego e latim mostrou
que os textos religiosos podiam ser
estudados historicamente e
linguisticamente, o que enfraqueceu a
ideia de que toda interpretação
tradicional era necessariamente
intocável. É por isso que alguns
disseram naquela época que Erasmo pôs o
ovo que Lutero chocou.
Ou seja, Erasmo forneceu ferramentas
críticas e perguntas decisivas para a
reforma protestante, embora rejeitasse
muitas das respostas que foram dadas
pelos reformadores. A influência dele
alcançou também os reformadores dentro
da igreja, né? Os que permaneceram
católicos, mas que queriam reformar a
igreja por dentro, fazendo dele uma
figura central não apenas para a reforma
protestante, mas também para a renovação
de dentro da igreja católica. Ele foi
importante nos dois lados da divisão
religiosa que o protestantismo trouxe.
>> [música]
>> Erasmo criticava, principalmente, os
abusos, a corrupção e o formalismo
existentes na Igreja Católica Romana.
Apesar de ter permanecido católico até o
fim da sua vida, ele planejava reforma
interna na igreja. Ele criticava o luxo
e a ambição do alto clero, condenando
papas, bispos e cardeais que viviam como
príncipes, acumulando riquezas e
buscando influência política. Ele
criticava a corrupção e a compra de
cargos, a famosa simonia, o que fazia
com que pessoas despreparadas fossem
eleitas para funções eclesiásticas e
outras acumulassem benefícios ao fazerem
isso. Ele criticou que papas fossem
envolvidos em guerras. Considerava
contraditório que líderes cristãos
[música] organizassem exércitos e
disputassem territórios enquanto
pregavam a paz e a fraternidade. Ele
também criticava a ignorância do clero.
Para Erasmo, muitos sacerdotes conheciam
pouco da Bíblia e repetiam fórmulas sem
compreender o seu significado. Erasmo
defendia uma formação sólida em línguas
originais, literatura e nas escrituras.
Ele criticava a religiosidade exterior,
a ideia que jejuns, peregrinações,
indulgências, confissões mecânicas ou
cerimônias fossem suficientes [música]
para tornar alguém cristão. Práticas só
teriam valor quando acompanhadas de fé,
arrependimento e transformação moral.
Ele criticava as várias superstições que
existiam naquele tempo, ridicularizava a
veneração exagerada de relíquias, as
histórias milagrosas duvidosas, as
orações utilizadas como fórmulas
mágicas. Criticava a hipocrisia de
monges e sacerdotes, atacando os
religiosos que se orgulhavam de seus
hábitos, regras e votos, mas não
praticavam a humildade, a caridade e a
pobreza. Ele criticava a teologia
escolástica excessivamente abstrata e
também a intolerância religiosa, muito
comum no catolicismo daquele tempo.
Erasmo tentava corrigir a igreja, mas
ele queria fazer isso sem nenhum nível
de rompimento com ela. Ele temia que uma
ruptura produzisse guerras, perseguições
e novos dogmatismos, mas não deixava de
criticar duramente a igreja e os seus
representantes.
>> [música]
>> No início da Reforma Protestante, Lutero
tinha a expectativa de obter apoio de
Erasmo, que era o intelectual mais
prestigiado da Europa naquela época. No
entanto, Erasmo se recusou a aderir ao
movimento reformado. Ele temia que o
estilo mais agressivo de Lutero
destruísse a unidade cristã e provocasse
algum tipo de guerra. A ruptura pública
entre eles aconteceu em 1524, quando
Erasmo publicou o livro chamado Sobre o
Livre Arbítrio. A posição dele era que o
ser humano não podia alcançar a salvação
sozinho, mas que a sua vontade,
auxiliada pela graça divina, conservava
alguma capacidade de responder a Deus.
Lutero escreveu uma resposta no ano
seguinte, em 1525, no livro Da Vontade
Cativa. Para ele, o pecado havia tornado
a vontade humana incapaz de escolher a
Deus por suas próprias forças. A
salvação dependia inteiramente da graça.
Até mesmo a fé seria uma ação de Deus no
indivíduo. Agora, para além da teologia,
o estilo pessoal, entre eles, agravou o
conflito. Erasmo era profundamente
irônico, mas ele era diplomático e
avesso ao confronto. Lutero era mais
direto, mas ele era também combativo e
frequentemente ofensivo. Erasmo via em
Lutero um reformador que podia
transformar uma causa legítima em uma
catástrofe política e religiosa.
Enquanto Lutero via em Erasmo alguém
brilhante, mas indeciso, preocupado
demais com a paz e insuficientemente
comprometido com a verdade. É curioso
que Lutero tenha reconhecido que Erasmo
tinha identificado o ponto decisivo da
reforma. Lutero entendia que a grande
questão não era apenas as indulgências,
o papa ou as cerimônias, mas se o ser
humano participa de sua salvação ou se
ele depende inteiramente da graça de
Deus. Um conflito que nunca foi
apaziguado e que representou duas
posições possíveis naquele período
acerca da reforma. Erasmo queria uma
reforma gradual, educativa, realizada
dentro da igreja, enquanto a reforma de
Lutero exigia uma ruptura quando a
doutrina estivesse em jogo. Quer ele
quisesse quer não, Erasmo ajudou a criar
o ambiente intelectual da reforma, ainda
que tenha se recusado a acompanhar a
revolução religiosa que nasceu dela.
[música]
Eu sempre falo muito aqui no canal sobre
ler o diferente, você tem que ler o
diferente, [música] você tem que ler de
quem você discorda. Mas eu acho que que
é um pouco mais do que isso, sabe? Não é
só ler o diferente para você confirmar
[música] suas bases. É também se deixar
influenciar pelo diferente também. Ah,
existem
percepções sobre o mundo que você só vai
encontrar aqueles de quem você discorda,
porque possuem outras ênfases, possuem
outras histórias de vida, possuem outros
compromissos intelectuais, emocionais,
psicológicos. E aí muitas vezes você tá
lendo um cara que na verdade é um
opositor, né? A Lutero lendo Erasmo de
Rotterdam, você também tá lendo, tá
lendo, entre aspas, um inimigo, né? Ele
escreveu livros para discordar, para
corrigir o Erasmo de Rotterdam. Mesmo
assim, [música] há uma influência muito
clara de Erasmo de Rotterdam em Lutero.
E uma influência que, em tese, trouxe a
gente para cá, né? Nós somos
protestantes, somos reformados, mas
devemos muito a Lutero e logo devemos
alguma coisa a Erasmo. Se a gente não tá
[música] disposto a ler o diferente, ler
pessoas que a gente discorda
profundamente, ler opositores [música]
e se deixar também aprender, sabe, se
deixar influenciar por percepções, por
teologias e por compreensões de gente
que a gente discorda, quando a gente
entende, obviamente, que há ali [música]
razoabilidade, que há ali verdade, que
talvez há ali um ponto de vista que
passou pelos nossos pontos cegos, se a
gente não faz isso, a gente perde muito
do instrumento que Deus quer usar para
nos fazer crescer, não é?
>> [música]
>> Deus nos faz crescer também por meio da
discordância, da divergência, do do
estranho. Leia, leia gente estranha,
leia gente que discorda, ouça quem você
não concorda. Isso vai ser fundamental
para você crescer intelectualmente
também. A fé protestante é fruto disso.
>> [música]
[música]
>> Quando Erasmo foi enterrado em 1536, o
túmulo dele ficava originalmente na
parte central da igreja, na nave, no
antigo letner, a divisória que separava
determinadas partes litúrgicas da
igreja. Dois anos depois, em 1538, os
seus amigos mandaram produzir um grande
epitáfio de pedra calcária vermelha que
fica na igreja. A inscrição possui 25
linhas em latim celebrando Erasmo e sua
obra. Mas no século 19, mudaram o local,
colocaram o túmulo dele um pouco mais
pro lado porque tinham que liberar
espaço para fazer um sistema de
aquecimento na igreja, então
É uma igreja funcional, pessoas celebram
cultos aqui até hoje, então eles tiveram
que dar uma renovada lá, botar um
sistemazinho de de aquecimento e aí o
túmulo de Erasmo acabou indo um pouco
pro lado. Em 1974, durante escavações
arqueológicas, a sepultura atribuída a
Erasmo foi então redescoberta. Os restos
mortais foram então transferidos,
sepultados novamente aos pés do
epitáfio, de forma que hoje a lápide e
os restos atribuídos a Erasmo estão
finalmente no mesmo lugar. Pode reparar
aí que não tem nenhuma imagem de Erasmo
no monumento, né? Lá no alto só um
medalhão representando o Términus, o
deus romano dos limites e das
fronteiras. Erasmo havia adotado
Términus [música] como tipo de emblema
pessoal, juntamente com a expressão
latina "concedo nulli", algo que
significa "não cedo diante de ninguém",
que aparece aqui escrito no monumento. A
inscrição é muito bonita, ela diz que
Erasmo não precisa de um túmulo para
preservar sua memória, porque os seus
escritos já fariam isso. O monumento
serve apenas para indicar onde estavam
seus restos mortais. Nada mais
humanista, talvez,
do que isso para celebrar a vida de
Erasmo.
>> [música]
>> Erasmo de Roterdã morreu aqui, na
Basileia, na noite de 11 para 12 de
julho de 1536. Erasmo morreu católico,
mas foi enterrado aqui, nessa catedral,
na Basileia. Foi sepultado aqui, na
antiga catedral. Uma história que chama
muita atenção, o que mostra a posição
excepcional que Erasmo de Roterdã tinha,
mesmo para comunidade reformada. Ele não
apenas teve uma série de influências
positivas, mesmo que não previstas por
ele para reforma. Ele era uma
celebridade intelectual europeia,
possuía relações profundas com os
humanistas, até mesmo com papas, com
impressores, com estudiosos. O
interessante é que quem presidiu o
funeral do Erasmo de Roterdã foi um
reformado. O evento fúnebre, né, foi
conduzido pelo Oswald Myconius, que era
o principal líder da igreja reformada de
Basileia naquele período. Um reformador
protestante em uma igreja protestante
conduziu o funeral de um católico que se
recusou a se tornar protestante, mas de
alguma forma teve influências positivas
sobre a reforma protestante.
O que que você achou do vídeo de hoje?
Você aprendeu alguma coisa nova sobre a
reforma protestante, sobre Erasmo de
Roterdã, sobre o humanismo cristão,
sobre o Elogio da Loucura? Se você foi
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seu cangote e até o próximo Teologia na
Estrada.

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