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A fé vem pelo ouvir

Wise Blood (Sangue Sábio) – Flannery O’Connor

Wise Blood (Sangue Sábio) – Flannery O’Connor

Wise Blood (Sangue Sábio) – Flannery O’Connor

Legendas automáticas:

Olá, pessoal. Quero fazer uns vídeos
curtos, eh,
para falar sobre os livros que eu tô
lendo. Eu leio, eh,
constantemente
e
e eu anoto, eu sublinho, mas de vez em
quando é legal,
eh, refletir sobre o que eu li e talvez
levantar algumas perguntas centrais que
eu acho que o autor,
eh, o autor ou autora tentam trazer para
a gente através de cada um dos livros
que eu leio.
Então acho que é isso. Bom,
e o último livro que eu li, eu terminei
ontem à noite. Incrível.
Eh, é um livro que se chama Wise Blood,
da autora americana
Flannery O'Connor, que teve uma vida
curta,
eh, escreveu, acho que dois livros mais
longos e daí vários, vários, eh, livros
de histórias mais curtas,
de contos.
Eh,
Flannery O'Connor está traduzido para
português, eu descobri, eh, como Sangue
Sábio, uma tradução literal do título.
Sangue Sábio. E o que dizer sobre esse
livro? Eu fiquei,
eh,
chocado, espantado, maravilhado, porque
me lembrou muito de um outro livro que
eu li esse ano,
eh, que vocês devem já ter ouvido falar
ou lido também, Crime e Castigo de
Dostoiévski, que é incrível, bem mais
longo, bem mais denso,
mas que trata de temas semelhantes.
Eh, a busca
do personagem central, eh,
a busca
para entender o seu lugar no mundo,
a busca para enxergar o mundo
propriamente, tanto o mundo externo como
o mundo interno.
Então, o personagem central desse livro
se chama Hazel. Hazel é uma palavra
interessante no inglês, porque é tipo
uma névoa ou neblina, que já indica mais
ou menos, eh, que esse personagem, pelo
menos como é introduzido para a gente,
ele tá confuso, ele
ele quer enxergar, ele pensa que enxerga
e aqui uma das grandes questões do livro
todo é quem que consegue de fato ver o
mundo propriamente.
Então basicamente esse livro começa com
esse Haze
é pegando um trem e tendo uma interação
bem estranha com a o pessoal dentro do
trem, mas basicamente ele tá
é deixando a segunda guerra mundial e
indo para uma cidade para começar aquilo
que
não demora muito para você entender é
uma igreja sem Cristo, esse é o negócio
dele. Ele quer ele quer ser um um
pregador de o evangelho
de uma igreja sem Cristo e é muito
interessante é a maneira como ele
raciocina, ele é bem racional, ele é bem
lógico que é uma outra que é uma outra
grande questão nesse
nesse livro que a
autora ela meio que ela força o ponto de
que racionalidade por racionalidade todo
mundo tem, né? A pergunta é para onde
essa racionalidade vai e no que que ela
se baseia, essa é uma das grandes
questões, mas basicamente esse é o é o
ponto do livro.
Esse Haze ele tá indo para uma cidade,
ele quer abrir essa igreja, ele começa a
pregar na rua
e na medida que ele vai avançando ele
encontra vários personagens que vão
testar, provocar, expandir, perturbar
a visão dele de mundo.
Então semelhante a Crime e Castigo a
gente é introduzindo a esse mundo que a
Flannery tá pintando através desse
personagem Haze
e a busca dele por fazer aquilo que ele
considera verdadeiro e
certo.
A pregação de um evangelho e a formação
de uma igreja
sem Cristo, porque para ele o problema
[música] todo da vida é pecado e o fato
de ter um salvador que morre pelos
nossos pecados. Tira esse salvador e a
gente pode viver em paz sem preocupação
nenhuma.
Então é extremamente interessante, a
Flannery O'Connor é uma autora católica
e ela é uma dessas autoras que não
consegue ou não tem interesse em
desassociar o seu catolicismo
da maneira como ela escreve, mas o livro
não é religioso, né?
E eu acho isso é formidável. Eu acho
maravilhoso como ela não tá tentando
evangelizar, igual Dostoievski, ele não
tá tentando forçar um ponto, mas ela tá
tentando levantar questões sérias
é dentro de um de um mundo é
de um mundo imaginário que ela criou
nessa ficção. Então, algumas das
perguntas centrais, eu acho que todo
vídeo que eu quero fazer é quais são as
perguntas que a autora traz pra gente em
cada um desses livros que a gente vai
lendo.
Uma das perguntas é somos capazes de ver
o mundo pelo que ele é?
A gente consegue enxergar mesmo o mundo?
Somos capazes de ver o mundo interior, o
que acontece dentro de nós, como ele é?
As forças que movem a gente a decidir
e a viver.
Outra questão que o livro levanta é o
peso das palavras.
Peso das nossas palavras e das nossas
crenças.
Quão relacionadas são as nossas palavras
à realidade da vida e do mundo e das
nossas crenças?
E o quanto dessa percepção da realidade
que a gente tem se abre pra aquilo que é
além do que a gente pode ver?
Pra aquilo que transcende o mundo.
Então, o Haze ele vai ele vai é lutar
com bastante dessas questões. Pra ele, o
evangelho sem Cristo é baseado naquilo
que eu consigo encostar, ver.
Na medida que o livro vai avançando,
essas crenças dele vão ser testadas.
Pra muita gente, talvez o livro é bem
dramático, trágico.
É e eu não quero dar nenhum spoiler, mas
eu achei o final desse livro incrível.
Extremamente interessante e me fez
pensar na conclusão de Crime e Castigo,
mas eu acho que a Flannery chegou nesse
final por um outro caminho.
Enfim, Wise Blood, achei incrível.
Levanta essas questões importantes pra
nós e logo no começo do livro,
inclusive, ela fala, eu acho bem legal
isso daqui.
Ela levanta uma pergunta muito
importante, ela fala
é pra muita gente que vai ler esse livro
aqui, vai achar que a integridade do
Haze
está ligado [limpando a garganta]
é
no que ele na tentativa dele largar de
religião, de Jesus, de cristianismo.
Eles vão falar: "A virtude tá aí. Pra
quem não é religioso, pra quem não tem
crença nenhuma", eles vão falar: "Que
bom, ele tá se tornando um ser humano
próprio, sem essas fantasias
e esses misticismos". Mas a autora faz
uma outra pergunta. Ela fala:
"Pra o autor,
o Hazel,
eh, a integridade dele
não tá no no desejo dele abandonar, mas
no fato de que ele não consegue.
E ele luta até o fim".
Então ela pergunta:
"Eh, a integridade de alguém
está ligado
ao que a gente não consegue fazer? Ou só
o que a gente consegue fazer?"
Então tá aí.
Flannery O'Connor,
Sangue Sábio, Wise Blood.
>> [música]

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