Wise Blood (Sangue Sábio) – Flannery O’Connor
08/10/2026
Wise Blood (Sangue Sábio) – Flannery O’Connor
Fonte: OUTRA IGREJA
Legendas automáticas:
Olá, pessoal. Quero fazer uns vídeos curtos, eh, para falar sobre os livros que eu tô lendo. Eu leio, eh, constantemente e e eu anoto, eu sublinho, mas de vez em quando é legal, eh, refletir sobre o que eu li e talvez levantar algumas perguntas centrais que eu acho que o autor, eh, o autor ou autora tentam trazer para a gente através de cada um dos livros que eu leio. Então acho que é isso. Bom, e o último livro que eu li, eu terminei ontem à noite. Incrível. Eh, é um livro que se chama Wise Blood, da autora americana Flannery O'Connor, que teve uma vida curta, eh, escreveu, acho que dois livros mais longos e daí vários, vários, eh, livros de histórias mais curtas, de contos. Eh, Flannery O'Connor está traduzido para português, eu descobri, eh, como Sangue Sábio, uma tradução literal do título. Sangue Sábio. E o que dizer sobre esse livro? Eu fiquei, eh, chocado, espantado, maravilhado, porque me lembrou muito de um outro livro que eu li esse ano, eh, que vocês devem já ter ouvido falar ou lido também, Crime e Castigo de Dostoiévski, que é incrível, bem mais longo, bem mais denso, mas que trata de temas semelhantes. Eh, a busca do personagem central, eh, a busca para entender o seu lugar no mundo, a busca para enxergar o mundo propriamente, tanto o mundo externo como o mundo interno. Então, o personagem central desse livro se chama Hazel. Hazel é uma palavra interessante no inglês, porque é tipo uma névoa ou neblina, que já indica mais ou menos, eh, que esse personagem, pelo menos como é introduzido para a gente, ele tá confuso, ele ele quer enxergar, ele pensa que enxerga e aqui uma das grandes questões do livro todo é quem que consegue de fato ver o mundo propriamente. Então basicamente esse livro começa com esse Haze é pegando um trem e tendo uma interação bem estranha com a o pessoal dentro do trem, mas basicamente ele tá é deixando a segunda guerra mundial e indo para uma cidade para começar aquilo que não demora muito para você entender é uma igreja sem Cristo, esse é o negócio dele. Ele quer ele quer ser um um pregador de o evangelho de uma igreja sem Cristo e é muito interessante é a maneira como ele raciocina, ele é bem racional, ele é bem lógico que é uma outra que é uma outra grande questão nesse nesse livro que a autora ela meio que ela força o ponto de que racionalidade por racionalidade todo mundo tem, né? A pergunta é para onde essa racionalidade vai e no que que ela se baseia, essa é uma das grandes questões, mas basicamente esse é o é o ponto do livro. Esse Haze ele tá indo para uma cidade, ele quer abrir essa igreja, ele começa a pregar na rua e na medida que ele vai avançando ele encontra vários personagens que vão testar, provocar, expandir, perturbar a visão dele de mundo. Então semelhante a Crime e Castigo a gente é introduzindo a esse mundo que a Flannery tá pintando através desse personagem Haze e a busca dele por fazer aquilo que ele considera verdadeiro e certo. A pregação de um evangelho e a formação de uma igreja sem Cristo, porque para ele o problema [música] todo da vida é pecado e o fato de ter um salvador que morre pelos nossos pecados. Tira esse salvador e a gente pode viver em paz sem preocupação nenhuma. Então é extremamente interessante, a Flannery O'Connor é uma autora católica e ela é uma dessas autoras que não consegue ou não tem interesse em desassociar o seu catolicismo da maneira como ela escreve, mas o livro não é religioso, né? E eu acho isso é formidável. Eu acho maravilhoso como ela não tá tentando evangelizar, igual Dostoievski, ele não tá tentando forçar um ponto, mas ela tá tentando levantar questões sérias é dentro de um de um mundo é de um mundo imaginário que ela criou nessa ficção. Então, algumas das perguntas centrais, eu acho que todo vídeo que eu quero fazer é quais são as perguntas que a autora traz pra gente em cada um desses livros que a gente vai lendo. Uma das perguntas é somos capazes de ver o mundo pelo que ele é? A gente consegue enxergar mesmo o mundo? Somos capazes de ver o mundo interior, o que acontece dentro de nós, como ele é? As forças que movem a gente a decidir e a viver. Outra questão que o livro levanta é o peso das palavras. Peso das nossas palavras e das nossas crenças. Quão relacionadas são as nossas palavras à realidade da vida e do mundo e das nossas crenças? E o quanto dessa percepção da realidade que a gente tem se abre pra aquilo que é além do que a gente pode ver? Pra aquilo que transcende o mundo. Então, o Haze ele vai ele vai é lutar com bastante dessas questões. Pra ele, o evangelho sem Cristo é baseado naquilo que eu consigo encostar, ver. Na medida que o livro vai avançando, essas crenças dele vão ser testadas. Pra muita gente, talvez o livro é bem dramático, trágico. É e eu não quero dar nenhum spoiler, mas eu achei o final desse livro incrível. Extremamente interessante e me fez pensar na conclusão de Crime e Castigo, mas eu acho que a Flannery chegou nesse final por um outro caminho. Enfim, Wise Blood, achei incrível. Levanta essas questões importantes pra nós e logo no começo do livro, inclusive, ela fala, eu acho bem legal isso daqui. Ela levanta uma pergunta muito importante, ela fala é pra muita gente que vai ler esse livro aqui, vai achar que a integridade do Haze está ligado [limpando a garganta] é no que ele na tentativa dele largar de religião, de Jesus, de cristianismo. Eles vão falar: "A virtude tá aí. Pra quem não é religioso, pra quem não tem crença nenhuma", eles vão falar: "Que bom, ele tá se tornando um ser humano próprio, sem essas fantasias e esses misticismos". Mas a autora faz uma outra pergunta. Ela fala: "Pra o autor, o Hazel, eh, a integridade dele não tá no no desejo dele abandonar, mas no fato de que ele não consegue. E ele luta até o fim". Então ela pergunta: "Eh, a integridade de alguém está ligado ao que a gente não consegue fazer? Ou só o que a gente consegue fazer?" Então tá aí. Flannery O'Connor, Sangue Sábio, Wise Blood. >> [música]