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Um modelo do reino

Um modelo do reino

Um modelo do reino

A partir da fala de Jesus surge uma nova perspectiva de teologia pública.

Reino; Jesus; teologia pública

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Lucas 22:24 a 30 diz: "Suscitaram também
entre si uma discussão sobre qual deles
parecia ser maior, mas Jesus lhes disse:
"Os reis dos povos dominam sobre eles e
os que exercem autoridade são chamados
benfeitores. Mas vós não sois assim.
Pelo contrário, o maior entre vós seja
como menor, e aquele que dirige seja
como que serve. Pois qual é o maior?
Quem está à mesa ou quem serve?
Porventura não é quem está à mesa? Pois
no meio de vós eu sou com quem serve.
Vós sois os que tendes permanecido
comigo nas minhas tentações. Assim como
meu Pai me confiou no reino, eu voulo
confio, para que comais e bebais a minha
mesa no meu reino, e vos assentareis em
tronos para julgar as 12 tribos de
Israel.
Jesus fala nesse texto sobre os reis dos
povos, algo histórico, geograficamente
definível e politicamente
compreensível. A primeira coisa a se
notar aqui é a crítica que Jesus faz
sobre o modo como os homens se
relacionam com poder. Ele diz que tanto
a forma de exercer a autoridade como a
de reconhecê-la estão erradas.
As pessoas não apenas se submetem aos
que lhe detém poder, como acreditam
dever-lhes gratidão, reconhecendo-os
como
benfeitores. A ironia que é clara para a
maioria de nós, não só teólogos, clicos
e filósofos, como também sociólogos,
antropólogos, cientistas, políticos e
historiadores, a noção de que o povo se
opõe a qualquer forma de opressão e
tirania e que deseja, acima de tudo, a
liberdade e o exercício da
democracia é aqui destruída por
Jesus. É preciso, porém, esclarecer
melhor as palavras de Jesus. Sua crítica
visa mostrar que os homens perderam os
referenciais do que é autoridade e o que
significa estar sob a sua lógica. Dos
tempos de Jesus até os nossos dias, isso
não mudou. A maior parte do mundo hoje
está sobo de déspotas e ditadores. Basta
olharmos para as nações de modo geral
para termos uma ideia do tamanho do
mundo não democrático. Há pouquíssimas
nações realmente democráticas. Jesus foi
preciso em seu diagnóstico ao tratar da
questão da autoridade. Pensar no reino
de Deus e na missão do cristão deve ter
como pano de fundo esse diagnóstico. O
reino de Deus se opõe a tudo que está
aí. Jesus é pedagógico. É como se ele
dissesse: "Olha, vocês querem saber quem
é o maior? Vocês estão pensando com
categorias erradas. No mundo, os reis
dominam, os povos são mantidos sob
pesado julgo por ditadores fascínas,
autocratas, que são aclamados como
benfeitores. Vós não sois assim, ensina
Jesus. O reino de Deus deve ser visto a
partir dessa perspectiva. Não é apenas
um novo governo, mas uma nova
humanidade, um novo modo de ver a
autoridade e nossa relação com ela. Vós
não sois assim, adverte Jesus. Não somos
como os tiranos e ditadores que usam seu
poder para oprimir. Em nossas
instituições políticas, mesmo em países
ocidentais, os líderes têm sido
divinizados, colocam-se além do bem e do
mal, tornam-se surdos as críticas e
refratários a qualquer vento de mudança.
São em si mesmos de raciocínio obtuso e
vontade impotente. O poder corrompe,
ensinava o sábio. As palavras de Jesus
ecoam as mesmas verdades. No meio
evangélico também é comum a edificação
de líderes, pastores de quem ninguém se
aproxima, porque estão envoltos em uma
aula de superioridade, de
intocabilidade, homens que se colocam
para além da frivolidade da vida humana.
São tratados como deuses e nós sorrimos
para eles como que a lhes reiterar nossa
admiração cega e nossa submissão
incondicionada. Jesus segue na contramão
dessa tendência, mas vós não sois assim,
nos diz ele. Disso emerge uma das
dimensões constitutivas da missão da
redenção, a redefinição dos
relacionamentos humanos. Muda-se a forma
como se exerce a autoridade, bem como o
modo de se submeter a ela. Não devemos
imaginar, contudo, que uma mudança dessa
magnitude possa se dar de modo imediato.
Ela virá como resultado de um longo
processo educativo, porque os homens não
se livram facilmente de uma prática tão
arraigada. Tokville ensinava que os
vícios do sistema são mais fortes que as
virtudes do
indivíduo. Livrar-se dos vícios do
sistema leva tempo. Jesus então invete a
lógica tradicional do mundo da política.
Ele diz: "O maior entre vós seja como
menor. Aquele que dirige seja como quem
serve. O verdadeiro poder está em
servir, não em ser servido. Que
consequências seguiriam a isso? Em
primeiro lugar, uma nova mentalidade. Os
políticos deixariam de se ver como uma
elite que se beneficia dos vícios do
sistema. Em segundo lugar, as práticas
clientelistas e fisiológicas passariam a
ser condenadas, dando lugar à ética e ao
compromisso com o bem público. Em
terceiro lugar, a política passaria a
ser vista como vocação, não como
carreira, como um serviço, não como um
fim em si mesmo. Em quarto lugar, a
humanização do poder e dos homens que o
exercem.
aconteceria a errupção na política dos
valores do reino de Deus teria como
consequência a instauração de uma nova
forma de governar, de uma nova maneira
de dispensar o Estado e a sua função. O
ser humano público seria o guardião das
leis e o defensor da ética na vida
política. Obviamente que estamos falando
de uma sociedade dela, mas isso não deve
nos fazer esquecer que o reino dos céus
é como o fermento que uma mulher pega e
mistura em três medidas de farinha até
que ele se espalhe por toda a massa.
Mateus
13:33. Com a chegada do reino, seja
chega também um novo modo de se fazer
política. Os que detém o poder servirão
aos que não os que não o têm. O povo não
será escravo de désputas e ditadores,
mas usufruirá de sua liberdade
constitutiva. Por ser livre, será também
responsável por sua história. Acima de
tudo, com a chegada do reino, chega
também a exigência de denunciar as
estruturas da morte, os estados
despóticos, a corrupção dos costumes
políticos, a ignorância do povo. A
missão redentora é pensada a partir do
novo horizonte traçado pelo reino de
Deus. Seu ponto de vista, os valores do
reino. Sua agenda, as promessas do
reino. Seu desafio, a educação dos
homens. sua recompensa.

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