CORTES CRENTES: SOBRE O CENSO, ASSEMBLEIAS DE DEUS, EVANGÉLICOS E POLÍTICA NO BRASIL
13/06/2025
CORTES CRENTES: SOBRE O CENSO, ASSEMBLEIAS DE DEUS, EVANGÉLICOS E POLÍTICA NO BRASIL
Pix: bruno@reikdal.net
Fonte: Bruno Reikdal
Legendas automáticas:
Nesse momento que saiu o censo, o pessoal já começou a falar sobre o censo, não saiu dados do senso sobre religião. Saiu os dados do censo sobre religião, o pessoal já começou a fazer algumas análises aí, análises com a profundidade de um pires, porque acabou de sair as informações e a gente já tá querendo fazer, como é que fala? eh eh grandes comentários sobre o censo. Saiu o senso e a galera quer já tirar conclusões. Que que a gente viu, né, sobre dados óbvios do senso? Há um segue um aumento evangélico do país, crescimento da população que se autodeclara e apresenta como evangélica, mas num ritmo mais desacelerado em relação às projeções feitas, né? havia projeções de que até 2032, se não me engano, metade da população já seria evangélica, mas há um um uma desaceleração nesse crescimento. Diante desse pequeno fato, que é importante, mas não insignificante, mas é importante, mas não, também é uma coisa mais importante do mundo, muita gente saiu dizendo o seguinte, ó, desacelerou o crescimento evangélico por causa das questões políticas do envolvimento com Bolsonaro. Isso é só burrice, gente. A gente tem que estudar para ver se é isso, né? Tem que fazer uma análise mais profunda, tem que ter um trabalho aí de pesquisa mais qualificada. A gente não pode ficar já saindo, dando respostinhas fáceis e prontas, não. Não pode ser isso. Então, já dou uma primeira dica, não vamos sair precipitadamente dando criando hipóteses ou criando respostas para porque isso aconteceu, porque tal fenômeno aconteceu, sem estudá-lo. E nós não estamos na área desse estudo, então sem acompanhar quem tem estudado. E a gente tem ali um uma verificação junto a quem tem cientista da religião, cientista social que acompanha as discussões, acompanha esses movimentos. Isso é fundamental, tá? Porque simplesmente a tirada dó, isso aí é por causa do envolvimento da igreja com política. Ah, é porque a gente aqui é de esquerda, quer atacar o bolsonarismo. Isso é só burrice, inclusive porque você enfraquece a política e reforça a demonização da política e é a participação de pessoas religiosas na política. Consegue perceber esse esse efeito? Então, passo um, não saia dando respostinhas prontas. Isso é ideologia barata, isso não é ciência. Se nós somos pessoas responsáveis, nós trabalhamos com ciência. Ciência, ciência social para analisar a realidade, pesquisa, trabalho qualificado, né? A gente respeita a ciência, respeita a ciência. Então a gente não sai dizendo aí por causa do envolvimento com com bolsonarismo ou se o cara é de direita ou mais centro direita. Ah, isso aí é por causa da polarização eh da polarização dentro da igreja. Isso é burrice também. simplesmente reproduzir isso vendo o senso, dizer: "Ó, desacelerou o crescimento evangélico porque a igreja tá polarizada". Mais uma vez, reforço da despolitização e da demonização da política. Você tirar as pessoas do âmbito de se preocuparem com política, né? Se preocuparem com a vida pública, se preocuparem com o mundo no qual elas estão inseridas. A gente não pode sair falando esse tipo de coisa. Tem que analisar quais são as hipóteses que nós temos. Ah, pode ser que a minha hipótese seja a polarização. Hipótese, então eu tenho que testá-la. Testá-la é ir fazer pesquisa, não soltar Twitch, não escrever um artigo, eu acho o quê? Não fazer alquimia teórica, que é coisa que o Lavo de Carvalho faria, por exemplo. Alquimia teórica, o método alquímico. Você vai sacando autor, não sei o que lá para dizer o que você quer de qualquer grosélia. Temos que fazer isso com cuidado pra gente não fazer esse tipo de coisa, não fazer como o Guilherme de Carvalho faz, que é alquimia teórica, né? Ele vai sacando, ele trabalha com hipóteses, não testa nenhuma delas, são só hipóteses, não faz nenhuma verificação científica, metodológica, só hipótese. Então, minha hipótese, ah, diminuiu o crescimento evangélico, a minha hipótese, beleza, soltou a hipótese, sabe o que você tem que fazer? Pesquisar. Ah, mas eu não vou pesquisar. Então, para de soltar a hipótese. Para aí de ficar groselhando, sejamos responsáveis. Isso é importante, isso é sério. Ser mais responsável com aquilo que a gente tem de opnologia, sabe? Ah, uma coisa é trocar ideia no bar, uma coisa trocar ideia com a família, ficar beleza, estamos trocando ideia. Outra é a gente começar a publicar a produção de conteúdo, a gente tem que levar ela a sério, mesmo que nas nossas atuações da internet assim, ah, faz piada, faz graça, tá no seu canal, mas é uma coisa séria. É como se forma opinião pública, como se reproduz discurso, será que eu tô num senso comum? Será que eu tô aqui numa ideologia barata? Será que eu tô aqui só num reforço que não tem nenhuma função efetiva de conscientizar, de de racionalizar o mundo, né? Então, importante a gente a gente fazer esse esse papo, assim, a gente fazer esse tipo de de conversa, de discussão e tal. Eh, então não vamos cair nos discursos vazios e nas respostas rápidas para aquilo que tá acontecendo. Tem hipótese de trabalho do porque que desacelerou o crescimento evangélico. Excelente. Vá testá-la. Depois a gente faz aqui análises mais mais cuidadosas e conceituadas. Então, por exemplo, se nada der errado nas próximas semanas, sai um texto nosso na Zelota, fazendo uma primeira observação sobre o senso baseado naquilo que a gente já tem publicado e trabalhado nos últimos anos, testando as teses e as conclusões que a gente já produziu para ver se elas se verificam, se elas precisam ser ajustadas. Vai ser esse tipo de discussão que a gente quer fazer, qualificar a conversa, analisar de maneira cuidadosa para não cair na ideologia barata, para não cair nessas paradas que é só uma reprodução de ideia comum, certo? Então, fuja, fuja de quem já sai praticando o roquismo cultural, né, professor Roca, o roquismo cultural, que é o cientista do óbvio, o cara que prevê o passado, futurólogo daquilo que já aconteceu, essas coisas, né? Não, vamos vamos respeitar quem trabalha de maneira qualificada e cuidadosa. Por isso que nos canalzinho aqui a gente sempre referencia gente legal pra gente acompanhar, gente que faz trabalho trabalho mais bacana. Tá bom. Então vou começar pelo pelo esse papo do senso pra gente dizer, cara, temos que estudar, temos que estudar. Um camarada Artur, Artur Martins, um excelente músico, excelente músico. Esse vi um comentário de um outro camarada, um outro pastor que tinha falado: "Olha, eh, o os evangélicos decresceram aí a sua velocidade de taxa de crescimento, né? Desacelerou a taxa de crescimento. Ah, é por causa do bolsonarismo." Aí ele, ô, gente, vamos estudar primeiro, né? Vamos fazer ciência primeiro para depois sair soltando essas informações, né? Porque a gente não gosta de um movimento de uma parada que essa é a causa. E eu falei: "É isso". E aí eu falei: "Vou, eu ia falar, comentar isso, mas agora vou trazer pra livezinha e comecemos por aí", tá bom? Há um decréscimo, há uma desaceleração, há um acréscimo bruto, né? Os evangélicos seguem ascensão em crescimento da dentro da população brasileira, mas com uma taxa desacelerada, menos acelerada do que antes, o que não é um dado eh aí perdido e sem sentido. Tudo bem? Então vamos vamos aí primeiro fazer esse esse comentário importante, muito importante. Ciência social não é opologia. Então vamos vamos trabalhar de maneira importante e qualificada, né? qualificada. Bom, vamos agora pros evangélicos no Brasil e o capitalismo no Brasil é muito conhecido o famoso livro de Max Weber, ética protestante e o espírito do capitalismo. No geral, as pessoas param título, né, e dizem, viu, tem uma relação entre ética protestante e espírito do capitalismo e para aí não vai ler o que o cara produziu. o mais importante, qual é o método que ele utilizou para poder discutir aquele tema ali. Essa é a parte mais importante, o método. Tenta, quando for ler um livro de um autor, de um autor, entender como eles trabalham o seu pensamento. Mais importante ou tão importante quanto o resultado, é como se chega nesse resultado. É pensar com, acompanhar o pensamento. resultado por si só prova muito pouco. O lance é como ele chegou nessa conclusão, eu acompanho esse pensamento, esse método passo a passo e chego nessa conclusão. Se eu reproduzir esse passo a passo, eu chego na mesma conclusão. Aí a gente tá falando de ciência, tá fazendo de teste aí da nossa teoria, do que a gente compreende, como a gente compreende o mundo. Então, método Max Weber, qual o método que ele utiliza para chegar ali nessa relação entre ética protestante, espírito do capitalismo? É aí que nos interessa, porque senão fica muito fácil simplesmente pegar um título como esse e dizer: "Ó, o evangelho cresce aí por causa do capitalismo." É a relação entre a igreja evangélica e capitalismo do Brasil é porque é intrínseco o protestantismo com o capitalismo. É só burrice também. pegar duas essências e falar: "Olha, essência do protestantismo e essência do capitalismo, elas estão imbricadas e elas se combinam". Não, não é isso. O método é distinto. Max Weber tenta entender qual é a conduta e como organiza como as pessoas organizam a sua conduta ética, ou seja, de organização do dia a dia, de ação cotidiana, de eleição do que é preferível no seu dia a dia. E como essa conduta daí se articula e se conecta com um tipo de modo de organizar a vida. No caso, ele não está fazendo uma tese universal sobre o capitalismo e a religião. Ele está analisando em um território específico, num momento específico, como se deu a passagem de um tipo de conduta de vida para outra. E ele percebe que o elemento religioso possibilita com que essa passagem seja mais facilitada, prática cotidiana. Tanto que ele vai dizer que os protestantes que ele tá tratando, né, que o pessoal que é o o tem um um como é que fala? O puritanismo asético que ele trata, ele vai até chamar de mediador evanescente, né, que é aquilo que medida logo desaparece. Uma parada que surge ajudando as pessoas a ter um tipo de conduta diferente de vida e que se adequa a um novo modo de produção que tá sendo desenvolvido, né? Ele não usa expressão modo de produção, mas um novo modo de vida que tá acontecendo ao mesmo tempo e que daí há esses encontros no processo histórico que condicionam um tipo de conduta específico, um tipo de maneira de organizar a vida, de eleger quais são os fins que nós desejamos, quais são os bens que nós buscamos para poder realizar o nosso dia a dia e viver bem para daí falar, por exemplo, sobre a relação entre protestantismo e capitalismo. E aí o que interessa é para ele entender esses bens, essa conduta, né? como como as pessoas alteram sua conduta, como elas organizam esses valores. Isso é importante. Isso é importante, mas não é uma regra universal de dizer que há essa conexão imbricada, porque o capitalismo é uma parada que se adapta a tudo quanto é tipo de modo de vida, minha gente. É um, tá baseado no desenvolvimento das forças produtivas e alteração das relações sociais, exigindo um tipo de forma social específica que é a forma social burguesa. Mas aí tudo bem, a gente trabalha devagarzinho cada um desses conceitos. Tô comentando isso porque nós não vamos simplesmente reproduzir essa conexão sem perna e cabeça imediatamente entre ética evangélica e capitalismo. vai entrar num passo seguinte, num passo segundo aqui na nossa discussão de metodologia de compreensão dessa relação, lançando mão agora numa parte interessante de entender o que acontece no Brasil que dá condições para que um tipo de religião cresça e crie raízes em um determinado tempo específico. A relação entre a igreja brasileira e o capitalismo, ela se dá de uma maneira específica e a gente precisa compreender ela com similaridades, por exemplo, na América Latina e com pontos que a gente poderia esticar também em outros territórios, mas é muito particular. E aí a gente então tem que olhar o que que tá acontecendo nesse território brasileiro nos últimos tempos para que haja essa condição aí de crescimento dos evangélicos. E a gente vai começar desse passo de reconstrução histórica. Mas antes, como disse Dougr, Doug, fala aí, Doug, bom dia, cara. Que bom que você tá aqui com a gente de novo. Já deram like na live, dá o like aí porque ela entrega daí para mais pessoas e a gente pode trocar uma ideia mais interessante, com mais gente participando. Beleza? É isso aí. Então, dá aí o o papo, dá o like na live. Gente, seguinte, o que que nós sabemos a partir do censo, inclusive, que a maior parte do dos evangélicos do Brasil são de tradição pentecostal, né? Isso é importante da gente considerar, porque essa tradição tem um dia que ela chega aqui no Brasil, né? Tem tem data, tem ano. Então a gente tem que considerar esse crescimento evangélico a partir desse dessa data e desse ano, que é quando esses grupos chegam por aqui. A maior denominação dentro dos pentecostais é as são as assembleias de Deus, que também tem sua trajetória específica. E quando eu falo maior, é maior mesmo, é um número considerável. Ou seja, a maior parte dos evangélicos brasileiros são pentecostais e a maior parte desses pentecostais são das tradições das da são da denominação das Assembleias de Deus. é o grupo majoritário, o grupo, portanto, que em certa medida dá o tom e a cara para esse movimento. Isso é importante da gente considerar, porque muita gente vai se apresentar como evangélico evangélica, mas a gente tem que olhar esses dados grandes pra gente saber qual é a cara desse desse evangelicalismo, quem é. No final do século XIX aqui no Brasil a gente já tem protestantes que chegaram, tá? Então, chegaram protestantes por aqui da tradições chamadas reformadas, né? Sejam eh presbiterianos, calvinistas, eh, anglicanos, luteranos e tal. E essa galera chega aqui num país majoritariamente católico sobre conflitos, né? Porque muitos chegam, são holandeses, são franceses, né? Vamos dizer assim. Tem uma galera que tava também em questões de disputas coloniais com Portugal, como os portugueses. Então, chegam por aqui já em situações de conflito herdadas e tendo o catolicismo como religião oficial, são grupos mais marginalizados porque eles não têm acesso a certos direitos legais, né? Não tem acerto, não, não, não podem eh enterrar seus mortos no cemitério, não podem participar de certos ambientes das instituições formais de ensino. Tem um monte de coisa ali que vai acontecendo. Por que que é importante destacar isso? Porque essa galera chega e vai ter uma dificuldade de se instalar nessa nessa sociedade brasileira. No primeiro momento, os protestantes chamados reformados. Ao mesmo tempo, são grupos brancos de classe média, letrados, trabalham em cargos qualificados dentro da divisão social do trabalho e que, portanto, vão ser igrejas de classe média. em relação à massa da população mais elitizados, inclusive a chamada elite intelectual aqui do do desse movimento evangélico. Só que isso ali é século XIX. No início no início do século XX a gente já teve independência do Brasil, fundação da República no final do século XIX, primeira república rolando no século XX. E a gente tem daí a chegada dos pentecostais aqui no Brasil, duas grandes denominações que chegam ali no na década de 10, década de 20, 1911 chega aqui as Assembleias de Deus, que serão a maior denominação, por meio de missionários. Gunar Vingren, sua esposa Frida Vingren e o camarada Daniel Berk. Três suecos. Eles são da Suécia porque são suecos. Suecos da Suécia. A Suécia tá numa situação muito dura de fome, de pobreza, de dificuldades. Essa galera busca lugares de trabalho. Tem muita gente que sai durante o século XIX, início do século XX da Suécia. sai mesmo assim grandes massas da população, entre elas esses três, eles passam pelos Estados Unidos, eh tem uma experiência mística e religiosa, como batistas, né, eh, protestantes de tradição batista por lá, e vem para o Brasil como missionários, sim e não, vem para trabalhar, porque aqui no Brasil, nesse período, está tendo as chamadas políticas de branqueamento da população. As políticas eugenistas orientadas por uma ideologia de progresso tosca e racista, que achava que para que houvesse processo de desenvolvimento e industrialização do país, era necessário trazer mão de obra branca europeia. Então tem vagas e cargos, incentivo para que brancos venham para cá ocupar terras no Sul, no Sudeste, ou trabalhar aí em novas frentes que estão surgindo pelo país. É sob essa dinâmica e sob essas relações que vem Gunar Vingren, Frida Vingrin e Danielberg. Veja que a história é uma história complexa e interessante. Essa galera que tá lá nos Estados Unidos, passa, tem sua experiência religiosa lá, vem para cá, vem para cá já pentecostalizados, como batistas pentecostais. Qual que é a grande marca dos pentecostais nesse momento? É o êxtase da chamada glossolalia, falar em línguas. Essa parada que às vezes vira memeia, a galera zoa tal do cara fala o que que pleca placa trca toca toca toca do moleque lá que faz aquele bagulho lá. o menino lá, o profeta Mirin, que já tá na zoeira, ali não tem êxtase nenhum, ali é pilatragem, mas tem a experiência de êxtase, que inclusive não é uma experiência só de pentecostais, a gente tem em outras denominações e em outros movimentos religiosos pelo mundo essa experiência da glossolalia, entre sufs, entre certas tradições judaicas, entre certas tradições muçulmanas. A gente tem vários grupos que têm essa experiência de exase e que tem a glossodalia. Nos pentecostais, nos Estados Unidos, nos final do século XIX, começo do século XX, tem uma galera que tem essa experiência. Ela começa com uma galera negra, né, chamada Rua Zusa, né, com a referência de um pastor William Seimor, que é um pastor batista negro sobegregação nos Estados Unidos, que não pode participar das aulas no seminário, ele fica sentado da porta do lado de fora acompanhando as aulas de teologia, mas ele tem uma experiência de êxtase de carisma junto com a sua comunidade. Sua comunidade tem o êxase e tem o carisma e começa o movimento pentecostal por lá. Esse movimento pentecostal vai ser majoritariamente negros e muitas das pessoas brancas, pobres, operárias começam a participar desse negócio também. Aí que que os brancos fazem no na dinâmica de segregação? Criam a sua igreja pentecostal separada da igreja dos negros. Nessa segregação e nessa separação surgem as Assembleias de Deus dos Estados Unidos, racistas, segregacionistas e a coisa toda que só no começo do do século XX vão pedir desculpa pela sua história. Os batistas que vem para cá vem desse grupo branco pentecostalizado. Ou seja, pois é, essa galera vem para cá e vem para cá para quê? Como batistas brancos vim dos Estados Unidos para pregar para branco. Só que a classe média brasileira, no começo do século 20, majoritariamente católica, um ou outro perdido agnóstico, um ou outro humano raríssimo, ateu, raríssimo, não vão topar essa glossolalia e esse fusu todo. É muito fora ali da ordem e do modo como esse pessoal organiza a vida. Tem nada a ver. Então, nessa dinâmica, a galera que chega aqui eh das assembleias das dessas assembleias de Deus e começa essa pregação que são o casal, né, o Gunarving, a Frida e o Daniel Bergler sobrando no rolê, vieram para trabalhar eh em uma indústria, se não me engano, era de uma indústria silvícula, né, de borracha, de produção de borracha no Pará ou era elétrica, uma das duas coisas, eu esqueci agora. E no Belém, Pará conseguem esse trampo lá, tão trabalhando. O Danielberg era um operário propriamente dito. Ele era, como disse Gedeon Freire Alencar, que é um um cara que eu vou até colocar aqui no chat para quem tá acompanhando, acompanha o trabalho dele, porque boa parte das informações que eu estou trazendo aqui é do trabalho de Gideon Freire Alencar, o maior especialista em Assembleia de Deus do nosso país. E o Gideon, ele fala, né, o Danielberg, ele era quase analfabeto, semiletrado em sueco, imagina em português. O Gunarving tinha dificuldade com português, mas eles vieram para cá então nesse trabalho missionário. A galera branca não curtiu muito, não. Teve uma galera no Sul que curtiu branca, mas era um grupo minoritário. A maioria que começou a participar desses movimentos pentecostais eram mulheres negras em suas casas, nas periferias das cidades. Essa galera sim curtiu essa experiência pentecostal, esse negócio todo. Essa galera aí já tava num num jinga muito mais interessante do que o pessoal católico de classe média mais com educação formal, essa coisa toda. E essa religião começa a se tornar uma religiosidade dessa galera periférica nas cidades, tá? Não é no campo, começa nas cidades, periferias das cidades, vai se reunindo nas casas, as pessoas pregam em suas casas, fazem cultos em suas casas, organizam a vida doméstica. Ainda é uma estrutura em que o homem vai para trabalhar no geral, a mulher ficava em casa, aquela coisa toda. Ainda as mulheres de periferia que tem que trabalhar desde sempre para poder se manter são trabalhos domésticos. Então tudo tá girando muito dentro da casa dessa dinâmica periférica e que não tinha a ver então com o primeiro alvo desse desse movimento eh evangélicante pentecostal. E ali em 1911, gente, a tá falando começo do século XX. Mas beleza, esse essa galera vai começar a crescer, vai começar a se expandir, né? Vai começar a a ter mais adeptos. Mas ainda é o grupo pequeno, muito pequeno, muito muito muito muito pequeno, muito pequeno. E a galera protestante reformada olhava para esses evangélicos pentecostais, sabe como? Seita aí é tudo seita, tá? Aí é seita. A seita que dó em menos. Eram seita. Tratava como seita. Por que que eu tô destacando isso? Porque depois dos anos 80, quando esse grupo começa a explodir de crescer, ai vem cá, meus amigos, somos todos evangélicos. Ah, vem cá pra gente ficar junto, né? Uhum. Qual será? Que que será que aconteceu? Que que será que aconteceu aí? Então agora esse essa galera reformada aqui que gosta do nome evangélico e gosta de pousar como evangélico, antes chamava essa galera de seita, tá? Agora que gosta de de estampar no peito de nós igrejas estão nas periferias das cidades, né? As igrejas aí são eh as igrejas que que apoiam aí o pessoal que não tem não tem o estrutura do estado nem no mercado. Essa galera reformada agora que tá cheia de de pompa para dizer isso. Antes chamava de seita e nem vou dizer o nome que praticavam contra essa galera de periferia que tava tendo essa experiência de glossodalia e tal. Beleza? Que acontece? Essa galera, elas eles acreditavam que o mundo estava acabando a qualquer momento. Final do século XIX, começo do século XX, a crise da chamada Bellepoc, né, que a galera que acreditava na ciência, não, de que o mundo tá indo para um progresso infinito e de melhoramentos. E nesse processo, enquanto eles estão tão discutindo essa essa parada toda aí, eh o vem uma primeira guerra, primeira grande guerra, depois da segunda grande guerra, as grandes guerras, né, vamos dizer assim. E esse pessoal que tava achando que o mundo ia acabar a qualquer momento, quando vê isso fica maluco, fala: "Gente, o mundo vai acabar a qualquer momento mesmo. Imagina você tá lá num lugar e do nada você ouve que tem cidades inteiras sendo explodidas, aviões que tão até ontem não tinha nada. De repente você tem uma um rádio que fala com você e que diz informações sobre o mundo e que conta histórias absurdas e fala: "Realmente o mundo tá acabando, vamos ficar aqui". Então a galera começa a se organizar muito rápido nas casas e dizendo que o mundo tá acabando, mundo tá acabando, o mundo tá acabando, não tem nada que fazer, tá? Não sei o que lá. Passa a primeira grande guerra, segunda Grande Guerra, esse movimento cresce relativamente rápido, mas muito espontâneo e sem relativa organização. É uma passagem de uma primeira geração de pastores para uma segunda. A segunda geração de pastores ali, década de 40, década de 50, indo pra década de 60. Essa geração é formada nesse período, década de 40, 50 e 60. Essa segunda geração de pastores formada nesse período, eles vão falar: "Pô, gente, o mundo não acabou. Parece que sobrevivemos. Jesus não voltou imediatamente. Vamos organizar as coisas aqui. A primeira geração era só espalha o evangelho, espalha a palavra e vamos para cima. era completamente anárquico. Assembleias de Deus, a ideia é que fossem assembleias mesmo. Todo mundo participa, todo mundo discute, todo mundo tá aqui nessa loucura e a gente só tá aguardando Jesus voltar. era para ser assembleia horizontalizada ou minimamente e sem organização central, sem planejamento. A segunda geração já olha e fala: "Cara, a gente precisa organizar isso aqui, a gente precisa planejar a nossa expansão". A segunda geração, ela já é de gente e de classe média, já é de pessoas letradas, já é de pessoas que têm certos cargos um pouco mais privilegiados e posições interessantes que fala: "Cara, vamos planejar nossa expansão? O mundo não acabou, Jesus não voltou a qualquer custo, a qualquer momento. A gente precisa se organizar e estruturar nossa igreja. Ela entra em conflito essa segunda geração com a primeira geração e com as pessoas que lideravam as comunidades locais. Eles vão conflitar, eles vão ter discussões e tensões, porque essa galera de segunda geração, ela ocupa cargo de pastor e de pastora, porque eles sabem ler, eles sabem planejar, tem recurso social suficiente para planejar a médio e longo prazo a organização institucional. Esses recursos você não consegue do nada, né? Você não aprende a ter concentração, planejamento, leitura, certo? Sozinho. Você adquire isso dentro da sua da da sua classe, do espaço social que você vive. Isso é importante da gente não esquecer e da gente destacar. Essa dinâmica desse processo, que eu espero que vocês estejam interessados por essa história, eh, faz com que essa segunda geração, já melhor posicionada dentro da divisão social do trabalho e que ocupa cargos decisórios, inverta as relações de de poder, de modo em que ela vai querer se institucionalizar, criar cargos e regras. E aí no Brasil é o único lugar do planeta em que as Assembleias de Deus são centralizadas, em que elas têm sedes, pastor presidente, que é praticamente um bispo, ou seja, um episcopado, uma estrutura episcopal, e as congregações, que são essas várias pequeninas igrejas que giram em torno dessa sede, desse polo, desse centro. Então são igrejas que começaram nas periferias, que criam suas igrejas centrais, templos com pastores presidentes e cargos fixos e vitalícios que a partir dessas igrejas centrais planejam as congregações e as igrejinhas em volta. Inverte a dinâmica. Se antes era as igrejinhas que vai criando nas casas, agora inverteu a dinâmica, saca? Por que que a gente, importante a gente perceber essa, esse processo todo, porque essa estrutura episcopal é o que vai dar o tom para as igrejas brasileiras em geral. As igrejas que vão surgir dali paraa frente aqui no Brasil, em território brasileiro, vão reproduzir esta mesma dinâmica de poder como igreja central, criando suas congregações, suas sedes de fora, né? Então, esta é a loucura que nós temos de organização institucional. Para que você expanda o seu território, para que você tenha privilégio nesse espaço, você precisa do poder executivo próximo de você. Você precisa de quem tem poder político e de organização das cidades que decide sobre as cidades do seu lado. É por isso, é por isso que esses, essas lideranças evangélicas dessas igrejas de segunda geração que agora criaram suas sedes e centralizaram vão tentar se aproximar do poder político existente, vão tentar chegar perto. Como eles vão fazer isso? tentando aliciar vereadores, aliciar deputados, médicos, advogados. E em 1964, quando tem o golpe militar, imediatamente essas lideranças religiosas dessas igrejas vão se alinhar e aliar ao poder vigente, porque assim d sob essa estrutura, eles vão tentar buscar os seus benefícios, os seus privilégios e sua estabilidade de manutenção de poder dentro dessa sociedade, ainda como grupo minoritário. Veja essa volta como ela é interessante, porque há um alinhamento automático com interesses específicos dessas lideranças religiosas por questões internas. Alinhamento ao regime, alinhamento à ditadura. Por outro lado, esses evangélicos que vieram dos Estados Unidos, que tem esse negócio todo, sejam os reformados, sejam os pentecostais, não sei o que lá, quando começam a tentar letrar-se a respeito de teologia, essa discussão toda, vão consumir o quê? Conteúdo gringo, conteúdo que vem ali de suas sedas, seus territórios fundadores, né? Então, os Estados Unidos em especial. E é de onde veio o pessoal da Congregação Cristã. E aí de onde veio o o como é que fala? As assembleias de Deus, os adventistas, os testemunhos de Jeová, todos vêm desse de um mesmo projeto ali do dos Estados Unidos. Então quando rola esse desse mesmo processo que rola nos Estados Unidos, que aí um dia a gente conversa sobre isso especificamente, mas estão falando do Brasil, então sua fonte de consumo de conteúdo são os Estados Unidos. Então olha que massa, cara. Olha o a volta pra gente sacar que há uma questão interna, que é o alinhamento à ditadura militar em benefício de de estabilizar e estabelecer seu poder e o consumo do que vem de fora como conteúdo ideológico que pós grandes guerras ou pós-grande guerra que acontece é Guerra Fria, anticomunista, antibloco soviético, antiluta popular. Há uma um encontro entre esse movimento externo com as questões internas da estrutura das igrejas e esse met perfeito para que o anticomunismo seja uma bandeira fundamental. E se você é anticomunista, logo você está em defesa do capitalismo. Só que esse a gente é do ponto político, a gente já vai falar sobre a questão econômica. Essa é a primeira parte. primeira parte sobre da questão eh política, desse alinhamento das da especialmente das Assembleias de Deus, mas das religiões pentecostais em geral, porque elas fazem esse mesmo movimento com o regime militar, com a ditadura militar e externamente sobra fria, o consumo constante de conteúdo teológico e religioso produzido nos Estados Unidos, anticomunista e tudo mais, imperialista, pi, pó poó. Massa, né? Pausa, porque essa foi a parte política. Já a gente vai agora pra parte econômica dessa relação entre igrejas e capitalismo, que eu acho que é a parte também mais legal da gente bater um papo e que eu acho que vocês vão curtir. Beleza? Curtiram? Massa, né? Eu sei. Estamos aqui. E o meu alinhamento? Alinhamento do meu cabelinho tá na régua mais ou menos. Eu sofri um acidente aqui na franja do meu cabelo, eh, recentemente, que foi um acidente de causado por forno a lenha. Eu e minha companheira a gente gosta de fazer pizza, pizza caseira, forno alenha. Só que a gente não viu que na casa da pessoa que tinha o forno a lenha e que disponibilizou para que fizéssemos para uma galera a pizza, que o cano ali do tubo saí a fumaça tava tampado. E aí, pô, meu fogo não tá pegando, fogo não tá pegando, fogo não tá pegando. Do nada destampou o raio do negócio e veio um fogar na minha cara. E aí a franja sofreu um acidente. Então ela não está muito bem alinhada, mas em breve ela vai ser. Mas o resto tá na régua ou tava, né? Em breve eu vou ter que voltar para dar uma cortadinha. Esse é o alinhamento do meu cabelo, um alinhamento com a régua.