Makários | Os 3 Passos para Compreender o Antigo Testamento | Módulo 2 – Aula 1 | Ákilla Nascimento
04/06/2025
Makários | Os 3 Passos para Compreender o Antigo Testamento | Módulo 2 – Aula 1 | Ákilla Nascimento
Aula 1 | Módulo 2
Curso de Teologia Makários
Os três passos para compreender o Antigo Testamento
Introdução ao Antigo Testamento
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Fonte: Com IBNU
Legendas automáticas:
[Música] Olá, muito boa noite para quem já chegou aqui para a nossa aula, primeira aula do segundo módulo do curso Macários. Bem-vindo, bem-vinda para mais uma etapa que a gente tá começando juntos hoje e que a gente espera desenvolver ao longo dos próximos três meses. Eh, para quem tá chegando agora, já dei uma olhadinha aqui no chat, tem muitas pessoas que estão acompanhando a gente há há semanas, agora meses, mas talvez você esteja vendo essa aula aqui do curso Macários pela primeira vez, sem ter tido contato com o restante do material. Vale salientar o que é que a gente tá fazendo ao longo dos últimos meses e planeja fazer no restante do ano. a gente tá realizando um curso de teologia básico pela IBNU, Igreja Batista Nações Unidas, eh que é um curso que se ah pretende ser equilibrado do ponto de vista teológico, com rigor na apresentação das suas ideias, mas de um caráter básico, introdutório, em especial para as pessoas que talvez tdo contato com muitas ideias, tem lido, mas nunca fez um curso propriamente de teologia. Então, a nossa ideia é ser essa porta de entrada para o mundo, que é o estudo da teologia, que pode ser desenvolvido de muitas maneiras diferentes. Então, você é bem-vindo, bem-vinda para participar do nosso curso. Esse curso tem três módulos. Cada módulo com aproximadamente 26 aulas. Cada aula com aproximadamente 1 hora. Eu ainda não fiz o cálculo exato da carga horária, mas dá para fazer aí. 1 hora x 26 x 3 para você ter uma noção mais ou menos da carga horária de aula que a gente tem ao longo do curso. O primeiro módulo foi finalizado na semana passada que foi o módulo de teologia sistemática ou teologia cristã, como a gente chamou. Esse módulo que a gente começa hoje é o módulo de Bíblia. a gente vai ter uma introdução ao Antigo Testamento e ao Novo Testamento. E a gente vai explicar um pouquinho melhor como nós vamos fazer isso. E a na nossa última parte desse curso, a gente vai ter teologia prática. Como é que esse estudo da doutrina, esse estudo da Bíblia nos ajuda a desenvolver os ministérios na vida prática da igreja? Então, a gente eh recebe vocês com muita alegria aqui nesse nosso encontro, mais um encontro do curso Macários e a gente espera que você consiga tirar o máximo de proveito dessas aulas. Além das aulas, a gente tem uma plataforma com todo o material do curso, ensino.ibibnu.com.br. br. Nessa plataforma você vai poder acessar as questões que são referentes a cada uma das aulas. Eh, é um quiz, geralmente um quiz com cinco perguntas, três alternativas cada pergunta. E a gente sempre tem uma leitura complementar para cada uma das aulas, que é uma forma de aprofundamento. Essa leitura complementar varia bastante de nível. A gente tem leituras que são bastante básicas, outras leituras com perfil um pouco mais técnico, mais aprofundado, mas eu acredito que vale a pena esse esforço de poder ler tudo aquilo que a gente tá compartilhando, fazer as perguntas como espécie de acompanhamento da aula, saber se você conseguiu entender bem os conceitos básicos e, claro, na medida do possível, a interação aqui no momento da aula ajuda a gente também a enriquecer os nossos encontros. Bom, ah, a gente planejou o começo desse módulo de uma forma diferente do que a gente realmente está fazendo. A gente desejava muito que saiam desse essa primeira aula, porque eh ele abriu o primeiro módulo, certamente é um professor que tem eh abençoado a vida de muitas pessoas e essa é precisamente a área de estudo dele mais aprofundada, que é o Antigo Testamento. A gente vai começar hoje com uma introdução geral ao Antigo Testamento e seria muito bom, muito proveitoso se a gente tivesse essa aula sendo ministrada por ele. Mas devido aos eventos recentes, ele tem eh a necessidade muito urgente aí de cuidar, de se afastar um pouco das atividades para cuidar da saúde. Provavelmente, se Deus quiser, vai realizar logo o procedimento cirúrgico pra correção de um probleminha do coração e em breve Saião vai estar de volta com a gente aqui no time para ajudar a gente nessa jornada no Antigo e no Novo Testamento. Ah, dada essas informações gerais do curso, eh, a gente ainda não subiu, mas deve subir ainda hoje as perguntas referentes à aula de hoje e a leitura também. A leitura de hoje é o capítulo base que eu utilizei para fazer eh os slides, para montar o conteúdo do que a gente vai conversar hoje. Então, vai ser muito bom se você puder realizar essa primeira leitura, porque é a o fundamento para aquilo que será a estrutura de todas as aulas que a gente vai ter no mínimo do Antigo Testamento, tá bom? Vamos tentar entender um pouquinho eh porque é que a gente precisa fazer o estudo da teologia de diferentes ângulos. A gente teve o primeiro módulo a fazendo uma análise da teologia sistemática. E é muito importante a gente estudar teologia sistemática porque é por meio desses posicionamentos que a gente compreendeu nas nossos 26 encontros dos últimos 3s meses, que muitas das correntes dentro do cristianismo se definem. Então, a discussão sobre qual é a linha soteriológica ou sobre a doutrina da salvação que você acredita, aquilo que a gente falou sobre eleição, sobre livre arbítrio, sobre o chamado eh de Deus, eh qual é a linha escatológica que você acredita a respeito do milênio. você é pré-milenista, pós-milenista, amilenista, enfim, esse essa compreensão do que existe de posicionamento nos ajuda a entender o que é que as outras pessoas pensam e também definir a própria posição que nós temos em relação à teologia. Um outro ponto importante do estudo da doutrina é, como diz Paulo, não ser levado por qualquer vento de doutrina. A história nos ajuda muito a não repetir os mesmos erros que as gerações passadas cometeram e que a duras penas nos ensinaram a seguir um caminho diferente. Então, estudar teologia sistemática também é quando você ouve um ensino novo, quando você ouve uma coisa que você não está acostumado, você pode entender melhor de onde é que isso vem. Ó, talvez esse ensino pareça interessante, mas está minando um aspecto fundamental, por exemplo, sobre a divindade de Jesus ou sobre a autoridade das Escrituras ou sobre a maneira como a gente acredita que será o juízo final. A teologia sistemática permite você ter esse crio, esse critério que lhe permite entender melhor de onde é que vem as ideias. A outra coisa é, a Bíblia é enorme. A gente vai falar um pouco sobre as características da Bíblia de maneira geral hoje, mas a Bíblia tem um volume gigantesco de informações e organizar essas informações é sempre necessário. A gente não pode abrir aleatoriamente os textos, interpretá-los como se eles não tivessem conexão e achar que tá tudo certo. Não. a gente parte do pressuposto de que existe organização, existe consistência interna ou existe coerência entre os vários ensinamentos, as várias histórias, as várias leis que a gente encontra no Antigo e no Novo Testamento. E a forma como essa organização é feita pode ser realizada de mais de uma maneira e a teologia sistemática é uma dessas maneiras. Mas tendo dito tudo isso como importância do estudo da doutrina a partir da organização sistemática, existe um passo anterior. Existe algo mais básico do que a organização desses textos bíblicos em grandes categorias teológicas. E que categorias teológicas é essa que eu tô me referindo? são as categorias que a gente estudou no primeiro módulo, eh, teologia própria, a cristologia, pneumatologia, escatologia, eh a missiologia, todas essas categorias são formas da gente organizar o texto bíblico que são importantes. Mas o que é mais importante do que essa organização? é entender o texto bíblico, é compreender como é que essas histórias foram compostas ou o que é que essas histórias estão comunicando e permitir que a gente tenha uma maneira de entrar nas histórias, permitir que essas histórias se tornem as nossas histórias como algo ainda mais fundamental do que simplesmente organizar a informação sobre a as orientações práticas ou sobre uma doutrina em particular que esses textos podem nos ajudar a organizar. Então, por mais que o estudo da doutrina seja importante, nenhum desses textos bíblicos foram colocados ali como texto prova para uma doutrina em particular. Então, por exemplo, a gente citou várias vezes Primeira Coríntios, capítulo 15, Segunda Coríntios, capítulo 5, Apocalipse capítulo 20, João capítulo 14. A gente falou de vários textos e vários textos apareceram várias e várias vezes nas nossas eh discussões, mas nenhum desses textos foi colocado por Paulo, por João, por Mateus, por Isaías, por Moisés, para ser um texto prova de um argumento teológico, para ser o texto prova de uma doutrina. Esses textos foram colocados em geral para desenvolver uma história, uma narrativa. E é entender a narrativa, entender a poesia, entender o evangelho que está contando também uma história. É o que é mais básico e mais fundamental naquilo que é a nossa análise do texto. Então, hoje a gente vai começar a nossa aula falando justamente a respeito dessa maneira diferente de ler o texto bíblico e em especial de ler o Antigo Testamento de uma maneira que faça sentido de acordo com o sentido que o autor gostaria que o leitor entendesse. E para isso a gente vai fazer tudo isso com base no título da nossa aula de hoje que tá aí na aula do YouTube, que é a os três passos para compreender o Antigo Testamento. Que três passos são esses e de que forma a gente pode realizá-los? Vamos lá. A Bíblia não é um livro, mas é um conjunto de livros. Talvez isso seja muito óbvio para você, mas nem todo mundo se percebe a se apercebe do fato de que nós não temos apenas um livro, mas nós temos 66 livros no canon bíblico, 39 no Antigo Testamento, 27 no Novo. A Bíblia tem 1189 capítulos. É muita coisa. Esses 1189 capítulos foram subdivisões tardias que a gente fez muito tempo depois que o texto bíblico foi composto. E ela levou aproximadamente 1000 anos para ser composta. Então, a gente tem um livro de uma amplitude histórica muito grande. Ah, de maneira geral, os livros e os cursos de introdução ao Antigo e Novo Testamento tem um enfoque geral ou um enfoque específico. O que é que a gente quer dizer com isso? Um enfoque geral é quando a gente trata dos tópicos relevantes ao testamento como um todo. Quais são as características do Antigo Testamento? Como é que funciona? literatura do Antigo Testamento como um todo. E outros cursos e livros tem um enfoque muito específico, que é tratar livro por livro. Então, se você abrir um livro de introdução ao Antigo Testamento, provavelmente no índice você vai ver o nome de todos os 39 livros do Antigo Testamento. E dentro de cada um desses capítulos, ele vai tratar das mesmas questões a respeito da elaboração desse livro, do contexto em que ele estava inserido, do propósito desse livro. Esse é um tipo de abordagem bastante específico. Qual é a abordagem que a gente vai adotar no nosso curso? vai ser uma abordagem intermediária. A gente vai falar de grupos de livros. Então, a gente vai ter uma aula que é a próxima para introduzir o Pentateuco. A gente vai ter aula para introduzir os livros históricos, a gente vai ter aula para introduzir os livros poéticos, mas nós também vamos tratar de informações específicas. Então, a gente vai ter aula que vai falar só sobre o livro de Gênesis e a introdução dos aspectos mais importantes pra gente saber e compreender o livro de Gênesis, da mesma forma com o livro de Êxodo, da mesma forma com o livro de Levítico, também com o livro de Salmos, de Jó e alguns outros casos no Antigo Testamento. Mas nós não vamos poder fazer isso com os 39 livros do Antigo Testamento e os 27 do Novo. Por quê? Porque a gente tem uma carga horária pequena para o tamanho da tarefa. Claro que não é pouco tempo que a gente dedica aqui no curso Macários, né? 3 horas semanais durante 4 semanas no mês, aproximadamente da 12 horas. 12 x 3 uma carga horária média. Mas pra gente estudar cada um desses livros com cada uma dessas perguntas fundamentais paraa introdução do livro, é pouco tempo. Então a gente vai selecionar alguns dos livros do Antigo Testamento que exemplificam o que é a Torá, o que são os livros poéticos, os que são o que são os livros históricos e assim também com o Novo Testamento. Tá bom? uma coisa muito importante no começo da do estudo da teologia, e aqui eu peço que você tenha eh bastante atenção, porque eu pelo menos demorei um pouco para entender essa distinção. E essa é uma distinção muito importante pra gente compreender porque livros sobre o mesmo assunto são tão diferentes, porque que autores que tratam do Antigo Testamento t resultados da sua análise que são tão diferentes entre si. Porque muitas vezes os métodos de análise, os métodos de interpretação da Bíblia também são distintos. A gente tem dois grandes grupos de métodos. O método diacrônico não é só um método. Ou o método sincrônico não é só um método. Faz mais sentido pensar como um grupo de métodos que tísticas comuns entre si. Mas vamos lá. A gente já citou esses dois nomes estranhos. O que que é o método diacrônico e o que que é o método sincrônico? O método diacrônico tem como objetivo responder algumas perguntas básicas sobre a composição do livro. Quem foi que escreveu esse livro? Quando esse livro foi escrito? Qual é a história de desenvolvimento desse texto? Esse texto passou por um processo editorial. O que é que a gente quer dizer com processo editorial? Para muitos teólogos, para muitos estudiosos, o Pentateuco, por exemplo, foi escrito por Moisés, mas não foi escrito na forma como chegou em nossas mãos, exatamente como Moisés fez. Houve um processo editorial em que escribas, pessoas que vieram depois de Moisés, eh, pegaram esse texto como Moisés fez e mudaram o texto no sentido de complementar uma informação, de explicar um dado histórico ou de acrescentar material que não estava originalmente nos livros do Pentateuco. Por isso que o processo diacrônico ele é um pouco diferente daquilo que vão ser as características do método sincrônico. A ideia é que o os métodos diacrônicos eles olham para o livro ao longo do tempo. Dia é através e crônico aí de ideia de tempo cronológico. Então, através do tempo cronológico, esse livro foi tomando uma forma diferente em cada período até chegar na forma como nós temos ele hoje em nossas mãos. ou há muitos séculos que os textos do Antigo Testamento não são eh mudados, transformados e também do Novo Testamento, mas entende-se que desde o ponto inicial desse texto até a sua forma final, houve uma história de construção do texto. Por isso que muitas vezes o método diacrônico vai tentar reverter esse processo, reconstruir como é que era o texto originalmente, como foram as etapas intermediárias e como é que ele chegou no seu estado final. Muitas das perguntas que são levantadas pelo método de crônico são fundamentais. Por exemplo, a todas as vezes que a gente for introduzir um livro em particular no nosso curso, você vai ver a gente fazendo algumas perguntas que são pertinentes ao método de crônico, que é quem foi que escreveu esse livro? Quando foi que esse livro foi escrito? Porque faz muita diferença você dizer que a carta aos Coríntios foi escrita por Paulo ou supostamente por um autor como Pedro. Eles têm estilos completamente distintos. Eles passaram por lugares diferentes. A teologia de cada um desses apóstolos traz ênfases diferentes. Então, saber qual é o autor é muito importante pra gente fazer uma interpretação adequada do texto. A outra coisa importante, como a gente colocou já no método diacrônico, é quando é que esse livro foi escrito. Faz diferença saber se um livro foi escrito na época do exílio, antes da época do exílio babilônico ou depois da época do exílio, que é babilônico, que depois virou o o exílio persa. Faz muita diferença. Antes do exílio, o povo ainda não tinha passado por aquilo que foi a condenação de Deus, a correção de Deus, que foi levar esse povo pro exílio. Inclusive, muitos estudiosos acreditam que boa parte do material do Antigo Testamento, na forma como a gente tem hoje, data do período exílico e alguma coisa do período pós-es exílico. Então, quando o livro foi escrito também tem sua relevância. Agora, tem muitas perguntas que o método diacrônico faz, que muita gente diz o seguinte: "Olha, a pergunta é importante, a razão de ser nessa investigação, mas não dá para saber. Tem perguntas que a gente consegue fazer, mas não consegue responder. Então, há muitas discussões envolvidas dentro das perguntas que o método diacrônico levanta. O outro conjunto de livros ou de perdão, de métodos que a gente vai ah utilizar é aquilo que a gente tá resumindo como o método sincrônico, que é qual é o pano de fundo histórico do livro, quais são as características literárias desse livro e qual é a mensagem teológica desse livro. O método sincrônico prioriza a análise do livro em sua forma final. O método sincrônico não está preocupado em saber qual foi a história de desenvolvimento do livro, mas fala o seguinte: "Beleza, seja lá como esse livro chegou até aqui, o que a gente tem é essa história, é essa poesia, é esse conjunto de leis. Como é que nós podemos interpretar isso na forma como ela está diante dos nossos olhos? Ao invés de tentar reconstruir um texto anterior, ao invés de tentar separar o que realmente foi Moisés que escreveu do que foi outro autor, o que a gente tem é o Pentateuco, a Torá. Vamos analisar o livro na forma como ele está diante de nós e vamos pressupor que existe características dentro desse texto. Existe coerência do texto no começo ao fim. Existe uma intenção na história como um todo. Isso aqui não é um uma coxa de retalhos de vários autores diferentes, com intenções diferentes, que não necessariamente precisa fazer sentido do começo ao fim. Não, a gente está pressupondo que essa história tem um sentido quando lida do começo ao fim, tem coerência, tem uma intenção. E por isso, então, o que caracteriza o método sincrônico é justamente aquilo que a análise etimológica da palavra nos informa, que é sim, eh, é num dado momento do tempo crônico. Então, a gente não tá olhando para a análise do livro através do tempo, mas para um momento síncrono, um momento único da história, que é quando esse livro tem o seu formato final, a forma como nos chegou o conhecimento. O que é que vai ser mais utilizado nesse curso aqui? Vão ser os métodos sincrônicos. Os fatores mais enfatizados vão ser aqueles que são levantados pelo método sincrônico. E aqui vai a enunciação dos três passos que a gente mencionou no título do livro. O que é que a gente precisa fazer para entender qualquer texto do Antigo Testamento? Com isso, a gente não está querendo dizer que você consegue resolver qualquer mistério, consegue dissolver qualquer texto difícil, não é isso, mas existe um passo a passo básico que praticamente todos os estudiosos mais respeitados do texto bíblico, vão concordar como o mínimo necessário para compreender o texto bíblico. Primeiro, analisar o contexto histórico do livro, o que é que estava acontecendo no período em que a história está acontecendo. Segundo, a análise literária do livro. Isso é bem mais recente na história da teologia. Mas os textos bíblicos têm estilo, os textos bíblicos têm gênero literário e, por isso, podem ser submetido às ferramentas da análise literária como um outro livro de literatura qualquer. A gente não tá dizendo que a Bíblia é como outro livro qualquer, mas no sentido de que tem características literárias, ela se assemelha a outros livros. E por fim, a Bíblia tem um propósito teológico. Não foi escrito apenas história, não foi eh escrito apenas um texto estilizado literário, mas foi escrito um texto com o propósito de revelar um Deus a um povo. Então, entender que mensagem é essa é o passo final e fundamental da nossa jornada, do nosso trabalho de interpretação bíblica. Essas três dimensões, história, literatura e teologia, costumam ser tratadas em separado, mas na verdade essas coisas estão plenamente integradas dentro do texto bíblico. Por exemplo, história tem um significado teológico. Teologia é baseada em eventos históricos. Os textos que tratam da história e da teologia se apresentam com características literárias. Então, ainda que a gente precise separar esses elementos no momento de uma explicação, de uma análise mais cuidadosa, no fim do processo a gente tem que colocar todo mundo de volta no mesmo balaio, no mesmo lugar, porque a gente não lê o texto simplesmente procurando a história ou a literatura ou a teologia. Essas coisas fazem parte do mesmo livro, da mesma narrativa. Nós, então, na aula de hoje vamos basicamente explorar as características da história, da literatura e da teologia do Antigo Testamento. Vamos lá, então, para o nosso primeiro passo, contexto histórico. Ah, deixa eu falar uma coisa importante. Na aula passada uma pessoa pediu slide, eu encaminhei aqui pro pessoal da plataforma que deve fazer o upload do dos slides da última aula pra plataforma. Mas eu também vou disponibilizar os slides da aula de hoje. Eu sei porque até conversando um pouquinho antes de começar aqui a aula com a pessoa que acompanha o curso, às vezes as pessoas ficam atrapalhadas entre eh copiar o assunto ou a informação que tá no slide ou prestar atenção no que tá sendo dito. Então não precisa se preocupar em reproduzir o slide aí eh ou no nas suas anotações ou naquilo que você tá lendo no momento da aula, que a gente vai passar isso para vocês depois da aula, tá bom? Contexto histórico. Existe um ponto em comum em todas as pessoas que leem a Bíblia de forma responsável, que é a Bíblia precisa ser lida no seu contexto e ela não pode ser lida isolando versículos. Ainda que isso seja um ponto comum, esse é um ponto muito desrespeitado na maior parte das leituras bíblicas que a gente percebe até hoje. Você lembra daquele negócio que existia? Eu via muito na minha infância, não sei se ainda existe hoje, que é caixinha de promessas. Era um negócio com vários cartõezinhos pequenininhos que a pessoa tirava. tinha um versículo com uma promessa e a pessoa entendia que aquela era a promessa do dia. Qual o problema da gente ler a Bíblia assim? É que nenhum desses versículos foram colocados para servir a esse propósito no texto bíblico. Todos os versículos estão dentro de uma história maior que só faz sentido entendendo que história é essa. Por quê? Se a gente isola um versículo, a gente pode dizer praticamente qualquer coisa sobre esse versículo. Se a gente isola uma fala do eh nosso Senhor, se a gente isola uma fala do profeta Isaías, a gente pode aplicar da maneira que a gente desejar. Quando na verdade Isaías tinha um propósito muito específico com a sua profecia, tinha uma tinha um propósito muito específico com sua profecia. E a gente quando faz isso, a gente está de certa forma indo contra a vontade do texto. O contexto que a gente está se referindo não é só literário, mas também histórico. O que é que significa dizer, por exemplo, como muitas pessoas afirmam que a Bíblia é atemporal? É muito perigosa essa afirmação. Quando a gente fala que a Bíblia é atemporal, é como se a gente pudesse pegar o princípio que está sendo ensinado. A maioria das pessoas abrem a Bíblia já com essa sede, essa gana de saber qual que é a aplicação desse texto para minha vida. E no momento em que essas pessoas acreditam que encontraram esse princípio ou essa aplicação, elas tiram esse princípio de toda essa sujeira, de toda essa terra, de toda essa confusão que é a história na qual o princípio está inserido e descasca, limpa, tira toda a forma de história que está em torno desse princípio. Por quê? O que ela quer é o princípio. É justamente a ideia de que o que vale na Bíblia são essas pérolas, são essas gemas, são essas partes preciosas que são os ensinamentos sobre Deus, sobre a nossa vida, sobre o mundo, que são atemporais, como se o propósito da Bíblia fosse justamente ser separada da confusão, que é a história para ser elevada à categoria de verdades eternas. Isso é muito complicado. Por quê? Ainda que a Bíblia seja verdade no seu contexto original há 3.000 anos atrás, ainda que a Bíblia seja verdade no seu contexto original do Novo Testamento há 2000 anos atrás atrás, continue sendo relevante pra gente hoje, ela só é relevante pra gente hoje. Ela só comunica aquilo que é verdade a partir daquilo que ela significava para os seus leitores originais, para o seu autor que originalmente tinha um propósito em comunicar essas coisas dentro do contexto que ele vivia. Então, quando a gente fala que a Bíblia é um livro atemporal, existe uma maneira correta e existem muitas maneiras erradas de interpretar essa expressão. A minha percepção mais concisa de dizer que a Bíblia é atemporal é no sentido de dizer que ela é uma história que governa todas as outras histórias. Ou seja, ela é atemporal porque ainda que ela tenha sido escrita em um contexto original, aquele contexto original foi um contexto muito diferente de todos os outros, porque foi ali que Deus se revelou de forma especial para que todas as pessoas pudessem conhecer esse Deus verdadeiro. Então, essa história que está em Gênesis, essa história que está em Jó, essa história que está eh no livro de Judas, é a história que deve governar a minha história. Nesse sentido, ela é atemporal, porque, na verdade, ela não está fora do tempo, ela inclui todos os pontos do tempo. Mas quando a gente fala que a Bíblia é atemporal, a gente não pode esquecer desse ponto. A Bíblia é condicionada por sua época. A Bíblia é condicionada por sua cultura. Por exemplo, quando a gente lê o texto de Gênesis, fica muito claro que foram usadas convenções literárias próprias daquela época para comunicar como o mundo foi criado, como é que os povos surgiram, como é que o povo de Israel começou a partir de Abraão. Nós, por outro lado, estamos distanciados dos eventos que motivaram a escrita desses livros. Estamos muito distanciados. Estamos a 3.000, 3.500 anos de distância desses eventos. Então, a gente não pode imaginar que as pessoas contavam histórias há 3.000 anos atrás na Mesopotâmia, da mesma forma que nós contamos hoje no Brasil, ano de 2025. As maneiras de contar um fato, as perguntas que as pessoas se faziam eram muito diferentes da maneira como nós contamos os fatos e das perguntas que nós nos fazemos hoje. Por isso, se submeter à autoridade bíblica não significa pegar um texto, encontrar a primeira aplicação possível para esse texto e dizer: "Aqueles que realmente acreditam na Bíblia como palavra de Deus, precisam seguir essa orientação aqui." E calma lá, tem muitos passos anteriores pra gente primeiro responder o que é que esse texto realmente está querendo dizer. A partir do momento em que a gente faz as perguntas que o texto está fazendo, a gente encontra as respostas que o Antigo Testamento, que o Novo Testamento está dando, é que a gente pode dar esse passo realmente importante. Eu preciso submeter a minha vida a esse ensinamento. Ah, e de maneira geral, pessoal, esse é o propósito do módulo como um todo, tá? Só fazendo um parênteses aqui. Qual é o propósito desse módulo? Encurtar distância. a distância no tempo, a distância na maneira de pensar, a distância na maneira de se comunicar que existe entre nós, leitores do ano de 2025, distribuídos por vários lugares do Brasil e de outros países também, mas desses autores que viveram há milhares de anos atrás e desses leitores e ouvintes originais que tinham outra maneira de se comunicar, de pensar e de escrever. Por que que isso é importante? Porque sem compreensão do contexto, nós não sabemos o que é que significa seguir a palavra de Deus. Com raras exceções, nós temos livros na Bíblia que narram histórias bem posicionadas na cronologia relativa. Quem veio antes de quem e quem veio depois de quem? Existem muitas discussões sobre exatamente em que ano aconteceram esses eventos sobre o chamado de Abraão, em que ano aconteceu exatamente o êxodo, em que ano alguns eventos são bastante claros no posicionamento histórico, como por exemplo a queda de Jerusalém, a o início do exílio babilônico. Então, ainda que alguns eventos a gente não saiba com precisão do ano, a gente sabe aproximadamente uma faixa de tempo e principalmente a gente sabe quem veio antes de quem e quem veio depois de quem. Não faz sentido imaginar que Daniel veio antes de Moisés. Não faz sentido imaginar que Moisés veio antes de Abraão. Não faz sentido imaginar que Abraão veio antes de Adão. Então, a gente tem clareza dessa cronologia bíblica e isso precisa ficar sempre eh no fundo da nossa cabeça, assim disponível paraa nossa memória. Quando a gente abre e a gente lê um texto como juízes, o período dos juízes aconteceu antes ou depois da monarquia? O estabelecimento da monarquia em Israel. aconteceu antes. Mas isso é importante, muito importante. O contexto, a maneira como Israel estava organizada no período dos juízes é muito diferente do que a monarquia no período do seu apogeu com Davi e Salomão. Então, a gente precisa ter essa clareza da linha histórica. Um dos erros mais perigosos e recorrentes da interpretação do Antigo Testamento é justamente a imposição de valores contemporâneos de nossa cultura dentro da história do Antigo Testamento. Isso é um problema na leitura da Bíblia. Isso é um problema na leitura de qualquer documento histórico. Qual o nome que a gente dá para isso? Isso é o pecado mortal do historiador, que é cometer anacronismo. É a ideia de que você está avaliando os eventos do passado com a régua do presente, como se aquelas pessoas tivessem obrigação de se submeter à nossa moral, conforme a interpretação do que é a moral na mente contemporânea, como se as pessoas estivessem eh sujeitas a um julgamento no passado com as avaliações que a gente faz. com as métricas e com os juízos do presente. Esse tipo de postura leva a muitos erros e muitos problemas do ponto de vista histórico. E é fundamental a gente entender a natureza então da historiografia. A gente já falou bastante de história e agora a gente tá colocando uma nova palavrinha aí na nossa conversa, que é historiografia. Mas vamos dar um passo atrás que é se perguntar o que que é história e o que que é historiografia. de forma muito muito simples, talvez até simplista. História está relacionado a aos eventos do passado. A história eh é aquilo que está ligado ao relato dos eventos do passado. A historiografia é a escrita dos eventos do passado. É a maneira como é que a história é contada, a maneira como a história é registrada. Então, pensa em um como sendo o evento, o evento da ressurreição de Jesus. Pensa no outro como sendo o relato do evento, como é que Lucas registrou a ressurreição de Jesus. Como é que, por exemplo, os livros históricos, Primeira Reis, Segunda Reis, Primeira Samuel, Segunda Samuel, Crônicas, como é que esses livros relatam aquilo que aconteceu no começo da monarquia de Israel? O livro histórico eh significa, o dizer que um livro é histórico significa que o autor tem intenção de relatar fatos que aconteceram no espaço e no tempo passados. O livro de história na Bíblia não é o mesmo que o livro de história dos padrões modernos. É muito diferente você pegar o livro, por exemplo, acho que é eh do século XIX, um clássico da história, O declínio e queda do Império Romano de Edward Gibbon, um livro de história gigantesco que tem um tratamento muito respeitado sobre a fase, o Império Romano como um todo, mas em especial a sua fase final. É muito diferente você ler esse tipo de livro de história para aquilo que são esses livros que eu acabei de mencionar, Primeira e Segunda Samuel, por exemplo. O registro dos eventos envolve autor e sua interpretação dos fatos para uma audiência específica. A história sempre procura atribuir coerência aos eventos narrados. Toda narrativa parte de uma perspectiva restrita. Ninguém tem todos os dados da realidade. Ninguém consegue contar a história com todos os detalhes do que aconteceu, com todas as informações possíveis relacionadas a esse evento. Toda a história tem alguma dose de subjetividade. Se você precisa selecionar, a escolha do autor vai estar envolvida nesse processo. Toda história tem alguma dose de subjetividade. A própria noção de o que é objetivo e o que é subjetivo pode ser algo bastante enganoso. Tudo passa pelo filtro da subjetividade. Agora, quando a gente diz que tudo tem alguma dose de subjetividade, a gente não tá querendo dizer que todo relato histórico é uma criação da cabeça do autor. Não é porque a gente fala assim: "Olha, quando o autor de Primeira e segunda Samuel relatou história, ele relatou de uma perspectiva pessoal, particular, a gente não tá querendo dizer que ele inventou os fatos, mas que ele contou aquela história a partir de um ponto de vista particular. Toda história é selecionada por alguém e isso não invalida o relato simplesmente como mera projeção do autor. O que a gente tá querendo dizer que a perspectiva do autor e do leitor precisam ser considerados no ato da interpretação do texto. Quem foi que escreveu e para quem escreveu? Um outro ponto, os autores bíblicos têm interesse em registrar eventos reais do passado. Os autores bíblicos realmente acreditavam que o universo foi criado por Deus, que Abraão migrou da Mesopotâmia para o que hoje é a região ali da Palestina, Israel. Moisés atravessou o Mar Vermelho. Davi ascendeu ao trono de Israel. A historicidade, ou seja, a certeza que esses eventos de fato aconteceram na história é assumida pelos autores bíblicos. Eles não estão nem tentando provar que isso é verdade. Eles estão apenas informando que isso aconteceu. A intenção do autor bíblico é sempre impactar o leitor com o significado teológico dos eventos que se assume como algo que de fato aconteceu na história. Então, todos os livros da Bíblia, mesmo os livros que a gente classifica como livros históricos, estão registrando os eventos do passado, mas nunca apenas para registrar os eventos do passado. A ideia sempre é registrar o evento do passado, comunicar que essas coisas aconteceram, mas confrontar e impactar o leitor com o significado dessas histórias. De que maneira Deus estava presente aqui? De que maneira Deus se revelou ao seu povo? se revelou às pessoas que teriam contato com esse texto e que precisa ser compreendido pelo leitor. A história e a teologia estão de mão dadas, estão de mãos dadas naquilo que é o texto bíblico. Isso é muito importante. História e teologia estão unificados no texto bíblico e a história é sempre narrada com um propósito divino. Claro que isso é o pressuposto de quem entende que a Bíblia é um texto inspirado por Deus. Se você tem a perspectiva de que esse é um texto basicamente fruto de processos humanos com intenções de manipulação, de controle das massas, isso é um relato como existia em qualquer outro povo da antiguidade, você não vai partilhar dessa perspectiva. Mas para nós que entendemos que a Bíblia é um texto inspirado por Deus, a gente também percebe que a história ela é sempre narrada com um propósito divino. Muitos se referem a essa união como uma história teológica. A Bíblia tem vários momentos de narrativa histórica que devem ser entendidos como história teológica. E essa classificação ajuda, mas demanda muito, muito cuidado, porque toda narrativa histórica tem alguma intenção dentro e fora da Bíblia. Nesse sentido, a Bíblia não é particular, não é exceção. O fato de que a gente diz que a história na Bíblia tem uma intenção teológica, revelar o Deus verdadeiro, todo texto histórico também tem alguma intenção. Ainda que não seja o mesmo da Bíblia, vai ter alguma intenção. O autor quer fazer algo com você. É preciso você abandonar essa ingenuidade de que existem autores que escrevem com completa imparcialidade. Existem autores que escrevem apenas relatando o que aconteceu. Isso nunca acontece. sempre existe uma intenção do autor por trás do texto que você está lendo. É realmente importante, por exemplo, que os eventos que a gente lê na Bíblia tenham acontecido ou não na história? Será que não seria suficiente manter um ensino ético e moral das escrituras sem se preocupar com esse lance de o que realmente aconteceu na história? Como foi que esses eventos tomaram eh lugar no palco da história? E aqui vale um texto que a gente leu há pouquíssimo tempo no curso Macários, que é o texto de Primeira Coríntios 15:14. Se Cristo não ressuscitou, é inútil a nossa pregação, como também é inútil a fé que vocês têm. Evento histórico, ressurreição de Jesus. Ou Jesus ressuscitou dentre os mortos ou ele não ressuscitou. Se a gente está preocupado apenas com ensino ético e moral, a gente poderia dizer: "Não é tão importante assim, porque Jesus foi uma figura singular muito importante na história. Independentemente do que tem acontecido em torno da sua ressurreição ou não, permanece o ensino, permanece o exemplo. Paulo diz que não. Se Cristo não ressuscitou dentre os mortos, a nossa pregação é inútil, assim como a fé que vocês têm na correspondência de Paulo com os Coríntios. Ainda que tenham fatos mais importantes do que outros, minar a historicidade pretendida pelos autores tem consequências muito profundas na relação de fé que nós temos com a Bíblia. Se alguém começa a apontar que as coisas não necessariamente acontecerão assim como estão narradas na Bíblia, olha, eu preciso prestar muita atenção. Por quê? Porque a dependência entre teologia, mensagem teológica, ensino ético, ensino moral, revelação de Deus e história é muito profunda essa relação é muito estreita, tá? O próximo ponto aqui é desenvolvendo aquilo que a gente tinha falado sobre a historiografia. A gente precisa entender um pouquinho como é que essa história é registrada na Bíblia. E essa história registrada na Bíblia tem algumas características, como você pode ver aí no slide. Seletividade, ênfase, ordem e aplicação. Seletividade. Ninguém fala tudo sobre um único evento que seja. Se você chegar em casa e seu cônjuge lhe perguntar como é que foi o dia, você provavelmente não vai descrever se o pneu do ônibus estava com lama ou não. Você não vai falar sobre a cor do casaco do seu colega de trabalho. Você não vai falar sobre a umidade do ar no momento em que você chegou em casa, você vai selecionar aquilo que tem muita importância e levaria muito tempo falar sobre todas as informações que você teve acesso e também há muitos detalhes que não contribuem em nada para o propósito desejado pelo autor. O que é que vai ser incluído e o que é que vai ser excluído? Essa é uma pergunta que todo mundo que conta uma história precisa se fazer ou faz automaticamente sem nem perceber. Existe uma diferença clara, por exemplo, entre os livros de Primeira a Segunda Samuel, Primeira e Segunda Reis de um lado, e o livro de Primeira e Segunda Crônicas do outro. Por exemplo, no primeiro caso, primeiro e segunda Samuel e Primeira e Segunda Reis, fala-se do adultério de Davi. No segundo, esse evento, esse fato nem é mencionado, exceto por uma menção de Batseba na genealogia de Davi. Mas por que que Crônicas não faz menção a isso quando primeira e segunda Samuel falam muito sobre isso? Porque o propósito desses livros eram diferentes? Samuel e Reis, por exemplo, eh, tá tentando responder a seguinte pergunta: Porque nós, que somos o povo escolhido, estamos no exílio? Ou seja, entende-se para boa parte dos estudiosos que Primeira e Segunda Samuel, Primeira Segunda Reis, são escritos ou encontram a sua forma final de escrita no período do exílio. E o período do exílio é um período de muita pergunta. Por que se Deus nos escolheu, o criador dos céus e da terra e do universo inteiro é o nosso Deus e não o Deus dos pagãos? Por que que a gente está sofrendo na mão dos pagãos? Entender esse caminho era fundamental e essa pergunta exigia a menção do pecado de Davi. Porque que nós, que somos o povo escolhido, estamos no exílio? Já em crônicas, a gente tá falando do período provavelmente pós-es exílico. E a pergunta básica de crônicas é: como é que nós da tribo de Judá damos continuidade à história e à promessas dos nossos antepassados? Opa, mudou o contexto. A gente não tá falando das 12 tribos, mas está falando do reino de Judá. E a gente não está falando sobre porque estamos no exílio, porque o exílio já passou, pelo menos naquela forma como eles experimentaram com os babilônios. E a pergunta agora é: como é que a gente pode dar continuidade às histórias da promessa que nós recebemos? Segundo lugar, ênfase tá diretamente relacionado com a seletividade. Nem todos os fatos são narrados e dentre os eventos narrados, alguns são mais importantes do que os outros. Existe maior ênfase que é dada para eventos que cooperam para esse propósito maior do livro. O templo de Jerusalém, por exemplo, é um símbolo fundamental. É um dos elementos mais importantes no livro de Primeira e Segunda Crônicas. O livro é escrito no período em que o templo está sendo reconstruído. Por isso, compreender o significado do templo é tão importante. E o templo serve como essa ponte entre o período pósesílico que eles estão vivendo agora, e o período anterior, que é o período de Moisés e Davi. E essa ponte é fundamental para aquilo que eles estavam experimentando no momento da reconstrução. precisa existir uma continuidade entre isso que tá acontecendo com a gente agora no momento de reconstrução de Israel e isso que aconteceu com Moisés, isso que aconteceu com Davi. Terceiro lugar, a característica da história, historiografia bíblica é a ordem. Em geral, a narrativa respeita a ordem cronológica dos fatos. De forma geral, você não tem muitos vai e vens na história. Você narra um evento que aconteceu e depois volta para narrar outro que aconteceu no passado. Há casos em que a preocupação temática altera essa ordem natural dos eventos. Por exemplo, Primeira Samuel, capítulo 16, do 14 ao 23, a gente tem Davi aparecendo como um musicista que acalma Saul. Lembra daquela história? Saul perturbado por espíritos maus, eh, Davi toca e Saul se acalma. Capítulo 16. Quando a gente vira a página e vai pro capítulo 17, Davi aparece como aquele que derrota Golias. E depois da vitória de Davi é que ele é apresentado para Saul ainda no capítulo 17. E Saul reage como se não conhecesse o menino. A gente pode interpretar que talvez Saul não lembrava que Davi era aquele músico que tocava a arpa para o acalmar no momento em que ele estava sendo perturbado por aqueles espíritos. Pode, mas é improvável. O que é provável é que o texto quis primeiro introduzir Davi como dotado dessa capacidade musical e poética, que isso vai ser muito relevante para entender eh Davi como sendo o grande salmista e depois quer introduzir Davi como esse grande guerreiro, que é o guerreiro que começa a sua história de guerra derrotando Golias, o gigante filisteu. Então, a gente tem possivelmente uma inversão dos da ordem natural por um propósito do autor, mas isso é exceção. Normalmente as narrativas e as histórias são contadas na ordem que elas aconteceram. Em quarto lugar, a aplicação. Os autores da Bíblia nem tentam parecer autores desapaixonados, distanciados pela interpretação dos eventos. O oposto é uma ilusão moderna, como a gente já colocou, esse autor que se coloca como um observador externo, um avaliador imparcial, ele está apenas reportando aquilo que ele presenciou. é uma ilusão da modernidade que inclusive tem caído já nos últimos assim períodos de revisão de como é que a gente entende a história mesmo na contemporaneidade, muitos historiadores admitem isso. Toda história é contada de um ponto de vista. No caso da Bíblia, os autores serviam como profetas, mediadores da palavra de Deus. E eles eram veículos da interpretação divina dos atos do próprio Deus. Por isso, os historiadores de Israel são pregadores. No caso da Bíblia, o que a gente tem é uma série de relatos históricos com validade do ponto de vista histórico, mas que tinha um propósito muito claro, muito evidente. E eles não fazem questão de esconder isso. Eles também eram pregadores. Tem sido o ponto da história, a gente precisa se preocupar com aquilo que é a análise literária da Bíblia. Pessoal, eu acho que esse é um dos pontos mais importantes, não porque seja mais importante do que a história, mas porque eu acho que é mais ignorado do que o primeiro passo, que é analisar o livro histórico do ponto de o livro bíblico, do ponto de vista histórico. As pessoas nem sempre t muita clareza de que os textos bíblicos fazem parte de gêneros, gêneros literários. Por exemplo, no Antigo Testamento, os dois principais gêneros que a gente encontra é narrativa e poesia. Quase a totalidade do Antigo Testamento pode ser resumido ou pode ser resumida a dois tipos de texto, que é justamente a narrativa e a poesia. mesmo as descrições, por exemplo, das fronteiras das tribos, os códigos legais do Levítico, do Deuteronômio, a genealogia dos principais personagens, tudo isso está dentro de um contexto de narrativa dos grandes atos de Deus e do desenvolvimento de Israel. No caso do Antigo Testamento, a Bíblia não se parece com os nossos livros de história e nem mesmo com os nossos ensaios teológicos contemporâneos. Por quê? Porque a Bíblia está preocupada com poemas e com narrativas. Eu ouvi isso de um professor meu do mestrado. Ele falou: "Ó, só teólogo tem esse lance de escrever um livro de 500 páginas e não usar nem mesmo uma única imagem. Eh, é a ideia de que você tem um uma teologia muito argumentativa, você tem um uma teologia muito da elaboração da lógica dos eventos ou a análise da história nesse sentido de aconteceu o evento ou não aconteceu. Ainda que os argumentos sejam importantes, ainda que a avaliação da história seja importante, é interessante que a Bíblia não conta aquilo que ela tem para contar dessa maneira. A Bíblia conta o que tem para contar por meio de poesia e por meio de narrativas. Por que que ela faz isso? Isso alcança um público muito, muito maior. Não é necessário você ter muita idade ou você ter muita escolaridade, por exemplo, para se identificar com a história de Davi e Golias, de Sansão e Dalila, de Estter ou então a história de Rut. Toda criança intuitivamente começa a entender, a se identificar e permitir que essas histórias transformem quem elas são. As histórias fazem muito mais do que informar o intelecto. As histórias despertam emoções, as histórias demandam decisões, as histórias estimulam e formam a nossa imaginação. E as culturas contam histórias de formas muito diferentes entre si. Quando a gente abre a Bíblia, a gente precisa reconhecer, nós somos estrangeiros em terra estranha. Nós precisamos nos ambientar com esse mundo. Pergunta básica é: Quais são as convenções literárias do passado? Como é que essas pessoas contavam a história? Qual é a estratégia de leitura mais apropriada diante dessa maneira de eles contarem as histórias? Se eles contam as histórias assim, é porque nós precisamos nos adequar a eles, os autores originais e os leitores originais. Não o contrário. Não é Gênesis que tem que se adequar às minhas perguntas. A gente sempre faz essa pergunta. Poxa, mas o texto de Gênesis está fazendo um relato da criação que deve ser lido de forma literal ou não? Já ocorreu a você fazer a pergunta de que talvez o texto de Gênesis tenha outra preocupação do que responder essa pergunta? se é uma narrativa eh científica ou não científica, talvez ele tenha outro desejo, o texto tenha outro propósito e a única maneira proveitosa de lê-lo e respeitosa é encontrando a maneira como Gênesis conta a história. Vamos lá falar um pouquinho sobre as convenções da poesia hebraica e depois um pouquinho da convenção da narrativa hebraica. Poesia hebraica. A poesia é um gênero literário altamente estilizado. Costuma ser fácil de a gente distinguir da prosa, daquilo que é a narrativa. A poesia é um estilo artificial no sentido de que ela não segue as regras normais da linguagem. Há características da poesia, mas nenhuma dessas características eh separadamente ou em grupo conseguem fornecer assim uma definição precisa de poesia. Quase como se a gente batesse o olho e soubesse que aquilo dali é um texto poético, mas a gente conseguisse dizer exatamente o que é uma poesia, no caso da poesia hebraica, tá? Poesia hebraica é diferente da poesia em língua portuguesa que é diferente em da poesia em língua inglesa. Só para comparar isso, não sei se vocês já viram algo a respeito, mas as características da poesia inglesa é muito diferente daquilo que é a poesia brasileira. Então, imagina isso paraa poesia hebraica de 3.000 anos atrás é ainda mais importante. Em alguns textos proféticos é muito difícil a gente dizer se a gente está diante de uma poesia ou de uma prosa altamente estilística. Nem sempre essa distinção é assim tão fácil. Vamos lá ver algumas características da poesia. Primeiro, concisão. A principal característica da poesia hebraica é que ela é composta por sentenças curtas. Essas sentenças estão agrupadas em diferentes níveis de paralelismo e estrofes e ela é explicitada em várias versões que colocam o texto poético em margens mais largas. As nossas traduções fazem isso para nos ajudar a perceber que aquilo é uma poesia. Então, quando você abre o livro dos Salmos, você vai ver que é diferente as margens do que é no livro de Jó, por exemplo, que tá contando uma história, ainda que também tenham muitas poesias no meio da história de Jó, a poesia fala muita coisa em poucas palavras e existem dois mecanismos principais para economizar a palavra. Primeiro, a supressão das conjunções. Segundo, a grande frequência das imagens. Por exemplo, para supressão das conjunções, o Senhor é o meu pastor, de nada terei falta. Essas duas partes poderiam ter sido conectadas por uma conjunção, mas não é uma maneira da poesia economizar a palavra. Grande frequência das imagens é um ponto que a gente vai falar já já. Isso mostra pra gente, pessoal, um ponto que é fundamental para toda a Bíblia. Tô falando agora sobre poesia hebraica, mas vale para toda a Bíblia. A concisão da poesia hebraica demanda que a leitura seja lenta e que a leitura seja meditativa. Eu sei que tem muitas pessoas, eu mesmo já tive esse interesse de saber como é que a gente pode ler mais rápido, porque se a gente ler mais rápido, a gente lê mais, mas nem sempre ler mais. se ler mais rápido é ler melhor. A ideia de leitura dinâmica é muito estranha para alguns ou paraa maior parte dos escritores e dos estudiosos que eu li e que se deram ao trabalho de comentar esse assunto. O que essas pessoas que leram muito e muito bem falam é: Ó, aquilo que vale a pena ser lido, vale a pena ser lido lentamente. Da mesma forma pegar a Bíblia e ler de capa a capa em 3, 4 dias tem um valor? Tem, com certeza tem um valor. Mas não tem como a gente dizer que a gente tirou bom proveito da Bíblia se a gente leu tudo de forma muito rápida. A poesia hebraica demanda uma leitura lenta e uma leitura meditativa. Ao mesmo tempo, é aí onde entra o equilíbrio. Tem partes da Bíblia que não adianta ler de forma isolada. Por exemplo, Isaías 40 até o 55 formam uma unidade literária. O correto é a gente ler do começo até o final numa sentada só. A carta de Paulo foi escrita como uma carta que deveria ser lida do começo ao fim numa reunião pública daquela comunidade. Então, o que é que faz sentido? Ler Romanos do começo ao fim de uma vez só. ainda que depois existe o momento certo para parar e fazer a interpretação cuidadosa de cada termo, de cada versículo, estabelecer as conexões com outro texto, mas existe o momento certo, o ritmo certo para cada uma dessas funções. Segunda característica da poesia hebraica, a gente tem o paralelismo. A maior parte da poesia hebraica contém alta frequência de repetição. Pode ser um paralelismo dentro do mesmo verso, que é mais comum, ou em versos distantes, como por exemplo no Salmo 8. O versículo 1 do Salmo 8 é paralelo com o versículo 9 do Salmo 8. Esse paralelismo é mais incomum. É mais comum, como a gente viu no Salmo 23, versículo 1, a primeira parte do versículo ser paralela à segunda parte do versículo. Dificilmente o o paralelismo é palavra por palavra. Não é que a mesma palavra aparece duas vezes. Existe uma alternância de palavras, mas com significados próximos. Esse ornamento linguístico também pode ser encontrado na prosa. A ocorrência do paralelismo por si não indica uma poesia. Só que quando a gente enxerga vários paralelismos numa proporção muito grande desse artifício literário acontecendo no mesmo texto, opa, a gente começa a suspeitar que a gente tem um um texto poético diante de nós. Os versos paralelos não são idênticos, eles são similares. Por a Bíblia, em especial, os Salmos aqui, nunca fala a mesma coisa exatamente do mesmo jeito, a não ser que ela esteja desejando construir uma moldura. Às vezes uma fala acontece aqui, ela é repetida lá no final. É para dar a entender que aquela frase começou um cântico, um hino, uma poesia e a mesma frase agora está concluindo. Mas de maneira geral, quando a gente se depara com um paralelismo, não simplesmente uma repetição, nós vemos que o autor está querendo acrescentar alguma coisa. Existe uma progressão de uma linha para outra. Por exemplo, Salmo 9:1. Senhor, quero dar-te graças de todo coração e falar de todas as tuas maravilhas. A primeira parte, Senhor, quero dar-te graças de todo coração, é explicada pela segunda parte. Por quê? Porque a segunda parte está dizendo como é que o salmista vai dar graças ao Senhor. Como é que ele vai fazer isso? Falando de todas as maravilhas que o Senhor realizou. Então o salmo 91 que a gente acabou de ver é um exemplo de bolum, que é uma unidade básica da poesia hebraica, na qual duas linhas diferentes formam um paralelismo por meio de seus substantivos. Eh, a forma correta de interpretar esse bicolon é por meio da relação entre os dois colons. A primeira parte é um columon, a segunda parte é outro colum. Então, como é que a gente entende isso? É procurando como é que a segunda parte explica a primeira parte. O paralelismo é um sinal de aviso, mais um sinal de aviso de que esse texto precisa ser lido lenta e meditativamente. O outro ponto, métrica, quando a gente olha para a poesia hebraica, a gente precisa perceber que existe uma característica diferente de outras poesias que a gente esteja mais acostumado. Por exemplo, um traço muito importante quando a gente vai estudar a poesia grega e também a poesia latina é encontrar uma métrica que é bem definida. Existem quantas sílabas poéticas aqui? Qual é a parte da poesia? Qual é o verso que rima com outro verso? De quantos versos se compõe uma estrofe? Então, esse tipo de tratamento que é dado para a poesia grega com muito sucesso, paraa poesia latina com muito proveito, foi utilizado também como critério na busca de uma métrica da poesia hebraica. grandes nomes, perdão, da história da teologia ou da história eh da igreja fizeram isso. Josef, o historiador judeu do primeiro século, fez isso. Agostinho também tentou encontrar uma métrica paraa poesia hebraica. Jerônimo também tentou encontrar. E eles tentaram então fazer essa medida do verso da poesia hebraica. De forma simplificada, a medida do verso é a contagem dos sons do verso, que são as sílabas poéticas. Apesar dos esforços, o o Antigo Testamento nunca se rendeu, a sua poesia nunca se rendeu a um esquema métrico bem definido. Existe hoje um corpo crescente de estudiosos que admite que não existe um esquema métrico único. Então, ainda que a gente consiga caracterizar bem a poesia grega e latina, nesse sentido, não é tão fácil caracterizar a poesia hebraica. Em último lugar, a imagem é um recurso muito importante da poesia hebraica. A poesia faz um uso intenso das imagens e isso contribui pra concisão, porque você comunica muita coisa com uma única imagem. As imagens compõem uma forma de fala ou uma escrita que é uma escrita que é indireta. Você compara algo ou alguém com algum outro algo ou alguém. Então, por exemplo, aqui vai um exemplo um pouco polêmico, mas eu achei muito legal que os autores do livro colocaram esse exemplo aqui e ainda que deva ser discutida essa interpretação, me pareceu coerente. Ah, vou fazer um um uma pausa só para falar qual é o livro que eu tô fazendo referência, tá? A gente vai colocar lá, mas é esse livro aqui, ó. aproximar para vocês verem o título. A gente vai colocar uma ementa completa do curso lá no nosso eh no nosso na nossa plataforma, mas é introdução ao Antigo Testamento de Raymond Dillard e Tramper Lungman. Terceiro, é um livro da editora Vida Nova, tá aqui embaixo, né, da editora Vida Nova que baseou essa primeira aula. E a gente vai ter outras referências para Antigo Testamento e também para Novo Testamento. Eh, tem um outra uma outra introdução muito boa que a gente deve colocar na introdução do Antigo Testamento do John Walton e Andrew Hill, que é da editora Vida. Não se eh se preocupem em saber exatamente como é que é que a gente vai colocar no na nossa plataforma e vai dar para vocês localizarem direitinho essas referências. Mas essa é da editora Vida. Eu não tenho esse livro em mãos aqui para mostrar para vocês, mas se algum funcionário da Editora Vida assistir a aula do curso Macários e quiser me dar de presente, eu vou mostrar orgulhosamente o livro aqui da Editora Vida. Eh, mas eh vocês fiquem informados dessas duas introduções, tá? Do a Trampol Longman e a outra do John Walton. Uma é da Vida Nova e a outra é da Editora Vida. Mas vamos lá. Qual é o exemplo que eu falei? Quando a gente fala de imagens, a gente tem um exemplo muito curioso que está em Cântico dos Cânticos, capítulo 1, versículo 9. Leio na versão NVI. Comparo você, minha querida, a uma égua das carruagens do faraó. É óbvio que existe uma diferença entre uma mulher e uma égua. E essa diferença chama a nossa atenção, até porque na nossa cultura seria um pouco ofensivo fazer um paralelo entre uma mulher e uma égua. Agora, ele está comparando como se isso fosse um elogio paraa sua querida, paraa sua amada. Onde é que está o ponto de semelhança? Aqui é onde entra o contexto histórico que os autores reconstróem pra gente. Ele fala que comparo você, minha querida, a uma das éguas das carruagens do faraó. O que é interessante é que as carruagens do faraó não usavam éguas. As carruagens de guerra do Egito usavam, pelo contrário, garanhões, que eram os cavalos machos fortes, não castrados, e não éguas. A presença de éguas entre os garanhões excita os garanhões. E Israel, sabendo disso, quando precisava lidar com conflitos em que estava o os exércitos do faraó, exército do Egito, fazia o quê? Soltava uma égua no meio dos garanhões em batalha para desviar a atenção dos cavalos do faraó, dos ganhões do faraó. Isso obviamente não é uma objetificação da mulher. O elogio está na sensualidade, na sexualidade entre o amado e amada. E aqui vale essa observação geral. A gente vai falar sobre isso depois. O cântico dos cânticos, na nossa percepção, não é um livro sobre a relação entre Jesus e a igreja. É um livro entre homem e mulher, amor matrimonial. Por isso o tema da sexualidade como sendo tão importante ali. E a comparação parece dizer que mesmo para um cavalo no meio da guerra, a atração da sua mulher é tão forte que ele compara a atração que ele possui para sua amada, assim como um garanhão é atraído por uma égua. Então a gente tem um uso intenso da imagem nesse exemplo, mas muitos outros exemplos que contribui para essa textura emocional. do texto, tá? Então, a gente falou sobre convenções da poesia eh hebraica e agora a gente vai falar um pouquinho sobre as convenções da narrativa hebraica. Convenções da narrativa hebraica. O texto do Antigo Testamento é prioritariamente um texto narrativo. Ah, eu esqueci de citar um dado muito, muito importante. Bem rápido. Se toda a poesia do Antigo Testamento fosse reunida, seria maior do que o Novo Testamento inteiro. O Antigo Testamento tem tanta poesia que se toda ela fosse reunida em um único livro, o volume seria maior do que os 27 livros do Novo Testamento somados, tá? Mas voltando então paraa narrativa, o texto do Antigo Testamento é ainda mais narrativo do que é poético, ainda que em alguns momentos a distinção de narrativa e poesia não seja possível. No caso da narrativa, as sentenças estão organizadas em parágrafos da forma como a gente está acostumado. É uma linguagem mais próxima ao dia a dia do que é a linguagem poética. Nem sempre é muito fácil traçar uma linha clara entre prosa e poesia. As narrativas também são compostas literariamente. Toda toda narrativa no Antigo Testamento tem estilo, tem gênero, tem características assim de que foi um texto artisticamente trabalhado. Por isso que muitas pessoas caracterizam as narrativas do Antigo Testamento como sendo uma narrativa literária, uma coisa só. Bota um ifen entre os dois. narrativa literária. O que é que significa que o Antigo Testamento eh tem gênero literário ou os textos têm vários gêneros diferentes? Significa que o Antigo Testamento é passível de uma análise literária. Isso quer dizer que a gente pode aplicar métodos da teoria literária contemporânea para descobrir informações sobre o texto da literatura hebraica, que talvez foi ficando difícil de compreender ao longo do tempo. Por que que isso é importante? Porque cada cultura conta a história de um jeito diferente. Existe variação no tempo, existe variação no espaço. Toda essa coisa de análise literária, análise do contexto histórico, era desnecessário para os leitores originais desses livros, porque a história que estava sendo narrada era história deles. As convenções literárias que foram usadas pelo autor eram as convenções literárias que o autor compartilhava com seus leitores. Era tudo muito natural, era tudo muito intuitivo, mas pra gente não. Pra gente já se passaram 3.000 anos, já mudou muita coisa. Então a ideia é usar essas ferramentas da literatura para descobrir a intenção e a mensagem do texto. Eu vou só pedir desculpa que eu tô bem fanho, tá? que eu tô recuperando de uma gripe que chegou aqui de domingo para segunda e tá tá prejudicando um pouquinho a voz, mas eu acho que não tá atrapalhando tanto não. Ah, quando a gente fala então sobre análise literária, a gente tá falando necessariamente sobre descobrir qual que é o gênero de cada texto. E a definição se aplica tanto à prosa quanto à poesia. A gente vai usar daqui para frente prosa como uma um sinônimo para narrativa. A identificação do gênero direciona a forma adequada, como a gente lê um texto. Por exemplo, o livro de Deuteronômio traz uma grande quantidade de leis. existe no Deuteronômio uma repetição das leis que já havia sido enunciada no Êxodo, no Levítico. Eh, isso quer dizer que quando você começa a ler um texto de caráter jurídico, legal, você tem uma estratégia de leitura. Já se você abre um texto e começa a ler no texto era uma vez, você tem outra estratégia de leitura. Você tem outras expectativas sobre como deve interpretar aquele texto. Existem muitos tipos diferentes de texto dentro da Bíblia e o autor escolhe uma forma específica para passar uma mensagem específica para os seus leitores. As culturas antigas eh tinham formas específicas de estruturar os seus gêneros. E o que que é um gênero literário? Gênero é um grupo de textos que possui uma ou mais características em comum. Existe similaridade entre esses vários textos. A similaridade pode ser no conteúdo, na estrutura, na frase, na função, no estilo. E geralmente existem pontos em comum em todas essas características. Mas o gênero também é uma categoria fluida. dentro de um mesmo texto, você pode ter mais de um gênero. Existem alguns salmos que são cânticos reais. Estão falando do rei, das vitórias do rei, das conquistas do rei. É um cântico real, mas ao mesmo tempo é um hino de louvor a Deus, porque existe uma respons de Deus. E isso pode ser subdividido em muitas outras categorias. O significado do gênero eh afeta a interpretação por como a gente falou, desperta estratégias específicas de leitura e delimita o contexto literário. Tem muito texto que é difícil de interpretar. O que é que a gente pode fazer para ajudar? Comparar com outros textos do mesmo gênero? A gente vai falar sobre isso em Apocalipse. O texto do livro de Apocalipse tem três gêneros literários. É uma carta, é uma profecia e também é um apocalipse. O próprio apocalipse é um gênero literário. E existem outros apocalipses que não estão na Bíblia e outro que está na Bíblia. Como é que a gente pode compreender melhor as profecias do livro do Apocalipse? Compara, compara com o livro de Daniel, compara com os apocalipses judaicos que não entraram pra Bíblia, mas que talvez ajude você e a mim a compreender como é que essas imagens eram usadas nesse tipo de gênero literário. Então, a gente percebe que a o significado de um texto pode ser esclarecido pelo seu pela delimitação e pela confirmação do gênero que aquele texto faz parte. É outra coisa é a dinâmica da narrativa muda também. O narrador pode ser colocado em primeira pessoa ou em terceira pessoa. Em primeira pessoa, o narrador tá dentro da história, tá junto com você, mas ele tem uma perspectiva limitada dos dados que são colocados na história. Já o narrador em terceira pessoa é um narrador onisciente, é muito diferente. Ele tem acesso aos pensamentos e Davi pensou naquilo e Rute pensou isso. E as coisas que acontecem em secreto são acessíveis para o narrador onisciente. Esse narrador onisciente, ele é muito poderoso porque ele é uma voz não percebida no texto. Você não fica percebendo a presença do narrador quando ele se coloca em terceira pessoa. Mas é uma estratégia muito poderosa de convencimento do leitor, porque ele conduz para o lugar que ele quer e ele tem acesso exatamente a todas as informações que ele deseja, que ele precisa para contar aquela história. Então isso muda a dinâmica da narrativa. E a outra coisa, e a gente perceber que os livros da Bíblia ou as narrativas hebraicas, mais especificamente, sempre tem dois elementos básicos: enredo e personagem. sempre tem enredo e personagem. Tem várias definições do que que é enredo, mas aqui existe uma definição do vern postres que eh eu achei bastante interessante. Como é que as narrativas da Bíblia funcionam? Você tem um início da ação, você tem um conflito que começa a se desenhar, esse conflito vai se acentuando até chegar no seu ponto mais elevado. Nesse ponto ele se desenvolve até começar a ser resolvido. É o conflito no início da sua elucidação. Depois a gente tem um progresso da resolução até chegar a uma resolução completa desse conflito original e o fim da ação. Durante esse desenvolvimento de conflito e elucidação do conflito, o autor geralmente, primeiro ele apresenta o cenário, depois os incidentes preliminares, depois o incidente causador, depois as complicações, depois a resolução, o resultado e a conclusão. Isso é uma estrutura geral. que ajuda você a identificar como é que o enredo está se desenvolvendo, como é que a história está se desenvolvendo, tá? Por último, a gente tem a mensagem teológica. E aqui eu vou precisar ser muito conciso porque a aula ficou bem extensa. Eh, mensagem teológica, a gente precisa da história, a gente precisa da teologia, mas o propósito da Bíblia é teológico, não é simplesmente registrar a história e nem escrever textos estilizados e bonitos. A teologia no contexto do Antigo Testamento é muito particular. A pergunta fundamental é: o que é que o texto está dizendo a respeito de Deus e do seu relacionamento com com a gente? O que que esse texto falou aos seus leitores originais, está falando com a gente hoje? E claro, a gente está fazendo uma introdução ao Antigo Testamento, mas nós somos cristãos. Nós obviamente interpretamos o Antigo Testamento a partir do que o Novo Testamento nos esclarece. O Antigo Testamento, da perspectiva do Novo Testamento, ganha contornos muito particulares. Vocês lembram daquela, perdão, daquela narrativa de Lucas, capítulo 24, perdão, que Jesus se encontra com os dois discípulos no caminho de Emaús. Ali diz que Jesus explicou todos eh os profetas, desde da lei até os profetas, de Moisés em diante, dizendo como é que aquelas coisas tinham, aquilo que aconteceu com o próprio Jesus, com o Messias, tinham que acontecer. E aí a nossa pergunta é: em que nível o Antigo Testamento testemunha Jesus e de que forma essa história está sendo contada? Por que que isso é importante? Tem uma palavra que é muito repetida hoje em dia, que é precisamos ser cristocêntricos na nossa vida e precisamos ser cristocêntrico nas nossas mensagens. Todas as pregações têm que apontar para Jesus. Precisamos ser cristocêntricos na nossa leitura da Bíblia, como todo Antigo Testamento e Novo Testamento. Isso faz sentido? Faz todo sentido. Mas isso pode ser problemático? Ao meu ver, na maioria das vezes é problemático. Por quê? Porque o cara tá querendo enxergar Jesus em cada versículo, em cada ato. Tudo aquilo que Moisés faz é uma espécie de prenúncio direto da pessoa de Jesus. E talvez, ao meu ver, em muitos momentos, a maneira como Jesus está sendo eh o caminho está sendo preparado paraa chegada do Messí, do Messias, acontece em um nível superior. Não é porque Moisés vai fazer exatamente a mesma coisa que Jesus fez. Às vezes o paralelo é direto, às vezes é indireto. Então, muitas vezes é como se o Messias estivesse nas Escrituras, mas em um nível muito superior. É como se Deus estivesse mostrando o seu caráter misericordioso desde o começo, até que Jesus manifestasse misericórdia de uma forma como nunca antes foi expresso. As pessoas sempre souberam que Deus é onipotente, mas o que é que significa esse Deus onipotente que serve a sua criação, ainda que permaneça como Deus acima da criação? A gente só entende isso com o Deus que se fez carne. A gente só entende completamente o que é o amor de Deus na cruz de Cristo. Então, talvez essa revelação de onde está Jesus no Antigo Testamento não esteja em um versículo, não esteja em um símbolo, não esteja apenas em uma ação de um personagem, mas esteja na história como um todo. como é que nós aprendemos a interpretar a pessoa de Deus, o que ele está fazendo mundo e como isso muda quando a gente olha para Jesus e para o que ele fez. Então, a gente começa a perceber que a presença de Jesus no Antigo Testamento e a interpretação que o Novo faz do Antigo não pode ser assim também tão eh direta e facilitada por um princípio de interpretação, que é Jesus está em todo lugar. Vamos enxergar aqui, vamos procurar que a gente vai enxergar isso de forma muito rápida e direta. Calma que as coisas nem sempre são tão fáceis assim, tá bom? Pessoal, essa aula ficou muito grande, mas não foi à toa. Eu sabia que ia demorar. É porque ela serve como fundamento para todas as outras aulas e por isso que ficou um pouquinho menos de tempo para as nossas perguntas. Mas a gente vai ter bastante tempo para tirar as dúvidas de vocês nos próximos encontros e hoje eu vou tentar responder alguma coisa que já apareceu aqui, tá? Vamos lá. Deixa eu ver. A Bíblia na sua essência foi escrita para o povo de Israel, literal. Então, o correto seria o estudo também se basear na Torá, Neviim, Ketovim para uma melhor compreensão de todo contexto? Com certeza. A melhor maneira de você entender a pessoa de Jesus é estudando bem o Antigo Testamento, estudando vários elementos próprios, o período de Jesus, da narrativa dos apóstolos, mas é impossível entender e compreender, por exemplo, as orações de Jesus sem ler e interpretar os Salmos. Os Salmos é o conjunto de livros que é mais ou é o livro mais citado por Jesus. Jesus cita mais o salmo do que o Deuteronômio, por exemplo. Então, é preciso realmente compreender bem o Antigo Testamento para eh não ser apressado, desrespeitoso, ingênuo na interpretação do Novo Testamento. Vamos ver mais que que tá por aqui. Deixa eu ver. Ah, Carla faz a seguinte pergunta: "Seria possível as referências de leitura antes da aula para que possamos assistir a aula live já tendo lido material?" Carla, às vezes o material é a base para aquilo que é a aula. às vezes é um aprofundamento, então faz até mais sentido paraa boa parte do material que a gente compartilha ler depois da aula, porque você tem uma introdução aos assuntos e depois você pode se se aprofundar nisso, mas a gente vai procurar ser bastante organizado. No final do primeiro módulo, a gente deixou algumas aulas se acumularem sem o material de leitura complementar muito cedo. A gente corrigiu todos eles, mas atrasou um pouquinho no final. A gente vai se atentar para nesse módulo isso não acontecer, tá? Pois é. Ó, a Jéssica ressaltou aqui um ponto que a gente colocou. 1000 anos para ser composto é bastante tempo. Nunca tinha parado para pensar nisso. Pois é. Imagina um livro que começa a ser escrito hoje, 2025, e vai terminar de ser escrito em 3025. é inimaginável pra gente é a dificuldade de manter coerência numa composição tão tão eh lenta de certa forma em um tempo tão estendido por pessoas muito diferentes. Reis escreveram eh profetas, escreveram homens, profetas pobres, profetas ricos, pescador, coletor de impostos, pessoas desconhecidas. Tem muita coisa envolvida nessa diversidade da autoria bíblica e do tempo que isso levou, né? Vamos lá para as próximas perguntas. Deixa eu ver aqui. Ah. Uma pergunta, uma pessoa falou que tá tendo dificuldade com a nossa plataforma. Olha, Sandra, tá no ar. Eu entrei um pouquinho antes aqui de começar a aula para conferir se já tava essa aula também lá e estava. Então, as coisas estão funcionando, sim. É bom dar uma olhadinha aí para saber se você tá com endereço correto, internet, mas a plataforma tá funcionando. A Bíblia que Jesus lia continha os livros apócrifos. Então, eu sou, muito interessante que de maneira direta Jesus cita os três grupos bíblicos, né? a a lei, os profetas e os escritos. Eh, existe uma palavrinha um pouquinho diferente. Eu acho que os salmos eh ele ao invés de falar escritos, ele cita os salmos, mas a maioria dos intérpretes entendam entendem ali que é uma espécie de metonímia. Ele tá usando o salmo como uma indicação de todos os escritos. Mas a Bíblia, eh, o Antigo Testamento, a Bíblia Hebraica, na sua forma canônica como aceita por todo o judaísmo, a maior parte do judaísmo, é posterior a Jesus, se eu não me engano, no começo do segundo século, no concílio que existe na cidade de Jamnia. De certa forma, parece, os estudiosos indicam que isso tinha até a ver com o surgimento da igreja, alguns conflitos entre judeus cristãos e não cristãos, mas até aquele momento não existia esse conceito de um canon, no mesmo sentido que passa a existir depois desse concílio de gêmea. Agora, o que a gente tem certeza é que Jesus cita livros que estão estritamente vinculados ao nosso canon do Antigo Testamento. nesses três grupos, eh, que a gente acabou de mencionar, né, que é a Torá, os escritos e os profetas. Então, a gente pode ter bastante segurança que a Bíblia que Jesus linha era a mesma Bíblia que nós temos acesso hoje como sendo o nosso Antigo Testamento ou para os judeus a Bíblia hebraica. Deixa eu ver aqui. Que mais temos de observação? A gente tem algumas perguntas específicas já para o livro de Gênesis que eu vou me dar o direito de não responder agora, porque a gente vai ter uma aula só para falar sobre o livro de Gênesis. Eh, e aí a gente vai poder responder algumas perguntas a mais, tá? Mas bom, pessoal, eu acho que tem outras perguntas que foram colocadas aqui, mas deu para comentar algumas coisas que vocês colocaram e também pra gente não ficar com uma aula muito longa, eu vou encerrar esse primeiro encontro nosso desse módulo por aqui. Foi bastante conteúdo. A gente vai disponibilizar todo esse material de slide do texto que deu origem paraa aula e dos do quiz das perguntas na nossa plataforma. E a gente então pede para que vocês estejam aí de fôlego renovado e ânimo pra gente começar agora uma jornada aqui, ao meu ver, eh opinião bastante eh restrita a mim, nem todo mundo concorda comigo. Esse módulo é mais importante do que o módulo anterior. O módulo de Bíblia significa que nós podemos aprender a lidar com texto bíblico de uma forma melhor do que leituras apressadas e sem qualquer tipo de critério de interpretação, que nos dá base, inclusive, pra gente conseguir avaliar as questões doutrinárias que a gente começou no nosso curso no módulo anterior. Então esse módulo para mim é a o centro de tudo aquilo que a gente vai falar do ponto de vista prático e de tudo aquilo que a gente falou do ponto de vista doutrinário. Ajuda a gente a divulgar esse material para outras pessoas. Acompanha o curso direitinho, faça as leituras, o quiz e a gente espera poder cooperar com você ainda mais do que foi possível nos últimos encontros, tá bom? A gente volta aqui na nossa próxima aula para falar sobre Pentateuco. Quinta-feira a gente vai ter uma aula só sobre Pentateuco. Acompanha a gente nas redes sociais, divulga aí esse conteúdo e um forte abraço para todos vocês. Até o nosso próximo encontro. Ciao. Ciao.