Discipulado Radical (Palestra 1/3) Jonas Madureira.
09/02/2026
Discipulado Radical (Palestra 1/3) Jonas Madureira.
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Fonte: Escola Charles Spurgeon
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uma alegria enorme de estar aqui agora conhecendo o seminário Charles Spurion e nesse novo lugar, né? agradecer a oportunidade de poder eh refletir sobre um tema que me é caro. Quando me foi passado a passada a proposta ah de falar sobre discipulado radical, eu comecei a pensar em algumas possibilidades de como a gente poderia trabalhar esse tema. Então eu cheguei à seguinte estratégia. Vamos trabalhar três blocos, né, três reflexões, três palestras. E as duas primeiras palestras, elas são bem, eh, eu diria assim esclarecedoras, de esclarecimento, esclarecer o significado, não é? A Aristóteles, eh, dizia a que todas as vezes que você quer se tornar claro, a primeira o primeiro passo paraa clareza é determinar o significado dos termos. Se a gente não entende os termos, a gente vai bater cabeça nos termos. Um vai entender uma coisa, outro vai entender outra. E a gente não tem clareza nenhuma. Então, para ter clareza, primeiro definir os termos da proposição, os termos a serem tratados. Então, as duas primeiras palestras vão ter esse teor, essa finalidade de esclarecer os termos, não é? Então, o primeiro esclarecimento é o sentido de radical. Então, hoje a gente vai gastar tempo para refletir sobre o significado ah de radical, óbvio, tendo em vista a aplicação ao conceito de discipulado, que é o tema de amanhã. Então, primeiro, vamos esclarecer o que entendemos por radical, segundo, o que entendemos por discipulado. O desfecho da nossa reflexão se dará na terceira palestra, quando falaremos diretamente dos desafios, das implicações desse discipulado qualificado como radical. Então, primeiro radical, segundo discipulado, terceiro discipulado radical. Para entender o que é o discipulado radical, a gente precisa primeiro compreender o radical e o discipulado, esses dois termos, tá certo? Então, esse é o nosso plano. Primeiro plano, portanto, é tratar do sentido de radical. Quando você ouve essa palavra radical que vem na sua mente, muitas coisas, uma pessoa intransigente, ausência de paciência, uma pessoa perigosa, fundamentalista, aquele olhar ortodoxo andou fora da linha. Cabeças vão rolar. Então, pessoa radical, você tem medo de chegar perto, tomar um safanão. É um sentido de radical. Segundo sentido de radical, algo incrível, extraordinário. Usamos radical para dizer esta manobra que o sujeito fez lá no skate é uma manobra radical. E aí radical não tem tanto aquele sentido primeiro negativo, mas tem o sentido de algo extraordinário, algo incrível. O cara fez algo impressionante, n? Em geral, esse sentido mais positivo de radical vem acompanhado também de ações radicais, não no sentido primeiro, que é o sentido negativo, não é, mas no sentido de algo realmente impressionante. Daí a ideia, por exemplo, de ser um crente radical que fez Michael Horton, por exemplo, escrever o livro simplesmente crente, não é? Vocês leram esse livro já? Quem já leu esse livro? É, tem umas pessoas crentes aqui nesse ambiente. [risadas] Brincadeiras à parte, mas o livro é muito interessante. A proposta do Michael Horton é descrever contra todas aquelas propostas de um cristianismo radical. Sabe o que seria o cristianismo radical? Abandona tudo, abandona até o seu cérebro, mas faça alguma coisa. Ele diz: "Calma, talvez a gente precise de um uma vida cristã comum encontrar-te ao radical, ou seja, entender que talvez a nossa caminhada cristã mais desafiadora não seja ser um cristão radical, extraordinário, incrível, não é? com uma disposição impressionante, mas a a o desafio de ser um crente comum, que vai viver uma vida cristã comum, ordinária, no dia a dia, fiel ao Senhor, de uma maneira comum, sem ter de realizar algo extraordinário para que as pessoas possam olhar e dizer: "Uau, fulano é crente". Eu não sei vocês, mas às vezes tem pessoas que a gente fica, se sente até pequeno. Quando você fala da pessoa, você fala assim: "Rapaz, nem falo o nome de fulano que eu já me sinto, não é um tranca-rua, eu já me sinto mal, eu me sinto, sei lá, diferente. Eu me sinto, sei lá, uma pessoa complicada, complexa. Porque talvez a gente gere expectativas de que o o crente radical seja um crente melhor, né? que crentes ordinários, fiéis, que não fazem coisas extraordinárias, que não são eh midiáticos, não é? Eles eh portanto são crentes menores. Então, daí a palavra radical ganha também um aspecto negativo. Nenhum desses dois sentidos de radical nos interessa, certo? Não vamos falar de radical no sentido de intransigente, nem radical no sentido de algo extraordinário. A palavra que nos chama atenção para radical, melhor dizendo, o sentido que nos chama atenção para radical é aquele que vem do latim, radix, que significa raiz. Raiz. E se você puder a partir de agora acompanhar o handout que a gente eh ofereceu paraa nossa palestra de hoje, você vai ver que a base da nossa reflexão sobre o conceito de radical como algo relacionado à raiz vem de um filósofo holandês chamado Herman. Ele escreveu um livro muito interessante chamado No Crepúsculo do Pensamento Ocidental. Eu reputo como dos textos mais claros do Divid que para alguns aqui que já leram já falam: "Mas se esse é o mais claro, eu não quero ver o mais difícil". Mas talvez você tenha começado o livro da maneira que eu acho a mais errada possível para ler esse livro, que é uma coletânia de eh ensaios do Div. Em geral, eu sempre tento encorajar as pessoas que vão ler Divas comecem pelo capítulo oito, ou seja, do último capítulo para trás. Esse último capítulo, que é o capítulo que será a fonte bibliográfica com a qual eu quero dialogar com vocês sobre o conceito de Radix, é uma um um um uma abordagem muito interessante daquilo que a gente chama de antropologia bíblica ou teológica ou mesmo filosófica, dependendo da chave que o Divard vai considerar. Ele sempre está trabalhando com categorias bíblicas, sempre trabalhando com categorias teológicas, sempre com categorias filosóficas. E não é diferente nesse capítulo oito do Crepúsculo do Pensamento. Nesse capítulo, Div, ele quer responder a pergunta mais importante, que é a pergunta: Quem sou eu? Quem é o homem? Pra proposta que nós vamos na terceira palestra sobre o que é o discipulado, a primeira nuance que o conceito de radical vai trazer pra gente enquanto desafio pro discipulado é justamente a quebra da perspectiva de um discipulado como um programa de conhecimentos. Sabe aquele programa que você tem determinadas aulas a fim de cumprir a, sei lá, alguns itens do currículo que você precisa saber para você se tornar um cristão? Sete passos do discipulado cristão, nove passos para se tornar um discípulo de Cristo. Então, para que a gente não entenda o discipulado como um conjunto de saberes a serem compreendidos, assimilados, mas entender o discipulado como algo pelo qual o próprio Cristo estabeleceu aos seus discípulos como via para autoconhecimento. Talvez a maior dificuldade não só do homem moderno, mas do homem de todas as eras seja a resposta que ele dá a pergunta: "Quem eu sou?" Se eu te pergunto quem você é, você me diz, "João, ué, mas tem tanto João nessa vida?" Ah, mas então quer dizer que você dizer o seu nome não é dizer quem você é? Claro que não. O seu nome não diz quem você é, nem a cidade de onde você tá falando, nem o emprego que você tem. Ah, sou Jonas, moro em São Paulo, sou professor. Ué, quantos Jonas moram em São Paulo e podem ser também professores em números? Isso não caracteriza quem Jonas é. Se eu te pergunto quem você é e você me diz apenas o que você faz, o seu nome e o lugar onde você mora, você não me diz nada sobre quem de fato você é. Por isso eu sigo perguntando para você quem você é. Se eu te pergunto quem você é e você me diz seu nome, o lugar de onde você tá falando e a sua profissão, você ainda não me disse quem você é. Então, quando é que uma pessoa diz de fato quem ela é? Somente aqueles que conhecem sua história, não é? Já dizia Orteg GC que nós somos nós mesmos e nossas histórias. Se nós não sabemos nossas histórias, nós não sabemos quem nós somos. É preciso encontrar o sentido do que nos rodeia. Portanto, se você me diz sua história, aí sim você me diz muito sobre quem você é. Porque quando você me diz a sua história, você me diz a única coisa que te torna você quem você é. E aqui começam todos os nossos problemas, porque nós achamos que as nossas histórias acontecem quando a gente nasce. A vida é um bonde andando. Já ouviram falar nisso? >> Alguns aqui já se pegaram a referência. Quem não pegou a referência vai assistir as aulas, não é? do seminário Charles Spurion sobre um curso chamado Inteligência Humilhada. A vida é um bonde andando. E as pessoas acham que quando elas nascem, elas estreiam no mundo que começa com elas. O mundo nasce comigo. Não, o mundo não nasce com você não, filho. Você, você quando nasce, o mundo já tava andando. Você tá lá no meio dele. É você que tem que saber. conectar a sua história nas grandes histórias que existem por aí. Você já parou para imaginar se nós somos nossas histórias? Quantas histórias estão aqui e como todas essas histórias estão atreladas à história de hoje, estarmos todos aqui? E como essas histórias todas estão relacionadas à história do nosso contexto brasileiro hoje, do nosso contexto mundial hoje, dentro de toda uma história que, como você é crente, você sabe muito bem, começa desde o Éden. Se você não consegue contar sua história a partir da grande história, você não consegue nem dizer a sua própria história. Por isso, responder a pergunta: "Quem eu sou?" Não é só saber seu nome, o lugar de onde você é, sua profissão, é você contar sua história. Mas quando você me conta a sua história, você não me diz só quem você é, você também me diz em quem você acredita. Você me diz sobre seus princípios, sobre seus valores, o que é importante, o que é menos importante. Por isso que é tão difícil a gente ouvir as pessoas, porque a gente prefere ignorá-las. Ouvir as histórias dos outros é uma das coisas mais chatas desse mundo, a não ser quando você descobre que existe algo mais interessante do que sua própria história. Quando você descobre que o conhecimento de si, ele não está ligado só a você e você mesmo, mas a você e o outro, a você e aquele que está ao seu lado. Nossas histórias estão tão ligadas, tão ligadas, que ninguém chega no céu solitariamente. A gente chega aos bandos. E assim que a gente vai pro céu, a gente chega como povo. A gente está ligado a um povo. Minha história, sua história está ligada a um povo e não é o povo brasileiro. Como você vai me contar a sua história? Você vai me dizer não não somente sobre sua nacionalidade, sobre o lugar onde você vive. Você vai me dizer sobre quem você é. Faz sentido? Posso operar mais um pouquinho? Vamos mais fundo um pouquinho nessa história. Vamos na raiz. O que que é radical? É penetrar até a raiz. Esse é o sentido que Doivard vai usar na maior parte das vezes quando ele usar o termo radic. E é muito interessante como a gente gosta das superfícies. A gente gosta da árvore frondosa, a gente gosta dos frutos. E a sua história é muito bonita quando você conta a partir da sua genealogia, quando você conta a história do seu pai, do seu avô. Mas isso quando você conhece a sua história, aliás, você sabe sobre seu nascimento, você acreditou naquela história que papai e mamãe contou para você? Sério? Você nunca foi questioná-los, nunca foi dizer assim: "Será que a minha história é exatamente essa que papai e mamãe me contou?" Bom, criticar a Bíblia, você sabe, né? Questionar a história das Escrituras, você sabe. E a sua história que você aceitou até hoje passivamente? Tem gente assim: "Jonas, não mexe nisso não, porque agora vou ter que mexer nisso aí". É verdade. Você vai ter que mexer se você quer saber quem você é. Sério que você nunca se perguntou o que aconteceu com você quando você nasceu e se aquilo que te contaram é realmente o que aconteceu? Sério que desde então você acreditou naquela historinha até agora e ninguém te fez duvidar nem questionar daquela história? Plantando um pouquinho de ceticismo não faz mal a ninguém. Ele faz a gente descobrir que às vezes a gente acha que é difícil questionar a existência de Deus e sua história. Não, não, não, não, não, não. As pessoas acham ser difícil questionar a história da Bíblia, questionar Deus. A coisa mais difícil, seu desafio maior será questionar você mesmo, sua própria história, sua própria existência. Esse é o maior desafio. Essa é a maior dúvida, esse é o maior ceticismo. Aquele não coloca Deus em cheque, mas aquele coloca em cheque sua história. Eu quero saber minha história. Porque até hoje você pode achar que a sua história com Deus tá rolando só depois da sua conversão. E aí, de repente você descobre uma coisa chamada providência. E aí a providência faz você perceber que muito antes da sua conversão, Deus já estava ali, já estava trabalhando. A sua história com ele já estava rolando. Sério que você acreditou até hoje nessa história que você contou sobre você mesmo? Sério que você acredita nessa historinha que você conta sobre você mesmo? Você acredita mesmo nessa história? Quando as pessoas perguntam: "Quem você é?" Você vai contar a sua história de vida. Você acredita nisso aí que você tá contando? Você nunca inventou nada, nem aumentou um pouquinho, um pou nem flor, nem floreou um pouquinho assim, deu um pouquinho mais de emoção para aquela história ficar um pouco mais, né, empolgante. Afinal de contas, a sua história não pode ser uma história sem uma jornada do herói, sem os seus antiheróis, sem o clímax, sem aquela grande reviravolta no final. Se tiver mais plot is melhor ainda. Temos que ir à raiz. E a raiz não aparece. A raiz ela se esconde lá a fundo. Lá fundo. É preciso ir até a raiz da pergunta: Quem eu sou? Veja o que Doivard diz. Na verdade, não é Doverd, não. Isso aqui quem diz é Albert Walters. Ele é um estudioso do pensamento do Dor e ele escreveu um vocabulário do pensamento do Dorvard. Então, na palavra radical ele traz a definição aqui, ou pelo menos uma explicação do que Drid entende por radical. Veja o que ele diz. Dovid frequentemente usa esse termo com referência implícita ao sentido latim de radix, raiz. Este uso não deve ser confundido com conotação política do termo radical nas línguas inglesa e portuguesa. Em outras obras, Doiv às vezes parafraseia o seu uso do termo radical com a frase penetrando até a raiz da realidade criada. E que raiz é essa? Como a gente pode tocar essa raiz, ir além do que nós estamos vendo a partir da questão quem é o homem. Esta questão, segundo Divd, contém um mistério que não pode ser explicado pelo próprio homem. Percebeu o que ele tá dizendo? Então, estamos diante de uma pergunta misteriosa. Qual é a pergunta? Quem? Eu? sou. E logo de cara ele apresenta o seu pressuposto. Qual é o seu pressuposto? Esta pergunta não pode ser explicada pelo próprio homem. Ou seja, o homem não consegue responder essa pergunta de forma satisfatória. Se eu te pergunto quem você é e você me conta a sua história, ainda assim a sua história não será satisfatória. Ela não nos dirá com a profundidade que se espera as coisas que são verdadeiras, quem você de fato é? Observe o que ele diz. E agora é o Dovred mesmo. O ego humano não é um objeto dado. Que que é um objeto dado? Por exemplo, isto aqui é uma pasta, é um objeto dado, certo? Por que que é um objeto dado? Porque podemos constatar. Eu posso ver, posso mensurar, posso estudar. Tudo que é da ordem do dado pode ser conhecido, pode ser observado, pode ser compreendido. Todas as coisas dadas são fenômenos que nós podemos conhecer. A ciência vai se fundamentar nos dados. É com os dados que o cientista constrói seus post seus postulados. Então tudo que é da ordem, não é da dação, tudo aquilo que é um objeto dado, é passível de ser conhecido. E eu lhes pergunto, o eu é dado? Alguém aqui já pesou o eu? Que cheiro tem o eu? Que cor tem o eu? Quanto pesa o eu? Que tamanho tem o eu? Ah, Jonas, tem uns aqui, ó. >> [risadas] >> Se abrirem o sujeito da cabeça, planta dos pés, onde eles vão encontrar essa coisa chamada self? Cadê o self? Onde ele tá? Era uma coisa dada? Não, não é dado. É isso que o D tá dizendo. O ego não é dado. As pessoas não pegam o ego. As pessoas não medem o ego. As pessoas não sozesam o ego. Não dá para comparar um ego com o outro. Não dá para observar um ego em contraste com outro, com um microscópio. Não temos uma ferramenta simplesmente porque uma ferramenta não seria necessário, porque os egos não são dados, não são objetos dados. E aí vem a pergunta: será verdade que podemos chegar a um real autoconhecimento por esse caminho? Como eu poderia saber o que é o meu eu se eu não posso observá-lo? Se eu não tenho do meu eu uma observação empírica que seja capaz de eu construir pela minha observação vários aspectos que me permitam classificar o ego em determinadas ah classes de conhecimento. É possível penetrar no centro real e na raiz de nossa existência? É possível alguém penetrar no âmago de quem nós somos e descortinar quem nós somos de uma maneira absoluta? Alguém diria: "Eu eu quem quem é esse eu que disse eu?" Ele vai dizer: "Eu sou da opinião de que é uma vã ilusão pensar dessa forma. Este eu central que ultrapassa a ordem temporal permanece um verdadeiro mistério. Eu queria chamar a sua atenção para a expressão eu central. Até agora nós estamos pensando a raiz como este lugar que é o centro. E não é não é de todo errado pensar assim. A gente vive dizendo isso, né? que o nosso ego é o centro das nossas atenções, centro das nossas, porque de fato parece que existe uma coisa que é central em nós. Só que DVD conduz essa essa esse termo central. Ele não está querendo dizer que necessariamente o nosso ego é o centro. Muito embora sejamos muito propensos a fazer do nosso eu um centro. Vai dizer que você não gosta de ser o centro das atenções. Vai dizer que você não gosta que o mundo todo fique rodeando ao seu redor. Imagina, Jonas, eu sou crente. Crente não faz essas coisas. Crente não se preocupa com essas coisas. Então, a gente facilmente percebe a cilada que é o nosso eu para nós mesmos. Parece que todas as nossas ações fazem a gente pensar que o nosso eu é o centro, porque parece que temos em nós um tropismo a fazer todas as coisas rodearem ao nosso centro. Por isso a gente vai forçar o papai, a mamãe, o filho, a filha, o avô, papagaio, cachorrinho, uma igreja, uma instituição, um povo, uma denominação, a rodear o meu pobre umbigo. A gente vai ser capaz de estrangular coisas que não podem e jamais girariam ao nosso redor, a girarem ao nosso redor. Com isso a gente quebra a natureza das coisas. Falar sobre o centro não é algo tão simples assim. Sobretudo quando a gente tem a clara consciência de que se existe um centro e nós acreditamos que ele existe, esse centro só pode ser Tem crente aí? Deus, só ele pode ter a centralidade de todas as coisas de uma tal forma que não há nada neste mundo, em qualquer posição que esteja, que não tenha ele como centro. Então, todas as coisas estão orbitando ao redor dele. Mas quando eu pego algo que orbita ao redor dele e forço a orbitar ao meu redor, eu estou não somente manifestando o meu egocentrismo, mas estou forçando coisas que não foram feitas para se girarem ao redor de mim, a girarem ao redor de mim. Este eu, portanto, ele é central por uma razão, porque todos os eus eles são centrais porque eles representam a inclinação máxima de todo ser que possui eu em direção ao centro, que é Deus. Por isso que ele chama de eu central, porque todo eu está se dirigindo ao Senhor. Todos os eus estão se dirigindo a Deus. Não fomos feitos e criados para ter egos que não giram ao redor de Deus. Por isso, quando nós tentamos ocupar a centralidade que pertence a Deus, nós não fazemos com que isto aconteça, porque isso é uma ilusão. Por isso que ele tá dizendo, isso é uma ilusão. Achamos que estamos forçando todas as coisas a girarem ao nosso redor, quando na verdade elas continuam girando ao redor de Deus. E a nossa insatisfação é porque estas coisas não conseguem girar ao nosso redor. Uma pessoa egocêntrica, uma pessoa narcisista, é uma pessoa infeliz. infeliz não consegue encontrar a plenitude do seu eu, porque o seu eu entende que a plenitude está em ser o centro de todas as atenções e, portanto, da plenitude. Dverd vai dizer: "Então, logo tentamos capturá-lo em um conceito, ou seja, o conceito de eu definição, e ele se torna um fantasma, se torna um nada, como a gente acabou de fazer. Se eu pergunto para você, cadê o seu eu? Cadê o seu eu? Vai virar uma pergunta filosófica que você vai ficar num looping assim: "Meu Deus, o que sou eu? Quem sou eu?" Vai sair daqui dizendo: "Meu Deus, era para falar sobre discipulado e agora eu tô, eu nem sei mais quem eu sou. Alguém acha o meu eu? Todas as vezes que você se debruçar sobre o eu, você vai descobrir o fantasma que ele é. Escorrega, escapa das suas mãos, porque ele não pode ser visto como um algo dado. Ele está sempre em algo dado. Seu corpo, quem você é, o mundo que você tá vivendo, seu eu não aparece sem nenhuma dessas desses aspectos da existência humana. Você nunca vai encontrar o seu eu passeando por aí, dizendo: "Hum, ah, você está aí, eu já estava sem saber quem você era". Não, veja o que ele diz. Então, logo tentão, seria ele realmente um nada? Como alguns filósofos afirmaram, o mistério do eu humano é que ele é de fato nada em si mesmo. Quer dizer, ele é nada enquanto tentamos concebê-lo a parte das três relações centrais que sozinhas lhe dão sentido. Ou seja, todas as vezes que eu tento refletir sobre o eu sem a sua história, o eu sem as pessoas, o eu sem Deus, eu entro numa crise, eu não consigo decifrar o que é o eu. Ele vai permanecer sempre escorregadio, sempre uma pergunta sem resposta, sempre uma pergunta desesperadora. Quem sou eu? Este ou aquele? Essa é a pergunta que você vai fazer, porque você já não sabe mais quem você é, enquanto o eu for apenas uma abstração. Mas todas as vezes que você disser quem você é ao lado de sua história, o seu eu ganha. Quando você coloca o seu eu junto com o povo que você anda, as pessoas com quem você vive, o seu eu ganha, ganha reflexo, ganha revelação. Veja como ele vai colocar essas três relações, mundo, os outros e Deus. o mundo, nosso ego humano relaciona-se com toda a nossa existência temporal e com a nossa experiência integral do mundo temporal como o ponto de referência central deste último. Ou seja, você nunca vai encontrar o seu eu sem o seu corpo. Amém? Seria assustador se você encontrasse o seu ir em qualquer outro lugar que não fosse com você mesmo. Imagina você: "Ah, tô com raiva de mim mesmo. Vou ficar, vou ficar de mal. Não quero falar com meu eu durante uma semana. O que é isso que está ficando de mal? Seu eu, seu eu é a coisa mais doida deste mundo, porque o seu eu não consegue suportar a solidão sem ele criar um duplo de você mesmo. Você nunca falou sozinho. >> No extinorcut, na época da pedra, tinha um grupo chamado Eu falo sozinho. Era um grupo bastante, né? Eu diria assim empolgante. Quando você se vê falando sozinho, você nunca viu. Quando você tem raiva, você nunca viu. Todas vezes que você tem raiva, você encarna o espírito de Dostoyevski. Todas vezes que você lê Dostoev, você vai descobrir isso, o sujeito falando: "Como? Ele por ter falado assim comigo, ele não tá fazendo nada. Ah, mas eu vou encontrar ele e quando eu encontrar eu vou atropelar aquele desgraçado. Ah, ele está vindo de hoje não passa. Eu vou atravessá-lo, vou me impor sobre ele quando ele se encontra diante do Pois não, Senhor. O que o Senhor deseja? A realidade se impõe e o eu que tava ali numa discussão tremenda se silencia. Você não consegue pensar sem você estabelecer um outro para você mesmo pensar. Você já parou pensar? Eu tô só colocando questões, tá? Para você pensar. Quando você sonha, quem que sonha? Nunca pensou nisso? Quando você sonha, quem que tá sonhando? Quem é esse ser que sonha? Quem é esse ser que pensa? Quem é esse ser que na hora que tá lendo a Bíblia tá pensando em outras coisas e ao mesmo tempo tá lendo? Aí você fala: "Gente, como é que eu consegui fazer isso? Eu tô lendo e pensei em um monte de coisa agora. Esse ser é um ser que nunca se dá pura e simplesmente. Ele está dado sempre no mundo, no mundo da existência, com as vicissitudes da vida. Você nunca vai encontrar a voz do seu eu. Já parou pensar se as pessoas conseguissem ouvir o que você pensa? Deus é sábio, meus irmãos. Deus é sábio. Seriam o que procoda aqueles. Mas você já parou para imaginar? Por isso que Agostinho vai lá nas confissões dizer que Deus escuta até o estrépito das nossas orações quando elas são feitas no gemido da alma, sem barulho nenhum, sem som nenhum, sem som. Mas você entende? Você consegue no seu eu imaginar uma música. Quem é que é músico? Você já parou para imaginar que coisa extraordinária? Você pensa, a nota, a nota vem na sua cabeça, a harmonia vem na sua cabeça. Você consegue visualizar, visualizar no seu eu a melodia sem precisar assviar. No entanto, este eu não está solto, perambulando no mundo etéreo por aí. Ele está onde seu corpo está. Segundo, ele se encontra também na relação comunal essencial com o ego de seus semelhantes. E aqui a coisa ainda fica mais extraordinária, porque todas as vezes que você se embate com uma pessoa, o que mais você quer? Conhecê-la. E como conhecer o outro é complicado. Já parou para imaginar como é complicado conhecer uma pessoa? Porque significa conhecer o ego de outra pessoa? Porque se não for conhecer o ego de outra pessoa, se for conhecer as aparências, a gente tá lascado. Imagina se eu tenho a cara do professor de matemática que você odiou a vida inteira, entende? Não tem como você me dar nenhuma chance. você já colocou rejeitado. Então, a gente é capaz de pelas aparências aparências julgar uma pessoa. Mas dali a pouco a gente começa a conversar com uma pessoa e a gente começa a conhecer só o seu corpo, a gente conhece o seu eu, não tão plenamente como a gente gostaria. Os casados aqui, não é? Sabe muito bem como a gente gostaria de saber o que se passa na cabeça do cônjuge. Nos momentos mais incríveis dessa vida, a gente seria capaz de dar um dedo só para saber o que se passa na cabeça de alguém. Mas ao mesmo tempo, enquanto uma pessoa não se comunica, enquanto uma pessoa não fala, enquanto ela não se expressa, nós não temos nada do que ela é. Mas às vezes quando a pessoa fala, revela até o que nós não gostaríamos de conhecer. Portanto, no embate com os outros egos, a gente sabe que não temos só um ego, tem o outro ego, o ego do outro, do que ele é feito, quem ele é. Terceiro, o drama do eu está no fato de que ele aponta também para além de si mesmo. Ele tem um aspecto de transcendência. Quando o não é visto dessa maneira, ele é narcisista. E o narcisismo, a caracterização do narcisismo é impossibilidade de transparência. Todo narcisista não consegue driblar o estanho que fica por detrás do espelho. Então, o que que o espelho devolve pro narcisista? A única coisa que interessa para ele, ele mesmo, ele não consegue ver através do espelho porque tem um estanho que impede a transcendência, impede ele ver algo além dele, algo que está para fora dele. Então, quando esse estanho é removido, o sujeito vai ver algo que não é o seu próprio rosto. Então, a grande sacada do Dóver aqui é mostrar que nesta terceira e última relação do eu está a verdadeira libertação do eu. É o único momento em que o eu de fato pode realizar-se na medida em que não vê a si mesmo, mas conseguiu enxergar algo maior do que todas estas coisas que estão à sua frente, maior do que ele mesmo. É nesse momento, em direção à relação central com a sua origem divina, que ele se descobre como imagem, como ser criado, como imagem de Deus. Observe o que diz o Wend, né? Mais uma vez o trecho do Divard, lembrando agora Calvino, nenhuma reflexão filosófica pode levar-nos a um autoconhecimento real de uma forma puramente filosófica. Então, preste atenção nesse ponto. Não são os teólogos apenas que se preocupam com a pergunta: "Quem sou eu?" Os filósofos também. O maior de todos eles do contexto grego é Sócrates, sem sombra de dúvida. Sócrates passou a vida dizendo, "A pergunta mais importante é: quem eu sou? Conhece-te a ti mesmo. Esse é o imperativo do filósofo. Busque o autoconhecimento. E a fé deste filósofo é esta: Se eu conseguir mergulhar profundamente nos meus próprios pensamentos, em mim mesmo, eu saberei quem eu sou. No entanto, que D está dizendo que esta é uma faça, os filósofos não tem razão. Não é possível o autoconhecimento. Você não pode conhecer-se a si mesmo observando uma coisa chamada eu, porque o eu não é dado. Você mesmo não consegue enxergar o seu próprio eu. Você mesmo não vê o seu próprio eu. Você mesmo não percebe o seu próprio eu. Você não pode dizer: "Hoje o meu eu tá quente, hoje o meu eu tá frio". Você não consegue observar o seu próprio eu. O seu eu está num ponto cego das suas vistas e não pode ser contemplado, não pode ser visto, não pode ser considerado por você. As palavras com as quais Calvino inicia o primeiro capítulo das das institutas são é muito significativo, né? As palavras são muito significativas. O verdadeiro conhecimento de nós mesmos é dependente do verdadeiro conhecimento de Deus. Tá lá nas institutas. Ele abre dizendo da relação entre o conhecimento que temos de nós mesmos e o conhecimento que Deus tem de nós mesmos, ao ponto de não ser possível termos o conhecimento de Deus e ignorarmos o nosso a nós mesmos. Se conhecemos a nós mesmos, conhecemos a Deus. Se conhecemos a Deus, conhecemos a nós mesmos. Ponto. Ninguém discute isso. O que a gente discute, Galvino vai dizer a ordem. Qual conhecimento vem primeiro? Que eu posso ter um conhecimento de mim mesmo? Não há dúvida. Se e somente se eu tenho um conhecimento de Deus. Se eu tenho o conhecimento de Deus, necessariamente eu tenho o conhecimento verdadeiro de quem eu sou. Não há dúvida disso. A pergunta certa e mais importante é: qual conhecimento vem primeiro? Em qual conhecimento eu me aplico em primeiro lugar? O que eu conheço primeiramente? A mim mesmo? O filósofo vai dizer: "Sim, faça isso, conheça-te a ti mesmo." Entre, entretanto, como Calvino lembra, a ordem que as escrituras nos oferecem é justamente contrária. O nosso autoconhecimento não começa com mergulho em nós mesmos, mas o mergulho no próprio Deus. Por isso que o narcisismo é o primeiro obstáculo. Enquanto o espelho não for removido do seu estanho e se tornar uma janela, eu não verei algo maior do que eu mesmo. Eu preciso trocar um espelho por uma janela. Eu preciso ver através de uma janela algo que é maior do que eu mesmo. Só assim eu posso saber quem eu sou. Assim dizem os teólogos. Entretanto, há um problema no contexto da teologia quando se trata do autoconhecimento. Veja o que ele diz. São de fato essas palavras de Calvino a chave para responder à questão quem é o homem. Mas se assim é, parece que deveríamos dedicar-nos à teologia. Então, alguém agora poderia ouvir tudo isso e dizer assim: "Tô no curso certo". Resposta errada. Você pode achar que o autoconhecimento é resultado de um profundo conhecimento teológico. E aqui está o autoengano. Observe. Parece que deveria nos dedicar-nos à teologia para alcançar um autoconhecimento real, visto que a teologia parece estar especialmente interessada no conhecimento de Deus. Entretanto, isso também se constituiria um autoengano, pois como ciência dogmática dos artigos da fé cristã, a teologia não é capaz de nos conduzirnos ao conhecimento real de nós mesmos e de Deus, mais do que a filosofia e outras ciências. Porque todo o estudo que fazemos da teologia é sempre o estudo sobre o que alguém pensa sobre Deus. Tem um livro muito interessante chamado Inteligência Humilhada. E a tese principal desse livro é essa. Há uma diferença enorme entre conhecer Deus e conhecer teologia. Você pode saber muito sobre o que Calvino pensa sobre Deus, o que Agostinho pensa sobre Deus, o que Calbart pensa sobre Deus. E ainda assim ser um profundo ignorante sobre Deus. Uma coisa é você ter ciência, conhecimento, informações. Você fez o curso para se tornar conhecedor de Deus, os sete passos para ser um conhecedor de Deus, os nove passos para ser o conhecedor de Deus, você fez todos os passos adquiri conhecimento e você acha que você conheceu a Deus. Portanto, o que DVD está dizendo é algo da imensa de imensa importância. Por quê? Porque podemos confundir o conhecimento de Deus com os nossos estudos sobre Deus. É como se você quisesse conhecer a sua esposa fazendo aulas de anatomia e depois medindo ela segundo os critérios da anatomia. Descrever o que uma pessoa é a partir dos seus dados não é a mesma coisa que conhecer. Quem foi que disse que só é possível conhecimentos a partir de coisas dadas? Se não é possível o conhecimento de Deus, tampouco é possível o conhecimento de nós mesmos. E é tão interessante quando a gente chega a essa conclusão, porque a primeira dúvida que a gente que para sobre nossa cabeça é a seguinte: então, se a teologia não pode me salvar, se a filosofia não pode me salvar, quem pode me salvar? Meu senhor. Valdemar, vamos pregar o evangelho aqui. Se a filosofia não pode te salvar, se a teologia não pode te salvar, quem pode te salvar? Deus. >> Ufa! Se você me dissesse que era o Chapolim Colorado, [risadas] nem filosofia, nem teologia, elas têm as os seus aspectos de contribuição para o amadurecimento espiritual, mental, cognitivo de uma pessoa innegável. Mas não estamos falando de informações, de conhecimentos informativos. Estamos falando de uma vivência. E aqui que a gente descobre que este conhecimento central só pode ser resultado da palavra revelação de Deus operando no coração, o centro religioso de nossa existência pelo poder do Espírito Santo. Ou seja, é pela palavra e o testemunho interno do Espírito Santo que alguém pode chegar ao conhecimento de Deus. Não se conhece Deus observando Deus como a gente observa um ratinho no laboratório. Assim também é o seu eu. Você não pode transformar o seu eu num ratinho de laboratório, porque o seu eu não é como um ratinho de laboratório, uma coisa dada. As coisas não dadas, elas são sempre reveladas. Você já teve a revelação de Deus? Talvez o que você precise, aquilo que acompanha a revelação de Deus, é a revelação do teu verdadeiro eu. Não é só Deus que precisa ser revelado a você, ignorante de Deus. O seu verdadeiro eu também é fruto de revelação. Só podemos saber quem Deus é por meio da revelação. Só sabemos quem nós somos por meio da revelação. E por detrás da revelação, todas as ações são ações do espírito. o testemunho, aquele que está para fazer toda a prova daquele que é o nosso mestre interior, como dizia Agostinho, Jesus, o Cristo. Agora observe, caminhando pra conclusão, o homem foi criado à imagem de Deus. Então, quando a gente faz a pergunta: "Quem eu sou?" estuda um pouquinho de teologia, a gente diz: "Eu sou a imagem de Deus". O que é a imagem de Deus? Assim como Deus é a origem absoluta de tudo, tudo que existe fora dele mesmo, ele criou o homem como um ser em quem toda a diversidade de aspectos e faculdades do mundo temporal está concentrada dentro do centro religioso de sua existência, seu coração, ao qual denominamos nosso eu, e que as escrituras sagradas chamam de coração. Na antropologia bíblica, coração é o centro, porque nele está toda a deliberação do homem. É no eu, na consciência que o sujeito toma as decisões mais importantes de sua vida. Mas é neste eu que ele reconhece a origem absoluta, a origem que não pode sofrer nenhuma alteração diante da sua existência relativa, completamente marcada pela contingência, pela mudança. Você já imaginou quantos eus você já foi desde que dia que você nasceu? Não, você nunca pensou nisso. Vou te dar mais um problema para você ficar com crise existencial. Por exemplo, todas as vezes que eu vejo uma foto minha bebê, eu não acredito que sou eu. E eu sempre pergunto: "Onde tá esse bebê?" Eu digo: "Aqui ninguém acredita. Ninguém consegue acreditar, porque daquele ser até hoje, muitas mudanças ocorreram. Ele não é um ser que permanece imutável, não muda absoluto. Ele é relativo. Conforme o tempo, ele vai mudando. Conforme o tempo ele fica mais sábio ou mais chato. Ele fica ranzinza, ele fica manso. Esse ser que é a imagem de Deus relaciona-se com a raiz, o radix, ou seja, o centro religioso e a raiz de toda a nossa existência temporal. A queda pode ser resumida como uma ilusão surgida no coração humano, segundo o qual o eu tem a mesma existência absoluta que o próprio Deus. Aqui está o grande problema da nossa reflexão sobre quem nós somos. E é com essa última, esse último pressuposto que eu queria encerrar a nossa reflexão de hoje, ainda dialogando com Divd, porque o nosso eu não é uma coisa dada e muitos de nós somos propensos a espiritualizá-lo. Muitos de nós acabam perdendo de vista que este eu não é absoluto, de que a condição dele é uma condição de dependência. E aqui que a teologia ajuda bastante, bastante, porque ela nos ensina que só existem dois tipos de seres, o absoluto e todos os relativos. Aquele que existe por si e não existe por um outro. Aquele que nunca precisou de uma causa, nunca precisou de uma potência criativa, sempre é sempre a causa de todas as coisas, subsistindo como Deus por toda a eternidade. Portanto, existe o ser absoluto que existe por ser e por nenhum outro e o resto. O que é o resto? Todos os seres que não existem por si e que só existem por um outro, que é Deus. Observe o mundo ao seu redor, o mundo das coisas dadas. E eu lhe faço uma pergunta. Qual destas coisas que você vê existiu por si e dependeu apenas de si mesmo para existir? Nenhuma delas. Só Deus existe por si. Todos os demais dependem de Deus para existir. Não seria assim também o nosso eu? Dependente de Deus para existir, dependente de Deus para ser, dependente de Deus para conhecer, dependente de Deus para viver. Parece que o que a gente tá falando não tem nada a ver com a nossa realidade hoje. Mas se eu dissesse para você que toda história do ocidente se reduz a uma discussão sobre o eu, ninguém se preocupava tanto assim com o eu. As pessoas sempre tiveram preocupadas com o mundo. Os primeiros filósofos estão olhando pras estrelas, estão olhando pros astros, estão olhando pros fenômenos, água, terra, fogo. Eles estão olhando para estas coisas todas. Eles estão olhando pro mundo, pros fenômenos, pras coisas dadas. Estão tentando entender o que é o mundo. É só no século X7 que a gente descobriu essa coisa chamada eu. Cógeto ergos. Penso logo existo, porque o sujeito resolveu ter uma dúvida radical. E que dúvida radical é essa? Vou duvidar de todas as coisas. Vou duvidar da existência de tudo à minha volta e vou resistir apenas a única coisa que não vou poder duvidar. Posso duvidar de vocês aqui presentes e posso simplesmente dizer: "Vocês não passam de uma ilusão de ótica". Posso olhar para o meu corpo, e hoje tá muito mais comum do que você possa imaginar e dizer: "Este corpo não é meu. Este corpo não me pertence. Este corpo não corresponde com a realidade. Você pode suspender o seu juízo sobre o mundo. Você pode suspender o seu juízo sobre as pessoas. Você pode suspender o seu juízo sobre o seu corpo. E aí você vai olhar e vai dizer assim: "Duvido de todas as coisas". Vai olhar no espelho e vai dizer assim: "Eu duvido que eu duvido". Ah, posso duvidar de tudo, mas não posso duvidar que eu duvido. Pronto. O eu é o centro do conhecimento. O eu é o centro do raciocínio. O eu é o centro sobre o qual todo direito, toda psicologia, toda filosofia e até mesmo a teologia vai ser reconfigurada. reconsiderada a luz de um sujeito. Uns vão chamar de sujeito cognocente, outros vão chamar de sujeito transcendental. Alguém já viu o sujeito transcendental por aí? O sujeito transcendental. Bom dia. Alguém já viu sujeitos transcendentais? Sujeito cognocente. Hoje o sujeito coginente, ele está muito nervoso. De repente estamos falando sobre categorias, sobre nome de coisas que nós não fazemos. a menor ideia. Estamos lá na universidade, o professor tá falando, sujeito transcendental e você tá assim, hum, com aquela cara de conteúdo, como se tivesse entendendo, tudo não tá entendendo nada. E não tá entendendo por uma razão muito simples. Onde está o sujeito transcendental no mundo? Colocamos toda a nossa confiança no sujeito, mas ele não tem o caráter absoluto de Deus. E por isso construímos toda a nossa história sempre a partir de um sujeito. Tem que ter um sujeito na história, tem que ter um sujeito do discurso, tem que ter um sujeito que está falando, tem de ter um sujeito com seus interesses, tem que ter os seus um sujeito com seus argumentos. E aí, quando menos a gente espera, a gente está num universo extremamente cético, onde nós estamos questionando os discursos de todos. Estamos como aquele professor francês dizendo: "Todos os discursos [risadas] são discursos de poder." Até que chega alguém, levanta o dedinho e diz assim: "Professor, inclusive o seu discurso?" Ele diz: "Sim, inclusive o meu discurso. Ninguém está livre das manipulações de discurso, das manipulações de palavras. O sujeito precisa ser desconstruído. Mataram Deus e querem um sujeito vivo. Não tem como. Se você não crê em Deus, próximo passo é desconstruir, desacreditar no sujeito. Mas a pergunta que fica é: o que isso tudo tem a ver com discipulado? Não é verdade? Você tá assim, Jonas, eu achei que eu ia abrir a Bíblia hoje. Eu quero Bíblia. Amanhã você vai tomar Bíblia na cabeça. Mas agora eu quero que você saia daqui pensando só sobre isso. O que a pergunta quem eu sou tem a ver com discipulado? Porque talvez o discipulado tenha sido um dos movimentos mais desinteressantes hoje na vida da igreja, porque ele tem sido nada mais nada menos do que informações, uma coletân precisa saber para não passar como um crente, não é? eh, ignorante dos principais das principais doutrinas, tem o seu valor. Mas e se o discipulado não fosse apenas algo que responde às perguntas sobre quem Deus é, mas ao mesmo tempo o discipulado, o meio de Deus nos ajudar a cada dia descobrir quem nós realmente somos e conhecer quem nós realmente somos. E se o discipulado na vida da igreja for o meio de Deus nos permitir conhecer a nós mesmos? Se você viver a sua vida isolada da igreja, sem discipulado, você vai permanecer ignorante de si mesmo. No discipulado, esse sujeito vai aparecer, não como sujeito cognocente, não como sujeito transcendental. Mas como um sujeito pecador, com uma consciência culpada, que não sabe lidar com a sua culpa com as suas próprias mãos e que precisa de um salvador. E é o Salvador, aquele que não apenas resgata das trevas o nosso caminho que estava premeditado para o inferno, mas ao mesmo tempo revela a nossa real natureza quem nós realmente somos. Se o discipulado é um discipulado radical, ele precisa ser um discipulado que vai até a raiz. E pro discipulado ser uma bênção em minha vida, em sua vida, ele tem de trabalhar com a pergunta: quem eu sou? Quem você é? Vamos orar. Pai querido, nós iniciamos uma reflexão que, em primeiro lugar levanta o problema da dúvida sobre quem nós somos, coloca-nos questões, nos faz pensar sobre nossa verdadeira identidade e também a nossa verdadeira história, mas nos faz pensar que a ruptura do sujeito em relação a Deus que tornou o sujeito fundamento do conhecimento, colocou-nos na ignorância de quem nós somos. Porque expulsamos o Senhor do conhecimento, tatiamos no escuro, não só para conhecer o mundo, tatiamos para conhecer quem nós realmente somos. Tateamos de ilusão em ilusão. Usamos nesse baile de máscaras, máscaras que não representam quem nós somos, mas escondem nossa verdadeira identidade. Onde está a nossa verdadeira identidade, Senhor? Onde está o nosso eu? Onde está a fonte de revelação do nosso eu? Será que o discipulado é a revelação de quem nós somos no esquecimento sobre quem nós somos? E como esquecer de quem nós somos? Como esquecer e negar quem nós somos? Porque o nosso eu, ele é o ponto de partida do discipulado. E quem não negar a si mesmo não pode ser seu discípulo, porque o eu é uma condição para o discipulado com Jesus, Senhor. Porque não podemos seguir o teu filho sem em primeiro lugar enfrentarmos o problema do eu? nos ajude, Senhor, a aprofundar a Tua palavra na leitura das Escrituras e descobrir como o Senhor nos oferece o conhecimento do verdadeiro eu que somos no discipulado de Jesus. Assim oramos, pedindo a bção do Senhor durante esses dias. E é no nome de Jesus, teu filho, que oramos. Amém. >> Amém. M.