Coração Sensível a Deus: O Dom da Nova Aliança | Charles H. Spurgeon
05/03/2026
Coração Sensível a Deus: O Dom da Nova Aliança | Charles H. Spurgeon
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Fonte: Josemar Bessa
Legendas automáticas:
E vos tirarei o coração de pedra do vosso peito e vos darei um coração de carne. Ezequiel 36:26. É uma característica peculiar do Evangelho que lhe começa a sua obra por dentro, agindo primeiro sobre o coração. Outras religiões, como a dos fariseus, ou, infelizmente, cristãos legalistas, que, é óbvio, não conhecem a graça soberana, iniciam com formas e cerimônias externas. talvez esperando trabalhar internamente a partir do exterior, embora tal processo nunca chegue a esse ponto. Pois ainda que o exterior do copo e do prato seja limpo, o interior permanece cheio de podridão como antes. Nenhuma verdade é mais certa acerca de todos os filhos dos homens do que esta. Importa-vos nascer de novo. É necessário uma mudança total e radical na natureza humana. Caso contrário, o homem jamais poderá chegar até onde Deus está. O evangelho não se esquiva dessa realidade, mas a reforça. O Espírito Santo não tenta melhorar a natureza humana para transformá-la em algo melhor. Antes ele põe um machado à raiz das árvores e declara que devemos tornar-nos novas criaturas. E isso por meio de uma obra sobrenatural do Deus onipotente. A escritura não ameniza o assunto, dizendo que alguns homens podem ser naturalmente melhores do que outros e pela melhoria de certas qualidades, por fim se tornarem bons o suficiente para Deus. Muito longe disso, ela declara a todos: "Se não vos converterdes e não vos fizerdes como crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus". O verdadeiro evangelho então começa com o coração e o coração é o poder governante do ser humano. Pode-se esclarecer o entendimento de alguém e isso é muito. Mas enquanto o coração estiver errado, esse esclarecimento apenas o capacitará a pecar, carregando maior peso de responsabilidade. Ele sabe que o bem é bom, mas prefere o mal. Vê a luz, mas ama as trevas e rejeita a verdade, pois seu coração se afastou de Deus. Se o coração é renovado, cedo ou tarde o juízo seguirá na mesma direção. Mas enquanto o coração permanecer mal, suas afeições governam a vontade e inclinam o caráter do homem para o mal. Se alguém ama o mal, ele é mal. Se odeia a Deus é inimigo de Deus, independentemente de suas declarações externas, de seu conhecimento ou de suas aparentes boas qualidades. Porque assim como o homem pensa em seu coração, assim ele é. O coração é mais essencial ao ser humano do que a qualquer outra faculdade e poder que Deus tenha concedido à nossa natureza. Que meja permitido dizer que o coração é como a Eva no pequeno jardim do nosso ser. E é ele que primeiro colhe o fruto proibido. Embora o entendimento acabe seguindo as afeições, assim como Adão seguiu Eva, o primeiro poder para o bem ou para o mal está nas afeições. Quando renovado pela graça, o coração é a melhor parte do homem. Não renovado é a pior parte. Exopo, quando seu senhor ordenou que providenciasse apenas as melhores coisas do mercado para um banquete, trouxe apenas limbas. E quando no dia seguinte ordenou que trouxesse as piores coisas do mercado, novamente trouxe apenas línguas. E ousaria corrigir ou espiritualizar essa história trocando a língua pelo coração, pois não há nada melhor no mundo do que corações renovados e nada pior do que corações não regenerados. É grande a promessa do pacto de que o coração será renovado. E a forma específica dessa renovação é a de torná-lo vivo, aquecido, sensível e tenro. Por natureza, ele é um coração de pedra, mas pela obra divina da graça deve tornar-se um coração de carne. Por isso, muito do resultado da regeneração e da conversão se encontra na formação de um espírito terro. Ternura de coração, o oposto de um espírito obstinado, frio, duro, é um dos sinais mais graciosos no caráter de um homem. E onde quer que Deus tenha dado sensibilidade viva em vez de insensibilidade morta, ali podemos concluir que é uma obra real da graça e que Deus criou a genuína piedade naquele coração. É sobre essa ternura que pretendo discorrer. Tirarei da vossa carne o coração de pedra e vos darei um coração de carne. Um nos regenerados, essa ternura aqui descrita se encontra ausente. Frequentemente eles têm uma sensibilidade natural. Algumas pessoas não convertidas são de fato muito amorosas. Mães afetuosas para com seus filhos, pais dedicados, amigos leais. Deus nos livre de dizer algo de errado sobre aquilo que há de bom na natureza humana após a queda. Mas devemos reconhecer que tal sensibilidade é bem diferente da ternura espiritual do coração. Alguns exibem uma ternura que se origina basicamente da timidez. Uma ternura que às vezes os inclina ao bem, não porque amem o bem, mas porque se deixam levar facilmente pela companhia de outrem. De modo que se estivessem em má companhia, seriam igualmente conduzidos ao mal. Falta-lhes princípio, falta-lhes raiz em si mesmos. Roboão demonstra esse tipo de falsa ternura. Ele era tenro e, por isso, seguiu conselheiros perversos para sua própria ruína. Tal brandura que deixa o homem sem masculinidade de caráter e o faz manipulado como fantoche deve ser rechaçada. De fato, precisamos ter firmeza e determinação e não aplacar-nos a ponto de sermos conduzidos para qualquer direção por mãos alheias. Há também uma certa ternura que nasce do temor legal do medo e que difere muitíssimo da ternura evangélica ou salvadora descrita em nosso texto. Além disso, existem aqueles que demonstra uma sensibilidade aparente, uma espécie de falsa ternura. Ao ouvir um sermão, por exemplo, são profundamente impactados. Se o tema versar sobre o futuro ou revelar um mundo vindouro, eles se comovem naquele momento. Entretanto, passam alguns minutos e tudo é esquecido. Fervem rapidamente e esfriam com igual rapidez. São tão inconstantes quanto o vento. É um tipo de ternura que não se deseja. Uma bondade que é como a nuvem da manhã ou o orvalho matutino que logo se vai. Em todos os não regenerados faltará a genuína ternura espiritual da qual falo, ainda que uns sejam mais duros do que outros. Em todos existe, por exemplo, uma dureza natural de coração. Não nascemos perfeitos, de modo que quando encontramos o pecado, naturalmente o abraçamos em vez de rejeitá-lo como deveríamos. Observando as primeiras atitudes das crianças, não encontramos nelas forte repulso aos pecados infantis, nem horror ao vê-los. Quão cedo o pequenino perde o controle e se entrega a explosões de raiva ou a pequenos atos de engano. Conforme disse o profeta, desviam-se desde o ventre, proferindo mentiras. O poeta infantil estava certo ao dizer: "É verdade, és jovem, mas há uma pedra em teu peito, mesmo tão pequenino. Pois se listarmos metade das tuas faltas, ainda seria o bastante para tirar-te a paz." Nosso coração, por natureza, é semelhante à pedra de um moinho e sua dureza aumenta no contato com o mundo. Um jovem que acabou de sair de um lar piedoso não é nem metade tão endurecido quanto aquele que por algum tempo tem convivido em meio a uma sociedade ímpia, presenciando práticas de devastidão e profanação. O costume exerce enorme influência e aquilo que vemos os outros fazerem impunmente, nós passamos cedo ou tarde a considerar, a menos que a graça de Deus intervenam que era. A familiaridade com o pecado não gera desprezo por ele, mas muitas vezes certo desdém que o proíbe. Vemos o brilho no olhar do bêbado, ouvimos seu brado de euforia. Imaginamos que há prazer na embriaguez. Ouvimos as pessoas falando sobre as delícias de suas transgressões e as supostas doces experiências dos desejos pecaminosos. A menos que a providência e a graça nos refreem, passamos a ver com leviandade aquilo que antes considerávamos abominável. Este mundo é como uma fonte petrificante e todos os que são estão se petrificando no seu fluxo, tornando-se cada vez mais endurecidos conforme os anos transcorrem. Além disso, o próprio homem endurece a si mesmo ao pecar. Cada vez que se peca, é mais fácil pecar de novo. Como uma pedra que ao cair ganha impulso e maior velocidade, o pecado também se intensifica a cada prática. Quem peca uma vez se inclina a pecar outra vez. E existem pecados que quase obrigam a prática de outros. Quem mente, por exemplo, sente que precisa mentir novamente para encobrir a primeira mentira. E certos pecados arraigados na carne geram uma espécie de fome e sede por repeti-los, de modo que a carne clama por satisfação. A prática constante de pecados, então, torna o coração cada vez mais insensível, como o calo que se forma com um trabalho árduo. Cada pecado contribui para transformar o coração de pedra em algo ainda mais rígido, semelhante ao diamante. Ao mesmo tempo, todas as circunstâncias à volta do não convertido contribuem para o mesmo resultado. Se, por exemplo, a pessoa prospera, nada endurece mais o coração do que a longa prosperidade. Procure um ímpio cuja vida seja de constante sucesso e quase certamente encontrará alguém capaz de dizer: "Quem é Jeová para que obedeça a sua voz?" O orgulho costuma surgir em meia à fartura. Se tal pessoa passasse necessidade, talvez se humilhasse diante de Deus, mas agora se orgulha de suas grandes extensões de terra ou da sua riqueza. E como Nabuco Donzor exclama: "Não é esta a grande Babilônia que eu edifiquei? Estar por muito tempo com boa saúde, sem sequer adoecer, pode ser igualmente perigoso. Longe de ser bênção de Deus ao ímpio, não há quase nada que possa tornar-se maior maldição do que nunca sentir dor ou enfermidade. Se nunca és castigado, então não és filho de Deus. Se ele deixa que aches prazer no pecado, talvez isso seja um sinal de que ele te deixa ter o que desejas neste mundo, pois sabe que um terrível futuro te aguarda. Ó tu que levas uma vida tranquila, inquieta-te, pois correso. A dureza de coração quase inevitavelmente acompanhará tal condição. Tu vives sem sobressaltos desde a juventude. Nunca foste passado de vaso em vaso. Portanto, o teu cheiro permanece em ti e esse cheiro é do orgulho e da segurança carnal. A situação oposta das circunstâncias leva igualmente ao mesmo resultado por causa do pecado. Aflições endurecem aqueles que não são por elas amolecidos. Alguns homens passam por diversas tempestades no mar, embora antes temessem, com o tempo já não tremem mais. Mesmo que precisem cortar um mastro ou o navio estivesse prestes a naufragar, eles o enfrentariam com xingamentos e blasfêmias, já endurecidos pelo desespero. Outros que escaparam de inúmeros acidentes e doenças graves, que estiveram à beira da morte por febre ou sobreviveram à cólera, muitas vezes se tornam insensíveis a ponto de nada mais os abalar. Aquilo que não é derretido pelo fogo acaba se tornando ainda mais rígido como o aço temperado. Ai de muitos, como disse o profeta, porque series ainda feridos se continuais na rebelião. São como rei Ais, de quem se afirmou que enquanto mais era afligido, mas pecava. Este é aquele rei Ais. Eis a insensibilidade em seu auge comparável à de faraó, que o Senhor endureceu por meio de juízos que deveriam tê-lo levado ao arrependimento. Infelizmente, devo acrescentar que influências sagradas podem muitas vezes consumar e intensificar esse endurecimento. O evangelho, por exemplo, exerce um tremendo poder de endurecer sobre aqueles que o rejeitam. A mesma luz do sol que suaviza a cera endurece o barro. O brilho do evangelho, incidindo sobre o ouvinte, ou derrete em arrependimento ou endurece em obstinada resistência. Não há como ouvir o evangelho sem que ele produza algum efeito. Alguns de vocês frequentam este local desde a sua inauguração e se ainda não estão melhores por isso, certamente estão piores. Se o evangelho não é em vocês um aroma de vida para vida, tornar-seá aroma de morte para morte. Entre os pecadores endurecidos, o pior de todos é aquele que foi endurecido pelas próprias verdades do evangelho. Mas ainda quando um não regenerado tem a ousadia de professar-se cristão, talvez esse seja o caminho mais rápido e certo de consumar a obra do diabo. Pois se um homem tem a desfarçatez de juntar-se aos santos enquanto se entrega secretamente ao pecado, se toma parte na cia do Senhor, sabendo que seus desejos carnais continuam a dominá-lo. Se de fato chega ao ponto de se vangloriar, de ser filho de Deus, quando em verdade não tem parte na graça divina, então tal indivíduo é a matéria-pra perfeita para Satanás moldar um Judas. O próprio diabo não poderia criar um Judas sem antes encontrar um apóstolo falso. E se quiserdes procurar os piores dentre os homens, é entre os hipócritas religiosos que os encontrareis. E permita-me dizer: "Se quiserdes ser bem-sucedidos e encontrá-los, buscai um ministro de coração falso. Quanto mais elevado o posto no jardim do Senhor, mais abundantes as ervas daninhas. Os corações mais endurecidos não são necessariamente aqueles que cometeram crimes contra a sociedade e foram parar nas prisões. Muitas vezes basta um pouco de bondade para enternecer tais homens ferozes. Mas os piores são aqueles que se revestem de uma aparência de povo de Deus enquanto seguem pecando com ambas as mãos. Acobertar uma vida ímpia sob o manto de uma profissão de fé cristã é sinal de reprovação. Em resumo, em qualquer estágio em que os homens se encontrem, esta é a verdade. Em ninguém que não seja regenerado se encontra o coração de carne. Dois. Onde quer que exista essa ternura verdadeira, ela é um dom especial da nova aliança, da graça soberana. O coração de carne é uma bênção da graça soberana, sempre resultado do poder divino. Coração de pedra nenhum jamais se transformou em carne por acaso ou apenas por circunstâncias providenciais, ou ainda por presunção humana, ou pelo livre arbítrio. Seria inútil argumentar com uma rocha, esperando convencê-la a tornar-se carne. Tão pouco essa mudança produzida pelas próprias ações do homem. Como uma pedra, sendo apenas pedra, poderia gerar em si mesma carne. É necessária uma ação vinda do alto, conforme diz a escritura. Se alguém não nascer do alto, não pode ver o reino de Deus. O Espírito de Deus deve operar essa mudança de natureza ou jamais o coração de pedra se transformará em coração de carne. Observem que as primeiras obras do Espírito de Deus na alma tendem a produzir essa ternura. Pois quando ele vem a uma pessoa, convence-a do pecado, levando-a ao quebrantamento. Quem é convencido de pecado não mais faz pouco o caso dele, nem despreza a ira de Deus que o pune. Quando as flechas de convicção são lançadas pelo espírito na alma, o coração começa a sangrar e o homem passa a sentir dores e emoções das quais antes não tinha conhecimento. Espero que alguns de vocês entendam bem esse início da obra do espírito em seus corações, que ele já os está convencendo de pecado. Ele os fez temer um Deus irado e recear a ira futura. Essa primeira obra da graça já os deixou mais sensíveis do que antes, e à medida que o espírito prossegue em sua ação, cada vez mais sensíveis ficarão. Quando a alma de fato é salva e encontra paz em Jesus Cristo, um importante sinal dessa salvação é a ternura de coração. Ah, e quão adequado é o lugar da cruz para se encontrar essa ternura. Assim que o homem contempla o Salvador pela primeira vez, logo chora. Ele olha e vive. Mas também olha e se lamenta, pois foi ele mesmo que feriu o Senhor. Quem pode contemplar o Salvador sangrando por seus pecados sem ser derretido? Coração algum de pedra suporta contato com a cruz. Basta que Jesus lance um olhar de amor e somos dissolvidos como correu com Pedro, que caiu em lágrimas de arrependimento. Ao ouvirmos sua doce voz, dizemos: "Minha alma se derreteu quando ele me falou". O fato de ele nos amar e de ter se entregado por nós é o suficiente para amolecer qualquer coração de ferro se este chegar a compreender essa realidade. Assim, essas primeiras obras do Espírito de Deus, a convicção e a conversão conduzem à ternura e isso continua verdadeiro para todos os atos subsequentes do Espírito Santo. Toda a essência do evangelho conduz à ternura. Não consigo lembrar um único versículo, promessa ou doutrina do evangelho que tenda a endurecer o coração de um crente. Você consegue? Creio que se alguém examinar todos os aspectos que conhece da salvação ou tudo que Deus revelou, verá que não existe nada que possa endurecê-lo ou torná-lo voluntarioso. Tudo ao contrário, visa torná-lo tenro e sensível. Ó, como cada verdade, cada doutrina, cada promessa dada a nós pelo evangelho age em sua essência para sensibilizar o coração. Reflita sobre a graça soberana de Deus na salvação e veja como ela nos humilha e nos lança no pó. Não mais se fala sobre direitos do homem como criatura ou sobre o que Deus deveria fazer. Somos quebrantados e percebemos que o Senhor é livre para fazer o que lhe agrada. E assim a nossa vontade se prostra com mansidão diante dele. Ah, quando compreendemos que não existe perdão senão através de um substituto, quando reconhecemos que Deus deve e punirá o pecado, passamos a considerar que o pecado não é nenhuma trivialidade. Passamos a detestá-lo como um grande mal e ficamos vigilantes para não pecarmos de novo. E ao descobrirmos que toda a nossa ajuda foi posta em Jesus Cristo, a raiz de toda a nossa autoconfiança é cortada de imediato, levando-nos a ficar humildes aos pés do Senhor. Eu poderia revisar cada uma das doutrinas e promessas se houvesse tempo. Estou certo de que demonstraria, sem contradição, que o efeito legítimo de cada uma delas é tornar o coração sensível em todos os pontos onde opera. O mesmo vale para todas as virtudes cristãs. Todas incentivam a vida e a ternura do coração. Tem zelo por Deus, então certamente temerás o pecado. Oiarás até a roupa contaminada pela carne. Tens paciência debaixo da vara do Senhor. Tal paciência é apenas outra forma doce da sensibilidade de coração. Tens amor, então tens ternura, pois na proporção em que o coração é de pedra, não pode haver verdadeiro afeto. Todas as virtudes que compõem o caráter cristão relacionam-se intimamente com o coração de carne. E ouso dizer que quanto mais terno for alguém, mais avançado está na graça. Inversamente, quanto mais insensível e indiferente, mais distante está daquilo que deveria ser. Que o professante de fé, porventura frio e indiferente, saiba disto. Se é realmente filho de Deus, está certamente em um estado de fraqueza ou retrocesso espiritual, pois de outro modo lamentaria profundamente sua própria insensibilidade. Cada graça nos conduz à ternura e todo o fluxo da vida divina corre nessa direção. Não se pode ser forte em piedade sem ser tenro de coração. Será que podes ser um bom filho sem ser sensível e se manter obstinado, frio, endurecido para com os pais? É servo? Quem é um bom servo senão aquele que zela pelo nome do seu Senhor e tem cuidado de cumprir a vontade dele? É soldado. Ora, é bom soldado aquele que zela pela honra do capitão e se submete fielmente à lei do seu senhor. Precisamos de ternura. É algo essencial. Enquanto o metal não for derretido, ele não poderá ser moldado, nem ficar pronto para o uso e para a beleza. O Senhor Jesus jamais colocará seu selo em cera fria. Ele imprime sua imagem em corações de carne, não em pedras. Uma consciência sensível é elemento imprescindível no caráter cristão genuíno. Onde isso não existe, a vida de Deus também não se faz presente. Três. Esta ternura, uma vez concedida, manifesta-se sob diversos aspectos. A pessoa que recebe de Deus um coração de carne torna-se sensível ao temor. Ele treme ao pensar num Deus santo que se opõe a ela. Não argumenta mais a respeito do inferno e da eternidade, como muitos fazem. Ao contrário, o seu coração está em reverência diante de Deus e teme os seus juízos. Não mais considera Deus excessivamente severo. Antes reconhece que ele é justo quando julga e puro quando condena. O coração renovado teme o que outros chamam de pecados pequenos, fugindo deles como quem foge de uma serpente. O homem regenerado sabe que há morte em cada gota de vin do pecado e não se arrisca a prová-lo. Ele não quer saborear nem mesmo uma migalha das iguarias reais do pecado. Tema a Deus e não ouse ofender aquele que é justo, pois agora você vê quão santo ele é e percebe quão real é a sua justiça. O coração de pedra nada sabe nem teme, por isso permanece em morte. Quão pouco temo por alguém que de fato teme enquanto tremo por aqueles que jamais tremem. Há alguns cristãos muito assegurados de si, mas temam que sua suposta certeza possa não passar de presunção. Às vezes, quase desejo que essas pessoas tão confiantes tivessem um toque de santo temor, que é como um sal à vida do homem. O temor e o tremor são apropriados ao mais eminente dos santos, pois a escritura diz: Deus deve ser temido na Assembleia dos Santos. Servi ao Senhor com temor e alegrai-vos com tremor. Desenvolvei a vossa salvação com temor e tremor. Embora eu lamente muito quando alguém duvida da veracidade de Deus, não me preocupo tanto quando alguém duvida sobre si mesmo, pois existe o que se chama de ansiedade santa. Recomendo-lhes que jamais pensem pouco dela. Guardem bem os versos do poeta. Aquele que jamais duvidou do seu estado, talvez venha a duvidar tarde demais. O alto exame frequentemente suscita santo temor e uma profunda investigação interior, revelando-nos tanto pecado que somos lançados de joelhos em choro e súplica, implorando ajuda e perdão. Viver sem temor é viver em pecado, pois uma das marcas do crente é ter o temor de Deus sempre diante dos olhos. Nesse sentido, bem-aventurado é o homem que teme continuamente. Além disso, o coração terro torna-se sensível aos vereditos de uma consciência iluminada. O coração mudado pela graça começa a avaliar suas ações diante de Deus e chega à conclusão: "Procedi injustamente com meu criador e benfeitor. Ele tem sido sempre tão bondoso para comigo, concede-me incontáveis bênçãos e ainda assim eu o tem esquecido de forma ingrata. Sempre que ouvi falar dele, tratei-o com desdém. Vivi para mim mesmo e não para o meu Deus bom e gracioso. A consciência despertada estabelece um juízo diário e o coração de carne submete-se à sua voz. No ímpio, a consciência também existe, mas está adormecida e precisa de um tiro de canhão para despertá-la. No coração de pedra, ela não gera qualquer sentimento de desconforto. Façamos nossa oração tão sensível quanto a pupila do olho. Ó Deus, faz minha consciência, desperta minha alma ao menor sinal de pecado e manten-la sempre alerta. O cristão entende ser horrível pecar contra Deus, contra o amor de Cristo e contra a influência do Espírito que habita em nós. Ele se retrai diante do pecado, não apenas com medo do castigo, mas porque é ferido pelo próprio pecado. Como fumaça para os olhos, espinhos para a carne ou fé para o paladar, assim é o pecado para o coração do crente. O coração renovado também se torna sensível ao amor divino. Não é assombroso que a história do Calvário não encha de lágrimas cada olho que a lê. Existiu o amor mais tocante, comovente que o do filho de Deus a favor de seus inimigos quando ele abandonou a glória do céu para sofrer vergonha na terra? A gente que derrama lágrimas com os torietas sentimentais ou romances de três volumes, mas que considera esta grandiosa narrativa a mais extraordinária tragédia de amor como apenas algo repetido várias vezes, deixando a Bíblia na prateleira por achá-la interediante. Embora diga respeito a todos nós e sem ela estejamos perdidos e com ela nos tornemos participantes da natureza divina, elas a ignoram. Como isso é possível senão por haver corações de pedra? Mas quando o nosso coração é transformado em carne, o amor de Deus nos toca, nos humilha, nos derrete, nos atrai, nos cativa, enche-nos de ações de graças e eleva nossa alma em direção ao céu. Esse amor divino gera em nós uma sensibilidade grata. Cristo fez tudo isso por mim, então o que eu posso fazer por ele? Ele me comprou com seu sangue. Então sou dele e não de mim mesmo, nem do mundo. Que posso fazer por aquele que morreu para salvar minha alma indigna? O coração regenerado sente que o amor de Cristo o constrante, concluindo que se um morreu por todos, logo todos morreram. E ele morreu por todos, para que os que vivem já não vivam para si mesmos, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou. Segunda Coríntios 5:1 e 15. Assim, o coração se torna sensível também ao santo pesar. Quando erra, o crente castiga e humilha a si mesmo por ter entristecido o Salvador. Ele vinga-se do seu próprio pecado se o tem acolhido. Porém, ao mesmo tempo, torna-se sensível à alegria. E, ó, que alegria sente o cristão. Alegria essa da qual o ímpio permanece eternamente alheio. O coração renovado exulta ao ouvir os passos do Salvador. E quando percebe seu amor sendo derramado, nenhum perfume é tão doce. Quão grandes são as emoções e deleites que experimentamos quando contemplamos claramente nossa aceitação em Cristo. Que festas e banquetes de alma quando desfrutamos de comunhão com o crucificado. Quão inefável a exultação quando, atravessando as portas de pérolas, lançamos um vislumbre de nossa herança eterna com as coroas de ouro e palmas de vitória. Pela regeneração, somos tornados capazes de experimentar uma plenitude de alegria desconhecida. Cada sentido e faculdade é vivificado, podendo vibrar com o gozo celestial. O próprio céu parece percorrer cada fibra da alma quando mergulhamos em comunhão com Jesus. Do mesmo modo, tornamos-nos sensíveis ao sofrimento alheio. Eu não daria nada pela sua religião se não desejas que os outros também a desfrutem. Se sem emoção alguma consegue imaginar uma alma sendo condenada, temo por ti. Talvez esse seja teu próprio destino. Se és capaz de contemplar os ignorantes, os rebeldes, os extraviados e imaginar sua ruína eterna sem qualquer pesar, não podes ser filho de Deus. Teu Salvador, o primogênito da família divina, chorou sobre Jerusalém. Como podes ficar indiferente? Cristo chorou pelos pecadores e podemos nós ficar sem lágrimas? Que gotas de lamento solidário irriguem cada um de nossos olhos? O coração de pedra diz: "Que me importa para onde vão. Acaso sou o guardador do meu irmão?" Mas o coração de carne diz: "Senhor, usa-me para salvá-los, custe o que custar". Será minha alegria conduzir os pecadores a abandonar seus maus caminhos. Quando essa ternura de coração atinge um grau elevado, o que deveria acontecer com todo cristão, o crente passa a ser sensível às coisas de Deus de modo extremamente apurado. Já havia instrumentos de medição tão delicados que eram afetados por uma partícula de poeira invisível ao olho nu. Há também balanças rústicas que nem sequer notam a diferença de uma onça, mas aquelas muito finas se movem com a menor brisa. Nosso coração deve ser deste segundo tipo. O cristão deve assemelhar-se a uma planta sensitiva que ao menor toque recolhe suas folhas ou a uma ferida em carne viva que dói ao mais leve roçar. A sensibilidade espiritual é sinônimo de vida abundante. A insensibilidade revela morte. Perceber o mínimo sussurro do Espírito Santo é sinal de alta espiritualidade. Não desejo ser como um grande navio que só se move quando há ondas imensas, mas como a isca do pescador que vibra a menor ondulação. Ó Espírito do Senhor, age assim em meu coração desejoso. Quero ser de tal forma sensível à tua presença que como a folha de um álamo eu comece a tremer, ainda que a brisa seja imperceptível para os outros. Precisamos estar atentos para cumprir a vontade de Deus, sem precisar de chicote ou freio que nos forcem a obedecer. Contudo, já vi muitos crentes que sabiam perfeitamente que determinada prática estava ensinada na Bíblia, mas diziam: "Bom, creio que isso é bíblico, mas vou esperar ter uma forte impressão no coração ou sinais claros da providência de Deus para que eu então me decida a obedecer." Isso não é comportamento de obediência, e sim falta de submissão à vontade de Deus. Nossa regra de fé e prática é a palavra do Senhor, não nossas impressões ou circunstâncias. Para o coração renovado, deve bastar saber a vontade de Deus para agir prontamente. Da mesma forma, se algo é proibido na palavra ou claramente errado, nenhuma desculpa justifica permanecer nisso. Somos obrigados a abandonar tal prática imediatamente. A grande falta desta era a insensibilidade quanto a verdade revelada e a vontade divina. Aqui na Inglaterra, por exemplo, há uma igreja em que se encontram três grupos distintos, todos declarando crer no livro de oração comum em sua totalidade, o que é claramente impossível, pois esses grupos não concordam entre si, estando em guerra constante. Contudo, cada um jura aceitá-lo, exânimo integralmente, algo que homem algum, nem anjo, nem diabo poderia fazer, pois o livro se contradiz em si mesmo. Mas isso pouco importa para consciências flexíveis, treinadas para jogar com as palavras. Alguns ministros dessa igreja sabem que sua posição é questionável, mas a mantém alegando que se saíssem dela, sua utilidade ficaria comprometida. Será este o raciocínio de um cristão fiel? Devemos buscar uma suposta utilidade ao custo de violentar nossa consciência? Nossa regra de conduta é a vontade de Deus e apenas ela. Ah, como anseio ver surgir entre nós uma geração semelhante aos antigos covenanters, dispostos a morrer em defesa de cada palavra de Jesus e a derramar sangue por cada pequena joia da coroa de Cristo. Mas na sociedade atual, o que prevalece é ser caridoso. E se alguns de nós nos levantamos para defender a verdade de Deus, logo somos ridicularizados como sem amor. Entretanto, é justamente nosso grande amor pelas almas que nos faz falar e assumir riscos. Temos caridade pelos que estão perecendo, bem como por aqueles que virão após nós. Vemos o quanto o erro mortal é apoiado pelos que vacilam e não podemos silenciar. Se os ministros do Evangelho derem um mau exemplo de manipular as palavras e brincar com a verdade, onde estará a moral da próxima geração? Irmãos, nós que pregamos o evangelho, precisamos seguir um padrão de estrita veracidade pela causa de Deus, de nosso ofício e do povo. Não podemos permitir nada diferente de retidão absoluta em nossas declarações solenes, pois responderemos por elas diante do Senhor naquele grande dia final. Se somos mestres de outros, devemos ser irrepreensíveis, inflexíveis na verdade, ainda que isso custe nossas vidas. Ó, que possamos demonstrar muita sensibilidade para com a vontade de Deus. Mesmo que o zelo pela verdade seja interpretado como sectarismo, isso é infinitamente preferível a uma caridade que destrói as almas. A Diana desta era, traduzida em termos claros, a caridade atual significa, em muitos casos, que não importa o que Deus disse, façamos o sistema que melhor nos convenha e concordemos em ignorar as partes inconvenientes da revelação. Sejamos liberais com aquilo que pertence ao Senhor, sem nos importar com a sua honra, desde que tudo transcorra bem aos olhos humanos. Mas nós que temos coração sensível, seremos fiéis, suportando a censura de todos para não incorrermos na reprovação do Senhor. Ternura diante de Deus é indispensável. Anelo ver novamente o espírito de Elias de firme determinação, somado ao espírito de João, de amor pelos que erram. Jeová deve reinar em nossa terra e todos os ídolos devem ser destruídos. Quatro reflexões finais. A ternura de coração deve ser grandemente estimada e diligentemente cultivada. Alguns de vocês talvez estejam pela primeira vez aflitos por causa do pecado. E eu me alegro com isso. Alguns não são mais os mesmos de antes, quando eram livianos e indiferentes. Agora estão pensativos e, ao mesmo tempo, tristes. Vieram hoje esperando que Deus lhes concedesse paz, porém ainda não a obtiveram. Oro para que o Senhor lhes conceda o que anseiam, mas desejo ainda mais que jamais encontrem paz senão a paz que vem de Deus por meio de Jesus Cristo. Que esta seja sua resolução. Não descansarei até encontrar descanso no próprio Deus, no seu filho amado. Queridos, não procurem livrar-se de seus temores, convicções e do pecado, a não ser pelo caminho de Deus. Há muitos médicos de valor nulo que tentariam tratar suas feridas se vocês deixassem, mas apenas encobririam um mal, deixando sob a superfície uma úlcera que traria a morte espiritual. Suportem a ação do cirurgião fiel que abre a ferida, limpando toda a carne orgulhosa. E supliquem ao Espírito Santo que os sonde até o íntimo, em vez de aceitarem bajulações, que lhes deem uma sensação falsa de cura. Vão ao Senhor para obter cura. Todo outro remédio é inútil. Digam: "Senhor, realiza uma obra profunda em mim. Salva-me tu mesmo. Salva-me por completo. Livra-me de confiar em mim ou em qualquer outro homem, levando-me a descansar somente em ti e em teu filho amado. Não se voltem para distrações que apenas lhes fariam esquecer sua real condição. Não busquem bailes, festas ou qualquer forma de entretenimento que apenas amorteceriam sua consciência. Ao invés disso, peçam ao Senhor que aprofunde o quebrantamento, que os leve a perceber ainda mais a culpa do pecado, pois vocês nunca valorizarão o Salvador enquanto não se odiarem a si mesmos. Nunca amarão o seu sangue se não ficarem envergonhados do vermelho do seu próprio pecado. Jesus jamais será seu salvador enquanto não se virem a seus próprios olhos como pecadores arruinados. Corram a Jesus confiando nele e não endureçam o coração contra ele. Agora fala a você, ó cristão, cultive ainda mais a ternura de coração. Dirijo-me aos crentes. Não abracem qualquer doutrina cujo efeito natural seja torná-los insensíveis em sua vida espiritual ou indiferentes em relação ao próximo e a Deus. Receio que, por vezes, até as verdades que professamos possam ser sustentadas em justiça e nos induzir a negligenciar o pecado. Sempre que encontro um irmão perfeitamente satisfeito consigo mesmo, fico preocupado. Ele certamente não vê o pecado que Deus vê nele, pois se o enxergasse, estaria lastimando-se em lugar de jactar-se. Gosto de ver que alguns pregam padrões de santidade muito elevados. Quanto mais altos, melhor. Mas se alguém diz tê-lo atingido, envergonhe-me por ele e temo por seu estado espiritual. Ele precisa, isso sim, começar de novo na escada da santificação, pois o primeiro degrau dessa escada é a humildade. Sejam muito humildes e mantenham-se no lugar mais baixo. Tornem-se cada vez mais conscientes de sua culpa natural. Arrependam-se diariamente com mais intensidade. Diante de todos declaro que creio ser o melhor lugar para se estar de braços ao redor da cruz, dizendo: "Eu, o principal dos pecadores sou, porém Jesus morreu por mim. Sou nada, mas Cristo é tudo. Em mim mesmo nada há além de miséria, mas ainda assim sou aceito no amado. Que dia após dia temamos a rotina de uma religião sem vida e poder. Podemos cantar sem verdadeira alegria o louvor, orar sem fervor, ler a Bíblia sem realmente alimentar-nos de suas verdades, conhecer as doutrinas do Evangelho sem provar seus efeitos sobre o coração. Oremos para não cairmos nisso. Oremos. Para não ter uma religião morta. Quero que minha alma seja viva em cada parte, tão sensível diante de Deus como se estivesse sem pele, sem a coraça endurecida, para que cada verdade, cada promessa, cada palavra divina impacte-me profunda e imediatamente. Supliquemos por isso, irmãos. Lembrem-se de como Jesus era tenro. Nele não havia nenhuma dureza. Sejamos tão sensíveis como ele foi, e assim seremos. conformados a imagem para a qual Deus nos está preparando por seu espírito eterno. Tema perder a sensibilidade em relação ao pecado. Tema esfriar em seu amor por Cristo. Tema endurecer-se em relação aos pecadores ao seu redor. Recorde e use em suas orações esta promessa. E vos tirarei o coração de pedra da vossa carne e vos darei um coração de carne. Que o Senhor a cumpra em vocês por causa da sua fidelidade e do seu nome. Amém. Peçam [música] e será dado. Busque encontrarão. Batam na porta certa. Ela se abrirá então, pois [música] quem pede recebe, quem busca vai achar. E aquele que bate a porta se abrirá. Deus conhece [música] o melhor, a bênção para nos dar. Se não é o que [música] pedimos, é o que irá nos guiar. Sua graça é perfeita. nos ensina a esperar. Mesmo no silêncio, Deus sábio que a nos amar. Na fraqueza, poder. Na espera a direção. [música] Sua vontade é boa. A melhor solução. [música] O tempo que parece longo pra mente impaciente [música] é o exato momento pra resposta [música] que é crescente. Se a oração não vê resposta, olhe bem com atenção. Deus já [música] pode ter agido fora da contemplação. [música] Sua graça é perfeita, nos ensina a esperar. Mesmo no silêncio, Deus sabe o que é nos amar. Na fraqueza, poder, na espera, direção. [música] Sua vontade é boa, a melhor solução. Paulo lorou e clamou. O espinho não saiu, mas a graça foi maior. Em sua dor, ela surgiu. Que possamos aprender com fé e submissão. A vontade do Senhor é sempre a melhor lição. [música] Peçam e será dado. Busquem encontrarão. Batam [música] na porta certa, ela se abrirá. Então, sua vontade é boa.