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A fé vem pelo ouvir

Pra Onde Vou Se Eu Não Sei Nem Quem Eu Sou? – Gálatas 3 | Luiz Sayão | IBNU

Pra Onde Vou Se Eu Não Sei Nem Quem Eu Sou? – Gálatas 3 | Luiz Sayão | IBNU

Pra Onde Vou Se Eu Não Sei Nem Quem Eu Sou? – Gálatas 3 | Luiz Sayão | IBNU

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Se eu nem sei quem eu sou, como saber
para onde vou? É, esse é
o título, essa é a nossa base de
reflexão hoje na palavra de Deus.
Quando lemos o ensino [música]
de Paulo na carta aos Gálatas.
Você é meu convidado para acompanhar
essa mensagem para o seu coração.
>> [música]
>> E não se esqueça, olha, aperte o
sininho, inscreva-se no canal da IP
News, seja você um parceiro para
divulgar
as mensagens da palavra de Deus, da
nossa [música] comunidade, deste canal,
para ser benção na vida de tantas
pessoas. IP News, uma comunidade
[música] saudável para um mundo melhor.
Contamos com sua
amizade e com a sua parceria. Obrigado.
>> [música]
>> Deus abençoe.
Para onde vou se eu não sei nem quem eu
sou? Esse é o grande desafio que muita
gente tem
nos nossos dias, quando parece que uma
das discussões mais importantes sobre a
vida,
sobre a nossa identidade
e sobre a nossa trajetória, marca muito
o nosso tempo. E hoje então aqui nós
vamos pensar e refletir sobre isso. Acho
que todo mundo
já tá bastante consciente de uma espécie
de
de crise muito definida no nosso tempo,
quando, né, os estudiosos da cultura,
especialmente no nosso ambiente do mundo
ocidental,
eh, fala-se muito, né, daquilo que tem a
ver com os desdobramentos do mundo
pós-moderno, né, o o que é chamado de
modernidade líquida, quando
aquilo que
sempre foi meio paradigmático, assim,
foi meio que derretendo, né?
E a gente, inclusive, alguns falam que
estamos na época da da pós-verdade, né?
E todo esse
universo
social, filosófico, gelatinoso,
hoje tem causado uma série de questões,
assim, que as pessoas, de fato, olha, eu
não sei se eu sou isso, eu não sei se eu
sou aquilo.
Ah, nós temos crises e tanto do ponto de
vista de pessoas completamente vazias de
referência, de identidade, até gente que
caminha na busca de
movimentos radicais, ultranacionalistas,
né? Tentando definir, afinal de contas,
onde é que eu me apoio na minha
realidade existencial
para caminhar na minha vida. E
exatamente por causa desse vazio
é que muitas pessoas ficam assim
pensando, né? Então, para que lado eu
vou? Qual é a direção, né? Qual Qual é o
caminho, né? Qual é a jornada que a
minha experiência, minha vida nesse
mundo
estabelece? Eu vejo muitas pessoas hoje
com medo do futuro, eh, dizendo que a
gente não tem esperança. Tem pessoas
dizendo que nem vale a pena mais a gente
eh, viver da maneira mais básica que a
experiência humana sempre nos mostrou,
por exemplo, viver em família, né?
Geração após geração, porque a gente não
tá indo para lugar nenhum. Como é que a
gente lida com isso? Vamos ver. Eu tava
aqui lendo
esses dias um trecho interessante
que aparece numa carta que o apóstolo
Paulo escreveu aos Gálatas.
E me parece que ela tem muita coisa para
nos orientar sobre esse
mundo meio confuso que se percebe nos
dias de hoje.
Capítulo três do livro de Gálatas, a
partir do verso 21.
A palavra de Deus diz o seguinte:
"Então, a lei opõe-se às promessas de
Deus?
De maneira nenhuma. Pois se tivesse sido
dada uma lei que pudesse conceder vida,
certamente a justiça viria da lei. Mas a
escritura encerrou tudo debaixo do
pecado,
a fim de que a promessa que é pela fé em
Jesus Cristo fosse dada aos que creem.
Antes que viesse essa fé, estávamos sob
a custódia da lei, nela encerrados,
até que a fé que haveria de vir fosse
revelada. Assim, a lei
foi o nosso tutor até Cristo, para que
fôssemos justificados pela fé.
Agora, porém, tendo chegado a fé, já não
estamos mais sob o controle do tutor.
Todos vocês são filhos de Deus mediante
a fé em Cristo Jesus. Pois os que em
Cristo foram batizados de Cristo se
revestiram.
Não há judeu, nem grego, escravo, nem
livre, homem nem mulher, pois todos são
um em Cristo Jesus. E se vocês são de
Cristo,
são descendência de Abraão e herdeiros
segundo a promessa.
Digo, porém,
que enquanto o herdeiro é menor de
idade, em nada difere de um escravo,
embora seja dono de tudo. No entanto,
ele está sujeito a guardiões e
administradores
até o tempo determinado por seu pai.
Assim também nós, quando éramos menores,
estávamos escravizados aos princípios
elementares do mundo.
Mas quando chegou a plenitude do tempo,
Deus enviou seu filho nascido de mulher,
nascido debaixo da lei, a fim de redimir
os que estavam sob a lei,
para que recebêssemos a adoção de
filhos. E porque vocês são filhos,
Deus enviou o espírito de seu filho ao
coração de vocês e ele clama "Aba, Pai".
Assim, você já não é mais escravo, mas
filhos. E por ser filho também,
Deus também o tornou herdeiro. Que coisa
e o detalhamento
desse texto especial
da carta de Paulo aos Gálatas. Mas vamos
entender o que que tá acontecendo aqui.
Que história é essa de lei? Que história
é essa de
filho, de herdeiro,
de dizer que não tem mais grego nem
judeu, nem homem nem mulher?
Como é que a gente pode entender esse
texto? Então, vamos lá. Que que
acontece?
Nos tempos do primeiro século, a gente
tinha
uma presença marcante dos judeus no
mundo
greco-romano.
E por que eles tinham uma presença
marcante? Porque as pessoas de fora que
vinham desse mundo marcado pelo
paganismo, politeísta, com vários
grupos religiosos, mais ou menos
místicos ou
ligados ou não ao culto imperial e assim
por diante, eles olhavam para a
realidade da sinagoga, eles olhavam e
viam algumas coisas diferentes. Eles
observavam, por exemplo,
que ali não tinha nenhuma estátua. Todos
os cultos pagãos tinham suas estátuas,
os seus deuses representados.
E inclusive o desafio, né? Os romanos
queriam colocar a estátua do imperador e
dos deuses greco-romanos e os judeus não
aceitavam isso e eles achavam curioso e
diferente.
Depois, eles falavam desse Deus que é
invisível e era um Deus só,
o
contrário das diversas divindades que
estavam presentes no panteão
do mundo marcado pelo paganismo.
E a outra coisa que chamava atenção era
a maneira de lidar com a comunidade.
Então, a preocupação com pobres, com
viúvas, com órfãos.
É, essa essa relação social presente na
tradição judaica, né? Aquilo que envolve
a tzedaká, né?
Isso
é, marcava de modo que nesse ambiente
várias pessoas passaram a se interessar
pelo judaísmo. Isso quer dizer o quê?
Que havia muitas pessoas que,
de fato, se convertiam ao judaísmo.
Esses eram chamados prosélitos. Várias
vezes você vai encontrar no Novo
Testamento essa referência aos
prosélitos.
E não só isso, mas havia aqueles que não
estavam tão convencidos de que todo
pacote do judaísmo predominante valia a
pena. Então, eles eram amigos da
sinagoga, eles eram chamados de tementes
a Deus.
É o caso de Cornélio, por exemplo, em
Atos 10, de Lídia, em Atos 16.
E essa era a realidade. Que que
acontece? Quando o apóstolo Paulo
começa a anunciar o evangelho nesse
mundo propriamente gentílico e pagão,
várias pessoas ali, eh, recebem o
evangelho. Tudo começa na primeira
viagem missionária, entre os anos 46 e
48, quando ele
vai naquela região ali, né? Do onde se
falava o dialeto licaônico, ele vai para
ali, né?
Vai para Listra, Icônio, Derbe, né? E
anuncia o evangelho e logo, não demora
muito, Paulo vai escrever a carta aos
Gálatas, por quê?
Por quê?
Quando esse pessoal recebe a fé em
Jesus, surge um grupo de pessoas
que eram seguidores de Jesus, mas de
base farisaica, que chegaram à seguinte
conclusão:
>> [roncando]
>> "Se esses indivíduos, que agora
receberam a fé, não se tornarem
praticantes do judaísmo como nós o
entendemos,
eles não podem ah fazer parte da
comunidade da fé, eles não podem ser
considerados seguidores do Messias de
Israel". Paulo vai ter um confronto com
eles. E quando ele faz isso,
>> [roncando]
>> e Paulo vai deixar claro, olha, se você
é judeu, a gente entende que certas
coisas são pertinentes à sua caminhada,
mas aqueles que vêm desse mundo
gentílico, eles não podem ser colocados
debaixo dessa
postura de lidar com a tradição e com a
lei como acontece com judeus. E ainda
mais quando se pensa na maneira
farisaica de pensar, que nem é
consenso em todos os ambientes judaicos
da época, por exemplo. E aí a grande
discussão é o quê?
Envolve a lei.
Então, qual é a questão?
A primeira discussão é, afinal de
contas, o que que é a lei, qual é o seu
propósito? E tanto em Gálatas como em
Romanos, Paulo vai deixar claro,
pessoal, não tem nenhum problema na lei.
A lei é a expressão da santidade de
Deus, mostrando para nós aquilo que
envolve
a sua diretriz para nossa vida, né? E a
gente vai ver isso, Jesus falando, né,
da lei de maneira positiva
e dizendo que a essência dela é amar
Deus e amar o próximo. Então, isso a lei
enquanto revelação de Deus presente na
Torá.
Só que essa lei, ela não tinha condições
de produzir a justiça de Deus na nossa
vida. Ela apenas nos mostrava as
diretrizes de Deus e quando isso
acontecia, em vez do resultado ser
promissor, era mais problemático, porque
a pessoa simplesmente ia percebendo
quão maior é a sua dívida e a sua
incapacidade de estar dentro daquilo que
a lei diz.
Então, a lei, na verdade,
ela não se opõe, verso 21, às promessas
de Deus de maneira nenhuma. A gente tem
que entender direito qual é o seu papel.
E aí que vem a questão, né? A lei não
tinha
o poder e a capacidade de produzir vida
espiritual e justiça em nós, ainda que
ela fosse expressão
da diretriz de Deus para a a humanidade.
Então, ele diz: "Pois se tivesse sido
dada uma lei que pudesse conceder vida,
certamente a justiça viria da lei. Mas
quando a lei é dada, que que acontece?"
A escritura encerrou
tudo debaixo do pecado para mostrar, por
exemplo, olha pessoal, a
diretriz divina é essa. Veja, quando
todo mundo entra no caminho de
alinhar, enquadrar a sua vida
naquilo que a lei diz, a gente percebe
que todo mundo é reprovado. Por isso que
o texto diz
que tudo foi encerrado debaixo do
pecado, a fim de que um princípio que
faz parte
da revelação da Torá. Por quê? Porque
a maneira como a própria Torá, o
Pentateuco, vai tratar da questão,
começa lá em Gênesis 15, verso 6, quando
Abraão creu em Deus e ele é chamado de
justo. Isso lhe é acreditado
como justiça, como Romanos 4 vai
reforçar.
Então, ele disse que essa promessa, que
é a fé em Jesus Cristo
ah, fosse dada aos que creem. Então ele
diz, percebe que a maneira como a gente
tem um caminho promissor
para estar em sintonia com a vontade
divina não é a simples tentativa de
leitura
literal da lei e na força humana
tentando fazê-la como se a gente pudesse
construir através da nossa justiça
própria. Então
o texto
vai dizer que esse caminho é um caminho
pela fé na redenção divina que aparece
em Cristo Jesus.
Aí ele diz, então como é que é essa
relação? Olha que coisa bonita e
interessante. Antes que viesse essa fé
nós estávamos sob custódia da lei, nela
encerrados
até que
a fé que haveria de vir fosse revelada.
Assim a lei foi o nosso tutor até Cristo
para que fôssemos justificados pela fé.
Ou seja
diferentemente da ideia de que tudo o
que aparece aqui simplesmente substitui,
anula no sentido absoluto
o que temos na lei
em vez de ter uma oposição absoluta
entre a lei e aquilo que vai aparecer na
nova aliança, na revelação em Cristo
a gente vê uma relação de conexão. Olha,
a lei ela serviu de um tutor para
chegar no seu ponto final
no seu ponto de conclusão que é
exatamente a fé em Cristo. Até porque
Cristo é o cumprimento da lei.
Jesus nunca pecou, ele se submeteu
completamente, ele cumpriu de fato a lei
por nós
sendo completamente justo e por isso
quando somos justificados pela fé em
Cristo a justiça de Cristo é transferida
a nós que nele cremos e nele temos
esperança. Então, nesse sentido
nós agora fomos justificados pela fé
e tendo chegado a fé, já não estamos
mais sob o controle do tutor. Ou seja
não quer dizer que a lei não tenha valor
nenhum. Aliás, é bom entender aqui, né,
nós temos
na lei, ah, vários
mandamentos, ou melhor, diretrizes,
instruções que são de perfil
cerimonial, que apontam para Cristo, o
Messias, se cumprem nele e tem o seu
propósito final. Isso era sombra daquilo
que haveria de vir.
Mas nós temos,
por diretrizes da lei, que são morais e
teológicos, é claro, que promiscuidade
ah, assassinato,
né, roubo, continuam sendo errados, não
é? Porque estamos no Novo Testamento que
essas coisas não são mais consideradas
equivocadas e erradas. Claro que são.
E nós temos princípios para a sociedade,
para a vida, que não são necessariamente
aplicáveis literalmente, mas o princípio
tem validade, como, por exemplo, cuidado
de necessitados e outras coisas
semelhantes. Então
é interessante a gente observar
que agora não estamos, nesse sentido,
sob o controle do tutor. E aí que vem a
questão: por que será
que esse pessoal religioso não só tinha
feito
um caminho de dizer o seguinte: "Olha,
nós temos que olhar as exigências da lei
literalmente como estão lá
e nós temos que acrescentar um peso
maior sobre isso". E eles começaram a
desenvolver tradições maiores
que iam além do próprio sentido da lei e
também faziam aí uma coisa meio
seletiva. Alguns mandamentos tinham
validade muito importante e outros não.
E aí a coisa começou a ficar confusa. E
por que que a gente faz isso? Pessoal,
a pessoa faz isso
quando sem entender o propósito do que
tá lá, faz disso a base, vamos dizer,
existencial
da sua própria vida. É como se aquilo
definisse a sua identidade de maneira
absoluta. É como se fosse
uma espécie de salvaguarda de mim mesmo,
um lugar onde eu possa colocar os meus
pés e me firmar. Por isso daí surge uma
coisa complicada, que não é
exclusividade da tradição judaica, mas
também tá
na tradição cristã, em outras tradições
religiosas, que é uma espécie de orgulho
religioso. Quando a pessoa diz: "Olha,
eu sou uma pessoa, eu faço isso, a minha
tradição é tal", você vê que aquilo vira
o centro da identidade da pessoa,
a pertinência de um grupo que
supostamente se enquadra
da melhor maneira possível naquilo que
deve ser a razão de ser da vida.
Então, o que que acontece? Por isso,
Paulo chega e entra num caminho
interessante, que parece vir do nada,
mas que tem relação absolutamente
nítida. O que que ele diz?
No verso 26, ele prossegue e diz: "Todos
vocês são filhos de Deus mediante a fé
em Cristo Jesus,
pois os que em Cristo foram batizados de
Cristo se revestiram". Então, o que que
ele vai dizer? Ele vai dar esse grito
espetacular [roncando]
pra dizer pra gente assim, ó: "Primeira
coisa que vocês têm que saber
é o que de fato vocês são, ou melhor,
quem vocês são. Porque se eu não sei
quem eu sou,
eu nem sei pra onde vou. Claro que eu
não tenho como organizar a vida. Claro
claro tenho como
definir o sentido, a direção, o
propósito, por isso esse marasmo vazio.
E aqui ele vai dizer: "Você quer saber
de uma coisa? Você quer Você quer uma
referência maior
daquilo que define quem a gente é?
A referência máxima do universo é o
próprio criador, o próprio Deus, a razão
de ser de todas as coisas no tempo e no
espaço,
na criação e na história".
Então ele diz: "Olha, pessoal, vocês que
encontraram a fé em Jesus,
vocês que encontraram essa salvação
gratuita pela fé,
que chega a nós com o seu poder em nosso
coração, vocês são
filhos de Deus". Quer dizer,
ele poderia dizer coisas diferentes,
você já reparou? Poderia dizer assim:
"Vocês são as pessoas que agem da
maneira certa. Vocês são o grupo que
Deus define como sendo o mais adequado
de todos.
Vocês são as pessoas que estão na
trajetória
que é mais promissora". Ele não entra
com um argumento assim de vantagem, ele
não entra com um argumento eh de perfil
de quem tá pisando no quadrado da
maneira que se espera, ele diz: "Vocês
são
filhos de Deus". E isso é muito
especial, por quê?
Porque é uma linguagem relacional,
é uma linguagem que evoca as relações
mais profundas que nós temos na nossa
constelação familiar e é uma relação de
intimidade, de pertinência, que
estabelece de maneira
psicológica e sociológica a nossa
verdadeira identidade. Então, somos
filhos de Deus mediante a fé em Cristo
Jesus, pois quem em Cristo foi batizado,
a linguagem muito bonito, né? Você se
revestiu, como quem trocou, pegou roupas
antigas, tirou tudo, fez uma espécie de
novo guarda-roupa que da festa revestiu
de Cristo
e realinhando a sua identidade. Aí sim,
ele vai entrar no âmago da questão. Por
quê?
O que que é importante para as pessoas?
A gente vê orgulho racial,
orgulho
ligado ao nacionalismo, orgulho de
herança religiosa,
orgulho de gênero, orgulho de qualquer
tipo de coisa que pretende ser a
referência maior da nossa identidade.
Por isso ele diz: "Escuta, agora
que você entendeu
que você é filho de Deus em Cristo,
saiba que não há judeu nem grego".
Então, Saulo, quer dizer que agora não
tem
ninguém, quer dizer, não tem mais
brasileiro nem argentino, não tem mais
americano nem chinês, não tem mais russo
nem alemão.
Não tem mais angolano nem moçambicano.
Como assim? Não é bem o caso, é claro
que essas coisas existem. Paulo não tá
dizendo aqui,
ainda mais nesse mundo, não é? O pessoal
não tem mais escravo. Como não tem? O
pessoal que tá recebendo a mensagem é
escravo. Ah, não tem homem nem mulher.
Lógico que tem.
Que que acontece? Ele diz que essas
categorias
que marcam
a maneira das pessoas construírem a sua
fonte de identidade
principal, aquilo que sustenta a sua
realidade
existencial e até espiritual, não tem
nenhum tipo de sustentação. Então, nesse
sentido,
não faz diferença em relação à salvação
dada em Cristo para nós,
a fé em Cristo que nos salva e nos
coloca como filhos de Deus nesse sentido
profundo de identidade espiritual, não
faz diferença se você judeu ou grego.
E o judeu tinha toda uma compreensão,
né, de um uma espécie de
identidade religiosa e étnica
fundamental. O grego também, como
paradigma do conhecimento, da filosofia,
tudo isso era muito forte.
Então, Deus desafia
as identidades étnicas como fundamento
daquilo que nós somos.
Por que? Se a gente se prende a esse
particularismo, pessoal, a gente nunca
vai
entender, de fato, os outros seres
humanos. Ficaremos presos dentro da
nossa realidade circunscrita e limitada.
Então, não importa se você é coreano, se
você é alemão, se você mongol, se você
paraguaio, se você
é mexicano, se você
é da Guiné-Bissau ou do Marrocos ou do
Brasil, isso não vai fazer diferença no
sentido pleno. E nem
critérios
sociais
ou sociológicos. Por exemplo, não há
escravo nem livre. Olha que coisa
interessante. Você percebe que o mundo
hoje é um mundo de conflitos raciais,
conflitos de etnia, conflitos de classe
social. Quer dizer, pessoas querendo
colocar sempre um grupo contra o outro e
usando isso como massa de manobra.
Gálatas vai exatamente na direção
oposta, pessoal. Agora, essas
diferenças, elas
estão ofuscadas, elas estão num espaço
secundário, elas estão numa relação
periférica em relação à nossa identidade
de ser filho de Deus em Cristo Jesus.
Não precisa ter guerra entre os gêneros,
porque em relação à salvação em Deus
também não existe homem nem mulher.
Nenhum deles é mais importante ou melhor
do que o outro. Discursos machistas e
feministas desaparecem diante do poder
do evangelho. Olha lá.
Pois todos são um em Cristo Jesus. Olha
que coisa impressionante.
Isso é espetacular por quê? Porque esse
mundo do primeiro século é totalmente
dividido.
É um mundo de opressão no império
romano. É um mundo demarcado por quem?
Para quem é cidadão romano e quem não é.
É um mundo cheio de escravos e de povos
dominados. É um mundo no ambiente
judaico altamente restritivo para quem é
de fora.
É um mundo que enfrenta essa realidade
de um mundo grego que se entende acima
dos demais.
E então o texto vai dizer: "Olha, se
vocês são de Cristo,
são descendência de Abraão e herdeiros
segundo a promessa". Importante isso por
quê?
Porque o argumento desses judaizantes
para com esses gálatas que são gentios é
muito simples. Olha, você não pode ser
considerado alguém
que tem direito à promessa que Deus fez
a Abraão porque você não está enquadrado
no legalismo que estamos exigindo de
vocês.
E Paulo vai dizer: "Pessoal, o que que
Deus falou para Abraão?
Que Abraão sim ia ser pai de uma grande
nação.
Que Abraão sim, através da sua
descendência com Isaque, com Jacó, o
povo de Israel, bênção de Deus que
atinge a nação
judaica de maneira muito clara, mas
Abraão também tá claro que ele haveria
de ser bênção para todas as famílias,
todas as tribos, as etnias da terra. E
agora isso aparece
nessa inclusão dos gentios aqui.
Portanto, eles também são descendência
de Abraão no sentido espiritual do
termo.
E herdeiros segundo a promessa. Ou seja,
olha que coisa interessante. Agora,
preste atenção. Eu me lembro até hoje
quando eu recebi o evangelho, fui
alcançado pela graça de Deus em Cristo
Jesus,
a coisa mais forte que eu senti na minha
vida, no meu coração, foi exatamente
isso. Como é que podia ser
>> [roncando]
>> que o criador do universo, o Deus de
toda a terra, de toda a imensidão do
tempo e do espaço,
como é que ele podia me amar e fazer o
que fez em meu favor em Cristo Jesus.
Aquilo me deu um senso de pertinência,
um senso de
amor incondicional no coração que
redirecionou minha vida para sempre. A
minha identidade se concretizou em
Cristo. Ali eu não me importava mais o
que eu era aqui e ali,
o importante era agora ter
passado por cima de todas as fronteiras
que distanciam as pessoas por causa de
Cristo Jesus e pelo fato de sermos
filhos de Deus,
herdeiros da fé
que havia em Abraão e também herdeiros a
partir dessa promessa. E Paulo prossegue
e diz: "Digo, porém, enquanto herdeiro,
que enquanto herdeiro
é menor de idade, em nada difere de um
escravo, embora seja dono de tudo". É
essa linguagem, né? O herdeiro, ele
tá aguardando a sua herança, ele é
menor, não pode usufruir dela. Ele,
apesar de ser esse herdeiro,
ele é como um escravo que não tem
direito a nada. No entanto, ele está
sujeito a quem? A guardiões,
administradores, até o tempo determinado
por seu pai. Assim também nós, quando
éramos menores, estávamos escravizados
aos princípios elementares do mundo.
Ou seja, Paulo diz assim: "Pessoal, Deus
tava preparando um negócio muito legal.
Tava preparando essa promessa que tava
sendo assim trabalhada no eixo da
história.
E enquanto isso, vocês estavam na
vulnerabilidade da experiência de vocês.
Qual era a vida de vocês nesse mundo sem
Deus,
com a presença dos poderes espirituais
da maldade, que são discutidos, por
exemplo, em Efésios, em Colossenses,
esses chamados princípios elementares do
mundo, uma referência
aos espíritos maus, que na linguagem de
Efésios estão nas regiões celestiais, ou
seja, no mundo espiritual.
Mas quando chegou a plenitude do tempo,
e é isso que tá sendo celebrado agora,
Deus enviou, olha que bonito, né? Seu
filho. Eu acho tão espetacular, porque
ele fala de coisas espirituais,
poderosas, fortes, assim, impactantes, e
aí ele entra nessa intimidade, nessa
particularidade, na presença divina
concreta, invadindo o tempo, nessa
intimidade próxima de nós, ele diz: Deus
enviou seu filho.
Poderia dizer: Deus enviou o grande
redentor, Deus enviou o seu
salvador, aquele que cumpriu o seu
propósito, não, seu filho.
Nascido de mulher. Olha a linguagem, né?
E nascido debaixo da lei, no momento em
que a única coisa que a gente tinha, que
nos orientava a respeito de quem Deus é
e como é que ele se apresenta diante de
nós, era a lei, a fim de redimir os que
estavam sob a lei,
que tinha esse papel até chegar à plena
redenção, numa conexão entre as partes,
e não num conflito entre elas,
para que recebêssemos a
adoção
de filhos. E aí, que coisa interessante.
E por que vocês são filhos,
tudo muda. Então, a minha pergunta para
você, que tem caminhado na fé,
qual é a sua identidade? Do que que você
gosta de ser chamado. O que que marca
você? É o quê?
A sua herança familiar é o mais
importante?
A sua
identidade, o seu pertencimento a um
grupo social qualquer com qual você se
identifica? Eu acho interessante a
maneira
curiosa do nosso tempo. Eu conheço
pessoas, por exemplo, que são fanáticas
por algum tipo de esporte,
principalmente,
por exemplo, torcedores de futebol. Mas
a questão não é se a pessoa torce.
É que a identidade dessas pessoas está
marcada por isso. Eu conheço gente que é
tão fanática por futebol
que o sujeito se pinta, ele tem as
camisas, o quarto dele é lotado daqueles
símbolos.
É, quando ele vai ao estádio, aquilo
parece um verdadeiro culto. Eles choram,
eles gritam, eles riem, eles cantam,
eles pintam a cara, eles desfiguram até
a aparência
por causa da sua identificação máxima na
vida com o seu time de futebol.
Inclusive, se você ousar questionar ou
discutir algo sobre o time, a pessoa
vira uma fera, aquilo se tornou a sua
identidade. Eu conheço gente fechando a
identidade em particularidade de gênero,
fechando a sua identidade
na sua origem étnica, como se a sua
origem étnica, de alguma maneira, fosse
mais importante do que as outras
ou na sua postura nacionalista, porque o
meu país é assim, porque eu sou de tal
lugar, ou até na sua cidade, ou até no
seu regionalismo. A pessoa é capaz de
dizer assim: "Ah, eu sou máximo porque
na minha terra se come tal coisa".
Pessoal, que doideira, que loucura é
essa?
Nós somos todos criados por Deus.
Somos meramente seres humanos com as
nossas limitações e agora, não só
criados, mas na nova criação, redimidos.
E passamos a ter a nossa identidade como
filhos de Deus e isso é
o que importa e por isso o texto vai
nessa direção. Eu fico pensando lá, né?
Gálatas, pagãos, gente de
ambientes étnicos variáveis, pessoas de
perfil romano, outro grego, judeu, judeu
mais ligado à tradição religiosa
ferrenha, como foi o caso de Paulo,
outros judeus de perfil um pouco
diferente.
E agora, porque vocês são filhos. Olha
que bonito aqui. Deus enviou o espírito
do seu filho ao coração de vocês.
E aí você vê essa dimensão que eu acho
interessante, né? Porque
quando a gente pensa em identidade, a
gente pensa identidade ligada
principalmente ao grupo social. Ah, você
é o quê, né? Você é de que país? Você é
de que etnia? Você é de que região? Fala
aí para eu sentir o seu sotaque, né?
A gente marca assim, mas a identidade
profunda, que é a dor da sociedade de
hoje,
ela é emocional, ela é existencial, ela
é psicológica, ela é espiritual.
E quando a gente não
percebe o abraço poderoso do criador,
que é o pai
celestial
da sua vida, da minha vida em Cristo
Jesus,
a gente nunca vai encontrar
um espaço de descanso e tranquilidade
para a alma. E se ela não tiver
tranquila?
Se a gente não tiver esse afago que
redefine quem nós somos,
a gente sempre vai procurar um
substituto
de qualquer tipo para definir: "Olha, eu
sou isso.
Você não é nada
daquilo
que
a nossa sociedade confusa, perdida,
pós-verdade, atrapalhada pretende
emprestar provisoriamente para sua vida.
Não.
Deus enviou o espírito do seu filho ao
coração de vocês e ele clama "Abba Pai".
Isso que é a coisa interessante. Por
quê?
A gente pode pensar em Deus sobre muitas
coisas. Eu já participei de encontros
teológicos, filosóficos e aí se fala
sobre Deus.
Deus conforme o motor de Aristóteles, o
que a filosofia antiga diz, o encontro
do pensamento platônico com a tradição
da igreja primitiva.
O Deus todo-poderoso no Antigo
Testamento, o El Shaddai, o criador do
universo, o Deus que existe fora do
tempo e do espaço.
O Deus que precisa ser descrito na
linguagem da filosofia mais profunda. A
gente tem tantas possibilidades de
descrever a Deus quando
a definição de identidade para saber
quem de fato eu sou que vai definir para
onde eu vou.
Ela se dá
na revelação ao coração de alguém que
agora com uma ousadia
diferenciada chama Deus de
Abba Pai. Eu acho legal, sabe por quê?
Porque Paulo faz [risadas] questão.
Eu tenho a impressão que ele ficou
pensando assim: "Que que eu vou escrever
aqui?" E aí ele foi buscar lá no
aramaico {barra} hebraico, né? Ele
poderia ter colocado simplesmente pater
em grego, mas não, ele faz questão.
Até porque essa é a linguagem também
usada lá em Romanos 8 de maneira
especial. Ele diz "Abba Pai". E aí ele
diz "Pessoal,
afinal de contas, a maioria de vocês,
gálatas, gentios,
limitados, pobres, a maioria numa
situação
escrava ou análoga à escravidão". Ele
diz "Assim você já não é mais escravo,
mas filho". E por ser filho,
Deus também
o tornou herdeiro. A maior
força e segurança
que existe no coração de uma pessoa vem
daquilo que está
no profundo do seu coração, do seu
interior. Uma construção de uma
espiritualidade
verdadeira, inabalável,
significativa
e definidora da nossa vida.
A gente pode mudar as coisas sociais. Eu
percebo pessoas, aliás, eu vejo pessoas
em busca de identidade, inclusive,
curiosamente,
mudando de caminho em cada momento da
vida, inclusive, inclusive mudando até
de de compreensão teológica da
realidade. A pessoa fala: "Olha,
se eu for mais assim, eu acho que eu tô
mais no
naquilo que eu deveria ser". Aí, daqui a
pouco ele descobre uma grama mais verde
do outro lado, ele falou: "Olha, então,
eu acho que esse caminho aqui é melhor".
Olha, você percebe todo esse
descaminho confuso de busca de alguma
coisa maior envolve uma sede profunda,
que é uma sede que tenta descobrir quem
eu sou,
para eu poder saber para onde eu vou. E
aí eu olho para a vida do apóstolo
Paulo. Eu olho para tantas pessoas da
igreja primitiva.
Se tinha alguém
que podia ter definido a sua identidade
de maneira absolutamente completa, ele
tinha várias opções. Ele poderia dizer,
e o que ele disse, inclusive: "Eu sou
judeu de judeu, sou fariseu de fariseu.
Eu tenho uma identidade religiosa
marcante, definida, promissora". E é
isso aqui. Paulo diz: "Olha,
eu olhei para isso, não deu em nada.
Minha etnia, pessoal, eu tenho o nome do
rei Saul. Eu sei até a minha tribo, eu
sou da tribo de Benjamim.
Eu poderei me firmar nisso. Pessoal, eu
tenho a melhor formação possível. Eu fiz
a Harvard, a Sorbonne
a Heidelberg da época. Eu tinha a maior
referência.
Porque eu tive educação grega, eu
conheço a literatura grega com
profundidade, inclusive a filosofia.
Posso conversar com esse pessoal.
Pessoal, eu tenho o melhor passaporte de
todos, eu sou cidadão romano. Eu tenho
condições de mostrar quem eu sou num
mundo onde pouca gente tem essa
capacidade.
Paulo diz, ó:
nem judeu,
nem grego,
nem romano,
nem a minha
tradição de fé ou minha identidade
étnica são capazes de definir quem eu
sou. Portanto,
o que eu sou, eu sou em Cristo Jesus. A
maravilha do evangelho não envolve
apenas o perdão dos pecados, apenas a
salvação pela fé, apenas a compreensão
do que Deus fez na história, apenas a
esperança da vida eterna,
apenas a vida em comunidade. O grande
impacto transformador
que muda tudo, envolve a nossa nova
identidade em Cristo Jesus como filhos
de Deus. Quando isso se estabelece, se
firma no nosso coração,
a gente não vê mais nada à nossa volta,
a não ser
aquele que é irmão.
Aí a gente tem condição
de ter
verdadeira
comunhão. E na vida a gente acha a
direção. Paulo achou a direção
na sua proposta de servir a Deus para
aquilo que ele foi chamado.
E aí não importa a circunstância. Os
elementos mais ameaçadores externos
nunca vão poder
abalar quem tem plena convicção de quem
é e para onde está indo, porque é filho
de Deus através da fé em Cristo Jesus.
Deus abençoe a sua vida.
Deus permita que você chegue a essa
conclusão
de se tornar filho de Deus pela fé
em Cristo Jesus, entregando a sua vida e
colocando todos os ídolos que a gente
constrói na vida de lado, para que a
gente, de fato,
entenda, de fato,
quem a gente é e a gente possa dizer:
"Puxa, finalmente, agora eu sei quem eu
sou.
Portanto, eu sei
para onde vou".
Deus abençoe a nossa vida
e o nosso coração.
Amém.
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