A amizade para o cristão é diferente // Jonas Madureira
15/07/2026
A amizade para o cristão é diferente // Jonas Madureira
Não somos bons amigos por causa da nossa virtuosidade, mas somente por aquele que detém todas as virtudes.
Trecho retirado da palestra "O declínio da amizade e a cultura do cancelamento", de Jonas Madureira na Conferência Fiel Jovens 2020.
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Fonte: Ministério Fiel
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Em especial nos livros 8 e 9 da ética Nicoma, o Aristóteles se dedica a tratar da amizade e mostra que a amizade ela deveria ser compreendida de três maneiras. Primeiro, a amizade entendida no sentido utilitarista. Então, eh, o amigo seria aquele que é, em alguma medida, útil para você, aquilo que hoje a gente chamaria facilmente de network. a sua lista de contatos que não são bem amigos, mas são amizades úteis. Por outro lado, ele entende que há também uma amizade baseada nos afetos, uma amizade afetiva, uma uma amizade baseada no prazer. Então, você tem amigos que são aqueles que te fazem bem, são aquelas pessoas que te te agradam, seja por afinidades, seja por uma maneira de pensar que é muito semelhante à sua. Então, essas pessoas que fazem tão bem para você, essas pessoas que te querem tão bem, tudo isso faz com que você ah, também escolha amigos pela afetividade, pelo prazer que essa amizade e deleite que essa amizade essa amizade lhe proporciona. Mas há um terceiro tipo de amizade. E este tipo de amizade, Aristóteles, vai dizer que é uma amizade mais rara de a gente viver, porque é amizade virtuosa, é a amizade justamente verdadeira, aquela que é baseada na areté, aquela que é baseada na virtude, na vida virtuosa. Portanto, é amizade que só pode ser vivida por pessoas virtuosas, por pessoas que são justas, prudentes, corajosas e temperantes. mínimo essas pessoas virtuosas é que poderiam vivenciar uma amizade verdadeira, que seria uma amizade em que a felicidade do outro, ela é colocada também como um critério importante ah pra amizade. Então, com isso, [roncando] Aristóteles vai dizer que as duas primeiras amizades que ele não vai negar, ele não vai dizer que elas são falsas, ele não vai dizer que elas não são amizades, ele só vai dizer que essas amizades são baseadas por um motivo, que é ou a utilidade ou o prazer ou os afetos. Mas essa outra amizade, ela independe dos afetos, ela independe da utilidade, ela tem uma outra razão de ser e ela só é possível entre pessoas virtuosas. E por isso esse tipo de amizade é tão rara. Daí Aristóteles dizer que essa amizade virtuosa não é uma amizade que você poderia cultivar entre muitas pessoas, mas é aquela amizade que você tem apenas entre poucas pessoas. Cêneca, um outro filósofo importante, agora não do cenário grego, mas do cenário romano. Ele vive ali no primeiro século da depois de Cristo, né? Ele escreve 124 cartas que são famosas a Lucílio, que é o governador da Sicília, um governador romano da Sicília nesse momento. E ele escreve essas cartas falando sobre várias e várias coisas, sobretudo relacionadas à ética. Muito parecido os temas com aqueles que ele trata na ética que Aristóteles tratou na ética anicômaco. Cneeca em uma de suas cartas, ah, a chamada carta três, uma carta que ele se dedica a falar sobre a verdadeira e a falsa amizade, ele diz exatamente o seguinte a Lucílio. Se você considera qualquer homem um amigo em quem você não confia, como você confia em si mesmo, você está muito enganado e você não entende o suficiente o que significa a verdadeira amizade. Então, a verdadeira amizade pra Cêca, ela além de ser relacionada, está relacionada a essa questão dos dos virtuosos, ela parte do pressuposto de que a confiança é a base da amizade. Você só tem uma amizade verdadeira com pessoas que você tem plena confiança. Bom, com esses dois grandes filósofos, um representando a a influência grega e o outro a influência romana na história do conceito de amizade, ah, no Ocidente, a gente chega a um entendimento básico de amizade como a um, pensando obviamente a amizade verdadeira como aquela que é centrada nas pessoas virtuosas. Ou seja, somente pessoas virtuosas podem cultivar a verdadeira amizade. E somente pessoas que confiam plenamente e que e são motivadas por essa confiança plena, é que poderiam vivenciar uma amizade verdadeira. A história muda um pouco com as contribuições do cristianismo para a história do conceito de amizade. O cristianismo traz outros elementos para a discussão ocidental acerca da amizade. E o cristianismo traz de uma maneira em que as escrituras, se a gente pudesse eh pensar a visão bíblica da amizade, a gente chegaria à conclusão de que as escrituras ah veriam na visão da amizade cultivada tanto por Aristóteles como por Cêneca, uma visão bastante ingênua. A pergunta é: onde estaria a ingenuidade? Imagina, não é não é pouca coisa chamar Aristóteles de ingênuo, não é pouca coisa chamar cênca de ingênuo. Então a gente precisa saber onde estaria essa ingenuidade do ponto de vista bíblico. [roncando][suspirando] Se a gente pudesse tomar como modelo, e é isso que a gente na verdade deveria fazer se somos cristãos. A palavra de Deus, sem sombra de dúvidas, a fala de Jesus sobre a amizade, ela tem um poder de nos fazer repensar toda essa tradição sobre a amizade, não medida em que ela estaria completamente equivocada ou errada, mas na medida em que, pelo menos um dos seus pressupostos é um pressuposto falso. Para isso, eu queria lembrar uma passagem de João, capítulo 15, versículo 13, em que Jesus, ele diz exatamente aos seus discípulos: "Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a própria vida pelos seus amigos." Há uma diferença de base conceitual da amizade no contexto greco romano, da amizade no conceito bíblico e eu me refiro em especial ao conceito eh cristão de amizade, que é a noção do amor como a base da amizade, mas não o amor meramente, mas o amor sacrificial, o amor que se sacrifica pelo outro, tanto em doa como na capacidade de perder para que o outro possa então alcançar o êxito. Então, se de um lado temos uma tradição greco-romana que estabelece a amizade com base na virtude e diz o seguinte: "Só poderemos vivenciar uma verdadeira amizade se formos virtuosos. Se tanto eu como o meu amigo verdadeiro formos virtuosos?" Os cristãos vão dizer: "Não, a amizade verdadeira não depende da virtuosidade dos amigos, mas depende do amor." O evangelho então nos ensina que o olhar pagão da amizade é um olhar que não consegue contemplar a visão ingênua acerca do homem como alguém virtuoso. O evangelho, nesse sentido, nos mostra uma visão do ser humano muito mais realista, uma visão do ser humano que não colocaria a amizade sob a base nem confiança, nem das virtudes. É possível amar um traidor. O cristianismo nos ensina. É possível chamar de amigo aquele que nos dá o beijo da traição. É possível chamar de amigo aquele que em poucos minutos irá negar que o conhece, irá negar a sua própria amizade. O cristianismo não ensina que a amizade só pode acontecer entre pessoas virtuosas. Não, a amizade acontece e é possível de ser vivenciada entre pessoas quebradas, entre pessoas que estão lutando para serem aquilo que Cristo quer que elas sejam. M.