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A fé vem pelo ouvir

A "Dança" Secreta da Vida Divina | Josemar Bessa

A "Dança" Secreta da Vida Divina  | Josemar Bessa

A "Dança" Secreta da Vida Divina | Josemar Bessa

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Legendas automáticas:

Graça e paz, queridos. Hoje, hoje
queremos olhar o mais alto possível
dentro das nossas limitações.
Eu quero começar falando sobre uma
desordem.
Há uma desordem muito antiga no coração
humano. Não apenas a desordem moral, não
apenas a desordem dos desejos, não
apenas a desordem da vontade, mas uma
desordem ainda mais funda, mais
silenciosa
e mais abrangente. A desordem de começar
pelo lugar errado. Nós sempre começamos
pelo lugar errado. O homem começa por
si, começa por sua necessidade, começa
por sua dor, começa por sua culpa,
começa por sua busca, começa por sua
crise, começa por suas perguntas, começa
por sua fome de sentido, começa por sua
vontade de ser feliz. O homem começa por
sua tentativa de sobreviver ao peso do
mundo. O homem começa por seu desejo de
resolver a vida, compreender a fé.
suportar o tempo, organizar o caos,
aliviar a consciência,
encontrar paz. E, no entanto, a
realidade não começa aí. A fé cristã
também não. Antes da nossa necessidade,
há a plenitude de Deus. Antes da nossa
fome, há a satisfação infinita de Deus
em si mesmo. Antes da nossa busca, há a
vida de Deus, completa, perfeita, eterna
e sem
carência.
Antes da criação,
antes da queda, antes da história, antes
do sofrimento, antes dos anjos, antes
dos céus, antes da luz primeira, antes
do primeiro movimento do tempo, antes de
qualquer criatura levantar os olhos para
perguntar quem é Deus, Deus já era. E
Deus não estava em processo, não estava
se tornando, não estava crescendo, não
estava se descobrindo, não estava
preenchendo alguma ausência antiga,
não estava solitário à espera de
companhia, não estava incompleto à
espera de expressão.
Deus não estava silencioso por falta de
palavra, não estava sem amor à espera de
um objeto externo.
Deus não estava sem alegria à espera de
uma plateia. Deus não estava sem glória
à espera do mundo. Deus já era Deus
bendito eternamente.
E essa frase tão breve, tão simples,
quando tem uma profundidade que
ultrapassa a capacidade de qualquer
mente criada.
Porque dizer que Deus já era Deus é
dizer que tudo quanto nele é vida, luz,
amor, perfeição, plenitude, beleza,
conhecimento, alegria e majestade não
surgiu com o mundo, não surgiu com a
criação, não depende do mundo, não
cresce com o mundo, não recebe do mundo
e não precisa do mundo para ser o que é.
O mundo não acrescenta nada a Deus. A
criação não aperfeiçoa Deus. A história
não enriquece Deus. A redenção, a nossa
redenção não completa Deus. A adoração
da igreja não supre alguma falta em
Deus. Nossa obediência não preenche o
vazio divino. Nosso amor não inaugura
algo que antes lhe faltasse. Nosso
louvor não acende uma glória adormecida.
Tudo que Deus é, ele é em si mesmo.
Sempre foi, sempre será. E talvez uma
das primeiras purificações
de que a alma necessita ao se aproximar
da teologia seja precisamente esta,
aprender,
aprender a pensar em Deus não como um
ser supremo, entre outros seres, não
como uma versão infinita de nossos
próprios afetos, não como monarca
cósmico, que embora maior do que tudo,
ainda assim dependa de algo fora de si
para exercer plenamente o que É não.
Deus
não é grande apenas em grau.
Não é simplesmente mais forte, mais
sábio, mais brilhante ou mais antigo do
que nós. Ele não pertence à mesma ordem
do ser que nós, apenas numa escala
incomparavelmente superior. Não. Deus é
Deus.
E entre essa afirmação e qualquer
imaginação humana, há um abismo
sem fim.
Porque tudo o que conhecemos na criação
vive sob a marca da dependência. Toda
criatura recebe, toda criatura deriva.
Toda criatura é sustentada. Toda
criatura se move porque outra coisa a
move. Toda criatura ama porque foi feita
para amar. Toda criatura deseja porque
lhe falta algo. Toda criatura procura
porque não possui em si mesmo a fonte da
sua própria plenitude.
Toda criatura conhece por participação.
Toda criatura existe por concessão.
Toda criatura em algum nível tende para
fora de si porque não pode bastar-se.
Mas Deus não. Deus não tende para fora
de si por carência. Não busca porque
nada lhe falta. Não recebe porque nada
lhe possa ser dado. Não aprende porque
nada lhe está oculto. Não se desenvolve
porque nada nele está incompleto.
Deus não se aperfeiçoa porque já é
perfeição.
Deus não sai de si à procura de
satisfação, porque em si mesmo é vida
infinita, plenitude sem fissura.
Ele é em si mesmo felicidade sem sombra.
Glória sem início e amor sem indigência.
Deus é conhecimento sem limite. É aqui
que a mente humana começa a vacilar,
porque estamos acostumados a pensar a
partir da falta
e pensamos por comparação. Desejamos
para ausência, amamos porque somos
atraídos por algo que não temos em nós.
Nos movemos porque há diante de nós algo
ainda não alcançado.
Mas em Deus não há esse tipo de
movimento originado na necessidade.
Em Deus não há carência que explique a
sua ação. Em Deus não há vazio que
motive a criação. Em Deus não há solidão
primordial que torneo.
Em Deus não há necessidade de
testemunhas para que sua glória exista.
Ele não recebe validação exterior. Em
Deus não há melancia.
Melancolia eterna à espera de seres que
o homem.
Isso precisa ser dito com força,
precisa ser dito de novo, precisa ser
dito contra mil distorções religiosas e
emocionais que, por mais piedosas que
pareçam, acabam reduzindo Deus à imagem
de um rei solitário, de um artista
carente de plateia, de um pai
fragilizado pela ausência de filhos, de
uma divindade que cria porque precisa
amar algo para ser plenamente quem é.
Não,
absolutamente não. Deus não criou porque
precisava, criou porque quis. Não criou
para completar-se, criou a partir da sua
plenitude.
Deus não criou porque estava só, criou
porque a solidão nunca existiu em Deus.
Deus não criou porque o amor só pudesse
existir quando dirigido a criaturas.
Deus criou porque o amor já era
eternamente pleno em sua própria vida.
Deus não criou porque a glória
precisasse de cenário. Criou porque a
glória já transbordava antes que
houvesse cenário algum.
É por isso que toda a teologia
verdadeiramente cristã precisa cedo ou
tarde ser desalojada da abstração monota
monótona de um Deus eh genérico, um Deus
genericamente supremo. Ainda não é o
Deus das Escrituras. Um Deus concebido
apenas como unidade
indiferenciada, vontade absoluta, o
poder nu, ainda
não é o Deus vivo. Um Deus pensando sem
comunhão, sem riqueza interna, sem vida
relacional plena, sem palavra, sem amor
eterno, sem alegria intradiv.
É uma ideia alta demais para o homem
comum e baixa demais para revelação
bíblica. Porque o Deus da Bíblia, o Deus
da Bíblia não é apenas um, ele é uno,
sim, mas sua unidade não é esterilidade.
Sua unicidade não é solidão. Sua
simplicidade não é monotonia. Sua
eternidade não é imobilidade
vazia.
Seu ser não é silêncio estéril. Sua
glória não é clarão sem calor. Sua
plenitude não é um repouso inerte. O
Deus da Bíblia é vivo. E quando dizemos
vivo, não estamos usando apenas uma
palavra devocional, um adjetivo
reverente, um modo piedoso de falar que
Deus age na história.
[tosse]
Não.
Estamos dizendo algo mais profundo.
Vida em Deus não é algo acrescentado, é
sua própria realidade. Ele não tem vida
como nós a temos por participação. Ele é
a fonte dela, a fonte da vida. Ele não
apenas vive, ele é o Deus vivo.
Toda vitalidade verdadeira, toda beleza
real, toda inteligência pura, todo amor
que não se corrompe, toda alegria que
não se esgota, toda comunhão sem sombra,
toda glória sem vaidade e toda
felicidade sem mistura, são apenas
reflexos criados e fragmentários
da plenitude encriada que nele sempre
foi. E é precisamente aqui que a fé
cristã começa a pulsar com força
própria. Porque se começamos por nós,
tudo se encolhe. Deus vira resposta.
Deus vira recurso, Deus vira auxílio.
Deus vira solução religiosa para o homem
ferido.
Deus vira peça central da nossa
tentativa de organizar a existência.
Deus vira
objeto da nossa necessidade. Mesmo
quando falamos alto sobre ele, no fundo
continuamos tratando como função dentro
da nossa história.
Mas quando começamos com Deus,
tudo muda. O homem deixa de ser o centro
da cena. A queda deixa de ser o primeiro
capítulo. A redenção deixa de ser um
plano improvisado
e a graça deixa de parecer mera reação
divina ao nosso fracasso.
A própria criação adquire outro brilho.
A salvação deixa de ser apenas resgate
de miseráveis e passa a ser inclusão de
criaturas numa realidade infinitamente
maior do que sua simples necessidade.
todo mundo, porque antes de tudo, Deus,
antes do pecado, Deus, antes da
tristeza, Deus
antes do abismo, Deus antes da promessa,
Deus antes da aliança, Deus antes de
Abraão, Deus antes de Moisés, Deus antes
de Davi, Deus antes dos profetas, Deus
antes de Belém, Deus antes do Getsemman,
Deus antes do túmulo vazio, Deus antes
da igreja.
Deus, antes do último dia, Deus. Isso
não reduz a história da redenção. Pelo
contrário, dá-lhe seu verdadeiro
tamanho, porque o evangelho não é a
tentativa de Deus de recuperar algo sem
o qual ele não poderia ser plenamente
feliz. O evangelho é livre, santo, sábia
e gloriosa ação de um Deus que já era
perfeitamente bem aventurado, feliz em
si mesmo e que, sem qualquer necessidade
decidiu fazer com que criaturas
participassem
de sua bondade. A redenção não é o
movimento desesperado de um Deus
diminuído pela queda e pelo pecado. Esa
tensão soberana da bondade de um Deus
cuja vida nunca esteve ameaçada por nada
fora dele.
É só quando percebemos isso,
começamos a sentir a verdadeira
estranheza
da graça. A graça realmente é livre,
porque graça não brota da falta divina,
brota da plenitude divina. A graça não
brota da necessidade, brota da
generosidade.
A graça não brota da carência, brota da
superabundância.
A graça não brota do fato de Deus
precisar de criaturas para amar. Brota
do fato de que o amor já é tão real, tão
pleno, tão perfeito e tão vivo em Deus,
que a criação e a redenção aparecem não
como remédio para sua pobreza, mas como
um transbordamento da sua riqueza.
Mas ainda estamos apenas no limear,
porque dizer antes de tudo, Deus ainda
não é dizer o suficiente. É preciso
acrescentar antes de tudo o Deus treino.
E aqui o coração do evangelho começa
realmente a pulsar, começa realmente a
bater.
Pois se Deus fosse apenas uma unidade
solitária, ainda poderíamos afirmar
muitas coisas sublimes a seu respeito.
poder, eternidade,
sabedoria, soberania, imutabilidade.
Mas continuaríamos diante de uma
pergunta que assombra toda a visão não
trinitária de Deus. Como o amor pode ser
eterno se não há desde sempre comunhão
real em Deus?
Como a palavra pode ser eterna se não há
desde sempre autoexpressão viva em Deus?
Como a alegria pode ser plena se não há
desde sempre regozijo mútuo em Deus?
Como a glória pode ser relacionalmente
perfeita se só mais tarde com a criação
surgirem outros para contemplá-la?
A resposta cristã não é filosófica
primeiro é bíblica, é revelacional, é
adoradora, é assombrosa. Deus é pai,
filho e espírito santo. E isso significa
que antes de haver mundo já havia
comunhão. Antes de haver criaturas para
contemplar Deus, Deus já se conhecia
perfeitamente.
Antes de haver seres para amar Deus, já
havia amor em Deus. Antes eh de haver
qualquer cântico criado, já havia
alegria em Deus. Antes de haver
história, já havia glória. Antes de
haver linguagem humana, já havia
palavra.
Antes de haver sopro nos pulmões dos
homens, já havia espírito. Antes de
qualquer relação criada, já havia vida.
Vida relacional perfeita no próprio ser
de Deus. E é aqui que todo pensamento
cristão se torna mais brilhante, mais
quente e mais vasto, porque já não
falamos de uma deidade abstrata. Falamos
do Pai, falamos do Filho, falhamos,
falamos do Espírito Santo.
Já não falamos eh de mera unidade,
falamos de plenitude. Já não falamos de
mero poder, falamos de vida, já não
falamos de uma eternidade vazia, falamos
de uma eternidade fecunda, luminosa,
consciente, amorosa, feliz e
infinitamente plena.
A doutrina da trindade não é um apêndice
estranho da fé cristã, é uma charada
sofisticada para teólogos pacientes. Não
é uma extravagância metafísica suspensa
acima da vida comum. Não é um enigma
ornamental acrescentado ao final do
credo para humilhar a razão.
A trindade
ela é o coração ardente da visão cristã
de Deus. É a razão pela qual a glória
divina não é um brilho frio. É a razão
pela qual o amor não entra tardiamente
na história de Deus. É a razão pela qual
a criação pode ser compreendida como
transbordamento e não como compensação.
É a razão pela qual a redenção pode ser
compreendida como convite e não como
simples reparo.
É a razão pela qual o evangelho, em seu
ponto mais alto, não nos oferece apenas
perdão, mas comunhão.
é também a razão pela qual a vida cristã
não pode ser reduzida à moralidade,
utilidade, consolo subjetivo ou
sobrevivência
religiosa, espiritual. É a razão pela
qual o céu não será apenas ausência de
dor, mas participação em alegria.
É a razão pela qual a glória de Deus não
pode ser entendida sem falar de
conhecimento, amor, deleite e vida em
Deus mesmos. em Deus mesmo.
Nós não devemos eh ir ou correr depressa
demais, porque antes de entrar nessas
riquezas, a alma precisa parar e
aprender de novo a ficar em silêncio
diante da primazia de Deus. precisa ser
curada da pressa antropocêntrica,
precisa desaparecer
e com ideias e precisa desaprender a
tratar a teologia como ferramenta
imediata para autogestão espiritual ou
autogestão da vida. Precisa permitir que
Deus seja Deus antes de perguntar o que
tudo isso faz por mim.
precisa sentir a majestade
dessa simples realidade. Tudo começa
nele, não em mim.
Esse deslocamento é mais importante do
que parece, porque enquanto o homem
continua sendo o ponto de partida, até
mesmo a linguagem da glória de Deus pode
ser absorvida pela lógica do eu. Deus
será glorioso porque me ajuda. Deus será
grande porque me salva, me responde.
Deus será precioso porque me sustenta.
Deus será admirável porque cabe dentro
do drama da minha história.
E assim mesmo quando confessamos eh sua
centralidade, o usamos como eixo para
continuar falando de nós mesmos.
Mas quando a alma é finalmente arrancada
desse centro falso, ela começa a ver,
começa a ver que Deus não é glorioso
porque é útil, ele é útil porque é
glorioso. Não é belo porque responde à
nossa carência.
Nossa carência é tão desesperadora,
justamente porque fomos feitos para ele.
Não é importante porque nos consola. Seu
consolo só é consolo porque procede
daquele que é em si mesmo, a plenitude
de todo bem.
Não é digno porque se relaciona conosco.
Qualquer relação conosco só é espantosa
porque ele já é em si mesmo
infinitamente digno. E então algo de
muito precioso acontece.
O coração começa a sentir que o
verdadeiro começo da sabedoria não é
apenas perceber que Deus existe, nem
apenas que Deus manda, nem apenas que
Deus julga, nem apenas que Deus salva.
O verdadeiro começo da sabedoria é
contemplar que Deus é Deus antes de mim,
sem mim, acima de mim, em si mesmo e
ainda assim não fechado em esterilidade,
mas pleno de vida e glória em sua
própria eternidade.
Esse é o primeiro grande liliar antes da
criação Deus, antes da redenção Deus,
antes da história Deus, antes de tudo,
Deus.
E não um Deus qualquer, não uma unidade
vazia, não um absoluto abstrato, não um
soberano solitário,
mas o Deus vivo, bendito, pleno e
triunfo, o Pai, o Filho e o Espírito
Santo.
Talvez uma das ideias e mais pobres que
já se pensaram acerca de Deus seja a de
uma majestade solitária, uma espécie de
grandeza isolada, um absoluto silêncio,
uma eternidade imóvel, uma perfeição sem
comunhão, um poder sem ternura,
uma glória sem troca, uma unidade tão
rígida que, embora imensa, se torna
fria,
uma divindade suficientemente elev
levada para impor reverência, mas não
suficientemente viva para explicar o
amor.
algo de profundamente
melancólico nessa imaginação, porque ela
até pode produzir temor, pode produzir
tremor metafísico, pode produzir
assombro diante da vastidão,
pode produzir submissão
a uma força suprema, mas não consegue
explicar a alegria, não consegue
explicar a comunhão, não consegue
explicar porque o amor não é um
acréscimo tardio na realidade.
não consegue explicar porque
a relação não é um acidente posterior da
existência, mas algo que parece correr
por dentro da própria estrutura do ser.
A fé cristã ousa responder de modo
espantoso, porque Deus nunca esteve só.
Nunca. Nunca houve um instante de
solidão em Deus. Nunca houve um momento
anterior ao amor. Nunca houve uma
eternidade muda. Nunca houve um Deus sem
palavra. Nunca houve plenitude sem
deleite. Nunca houve glória sem
conhecimento, nunca houve vida sem
comunhão. O pai nunca existiu sem Filho.
O filho nunca existiu sem o pai. O
Espírito Santo nunca foi uma adição
posterior ao ser divino.
antes de toda a criação, eternamente
antes de toda a criação, antes de
qualquer princípio, antes de toda medida
do tempo, antes de todo a, antes de
qualquer brilho criado, antes de
qualquer mente angélica, antes de
qualquer jardim, antes de qualquer
estrela, antes de qualquer voz humana
que dissesse Deus, já havia o Pai, o
Filho e o Espírito Santo. Isso precisa
ser dito não apenas como fórmula, Pai,
Filho, Espírito Santo, mas como
assombro, porque boa parte da nossa
pobreza espiritual começa quando
repetimos a trindade como doutrina
correta, mas não a sentimos como
revelação ardente. Dizemos pai, filho e
espírito santo e seguimos adiante como
quem apenas preserva um artigo de fé
ortodoxo importante.
Mas há vulcões de glória escondidos
nessa confissão. Há nela a diferença
entre um universo habitado por comunhão
eterna e um universo saído de uma
solidão inexplicável.
Há nela a diferença entre um amor que é
essencial à realidade e um amor que só
entrou em cena tardiamente.
Há nela a diferença entre uma glória
viva e uma glória inerte. Dizer que Deus
nunca esteve só é dizer que o amor não
começou. Ele não começou quando o mundo
foi criado, não começou quando os anjos
foram criados. O amor não começou quando
o homem ergueu a voz em adoração. O amor
não começou quando houve uma criatura
para ser amada. O amor já era. O amor já
vivia. O amor já ardia sem febre, sem
carência, sem oscilação, sem miséria,
sem necessidade
dentro da própria vida de Deus. O Pai
amava o Filho antes da fundação do
mundo. O filho vivia voltado para o pai
numa perfeita correspondência filial. O
espírito não surgiu como força impessoal
entre ambos, mas como a própria vida
divina em sua plenitude pessoal, santa,
gloriosa e eterna.
Tudo o que em nós aparece como lampejo,
afeto, alegria, conhecimento, comunhão,
prazer, repouso no outro, satisfação em
contemplar, felicidade em dar-se e
receber-se. Tudo isso existe em Deus,
sem sombra, sem mistura, sem corrupção,
sem mutabilidade, sem cansaço, sem risco
de perda.
A nossa experiência de comunhão é
fragmento, em Deus é oceano.
A nossa experiência de amor é alternada,
em Deus é plenitude.
A nossa experiência de conhecer é
penosa, parcial, hesitante. Em Deus é
conhecimento perfeito. A nossa
experiência de alegria é vulnerável.
Em Deus a alegria é invencível.
A nossa experiência de relação está
sempre ameaçada por malentendidos,
egoísmos, temores, silêncios e limites.
Em Deus, a comunhão é sem ruído, sem
fratura, sem defesa, sem opacidade. É
por isso que o Deus doutrino não pode
ser pensado como se fosse apenas uma
versão religiosa da palavra divindade.
Ele não é conceito ampliado, não é
construção filosófica. revestida de
nomes bíblicos. Não é mero ser supremo,
é o pai eterno com o filho eterno no
vínculo eterno do espírito santo. É vida
sem começo, é comunhão sem rachadura, é
amor sem necessidade, é alegria sem
interrupção.
E talvez aqui precisamos
desacelerar de novo, desacelerar mais
uma vez, porque o coração humano
acostumado à escassez custa acreditar na
plenitude. Nós conhecemos o amor com
medo, conhecemos a alegria com data de
validade, conhecemos o encontro com a
sombra da perda, conhecemos a comunhão
com o risco da ruptura. Conhecemos a
beleza com o presságio do
desvanecimento.
Conhecemos a intimidade sobre a pressão
do mal entendido. Conhecemos até mesmo
os melhores dons da vida como coisas
frágeis, emprestadas,
intermitentes.
Então, quando falamos da plenitude em
Deus ou de plenitude em Deus, quase
sempre imaginamos algo menor do que
realmente é.
Traduzimos o infinito em termos da nossa
experiência quebrada. Pensamos em Deus
como se ele tivesse apenas uma versão
maximizada do que chamamos de
felicidade.
Mas a felicidade de Deus não é uma
emoção muito grande, é a própria
perfeição da sua vida intradivina.
A alegria de Deus não é um humor
exaltado,
é o eterno regozijo do Pai, do Filho e
do Espírito na comunhão infinita de seu
próprio ser. O amor de Deus não é apenas
disposição benevolente. É a própria vida
de Deus em sua santa, pessoal, mútua e
inesgotável entrega. O Deus trino não é
feliz porque as coisas deram certo para
ele. Não é feliz porque recebeu algo.
Não é feliz porque realizou um plano.
Não é feliz porque olhando para fora de
si encontrou o que lhe faltava.
Ele é bem-aventurado ou feliz em si
mesmo.
Que frase incrível, que frase magnífica.
bem-aventurado
em si mesmo.
E isso quer dizer que toda felicidade
criada, quando é verdadeira, apenas
participa de longe da felicidade
encriada.
Todo prazer legítimo, toda paz pura,
toda comunhão bela, toda amizade santa,
todo amor ordenado, todo deleite sem
culpa, toda mesa em que há gratidão,
toda casa em que há descanso, toda
música que parece carregar algo maior do
que suas notas, todo abraço que, por um
instante nos faz suspeitar que o mundo
foi feito para a reconciliação. Tudo
isso é apenas eco. apenas ego, apenas
centelha, apenas traço, apenas reflexo
frágil da felicidade absoluta de Deus em
Deus.
E essa felicidade não é fechada como
avareza, é plena como fonte. E isso
importa tanto, isso importa muito.
Porque quando pensamos em
autossuficiência, tendemos a imaginar
distância. Pensamos num ser que basta a
si mesmo e por isso não se inclina, não
comunica, não se doa, não se relaciona.
Mas a autossuficiência do Deus trino não
é isolamento estéril, é superabundância.
Ele não precisa porque está cheio. E
justamente por estar cheio, pode dar sem
perder, comunicar sem se empobrecer,
transbordar sem se esvaziar.
Sua liberdade
é a liberdade da plenitude, não a
rigidez da carência protegida.
O pai não ama o filho como quem busca se
completar nele. Ama-o como a eternidade
ama sua própria perfeição em forma
filial. O filho não responde ao pai como
quem procura um lugar onde finalmente
repousar.
responde como o resplendor perfeito da
glória paterna em alegria, obediência e
amor sem início. O Espírito Santo não é
mero elo impessoal entre os dois. É Deus
vivo e santo, procedendo em glória,
plenitude e deleite. Tudo em Deus é
vivo. O Pai vive, o Filho vive, o
Espírito vive. Tudo em Deus é pessoal. O
Pai conhece, o Filho conhece, o Espírito
conhece. Tudo em Deus é amoroso. O Pai
ama, o Filho ama. O espírito não apenas
participa dessa comunhão, mas é
plenamente Deus na realidade gloriosa
dessa vida
compartilhada.
Tudo em Deus é alegria. Não alegria
superficial, não leveza sentimental, não
felicidade de superfície, mas a alegria
santa do ser absolutamente pleno. A
alegria sem rival da perfeição que se
conhece inteiramente, a alegria de uma
comunhão em que nada falta, nada se
perde, nada ameaça, nada empobrece, nada
corrompe. é que talvez esteja
uma das grandes correções que a doutrina
da trindade traz à imaginação religiosa
do homem. Porque muita religião fala de
Deus como se o centro de sua identidade
fosse somente poder ou somente vontade
ou somente domínio, ou somente
transcendência ou somente santidade
concebida como distância. Tudo isso, em
certo sentido,
toca aspectos verdadeiros, mas nenhum
deles isoladamente diz o suficiente.
O centro vivo da realidade, segundo a
revelação bíblica, não é o poder nu, é a
plenitude trinitária.
Não é a força sem rosto, mas o Pai, o
Filho e o Espírito Santo. Não a solidão
majestosa, mas a comunhão infinita.
Não o silêncio absoluto, mas a palavra
eterna. Não a aridez uma unidade
abstrata, mas a fecundidade luminosa da
vida de Deus. Não o frio de uma
perfeição isolada, mas o fogo de um amor
que nunca começou. É por isso que a
trindade não pode ser tratada como um
problema matemático da teologia. O erro
começa precisamente quando se pensa que
a questão principal é como pode Deus ser
três e um. Essa pergunta é legítima,
claro, mas tomada sozinha ela já é
estreita demais. A questão mais funda
não é aritmética, é vital. O que está
sendo revelado não é uma curiosidade
numérica da essência divina. é o fato de
que o próprio ser de Deus é comunhão
viva, perfeita e eterna.
É o fato de que na raiz de todas as
coisas não há esterilidade, mas
fecundidade. Não há mutismo, mas
autoexpressão. Não há indiferença, mas
amor. Não há estagnação, mas vida. A
realidade em seu nível mais alto não é
impessoal, é trinitária.
Isso muda tudo. Muda a forma como
pensamos a criação, porque então o mundo
não nasce da falta, mas do
transbordamento.
Muda a forma como pensamos o amor,
porque o amor não é solução tardia para
a solidão das criaturas, mas reflexo
criado da eterna felicidade de Deus.
muda a forma como pensamos a glória.
Porque então a glória não é brilho sem
relação, mas plenitude de conhecimento,
amor e deleite em Deus mesmo.
E também muda a forma como pensamos a
salvação. Porque então ser salvo não é
apenas ser poupado da culpa, mas ser
conduzido para perto da vida mesma de
Deus.
E muda a forma como pensamos a alegria.
Porque então a alegria não é um acidente
emocional da existência, mas uma nota
criada que participa de longe da música
eterna da comunhão trina e muda até a
forma como pensamos o próprio ser.
Porque então o universo não saiu do
ventre de uma abstração, mas das mãos do
Deus vivo. Há uma frase que poderia
resumir toda a força até aqui. A vida é
mais antiga do que o mundo e o universo,
mas não a vida biológica, não o pulso
dos organismos, não o fôlego das
criaturas.
A vida de que falamos é infinitamente
anterior, mas funda e mais real. É a
vida do Pai, no Filho pelo espírito. É a
vida divina. É o fugor
da eternidade em comunhão plena. É o
fato de que antes de todas as coisas já
havia movimento sem instabilidade,
deleite sem necessidade, conhecimento
sem descoberta, amor sem carência,
glória sem testemunhas criadas.
Quando o homem perde isso, tudo em sua
fé se torna menor. Deus vira tese, a
adoração vira dever, a santidade vira um
peso, a glória vira um slogan, a
salvação vira mecanismo, a igreja vira
estrutura, a piedade vira disciplina
seca, a eternidade vira continuidade,
sem fascínio.
Mas quando a alma começa a perceber que
Deus nunca esteve só, algo aquece.
Porque então a eternidade deixa de
parecer vazia, interminável e passa a
parecer plenitude viva. A glória deixa
de ser apenas claridade ofuscante, passa
a ter calor, relação, beleza, intimidade
santa.
A própria ideia de comunhão deixa de ser
uma necessidade inferior das criaturas e
passa a ser vestígio da mais alta
realidade. Talvez por isso a doutrina da
trindade quando de fato entra no
coração,
não resfria a fé, incendia. Ela
encender, porque mostra que no centro do
universo não há mecanismo, mas amor. Não
há abstração, mas comunhão. Não há
monotonia, mas plenitude. Não há
carência, mas felicidade.
Não há um Deus à espera de ser
completado, mas o Deus bendito que em si
mesmo já é eternamente suficiente. E
aqui o pensamento deve se curvar em
reverência, porque ainda estamos apenas
olhando de longe. Ainda não falamos do
Filho como imagem perfeita do pai. Ainda
não falamos do espírito como sopro
santo, o deleite divino. Ainda não
falamos da habitação mútua das pessoas
divinas. Ainda não falamos da glória
como plenitude trinitária. E ainda não
falamos do assombro maior de todos. que
esse Deus que nunca esteve só decidiu
não permanecer sozinho em relação à
criação, mas abrir espaço por pura graça
para que criaturas participassem de sua
alegria infinita.
Mas tudo isso depende deste fundamento.
Deus nunca esteve só. Nunca houve um
antes da comunhão em Deus. Nunca houve
um antes do amor em Deus. Nunca houve um
antes da glória em Deus.
Nunca houve um antes da alegria em Deus.
O Pai sempre amou o filho. O filho
sempre esteve voltado para o pai. O
espírito sempre procedeu
em plenitude santa. Sempre houve em Deus
vida, sempre houve em Deus beleza,
sempre houve em Deus deleite, sempre
houve em Deus eh comunhão.
E porque sempre houve em Deus essa
plenitude, toda a realidade criada é no
máximo um eco distante dela. E toda a
esperança da redenção será no fim sermos
levados não a um prêmio externo, não a
uma eh neutralidade sem dor, não a um
repouso impessoal, mas a participação
nessa vida que nunca começou, porque
sempre foi.
Então pense, se Deus nunca esteve só,
então jamais esteve sem conhecimento de
si. E se jamais esteve sem conhecimento
de si, jamais esteve sem amor de si. E
se jamais esteve sem amor de si, jamais
esteve sem alegria de si. Essa sequência
importa. Importa porque a vida
trinitária não é uma confusão nebulosa
de grandezas abstratas.
Não é apenas uma forma elevada de dizer
que Deus é misterioso.
É sim um mistério, mas o mistério
luminoso, vivo, fecundo, cheio de
direção interna, plenitude consciente e
glória pessoal.
O Deus das Escrituras não é apenas
aquele que existe, é aquele que se
conhece perfeitamente, se expressa
perfeitamente e se ama perfeitamente.
Essa perfeição de vida não conhece nada
que seja solidão.
Essa perfeição de vida não acontece de
maneira solitária, muda ou impessoal.
Ela acontece no Pai, no Filho e no
Espírito Santo. Talvez uma das maneiras
mais belas de começar a sentir isso seja
prestar atenção à maneira como a
escritura fala no filho. Ela o chama de
imagem, de esplendor, de expressão
exata, de palavra, de sabedoria, de
resplendor da glória, de revelação do
Pai.
Ela chama de aquele que estava com Deus
e era Deus. Tudo isso importa na mesma
direção. O Pai jamais foi um Deus sem
rosto para si mesmo. Jamais. O Pai não
vive numa interioridade opaca. Não
existe como uma profundidade sem
expressão. Não é uma fonte sem reflexo.
Não é um ser escondido até de si.
Desde toda a eternidade, o Pai se
contempla perfeitamente no filho. Desde
toda a eternidade, a plenitude divina
está diante de si mesma, sem distorção,
sem sombra, sem intervalo, sem
deficiência, sem
descompasso.
O filho não surge como um segundo
momento de Deus, como se o pai primeiro
existisse sozinho e depois encontrasse
um modo de se expressar. Não, o filho é
eterno. O filho é Deus de Deus, luz de
luz, verdadeiro Deus de verdadeiro Deus.
Ele não é criatura, não é reflexo
criado, não é espelho fabricado no
tempo, é o esplendor eterno da glória do
Pai. Há uma grande diferença entre a
maneira como nós nos conhecemos e a
maneira como Deus se conhece.
Nós nos conhecemos mal, aos pedaços, com
opacidade, com atrasos, com autoengano,
com contradições,
com regiões obscuras que nem nós mesmos
compreendemos.
Nosso autoconhecimento é trabalhoso,
incerto, frequentemente doloroso.
Exige tempo, correção, confronto, crise,
memória, humilhação. E mesmo quando
chegamos a alguma lucidez,
ela é parcial, vacilante e incompleta.
Mas em Deus não há nada disso. O pai
conhece a si mesmo perfeitamente. E esse
conhecimento não é uma abstração, não é
um conceito frio, não é uma ideia
desencarnada, é o filho. Aqui a mente
quase sempre hesita, porque estamos
acostumados a pensar em ideia como algo
menor do que a pessoa. Pensamos em
conhecimento como representação mental e
não como plenitude viva. Mas quando
falamos de Deus, tudo precisa ser dito
com mais reverência e cuidado. Filho não
é uma ideia no sentido diminuído, frágil
e conceitual em que nós temos ideias.
Ele é o conhecimento perfeito, vivo,
pessoal, eterno, subsistente,
glorioso do Pai por si mesmo.
É a autoexpressão infinita de Deus. É a
palavra que Deus sempre teve. É o verbo
que nunca começou. É a imagem que não
apenas mostra Deus, mas é Deus.
É por isso que quando Jesus anda entre
os homens, olha para Felipe e diz: "Quem
me vê vê o Pai". Não porque o Pai e o
Filho sejam a mesma pessoa. Não porque
Jesus seja apenas um modo temporário de
manifestação de Deus, mas porque tudo
que o Pai é resplandece no Filho. O
filho não é outro Deus ao lado do Pai,
nem um ser inferior que apenas aponta
para algo maior do que ele mesmo. Ele é
o esplendor da glória do Pai.
Ele é a expressão exata de seu ser. Ele
é a autoexpressão viva da divindade. Ver
o Filho é ver o pai. Ouvir o Filho é
ouvir a palavra eterna do pai.
Contemplar o filho é contemplar a beleza
que o pai contempla desde sempre. Isso
lança uma luz imensa sobre a eternidade.
Que significa que o pai nunca viveu sem
esse esplendor diante de si. Nunca houve
um antes da beleza do filho. Nunca houve
um antes da palavra. Nunca houve um
antes da sabedoria. Nunca houve um antes
da autoexpressão divina. O filho é
eternamente o rosto de Deus voltado para
Deus.
Essa frase não esgota nada, mas talvez
ajude a sentir alguma coisa. O filho é o
rosto eterno de Deus. a forma perfeita
da autoexpressão divina,
a beleza plenamente contemplada, o
resplendor sem começo, a nitidez eterna
do ser divino em sua própria luz. E
então surge
a outra pergunta: se o Pai contempla o
Filho com perfeita clareza, o que há
entre eles? A resposta da Escritura é
clara e profunda. Amor, deleite, prazer,
gozo, comunhão santa, perfeita
correspondência de afeto e glória. O pai
ama o filho, o filho ama o pai. O filho
vive da parte do pai, o pai se compra no
filho. O filho faz sempre o que agrada
ao pai. O amor não entra depois da
relação deles. O amor já é a atmosfera
eterna da vida divina.
Mas mesmo essa linguagem ainda pode ser
ouvida de modo pobre se não avançarmos
mais um pouco. Porque podemos dizer: "O
pai ama o filho" e imaginar algo ainda
muito humano, muito magro, muito
psicológico,
muito preso à nossas pequenas
experiências de afeto.
Podemos imaginar apenas uma relação
positiva entre duas pessoas divinas, mas
a escritura nos convida a mais.
nos convida a perceber que esse amor não
é apenas um sentimento a mais dentro da
vida divina, é perfeição infinita, é
santa alegria, é regozijo absoluto, é
deleite sem sombra, é o pai encontrando
no Filho toda a plenitude de sua própria
beleza resplandescente e amando-a com
amor infinito.
E então entramos no mistério do Espírito
Santo. Talvez nenhuma pessoa divina
tinha sido tão frequentemente tratada de
modo tão reduzido por imaginações
religiosas superficiais.
O pai muitos conseguem conceber, ainda
que mal. O filho, por sua encarnação,
morte e ressurreição, costuma ser mais
facilmente contemplado.
Mas o Espírito Santo muitas vezes é
empurrado para a margem da consciência
cristã, tratado quase como força, clima,
energia, efeito, poder impessoal ou mera
influência
divina difusa. Mas o Espírito Santo é
Deus vivo, pessoal, pleno, santo,
eterno, infinito.
Não acréscimo funcional ao Deus que já
seria completo no pai e no filho. Não é
um apêndice tardio da revelação. Não é a
eletricidade da trindade, não é apenas a
mão de Deus em movimento, é o Espírito
Santo. E quando observamos atentamente
as linhas da Escritura, começamos a
perceber algo eh de grande de grande
beleza.
que o filho é tantas vezes ligado à
imagem, à sabedoria, à palavra, ao
reflexo perfeito do Pai, o Espírito
aparece frequentemente no registro do
amor, do dom, da comunhão, da alegria,
da paz, da permanência, do derramamento
da unção, da vivificação,
do vínculo da participação.
É por meio dele que o amor de Deus é
derramado em nossos corações. É por ele
que a presença de Deus é conhecida.
É nele que o Pai e o Filho vem habitar
em nós. É ele quem toma do que é do
filho e nos anuncia.
É ele quem glorifica o filho. É ele quem
nos insere na comunhão viva de Deus. Por
isso, alguns dos maiores teólogos da
igreja ousaram dizer que assim como o
filho pode ser contemplado como a
autoexpressão perfeita de Deus. O
espírito pode ser contemplado como o
amor vivo, santo, pessoal. subsistente
eterno entre o pai e o filho. É preciso
ouvir isso corretamente,
não como redução, não como definição
exaustiva, não como se o espírito fosse
menos pessoa por ser assim descrito, mas
exatamente o contrário, como
reconhecimento de que o amor em Deus é
tão infinito, tão real, tão vivo, tão
pleno, tão subsistente
que não é mera qualidade flutuando entre
duas pessoas, mas é ele mesmo,
pessoalmente, Deus
em nós.
Amor e afeto
é amor e afeto criado em Deus. Amor é
divino
em nós. O amor é afeto criado em Deus.
Amor é divino, é totalmente diferente.
Em nós. Alegria é estado. Em Deus
alegria é glória. Em nós. Comunhão é dom
precário. Em Deus comunhão é plenitude
eterna. Em nós. O vínculo de amor nunca
deixa de ser frágil. Em Deus, o amor é
tão forte, tão puro, tão inexaurível,
tão santo, tão perfeito que procede
eternamente como o Espírito Santo. O Pai
contempla o Filho, o Filho resplandece
diante do Pai, o Pai ama o Filho
infinitamente. O Filho responde ao Pai
em perfeita correspondência. O Espírito
Santo é em toda a sua glória pessoal a
vida desse amor, o sopro santo desse
deleite, a doçura infinita dessa
comunhão, o vínculo vivo dessa alegria
sem fim. Talvez aqui a linguagem precise
deixar de ser apenas explicativa
que se tornar contemplativa.
O pai nunca olhou para o filho sem
prazer. Nunca. Nunca houve um instante
em que o Filho estivesse diante do pai
sem ser amado. Nunca houve um instante
em que o espírito não fosse a santa
alegria dessa comunhão. Nunca houve
em Deus frieza, nunca houve distância.
Nunca houve opacidade, nunca houve
tensão. Nunca houve silêncio hostil.
Nunca houve reserva, no qual houve
retração, nunca houve falta de resposta,
nunca houve comunhão incompleta. Tudo em
Deus é luz. correspondida. Tudo em Deus
é amor sem sombra. Tudo em Deus é
perfeição saboreada.
Tudo em Deus é beleza conhecida e amada.
Tudo em Deus é glória contemplada
e celebrada. O Pai conhece o Filho
perfeitamente. O Filho conhece o Pai
perfeitamente. O espírito esquadrinha as
profundezas de Deus. Não como quem
investiga o desconhecido, mas como
aquele que é Deus em plena posse dessa
vida infinita.
O pai ama o filho, o filho ama o pai. O
espírito santo não está à margem desse
amor, mas é Deus no mistério glorioso
dessa comunhão. O pai se alegra no
filho, o filho se deleita em fazer a
vontade do pai. O espírito é o rio santo
desse deleite. Então, começamos a
compreender porque a Bíblia pode usar
imagens como sopro, unção, óleo, água
viva, rio, derramamento, permanência,
paz.
Não porque o espírito seja impessoal,
mas porque a linguagem humana precisa de
sinais para apontar para a
superabundância da sua vida. O espírito
não é menos pessoa por ser
frequentemente associado à comunicação
da vida divina. É precisamente porque é
pessoa que ele pode comunicar, unir,
consolar, glorificar, habitar
e fazer participar.
Uma força pessoal não ama, não consola,
não ensina. Não intercede, não
glorifica, não pode ser entristecida.
O espírito pode porque é Deus
pessoalmente presente. Há aqui uma
beleza que merece ser guardada com
reverência. Em Deus o conhecimento não é
frio e o amor não é cego. Entre nós,
muitas vezes, essas coisas se separam.
Conhecimento pode tornar-se duro. Amor
pode tornar-se confuso. Clareza pode vir
sem ternura. Afeto pode vir sem verdade.
Intelecto pode secar a beleza. Emoção
pode perder a forma, mas em Deus não. O
pai conhece perfeitamente o Filho, esse
conhecimento é deleite. O pai ama
perfeitamente o filho. Esse amor é
santo, claro, puro, sábio. O filho é a
verdade plena de Deus. E essa verdade
não é árida, porque é amada. O espírito
é alegria viva da comunhão divina. E
essa alegria não é turva, porque é santa
e verdadeira.
Em Deus,
conhecimento, amor e alegria não se
anulam, coincidem em plenitude, sem
competição, sem excesso de um que
diminui o outro. Talvez seja por isso
que tanto da miséria humana consiste em
termos perdido a unidade dessas coisas.
Conhecemos sem amar, amamos sem verdade,
buscamos alegria sem santidade,
procuramos comunhão sem luz, desejamos
intimidade sem pureza. E por causa
disso, tudo em nós se fragmenta. Mas em
Deus não há fragmentação. A vida
trinitária é a perfeita unidade de tudo
aquilo que em nós aparece quebrado. O
filho é a perfeita autoexpressão da
verdade divina. O espírito é a perfeita
comunhão do amor divino. E tudo isso no
interior da vida una e indivisa de Deus.
É justamente isso que torna a trindade
tão mais do que um dado doutrinário.
Ela é a explicação mais alta para a
possibilidade de beleza no universo. Se
em Deus não houvesse esplendor, a beleza
seria um acidente. Se em Deus não
houvesse amor, a comunhão seria
improviso. Se em Deus não houvesse
alegria, o deleite seria um fenômeno
inferior.
Se em Deus não houvesse autoexpressão
perfeita, a palavra seria apenas
ferramenta.
Mas porque o filho é o esplendor eterno
do pai, a beleza tem origem, porque o
espírito é a comunhão viva do amor
divino. A alegria tem origem, porque
tudo isso é eterno em Deus. As criaturas
podem carregar traços, reflexos e ecos
dessa glória.
Toda verdadeira beleza criada vem de
algum modo do filho. Toda verdadeira
comunhão criada vem de algum modo do
espírito. Todo verdadeiro conhecimento
que culmina em adoração vem do pai que
se dá a conhecer no Filho pelo espírito.
Isso também lança nova luz sobre a nossa
salvação. ainda que só mais adiante a
contemplemos em cheio. Porque ser salvo
não é apenas ser retirado do juízo, da
condenação, é ser levado para perto
dessa luz. É ser introduzido no
conhecimento
de Deus, no amor de Deus, na alegria de
Deus. é ser arrancado da mentira, da
dureza e da morte para começar a
participar como criatura redimida
daquilo que sempre existiu em Deus, sem
nós. Mas antes de corrermos para a
participação,
ainda precisamos contemplar
o que é participado.
O filho é o esplendor do pai. O espírito
é o amor vivo da comunhão divina. O
filho é a imagem perfeita. O espírito é
o sopro santo do deleite eterno. O filho
é a palavra, o espírito é a unção. O
filho é a forma eterna da autoexpressão
de Deus. O espírito é a glória viva do
seu amor comunicativo.
E tudo isso sem divisão de essência, sem
hierarquia de divindade, sem qualquer
resto de Deus que estivesse num e não no
outro. Nós estamos falando de partes de
Deus. Não estamos falando de repartições
da divindade.
Estamos falando do único Deus, pleno,
simples, infinito, vivendo eternamente
como Pai, Filho e Espírito Santo. O Pai
não é mais Deus do que o Filho. O Filho
não é mais Deus do que o Espírito. O
espírito não é menos Deus do que o Pai.
Cada pessoa é plenamente Deus, mas cada
pessoa o é em distinção pessoal real,
gloriosa e irreduzível.
E no entanto, toda vez que começamos a
tocar essas coisas, logo sentimos que
toda analogia começa a empobrecer o que
tenta mostrar.
Falamos imagem e logo parece pouco.
Dizemos palavra e logo parece pequeno.
Dizemos amor e logo parece humano
demais. Dizemos sopro e logo parece
impessoal demais. Dizemos deleite e logo
parece sentimental.
dizemos esplendor e logo parece apenas
visual.
Toda palavra
ajuda, nenhuma contém. Toda imagem
aponta, nenhuma encerra. Toda tentativa
de dizer a glória trinitária é ao mesmo
tempo, necessária e inadequada.
Mas talvez essa
inadequação
não seja defeito da doutrina, seja parte
da sua beleza. Porque Deus não nos foi
dado para ser reduzido a esquema, nos
foi dado para ser adorado e assim
seguirmos tatiando com palavras
reverentes em volta de um mistério vivo.
O pai contempla eternamente o Filho, sua
imagem perfeita, sua palavra, seu
esplendor, sua sabedoria. E essa
contemplação santa,
dessa contemplação santa, dessa comunhão
infinita, dessa plenitude de amor e
regozijo, procede eternamente o Espírito
Santo, não como efeito impessoal, mas
como Deus em toda a riqueza pessoal do
amor divino. O Pai conhece, o Filho
resplandece, o espírito une em glória. O
pai fala, o filho é a palavra, o
espírito é o sopro. O Pai ama o Filho, o
Filho repousa no amor do Pai. O espírito
é o rio santo desse deleite eterno.
E no centro de todas as coisas, antes de
todas as coisas, acima de todas as
coisas, há essa vida clara, plena,
feliz, santa, eterna, infinita,
trinitária.
Tudo que vimos até aqui nos mostra que a
trindade é um mistério que nenhuma
analogia contém.
Toda vez que tentamos falar assim de
Deus, algo inevitável acontece. As
palavras ajudam e falham. As imagens
iluminam
o entendimento e logo empobrecem. As
analogias apontam e em seguida ameaçam
prender. Elas abrem uma janela, mas não
podem tornar-se casa. Isso não é defeito
acidental da teologia, é parte da
reverência.
Porque Deus nos deu linguagem suficiente
para conhecê-lo verdadeiramente, mas não
linguagem suficiente para
circunscrevê-lo.
Nos deu luz real, mas não uma lâmpada
capaz de conter o sol. Deus nos deu
palavras fiéis, mas não palavras capazes
de esgotar o seu ser.
Deus nos deu revelação verdadeira, mas
não um esquema que permita
ao homem desenhar a divindade no quadro
negro como quem finalmente o dominou.
Isso é bom, muito bom, porque o homem
sempre que recebe uma fresta de luz,
tende a transformá-la em sistema
fechado. Recebe uma metáfora e quer
convertê-la em mecanismo. Recebe uma
analogia
e quer fazer dela explicação suficiente.
Recebe um nome revelado e começa a
imaginar que, por tê-lo pronunciado
corretamente, já circundou o mistério.
é uma forma refinada de orgulho. Não
orgulho grosseiro que nega a Deus, mas o
orgulho mais respeitável, né? que fala
de Deus com precisão e ao mesmo tempo
deseja domesticá-lo.
Mas Deus não pode ser domesticado. Pode
ser conhecido verdadeiramente.
Verdadeiramente conhecido. Pode ser
confessado, pode ser adorado, pode ser
amado, pode ser contemplado conforme se
deu a conhecer a nós, mas nunca contido.
É por isso que a tradição cristã ao
longo dos séculos sempre precisou
caminhar em duas direções ao mesmo
tempo. De um lado, afirmar com toda a
clareza o que a Escritura diz. Deus é
um. O Pai é Deus, o Filho é Deus. O
Espírito Santo é Deus. O Pai não é o
Filho, o Filho não é o espírito, o
Espírito não é o Pai. E ainda assim não
há três deuses, mas um só Deus.
De outro lado, reconhecer que eh eh com
igual firmeza, que nenhuma analogia
criada é suficiente para carregar
sozinho o peso dessa glória.
Isso não nos deixa mudos, mas nos deixa
humildes.
E a humildade é indispensável aqui,
porque sem ela, toda linguagem sobre a
trindade corre para um dos dois
precipícios mais antigos. Ou
empobrecemos as distinções, ou
empobrecemos a unidade. Ou fazemos de
Deus uma solidão que se manifesta de
três maneiras. Ou fazemos das três
pessoas uma espécie de sociedade frouxa
de seres divinos coordenados.
Ou apertamos demais a unidade até
sufocar as pessoas. Ou apertamos demais
as pessoas até romper a unidade?
A igreja aprendeu cedo que o erro nunca
está muito longe quando se fala da
trindade sem tremor.
Por isso as analogias existem e por isso
mesmo precisam ser vigiadas.
Elas existem porque a criação fala,
porque o mundo não é mudo, porque há
vestígios, porque há realidade criada,
saída das mãos do deus trino, carrega em
sua própria tescitura pequenos sinais,
pequenos reflexos, pequenas
correspondências que ajudam a mente a
não desmaiar diante
da altura da doutrina.
Toda a boa analogia é, nesse sentido,
uma misericórdia. Não uma prisão de
Deus, mas uma escada curta que permite
ao homem alcançar um pouco mais de ar.
Mas elas também precisam ser vigiadas,
porque toda boa analogia pode tornar-se
uma má doutrina quando estendida além do
que deveria.
Talvez possamos dizer
assim: "Uma analogia é boa enquanto
continua sendo seta e se torna má quando
tenta virar território."
Isso precisa ser sentido, não apenas
compreendido. Quando dizemos que o filho
é imagem do pai, a palavra imagem ajuda.
Ajuda porque nos livra da ideia de um
Deus opaco a si mesmo.
ajuda porque sugere esplendor,
manifestação, expressão, reflexo sem
distorção.
Mas se apertarmos demais a imagem,
começaremos a pensar em algo menor do
que o original, algo passivo, como é uma
imagem, algo talvez quase criado. Então,
a analogia que antes servia para
eh nos deixar vir mais passa a trair.
Quando dizemos que o espírito é o amor
de Deus, a palavra amor ajuda. Ajuda
porque nos livra da frieza. ajuda porque
mostra que a vida divina não é somente
inteligência e poder, mas deleite,
comunhão, doçura santa, regozígio,
regozíjo infinito. Mas se apertarmos
demais a analogia, corremos o risco de
pensar no espírito como uma mera
qualidade ou sentimento
e não como pessoa plena, gloriosa e
eterna. Então, outra vez, a analogia
começa a nos enganar.
Quando falamos de pai e filho, a
linguagem familiar ajuda. Ajuda muito.
Talvez seja uma das mais calorosas e
poderosas de todas. Ajuda porque a
própria escritura a escolheu. Ajuda
porque mostra a relação, procedência,
amor, intimidade, como não identidade
sem confusão.
Mas mesmo aqui o perigo aparece. Se
arrastarmos para dentro de Deus tudo que
conhecemos de paternidade e filhação
humanas, faremos da eternidade um
reflexo aumentado da biologia,
da psicologia ou da história familiar
caída.
Então, a analogia que era a janela vai
se tornar uma caricatura.
O problema nunca está em usar imagens. O
problema está em esquecermos que são
imagens.
analogias. Isso vale para toda a
teologia, mas vale de modo especial para
a trindade, porque aqui estamos lidando
com o coração ardente da realidade.
Estamosando ao redor do ser de Deus.
Estamos tentando com palavras de pó e
fôlego falar da vida que não começou, da
comunhão que não pode ser aumentada, do
amor que nunca cresceu porque nunca foi
menor, da glória que não depende de
testemunhas criadas para existir.
Se
entramos nesse terreno sem cautela, logo
trocaremos adoração por manipulação
intelectual.
Talvez por isso seja tão apropriado,
tão apropriada a a comparação entre
analogias e mapas. O mapa é útil, muito
útil. Ele orienta, ele situa, evita
perdas desnecessárias, mostra contornos,
permite antecipar direções.
O mapa ajuda o viajante a não se
desorientar por completo, mas ninguém,
em sã consciência confundirá o mapa com
a montanha, o rio, a floresta, o vento,
a textura do chão, o cheiro da terra
depois da chuva, o frio da altitude ou o
assombro de estar realmente diante
daquilo que antes só aparecia em linhas.
Há uma diferença irreparável
entre indicar e possuir, entre
representar e conter, entre falar
verdadeiramente sobre algo e ser
esgotado,
né? ou esgotar esse algo ou ter esgotado
esse algo. E com Deus a diferença ainda
mais imensa, porque no fim todas as
analogias são criadas, são terrenas, são
derivadas, são posteriores, são
retiradas de um mundo que já é efeito na
fonte.
Elas não sobem até Deus levando a chave
do seu ser. Elas descem de Deus até nós,
porque ele em sua condescendência
permitiu que certas coisas na criação
eassem algo de sua glória.
Esse movimento é decisivo. Nós não
pegamos elementos da criação e por
genialidade própria subimos com eles até
a essência divina. Ao contrário, Deus
criou um mundo que em sua dependência
carrega vestígios. da sua sabedoria. Por
isso,
há algo na imagem, algo na palavra, algo
no amor, algo na família, algo na
comunhão, algo na luz,
algo no sopro, algo na canção, algo no
rio, algo no brilho, algo num deleite
que pode apontar para ele. Mas tudo isso
aponta porque veio depois dele. Tudo
isso fala porque eh primeiro foi falado
por ele. Tudo isso reflete porque
primeiro foi iluminado por ele. Em
outras palavras, acho que ati um cisco
no meu olho.
Em outras palavras, as analogias não
sobem, elas descem. Justamente porque
descem, devem ser recebidas com gratidão
e com cautela.
Gratidão porque sem elas nossa linguagem
seria ainda mais pobre do que já é.
cautela, porque com elas nosso orgulho
pode tornar-se ainda mais perigoso do
que já é. Há uma tentação
particularmente forte
em mentes teológicas, a tentação de
substituir o assombro pela engenharia
conceitual.
A pessoa descobre uma boa formulação,
uma analogia elegante, um modelo
historicamente respeitável e logo sente
a doçura do controle.
As peças parecem se encaixar.
A dificuldade cede, o mistério parece,
enfim, ter sido comprimido em proporções
manejáveis.
Já não há mais a vertigem reverente de
quem é suficiente para essas coisas, mas
a satisfação nítida de quem agora possui
a estrutura. Nesse ponto,
é nesse ponto que a teologia começa a
perder oxigênio, ar, que a doutrina da
trindade nunca foi dada para eliminar o
assombro, foi dada para purificá-lo.
Ela não nos conduz para fora do
mistério, nos conduz para dentro do
verdadeiro mistério, nos livrando dos
falsos.
O falso mistério é confusão vazia,
é obscuridade sem forma, é neblina
celebrada como profundidade.
É falar de Deus como se nada pudesse ser
afirmado com certeza.
Isso
a fé cristã recusa.
Mas há também o falso domínio, a falsa
clareza, o esquema que parece resolver
tudo, a analogia que parece suficiente,
a definição que, embora correta, já não
treme. Isso a fé cristã também recusa.
O caminho bíblico, o caminho bíblico é
mais difícil e mais belo.
Clareza verdadeira sem achatamento,
mistério verdadeiro sem obscurantismo,
confissão verdadeira sem domesticação.
Talvez seja por isso que a linguagem
trinitária mais fiel quase sempre tem
algo de litúrgico nela.
Não no sentido de ser obscura, mas no
sentido de nascer do louvor tanto quanto
da precisão. A igreja não elaborou sua
doutrina da trindade apenas para vencer
debates,
embora tenha precisado fazê-lo. Ela o
elaborou para guardar o evangelho,
proteger a adoração e impedir que o Deus
vivo fosse reduzido a um ídolo
conceitual
da mente humana.
Cada formulação correta, cada cuidado
com as palavras, cada recusa
de um desvio antigo, cada distinção
preservada, tudo isso
servia a um fim mais alto do que a
vitória intelectual, servia a glória de
Deus. O outras palavras,
a precisão teológica aqui é uma forma de
reverência.
Não falamos cuidadosamente da trindade
porque gostamos de dificuldades. Falamos
cuidadosamente porque Deus é digno. Não
recusamos analogias imperfeitas porque
somos excessivamente técnicos.
Nós recusamos porque uma imagem errada
de Deus deforma todas as outras coisas.
Se o Pai, o Filho e o espírito forem
confundidos, o Evangelho muda.
Se forem separados, a glória se parte.
Se a unidade for mal compreendida,
corremos para um politeísmo disfarçado.
Se as distinções forem achatadas,
corremos para um unitarismo mascarado.
Se a vida divina for pensada sem amor, o
universo esfria. Se for pensada sem
verdade, tudo se sentimentaliza.
Se for pensada sem pessoa, a comunhão
evapora. Se for pensada sem unidade, a
adoração se fragmenta. Por isso, é tão
importante manter as imagens sobre a
autoridade da revelação. A escritura
fala e fala o suficiente. Ela fala de
pai, fala de filho, fala de espírito,
fala de glória, fala de palavra, fala de
amor, fala de envio, fala de habitação,
fala de conhecimento, fala de alegria,
fala de comunhão, fala de unidade, fala
de distinção.
E nós recebemos essas palavras como quem
recebe ouro e fogo.
Não as desprezamos,
não as superamos, não as tratamos como
degraus descartáveis a alguma
especulação mais elevada. Pelo
contrário, é justamente permanecendo
nelas que somos mantidos em segurança.
As analogias são úteis enquanto se
ajoelham diante do texto. Tornam-se
perigosas quando querem erguer-se acima
dele. E talvez
uma das grandes lições espirituais
desse tema seja esta: toda linguagem
sobre Deus deve terminar maior em Deus,
não maior em si mesma.
Se ao final de um de de de um estudo
sobre a trindade, saímos encantados com
o nosso modelo, algo deu errado.
Se saímos impressionados com a nossa
capacidade de organizar conceitos, algo
deu errado. Se saímos com a sensação de
que agora Deus ficou pequeno, o bastante
para caber, sem resto em nossa
construção, algo deu errado.
Mas se saímos mais reverentes, mais
atentos, mais adoradores, mais
cautelosos,
mais cheios de gratidão, porque Deus de
fato se revelou e ao mesmo tempo mais
conscientes de que seu ser excede toda a
imagem criada.
Então, talvez estejamos começando a
aprender.
Há uma beleza particular em saber que
nenhuma analogia é suficiente, porque
isso significa que Deus não é uma
ampliação das coisas criadas. É o
contrário. As coisas criadas é que são
pequenas analogias dele. O pai humano
não explica o pai eterno. É o pai eterno
quem dá ao nome pai qualquer nobreza que
esse nome tenha. O filho humano não
explica o filho eterno. É o filho eterno
quem dá ao nome filho qualquer
profundidade que possa carregar.
O amor humano não explica o Espírito
Santo. É o Espírito Santo quem torna
possível que qualquer amor criado tenha
alguma semelhança com verdadeira
comunhão ou com comunhão verdadeira.
A linguagem não sobe até Deus para
prendê-lo.
Ela desce de Deus até nós para nos
servir.
E essa é uma diferença imensa.
E como isso preserva a alma de dois
desastres opostos.
do desespero
agnóstico, que diz nada pode ser
conhecido e da arrogância racionalista,
que diz já compreendi o suficiente para
encerrar a questão a fé cristã diz outra
coisa: Deus se deu a conhecer
verdadeiramente, mas não de modo a
deixar de ser Deus. Podemos dizer com
segurança que o filho é a imagem do pai,
mas essa imagem é maior do que tudo que
chamamos de imagem.
Podemos dizer com segurança
que o espírito é dado como amor, paz,
comunhão, unção e habitação. Mas essa
realidade é maior do que tudo que
experimentamos como afeto ou presença.
Nós podemos dizer com segurança que o
Pai, o Filho e o Espírito são um só
Deus, mas essa unidade é mais rica do
que qualquer unidade criada.
Podemos dizer com segurança que são
pessoas distintas, mas essa pessoalidade
é mais plena do que qualquer
personalidade caída que conhecemos ou
criada. Tudo é verdadeiro, nada é
exaustivo, tudo é revelado, nada é
achatado,
tudo é próximo o bastante para adorar.
Nada é raso, bastante para dominar.
Talvez possamos
resumir assim.
As analogias são tochas, não amanhecer.
Elas ajudam na noite da nossa limitação,
iluminam trechos do caminho e pedem
quedas, mostram relevos,
mas o amanhecer é maior. Quando a glória
realmente se impõe, percebemos o quanto
toda a tocha, né, era provisória, apesar
de nos dar visão verdadeira.
Isso nos prepara para um próximo passo.
Porque se nenhuma analogia contém o
mistério, ainda assim a revelação nos
conduz a um centro luminoso e firme. O
Pai está no Filho, o Filho está no pai,
o espírito não é externo a essa
comunhão. E tudo que Deus é o é em
perfeita habitação mútua.
É aqui que a linguagem deixa de apenas
comparar e começa a entrar na na santa
realidade da vida divina.
Em outras palavras,
se as analogias são mapas, agora podemos
começar a avistar o próprio
território,
não é, em si.
A verdade que quando anunciadas pela
primeira vez,
há
muitas verdades, né, que quando
anunciadas pela primeira vez parecem
quase simples. O pai está no filho, o
filho está no pai. As palavras não são
difíceis,
não há nelas ornamentação excessiva, não
há aparato técnico imediatamente
visível, não há o tipo de formulação que
à primeira vista intimida pela
complexidade. E, no entanto, poucas
frases conduzem a regiões tão altas.
Porque
se a recebemos com a seriedade de vida,
ela desfaz tanto a frieza de uma unidade
solitária quanto a imaginação de três
centros divinos apenas justa apostóstos.
Ela nos obriga a pensar ao mesmo tempo
distinção e unidade, pessoalidade e
unidade, alteridade real e comunhão
total. nos obriga a abandonar as imagens
pobres de separação, distância,
coexistência externa, como se o Pai, o
Filho e o Espírito fossem três
realidades divinas simplesmente sentadas
lado a lado na eternidade.
Nos obriga também a abandonar a noção de
que as pessoas são apenas nomes
diferentes para uma mesma figura
indiferenciada.
O pai não é o filho. O filho não é o
espírito. O espírito não é o pai. E
ainda assim, nenhum deles vive fora dos
outros, um no outro.
Essa pequena expressão é um abismo, uma
caridade profunda demais para ser
tratada com pressa. Uma dessas verdades
diante das quais o pensamento precisa se
ajoelhar antes de tentar falar.
O termo teológico para isso, como eh eh
a gente eh conhece, é pericores,
mas antes de ser termo é realidade.
Antes de ser conceito é vida. Antes de
ser palavra técnica, é a própria maneira
como o Deus trino existe. O Pai habita
no Filho, o Filho habita no Pai. O
espírito não paira ao redor deles como
força externa, nem se aproxima de fora
como se viesse completar uma relação já
estabelecida. Ele também é Deus em
perfeita habitação com o Pai e o Filho.
Tudo que Deus é o é nessa comunhão
mútua, plena, indivisa, semojamento,
sem competição, sem resto.
Isso precisa ser dito negativamente
antes de ser celebrado positivamente.
Não há
em Deus zonas exclusivas. Não há quartos
fechados, não há reservas de divindade,
não há porções de glória guardadas por
uma pessoa e não compartilhadas pelas
outras. Não há excedentes, não há
regiões não habitadas, não há margens de
essência divina onde uma pessoa termine
e outra pessoa apenas comece como se
estivessem lado a lado numa espécie de
mapa metafísico.
Em nós, toda convivência implica
limites.
Toda proximidade tem bordas em nós. Toda
comunhão preserva zonas interiores
inacessíveis.
Em nós, toda a vida compartilhada entre
criaturas, por mais bela que seja,
conhece o peso da não coincidência
completa. Nunca estamos totalmente uns
nos outros. Mesmo no amor mais puro,
ainda há distância. Mesmo na linguagem
mais fiel ainda há resíduo de não
compreensão.
Mesmo na intimidade mais profunda, ainda
existe interioridade não penetrada.
Mesmo os mais próximos ainda carregam
segredos involuntários, opacidades,
limites de excesso, regiões não
visitadas pelo outro, mas em Deus não. A
habitação mútua do Pai, do Filho e do
Espírito é perfeita. Perfeita. O Pai
está no Filho sem deixar de ser pai. O
filho está no pai sem deixar de ser
filho. E o espírito está no pai e no
filho sem confusão, sem fusão, sem
dissolução de sua pessoalidade.
Tudo que o Pai é, o é no Filho e no
espírito. Tudo que o filho é, o é no pai
e no espírito. Tudo que o espírito é, o
é no pai e no Filho.
É como se a divindade fosse inteiramente
una, sem jamais tornar-se pessoal. e
inteiramente pessoal, sem jamais
fragmentar-se.
Mas até essa frase, por verdadeira que
seja, ainda é só borda do mistério, né?
Porque a pericorese não é apenas uma
solução doutrinária elegante para
impedir heresias opostas. Não é apenas
um recurso técnico para garantir
simultaneamente unidade e distinção.
É a revelação de que a própria vida
divina é comunhão interior perfeita.
Deus não apenas tem comunhão. Deus é em
si mesmo comunhão viva, santa, plena e
eterna. Isso muda o clima inteiro da
teologia, porque o centro do ser já não
é imaginado como um bloco imóvel de
substância indiferenciada, mas como vida
relacional perfeita.
A glória, por exemplo, já não pode ser
pensada como clarão sem interioridade. A
eternidade já não pode ser tratada como
duração vazia.
A unidade já não soa como rigidez, mas
como plenitude indivisa.
Tudo se torna mais vivo, mais belo, mais
quente, mais musical, mais luminoso.
Talvez seja por isso que certas imagens,
embora sempre insuficientes, nos
perseguem quando tentamos nos aproximar
dessa verdade. Dança, música,
correnteza, chama, entrelaçamento,
morada, mesa, abraço, canto responsivo,
luz que não se reparte ao brilhar, rio
que não perde sua fonte ao se espalhar.
Nenhuma dessas imagens é adequada. Todas
são pequenas e mais e ainda assim
sentimos necessidade delas, porque a
pericorese nos mostra que o ser de Deus
é um estático como pedra.
é plenitude viva, não é rigidez morta, é
comunhão em eterna fecundidade de amor,
conhecimento e alegria.
A linguagem
do Evangelho de João é especialmente
preciosa
aqui. Jesus não diz apenas que veio do
Pai, não diz apenas que conhece o Pai,
não diz apenas que obedece ao Pai, diz
que está no Pai e que o Pai está nele.
Isso é mais do que missão, mais do que
acordo, mais do que harmonia ética, mais
do que afinidade de vontade. É
habitação. O pai habita no Filho e faz
suas obras. O Filho vive no Pai e o
revela. Quem vê o filho, vê o pai. Quem
acolhe o filho, acolhe o pai. Quem odeia
o filho, odeia também o pai. Tudo isso
porque na vida divina não há qualquer
distância moral, volitiva, espiritual ou
essencial entre eles.
O filho não é um mensageiro externo que
traduz mal ou bem um Deus ausente. Ele é
o esplendor, o resplendor imediato da
glória paterna. O pai não fica atrás
dele como uma realidade separada que
precise ser buscada em outra sala. O pai
está no filho. O filho é a transparência
perfeita do pai, sem deixar de ser
pessoa distinta.
e o espírito.
O mesmo discurso do cenáculo torna ainda
mais assombroso o cenário. O espírito
vem do pai em nome do filho. O filho
envia, o espírito glorifica o filho
tomando do que é dele. O pai e o filho
vem e fazem morada no crente por meio
dessa presença do espírito. Tudo se
entrelaça com tal profundidade que já
não é possível imaginar as pessoas
divinas como centros separados que
apenas colaboram de fora.
A obra da redenção revela o que Deus
sempre foi em si mesmo. Vida mútua,
habitação mútua, amor mútuo, glória
compartilhada, distinção sem separação,
unidade sem achatamento.
E é aqui que a mente humana normalmente
tenta respirar por meios de contrastes
mais simples. Vem a pergunta: "Mas então
o Pai e o Filho são a mesma pessoa?"
Não. Mas então são dois deuses muito
próximos também? Não. Então como pode
ser? E a única resposta fiel é: como
Deus é. Há um momento em que a doutrina
deixa de ser algo a ser reduzido e passa
a ser algo a ser confessado.
Não porque desistimos da razão, mas
porque a razão chegada a certo ponto
reconhece que o real excede categorias
pobres com que costuma operar entre
criaturas.
A revelação não destrói a inteligência,
cura sua arrogância, faz com que ela
veja que o maior erro não está em
confessar um mistério que a ultrapassa,
mas em reduzir esse mistério até que ele
caiba no repertório estreito das coisas
familiares a nós.
Em outras palavras, a pericorese não é
irracional, é supra criatural,
não contradiz a revelação. é o que a
revelação nos conduz a afirmar. Não
dissolve a clareza bíblica. É
precisamente a maneira de guardá-la. Sem
ela, o Pai e o Filho se tornam quase
vizinhos divinos. Sem ela, o espírito se
torna quase uma extensão funcional. Sem
ela, o evangelho perde seu centro
ardente.
Sem ela, João 14 a 17 se achata. Sem
ela, a glória de Deus se torna uma ideia
distante e não a vida una, plena e
compartilhada doutrino.
Mas talvez devamos dar um passo adiante.
E
oiso continua no meu olho.
Se
o pai, o Filho e o espírito habitam
perfeitamente uns nos outros,
isso significa que em Deus não há
rivalidade possível.
Que descanso é nisso? Entre criaturas,
proximidade frequentemente gera disputa.
A intimidade ameaça o ego.
A partilha produz ciúme. A convivência
faz aparecer fricções.
A proximidade de grandezas tende a
comparação. O amor humano, por causa do
pecado, conhece misturas de generosidade
e posse, doação e defesa, de alegria e
medo, de admiração e ameaça. Mas em Deus
nunca houve nada.
parecido. O pai não teme o brilho do
filho. O filho não diminui o pai ao
resplandecê-lo. O espírito não disputa
centralidade com nenhum dos dois. Nada
em Deus cresce às custas do outro. Nada
em Deus se afirma pela supressão do
outro. Nada em Deus exige espaço
expulsando.
Nada em Deus precisa ser preservado
contra uma intrusão.
Nada em Deus conhece a violência sutil
do ego. Tudo é partilha sem perda. Tudo
é glória sem inveja. Tudo é plenitude
sem competição.
O Pai glorifica o Filho, o Filho
glorifica o Pai, o Espírito glorifica o
Filho. E essa glorificação recíproca
nada se perde, né? Nessa glorificação
nada se perde, nada se reparte em
déficit,
nada se dilui em nós. Glorificar o outro
frequentemente parece diminuir a nós
mesmos, porque nossa glória é derivada,
limitada, ameaçada.
Em Deus glorificar não é perder, é a
própria expressão da plenitude. Cada
pessoa divina encontra sua glória, não
na autossuficiência isolada, mas na
comunhão perfeita.
Justamente por isso, o Deus trino é o
fim de toda rivalidade, o repouso de
toda a glória legítima, a forma pura da
vida sem inveja.
Talvez seja impossível exagerar a
importância disso para toda a visão
cristã da realidade.
Se na raiz do ser houvesse competição, o
universo respiraria disputa como lei,
mas funda se na raiz do ser houvesse
solidão, toda a comunhão criada seria
provisória e secundária.
Se na raiz do ser houvesse apenas poder
nu, o amor seria um adorno tardio. Mas
porque na raiz do ser há pericorese,
habitação mútua, comunhão perfeita,
glorificação recíproca, sem perda, então
a realidade pode carregar vestígios de
beleza relacional, de unidade sem
anulação, de amor sem inveja, de doação
sem empobrecimento.
Tudo isso é criado, frágil e manchado em
nós. Mas não é ficção, é eco. A
pericorese é, por assim dizer, a
santidade da proximidade.
Entre nós, proximidade pode degenerar,
pode sufocar, pode invadir, pode
confundir, pode devorar a pessoalidade,
pode produzir fusão doentia ou separação
defensiva. Mas em Deus a proximidade é
perfeita sem colapso. Cada pessoa é
inteiramente
si mesma e inteiramente em comunhão.
O pai nunca se perde no filho. O filho
nunca se dissolve no espírito. O
espírito nunca se torna indistinto. A
distinção permanece gloriosa. E
justamente por permanecer a comunhão é
real.
Não há comunhão verdadeira onde não haja
pessoas reais, mas também não há unidade
divina verdadeira onde as pessoas sejam
apenas centros independentes.
A pericorese guarda as duas coisas:
distinção e habitação, pessoalidade e
unidade, alteridade
e íntima inseparabilidade.
Talvez por isso ela seja tão decisiva
para tudo o que virá depois. Sem
pericorese, a glória de Deus vira
espetáculo externo. Com pericorese, a
glória de Deus se revela como vida
compartilhada.
Sem pericorese, a salvação seria apenas
aproximação jurídica de um Deus
exterior. Com Pericorese, a salvação
começa a ser entendida como participação
na comunhão divina, sem confusão entre
criador e criatura.
Sem pericorese, o amor de Deus corre o
risco de ser imaginado como mero favor
unilateral.
Com pericorese, vemos que o amor de Deus
tem profundidade eterna, fonte interior,
movimento próprio, plenitude anterior ao
mundo.
Sem Pericores, João 17 seria um pedido
por mera harmonia moral.
Com pericores, João 17 se torna quase
insuportavelmente glorioso que eles
sejam um em nós. Em nós.
Que expressão, né? Não apenas que
concordem, não apenas que se deem bem,
não apenas que se organizem sobre um
propósito comum, mas em nós. Tudo aquilo
que Jesus diz aos discípulos no
cenáculo, permanência, habitação, envia
do espírito, vinda do pai e do filho,
amor compartilhado, alegria completa,
unidade. Tudo isso só faz sentido,
porque antes de ser dom à igreja já é
realidade em Deus.
A vida cristã não é invenção moral
apoiada por Deus, é convocação para
participar por graça de algo que sempre
existiu no próprio ser divino.
Mas ainda não avancemos eh demais, né?
Fiquemos mais um pouco aqui nesse centro
silenciosamente incandescente. O pai no
Filho, o filho no pai, o espírito em
ambos e com ambos.
Tudo que Deus é, sendo em habitação
mútua,
algo nessa verdade que corrige até a
nossa imaginação espacial. Nós pensamos
em termos de dentro e fora, aqui e ali,
proximidade e distância
localizáveis,
recipientes que contêm coisas distintas,
mas nada disso serve para Deus. A
pericorese não é mistura espacial,
não é interpretação física, não é
sobreposição de volumes,
é a maneira como o único Deus vive
pessoalmente em si mesmo.
Falar de um no outro em Deus não é falar
de ocupação de espaço. É falar da
impossibilidade de qualquer ser divino
isolado, da impossibilidade de qualquer
ação divina separável da vida una e
pessoal da trindade, da impossibilidade
de pensar o pai, o filho e o espírito
como realidades religiosamente
coordenadas, mas ontologicamente
separáveis.
Eles não se tornam um. Eles são um único
Deus
e o são em comunhão pessoal eterna.
Aqui talvez a imagem da dança usada por
alguns para sugerir movimento de amor e
habitação recíproca ajuda e falha ao
mesmo tempo. Ajuda porque evoca
harmonia, não é? dança, beleza
relacional, ausência de choque, alegria
compartilhada, correspondência viva, mas
falha porque toda dança criada ocorre no
tempo, envolve
alternância, sucessão, deslocamento e
pode sugerir algo ainda mais externo,
não é? Algo externo demais. Mesmo assim,
anela, ao menos um indício. A vida
divina não é imobilidade morta, é
plenitude viva, não é agitação nervosa,
mas uma riqueza de relação tão profunda
que a linguagem mais rígida mal consegue
suportá-la.
Talvez dança secreta da vida divina seja
apenas uma reverente tentativa de dizer:
"Em Deus tudo é comunhão sem confusão,
plenitude sem rigidez, correspondência
sem carência, glória sem rivalidade."
E se isso é verdade, então toda vez que
a escritura nos mostra
o pai enviando o filho ou o filho
obedecendo ao pai ou o espírito sendo
derramado sobre a igreja, não estamos
vendo peças externas de um plano
operacional apenas. Estamos vendo na
história a expressão temporal daquilo
que Deus eternamente é.
Missão revela comunhão.
Envio revela relação. Glorificação
revela habitação. Obediência filial não
contradiz igualdade divina.
Manifesta o brilho eterno do filho em
sua relação com o pai.
O espírito que vem não é instrumento
frio, é a própria vida pessoal de Deus
dada em comunhão.
Tudo começa a arder
de sentido quando se vê isso. O
evangelho não é um mecanismo montado por
três agentes divinos.
É a história da graça brotando do seio
da comunhão trina. A criação não é um
projeto de engenharia transcendente,
é o transbordar
da vida una e plena do Deus que não vive
em solidão.
A igreja, a igreja não é uma organização
religiosa diante de um Deus distante. É
o povo atraído para perto da comunhão
que sempre existiu no Pai, no Filho e no
Espírito. E talvez a maior maravilha de
todas ainda esteja apenas insinuada
aqui. Se essa é a vida de Deus, então a
glória de Deus não pode ser outra. Não
pode ser outra coisa senão essa
plenitude compartilhada.
A glória não é um adereço
sobre Deus, é o fugor de sua vida
trinitária. É a beleza do Pai no Filho
pelo espírito. É a plenitude da
habitação recíproca.
É o esplendor de uma comunhão infinita,
santa e eternamente feliz, eternamente
bem-aventurada.
Mas esse é o próximo passo. Por
enquanto,
basta permanecer um pouco mais nesse
assombro. Deus não é um centro
solitário, é comunhão sem fratura. O pai
não existe sem um filho. O filho não
existe sem um pai. O espírito não é
externo a essa vida. Tudo em Deus é
habitado por Deus. Um no outro, sem
confusão, sem separação, sem resto, sem
perda, sem rivalidade, sem carência, sem
fim.
Agora, afinal, o que é então a glória de
Deus?
Há palavras que por serem grandes
correm o risco de se tornarem vagas.
Glória uma delas. Poucas palavras são
tão usadas, poucas aparecem com tanta
frequência em sermões, hinos, livros,
orações, confissões e discursos
cristãos.
Poucas têm tanto peso bíblico e poucas
ao mesmo tempo correm tanto risco de
virar apenas som sagrado, expressão
consagrada, fórmula reverente,
um brilho verbal que parece dizer tudo e
não raro já não diz quase nada. Se diz:
Deus faz tudo para sua glória. Vivemos
para a glória de Deus. A salvação é para
a glória de Deus.
A igreja existe paraa glória de Deus. O
fim de todas as coisas é a glória de
Deus. E tudo isso
é verdade, profundamente verdade. Mas o
coração da questão permanece. O que
estamos dizendo quando dizemos glória?
Se não formos cuidadosos, a resposta se
reduzirá a algo
como brilho, grandeza, majestade, honra,
esplendor, fama, peso, excelência.
Tudo isso toca alguma parte da verdade.
Tudo isso pode servir em certo nível. Tô
olhando aqui pro tempo, né? Já tô
falando há muito tempo. Tudo isso pode
servir em certo nível, mas ainda não
basta, porque se pararmos aí, a glória
de Deus pode continuar parecendo algo
exterior, quase cenográfico, um clarão
imenso ao redor de um Deus, uma
atmosfera de majestade que o envolve, um
resplendor que emana dele como luz de
uma tocha infinitamente mais poderosa do
que qualquer outra.
Mas o que vemos e sobretudo a revelação
trinitária que sustenta isso nos obriga
a ir mais fundo, muito mais fundo,
porque a glória de Deus não é apenas
algo que Deus tem na superfície, não é
apenas um brilho que o cerca, não é a
coroa do sol, não é apenas o efeito que
sua grandeza produz em nós.
A glória de Deus não é apenas a
impressão de esplendor deixada. por seus
atributos. A glória de Deus é
inseparável de quem Deus é em si mesmo.
E porque Deus é trino, sua glória também
deve ser concebida trinitariamente.
Aqui começa a mudança decisiva. Se o
Pai, o Filho e o Espírito Santo vivem
desde toda a eternidade em perfeita
comunhão. Se o Pai contempla o Filho com
amor infinito,
se o Filho é o esplendor da glória do
Pai, se o Espírito é o a plenitude
pessoal dessa comunhão santa, se tudo em
Deus é conhecimento perfeito, amor
perfeito, deleite perfeito, regozijo
perfeito, habitação perfeita, então a
glória de Deus não pode ser pensada
apenas como exibição externa. Ela é,
antes de tudo, plenitude trinitária. A
glória de Deus está em sua vida una e
triuna.
está na infinita riqueza de
conhecimento, amor, alegria, santidade,
beleza e comunhão do Pai, do Filho e do
Espírito.
Está no fato de que Deus em si mesmo é
perfeitamente vivo, perfeitamente feliz,
perfeitamente santo, perfeitamente cheio
de luz e prazer em sua própria vida.
Essa formulação precisa ser contemplada
lentamente. A glória de Deus não começa
quando o mundo a vê, não começa quando
os anjos a cantam, não começa quando os
céus a refletem. Os céus eh eh eh
manifestam a glória de Deus. Não começa
quando Israel a testemunha. A glória de
Deus não começa quando Cristo a
manifesta na terra. A glória de Deus não
começa quando os remidos a confessam.
Não começa nem mesmo quando a nova
criação a espalhará sem vé para sempre.
A glória de Deus é anterior a tudo isso.
Antes de ser vista, ela é. Antes de ser
manifestada, ela vive. Antes de ser
celebrada, ela já resplandece no próprio
ser de Deus. E onde ela resplandece
primeiro? No Pai, no Filho e no Espírito
Santo. O Pai glorifica o Filho, o Filho
glorifica o Pai, o Espírito glorifica o
Filho. O Filho pede para ser glorificado
junto ao Pai com a glória que tinha com
ele antes que houvesse mundo.
O Pai ama o Filho antes da fundação do
mundo. O filho vive voltado para o Pai.
O espírito toma do que é do filho e o
comunica.
Tudo isso mostra que a glória de Deus
não é um cenário ao redor da divindade,
é o fugor da própria vida trinitária.
Talvez possamos eh dizer assim: a glória
de Deus é a beleza da plenitude divina
conscientemente conhecida,
perfeitamente amada e eternamente
desfrutada pelo próprio Deus.
Essa frase não esgota nada, mas talvez
se aproxime do centro. Beleza,
plenitude, conhecimento, amor, deleite,
tudo isso em Deus mesmo.
Porque se o Pai existe em plenitude, mas
não se conhece, não temos glória plena.
Se o Pai se conhece no Filho, mas não
ama essa perfeição, não temos glória
plena. Se o pai e o Filho se conhecem e
se amam, mas não se regozijam nessa
comunhão santa, então não dissemos o
suficiente.
A glória inclui tudo isso, a perfeição
divina, a consciência perfeita dessa
perfeição, o amor perfeito e essa
perfeição e a energia,
o poder da alegria infinita nessa
perfeição. Em outras palavras, glória
não é apenas ser glorioso, é também
conhecer, amar e deleitar-se
perfeitamente na glória que se é.
Isso só pode ser dito plenamente de
Deus, porque Deus é trino.
Aqui o velho hábito de pensar a glória
como mera exibição começa a parecer
pequeno demais, porque exibição por si
só ainda é algo externo.
Uma joia pode ser exibida. Um rei pode
aparecer em público, um sol pode
irradiar luz, mas o de o de trino não é
uma joia exibida a espectadores
passivos. Sua glória é viva, é
relacional, é consciente, é amada dentro
do próprio ser divino, antes de qualquer
criatura erguer os olhos para
contemplá-la.
A glória de Deus não é só um brilho, é
um prazer sempre. Não é só majestade, é
regozijo. Não é só excelência, é
excelência amada eternamente.
Não é só plenitude, é plenitude
conhecida e celebrada.
Não é só perfeição, é perfeição
contemplada no filho e saboreada no
espírito. Por isso,
quando ouvimos a expressão para a glória
de Deus, não deveremos pensar primeiro
em algo abstrato, quase funcional, como
se Deus estivesse apenas empenhado em
aumentar sua reputação cósmica.
Isso é verdade em parte, mas é perigoso
se não for aprofundado, porque sem a
trindade a glória de Deus pode começar a
suar como um projeto de autopromoção
divina em escala infinita. Como se Deus,
acima de tudo, estivesse interessado em
garantir que todos reconheçam o quão
grande ele é. Mas a visão trinitária
purifica essa impressão. Deus busca sua
glória porque sua glória é sua plenitude
trina.
Ele a ama porque ela é o próprio bem
infinito.
Ele a manifesta porque é digno. Ele a
comunica é abundante.
Ele a compartilha sem perdê-la porque é
plenitude sem carência. Deus não busca
uma glória que lhe falte. Ele busca a
manifestação da glória que já é
eternamente sua.
E essa glória já é em si mesma alegria
perfeita e infinita nele mesmo. Já é
amor perfeito, já é vida perfeita, já é
comunhão perfeita antes que qualquer
coisa fosse criada. E por isso,
é por isso que a doutrina da glória se
torna tão bela quando passa pela
trindade. Se a trindade, a glória pode
soar fria. Com a trindade ela aquece,
vira chama.
Sem a trindade agora pode soar distante.
Com a trindade ela se revela rica de
vida.
Sem a trindade, a glória pode soar como
clarão.
Como a trindade, ela se mostra como
comunhão luminosa. Sem a trindade agora
pode suar como exibição. Com a trindade
ela se revela como plenitude conhecida,
amada e desfrutada.
Sem a trindade, a glória pode se tornar
um slogan, mas com a trindade ela volta
a ser assombro. Talvez seja por isso que
João 17 seja tão decisivo. Jesus não
fala da glória como quem fala de uma
honra exterior apenas. Ele fala da
glória que tinha com o Pai antes da
fundação do mundo. Fala do amor do Pai
por ele antes do mundo existir. Fala de
uma glória anterior à criação,
de uma glória intradivina, de uma glória
que já era real quando só havia Deus.
Isso muda tudo. Que significa que a
criação não gera a glória de Deus,
apenas
recebe e a reflete. A redenção não
produz a glória de Deus, apenas a
manifesta em nova forma. A igreja não
adiciona glória a Deus, apenas participa
dela por graça soberana. Os céus não
inventam a glória de Deus, apenas a
proclamam.
A história não enriquece a glória de
Deus, apenas se torna palco para a sua
manifestação.
Tudo é secundário em relação a essa
glória primeira e eterna.
Há aqui uma santa prioridade. Deus é
glorioso em si antes de ser glorioso
para nós. Isso fere profundamente o
coração antropocêntrico. Porque gostamos
de imaginar a glória em termos do efeito
que ela produz em nós. A glória é aquilo
que nos impressiona, nos deslumbra, nos
humilha, nos consola, nos fascina. E de
fato ela faz tudo isso. Mas antes de ser
experiência nossa, é realidade em Deus.
Antes de ser percepção é ser. Antes de
ser contemplada é vivida eternamente
pelo Pai, pelo Filho e pelo Espírito.
Talvez possamos dizer assim: "A glória
de Deus é Deus em sua beleza infinita
saboreada por Deus".
A frase é usada, mas aponta para algo
central. O Pai conhece o Filho
perfeitamente e ama o Filho
infinitamente. O Filho responde ao Pai
em perfeita comunhão. O Espírito é a
plenitude santa dessa alegria, desse
amor, dessa vida.
Nisso consiste a glória de Deus.
Não apenas no fato de Deus ser
excelente, mas no fato de essa
excelência ser plenamente presente,
conhecida, amada e desfrutada dentro da
própria vida divina. É por isso que a
glorificação não pode ser reduzida à
mera manifestação.
Sim, Deus glorifica a si mesmo ao
manifestar seus atributos. Sim,
glorificação inclui exibição, revelação,
demonstração, manifestação. Mas isso
ainda não basta, porque se a glória é
trinitária, então glorificar também terá
de ser entendido de forma mais rica.
Glorificar não é apenas colocar algo em
vitrine, é comunicar de tal maneira que
haja conhecimento, amor e deleite
naquilo que é manifestado
em Deus.
A glorificação eterna é perfeita porque
o pai manifesta-se no Filho. O filho
resplandece diante do Pai e o espírito é
a santa alegria dessa manifestação
conhecida e amada. Aqui o modelo
psicológico mencionado, né, algumas
vezes eh nos ajuda de novo, desde que
usado com reverência. O pai existe em
sua plenitude. O filho é a perfeita
autoexpressão dessa plenitude. O
espírito é a perfeita comunhão de amor e
deleite nessa plenitude contemplada.
Assim,
a glória de Deus é inseparável dessa
estrutura viva. Plenitude, conhecimento,
amor, alegria. Não uma sequência no
tempo, mas uma perfeição eterna. Talvez
seja por isso que tantos cristãos, mesmo
afirmando corretamente que Deus faz tudo
para sua glória, ainda vivam como ou com
uma imaginação de Deus empobrecida.
Dizem a verdade, mas a verdade lhes
chega apenas em forma de máxima.
não a ve sua densidade trinitária.
Então, a glória de Deus acaba
significando algo como Deus quer ser
reconhecido como importante.
Isso está certo, mas é pouco, muito
pouco. É como olhar para o mar e dizer
apenas que ele é molhado. A glória de
Deus é mais, muito mais. Ela é a
profusão das perfeições divinas. É a
plenitude da sua vida. É a beleza do pai
no filho pelo espírito. Ela é a infinita
felicidade de Deus em Deus. É o
conhecimento sem véu. É o amor sem
sombra. É a alegria sem ameaça. É a vida
sem carência. É a santidade sem mistura,
é a luz sem entardecer. Por isso,
toda vez que ouvimos que Deus ama a sua
própria glória, não deveríamos ouvir aí
o eco de um narcisismo cósmico, como
tantos críticos apressados imaginam.
Narcisismo é criatura vazia, tentando
preencher-se com a própria imagem.
Narcisismo é carência curvada sobre si.
Narcismo é desordem moral do eu caído.
Mas Deus não é uma criatura vazia. Deus
ama sua glória porque ama o bem supremo.
Ama a sua glória porque sua glória é o
próprio bem infinito,
o próprio esplendor da verdade, da
beleza, da santidade e da vida. Deus
seria realmente idólatra se amasse algo
acima de si. Mas porque não há nada
acima dele, amar sua própria glória é
sua retidão. E porque essa glória é
trina, o amor de Deus por sua glória é
amor do Pai pelo Filho no Espírito. O
amor do Filho pelo pai, o amor dessa
comunhão plena e santa em Deus mesmo.
Tudo isso nos leva a uma consequência
decisiva. A glória de Deus não pode ser
separada da bem-aventurança de Deus.
Deus não é glorioso e depois feliz,
nem feliz e depois glorioso. Sua glória
e sua bem-aventurança, sua felicidade
infinita pertencem uma à outra. Sua
glória é feliz, sua felicidade é
gloriosa. O que Deus é,
ele o é em plenitude. E essa plenitude é
eternamente saboreada em sua própria
vida trina.
É por isso que o Deus da Bíblia jamais
pode ser descrito como enfadonho. Não há
Deus não é inerte, não é tedioso, não é
um absoluto sem pulsação,
não é
uma substância silenciosa pairando acima
das coisas.
É o Deus vivo. E a sua glória é a glória
da vida, não da imobilidade morta. A
glória do amor, não da frieza. A glória
da alegria, não da apatia. A glória da
comunhão, não da solidão.
O pai não contempla o filho com
indiferença. O filho não responde ao pai
com neutralidade. O espírito não é a
periferia dessa vida. Tudo em Deus pulsa
com plenitude santa.
Essa palavra pulsa pode parecer ousada,
mas talvez seja necessária se
imediatamente a purificarmos de todo
sentimentalismo ou mutabilidade. Nós
estamos dizendo que Deus muda, cresce,
oscila ou se torna mais do que era, né?
No pulsar. Estamos dizendo que a sua
vida não é a quietude da ausência, mas a
plenitude do ser. Sua eternidade não é
congelamento, é perfeição viva. Sua
imutabilidade não é rigidez estéril,
é a impossibilidade gloriosa de decair.
Sua paz não é apatia,
é plenitude sem ameaça. Sua alegria não
é excitação passageira,
é bem-aventurança infinita.
Se a glória de Deus é isso, então tudo o
que se segue na história da redenção
ganha um novo relevo. Porque Deus não
cria para adquirir glória, cria a partir
dela. Não redime para recuperar glória
perdida, redime para manifestar a
riqueza de sua glória. Não chama um povo
para suprir sua solidão. Chama um povo
para compartilhar por graça daquilo que
ele é em plenitude.
Não exige louvor porque é inseguro,
exige louvor porque a verdade exige
reconhecimento e porque o bem supremo é
digno de ser amado acima de tudo. Mas
tudo isso já começa a apontar para o
próximo passo. Se a glória de Deus é
plenitude trinitária, então glorificar a
Deus não pode significar apenas
contemplar de longe. deve significar
algo como ser atraído para perto, ser
feito participante, ser chamado por
graça a conhecer, amar e se regozijar em
Deus de modo derivado, finito e
redimido.
Em outras palavras, a glória de Deus
quando transborda na criação e na
redenção, não se limita a se exibir. Ela
convida.
ainda chegaremos lá. Por enquanto basta
fixar essa verdade no coração.
Quando ouvimos a glória de Deus, devemos
aprender a pensar não em brilho vago,
não em slogan devocional, não em mera
exibição de atributos,
mas na plenitude trinitária do Pai, do
Filho e do Espírito Santo. A glória de
Deus é a beleza de sua vida una e
triúna. É a perfeição infinita de Deus
conhecida no filho. É a perfeição
infinita de Deus amada e celebrada no
espírito.
É o Pai, o Filho e o Espírito
eternamente cheios de luz, amor,
verdade, deleite e vida.
É o fugor de Deus em Deus.
E só depois de vermos isso é que
começamos a entender como pode ser
espantoso o fato de que esse Deus queira
glorificar-se não apenas diante de nós,
mas em nós e de algum modo conosco. Nós
vamos parar por aqui. Nós vamos ver
depois como Deus glorifica a si mesmo ao
nos trazer para dentro dessa
glória, dessa gloriosa comunhão. Mas
isso será em outro dia, porque hoje eu
já falei demais e já está tarde.
Que Deus abençoe os irmãos. Pensem,
pensem muito, orem muito, adorem muito,
porque esse Deus é digno, pai, filho e
espírito santo. Amém, queridos. Amém.
Santo Deus, eu me [música] aproximo sem
defesa, sem razão.
Tu me vês nos detalhes, no segredo do
coração,
nos [música] pequenos pensamentos,
nas palavras que eu soltei. [canto]
Teu espírito [música] me chama,
confessa.
E eu confessei,
não escondo minha culpa, [música]
não maquio [canto]
minha dor.
Contra [música] ti eu pequei,
contra o [canto] teu santo amor.
[música] Mas que atos minha raiz,
um [canto] querer desalinhado.
Eu [música] preciso de limpeza. Eu
preciso ser
lavado.
Cordeiro, minha justiça, [música][canto]
fim do meu tribunal.
Eu largo a [canto] autojustiça,
me rendo ao teu final.
Jesus,
tem misericórdia. [canto][música]
Jesus,
[canto] vem me purificar. [música]
Teu sangue fala mais alto que o meu
pecado é gritar.
[grito]
Minha [música]
única [canto]
defesa
é a cruz, é o teu favor. Eu adoro a tua
graça. [canto]
[música]
Eu descanso no teu amor.
>> Tua misericórdia [música]
[canto] é melhor.
Tua misericórdia [música][canto]
é meu lar.
>> Rei dos reis, eu me prostro.
Tu és [música] luz e eu sou [canto] pó.
Quando eu tento ser dono, eu lerco em
mim [música] só.
Autonomia [canto] é mentira,
autossuficiência [música]
também.
Tu és [música] fonte, tu és [canto]
vida.
Sem ti nada me sustém.
Eu
não venho [música]
com rico,
venho com mãos sem ter. [canto][música]
Não confio no meu choro, nem o meu
[canto]
vou vencer. [música]
Eu confio na firmeza do teu pacto,
[canto]
ó Senhor. [música]
Tua aliança é selada no cordeiro
[canto]
redentor.
Restaura minha alegria, [música][canto]
tua salvação em mim.
Sustenta-me [música] com espírito
[canto] pronto até o fim.
Jesus [música]
tem misericórdia. [canto]
Jesus [música]
vem me purificar.
Teu sangue ful mais alto que o meu
pecado a gritar.
A minha única defesa [música]
[canto]
é a cruz, é o teu favor. Eu adoro a tua
graça. [canto]
[música]
Eu descanso no teu [canto] amor.
Inclina [música] o meu coração.
Ensina-me [canto] a obedecer.
Dá-me um espírito [música] pronto, mais
doce do meu querer. [canto]
Guarda-me na tentação,
na rotina e na aflição. [música]
Tua graça me carrega, [canto]
tua mão me põem [música]
de pé
no chão.
Tu me [música][canto]
defines,
Cristo.

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