A Estranheza Cativante dos Cristãos – Café Teológico 003 (Cynthia Muniz)
17/07/2026
A Estranheza Cativante dos Cristãos – Café Teológico 003 (Cynthia Muniz)
Muito bem, muito bem, muito bem! Está no ar mais um Café Teológico! Neste episódio, Rodrigo Bibo e Fabrício Arendt recebem Cynthia Muniz para uma conversa fascinante sobre a estranheza cativante dos primeiros cristãos. O que havia naquela comunidade que, ao mesmo tempo, causava desconfiança e despertava admiração? Por que os seguidores de Jesus eram vistos como um povo tão diferente em meio ao Império Romano? E o que a Igreja de hoje pode aprender com esse testemunho?
Ao longo da conversa, Bibo, Fabrício e Cynthia exploram como os primeiros cristãos construíram uma identidade marcada pelo amor aos inimigos, pelo cuidado com os pobres, pela dignidade concedida às mulheres, pelo acolhimento dos vulneráveis, pela coragem diante da perseguição e por uma esperança que confrontava os valores do mundo ao seu redor. Uma fé que parecia estranha aos olhos da cultura, mas irresistivelmente atraente para quem buscava um novo modo de viver.
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Fonte: Bibotalk
Legendas automáticas:
[música] O Thiago tem uma pergunta. Vem cá, Thiago, fazer a pergunta. Então, que bom, Thiago. Isso aí, Thiago se formando agora. Vai tirar dúvida do TCC contigo, Ciao. Vai. Boa noite de novo, pessoal. Uma coisa que eu fiquei pensando também, queria agradecer a tua abordagem. Achei muito, muito legal. Eh, um pouco desse sofrimento que os primeiros cristãos vivenciaram. Eu fiquei muito pensando até através das citações ali, o que a gente lê em Primeira Pedro. né? E o quanto quanto isso foi marcante pros primeiros cristãos, esse sofrimento que fez com que a fé deles se consolidasse, né? E a gente vê que é uma dimensão essencial a ponto de primeira Pedro falar que o sofrimento é uma parte da vida do cristão, né? E e hoje nós vivemos numa sociedade onde a gente não necessariamente sofre por ser cristão, às vezes só porque a gente não é cristão, na verdade que a gente acaba sofrendo, né? E e e como isso impacta o nosso dia a dia em uma sociedade que onde como cristãos a gente não sofre mais como eles. E se isso era algo tão central, tão que faz tão parte a ponto de gerar um livro bíblico como primeira Pedro que fala tanto desses estrangeiros, né, e peregrinos, a como isso nos impacta hoje como cristãos? Como é que a gente vive isso? Como é que a gente aplica esse conhecimento bíblico que lá em Pedro tá daquela maneira para como a gente vive hoje? Assim, né? Uma pergunta um pouco ampla, mas se vocês puderem comentar um pouco a partir de Primeira Pedro e desse nosso contexto hoje como cristãos numa sociedade que foi marcada o ocidente expressivamente pela fé cristã, né? Eu gosto muito da primeira carta de Pedro, ã, justamente por esse aspecto de trabalhar a ideia da identidade a dos cristãos e também por trazer a ideia do servo sofredor de Cristo como um modelo a ser imitado, mas não somente um modelo, né, no sentido que a gente pensa da forma de viver, mas também no sofrimento. E ele vai dizer que ser cristão é sofrer também. E aí tem várias coisas assim, como é uma pergunta muito ampla, que são mais assim, talvez inquietações minha e e colocações também penso muito sobre isso, do quanto de fato nós nos tornamos acomodados na sociedade. Porque será que ser cristão hoje envolve tanto sofrimento assim? Será que deveria ter um pouco mais de sofrimento? Ah, será que a gente perdeu a capacidade de sentir a dor do outro? E talvez por isso a gente não se sinta tão sofredor, porque a gente se acostumou a ser mais individualista. A coletividade é um aspecto daquelas culturas, daquela sociedade, do mundo bíblico, que é algo que a gente perde no Ocidente. A gente é muito mais individualista. Então, se eu tiver com a minha casa, o meu carro, meu celular, o meu computador e acesso à internet, tá mais ou menos tudo bem e com aquele meu círculo mais próximo. Mas os cristãos tinham essa ideia mais, né, de família, de comunidade, talvez uma coisa um pouco mais forte do que a gente. E talvez se a gente tivesse isso mais forte em nós, nós sofreríamos um pouco mais, uma vez que a dor do outro também seria a minha dor. Ah, o que significa de fato ser perseguido como cristão hoje? Como você mesmo falou, tem um monte de coisa que é boberagem, que não tem nada a ver com perseguição, é, é coisas mais de ideologia política e não sei o quê. Mas aqueles cristãos de fato sofriam um ostracismo. Eles não podiam eh eh viver a vida comum dentro daquela realidade. Eles tinham empimentos na família, no comércio, na sociedade. Eram coisas que realmente impactavam a vida deles. Eles eram difamados. O quanto isso é importante para nós hoje, honra e reputação é uma preocupação da carta de Pedro, trazer honra pro nome de Deus. O quanto isso é uma preocupação para aqueles que se chamam cristãos hoje. Então, eu acho que fazer esse paralelo é necessário, mas eu confesso que realmente não é muito fácil. >> É, um outro ponto também e que eu observo é o lance da identidade, né? Ou seja, nós somos uma geração eleita, né? Um povo sacerdotal. Eh, Pedro trabalha muito essa ideia da casa espiritual que nós somos. Eu acho que a gente também com o denominacionalismo, né? Ou seja, eh, a gente se preocupa muito com as questões denominacionais. Aí até a pergunta que o Nijai ele ele faz no livro dele é se os nossos irmãos eh primitivos, essa galera que de fato morria, né? A gente a gente tem relatos de cristãos que e o próprio período de Nero, né? Matou muitos cristãos, né? Enfim, só pelo fato de crer, a pessoa era morta. Então tu imagina a o pró Pedro, né, a comunidade ali provavelmente estava para sofrer uma grande perseguição ou já estava numa perseguição social, >> uma uma perseguição social. Ah, e ainda assim Pedro fala, gente, não, né, sejam diferente, né, do dos pagãos de da de do das pessoas do mundo e tal, mas esse l da casa espiritual, será que os leitores de Pedro eles veriam uma casa espiritual ou ele veriam mais grupos preocupados com os seus templos, com as suas hierarquias? Ah, será que os cristãos do primeiro século eles veriam uma semelhança com eles ou não? A gente de novo voltou mais ou menos para um modelo romano, né? Onde se tem autoridades, onde se tem um templo. Eh, o sacrifício não é derramar sangue, mas são outros tipos de sacrifício, exigências. Será que a gente tá ao redor do crucificado ou a gente tá ao redor da teologia que construímos ao redor do do crucificado? E podem ser coisas diferentes, né? Eu acho que Pedro e e essa reflexão dos cristãos primitivos traz muito essa ideia de que nós fomos perdendo com o passar do tempo, justamente por nós já nascermos num país cristão, por assim dizer. A gente já nasce no cristianismo. Ah, o o próprio ser evangélico virou moda nos últimos 15 anos. Então, todo mundo é evangélico, todo mundo canta, todo mundo ora, todo mundo lê o devocional, todo mundo, todo mundo. Mas no fundo, e a gente às vezes é perseguido, como ela falou, não por ser eh não por causa do evangelho, mas por ser evangélico e sermos esquisitos e estranhos, mas não pelos motivos certos, mas porque escolhemos errado as nossas batalhas. >> Posso só falar? Eh, eu entendo que há cristãos pelo mundo que são perseguidos ainda hoje, tá? portas abertas falando do cristão, do cristianismo aqui no Brasil. E sim, eh, ser esquisito >> não é a mesma coisa que ser diferente, né? E tem muito crente que é esquisito e chato mesmo. >> Eu ouço muito a questão, por exemplo, da busca pela relevância, né? A gente quer ser notado, digamos assim, e às vezes a gente se esforça, o mundo cristão se esforça para ser notado, sei lá, por ser igual ou ser melhor do que o mundo aí fora faz. matéria de espetáculo, matéria de show, né? Me chamou muita atenção uma frase que nós lemos num dos teus slides ali, que diz assim que eles eram ah perseguidos por todos e amavam a todos, né? E será que essa é a pergunta ou será que essa questão pra gente ser, digamos assim, uma religião estranha para para que o mundo nos estranhe e não nos aplauda? De uma certa forma? Eu acho que a gente busca muito o aplauso, o reconhecimento, eh, quando que na verdade a gente tem que buscar essa essência. Não sei se é esse esse o caminho. >> Eu acho que o que os cristãos, os primeiros cristãos nos ensinam, eh, e como a gente já falou várias vezes aqui, eles não eram perfeitos, tá? Aí a carta, as cartas dos apóstolos para dizer isso, mas eles tentavam tentavam ser contraculturais. Eles realmente se esforçavam para viver de uma forma diferente dos valores dominantes. A grande questão é: hoje em dia nós nos esforçamos ou nós absorvemos estes valores? >> Porque quando você fala de uma cultura, por exemplo, de relevância, isso sóaria maravilhoso para um romano, [risadas][suspirando] né? E aí a grande questão é: a igreja está sendo diferente? ela está mostrando algo diferente ou nós estamos apenas assimilando tudo o aquilo que a sociedade está impondo. A gente tá perdendo nesse >> se a gente parar para para pensar na questão da serpente, né? O que é a serpente lá de Gênesis 3, em última análise, o que o autor, né, o autor bíblico tá querendo dizer para nós é que em qualquer momento que você lê o texto bíblico, há uma serpente te dizendo algo que Deus não disse. Ah, o autor bíblico, ele quer mais ou menos dizer o seguinte para nós: "Olha, cada, em cada período, o povo de Deus vai ser tentado pela serpente." A serpente é aquela voz que é contrária a Deus, é aquela voz que deturpa a palavra de Deus. E muito rapidamente a gente cai nesse erro de nos adaptarmos ao mundo e adaptarmos a mensagem do evangelho ao mundo que a gente viu. Ou se a gente vai diluindo a mensagem do evangelho para ser aceito. A gente vai diluindo a mensagem do evangelho para evitarmos perseguição. E no Brasil mesmo, onde somos o povo do jeitinho, né, onde a gente prefere fazer acordos do que entrar numa guerra, o que pode ser bom em alguns aspectos, mas somos o povo do jeitinho. Esse jeitinho às vezes também ele é maior que a nossa fé e é maior que a que a ética que a nossa fé muitas vezes pede. E eu acho que às vezes a gente perde essa dimensão também da peregrinação que era muito forte dos primeiros cristãos. Eu acho que esse é um grande ponto, é esse senso de peregrinação que nós perdemos >> e equilibrar esse senso de peregrinação para não virar uma alienação. >> Isso, isso é difícil, gente. A verdade é essa. Isso é muito difícil porque às vezes você olha uma pessoa que ela é ela ela ama tanto a Jesus, ela que ela entra num radicalismo. Então, nada pode, não toque, não cheire, eh, você não pode fazer isso, você não pode fazer aquilo, não ouça aquilo e tal. Então tudo para essa pessoa é contaminado. E e o mosteiro, o monastério, [roncando] a sabe essa vida monástica não é também o que Deus pede pro seu povo. Não é não é você se isolar do mundo. É maravilhoso você poder ficar no mosteiro, né, bebendo uma boa cerveja. Aqui pode falar que bebe cerveja. Ah, não. Aqui é meu. Que desculpa eu confundi. Tá. Então assim, eh, ficar no mosteiro bebendo, transcrevendo manuscrito, cara, maravilhoso, orando, tendo as três orações por dia e tal, show de Mas não é isso que Deus pede. Não é a vida monástica que Deus pede também é a vida no meio. É, é onde você está no cativeiro, é a presença fiel. Ore, né, pela Babilônia, pela prosperidade, construam casas. Ou seja, é no meio, né, da escravidão e deste mundo que a gente tem que viver. E aí eu já te dou a palavra, porque eu lembrei de uma coisa que o Nijai fala, que a escravidão, o sentir-se escravo de Deus, é uma forma de adoração que a gente às vezes perde. Somos escravos de Deus. E isso é um absurdo, né, na nossa mentalidade. Tipo, eu sou escravo, sim, você é escravo de Deus. E aí, e isso reforça, né, esse nosso senso de peregrinação. A gente perdeu essa ideia de que a gente tá aqui de passagem. A gente perdeu essa ideia dos últimos tempos, que é o que eu falei que da uma das estranhezas ali. A gente tá vivendo no fundo o mesmo calendário do mundo. A gente vive os mesmos anseios do mundo. Meu Deus, já é janeiro. Meu Deus, né? A gente põe até aquela figurinha, né? Janeiro e a pessoa morta já de cansado. Por quê? Porque a gente tá sendo moído pelo mesmo calendário secular. Quando, na verdade, a gente não tem calendário, a gente tem uma promessa de uma volta e que muda e deveria moldar o mundo, a forma com que a gente vive no mundo, não sendo esquisito, estranho, mas é difícil calibrar mesmo, sabe? É difícil. Por isso que qual é a voz da serpente no seu trabalho, na sua escola, na sua profissão, na sua família? O que que a serpente tá te dizendo que você precisa agora contrastar e voltar pra lei do Senhor? E está disposto a abrir mão de privilégios de conforto? Porque Deus, no fundo, pede algumas coisas radicais pro seu povo. A gente às vezes não quer aceitar isso porque não, isso é demais, isso é legalismo, isso é coisa, entendeu? Ou às vezes a gente se perde no legalismo também, que também é contrário à graça, né? Cria um monte de regra que no fundo não tem efeito algum contra a sexualidade ou contra os pecados da carne, como Paulo vai falar em Colossenses capítulo 3. Cria um monte de regra. Não, essa é a forma de viver. Não toque, não cheire, não manusei. Não, também não é o jeito de viver. cristão. O jeito de ver cristão é uma consciência de que ele vai voltar, de que eu sou salvo pela graça e que eu tenho um reino para testemunhar. Ou seja, é uma consciência, não uma regra imposta, mas é difícil achar o equilíbrio mesmo. >> A gente tem eh associado a isso uma dificuldade com o conceito de liberdade. A gente acha que a liberdade é uma liberdade de, mas na verdade a liberdade cristão é uma liberdade para, né, para o compromisso, para amar, para se envolver, né? E a Gabriele, ela coloca aqui pra gente eh uma pergunta. O livro mostra que os cristãos atraíam pessoas mais pelo modo de viver do que pelos discursos. Como podemos aplicar isso na realidade atual? E eu também com uma outra pergunta que veio aqui do Éric. Como um povo que já foi conhecido por sua compaixão e serviço passou a ser tão mal visto, esquisito pela sociedade? Só perguntas tranquilas e bem fáceis de [risadas] Então, gente, a solução é essa aqui. >> Era tão bom quando não tinha pergunta, né? Era, >> eu acho que é justamente esse o ponto, eh, que livros como esse e que olhar pros textos antigos da igreja e que olhar paraa igreja antiga no nos levam, eh, em primeiro lugar, uma consciência. Tudo começa com uma consciência, um reconhecimento do problema. E aqui a gente não tá simplesmente criticando a igreja como muita gente de fora critica a igreja. Nós somos de dentro, nós amamos a igreja, nós somos igreja, mas nós precisamos reconhecer que temos problemas. E nós precisamos reconhecer que estamos longe de sermos esse ideal que estava sendo ali pregado ali pelos primeiros cristãos, pelos pais da igreja, esses distintivos que a igreja possuía. Eu acho que o primeiro ponto é esse reconhecimento e pensar de que forma a igreja pode ser aquilo que ela foi chamada para ser. Ou seja, um povo que representa a Deus, um povo. Eu gosto muito de uma teóloga Carmen Joyim, que ela fala: "Nós somos o povo que carregamos o nome de Deus. Nós somos portadores do nome de Deus no mundo." E o que isso significa na prática? O que isso significa para essa igreja aqui em Joinville 2026? Porque os desafios são diversos. Então, como vocês podem ser essa igreja? Quais são os problemas e as demandas que a igreja poderia se envolver mais? Porque, né, a gente sabe que, por exemplo, até foi falado, né, na pergunta, ah, os cristãos eles eram compassivos, eles lidavam com questões de de violência e tal. E de repente parece que a gente não pode mais falar sobre essas coisas. Então, eh, justiça social, eh, o cuidado com os vulneráveis, tudo isso daí virou, parece que é pauta política quando a Bíblia já fala sobre isso, muito antes de de ter partido X, Y ou Z, né? o cuidado com os mais vulneráveis. A Bíblia inteira, a verdadeira religião, cuidar do órfão e da viúva nas suas necessidades. E aí de repente a gente perde a mão nisso, a gente abre a mão de sermos cocuidadores da criação, porque meio ambiente é pauta de política. E aí a gente abreu mão de um monte de coisa, mas aí ao mesmo tempo a gente insere lógica de mercado, eh eh lógica midiática e de repente um monte de coisa que não deveria estar no nosso meio tá aqui também. Então eu acho que o primeiro caminho é a consciência dessas coisas. É, é um, é um buraco bem fundo esse aí mesmo. Mas eu acho que eu também sempre gosto de fazer essa ressalva, porque de fato se a gente para para pensar os evangélicos no Brasil, cara, quais evangélicos, né? Quem existe uma massa evangélica midiática, que, né, ganha ganha os noticiários, que ganha notícias e que nem sempre representa, geralmente não representa os ideais de Jesus, mas os evangélicos são muito grandes, assim, é um povo e geralmente é esse povo que a gente nem sabe, mas é um povo preto, pobre, pentecostal. O evangélico do Brasil é basicamente esse, preto, pobre, pentecostal. E graças a muitas dessas igrejas, pessoas têm vida transformada. Então a igreja também faz muito bem, né, para o mundo, né? Até a gente estava agora h semana, duas semanas atrás ou semana, sei lá, semana passada, eh, falando sobre como a igreja ela é importante em tragédias, por exemplo, né? Então hoje você tem desastres naturais e a primeira turma que chega lá geralmente são igrejas, né, instituições religiosas. A própria Aliança Evangélica Brasileira faz um trabalho incrível. Então assim, tem muita gente fazendo muita coisa pela igreja e muita coisa boa, tá? E e a igreja sendo realmente sal e luz. Então não dá para dizer: "Ah, igreja brasileira não é sal e luz". Mas qual igreja? De quem que a gente tá falando? E aí, se a gente também ficar muito nesse genérico, a igreja é isso, a igreja aquilo, tá? Então vamos olhar paraa nossa igreja, vamos olhar para mim como igreja assim. Ou seja, o primeiro passo é se reconhecer como parte do problema. É como alguém disse: "Olha, a primeiro o primeiro passo para ver a luz no fim do túnel é reconhecer que tá dentro do túnel". Então assim, OK, como que eu estou deixando de manifestar a Cristo? Onde eu estou dando ouvido à serpente? Onde eu não estou, sabe, condizendo com aquilo que o evangelho pede mim? A verdade é que a gente nem sabe o que o evangelho pede muitas vezes, porque não conhecemos as escrituras e quando conhecemos já é mediada por uma coisa esquisita, uma teologia esquisita. >> Eh, eh, tem uma pergunta aqui do Kéber, né? Diz o seguinte: "Um dos aspectos abordados sobre os cristãos primitivos é o fato deles serem de muitas formas contraculturais." Pegando o gancho sobre o sofrimento, será que a falta de sofrimento de hoje é a nossa conformidade de muitos modos com a mente do século? Eh, e pensando nisso, quanto o sincretismo dentro da igreja é a causa dessa conformidade? Eu costumo ter, tem uma brincadeira minha que eu costumo dizer que tem muita gente que acha que é um bom cristão, mas no fundo é um bom cidadão romano, porque segue mais ou menos a lógica daquilo tudo que a gente estava falando ali, uma religião utilitarista, hierarquias. Você falou, por exemplo, a liberdade, né? Liberdade para o poder também se define da mesma forma. Poder é para e não sobre. Mas dentro da igreja tem gente que transforma o poder numa ferramenta contra o outro. E aí você tem igrejas sendo abusivas, igrejas eh onde não tem um lugar seguro para mulheres, não são um lugar seguro para mulheres. E isso é totalmente absurdo, porque era justamente o que o cristianismo era. Era um lugar seguro para mulheres, para crianças, para os escravos, para os pobres, ainda que rissem deles. Olha o tipo de gente que frequenta a igreja. Eh, Celso, um um filósofo da época, um crítica, ele vai dizer: "Olha que ridículo, mulher, criança, ó, o tipo de gente que tem aí". E Justino Marte vai dizer: "Exatamente, é isso aí mesmo. O povo de Deus é exatamente esse." Somos formados por diversos tipos de pessoas que vocês podem considerar como nada, mas que nós consideramos como pessoas importantes. Então, a questão é, será que a gente tá assimilando isso? Eu acho que nem a questão de sincretismo, não vou nem entrar no âmbito de outras religiões, de outras, eu acho que a gente tem, na verdade, uma questão de conformidade com práticas culturais, com ideias que o cristianismo lutou para superar e parece que a gente regrediu, porque parece que a gente, essas pessoas que eram, né, que foram tornadas iguais, primeiro por Jesus, depois pelos pelos apóstolos, agora criou uma hierarquia tudo de novo lá dentro. a tal ponto de uma igreja, você tem um lugar cometendo abuso. Então, eh, eu acho que é uma conformidade com os valores do mundo. Sim. >> Alguém havia citado uma pergunta aqui bem fácil, assim, como é que e o cristão tendo o livre arbítrio, ele é chamado de escravo de Deus, digamos assim? >> É que ele não tem livre arbítrio, né? [risadas] A a questão é essa, ele não, você não tem esse livre arbítrio que você acha que você tem. Ou você é escravo de Deus ou você é escravo do pecado. Isso é Romanos capítulo 6. Você não tem essa tal liberdade que você acha que pode ir e vir, não. Você é um ser determinado pelo pecado que tá dentro de você, pela cultura. Você não tem essa liberdade. Então, é bom ser escravo de Deus, não dar, não dar, não dar lugar à carne. E, no fundo, é um privilégio poder ser um escravo de Deus, né? Porque é para os seus é sinal que ele é o nosso libertador, é o nosso Senhor. E eu prefiro ser escravo de Deus do que ser escravo dos meus desejos ou da cultura, né? Isso é uma forma de adoração, como o Nijai vai falar. Então não tem essa liberdade. Você pode escolher não seguir a Deus, OK? Então isso é o livre arbítrio, mas você vai seguir o quê, né? Você vai seguir, >> você sempre é escravo de alguma ideologia, de algum pensamento. >> Você sempre é escravo de alguma coisa, de uma ideologia, de uma coisa. >> Somos seres que adoram, somos seres que precisam ter crença em alguma coisa. Todo mundo tem crença em alguma coisa. Até o ateu tem suas crenças fundamentais nas quais ele se agarra. >> Eh, ainda que ele não chame isso de natureza religiosa. E algo que a gente, claro, que falar escravo, escravidão num país onde passamos por escravidão ainda sofremos as consequências disso, claro que é a palavra pesada. É, >> mas a verdade é que Paulo fala a partir do próprio modelo de Jesus lá em Filipenses, no hino paulino de Filipenses, quando ele fala sobre a natureza de Jesus, ele fala de um Deus que se esvaziou e se tornou escravo. E quando Jesus ele dá o modelo, né, do que é ser essa comunidade cristã, ele lava os pés uns dos outros, que era o papel do escravo. Então, o nosso Deus subverte lógicas, o nosso Deus subverte hierarquias, é um Deus que lava os pés na posição de um escravo e pede pra gente fazer o mesmo. >> E até exatamente é o que eu ia trazer agora, né? Ou seja, o caminho para o Pai passa pelos pés dos meus irmãos, né? João capítulo 13. Então, é, vão e faço o mesmo. É, é, é, é o básico, né? O amor é essa, é essa linha que costura toda a prática cristã, né? do no do no do no do Antigo ao Novo Testamento. Ou seja, a relação de Deus com o povo tem como o o fio condutor é o amor, o amor de Deus para o seu povo e o amor que ele pede que o seu povo demonstre já no Antigo Testamento. Amar o inimigo não é coisa de Jesus, já é coisa de Deus no Antigo Testamento. E é isso que vai costurando. E aí se você vai lendo atos, ou seja, a galera vai fazendo o bem. Era basicamente acolher, fazer o bem, entende? Não tô dizendo que evangelismo é fazer o bem, mas a igreja faz parte, faz parte do evangelho fazer o bem, acolher, né? A verdadeira religião é acolher os órfãos, as viúvas, ou seja, os necessitados. >> Thiago fala bem claramente de que que adianta você ver o teu irmão passando fome, eh, passando necessidade, você fala: "Ai, Deus te abençoe e vai para casa". >> Exato. Botar a mãozinha, né, do no WhatsApp assim, estourando por você, né? Aquilo que eu considero, por exemplo, um bom resumo daquilo que é a missão de na na boca de Jesus. Marcos 10 45 vai dizer assim: "Porque o filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos, né?" Eh, o Ma fez uma pergunta. >> Obrigado, Ma. A gente é amigo por causa disso. >> Eh, dá para fazer uma relação de estranheza dos cristãos também na produção do Novo Testamento em uma escrita popular, Coinê, em detrimento de uma sofisticação literária romana, do que é professora de Novo Testamento. É que tem escrito que é nem o coinê, mas tem coinê que é difícil também, né? Tem textos mais apurados assim, tipo, acho que o qual que é o o texto do Novo Testamento que é bem requitado? >> O mais elaborado é Hebreus, o mais simples é João. >> Isso. >> Ah, não sei. Eu confesso que eu nunca pensei pergunta lá que eu nem sei responder essa daí. Se isso gerou uma estranheza, isso gerou uma estranheza, >> agora com certeza o evangelho foi uma estranheza, né? Porque de fato eles usam um gênero, né? Que era pro imperador e aquilo que era para o imperador passa. Não, iso, na verdade, é de Jesus Cristo, né? Não é de >> Sim. Eh, na construção do Novo Testamento, você tem apropriação de de gêneros e de coisas que eram comuns daquela época. Ah, a gente não pode dizer simplesmente que o evangelho era uma biografia, porque hoje em dia a gente pensa numa biografia de outro jeito. Uma biografia do mundo antigo era diferente. Era meio que a história de um herói que não pegava a vida toda dele. Por isso, os evangelhos às vezes, tipo Marcos, já começa com Jesus se batizando e vai além. Você não sabe nada da infância e tal. Então, tem tem esse esses aspectos literários, essas ferramentas. Você tem vários tipos de gregos sendo utilizado, desde gregos, muito simples, eh, que variava conforme o autor, às vezes a escrita do amanuense, que era uma figura importante. Naquela época nem todo mundo escrevia. Você tinha, inclusive Paulo vai dizer muitas vezes que essa carta tá sendo escrita por Silvano. Eh, então aí tem as características daquele que escreve. E esse escritor, ele não era só alguém que que ficava lá você ditando e ele escrevendo. Ele ele editava esse texto. Tinha um trabalho de edição também, um pouco da identidade dele. Ah, mas no meio disso tudo, o que realmente chama a atenção é o fato, isso foi uma grande eh as grandes eh questões teológicas do século passado era a ideia do Jesus histórico e como que a gente encontra o Jesus verdadeiro no meio de tudo isso e tal. Eu acho que o grande distintivo do Novo Testamento é que ele é um texto que ele é histórico, ele se localiza na história a partir de pessoas reais e de eventos reais, mas ele é um testemunho de fé. Esse é o grande distintivo. E por isso que essa busca de Jesus histórico, ficar separando uma coisa da outra é sempre muito artificial, porque as pessoas estão falando a partir de um testemunho de fé. Eu não sei se eu consegui responder alguma coisa, mas é uma pergunta bem lusitada. >> Eu tenho uma outra pergunta aqui, a última também, né? eh fala justamente o seguinte: "Vocês acreditam que a religião atualmente possa ter colocado o tema família tradicional em uma atenção de prioridade ou quase idolatria? Além disso, a família tradicional, entre aspas, poderia também nos isentar de maneira muito sutil de cuidar dos nossos demais irmãos da fé por nos fecharmos em um núcleo familiar." Cara, a grande pergunta é quando você diz uma família tradicional, qual é o teu exemplo? Uma vez a gente ouviu uma palestra e o o palestrante falando: "A família tradicional, a família tradicional, família tradicional". E o meu amigo falou assim: "Só um instantinho, quando você fala família tradicional, quem da Bíblia você tá pensando?" Daí ele falou, ele engasgou e aí depois ele falou: "Abraão e Sara". Eu pensei comigo, a Sara que pegou a escrava dela e deu pro marido para poder conceber um filho. Que família a gente tá falando? A família da época dos patriarcas que tinha Lirato depois na na nas tribos de Israel, a família no mundo romano, onde a mulher era considerada ontologicamente inferior ao homem. De que família estamos falando? Então, primeira coisa, precisamos entender que existem famílias distintas na Bíblia, porque é um livro que perpassa culturas e épocas. E nem tudo que tá escrito ali tá dizendo para dizer pra gente que é o ideal. A história dos patriarcas não é escrita de uma maneira romântica. Não é para você desejar viver a mesma coisa que eles. Tá escrito ali para mostrar a graça de um Deus misericordioso que, apesar de gente muito louca, eh, usa essas pessoas e usa até a gente para construir a sua história. Um Deus tremendo que não desiste da sua criação, mas não para você encontrar modelos de perfeição ali. Então, assim, quando a gente fala de uma família cristã, para quais textos a gente tá olhando? Por exemplo, quando se fala de casamento, que textos que a gente tá olhando? Porque tem gente que gosta só de pegar Efésios e interpretar com uma submissão da mulher ao homem, mas não vai para Primeiro Coríntios 7 e fala da mutualidade entre homem e mulher. Aquele texto é maravilhoso, principalmente naquela sociedade onde o homem poderia trair, que nem era considerado traição. A mulher era para a reprodução, a esposa, as outras mulheres eram de livre acesso para ele. Paulo tá dizendo: "Cabou, mulher é pro marido, o marido é pra esposa." Então, eu acho que a gente tem bons exemplos, só que a gente muitas vezes olha pros exemplos errados ou a gente está fantasiando a partir de questões tradicionais e muitas vezes questões tradicionais que nem pertencem à nossa realidade. Costumo dizer que a família doriana eh é um ideal muitas vezes do norte-americano branco de classe média alta. Como que você explica essa família? perfeita, ideal do imaginário da galera para as 11 milhões de mães solteiras aqui no Brasil que estão ralando para criar seus filhos. E pros muitos pais que inclusive são evangélicos e abandonaram esses filhos também. Pros evangélicos que batem nas suas esposas. Eu sei, gente, que são coisas pesadas e que é lógico que eu não estou generalizando. Graças a Deus, toda a igreja, como o Bíblia falou, toda a igreja não é assim, mas são dados >> e não são poucos dados. >> E não são poucos. >> Esse que é o problema, né? Então, eu acho que a gente precisa olhar pra Bíblia, mas olhar do jeito certo e saber diferenciar questões culturais daquilo que de fato é o cerne do evangelho. >> Amém. Amém. Gente, mais alguma pergunta? É isso. Vamos ficando por aqui então nesse nosso café teológico. Obrigado, Cíntia, por ter aceito o nosso convite. Obrigado, pastor Fabrício, por permitir também que a gente faça aqui. E obrigado principalmente a vocês, né, que vem aqui sempre no nosso café teológico, toda Jum e a galera. Obrigado mais uma vez o pessoal que fez o café. Tá bom, gente? Deus abençoe. E é isso. Vamos orar então. Vamos finalizar com uma oração, tá? Curve sua cabeça. Vamos orar. Pai, em nome de Jesus, nós queremos te agradecer porque o Senhor tem feito história e tem nos convidado para fazer essa história junto contigo. Obrigado, porque sempre tens um povo que não se dobra a Baal. sempre tens um povo que está ali procurando se manter fiel a ti e ao que tu espera do teu povo. Nós precisamos do teu Espírito Santo, Senhor, nos dinamizando, nos dando poder. Nós não queremos ser como a igreja primitiva, Senhor. Nós queremos ser como o Senhor. Nós queremos parecer com o Senhor. Nós queremos crescer e ter a estatura deste homem que foi o Senhor, este homem perfeito, essa humanidade redimida. Nós precisamos ser como o Senhor. Então, Pai, em nome de Jesus, que tu nos ensine a ser como tu. Homens e mulheres que se pareçam contigo, que testemunham de ti. Queremos ser sal, queremos ser luz neste mundo. Para isso que o Senhor nos ajude a termos mais intimidade com a tua palavra, mais amor, mais paciência, mais respeito, mais engajamento, Senhor, com aquilo que realmente importa. E que nós possamos ser araltos do teu reino, da tua mensagem. Que nós possamos ser cartas abertas, porque as pessoas não estão lendo a Bíblia, mas que elas possam ler a nossa vida e encontrar algo de ti nas nossas vidas para a glória do teu nome, em nome de Jesus. Amém.