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A fé vem pelo ouvir

COMO NASCEU A CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER?

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Legendas automáticas:

A confissão de fé de Westminster é
talvez o documento cristão, depois da
Bíblia, mais importante para a reforma
protestante. Um documento que não nasceu
em uma sala tranquila, com teólogos
tomando café e debatendo ideias
abstratas. A confissão de fé de
Westminster nasceu em meio à guerra
civil, em meio à crise política, nasceu
no meio da disputa religiosa, no meio do
medo, do sangue e do colapso nacional.
Enquanto reis tentavam preservar o seu
poder, enquanto o parlamento tentava
reorganizar o país, igrejas disputavam
seu futuro e a Inglaterra parecia
rachada ao meio, alguns dos maiores
teólogos protestantes da história se
reuniram para responder a uma pergunta
decisiva: no que é que a igreja deve
crer?
No que é que a igreja deve ensinar? O
que é que a igreja deve confessar?
[música]
O resultado foi um dos documentos mais
importantes da história do cristianismo
reformado. Um texto que moldou igrejas,
seminários, catecismos, famílias,
>> [música]
>> púlpitos e debates teológicos por quase
quatro séculos. Mas a história da
confissão de fé de Westminster é muito
mais dramática do que muita gente
imagina. Ela envolve política, guerra,
perseguição, reis, um parlamento
efervescente e debates entre puritanos,
presbiterianos,
anglicanos e independentes, em uma
tentativa séria de organizar a fé
bíblica em um tempo de profundo caos
político. Você pode não ser um
calvinista, mas ainda assim você é uma
pessoa que foi influenciada [música]
em algum nível pela teologia e pela
construção teológica que provém da
reforma. A reforma protestante avançou
em muitos braços e um deles são
justamente o calvinismo. Eu estou aqui
em frente à Abadia de Westminster, que
fica justamente no bairro que tem esse
mesmo nome, o bairro de Westminster, que
dá nome à confissão de fé, que é talvez
a confissão de fé mais relevante da
história do mundo, que é seguida pelos
presbiterianos, por muitos reformados e
que dá base para formulações históricas
muito importantes sobre a fé em Cristo.
Nesse vídeo, eu quero te contar como
nasceu a confissão de fé de Westminster,
por que ela foi escrita, quem estava por
trás dela e por que esse documento
continua sendo tão importante até hoje.
>> [música]
[música]
>> Lembrando que o Teologia na Estrada é um
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>> [música]
>> Westminster é na verdade o nome de um
distrito central aqui em Londres. Ele
está situado na margem norte do rio
Tâmisa e é o coração político e porque
não religioso do Reino Unido. Além do
Palácio de Westminster e do Big Ben e da
Abadia de Westminster, o Palácio de
Buckingham também está aqui bem perto. A
história da Abadia remonta ao ano de
960, quando os primeiros monges
beneditinos se estabeleceram na ilha
espinhosa. Ela tem esse nome por causa
do bosque de espinheiros que existia
ali. Segundo a mitologia celta, este
bosque era sagrado. O espinheiro era uma
das árvores mais propensas, senão a mais
provável a ser habitada ou protegida
pelas fadas. Na Irlanda, a maioria das
árvores isoladas ou os arbustos
solitários, né, na paisagem, que eram
habitadas por fadas, eram justamente os
espinheiros. Essas árvores não podiam
ser cortadas ou danificadas de forma
nenhuma sem correr na ira, às vezes ira
fatal, dos guardiões sobrenaturais. A
chamada rainha das fadas, junto ao seu
espinheiro, era vista como um tipo de
representação de um arquétipo
pré-cristão, lembrando de um culto
centrado na deusa praticado por
sacerdotisas em bosques sagrados de
espinheiros, evocando um tipo de relação
profunda entre natureza, espiritualidade
e tradição ancestral. É bastante
provável que a chegada dos monges tenha
substituído essa mitologia, de modo que
no terreno onde hoje fica a igreja havia
somente um pequeno mosteiro que depois
foi ampliado pelo rei Eduardo, o
confessor, que reinou de 1042 a 1066.
Ele construiu a abadia em homenagem ao
apóstolo Pedro. Em 28 de dezembro de
1065, a abadia foi consagrada ao rei
Eduardo e no Natal de 1066 ocorreu a
primeira coroação registrada na abadia,
a de Guilherme, o conquistador. 200 anos
depois, em 1245, o rei Henrique III
começou a construção da igreja atual,
concluindo apenas em 1269.
A gente pode notar aqui vários elementos
da arquitetura gótica e características
comuns a catedrais católicas. Em 1301,
então, é construída a cadeira da
coroação, utilizada em todas as
coroações desde 1308. A rainha Elizabeth
foi coroada aqui em 2 de junho de 1953.
70 anos depois, em 6 de maio de 2023, o
seu filho, Charles III, herdou o trono.
E as únicas exceções de coroação aqui
são os reis Eduardo V, em 1483, e
Eduardo VIII, em 1936, que abdicaram ao
trono. Agora, aqui é um espaço realmente
interessante. Se um dia houver um
apocalipse zumbi, você não quer vir para
cá, tá? Há cerca de 3300 pessoas
enterradas aqui na abadia, incluindo 30
reis e rainhas. O físico Isaac Newton,
Charles Darwin tá enterrado aqui, Jane
Austen e a princesa Diana estão
enterradas na abadia. Aqui também tá
sepultado um chamado soldado
desconhecido, como um memorial a todos
que pereceram na Primeira Guerra
Mundial. Desde 1919, foi consolidada a
tradição também dos casamentos da
realeza britânica acontecerem aqui. 16
casamentos da realeza já foram
celebrados aqui, incluindo o George IV
com Lady Elizabeth, a chamada
rainha-mãe. Em 1947, a rainha Elizabeth
II se casou com o tenente Philip
Mountbatten. E em 2011, o príncipe
William e a Kate Middleton Kate aqui.
Essas estátuas na porta oeste da abadia
foram adicionadas em 1998 como memorial
a mártires cristãos do século XX. Dentre
eles estão Martin Luther King e Dietrich
Bonhoeffer.
Acaba não.
Eu não sabia que demorava tanto.
Quase três minutos já.
De sino.
Acaba não. Fica para sempre aí.
Acabaram de me informar que vai passar
uma hora tocando esses sinos aí.
Uma hora. Esperei por 21 minutos e não
parou.
E me falaram que é a Páscoa.
Que bom, legal.
Não é um som muito agradável, é muito
alto.
Não sei que tipo de homenagem é essa.
Querem deixar todo mundo irritado, sei
lá. Morar aqui deve ser difícil.
Mas
tudo bem. Que bom. Vamos, vou, vou
almoçar e depois volto. É o jeito.
Coisas de Londres.
>> [música]
>> Uma hora depois. Eu adoro esse negócio
de uma hora depois, botar aquela telinha
de uma hora depois, tirada do Bob
Esponja. Foi realmente uma hora depois.
Eu literalmente saí, fiquei uma hora na,
no, no cafeteria
para poder voltar para cá.
>> [música]
[música]
>> Elaboração da Confissão de Fé de
Westminster ocorreu em 12 de junho de
1643,
com o título "Convocação dos lordes e
comuns do parlamento para convocação de
uma assembleia de teólogos e outros com
vistas a serem consultados pelo
parlamento para estabelecimento do
governo e liturgia da igreja da
Inglaterra e purificação da doutrina da
dita igreja das falsas aspersões e
interpretações". É um título bem grande.
Ao todo, 121 ministros e 30
representantes do parlamento se reuniram
para deliberar sobre os assuntos de fé
diante do que estava acontecendo ali na
Inglaterra. Não se engane, era um tempo
que estado laico não era uma coisa muito
bem estabelecida no mundo, Inglaterra
nunca foi um estado realmente laico,
então não era uma reunião simplesmente
teológica e religiosa, era uma religião
também política. O que é que estava
acontecendo nesse momento na Inglaterra?
O rei Carlos I, ele governou
simultaneamente a Inglaterra e a Escócia
entre 1625 e 1649.
Ele começou a aderir ao sistema
episcopal, que era comum entre os
monarcas do período e buscou implementar
o mesmo sistema nas igrejas da Escócia.
Os escoceses resistiram a isso, que
levou à assinatura de um pacto nacional
e o início de um conflito armado contra
o rei. E para financiar o enfrentamento
das forças rebeldes, o Carlos convocou
eleições parlamentares na Inglaterra que
acabaram culminando na formação de um
tipo de de parlamento predominantemente
puritano, calvinista. Os puritanos
tinham surgido como um tipo de resposta
à igreja anglicana, né? O seu objetivo
era purificar a doutrina porque eles
consideravam que a igreja anglicana era
um tipo de deturpação da doutrina
realmente bíblica, realmente sã. Eles
também queriam restabelecer os valores
do reino na área da política para que os
ingleses pudessem viver a fé de uma mais
correta e tudo mais. Houve várias
tentativas do rei Carlos de dissolver
esse parlamento e isso intensificou
muito as tensões daquele tempo, levando
ambos os lados à guerra civil. Mas o
parlamento permaneceu e convocou a
chamada assembleia de Westminster com o
objetivo de reformar a igreja anglicana.
Depois da convocação, a assembleia
iniciou os seus trabalhos em 1º de junho
de 1643 e depois, diante das
dificuldades enfrentadas pelo parlamento
na guerra civil, foi solicitado auxílio
aos escoceses. Por determinação deles,
ambos os grupos firmaram um pacto solene
que garantiu à Igreja da Escócia o
direito de enviar representantes a essa
assembleia, que exerceram influência
significativa sobre o andamento dos
trabalhos, mas eles não podiam votar,
tá? Eles eram café com leite. Eles Eles
podiam participar, podiam falar,
influenciar, mas não podiam exercer
voto. O parlamento se reuniu de 1643 até
1653
para elaborar documentos como o
Catecismo Menor e Maior de Westminster,
o Saltério, a Confissão de Fé de
Westminster e tomar várias outras
decisões. Para vocês terem uma ideia,
até 1648, cerca de 1160 reuniões
plenárias foram realizadas aqui. Foi
nesse mesmo ano que a escrita da
Confissão de Fé foi encerrada. A partir
dessa data, de 1649, as reuniões
começaram a visar decidir e escolher os
candidatos ao ministério. Depois que os
documentos foram concluídos, cada
documento foi revisado pelo parlamento e
assim se constituíram os documentos de
fé que a Igreja Presbiteriana e vários
outros reformados do mundo possuem hoje.
A gente não pôde filmar lá dentro, mas
eu e minha esposa pudemos participar do
Evensong na Abadia de Westminster, que é
um culto vespertino cantado da tradição
anglicana, que combina orações, leituras
bíblicas, salmos, música coral,
conduzido geralmente pelo coro da
Abadia, mas tinha um coro convidado no
dia, que é uma forma litúrgica de
encerrar o dia em adoração, com um tom
muito solene, contemplativo, marcado
pela tradição musical inglesa. É meio
como a oração da tarde cantada. É É um
ciclo de oração plus, sabe? Muito
formal. A gente podia entrar na Abadia,
conhecer lá dentro, um espaço muito
bonito. A gente não pôde filmar nada.
Eles pedem para você não filmar e eu sou
geralmente um visitante obediente. Mas
no YouTube da Abadia de Westminster,
você geralmente tem algumas gravações
lá, você pode ficar com um trechinho de
uma delas.
>> [música]
>> Escrita em 33 capítulos, a Confissão de
Fé de Westminster organiza a fé cristã
de modo sistemático, [música] começando
pela revelação de Deus, passando pela
doutrina da salvação, pela vida cristã,
pela Igreja, pelos sacramentos e
terminando com escatologia. Os capítulos
1 a 5 estabelecem a base do conhecimento
cristão, falando sobre o fundamento da
fé. São capítulos que falam sobre a
escritura, sobre [música] o que é a
Bíblia, sobre Deus, a Trindade, os
decretos eternos de Deus, criação e
providência. [música]
Os capítulos 6 e 7 explicam a queda do
homem no pecado e as suas consequências
e introduz a estrutura da aliança, onde
Deus se relaciona com o homem por meio
do seu pacto. Nos capítulos 8 a 18, nós
temos o bloco mais diretamente
soteriológico, onde Cristo como mediador
é apresentado, onde então questões como
livre-arbítrio, chamada eficaz, [música]
justificação, adoção, santificação, fé
salvadora, arrependimento, boas obras,
[música] perseverança dos santos,
certeza da salvação e outros temas
relacionados são tratados. Nos capítulos
19 a 22, a Confissão de Fé de
Westminster vai mostrar como é que o
salvo deve viver diante de Deus. Então
trata sobre a lei de Deus, a liberdade
cristã, a liberdade de consciência, o
culto religioso, os dias do Senhor,
juramentos, votos lícitos e como viver
de forma que glorifique a Deus. Os
capítulos 23 e 24 falam da vida social,
civil e familiar, lidando com o
magistrado civil, reconhecendo a
autoridade legítima do governo e seus
limites diante de Deus, casamento,
divórcio, geração de filhos e pureza
moral. Nos capítulos 25 a 29, nós temos
a doutrina da igreja, onde a igreja é
apresentada como católica, universal,
composta por todos os eleitos, [música]
visível, reunida em comunidades
concretas. É apresentado os sacramentos
como o batismo e a ceia. Então,
capítulos 30 a 33, que são os capítulos
finais da Confissão de Fé de
Westminster, trata do governo e doutrina
da igreja, fala da disciplina, fala dos
sínodos e encerra [música] com
escatologia, falando do juízo final. A
ordem teológica da Confissão é muito
[música] clara e até para quem não segue
totalmente as suas interpretações, ela
ainda serve como excelente guia de
doutrina cristã.
>> [música]
[música]
>> Oliver Cromwell liderou a guerra civil
que ocorreu de 1642 a 1651 contra o rei
e levou suas tropas à vitória. O rei
Carlos foi executado em 1649 e a
república Commonwealth foi estabelecida,
mas não duraria muito tempo. Em 1660, a
monarquia foi restaurada pelo Carlos II
e a igreja da Inglaterra volta a ser
episcopal e a perseguir os puritanos.
Mas por causa da aliança com os
escoceses, eles puderam fugir para a
Escócia e assim as doutrinas
estabelecidas em Westminster chegaram à
Irlanda do Norte, aos Estados Unidos, ao
Canadá, à Austrália, à Nova Zelândia, à
África do Sul, ao Brasil e a vários
outros países. Mas você me pergunta:
"Mas Iago, eu não sou ligado aí no no
mundo reformado, o que é essa confissão
de fé de Westminster?" A confissão de fé
de Westminster, assim como várias outras
confissões de fé, são o compêndio do
entendimento de um grupo de teólogos
sobre as doutrinas que a Bíblia ensina,
apresentadas de uma forma didática e
sistemática. Uma confissão de fé é uma
declaração do que é que aquele grupo crê
sobre pecados, sobre Deus, sobre
salvação, sobre governo de igreja, sobre
o ser humano, sobre batismo, ceia,
escatologia e tudo mais. A confissão de
fé de Westminster, por exemplo, tem 33
capítulos e aborda quem é Deus, que é as
escrituras, qual o fim do ser humano,
tudo isso a partir de entendimentos
teológicos com várias bases bíblicas,
tentando resumir e organizar elementos
centrais à fé cristã. Todo mundo possui
uma confissão de fé. Não tem como você
não ter confissão de fé. Ela pode estar
escrita, ela pode estar só na sua
cabeça.
Pode ser um documento histórico ou um
documento [música]
recente.
Pode ser um documento que várias igrejas
abraçam ou pode ser a confissão de fé da
sua comunidade que vocês mesmos
escreveram e aprovaram ou alguma coisa
assim. A verdade é que todos nós
possuímos crenças e doutrinas que
baseiam a nossa vida com Deus. O que é
importante é que essas doutrinas sejam
baseadas na escritura, [música]
sejam organizadas em uma confissão de fé
histórica, clássica ou não. Existem,
claro, muitas vantagens em seguir
confissões de fé históricas. A confissão
de fé de Westminster e os catecismos são
riquíssimos, sendo usados não só pelos
presbiterianos, mas gente do mundo
inteiro. E Paulo nos ensina a dar honra
a quem merece honra. A confissão de fé
de Westminster foi usada como base para
a elaboração de várias outras confissões
de fé da história, inclusive algumas
confissões de fé batistas e cristãos de
todas as tradições precisam reconhecer
que foi um trabalho tão bem feito que
influencia a fé e confissões de várias
outras tradições. Nos dias de hoje, né,
nesse tempo em que qualquer pessoa pode
emitir sua opinião sobre qualquer tema,
sobre qualquer coisa, porque às vezes
não importa tanto se está baseado na
verdade ou não, a gente tem que lembrar
o que é que nos ensina a confissão de fé
de Westminster quando diz que o juiz
supremo pelo qual todas as controvérsias
religiosas tem de ser determinadas
>> [música]
>> e por quem são examinados todos os
decretos de concílios, todas as opiniões
particulares, o juiz supremo em cuja
sentença nos devemos firmar não pode ser
outro senão o Espírito Santo falando
>> [música]
>> nas Escrituras.
E aí, o que que você achou do programa
de hoje? Achou legal entender um pouco
mais sobre a confissão de fé de
Westminster, sua história e a sua
relevância? Não deixe de se inscrever no
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