Discipulado Radical (Palestra 2/3) Jonas Madureira.
09/02/2026
Discipulado Radical (Palestra 2/3) Jonas Madureira.
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Graça e paz. >> Conseguiram dormir bem com eu ontem? >> Não, >> não. Esse aí deu problema, né? Porque ele faz sentido, muito sentido pro que a gente vai falar hoje. No discipulado, a gente tem uma uma um pressuposto importante que foi estabelecido por Jesus, que é o negar-se a si mesmo, né? Negar o seu eu, né? Mas se você não sabe o que é o eu, como você sabe que você tem que negar? O que é que tem que ser negado se você nem sabe o que é o? Não é? Então, a reflexão de ontem é uma reflexão que, em primeiro lugar, levanta o problema filosófico, problema filosófico da consciência, do self, do si mesmo, do eu. Chegamos à conclusão ontem, a partir do primeiro movimento da nossa série de reflexões que visam, em primeiro lugar, definir os termos. Ah, antes da gente elucidar o conceito de discipulado radical, começando primeiro com a explicitação do sentido de radical que vamos usar. Aristóteles dizia, se você não explicitar os termos da proposição, você não pode, você pode falar uma coisa e o seu auditório entender outra completamente diferente. Então, a primeira coisa que fizemos ontem foi chamar atenção para o fato de que o termo radical que estamos usando não é o termo costumeiramente usado para se referir a alg um aspecto intransigente ou a um aspecto extraordinário. Nenhum dos dois. radical do latim radic e deve ser entendido aqui como raiz. Portanto, o discipulado radical não tem nada a ver com extremismo e nem com algo fora do comum, fora do ordinário. Tem a ver com a raiz, o discipulado focado no trabalho sobre o eu, a raiz de todas as convicções religiosas profundas de uma pessoa. Vimos isso à luz a da teoria da consciência em Doyvred, que tá presente na sua antropologia no no ensaio que ocupa o capítulo oito do livro No Crepúsculo do Pensamento, um livro de divulgação do pensamento deste filósofo holandês. Hoje a gente vai dar um segundo passo, não é? Segundo passo é definir discipulado. Definimos, em primeiro lugar a chave que vamos usar para entender o que é esse radical do discipulado radical. Agora a gente vai se dedicar um pouquinho mais ao discipulado. E aqui nós vamos lançar mão mais obviamente a dos textos bíblicos que nos servem de fundamento para entender o discipulado, não apenas do ponto de vista da doutrina, mas do ponto de vista da teologia histórica, como o conceito de discipulado, ele se tornou um conceito importante para a eclesiologia moderna, pra nossa eclesiologia, para eclusiologia hoje. Então, primeiro, em geral parece que eh a uma ideia comum, uma ideia já tomada de partida, que o conceito bíblico de discipulado esteja veiculado pelos termos matetés e matetel, não é? Lembrando, obviamente de Mateus 28, especialmente o versículo 19, que envolve o fazer discípulo, né? Óbvio que esse discipulado que tem em vista o discípulo tem contornos muito mais relevantes para o contexto em que os discípulos de Jesus viviam do que os discípulos de Sócrates, os discípulos de Platão, os discípulos de Aristóteles. Não se trata aqui meramente de discípulos como aqueles que seguem um determinado filósofo, um determinado pensador, mas que seguem, de certa forma um mestre de sabedoria. Tem a ver, portanto, com a tradição da literatura sapiencial, que nós muitas vezes desprezamos esquecendo que a Bíblia inteira ela está dialogando com a sabedoria, óbvio, não de maneira direta, mas de maneira às vezes direta, às vezes de modo indireto. Então, o primeiro movimento que a gente faz é vamos buscar um termo bíblico que corresponda discipulado. E aí a gente toma a primeira rasteira, né? Porque o termo que a gente usa hoje para falar de discipulado na igreja não corresponde com o termo propriamente discípulo ou discipular na Bíblia. Ele tem muito mais a ver com a nossa tradição histórica. especialmente herdada daquilo que nós chamamos de discipulado medieval, que no fundo, no fundo nem era chamado de discipulado. A palavra discipulado, para você ter ideia, ela é uma palavra, um termo muito mais moderno. A idade média que consolida a ideia que vai servir de base para o discipulado moderno é a doutrina da imitácio Criste, o imitá criste, a doutrina da imitação de Cristo. Portanto, todas as vezes que os teólogos medievais se perguntavam como a gente pode depois que uma pessoa ah é batizada no contexto dos medievais, certo? como que ela pode desfrutar da fé cristã por meio de um discipulado que na verdade é imitat criste, que não é outra coisa senão a imitação de Cristo. E essa imitação veiculada por uma prática apostólica. Pra gente poder entender toda essa volta que eu dei, antes, observe que a palavra mesmo imitação, que às vezes a gente deixa de lado na questão do discipulado, como se ela não tivesse nada a ver com discipulado, é justamente a palavra mais importante para o discipulado moderno, aquilo que a gente entende hoje para o discipulado. Então, eu quero chamar sua atenção para algumas passagens. A maioria delas, obviamente, remetendo ao apóstolo Paulo. Por exemplo, Efésios 5:1. Sede, pois imitadores de Deus como filhos amados. Me imetai. Admoesto-vos, portanto, a que sejais meus imitadores. Primeira Coríntios 4:16. Sede meus imitadores, como também eu sou de Cristo. Primeira Coríntios 11:1. Filipenses 3:17. Irmãos, sede imitadores meus e observai os que andam segundo, observe o modelo, não é? Que tendes em vós, em nós. Primeira Tessalonicenses 1, versículo 6 e 7. vos tornastes imitadores nossos e do Senhor, tendo recebido a palavra, posto que em meio de muita tribulação com alegria do Espírito Santo, de sorte que vos tornastes tipon modelo para todos os crentes na Macedônia e na Acaia. Primeira Tessalonicenses 2:14. Tanto é assim, irmãos, que vos tornastes imitadores das igrejas de Deus existentes na Judeia, em Cristo Jesus. Cada um desses textos tem o seu contexto e tem a o seu próprio ambiente de interpretação. Mas o que chama atenção nessa amostragem é a consistência do uso do termo mímes dedicado, portanto, à imitação. E a imitação, ela sempre vai pressupor modelos. Essa palavra mímesis, ela não é uma palavra que surge meramente quando a gente estuda as origens etimológicas da palavra mêmese. Não é só por isso. Ela descreve a natureza do aprendizado. Quantos aqui tocam instrumento musical? Pode levantar a mão, irmão. Não é pecado não. Ainda não. OK. Você já parou para imaginar que para você aprender a tocar um instrumento musical não basta alguém apenas te dar teoria, apenas explicar para você, precisa fazer, mostrar e você precisa observar. E na observação o que que você faz? Imita. Tenta aprender qualquer coisa nessa vida, você vai perceber que é uma condição da natureza. intelectual do ser humano aprender por meio da imitação. Desde a antiguidade, os filósofos estão preocupados com a maneira com a qual as pessoas aprendem e eles, portanto, vão desenvolver tratados e tratados sobre a imitação, mostrando o quanto a imitação faz parte não só das artes, mas faz parte da própria maneira como o sujeito aprende. a gente aprende imitando. Entretanto, a imitação ela envolve modelo, ela envolve referência. Uma outra pergunta agora, quem aqui tem filhos? Ótimo. Alguns aqui já encontraram um filho ou uma filha vestindo a roupa do papai ou da mamãe? Já viram ou não? Imitando o papai e a mamãe. O jeito de falar, jeito de andar. Às vezes nem é o papai, nem a mamãe. Às vezes na família tem um tio maravilhoso. E ali o rapazinho imita o tio. O jeito de falar, a camisa. Eu quero a camisa igual do tio Alfredo. Pronto. Você entende o que eu tô dizendo? Parece que todas as tentativas de a gente realizar alguma coisa pela imitação vai sempre requerer um modelo, vai requerer sempre um tipo. A gente sempre tem que ter uma referência para poder praticar imitação. E isso a gente não precisa fazer uma faculdade de filosofia para descobrir. A vida nos ensina que a gente aprende seguindo modelos. Sejam bons modelos, sejam maus modelos, todos nós temos em nossa vivência as marcas da influência desses modelos. Deixa eu colocar a questão em outra chave para você perceber o quanto isso envolve a questão que começamos a trabalhar ontem, que é a questão da identidade, a questão sobre quem nós somos. Você já parou para imaginar como hoje, mais do que nunca há um papel preponderante dos influências na sociedade? Por que que há esse papel tão poderoso? Porque um influenciador é alguém que modela desejos, que modela intenções, que modela comportamentos, que pauta comportamentos. Até hoje eu não entendi. Eu queria que os especialistas aí me explicasse qual é a relação entre um aparelho de barbear e um jogador de futebol. Você consegue me explicar isso? Você olha assim, mas por que que por que que bota um jogador X incrível para fazer uma propaganda de um aparelho de barbear? Por que que não me apresentam só o aparelho de barbear? Por que que não tem que ter só o aparelho para mim? Põe lá o aparelho diz assim: "Esse aparelho é muito bom. De acordo com as últimas pesquisas científicas, tecnológicas, blá blá blá blá blá blá blá, nada. Não me dão teoria, não me explicam nada, simplesmente me dizem: "Neymar usa prestobarba". E é impressionante porque quem descobriu a força dos modelos no mar no no na vida das pessoas foi o marketing. Todas as vezes que você coloca uma pessoa e ela tem um nome, o garoto propaganda, é porque ele tem uma função aqui modelar, de modelação dos desejos, de representação de intenções, de pauta mesmo, de pautar. Então, ninguém diga eh eh pode ficar, digamos assim, eh num numa posição ingênua com relação a aos modelos. Eles estão aí para modelar comportamentos, para apresentar maneiras de viver no mundo, modos de viver no mundo. Quando a gente volta para esses textos do apóstolo Paulo, e aqui a genialidade de Paulo se aflora, porque ninguém mais do que ele sabe que uma cultura é modelada pelos seus heróis. Os heróis modelam as culturas. Desde sempre foi assim. Você não precisa ir muito longe. Na Anatólica se estudava Homero, se conhecia Homero, se conhecia todas as histórias dos gregos, dos seus heróis e como aquelas histórias modelam comportamentos, modelam ética, modelam maneiras de ver o mundo. Então, quando o apóstolo Paulo oferece pra gente a dinâmica da imitação e do modelo, a dinâmica da imitação e da referência, ele está mostrando que a igreja ela não pode crescer sem referências. Ela cresce com referências. Essas referências são marcos importantes de não só de determinação de comportamento, mas também de aprendizagem. As pessoas aprendem observando modelos. Portanto, todo movimento de imitação apostólica não tinha como objetivo nos transformar em apóstolos. A imitação apostólica não nos transformem em apóstolos tanto quanto a imitação de Cristo não nos torna não transforma. Por exemplo, Paulo em Cristo. A confusão precisa ser desfeita. Imitar os atos dos apóstolos não significa se tornar um apóstolo. Isso que a gente tem que tomar cuidado, porque hoje em dia parece que a gente não consegue mais imitar sem levar em consideração o fato de que a imitação não nos torna aquilo que está sendo imitado ou aquele que está sendo imitado. Essa confusão tem de ser desfeita. A imitação dos Atos dos Apóstolos não significa se tornar um apóstolo ou poder fazer tudo o que os apóstolos faziam. Então, quando um apóstolo, como Paulo diz, sede meus imitadores, o que ele quer dizer com isso? O que se quer dizer com imitadores de Deus? O que se quer dizer com imitadores das igrejas de Deus? Que se quer dizer com modelos a serem imitados? Se quer dizer, obviamente muito mais do que simplesmente repetir padrões. E aqui eu preciso fazer uma observação bem rápida. Você já parou para pensar como isso na religião, nos aspectos religiosos, acontece da maneira mais eh, eu diria assim, eh, visível? Determinados líderes religiosos são imitados ao ponto das pessoas usarem a mesma roupa, falar do mesmo jeito e até se o sujeito tem alguma, sei lá, alguma situação que sofreu um acidente e a mão do sujeito ficou meio atrofeada, o sujeito vai, não é, em nome de Jesus. Aí você vai ali, tá tudo igualzinho. Então você tem a produção em série de gestos, da voz, da roupa. Nunca percebeu isso? Não. Você nunca percebeu em contextos talvez mais íntimos, amigos ou amigas que de repente passam a imitar você? Aí você fica um pouco preocupado, preocupada, né? Porque das duas pode, das duas uma. Ou é admiração ou é inveja. A linha é tênue. A linha é muito tênue. Sabe? Há de eu sempre gosto de de olhar pra inveja como a ferrugem. Em tese, Deus não cria a ferrugem, porque o que Deus cria é o ferro. A ferrugem é ferro. Não é oxidado, corrompido, caído. Inveja é amor que perdeu a graça, caiu, enferrujou, apodreceu. A admiração, ela está dada na manutenção do padrão. Admiração faz você olhar para modelo, imitar o modelo a ponto de querer apenas imitá-lo. Porque no momento em que você não quer mais imitá-lo, mas você quer selo, aí a coisa muda de figura. Você passa do amor à inveja. Talvez esse seja o movimento adâmico mais patente que a gente pode encontrar. A diferença entre ser a imagem de Deus e ser Deus. São coisas distintas. Você amar uma pessoa a ponto de você admirar essa pessoa e imitá-la, não significa que você vai tomar o seu lugar, vai perder a sua própria identidade, o seu próprio ser para se tornar alguém que você não é. Clarissa tem um um fragmento dela que ela diz algo mais ou menos assim: "Eu estava com raiva de mim mesmo, daí quis ser os outros. Quando eu me tornei os outros, descobri que o outro dos outros era eu mesma". Ou seja, todas as vezes que o indivíduo tenta se tornar o outro que ele não é, ele sempre vai ter um outro, ele sempre vai ter uma outra referência. Não existe a possibilidade de você se livrar desta centralidade chamada eu. E as pessoas podem odiar-se a si mesmas de uma tal maneira que elas podem não mais querer ser elas mesmas. Veja, meu filho me dá um exemplo quando ele era bem pequenininho, muito claro de como o filho de Adão já desde pequeno é uma pessoa angustiada, infeliz. Meu filho dizia assim: "Papai, quando eu crescer, eu quero ser o Batman". Você vê felicidade dele? Ele não consegue ser feliz em ser o que ele é. A declaração dele já está revelando angústia do nada, que ele já está constatando. Sou um nada, mas um dia eu quero ser. Quantos aqui já não ouviram esse tipo de comentário? Quando eu crescer, eu quero ser igual fulano. Quando eu crescer, eu quero ser X. A gente vai olhar para modelos o tempo todo e os modelos estão a ir como referenciais. dos quais nós tomamos como modelo de imitação. No entanto, imitar alguém ainda não é se tornar alguém. Na verdade, é a imitação que nos salva da inveja. Só a imitação nos mantém distantes o suficiente da loucura de querer tomar o lugar do outro, a vida do outro, a mesa do outro, o ministério do outro, o esposo do da outra, a esposa do outro. Entende isso ou não? Às vezes a gente acredita que se a gente tiver aquelas coisas que o outro tem, a gente vai conseguir se tornar o que o outro é. Todos esses movimentos têm um único nome, se chama autoengano. O autoengano é toda a expressão da tentativa do ser humano se tornar o referencial que ele admira e não consegue ser e acredita que será possuindo as coisas que ele possui. Portanto, voltando, a imitação, ela jamais pode ser confundida com um tornar-se o outro. Imitar alguém não é se tornar alguém. A imitação permite, portanto, que estas fronteiras estejam bem distantes, o outro e quem nós somos. Antes da gente prosseguir, a pergunta que deve nos nortear para o próximo passo é: "E o que tudo isso tem a ver com o discipulado?" Veja, todas as vezes que nós encontramos Jesus e seus discípulos, o que nós encontramos? Um padrão de imitação. Concordam? Veja, esse padrão de imitação aparece em momentos eh em cenas muito emblemáticas da nossa dos evangelhos. Por exemplo, vocês lembram quando Pedro nega Jesus? Vocês lembram qual é o contexto? Oh, eu acho que você tava com Jesus, hein? Não, imagina quem é Jesus. Não sei nem quem é o seu jeito de falar, não é? Te denuncia. Ou seja, até o jeito de falar denuncia. Portanto, há no ato de seguir a Jesus uma imitação de Cristo que influencia até o vocabulário desses discípulos de Jesus, a maneira deles se comunicarem, as palavras que eles usam, tudo isso é influenciado pela convivência que eles tiveram com Jesus. Então, o discipulado quando ele é visto não apenas na chave de um mestre que ensina conteúdos, mas de um modelo paraa vida, a gente ganha muita coisa. Você sabe que quem descobriu isso de uma maneira muito interessante foi Lutero. Ele inventou uma palavra no alemão. Não existia essa palavra. Ele inventou essa palavra porque ele não conseguia uma palavra em alemão para traduzir o seguir após mim de Jesus. Daí ele inventou uma palavra chamada narfolg, que virou um substantivo, mas que na época era, eles usavam como verbo. Ele misturou verbo, fez ali toda a a mudança morfológica da palavra e ela se tornou um substantivo para explicar o quê? O ato de seguir após Jesus, de ter Jesus sempre à frente, olhando para Jesus como um mestre, que você vai seguir os seus passos, você vai, obviamente, não é a literalidade, mas é a compreensão do discipulado como um mestre a ser seguido. Não apenas um conteúdo a ser assimilado, mas uma vida a ser imitada. E é isso que leva pra gente o problema eh de equívoco sobre o discipulado. Porque às vezes o discipulado ele vira algo dentro do nosso contexto focado apenas numa relação professor e aluno, mestre e discípulo e conteúdos a serem ensinados. E o sujeito que precisa aprender aqueles conteúdos. Quando, na verdade, o discipulado ele está relacionado a um movimento que não diz respeito meramente a informações que você assimila de um mestre, mas uma vida que você reproduz, uma vivência que você reproduz. Seminário é uma bção, meus irmãos. Eu sou um dos maiores incentivadores de seminário. Seminário ajuda a gente a entender muitas coisas, ajuda a gente estudar a Bíblia, que é a maior referência para alguém que quer servir a Deus. Mas você só vai aprender a ser pastor, meu irmão, se você tiver do lado de um outro pastor. Não adianta a pessoa fazer uma teoria do pastor para você. Nunca me esqueço. Dia que cheguei pro Dr. Shed, perguntei para ele, Dr. Ched, como é que foi a sua vocação ministerial pro pastorado, né? Aí ele me contou uma história muito interessante, a história de quando ele foi eh prestou o concílio, um dos examinadores perguntou para ele como é que foi a sua vocação pro ministério pastoral. E ele disse assim: "Irmão, eu não fui chamado, não veio uma voz do céu, não ouvi Deus falar comigo, não teve luzes, não teve fogo, não teve chamas, não veio aquela voz aveludada de um Sid Moreira dizendo: "Ced, [risadas] não teve". Então, como foi? Eu eu tava na igreja e eu comecei a observar um bom pastor e quando eu comecei a ver ele no dia a dia, um dia eu dobrei meus joelhos no meu quarto e disse assim: "Deus, me deixa ser um pastor". Você tá entendendo? Ou seja, você só vai conseguir aprender determinadas vivências se você tiver exemplos. Deixa eu colocar isso agora no campo do discipulado. Como é que a gente vai ter outros cristãos se a gente tiver um discipulado pautado nos modelos? Deixa eu colocar isso da maneira mais explícita possível. Todas as vezes que nós reduzimos o discipulado, há uma mera relação entre um mestre que ensina conteúdos e um discípulo que aprende conteúdos. A gente perde vista a formação do caráter. Perde vista. E a gente cai num modelo gnóstico de discipulado. Por que modelo gnóstico de discipulado? Porque ele é baseado na crença de que se você entendeu, tá tudo resolvido. Se você compreendeu as verdades, se você compreendeu o que precisava ser compreendido, tá tudo resolvido. Você pode ser um mau caráter, você pode ser uma pessoa imoral, você pode ser uma pessoa grossa, uma pessoa sem coração, mas você tem doutrina, você defende a reta da doutrina, você sabe todos os artigos de fé que um teólogo reformado deveria saber. Você é um leão defendendo a fé evangélica em tudo quanto é lugar, mas é um mau caráter. O caráter está mal formado. E a pergunta é por quê? Porque veja, o discipulado com Cristo não é só conteúdos que você aprende, mas é uma modelação dos seus atos, da sua vida. Por isso, se o discipulado for só entendimento, a gente vai ter um monte de gente que quando abre a boca você fala: "Olha pelo discurso, você é crente". Mas as ações, o dia a dia não não reflete o seu próprio discurso. Então, quando é que o discipulado acontece de maneira real na igreja? Quando nós vemos crentes, irmãos em ação, a gente consegue imitar crentes cristãos olhando uns aos outros nas suas ações, nos seus atos, nas suas vivências. A gente precisa de exemplo para vivenciar o discipulado. Então, você percebeu que a gente tá diante de um equívoco? Então, a palavra discipulado parece veicular dois sentidos. Um refere-se ao ato de seguir Jesus. O outro não é o ato de ajudar alguém a seguir Jesus. Então, as pessoas podem entender discipulado como: "Eu estou olhando para Jesus como meu modelo e vou seguir a Jesus". em contrapartida, o outro pode dizer: "Estou ajudando uma pessoa a seguir Jesus". E chamo isso também de discipulado. Isso é mais ou menos o que a gente chama de homonímia. Quando a gente tem duas coisas distintas com o mesmo nome. Por exemplo, eu falo manga. O que vem na sua mente? Ou a fruta, ou o pedaço de roupa, ou o pastor, né? Depende como você tá chamando de manga, né? Manga nome de uma pessoa, manga roupa, manga fruta. São coisas absolutamente diferentes. Alguém aqui já confundiu uma manga com uma manga de uma manga de roupa com a fruta? Deu uma mordida na sua roupa, já deu. Não, você não confunde essas coisas. Você só vai confundir se alguém fala manga e não te dá um contexto, porque é o mesmo nome para coisas absolutamente distintas e que você jamais jamais confundiria. Na lógica, quando a gente estuda as homonímas, a gente não estuda estas palavras, que são as mais fáceis da gente resolver os equívocos. Quando a gente tem homonímeas dessa natureza, que é o mesmo nome para coisas absolutamente diferentes, a gente resolve facilmente a equivocidade dizendo: "Existe manga que é a roupa, existe manga que é fruta, mas existem outras equivocações que dizem respeito a coisas que são muito parecidas e tem o mesmo nome. E aí eu acabo chamando pelo mesmo nome coisas que são muito parecidas, mas não são as mesmas coisas. por exemplo, seguir a Jesus e ajudar alguém a seguir Jesus. São muito parecidas as coisas, mas não são as mesmas coisas. Eu chamo esses dois atos de discipulado, mas estes dois atos não são os mesmos atos. Uma coisa é você seguir a Jesus, outra coisa é você ajudar outra pessoa a seguir Jesus. Então, por exemplo, no português, a gente tem discipulado para as duas coisas, mas só para dar um exemplo para você, no contexto alemão, quando eu descobri isso, eu fiquei muito impressionado, porque de um lado você tem a palavra narfolg para discipulado, mas você tem uma outra palavra yungershaft para falar de discipulado como ato de ajudar pessoas a seguirem a Jesus. Então você tem os livros N Folg e os livros Yugenshaft. Estes daqui, por exemplo, um dos livros conhecidíssimos de discipulado chama-se Discipulado Night Folg do Bom Hof. Já leram esse livro? Alguém já viu esse livro por aí? Discipular do Bonfield. Esse livro ele está tratando sobre o ato de seguir a Jesus. O sujeito compra o livro e aí diz assim: "Uau, um livro sobre discipulado. Vou ajudar os irmãos da igreja a seguirem Jesus. Vou ter um método que vai me ajudar a, sei lá, a praticar o discipulado na igreja. E quando lê o livro não vê nada disso, porque não é discipulado desses termos que você está compreendendo. Ele está ali falando só sobre o que significa seguir a Jesus, qual o custo de seguir a Jesus, o que acontece com uma pessoa que segue a Jesus, como são os passos dados por alguém que segue a Jesus. Já o discipulado como ato de ajudar pessoas a seguir a Jesus, por exemplo, você pega o livro do Mark dever, discipulado, é um livro em que ele está preocupado não em falar sobre o ato de seguir a Jesus, ele está preocupado em como os membros da minha igreja podem se ajudar uns aos outros a seguirem a Jesus. Perceberam a diferença? Essas coisas parecem ser triviais, mas elas não são. Dizer que é fácil seguir a Jesus não é algo tão simples assim. Se fosse algo tão simples assim, a gente não teria um dos maiores equívocos, não é, eh, já publicados e que vendeu 50 milhões de exemplares, como é o caso em 1897, do famoso livro do Charles Sheldon. Alguém já conhece aqui, já deve ter lido. Em seus passos, você leu, né? Em seus passos, o que faria Jesus? Então, foi um bestseller incrível, vendeu muito e etc, mas a proposta dele é uma proposta puramente especulativa. A proposta dele é a seguinte: "Me disseram que eu preciso seguir Jesus. Como eu faço para seguir a Jesus?" A pergunta é essa: em seus passos, né? O que faria Jesus? Percebeu o que tá sendo dito? O que Jesus faria hoje? Essa é a pergunta do livro. Totalmente especulativa. Sujeito hoje que vai responder o discipulado como ato de seguir a Jesus nesses termos, ele fica imaginando. Caramba, meu chefe pediu para que eu dissesse que ele não está. E ele está. Eu tô olhando para ele, ele tá dizendo: "Fala que eu não tô". E você tá assim, Sheldon. em seus passos. O que faria Jesus? Se Jesus estivesse aqui, ele mentiria ou não mentiria? Sabe aquelas discussões éticas polêmicas? Por exemplo, se chega uma pessoa, você tá escondendo, sei lá, pessoas que são inocentes de, sei lá, pessoas malvadas que querem matá-las e você esconde dentro da sua casa, alguém bate lá na porta e assim: "Ei, fulano, belano, cano tá aí em seus passos". O que faria Jesus? Aí você tem que pensar, se Jesus estivesse no meu lugar, o que ele faria? Então, todas as nossas reflexões éticas de vida, de prática, elas estão pautadas na especulação. Eu fico imaginando o que que Jesus faria. E se hoje existisse uma grande conferência X que envolvesse XPTO, a pergunta é: em seus passos, o que faria Jesus? A gente especula. Jesus iria, Jesus não iria, Jesus viraria a mesa das igrejas hoje ou Jesus estaria junto com os irmãos da igreja cantando? Então, todos esses movimentos, você percebe, são movimentos especulativos que eles sempre são colocados nesses termos. O que Jesus faria? Então, a maior parte do discipulado moderno se pautou nesse problema. Temos, de um lado o ato de seguir a Jesus, temos do outro lado a tarefa de ajudar pessoas a seguirem a Jesus. Mas qual é o fundamento para seguir a Jesus? A especulação. Eu tenho que me colocar em questões em que eu pense o que Jesus faria agora. Não, Jesus daria outra face. Não, Jesus não xingaria. Não, Jesus não falaria alto, não. Jesus não falaria baixo. Não, Jesus não diria isso. Jesus não diria aquilo. Tudo diria, faria. Percebeu isso? Pensaria. tudo da ordem da especulação. Então, o discipulado se tornou especulativo. E quando o discipulado se torna especulativo, o ato de seguir a Jesus faz de Jesus um modelo moral para observarmos a partir desse modelo moral o que faríamos hoje. contrapartida, e aqui eu volto às palavras de Paulo, ele não fusa os condicionamentos especulativos, mas imperativos. ser imitador. E ser imitador parte do pressuposto de que o desafio do discipulado na chave da imitação, ele já tem uma referência, não pode ser especulativo. Aí o discipulado precisa mudar o seu critério em vez de em seus passos o que faria Jesus. O discipulado que presta atenção no que Paulo está dizendo vai mudar a pergunta. Não vai ser mais em seus passos o que faria Jesus, mas em seus passos o que Jesus fez. É exegese, é interpretação bíblica, é leitura bíblica, é conhecimento das escrituras que tá faltando pro discipulado moderno. A gente tá com muita especulação, é muita imaginação, é muito the chosen na cabeça. Cadê a água aqui? Antes que você brigue comigo, gente, você é dá para ficar, se você se sentiu emocionado vendo Jesus, fica em paz, irmão. Você não pecou, não, fica tranquilo. Mas tem gente que está fazendo da especulação do The Chosen, o substituto da Bíblia. O cara nem mais lê a Bíblia, ele não cita mais a Bíblia. fala no chen, [risadas] meu senhor. Mas o o The Chosen tá dizendo outra coisa. Então, o referencial se tornou especulativo. Não temos autorização para mexer no padrão. Quando Paulo estabelece o padrão imitativo, ele está estabelecendo a partir de um princípio apostólico. Gente, tem que levar isso muito a sério. Eu sei que a gente vai ler Paulo como teólogo, mas o dia que você esquecer que Paulo é Bíblia, você vai ter um cano dentro do cano. Você vai olhar as palavras vermelhas de Jesus e vai dizer: "Essas aqui são maiores do que as de Paulo". É mais Bíblia do que Paulo? Não tem. As palavras de Paulo são tão autoritativas pra igreja quanto as palavras de Jesus. Porque Paulo também é Bíblia. Você entende a figura apostólica. Por isso que as pessoas queriam se passar por apóstolo. Naquela época tinha essas coisas, hoje não tem. Mas naquela época as pessoas queriam ser apóstolos. Não era por causa disso aqui não, viu? Elas querem por outras razões. Elas querem o poder da influência, o poder da normatização do padrão de fiéis. Ou seja, os apóstolos, eles tinham a prerrogativa do modelo, do tipon. Eles são tipon de cristão. É como um cristão tem de viver. E depois os pastores não vão ser outra coisa senão mimetizadores dos apóstolos. Eles não podem acrescentar nada. Eles têm de pregar a pregação dos apóstolos, imitar a pregação dos apóstolos. Essa imitação que não para até hoje e que só se sustenta pelo rigor das escrituras. Por isso, não pode ter discipulado fiel numa igreja sem Bíblia. >> Não dá para você ter discipulado poderoso numa igreja se não tiver cultura de leitura bíblica na igreja. Aí a gente entende o que eram os de fato discípulos de Jesus. Portanto, meus irmãos, o discipulado é imitação de Cristo, mas segundo as escrituras, não segundo nossa especulação, não o Jesus fabricado pela sua criatividade. Jesus que você especulou não sangrou naquela cruz. É produto da sua imaginação. Você está seguindo uma ficção. Só o Jesus das Escrituras deve ser seguido a risca naquilo que ele fez, não naquilo que ele faria. Lá eu vou saber o que Jesus faria. Quem de nós aqui pensa arrogância? O que que Jesus faria? Ô meu, você tem que ser um absurdo para você falar um negócio desse. É claro que não é possível você saber o que Jesus faria. A única coisa que Deus te deu foi o que Jesus fez. E é suficiente pra gente viver uma vida feliz. Mas o Jesus fabricado, ele é modelo de cristãos genéricos. de cristãos que parecem, de cristãos que tem um discurso. Você entende? Um Jesus fabricado não pode nos salvar, porque o Jesus fabricado é um Jesus que você pode seguir. Por isso que você fabrica esse Jesus, porque ele tem a sua opinião. Ele pensa igual a você e ele coloca o padrão de vida assim, ó, no nível que você olha diz assim: "Isso aqui eu consigo. O Jesus fabricado não te humilha. O Jesus fabricado não te deixa pequeno. O Jesus fabricado não faz você olhar e dizer assim: "Tá tão, eu tô tão longe, Senhor". O Jesus fabricado não cria em você desespero. O Jesus fabricado não te desespera. Só o verdadeiro Jesus te desespera. Só o Cristo das Escrituras faz você olhar para ele dizer assim: "Como eu estou longe de ser como o meu Jesus!" E é nessa hora que Deus nos dá a graça, porque é com ela que a gente se torna como Jesus. É nessa hora que a gente descobre que ninguém vai seguir Jesus com suas próprias pernas, que a gente segue a Jesus pela graça, pelo Espírito de Deus. Ninguém pode seguir a Jesus se não for pelo Espírito de Deus, se não for por Cristo Jesus. Por isso, seguir a Jesus é o maior desafio de um cristão. Porque não é só saber tudo sobre o Jesus histórico e o Cristo da fé. é imitar o Cristo das Escrituras. Mas como a gente vai conhecer o Cristo das Escrituras? Se a gente não estuda as Escrituras, tudo que você precisa saber sobre Jesus está nos Evangelhos, está também nas epístolas paulinas, está em toda a Bíblia. Ninguém compreendeu melhor Jesus do que Paulo. Ninguém compreendeu melhor Jesus do que Tiago. Ninguém compreendeu melhor Jesus do que Pedro. O que eles compreenderam pode não ser tudo sobre Jesus, mas é o suficiente para fazer você um cristão salvo pela graça e misericórdia de Jesus. Como a gente termina com crise de identidade? Porque a gente tem que voltar a pergunta: quem eu sou? O que esse discipulado tem a ver com a raiz do meu eu? Discipulado é seguir a Jesus, mas não nos meus termos. Eu queria seguir Jesus nos meus termos, mas não. O discipulado é nos termos de Jesus. E dizer que o discipulado é nos termos de Jesus é dizer nos termos da escritura. Tenho de conhecer Jesus nas Escrituras. Tenho de ler as Escrituras para seguir Jesus, a fim de ajudar outras pessoas a também seguirem a Jesus nos termos de Jesus. Então, qual é a definição discipulado que a gente defende aqui hoje? Discipulado é seguir a Jesus nos termos de Jesus, a fim de ajudar outras pessoas a seguirem a Jesus nos termos de Jesus. Lindo isso, né? Bom, a imitação de Cristo mediada pela pregação dos apóstolos não comprometeria a autenticidade, a originalidade do discípulo. Quem sou eu? Se agora tudo que eu tenho de ser é o que me é apresentado como modelo e o principal modelo que é Cristo Jesus. Hoje a gente vive a cultura da autenticidade. Seja autêntico. Como assim eu vou imitar alguém? Eu tenho vontade própria. Eu tenho personalidade. Como assim imitar? Não seria a imitação de Cristo uma forma justamente de inautenticidade ou até mesmo uma tentativa de fuga do compromisso inescapável de dar conta da nossa própria identidade? Não é isso que você escuta todos os dias os dias? Seja você mesmo. Por que que você vai se tornar um outro? Assuma sua verdadeira identidade. Se você precisa abrir mão de costumes e culturas e etc, faça tudo em nome da sua identidade. E daí? Se o seu corpo é diferente do que você é, o que importa é o seu eu. Se você está num corpo que não corresponde mais ao seu eu, pior corpo, não é isso que se diz por aí? Então, diante de uma mensagem que diz que você tem de ser quem você é, qual a resposta do discipulado quando nos oferece que justamente o caminho da nossa perdição está em ser quem nós queremos ser? E se a felicidade e a maior revelação da nossa identidade for justamente não ser quem queremos ser e muito menos muito menos o que os outros querem que a gente seja. E se a nossa verdadeira identidade não for outra senão aquela pela qual Deus nos chama pelo nome, aquela que Deus conhece, aquela que reflete a consciência do salmista quando diz: "Senhor, sonda o meu coração, prova os meus pensamentos. Existe um eu que não pode caminhar com Jesus. Ele precisa ser abandonado. Mas a pergunta continua: que eu é esse? que eu precisa ser negado para que a gente possa seguir a Jesus nos termos de Jesus e ajudar pessoas a seguirem a Jesus nos termos de Jesus. As cenas dos próximos capítulos só amanhã. Vamos orar. Pai querido, nos dê graça para aceitarmos o discipulado como um grande desafio. O desafio, em primeiro lugar, de ter a tua palavra como referência. Não a nossa especulação, não o que a gente acha que Jesus é, não o que a gente pensa que Jesus seria, mas o que a tua Bíblia diz que ele é, o que a tua Bíblia diz que ele fez, o que a tua Bíblia diz que ele realizou. nos ajude, Senhor, a olhar para Jesus e nos sentindo tão pequenos e incapaz de ser como eles, como ele, contar com a tua graça, porque se não é tua graça, a gente não consegue seguir o Senhor. Pedimos então, Pai, que diante da grandeza de Jesus, a grandeza da graça seja do tamanho de Jesus, para que a gente possa ter perna para sempre seguir e ter ele no nosso horizonte. Em nome de Jesus oramos. Amém. Yeah.