Sermões Online

A fé vem pelo ouvir

Antes de Tudo, Deus | Josemar Bessa

Antes de Tudo, Deus  | Josemar Bessa

Antes de Tudo, Deus | Josemar Bessa

Antes de tudo, Deus. Antes da criação, antes da queda, antes da nossa necessidade — Deus já era pleno, perfeito e triúno: Pai, Filho e Espírito Santo.
Nesta meditação profunda e adoradora, exploramos a beleza da doutrina da Trindade não como um enigma teológico, mas como o coração ardente da fé cristã. Descubra por que Deus nunca precisou de nós, por que o amor nunca começou e como essa verdade transforma toda a nossa vida espiritual.

Se você busca teologia profunda, contemplação e adoração verdadeira, este vídeo é para você.

✨ Temas abordados:
• A primazia absoluta de Deus
• Por que Deus não estava solitário
• A vida eterna e relacional da Trindade
• Como começar a pensar “Antes de tudo, Deus”

✅ Inscreva-se no canal e ative o sininho para mais estudos bíblicos profundos.

QUERO SER MANTENEDOR DESTE MINISTÉRIO:

Pix 21 999811424
Pix [email protected]
Pix 011.737.737.62

PayPal – [email protected]

Caixa Econômica Federal
Agência 4087
Operação 013
Conta 51850-3

Banco Inter ( Beleto bancário )
Agência 0001
C/ C 60240490
CPF 011.737.737.62
Claudia Vidal Bessa

Banco do Brasil
Agência 4315-x
Conta poupança 14957-8
Operação 051
Claudia Vidal Bessa

REDES SOCIAIS:

💻 Site: http://www.josemarbessa.com/
🐦 Twitter: https://twitter.com/JosemarBessa
📷 Instagram: http://www.instagram.com/josemarbessa
💎 Facebook: https://www.facebook.com/josemarbessa
💎 Facebook Page: https://www.facebook.com/pastorjosemarbessa
💌 Email: [email protected]
🎬 Youtube – Josemar Bessa – https://www.youtube.com/user/JosemarBessa
🎬 Youtube – ReformedSound – https://www.youtube.com/user/reformedSound
🎬 Youtube – SpurgeonTv – https://www.youtube.com/user/spurgeontv

Legendas automáticas:

Há uma desordem muito antiga no coração
humano. Não apenas a desordem moral, não
apenas a desordem dos desejos, não
apenas a desordem da vontade, mas uma
desordem ainda mais funda, mais
silenciosa e mais abrangente.
A desordem de começar pelo lugar errado.
O homem começa por si, começa por sua
necessidade, começa por sua dor, começa
por sua culpa. Começa por sua busca,
começa por sua crise, começa por suas
perguntas, começa por sua fome de
sentido, começa por sua vontade de ser
feliz, começa por sua tentativa de
sobreviver ao peso do mundo, começa por
seu desejo de resolver a vida,
compreender a fé, suportar o tempo,
organizar o caos, aliviar a consciência,
encontrar paz. E, no entanto, a
realidade não começa a ir.
A fé cristã também não. Antes da nossa
necessidade, há a plenitude de Deus.
Antes da nossa fome, há a satisfação
infinita de Deus em si mesmo. Antes da
nossa busca, a vida de Deus completa,
perfeita, eterna e sem carência. antes
da criação, antes da queda, antes da
história, antes do sofrimento, antes dos
anjos, antes dos céus, antes da luz
primeira, antes do primeiro movimento do
tempo, antes de qualquer criatura
levantar os olhos para perguntar quem é
Deus, Deus já era. E Deus não estava em
processo, não estava tornando-se, não
estava crescendo, não estava
descobrindo-se, não estava preenchendo
alguma ausência antiga, não estava
solitário à espera de companhia, não
estava incompleto à espera de expressão,
não estava silencioso por falta de
palavra, não estava sem amor à espera de
um objeto externo, não estava sem
alegria à espera de A plateia não estava
sem glória à espera do mundo. Deus já
era Deus. E essa frase tão breve, tão
simples, contém uma profundidade que
ultrapassa a capacidade
de qualquer mente criada. Porque dizer
que Deus já era Deus é dizer que tudo
quanto nele é vida, luz, amor,
perfeição, plenitude, beleza,
conhecimento, alegria e majestade,
não surgiu com o mundo, não depende do
mundo, não cresce com o mundo, não
recebe do mundo e não precisa do mundo
para ser o que é. O mundo não acrescenta
nada a Deus. A criação não aperfeiçoa
Deus, a história não enriquece Deus. A
redenção não completa Deus. A adoração
da igreja não supre alguma falta em
Deus. Nossa obediência não preenche um
vazio divino. Nosso amor não inaugura
algo que antes lhe faltasse. Nosso
louvor não acende uma glória adormecida.
Tudo que Deus é, ele é em si mesmo.
Sempre foi, sempre será. E talvez
uma das primeiras purificações de que a
alma necessita ao aproximar-se da
teologia seja precisamente esta:
aprender a pensar em Deus, não como um
ser supremo entre outros seres, não como
uma versão infinita de nossos próprios
afetos, não como um monarca cósmico, que
embora maior do que tudo, ainda assim
dependa de algo fora de si para exercer
ser plenamente o que é. Não, Deus não é
grande apenas em grau. Não é
simplesmente mais forte, mais sábio,
mais brilhante ou mais antigo do que
nós. Ele não pertence à mesma ordem de
ser que nós, apenas numa escala
incomparavelmente superior.
Não. Deus é Deus.
E entre esta afirmação e qualquer
imaginação humana, há um abismo.
Porque tudo que conhecemos na criação
vive sob a marca da dependência.
Toda criatura recebe, toda criatura
deriva, toda criatura é sustentada, toda
criatura se move porque outra coisa a
move. Toda criatura ama porque foi feita
para amar. Toda criatura deseja porque
lhe falta. Toda criatura procura porque
não possui em si mesma a fonte da sua
própria plenitude. Toda criatura conhece
por participação. Toda criatura existe
por concessão.
Toda criatura, em algum nível tende para
fora de si, porque não pode bastar-se.
Mas Deus não. Deus não tende para fora
de si por carência.
Não busca porque nada lhe falta. Não
recebe porque nada lhe possa ser dado.
Não aprende porque nada lhe está oculto.
Não se desenvolve porque nada nele está
incompleto. Não se aperfeiçoa porque já
é perfeição. Não sai de si à procura de
satisfação, porque em si mesmo é vida
infinita, plenitude sem fissura,
felicidade sem sombra, glória sem
início, amor sem indigência,
conhecimento sem limite. É aqui que a
mente humana começa a vacilar, porque
estamos acostumados a pensar a partir da
falta. Pensamos por comparação,
desejamos por ausência, amamos porque
somos atraídos por algo que não temos em
nós. Movemo-nos porque há diante de nós
algo ainda não alcançado. Mas em Deus
não há esse tipo de movimento originado
na necessidade.
Em Deus não há carência que explique sua
ação. Em Deus não há vazio que motive a
criação. Em Deus não há solidão
primordial que torneo.
Em Deus não há necessidade de
testemunhas para que sua glória exista.
Em Deus não há melancolia eterna à
espera de seres que o amem.
Isso precisa ser dito com força, precisa
ser dito de novo, precisa ser dito
contra mil distorões religiosas e
emocionais que, por piedosas que
pareçam, acabam reduzindo Deus à imagem
de um rei solitário, de um artista
carente de plateia, de um pai
fragilizado pela ausência de filhos, de
uma divindade que cria porque precisava
amar algo para ser plenamente quem é.
Não,
Deus não criou porque precisava, criou
porque quis. Não criou para
completar-se. Criou a partir de sua
plenitude. Não criou porque estava só.
Criou porque a solidão nunca existiu em
Deus. Não criou porque o amor só pudesse
existir quando dirigido a criaturas.
Criou porque o amor já era eternamente
pleno em sua própria vida. Não criou
porque a glória precisasse de cenário.
Criou porque a glória já transbordava
antes que houvesse cenário algum. É por
isso que toda teologia verdadeiramente
cristã precisa, cedo ou tarde ser
desalojada da abstração monótona de um
Deus genérico. Um Deus genericamente
supremo. Ainda não é o Deus das
Escrituras. Um Deus concebido apenas
como unidade indiferenciada.
vontade absoluta ou poder nu ainda não é
o Deus vivo. Um Deus pensado, sem
comunhão, sem riqueza interna, sem vida
relacional plena, sem palavra, sem amor
eterno, sem alegria intradivina, é uma
ideia alta demais para o homem comum e
baixa demais paraa revelação bíblica.
Porque o Deus da Bíblia não é apenas um,
ele é uno, sim. Mas sua unidade não é
esterilidade.
Sua unicidade não é solidão. Sua
simplicidade
não é monotonia. Sua eternidade não é
imobilidade vazia. Seu ser não é
silêncio estéril. Sua glória não é
clarão sem calor. Sua plenitude não é
repouso inerte. O Deus da Bíblia é vivo.
E quando dizemos vivo, não estamos
usando apenas uma palavra devocional, um
adjetivo reverente, um modo piedoso de
falar que Deus age na história. Estamos
dizendo algo mais profundo. Vida em Deus
não é algo acrescentado, é sua própria
realidade. Ele não tem vida como nós a
temos por participação.
Ele é a fonte dela. Ele não apenas vive,
ele é o Deus vivo. Toda vitalidade
verdadeira, toda beleza real, toda
inteligência pura, todo amor que não se
corrompe, toda alegria que não se
esgota, toda comunhão sem sombra, toda
glória sem vaidade e toda felicidade sem
mistura, são apenas reflexos criados e
fragmentários da plenitude incriada que
nele sempre foi. E é precisamente aqui
que a fé cristã começa a pulsar com
força própria. Porque se começamos por
nós, tudo se encolhe. Deus vira
resposta, Deus vira recurso, Deus vira
auxílio. Deus vira solução religiosa
para o homem ferido. Deus vira a peça
central da nossa tentativa de
reorganizar a existência. Deus vira
objeto da nossa necessidade.
Mesmo quando falamos alto sobre ele, no
fundo continuamos tratando como função
dentro da nossa história. Mas quando
começamos com Deus, tudo muda. O homem
deixa de ser o centro da cena.
A queda deixa de ser o primeiro
capítulo. A redenção deixa de ser um
plano improvisado. A graça deixa de
parecer mera reação divina ao nosso
fracasso.
A própria criação adquire outro brilho.
A salvação deixa de ser apenas resgate
de miseráveis e passa a ser inclusão de
criaturas numa realidade infinitamente
maior do que sua simples necessidade.
Tudo muda porque antes de tudo, Deus,
antes do pecado, Deus, antes da
tristeza, Deus, antes do abismo, Deus
antes da promessa, Deus antes da
aliança, Deus antes de Abraão, Deus
antes de Moisés, Deus antes de Davi,
Deus antes dos profetas, Deus antes de
Belém, Deus antes do Getsême. Deus,
antes do túmulo vazio, Deus antes da
igreja, Deus antes do último dia, Deus.
E isso não reduz a história da redenção.
Pelo contrário, dá-lhe seu verdadeiro
tamanho. Porque o evangelho
não é a tentativa de Deus de recuperar
algo sem o qual ele não poderia ser
plenamente feliz. O evangelho é a livre,
santa, sábia e gloriosa ação de um Deus
que já era perfeitamente bem-aventurado
em si mesmo e que, sem qualquer
necessidade, decidiu fazer com que
criaturas participassem de sua bondade.
A redenção não é um movimento
desesperado de um Deus diminuído pela
queda. é a extensão soberana da bondade
de um Deus cuja vida nunca esteve
ameaçada por nada fora dele. E só quando
percebemos isso, começamos a sentir a
verdadeira estranheza da graça. Porque a
graça não brota da falta divina, brota
da plenitude divina. Não brota de
necessidade, brota de generosidade. Não
brota de carência, brota de
superabundância.
Não brota do fato de Deus precisar de
criaturas para amar. brota do fato de
que o amor já é tão real, tão pleno, tão
perfeito e tão vivo em Deus, que a
criação e a redenção aparecem não como
remédio para sua pobreza, mas como
transbordamento
da sua riqueza.
Mas ainda estamos apenas no limear.
Porque dizer antes de tudo Deus ainda
não é dizer o suficiente. É preciso
acrescentar antes de tudo o Deus trino.
E aqui o coração do evangelho começa
realmente a bater.
Pois se Deus fosse apenas uma unidade
solitária, ainda poderíamos afirmar
muitas coisas sublimes a seu respeito.
Poder, eternidade, sabedoria. soberania,
imutabilidade,
mas continuaríamos diante de uma
pergunta que assombra toda a visão não
trinitária de Deus. Como o amor pode ser
eterno se não há desde sempre comunhão
real em Deus? Como a palavra pode ser
eterna se não há desde sempre
autoexpressão viva em Deus? Como a
alegria pode ser plena se não há desde
sempre regozijo mútuo em Deus? Como
alegria pode ser relacionalmente
perfeita se só mais tarde com a criação
surgirem outros para contemplá-la?
A resposta cristã não é filosófica
primeiro é bíblica, é revelacional, é
adoradora, é assombrosa. Deus é pai,
filho e espírito santo. E isso significa
que antes de haver mundo já havia
comunhão. Antes de haver criaturas para
contemplar Deus, Deus já se conhecia
perfeitamente.
Antes de haver seres para amar Deus, já
havia amor em Deus. Antes de haver
qualquer cântico criado, já havia
alegria em Deus. Antes de haver
história, já havia glória. Antes de
haver linguagem humana, já havia a
palavra. Antes de haver sopro nos
pulmões dos homens, já havia espírito.
Antes de qualquer relação criada, já
havia a vida relacional perfeita no
próprio ser de Deus. E é aqui que todo o
pensamento cristão se torna mais
brilhante, mais quente e mais vasto.
Porque já não falamos de uma deidade
abstrata. Falamos do Pai, falamos do
Filho, falamos do Espírito Santo. Já não
falamos de mera unidade, falamos de
plenitude. Já não falamos de mero poder,
falamos de vida. Já não falamos de uma
eternidade vazia. falamos de uma
eternidade fecunda, luminosa,
consciente, amorosa, feliz e
infinitamente plena.
A doutrina da trindade não é um apêndice
estranho da fé cristã. Não é uma charada
sofisticada para teólogos pacientes. Não
é uma extravagância metafísica suspensa
acima da vida comum. Não é um enigma
ornamental acrescentado ao final do
credo para humilhar a razão. Ela é o
coração ardente da visão cristã de Deus.
É a razão pela qual a glória divina não
é um brilho frio. É a razão pela qual o
amor não entra tardiamente na história
de Deus. é a razão pela qual a criação
pode ser compreendida como
transbordamento e não como compensação.
É a razão pela qual a redenção pode ser
compreendida como convite e não como
simples reparo. É a razão pela qual o
evangelho, em seu ponto mais alto, não
nos oferece apenas perdão, mas comunhão.
É a razão pela qual a vida cristã não
pode ser reduzida à moralidade,
utilidade, consolo subjetivo ou
sobrevivência religiosa.
É a razão pela qual o céu não será
apenas ausência de dor, mas participação
em alegria. É a razão pela qual a glória
de Deus não pode ser entendida sem falar
do conhecimento, amor, deleite e vida em
Deus mesmo. Mas não devemos correr
depressa demais. Porque antes de entrar
nessas riquezas, a alma precisa parar e
aprender de novo a ficar em silêncio
diante da primazia de Deus. Precisa ser
curada da pressa antropocêntrica.
Precisa desaprender a tratar a teologia
como ferramenta imediata para a
autogestão espiritual. Precisa permitir
que Deus seja Deus antes de perguntar o
que tudo isso faz por mim. precisa
sentir a majestade desta simples
realidade. Tudo começa nele, não em mim.
Esse deslocamento é mais importante do
que parece, porque enquanto o homem
continua sendo o ponto de partida, até
mesmo a linguagem da glória de Deus pode
ser absorvida pela lógica do eu. Deus
será glorioso porque me ajuda. Deus será
grande porque me responde. Deus será
precioso porque me sustenta. Deus será
admirável porque cabe bem dentro do
drama da minha história. E assim mesmo
quando confessamos sua centralidade, o
usamos como eixo para continuar falando
de nós. Mas quando a alma é finalmente
arrancada desse centro falso, ela começa
a ver, começa a ver que Deus não é
glorioso porque é útil. Ele é útil
porque é glorioso. Não é belo porque
responde à nossa carência. Nossa
carência é tão desesperadora, justamente
porque fomos feitos para ele. Não é
importante porque nos consola. Seu
consolo só é consolo porque procede
daquele que é em si mesmo a plenitude de
todo bem. Não é digno porque se
relaciona conosco. Qualquer relação
conosco só é espantosa porque ele já é
em si mesmo infinitamente digno. Então,
algo de muito precioso acontece.
O coração começa a sentir que o
verdadeiro começo da sabedoria não é
apenas perceber que Deus existe, nem
apenas que Deus manda, nem apenas que
Deus julga, nem apenas que Deus salva. O
verdadeiro começo da sabedoria é
contemplar que Deus é Deus antes de mim,
sem mim, acima de mim, em si mesmo, e
ainda assim não fechado em esterilidade,
mas pleno de vida e glória em sua
própria eternidade.
Este é o primeiro grande limiar antes da
criação Deus, antes da redenção Deus,
antes da história Deus, antes de tudo
Deus. e não um Deus qualquer, não uma
unidade vazia, não um absoluto abstrato,
não um soberano solitário, mas o Deus
vivo, bendito, pleno e triuno, o Pai, o
Filho e o Espírito Santo.
Talvez uma das ideias mais pobres que já
se pensaram acerca de Deus seja a de uma
majestade solitária, uma espécie de
grandeza isolada, um absoluto
silencioso, uma eternidade imóvel, uma
perfeição sem comunhão, um poder sem
ternura, uma glória sem troca,
uma unidade tão rígida que, embora
imensa, se torna fria, uma divindade
suficientemente elevada
para impor reverência, mas não
suficientemente viva para explicar o
amor. algo de profundamente melancólico
nessa imaginação, porque ela até pode
produzir temor, pode produzir tremor
metafísico, pode produzir assombro
diante da vastidão, pode produzir
submissão a uma força suprema, mas não
consegue explicar a alegria, não
consegue explicar a comunhão, não
consegue explicar porque o amor não é um
acréscimo tardio na realidade, não
consegue explicar porque a relação não é
um acidente posterior.
da existência, mas algo que parece
correr por dentro da própria estrutura
do ser. A fé cristã ousa responder de
modo espantoso, porque Deus nunca esteve
só. Nunca. Nunca houve um instante de
solidão em Deus. Nunca houve um momento
anterior ao amor. Nunca houve uma
eternidade muda. Nunca houve um um Deus
sem palavra. Nunca houve plenitude sem
deleite. Nunca houve glória sem
conhecimento.
Nunca houve vida sem comunhão. O Pai
nunca existiu sem o Filho. O Filho nunca
existiu sem o Pai. O Espírito Santo
nunca foi uma adição posterior ao ser
divino.
Antes de toda a criação, antes de
qualquer princípio, antes de toda medida
do tempo, antes de todo aja, antes de
qualquer brilho criado, antes de
qualquer mente angélica, antes de
qualquer jardim, antes de qualquer
estrela, antes de qualquer voz humana
que dissesse Deus, já havia o Pai, o
Filho e o Espírito Santo. Isso precisa
ser dito não apenas como fórmula, mas
como assombro.
Porque boa parte da nossa pobreza
espiritual começa quando repetimos a
trindade como doutrina correta, mas não
a sentimos como revelação ardente.
Dizemos pai, filho, espírito santo e
seguimos adiante como quem apenas
preserva um artigo ortodoxo importante.
Mas há
vulcões de glória escondidos nessa
confissão.
a diferença entre um universo habitado
por comunhão eterna e o universo saído
de uma solidão inexplicável. Há nela a
diferença entre um amor que é essencial
à realidade e um amor que só entrou em
cena tardiamente.
A nela a diferença entre uma glória viva
e uma glória inerte.
Dizer que Deus nunca esteve só é dizer
que o amor não começou. Ele não começou
quando o mundo foi criado. Não começou
quando os anjos foram feitos. Não
começou quando o homem ergueu a voz em
adoração.
Não começou quando houve uma criatura
para ser amada. O amor já era. O amor já
vivia. O amor já ardia sem febre, sem
carência, sem oscilação, sem miséria,
sem necessidade dentro da própria vida
de Deus. O pai amava o filho antes da
fundação do mundo. O filho vivia voltado
para o pai numa perfeita correspondência
filial. O espírito não surgiu como força
impessoal entre ambos, mas como a
própria vida divina em sua plenitude
pessoal, santa, gloriosa e eterna. Tudo
o que em nós aparece como lampejo,
afeto, alegria, conhecimento, comunhão,
prazer, repouso no outro, satisfação em
contemplar, felicidade em dar-se e
receber-se. Tudo isso existe em Deus,
sem sombra, sem mistura, sem corrupção,
sem mutabilidade, sem cansaço, sem risco
de perda. A nossa experiência de
comunhão é fragmento. Em Deus é oceano.
A nossa experiência de amor é alternada.
Em Deus é plenitude.
A nossa experiência de conhecer é
penosa, parcial, hesitante. Em Deus o
conhecimento é perfeito. A nossa
experiência de alegria é vulnerável. Em
Deus a alegria é invencível. A nossa
experiência de relação está sempre
ameaçada por malentendidos, egoísmos,
temores, silêncios e limites. Em Deus, a
comunhão é sem ruído, sem fratura, sem
defesa, sem opacidade.
É por isso que o Deus trino não pode ser
pensado como se fosse apenas uma versão
religiosa da palavra divindade.
Ele não é conceito ampliado, não é
construção filosófica revestida de nomes
bíblicos, não é mero ser supremo, é o
pai eterno com o Filho eterno no vínculo
eterno do Espírito Santo. É vida sem
começo, é comunhão sem rachadura. é amor
sem necessidade, é alegria
sem interrupção. E talvez aqui
precisemos desacelerar de novo, porque o
coração humano acostumado à escassez
custa acreditar na plenitude. Nós
conhecemos o amor com medo, conhecemos a
alegria com data de validade. Conhecemos
o encontro com a sombra da perda,
conhecemos a comunhão com o risco da
ruptura. Conhecemos a beleza como
presságilio do desvanecimento.
Conhecemos a intimidade sobre a pressão
do mal entendido. Conhecemos até mesmo
os melhores dons da vida como coisas
frágeis, emprestadas, intermitentes.
Então, quando falamos de plenitude em
Deus, quase sempre imaginamos algo menor
do que realmente é. Traduzimos o
infinito em termos da nossa experiência
quebrada. Pensamos em Deus como se ele
tivesse apenas uma versão maximizada do
que chamamos de felicidade. Mas a
felicidade de Deus não é muito grande, é
a própria perfeição de sua vida
intradivina.
A alegria de Deus não é um humor
exaltado, é o eterno regozijo do Pai, do
Filho e do Espírito na comunhão infinita
de seu próprio ser. O amor de Deus não é
apenas disposição benevolente. É a
própria vida de Deus em sua santa,
pessoal, mútua e inesgotável entrega. O
Deus trino não é feliz porque as coisas
deram certo para ele. Não é feliz porque
recebeu algo. Não é feliz porque
realizou um plano. Não é feliz porque
olhando para fora de si encontrou o que
lhe faltava. Ele é bem-aventurado em si
mesmo. Que frase magnífica.
bem-aventurado em si mesmo. Isso quer
dizer que toda a felicidade criada,
quando é verdadeira, apenas participa de
longe da felicidade encriada. Todo
prazer legítimo, toda paz pura, toda
comunhão bela, toda amizade santa, todo
amor ordenado, todo deleite sem culpa,
toda mesa em que há gratidão, toda casa
em que há descanso, toda música que
parece carregar algo maior do que suas
notas.
Todo abraço que por um instante nos faz
suspeitar que o mundo foi feito para
reconciliação, tudo isso é eco, apenas
eco, apenas centelha, apenas traço,
apenas reflexo frágil da felicidade
absoluta de Deus em Deus.
E essa felicidade não é fechada como
avareza, é plena como fonte. Isso
importa muito, porque quando pensamos em
autossuficiência, tendemos a imaginar
distância. Pensamos num ser que basta a
si mesmo e, por isso, não se inclina,
não comunica, não se doa, não se
relaciona.
Mas a autossuficiência do Deus trino não
é isolamento estéril, é superabundância.
Ele não precisa porque está cheio. E
justamente por estar cheio pode dar sem
perder, comunicar sem empobrecer-se,
transbordar sem esvaziar-se. Sua
liberdade é a liberdade da plenitude,
não a rigidez da carência protegida. O
Pai não ama o Filho como quem busca
completar-se nele. Ama-o como a
eternidade ama sua própria perfeição em
forma filial.
O filho não responde ao pai como quem
procura um lugar onde finalmente
repousar.
Responde como resplendor perfeito da
glória paterna em alegria, obediência e
amor sem início. O Espírito Santo não é
mero elo impessoal entre os dois. É Deus
vivo e santo, procedendo em glória,
plenitude e deleite. Tudo em Deus é
vivo. O Pai vive, o Filho vive, o
Espírito vive. Tudo em Deus é pessoal. O
pai conhece, o Filho conhece, o espírito
conhece.
Tudo em Deus é amoroso. O pai ama, o
filho ama. O espírito não apenas
participa dessa comunhão, mas é
plenamente Deus na realidade gloriosa
dessa vida compartilhada.
Tudo em Deus é alegria. Não alegria
superficial, não leveza sentimental, não
felicidade de superfície, mas a alegria
santa de ser absolutamente pleno.
Alegria sem rival da perfeição que se
conhece inteiramente, alegria de uma
comunhão em que nada falta, nada se
perde, nada ameaça, nada empobrece, nada
corrompe.
E aqui talvez esteja uma das grandes
correções que a doutrina da trindade
traz à imaginação religiosa do homem.
Porque muita religião fala de Deus como
se o centro de sua identidade fosse
somente poder ou somente vontade ou
somente domínio, ou somente
transcendência
ou somente santidade concebida como
distância. Tudo isso, em certo sentido,
toca aspectos verdadeiros. Mas nenhum
deles isoladamente diz o suficiente.
O centro vivo da realidade, segundo a
revelação cristã, não é o poder nu, é a
plenitude trinitária. Não é a força sem
rosto, mas o Pai, o Filho e o Espírito
Santo. Não é a solidão majestosa, mas a
comunhão infinita.
Não o silêncio absoluto, mas a palavra
eterna. Não há aridez de uma unidade
abstrata, mas a fecundidade luminosa da
vida de Deus. Não o frio de uma
perfeição isolada, mas o fogo de um amor
que nunca
começou. É por isso que a trindade não
pode ser tratada como um problema
matemático da teologia. O erro começa
precisamente quando se pensa que a
questão principal é como pode Deus ser
três em um? Essa pergunta é legítima,
claro, mas tomada sozinha, ela já é
estreita demais. A questão mais funda
não é aritmética, é vital. O que está
sendo revelado não é uma curiosidade
numérica da essência divina. É o fato de
que o próprio ser de Deus é comunhão
viva, perfeita e eterna. é o fato de que
na raiz de todas as coisas não há
esterilidade, mas fecundidade. Não há
mutismo, mas autoexpressão.
Não há indiferença, mas amor, não há
estagnação, mas vida. A realidade em seu
nível mais alto não é impessoal, é
trinitária. Isso muda tudo. Muda a forma
como pensamos a criação. Porque então o
mundo não nasce da falta, mas do
transbordamento.
Muda a forma como pensamos o amor,
porque então o amor não é solução tardia
para a solidão das criaturas, mas
reflexo criado da eterna felicidade de
Deus. Muda a forma como pensamos a
glória. Porque então a glória não é
brilho sem relação, mas plenitude de
conhecimento, amor e deleite em Deus
mesmo. Muda a forma como pensamos a
salvação. Porque então ser salvo não é
apenas ser poupado da culpa, mas ser
conduzido para perto da vida mesma de
Deus.
Muda a forma como pensamos a alegria,
porque então a alegria não é um acidente
emocional da existência,
mas uma nota criada que participa de
longe da música eterna da comunhão
trina.
Muda até a forma como pensamos o próprio
ser. Porque então o universo não saiu do
ventre de uma abstração, mas das mãos do
Deus vivo. Há uma frase que poderia
resumir toda a força
até aqui. A vida é mais antiga do que o
mundo e o universo.
Mas não a vida biológica, não o pulso
dos organismos, não o fôlego das
criaturas. A vida de que falamos é
infinitamente anterior, mas funda e mais
real. É a vida do Pai no Filho pelo
Espírito. É a vida divina. É o fugor da
eternidade em comunhão. É o fato de que
antes de todas as coisas já havia
movimento sem instabilidade, deleite sem
necessidade, conhecimento sem
descoberta, amor sem carência, glória
sem testemunhas criadas.
Quando o homem perde isso, tudo em sua
fé se torna menor. Deus vira tese, a
adoração vira dever, a santidade vira
peso, a glória vira slogam. A salvação
vira mecanismo, a igreja vira estrutura,
a piedade vira disciplina seca, a
eternidade vira continuidade sem
fascínio. Mas quando a alma começa a
perceber que Deus nunca esteve só, algo
aquece. Porque então a eternidade deixa
de parecer vazio, interminável e passa a
parecer plenitude viva.
A glória deixa de ser apenas claridade
ofuscante e passa a ter calor, relação,
beleza, intimidade santa. A própria
ideia de comunhão deixa de ser uma
necessidade inferior das criaturas e
passa a ser vestígio da mais alta
realidade. Talvez.
Por isso a doutrina da trindade, quando
de fato entra no coração, não resfria a
fé, incendeia. Ela incendeia porque
mostra que no centro do universo não há
mecanismo, mas amor. Não há abstração,
mas comunhão. Não há monotonia, mas
plenitude. Não há carência, mas
felicidade. Não há um Deus à espera de
ser completado, mas o Deus bendito que
em si mesmo já é eternamente suficiente.
E aqui o pensamento deve curvar-se em
reverência, porque ainda estamos apenas
olhando de longe. Ainda não falamos do
filho como imagem perfeita do pai. Ainda
não falamos do espírito como sopro santo
do deleite divino.
Ainda não falamos da habitação mútua das
pessoas divinas. Ainda não falamos da
glória como plenitude trinitária.
Ainda não falamos do assombro maior de
todos. que esse Deus que nunca esteve só
decidiu não permanecer sozinho em
relação à criação, mas abrir espaço por
pura graça para que criaturas
participassem de sua alegria.
Mas tudo isso depende deste fundamento.
Deus nunca esteve só. Nunca houve um
antes da comunhão em Deus. Nunca houve
um antes do amor em Deus. Nunca houve um
antes da glória em Deus. Nunca houve um
antes da alegria em Deus. O Pai sempre
amou o filho. O filho sempre esteve
voltado para o Pai. O espírito sempre
procedeu em plenitude santa.
Sempre houve em Deus vida, sempre houve
em Deus beleza, sempre houve em Deus
deleite, sempre houve em Deus comunhão.
E porque sempre houve em Deus essa
plenitude, toda a realidade criada é no
máximo um eco distante dela. E toda a
esperança da redenção será no fim sermos
levados não a um prêmio externo, não a
uma neutralidade sem dor, não a um
repouso impessoal, mas a participação
nessa vida que nunca começou, porque
sempre foi.
Se Deus nunca esteve só, então jamais
esteve sem conhecimento de si. E se
jamais esteve sem conhecimento de si,
jamais esteve sem amor de si.
E se jamais esteve sem amor de si,
jamais esteve sem alegria de si. Essa
sequência importa. Importa porque a vida
trinitária não é uma confusão nebulosa
de grandezas abstratas. Não é apenas uma
forma elevada de dizer que Deus é
misterioso. É sim mistério, mas o
mistério luminoso, vivo, fecundo, cheio
de direção interna, plenitude consciente
e glória pessoal.
O Deus das Escrituras não é apenas
aquele que existe, é aquele que se
conhece perfeitamente, se expressa
perfeitamente e se ama perfeitamente. E
essa perfeição de vida não acontece de
maneira solitária, muda ou impessoal.
Ela acontece no Pai, no Filho e no
Espírito Santo. Talvez uma das maneiras
mais belas de começar a sentir isso seja
prestar atenção à maneira como a
Escritura fala do filho. Ela o chama de
imagem, de esplendor, de expressão
exata, de palavra, de sabedoria, de
resplendor da glória, da revelação do
pai, de aquele que estava com Deus e era
Deus.
Tudo isso aponta na mesma direção. O pai
jamais foi um Deus sem rosto para si
mesmo. Jamais. O pai não vive numa
interioridade opaca. Não existe como uma
profundidade sem expressão. Não é uma
fonte sem reflexo. Não é um ser
escondido até de si.
Desde toda a eternidade, o pai se
contempla perfeitamente no filho. Desde
toda a eternidade, a plenitude divina
está diante de si mesma, sem distorção,
sem sombra, sem intervalo, sem
deficiência, sem descompasso.
O filho não surge como um segundo
momento de Deus, como se o pai primeiro
existisse sozinho e depois encontrasse
um modo de se expressar. Não, o filho é
eterno. O filho é Deus de Deus. Luz de
luz, verdadeiro Deus de verdadeiro Deus.
Ele não é criatura, não é reflexo
criado, não é espelho fabricado no
tempo, é o esplendor eterno da glória do
Pai. Há uma grande diferença entre a
maneira como nós nos conhecemos e a
maneira como Deus se conhece. Nós nos
conhecemos mal aos pedaços, com
opacidade, com atrasos, com autoengano,
com contradições, com regiões obscuras
que nem nós mesmos compreendemos.
Nosso autoconhecimento é trabalhoso,
incerto, frequentemente doloroso. Exige
tempo, correção, confronto, crise,
memória, humilhação.
E mesmo quando chegamos a alguma
lucidez,
ela é parcial, vacilante, incompleta.
Mas em Deus não há nada disso. O pai
conhece a si mesmo perfeitamente. E esse
conhecimento não é uma abstração, não é
um conceito frio, não é uma ideia
desencarnada, é o filho. Aqui a mente
quase sempre hesita, porque estamos
acostumados a pensar em ideia como algo
menor do que a pessoa. Pensamos em
conhecimento como representação mental e
não como plenitude viva. Mas quando
falamos de Deus, tudo precisa ser dito
com mais reverência e cuidado. O filho
não é uma ideia no sentido diminuído,
frágil e conceitual em que nós temos
ideias. Ele é o conhecimento perfeito,
vivo, pessoal, eterno, subsistente,
glorioso do Pai por si mesmo.
É a autoexpressão infinita de Deus. É a
palavra que Deus sempre teve. É o verbo
que nunca começou. É a imagem que não
apenas mostra Deus, mas é Deus. É por
isso que quando Jesus anda entre os
homens, olha para Felipe e diz: "Quem me
vê vê o Pai". Não porque o Pai e o Filho
sejam a mesma pessoa. Não porque Jesus
seja apenas um modo temporário de
manifestação de Deus, mas porque tudo o
que o Pai é resplandece no Filho. O
Filho não é outro Deus ao lado do Pai,
nem um ser inferior que apenas aponta
para algo maior do que ele mesmo. Ele é
o esplendor da glória do Pai. Ele é a
expressão exata de seu ser. Ele é a
autoexpressão viva da divindade. Ver o
filho é ver o pai. Ouvir o filho é ouvir
a palavra eterna do pai. Contemplar o
filho é contemplar a beleza que o pai
contempla desde sempre. Isso lança uma
luz imensa sobre a eternidade. Porque
significa que o Pai nunca viveu sem esse
esplendor diante de si. Nunca houve um
antes da beleza do filho. Nunca houve um
antes da palavra. Nunca houve um antes
da sabedoria, nunca houve um antes da
autoexpressão divina. O filho é
eternamente o rosto de Deus voltado para
Deus. Essa frase não esgota nada, mas
talvez ajude a sentir alguma coisa. O
filho é o rosto eterno de Deus. A forma
perfeita da autoexpressão divina, a
beleza plenamente contemplada, o
resplendor sem começo, a nitidez eterna
do ser divino em sua própria luz.
Então, surge a outra pergunta. Se o Pai
contempla o Filho com perfeita clareza,
o que há entre eles? A resposta da
Escritura é clara e profunda. Amor,
deleite, prazer, gozo, comunhão santa.
Perfeita correspondência de afeto e
glória. O pai ama o filho, o filho ama o
pai. O filho vive da parte do pai. O pai
se comprazo. O filho faz sempre o que
agrada ao pai. O amor não entra depois
na relação deles. O amor já é a
atmosfera eterna da vida divina.
Mas mesmo essa linguagem ainda pode ser
ouvida de modo pobre se não avançarmos
mais um pouco. Porque podemos dizer o
pai ama o filho e imaginar algo ainda
muito humano, muito magro, muito
psicológico,
muito preso às nossas pequenas
experiências de afeto.
Podemos imaginar apenas uma relação
positiva entre duas pessoas divinas, mas
a escritura nos convida a mais,
convida-nos a perceber que esse amor não
é apenas um sentimento a mais dentro da
vida divina. É perfeição infinita, é
santa alegria, é regozijo absoluto, é
deleite sem sombra, é o pai encontrando
no filho toda a plenitude da sua própria
beleza resplandescente e amando-a com
amor infinito.
E então entramos no mistério do Espírito
Santo. Talvez
nenhuma pessoa divina tenha sido tão
frequentemente tratada de modo tão
reduzido por imaginações religiosas
superficiais.
O pai muitos conseguem conceber ainda
que mal. O filho, por sua encarnação,
morte e ressurreição, costuma ser mais
facilmente contemplado. Mas o Espírito
Santo muitas vezes é empurrado para a
margem da consciência cristã, tratado
quase como força, clima, energia,
efeito, poder impessoal ou mera
influência divina difusa.
Mas o Espírito Santo é Deus vivo,
pessoal, pleno, santo, eterno, infinito.
Não é um acréscimo funcional ao Deus que
já seria completo no Pai e no Filho. Não
é um apêndice tardio da revelação. Não é
a eletricidade da trindade, não é apenas
a mão de Deus em movimento, é o Espírito
Santo. E quando observamos atentamente
as linhas da Escritura, começamos a
perceber algo de grande beleza. Se o
filho é tantas vezes ligado à imagem, à
sabedoria, à palavra, ao reflexo
perfeito do Pai, o Espírito aparece
frequentemente no registro do amor, do
dom, da comunhão, da alegria, da paz, da
permanência, do derramamento, da unção,
da vivificação, do vínculo, da
participação. É por meio dele que o amor
de Deus é derramado em nossos corações.
É por ele que a presença de Deus é
conhecida. É nele que o Pai e o Filho
vem habitar em nós. É ele quem toma do
que é do Filho e nos anuncia.
É ele quem glorifica o filho. É ele quem
nos insere na comunhão viva de Deus.
Por isso, alguns dos maiores teólogos da
igreja ousaram dizer que assim como o
filho pode ser contemplado como a
autoexpressão perfeita de Deus, o
espírito pode ser contemplado como o
amor vivo, santo, pessoal, subsistente,
eterno entre o Pai e o Filho.
É preciso ouvir isso corretamente, não
como redução, não como definição
exaustiva, não como se o espírito fosse
menos pessoa por ser assim descrito,
mas exatamente o contrário, como
reconhecimento de que o amor em Deus é
tão infinito, tão real, tão vivo, tão
pleno, tão subsistente, que não é mera
qualidade flutuando entre duas pessoas,
mas é ele mesmo, pessoalmente Deus. Em
nós, amor é afeto criado. Em Deus, amor
é divino. Em nós, alegria é estado. Em
Deus alegria glória. Em nós, comunhão é
domário. Em Deus, comunhão é plenitude
eterna. Em nós, o vínculo de amor nunca
deixa de ser frágil. Em Deus, o amor é
tão forte, tão puro, tão inexaurível,
tão santo, tão perfeito, que procede
eternamente como o Espírito Santo. O Pai
contempla o Filho, o Filho resplandece
diante do Pai. O Pai ama o Filho
infinitamente. O Filho responde ao Pai
em perfeita correspondência. E o
Espírito Santo é em toda a sua glória
pessoal a vida desse amor, o sopro santo
desse deleite, a doçura infinita dessa
comunhão, o vínculo vivo dessa alegria
sem fim. Talvez
aqui a linguagem precisa deixar de ser
apenas explicativa e torne-se
contemplativa.
O pai nunca olhou para o filho sem
prazer. Nunca. Nunca houve um instante
em que o filho estivesse diante do pai
sem ser amado. Nunca houve um instante
em que o Espírito não fosse a santa
alegria dessa comunhão. Nunca houve em
Deus frieza, nunca houve distância,
nunca houve opacidade, nunca houve
tensão. Nunca houve silêncio hostil,
nunca houve reserva, nunca houve
retração, nunca houve falta de resposta,
nunca houve comunhão incompleta. Tudo em
Deus é luz correspondida. Tudo em Deus é
amor sem sombra. Tudo em Deus é
perfeição saboreada. Tudo em Deus é
beleza conhecida e amada.
Tudo em Deus é glória contemplada e
celebrada.
O Pai conhece o Filho perfeitamente. O
Filho conhece o Pai perfeitamente. O
espírito esquadrinha as profundezas de
Deus, não como quem investiga o
desconhecido, mas como aquele que é Deus
em plena posse dessa vida infinita. O
pai ama o filho, o filho ama o pai, o
espírito santo não está à margem desse
amor, mas é Deus no mistério glorioso
dessa comunhão. O pai se alegra no
filho, o filho se deleita em fazer a
vontade do pai. O espírito é o rio santo
desse deleite.
Então, começamos a compreender
porque a Bíblia pode usar imagens como
sopro, unção, óleo, água viva, rio,
derramamento, permanência, paz. Não
porque o espírito seja impessoal, mas
porque a linguagem humana precisa de
sinais para apontar para a
superabundância de sua vida. O espírito
não é menos pessoa por ser
frequentemente associado à comunicação
da vida divina. É precisamente porque é
pessoa que ele pode comunicar, unir,
consolar, glorificar, habitar e fazer
participar. Uma força impessoal não ama,
não consola, não ensina, não intercede,
não glorifica, não pode ser
entristecida. O espírito pode porque é
Deus pessoalmente presente.
Há aqui uma beleza que merece ser
guardada com reverência. Em Deus o
conhecimento não é frio e o amor não é
cego. Entre nós, muitas vezes essas
coisas se separam. Conhecimento pode
tornar-se duro, amor pode tornar-se
confuso. Clareza pode vir sem ternura,
afeto pode vir sem verdade. Intelecto
pode secar a beleza, emoção pode perder
a forma, mas em Deus não. O pai conhece
perfeitamente o filho. Esse conhecimento
é deleite. O pai ama perfeitamente o
filho. Esse amor é santo, claro, puro,
sábio. O filho é a verdade plena de
Deus. E essa verdade não é árida, porque
é amada. O espírito é a alegria viva da
comunhão divina. E essa alegria não é
turva, porque é santa e verdadeira. Em
Deus,
conhecimento, amor e alegria não se
anulam, coincidem
em plenitude, sem competição, sem
excesso de um que diminui o outro.
Talvez seja por isso que tanto da
miséria humana consiste em termos
perdida a unidade dessas coisas.
Conhecemos sem amar, amamos sem verdade,
buscamos alegria sem santidade,
procuramos comunhão sem luz, desejamos
intimidade sem pureza. E por causa
disso, tudo em nós se fragmenta. Mas em
Deus não há fragmentação.
A vida trinitária é a perfeita unidade
de tudo aquilo que em nós aparece
quebrado.
O filho é a perfeita autoexpressão da
verdade divina. O espírito é a perfeita
comunhão do amor divino. E tudo isso no
interior da vida una e indivisa de Deus.
É justamente isso que torna a trindade
tão mais do que um dado doutrinário.
Ela é a explicação mais alta para a
possibilidade de beleza no universo. Se
em Deus não houvesse esplendor, a beleza
seria um acidente.
Se em Deus não houvesse amor, a comunhão
seria um improviso.
Se em Deus não houvesse alegria, o
deleite seria um fenômeno inferior.
Se em Deus não houvesse autoexpressão
perfeita, a palavra seria apenas
ferramenta. Mas porque o filho é o
esplendor eterno do pai, a beleza tem
origem. Porque o espírito é a comunhão
viva do amor divino. A alegria tem
origem. Porque tudo isso é eterno em
Deus. As criaturas podem carregar
traços, reflexos e ecos dessa glória.
Toda a verdadeira beleza criada vem de
algum modo do filho. Toda a verdadeira
comunhão criada vem de algum modo do
espírito. Todo verdadeiro conhecimento
que culmina em adoração vem do pai. que
se dá a conhecer no filho pelo espírito.
Isso também lança nova luz sobre a nossa
salvação, ainda que só mais adiante a
contemplemos em cheio. Porque ser salvo
não é apenas ser retirado do juízo, é
ser levado para perto dessa luz. É ser
introduzido no conhecimento de Deus, no
amor de Deus, na alegria de Deus.
é ser arrancado da mentira, da dureza e
da morte para começar a participar como
criatura redimida daquilo que sempre
existiu em Deus sem nós.
Mas antes de corrermos paraa
participação, ainda precisamos
contemplar o que é participado. O filho
é o esplendor do pai. O espírito é o
amor vivo da comunhão divina. O filho é
a imagem perfeita. O espírito é o sopro
santo do deleite eterno. O filho é a
palavra. O espírito é a unção. O filho é
a forma eterna da autoexpressão de Deus.
O espírito é a glória viva do seu amor
comunicativo.
E tudo isso sem divisão de essência, sem
hierarquia de divindade, sem qualquer
resto de Deus que estivesse num e não no
outro. Não estamos falando de partes de
Deus, não estamos falando de repartições
da divindade, estamos falando do único
Deus pleno, simples, infinito, vivendo
eternamente como o Pai, Filho e Espírito
Santo. O Pai não é mais Deus do que o
Filho. O Filho não é mais Deus do que o
espírito. O espírito não é menos Deus do
que o pai. Cada pessoa é plenamente
Deus, mas cada pessoa o é em distinção
pessoal real, gloriosa e irreduzível.
E no entanto, toda vez que começamos a
tocar essas coisas, logo sentimos que
toda analogia ameaça em empobrecer o que
tenta mostrar. Dizemos imagem e logo
parece pouco. Dizemos palavra e logo
parece pequeno. Dizemos amor e logo
parece humano demais. Dizemos sopro e
logo parece impessoal demais. Dizemos
deleite e logo parece sentimental.
Dizemos
esplendor e logo parece apenas visual.
Toda palavra ajuda, nenhuma contém. Toda
imagem aponta, nenhuma encerra. Toda
tentativa de dizer a glória trinitária é
ao mesmo tempo necessária e inadequada.
Mas talvez essa inadequação não seja
defeito da doutrina, seja parte da sua
beleza. Porque Deus não nos foi dado
para ser reduzido a esquema, foi nos
dado para ser adorado.
E assim seguimos tatiando com palavras
reverentes em volta de um mistério vivo.
O pai contempla eternamente o filho, sua
imagem perfeita, sua palavra, seu
esplendor, sua sabedoria. E dessa
contemplação santa, dessa comunhão
infinita, dessa plenitude de amor e
regozijo, procede eternamente o Espírito
Santo, não como efeito impessoal, mas
como Deus em toda a riqueza pessoal do
amor divino. O Pai conhece, o Filho
resplandece, o espírito une em glória. O
pai fala, o filho é a palavra, o
espírito é o sopro vivo dessa plenitude.
O pai ama o filho. O filho repousa no
amor do pai. O espírito é o rio santo
desse deleite eterno. E no centro de
todas as coisas, antes de todas as
coisas, acima de todas as coisas, há
essa vida clara, plena, feliz, santa,
eterna, infinita, trinitária.
Eu gostaria de falar agora sobre o
mistério que nenhuma analogia contém.
Mas eu acho que já temos muito o que
meditar e seria importante agora ficar
em silêncio, meditar e adorar esse Deus
trino, pai, filho e espírito santo. E
numa próxima vez continuaremos
exatamente a partir de onde paramos.
Amém, queridos.
Amém.
Santo Deus, eu me aproximo sem defesa,
sem razão.
Tu me vês nos detalhes, no segredo do
coração,
nos pequenos pensamentos,
nas palavras que eu soltei.
Teu espírito me chama,
confessa.
E eu confessei,
não escondo minha culpa,
não maquio minha dor.
Contra ti eu pequei
contra o teu santo amor.
Mas que atos minha raiz,
um querer desalinhado.
Eu preciso de limpeza. Eu preciso ser
lavado.
Cordeiro, minha justiça,
fim do meu tribunal.
Eu largo a autojustiça,
me rendo ao teu final.
Jesus
tem misericórdia.
Jesus,
vem me purificar.
Teu sangue fala mais alto que o meu
pecado a gritar.
Minha única defesa
é a cruz, é o teu favor. Eu adoro a tua
graça.
Eu descanso no teu amor.
>> Tua misericórdia
é melhor.
Tua misericórdia
é meu lar.
>> Rei dos reis, eu me prostro.
Tu és luz e eu sou pó.
Quando eu tento ser dono, eu não terco
em mim só.
Autonomia é mentira,
autossuficiência
também.
Tu és fonte, tu és vida.
Sem ti nada me sustém.
Eu
não venho com rico,
venho com mãos sem ter. Não confio no
meu choro, nem no meu
vencer. Eu confio na firmeza do teu
pacto, ó Senhor.
Tua aliança é selada no cordeiro
redentor.
Restaura minha alegria,
tua salvação em mim.
Sustenta-me com espírito
pronto até o fim.
Jesus
tem misericórdia.
Jesus
vem me purificar.
Teu sangue fula mais alto que o meu
pecado a gritar.
Minha única desa.

Tags: